"Revolução e contrarrevolução em Portugal (1974-1975)", de Armando Cerqueira, ed.Parsifal é um livro apaixonado que contem testemunhos muito interessantes daqueles dois anos , uns apenas testemunhos mas outros documentos e factos.
http://www.parsifal.pt/
A paixão com que o autor descreve alguns factos não retira o interesse histórico, até porque a propaganda oficial tem sistematicamente apresentado outras versões - a história é sempre escrita pelos vencedores...
Mas também na análise histórica é preciosa a diversidade, se não para entender a verdade, que ela é tantas vezes difusa, indeterminista ou polifacetada, pelo menos para ouvir todos os lados.
Citação do livro, transcrevendo um documento do PCP sobre a intervenção de Álvaro Cunhal na reunião plenária do comité central de agosto de 1975 (verão quente, período que antecedeu o 25 de novembro): "O sectarismo conduz a reservas, desconfianças e recriminações entre forças políticas que poderiam e deviam cooperar estreitamente ... em toda a parte os militantes comunistas têm indicação expressa de procurar contactar e estabelecer formas de cooperação com membros de partidos revolucionários, com membros do PS e de outras formações".
Não admira portanto a reunião nas vésperas do 25 de novembro entre Álvaro Cunhal e Melo Antunes, relatada por testemunhos de origens diferentes, da qual sairam amigos, e o apelo subsequente de Melo Antunes à aceitação do PCP na vida democrática.
Transcrevo também, ao mesmo tempo que recordo um documentário televisivo de André Nekrasov, "Adieu, camarades" (investigação histórica pela filha de um militante do partido comunista soviético do seu passado - "aprendi que por mais nobre que seja um ideal, não deveremos nunca impô-lo pela força":
http://www.arte.tv/fr/adieu-camarades-1975-1991/4314104.html ),
o excerto na badana do livro:
"Ao anoitecer de 25 de novembro de 1975, vários militantes de base do Partido Comunista Português, bancários de profissão, seguindo ordens do seu partido, encontravam-se reunidos no centro de trabalho na rua dos Fanqueiros, em Lisboa. Tinham-nos instruido para aguardarem ordens... Acreditavam ingenuamente que o socialismo estava próximo, quase lho tinham prometido militares progressistas e políticos de esquerda, que a realização do multissecular sonho acalentado era possível. Com sacrifício, abnegação e coragem, estaria ao seu alcance a passagem à sociedade do futuro, socialista, da justiça social, da cultura e da sabedoria, da paz e do bem-estar, do fim da opressão e da exploração ... Já a noite caíra quando a ordem veio. Tombou súbita e brutal, provocando espanto e desespero, cremos, em cada um: "As ordens do partido são que cada um regresse a casa. Fiquem lá e não saiam"."
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terça-feira, 24 de novembro de 2015
De Armando Cerqueira, "Revolução e contrarrevolução(1974-1975)"
Publicada por
Fernando de Carvalho Santos e Silva
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22:59
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segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Elementos para a história recente
O DN de domingo dia 21 de Novembro de 2010 tem duas entrevistas que me parecem importantes para os historiadores do período recente.
Numa das entrevistas, Jacinto Nunes recorda 1960, ano de adesão ao FMI: sistema financeiro sólido e economia anémica, bancos pouco hipotecados mas com grandes lucros, nivel de vida baixo, industrialização a arrancar, rendimento médio 60% da média europeia. Sobre 2009: o grande erro foi alterar as taxas de juro dos certificados de aforro; centenas de milhões de euros fugiram; "uma parvoíce, porque substituiram divida interna, que não exerce pressão sobre os governos, por divida externa".
E eu, que ignorante, sempre achei o mesmo, fico a recordar um jovem economista do governo, muito convencido, a dizer que o que era bom era acabar com os certificados de aforro. E deram-lhe poder para isso, e a democracia portuguesa não teve meios de se defender desse jovem econmista, de que nem sei o nome, mas lembro-me bem de ter sido entrevistado no DN a defender os disparates que o deixaram fazer.
Mas há sempre um senior que vem explicar as coisas, sintetizando: se Portugal "não tem juízo, o FMI vai acabar por intervir com mão de ferro, depois de ter entrado na casa e na carteira dos gregos".
Um perigo, deixar os seniores falar, quando tanto se incensa a inovação (talvez devamos antes ser shakespeareanos: "se a velhice pudesse e a juventude soubesse...").
Na segunda entrevista, Otelo Saraiva de Carvalho declara-se "a leste" da ação do 25 de Novembro de 1975 e invoca conversas com Melo Antunes para dizer que:
- Melo Antunes se encontrou uma semana antes do 25 deNovembro com Alvaro Cunhal para que o PC não interviesse, porque o grupo dos nove pretendia acabar com a esquerda revolucionária, o que ficou acordado; efetivamente, o partido de Cunhal saiu bruscamente da "frente revolucionária" e Melo Antunes honrou o compromisso depois do seu triunfo;
- Melo Antunes foi "repreendido", como ministro dos negócios estrangeiros, em Maio de 1975, em Munique, por Gerald Ford e Henry Kiessinger, que lhe disseram que os USA e a Europa fariam um bloqueio económico total se Portugal evoluisse segundo uma revolução socialista com o PC no poder; efetivamente, houve na altura dificuldade em arranjar peças; lembro-me que não se vendiam cabos de embraiagem para vauxalls, e que a General Electric deixou de bobinar motores eléctricos para a Carris e o Metro, por falta de material importado.
Mas seria muito interessante se os historiadores pudessem confirmar isto, quanto mais não fosse para corrigr as versões um pouco romanceadas , "fulanizadas", parciais e subjetivas, que foram adotadas pelos discursos oficiais.
Numa das entrevistas, Jacinto Nunes recorda 1960, ano de adesão ao FMI: sistema financeiro sólido e economia anémica, bancos pouco hipotecados mas com grandes lucros, nivel de vida baixo, industrialização a arrancar, rendimento médio 60% da média europeia. Sobre 2009: o grande erro foi alterar as taxas de juro dos certificados de aforro; centenas de milhões de euros fugiram; "uma parvoíce, porque substituiram divida interna, que não exerce pressão sobre os governos, por divida externa".
E eu, que ignorante, sempre achei o mesmo, fico a recordar um jovem economista do governo, muito convencido, a dizer que o que era bom era acabar com os certificados de aforro. E deram-lhe poder para isso, e a democracia portuguesa não teve meios de se defender desse jovem econmista, de que nem sei o nome, mas lembro-me bem de ter sido entrevistado no DN a defender os disparates que o deixaram fazer.
Mas há sempre um senior que vem explicar as coisas, sintetizando: se Portugal "não tem juízo, o FMI vai acabar por intervir com mão de ferro, depois de ter entrado na casa e na carteira dos gregos".
Um perigo, deixar os seniores falar, quando tanto se incensa a inovação (talvez devamos antes ser shakespeareanos: "se a velhice pudesse e a juventude soubesse...").
Na segunda entrevista, Otelo Saraiva de Carvalho declara-se "a leste" da ação do 25 de Novembro de 1975 e invoca conversas com Melo Antunes para dizer que:
- Melo Antunes se encontrou uma semana antes do 25 deNovembro com Alvaro Cunhal para que o PC não interviesse, porque o grupo dos nove pretendia acabar com a esquerda revolucionária, o que ficou acordado; efetivamente, o partido de Cunhal saiu bruscamente da "frente revolucionária" e Melo Antunes honrou o compromisso depois do seu triunfo;
- Melo Antunes foi "repreendido", como ministro dos negócios estrangeiros, em Maio de 1975, em Munique, por Gerald Ford e Henry Kiessinger, que lhe disseram que os USA e a Europa fariam um bloqueio económico total se Portugal evoluisse segundo uma revolução socialista com o PC no poder; efetivamente, houve na altura dificuldade em arranjar peças; lembro-me que não se vendiam cabos de embraiagem para vauxalls, e que a General Electric deixou de bobinar motores eléctricos para a Carris e o Metro, por falta de material importado.
Mas seria muito interessante se os historiadores pudessem confirmar isto, quanto mais não fosse para corrigr as versões um pouco romanceadas , "fulanizadas", parciais e subjetivas, que foram adotadas pelos discursos oficiais.
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Fernando de Carvalho Santos e Silva
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00:25
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