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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Da Oxfam a Davos

O relatório da Oxfam de 2014 é claro: a diferença entre os ricos e os pobres aumenta a uma velocidade excessiva.
80 pessoas detêm a mesma riqueza de outras 3500 milhões de pessoas.
Vendo de outra forma, 1% da população, os mais ricos, cerca de 70 milhões de pessoas, têm 48% da riqueza mundial, isto é, quase metade desta.
Analisando a evolução dos ultimos 3 anos, tem-se para o numero de pessoas com a riqueza de metade da população mundial:
2009.............. 388
2013..............   85
2014..............   80
E para a percentagem de riqueza mundial detida pelos 1% mais ricos:
2009.............  44%
2014.............  48%
Os dados indicam portanto que a desigualdade aumenta.
Dirão os adeptos das ideias de Haiek, Friedman, Thatcher e Reagan,  do pensamento dominante dos decisores da união europeia, que possivelmente se estará numa parte descendente de uma curva sinusoidal, e que a desigualdade diminuirá mesmo que não se faça nada.
Tambem poderão dizer, como reação às medidas de quantitative easing de Mario Draghi, em janeiro de 2015 (BCE e bancos centrais nacionais podem comprar no mercado secundário dívida pública) que continuam por realizar reformas estruturais (penso que o que querem dizer é a contínua desvalorização do fator trabalho para o fator capital poder crescer), e que  enquanto elas não se realizarem as medidas de austeridade não darão efeito.
É uma espécie de retórica escolástica, encontrar sempre uma desculpa quando os dados dizem o contrário. Prometer a quem trabalha (os falhados, como dizia Thatcher, incapazes de criar os próprios negócios)  reduzir os seus rendimentos para que o custo de vida baixe e assim haver crescimento (como, se só há crescimento se houver investimento e só há investimento se houver remuneração do capital investido?) .
Neste blogue já se contou a história do simpático contramestre da manutenção das máquinas de bilhetes do metropolitano de Lisboa que, há muitos anos, dizia em todas as conversas que o que o metropolitano precisava era de uma reestruturação.
Qualquer coisa que iluda as pessoas e que nunca se atinja.
Ou que, quando se atingir, volte a ser preciso outra reestruturação.
O aumento da desigualdade reflete um fenómeno físico num sistema abandonado a si próprio, sem correção das forças dominantes. Os elementos de maior rendimento de funcionamento, precisamente por isso, tendem a aumentar a distancia dos elementos de menor rendimento. É a lei de Fermat-Weber.
Os dados mostram isso. É o que está registado no livro O espírito da igualdade, de R,Wilkinson e K.Pickett, ed.Presença, e recentemente, com mais impacto mediático, O capital no século XXI, de Thomas Piketty, ed.Temas e Debates, com a evidencia de que a desigualdade aumenta porque o rendimento dos elementos financeiros, o crescimento do capital, é superior ao rendimento do sistema produtivo de bens úteis, ao crescimento do PIB.
Mas não era preciso a evidencia cientifica do tratamento dos dados.
Vê-se, a desigualdade, basta ver as dificuldades de quem está desempregado e a quantidade de matrículas novas de Mercedes, Audi e BMW. Basta ver a obscenidade dos anuncios na televisão de automóveis de 40.000 euros ou mais, logo a seguir a programas em que os comentadores repetem que não há dinheiro porque os portugueses viveram acima das suas possibilidades.

Por tudo isto, não tenho a mínima confiança nos senhores economistas que nos governaram e governam e que nos conduziram aqui. A esta desigualdade crescente, depois de durante anos e anos (muito antes da crise de 2008), nos mentirem a todos garantindo que as desigualdades diminuiam.
Mentiram, e não foi por causa da crise de 2008 que as desigualdades cresceram.
Nem são suficientes as medidas de Mario Draghi, que nem sequer igualam o poder de intervenção da reserva federal americana.
Não é de reformas estruturais que a Europa e os paises endividados precisam. Já dizia Chandler, "structure follows strategie". E a estratégia tem de ser o cumprimento da declaração universal dos direitos humanos,  centrada no emprego e na dignidade da vida.
Não nos negócios dos mercados primários e secundários dos bancos, nas decisões de assembleias de acionistas que não respeitam o princípio uma voz um voto, no sigilo bancário e respetivos off-shores... nos mecanismos formais de democracias que permitem governantes como os que temos.

PS em 28 de janeiro - Um pequeno esclarecimento referente à lei de Fermat-Weber. Quando digo que o sitema está abandonado a si prórpio não quero dizer que ele está isolado de influências externas. Se estivesse isolado a lei da entropia máxima conduziria a um estado caótico em que a distribuição seria mais ou menos uniforme. Refiro-me antes a um sistema em que se permite que os elementos dominantes possam introduzir no sistema forças que os mais fracos não têm, agravando progressivamente as desigualdades. Por alguma razão os excedentes comerciais da Alemanha igualam os defices comerciais dos paises do sul da Europa.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Discurso de Roosevelt em 1933, respostas sobranceiras da senhora ministra no Parlamento em 4 de setembro de 2014 e o sorriso de Draghi no mesmo dia

"... os nossos problemas não são devidos a uma falha em substancia. Não fomos afetados por nenhuma praga de gafanhotos...temos bastantes recursos à nossa porta, mas a generosa utilização desses recursos enfraquece perante a oferta..."  - discurso de Roosevelt em 1933, no inicio da resposta Keynesiana à depressão, tão bem ilustrada nas Vinhas da Ira ("porque não tem o Estado mais quintas destas?").
Lembrei-me desta citação ao ouvir a sobranceria da senhor ministra das finanças no Parlamento repetindo que não houve espiral recessiva. Na verdade não houve uma espiral recessiva de equação do tipo da espiral de Euler, mas entristece ver uma professora de finanças ignorar que uma depressão se carateriza por um PIB mesmo crescente mas dentro da faixa de erro das medições, pelo elevado desemprego (não ignorem a emigração, os desistentes das inscrições nos centros de emprego e os sucedâneos coo os estágios de formação) e pela subutilização da capacidade produtiva. Ainda por cima, congratula-se com o aumento das exportações e logo a seguir reconhece o maior aumento dasimportações. Isto é, se utilizasse o conceito das exportações líquidas negativas mostraria claramente o falhanço das suas politicas e a ignorancia dos fenómenos fisicos na economia. Oitavo retificativo, depois de estimar a receita por baixo e a despesa por cima, culpando  o tribunal constitucional.  E não precisa de se comparar com o anterior governo (igualmente criticado neste blogue por não compreender que as exportações liquidas não podem ser negativas)  nem mostrar fé nas próximas eleições. Marcelo Caetano realizou eleições livres em 1969 e ganhou-as. Nem queira comparar as taxas de juro de 11% de 2011  com as de 3,5% de 2014.
A menos que me deixe fazer outra comparação. Em 1933 não houve nenhuma praga de gafanhotos, mas agora houve. São os prosélitos de Friedman, Hayek e Halberger que se espalharam como gafanhotos pelos centros de decisão financeiros, pelos governos, pelos Goldman Sachs, pelas faculdades de economia, e que ganham eleições como Marcelo Caetano.
E que recusam as propostas de  união bancária e fiscal que não prejudiquem as economias periféricas (talvez entendessem o que escrevo se estudassem a lei de Fermat-Weber, que em qualquer sistema fisico entregue a si próprio os elementos dominantes tendem a tornar-se mais dominantes).
Aqui entra o sorriso de Draghi. É que não percebo se ele tem consciencia do que está a fazer. Pelo menos já reconheceu que estamos em deflação e isso não é bom. Desvaloriza o trabalho e a propriedade. Inibe os investidores porque ninguem vai montar uma fábrica para vender os produtos abaixo do custo de produção. Mas por outro lado baixa as taxas de juro. 0,05% para os bancos mas eles emprestam-me a 20%?! Acreditará que para um valor tão baixo ela pode ter o efeito de subir os preços? Não acreditará nas zonas de efeitos diferentes da lei dos rendimentos decrescentes ou, para irmos à fisica, nos gráficos com histerese ou memória não lineares? Mas se quer subir os preços porque não emite simplesmente moeda, em vez de "comprar ativos aos bancos"? Ou talvez queira silenciosamente desvalorizar o euro face ao dolar com o abaixamento das taxas de juro. Mas então porque não desvaloriza simplesmente? As economias periféricas agradeciam... as populações, claro, que os governadores, essa casta superior, não eleita, pensará doutro modo (ou não pode dizer que tambem pensa assim, para não perder os seus beneficios). Baixaria o investimento estrangeiro (que interessava se existe superavit neste momento na UE?), mas aumentavam as exportações, de toda a UE não era? Ah, os USA, a China e o Japão torceriam o nariz, será? Então porque não investem mais nas economias periféricas se naõ querem que o euro desvalorize?
It's capitalism...

PS - queria dizer espiral logarítmica equiangular de Bernoulli, não Euler