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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Dilos, Grécia, no ano 2791 da era das olimpíadas







Epístola aos atenienses no verão do ano 2791 da era das olimpíadas

Saúde para Telémaco, Niarcos, Larissa, Diogenes, Sofia, Alexandre, Ifigénia e todos os amigos.
Escrevo-vos da montanha sagrada de Dilos, contemplo Mikonos, não muito longe, e o pequeno porto de Dilos, enquanto vou imaginando que os antepassados escolheram esta ilha para sede da confederação porque a baía era abrigada do vento norte, apesar da proximidade do rochedo que a separa de Rinia.
A rapidez com que os barcos entrariam no porto, e depois saíam para sul, ao longo do canal estreito, quase sempre com vento forte…
Não existia ainda a alameda dos leões quando os atenienses vieram cá buscar o tesouro.
Que era necessário centralizar a gestão da união, que em Atenas ficava melhor, preparando a defesa contra os persas.
Romperam assim a confederação.
Teriam os dirigentes da democracia nascente ponderado bem o risco da guerra do Peloponeso que se seguiu? Comprometendo a própria democracia submetida à aristocracia segregacionista de Esparta?
Julgar-se-iam superiores aos habitantes das pequenas ilhas? Detentores da sabedoria, da riqueza mercantil e da cultura suméria com os seus juros compostos?
 Orgulhosos porque Atenas tinha 320 mil habitantes, dos quais 150 mil escravos, 90 mil mulheres e crianças e apenas 80 mil cidadãos com direito de voto. Um eleitor por cada quatro habitantes.
Escrevo-vos esta carta também porque neste desgraçado ano o tesouro não está em Atenas.  E quem o guarda, lá onde a Europa se reclina sobre a sua riqueza, parece não ligar muita importância à necessidade de que esse indicador, o número de cidadãos de pleno direito a dividir pelo número total de habitantes, se aproxime o mais possível da unidade. Querem que sejam bem menores os rendimentos daqueles que produzem ou, já velhos, produziram, do que os dos evoluídos decisores e seus colaboradores privilegiados.
Com superioridade dizem: têm de fazer sacrifícios, têm de aceitar o que vos propomos. Têm de reduzir os vossos rendimentos que são superiores aos de outros povos que também fizeram os sacrifícios.
Esquecem esses evoluidos e superiores decisores que esses povos foram vergonhosamente condicionados para isso e que deveriam também ser ajudados a produzir com reconhecimento do justo valor da sua produção, e não a pagar dívidas com mais dívida.
Esquecem, certamente por distração, não por ignorancia simples, que o próprio tratado que regula a sua confederação prevê auxílios comunitários a ilhas (a da Martinica, a da Reunião, por exemplo, colónias francesas em pleno ano 2791...).
No momento em que vos escrevo ninguém sabe qual vai ser o resultado do referendo.
Mecanismo democrático de que os evoluídos decisores têm receio.
Nem eu sei nem devo dizer-vos como será melhor responderem.
Aceitar a submissão temporária e com raiva surda, a pouco e pouco, repor a primazia da declaração universal dos direitos humanos?
Ou não aceitar e assumir já a diferença em relação a esses presumidos decisores, fechando-vos numa economia de moeda paralela ? (a pressa com que o banco central austríaco, há 82 anos, proibiu a moeda de Worgl, com a mesma sanha com que o imperador Teodósio proibiu os jogos olímpicos…) reconstituindo os laços com os sucessores do principado de Vladimir? Retomando a rota da seda e fazendo as pazes com os netos e bisnetos do antigo opressor otomano e do ainda mais antigo inimigo das Termópilas?

Vou esperar aqui em Dilos, no centro da confederação helénica, a vossa decisão.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Goldman Sachs no Youtube e a Grécia


Enquanto serviço público ainda ativo, a RTP2 retransmitiu o programa  Goldman Sachs, o banco que dirige o mundo:

É possível que o governo não goste, por o documentário mostrar a preocupação do Goldman Sachs ter antigos funcionários nos centros de poder político nos USA e na Europa.
Em Portugal, nomes como António Borges ou Carlos Moedas são conhecidos como tendo tido ligações com o Goldman Sachs.

É interessante, como mostra o documentário, as entidades financeiras como o Goldman Sachs que especularam graças à desregulação fundamentalista praticada pelo governo dos USA, terem rapidamente ultrapassado a crise e escapado às acusações do congresso e do governo de Obama.
Como escreveu Sofia de Melo Breyner na tragédia Os Gracos, os ricos nunca perdem a partida.

De destacar, ao minuto 43, a explicação simples como o Goldman Sachs ajudou o governo grego no principio dos anos 2000 a reduzir artificialmente a divida publica em 3 mil milhões de euros.
Trocou com o governo grego dólares por euros, à taxa de cambio fictícia de 2 dólares por cada euro, e por fora, confidencialmente,  transformou a diferença entre a taxa de cambio real e a fictícia num empréstimo a pagar até 2037, ao  ritmo de 400 milhões de euros por ano.
Como dizia o evangelho, os filhos das trevas são de facto mais inteligentes, até porque não existia, à época, legislação que condenasse esta prática (lá está, os ricos ficam sempre a ganhar).

Mas assim já se percebe melhor a intervenção do Goldman Sachs, a aniquilar com eficiência a capacidade dos governos de salvaguardarem as funções sociais, a deixar para as grandes empresas a condução da economia, baseada sempre em baixos custos do trabalho.

O povo português, quando votou no partido maioritário, não sabia quem eram os especialistas do Goldman Sachs e que eles iriam definir a estratégia do novo governo.
Falharam os mecanismos de defesa da democracia contra estes atacantes.
Prevaleceu a proteção aos bancos e grupos financeiros.
Vale que ainda podemos exprimir a nossa opinião.


segunda-feira, 7 de maio de 2012





Arvo Part, compositor estonio contemporaneo; ver: 
http://en.wikipedia.org/wiki/Arvo_P%C3%A4rt
Dedicado principalmente a musica sacra, segundo um estilo místico minimalista, perdoe-se a rotulagem imperfeita.
Já falado neste blogue em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2011/12/arvo-part-compositor-estonio-e-o-seu.html
A musica, como diz Eduardo Lourenço, é pela sua abstração a mais elevada das criações humanas, e  também aquilo que nos une, independentemente do que cada um possa pensar.

Eu compreendo que as pessoas se afastem deste tipo de musica.
Que achem aborrecida.
Mas a mim faz-me lembrar a extraordinária musica grega ortodoxa que ouvi numa igreja de Atenas.
E por associação de ideias imagino que esta musica podia unir os gregos, não sob a tirania religiosa, mas como o encontro da contribuição dos partidos e dos cidadãos e cidadãs, de forma ativa e alargada,  de uma forma semelhante, para termos os pés mais próximos da realidade,  à que os islandeses estão realizando com conselhos de cidadãos e sem grandes preocupações de cumprirem os formalismos dos partidos.
A um país com uma população semelhante à de Portugal e com um PIB quase duplo, bastaria apenas isso, a convergencia de esforços .
Salvo melhor opinião.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O mercado a funcionar - as colmeias

Colmeias em Lisboa,  a 1000 metros do Areeiro
São implacáveis as leis do mercado, especialmente do mercado livre, do mercado negro e do mercado que temos.
A procura do mel aumentou (para alem de valor calórico tem virtudes medicinais preventivas e curativas), muitos candidatos aos apoios a jovens agricultores aumentaram a procura de colmeias para produção.
Os orgãos de venda de colmeias  legalizados não conseguiram fazer face à procura.
As leis dos  mercados determinaram o aumento dos preços.
Uma colmeia em estado de começar a produzir custa 150 euros no circuito legal e 60 euros no mercado negro.
As leis do mercado negro determinaram o aumento de roubos das colmeias.
Os apicultores do norte do país calculam prejuizos da ordem de 150 mil euros.
Os economistas não têm coragem para confessar que lhes agrada esta situação. O mesmo objeto transacionado duas vezes gera valor, ainda que a venda de 60 euros não pague imposto.
Porque alguma parte desses 60 euros há-de contribuir para o aumento do PIB.
Porque já há apicultores a dormir perto das colmeias com espingardas carregadas e os cartuchos terão sido contabilizados nas contas do PIB.

Há muitos anos, circulou um filme chamado Mundo Cão.

Mundo cão é isto, é não ser possível à GNR prevenir estes crimes, crimes económicos, não são contra a integridade física das pessoas, como não lhe é possível, à GNR, prevenir o roubo de cobre dos condutores e dos sistemas de rega, o roubo da cortiça dos sobreiros, o roubo das alfarrobas, o roubo das pinhas, o roubo da palha.
A atuação eficiente só pode fazer-se a montante, primeiro na escola e depois nas políticas de emprego.
Insucesso escolar e desemprego significa roubo e vandalismo.
Duvido que os senhores economistas e financeiros que nos governam concordem comigo.

E como classificar o desvio de papel e de cartão dos pontos de recolha das empresas que têm a concessão da sua recolha e que viram os seus lucros baixar 20% porque há pessoas que à noite andam a recolher papel dos caixotes de lixo e dos pontos de recolha? É crime porque os concessionários irão exigir um "reequilíbrio financeiro" no seu partenariato? Ou daremos mais crédito a S.Tomás de Aquino, doutor da Igreja, quando escreveu que roubar para matar a fome não é crime?

Recordo aqui o filme de Angelopoulos, O apicultor, com Marcelo Mastroiani,
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2011/09/viagem-grecia.html

talvez o filme mais triste que já vi.
Passava-se na Grécia, já há dezenas de anos.

Mundo Cão. Mundo cão é isto, é quem toma decisões, quer seja em Berlim, em Londres ou em S.Bento, considerar-se detentor da verdade das soluções, não partilhar as soluções com os cidadãos e cidadãs, não os envolver no debate, não aceitar as propostas de parte significativa deles e delas, esconder-se atrás do cinzento escuro das paredes do BCE, e proclamar a culpa de terceiros, à medida que as suas soluções vão falindo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A Grécia





Não quero nem  posso, por desconhecimento, negar os excessos e os abusos cometidos pelos gregos, a todos os níveis.
Desde as pensões das filhas dos funcionários públicos até à lista de ricos que fugiam impostos que o ministro das finanças grego publicou.
Sei dos jornais que o governo anterior ao atual mascarou as contas.
E que o fez com a ajuda da Goldman Sachs. 
Mas não sei se foi tão diferente relativamente ao que se passou cá.
Há anos que se sabia que as dividas das empresas públicas de transportes portuguesas eram dividas do Estado, e isso foi dito a governos laranjas e cor-de-rosa e laranja-azul e cor de rosa-azul-laranja - esta das cores é só para compensar aquilo que se dizia muito dantes, que a culpa era dos comunistas.
Por falar em comunistas, é uma pena as televisões não darem noticia das posições na Grécia de pessoas como Mikos Teodorakis, por exemplo.
Outra coisa que sei, e que me ficou da Física, é que não se deve passar bruscamente de um estado para outro a um nivel muito diferente, para não induzir forças aperiódicas de grande amplitude, suscetíveis de provocarem oscilações de ressonancia por colisão com as estruturas pré-existentes (esta é só para dizer que o atual governo grego não deve acabar com as mordomias das filhas dos funcionários publicos num ai, deve dar pelo menos dois ais antes de acabar com elas, as mordomias; longa vida às filhas dos funcionários).
Como já tive oportunidade de blogar, um dos filmes  mais tristes que vi foi com o Mastroiani, o Apicultor, uma viagem de recolha de mel pela Grécia rural e decadente.
Há mais de 20 anos.
Ver em 

Fica caro, quando se pinta sobre a ferrugem da decadencia.
Quando a pintura é a dos académicos das faculdades de economia neo-liberais e a ferrugem é a das estruturas nacionais desorganizadas pelo império financeiro da globalização.
Tambem sei, da televisão, por ver entrevistas de rua na Atenas de hoje, que quem trabalhava, na privada ou na publica, e ganhava 500 euros, ganha agora 250 (se isso são mordomias...).
Finalmente, a Grécia está em crise, num caos e numa catástrofe. 
Certo, mas estas são palavras gregas e portanto são minhas porque só posso render-me a quem inventou a palavra otorrinolaringologia.
Como grega é a palavra Europa.
Mais um exemplo de que os netos desprezam a avó quando ela é mais pobre.
A história da Europa, desde Carlos Magno (ele tambem alemão, porque as tribos francas distinguem-se das outras por terem aprendido alto latim) tem sido também a de uma preparação e depois pilhagem do que foi o império romano do oriente, e só não foi mais por causa dos turcos, aqueles malandros. 
Os cavalos da praça de S.Marcos (os que estão guardados, claro) talvez ainda estivessem em Constantinopla se os turcos se têm antecipado 2 séculos, e a igreja de Santa Sofia provavelmente já teria sido adulterada e estaria irreconhecivel se tivesse caido sob a jurisdição do bispado de Roma.
Ainda recentemente o ocidente feriu bem fundo na fronteira entre as zonas de influencia histórica das igrejas católica e ortodoxa ao colaborar no eclodir da guerra civil jugoslava e ao participar nela.
Vêm agora os lideres das potencias dominantes da união europeia e os dirigentes dos grandes bancos escandalizar-se (outra palavra grega) porque o primeiro ministro grego convocou um referendo?
Referendo é para situações excecionais  e significa ouvir quem é a fonte do poder.
Como diz o étimo, democracia, uma palavra grega, de dificil aprendizagem pelos lideres políticos e pelos dirigentes dos grandes bancos, que confundem o protagonista do drama (mais palavras gregas), que é o povo, não são eles .
Se querem que o referendo diga sim, façam o favor de ser s-o-l-i-d-á-r-i-o-s, acabem com os juros agiotas de 93%.
Citação do professor de Coimbra José Castro Caldas: "A Grécia está encostada à parede e os lideres europeus podem finalmente perceber que é preciso reforçar o papel do BCE na provisão de liquidez, avançar nas euro-obrigações e ter um orçamento comunitário a sério".

E não demonizem o povo grego.
Demonizar o povo grego é para mim o mesmo que um brasileiro com problemas de identidade demonizar a lingua portuguesa ou ter pena que a lingua holandesa se tivesse limitado ao Suriname.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Viagem à Grécia

Não é o testemunho de uma viagem à Grécia de hoje.
Já passaram 5 anos desde que a visitámos.




Não vi carros de luxo nas ruas de Atenas, nem vi edifícios novos sumptuosos.
Não vi linhas de metro com estações sibaríticas nem o porto do Pireu com infra-estruturas supérfluas.
O novo aeroporto que vi tinha movimento compatível com a sua grandeza.
Lamentei não existir uma linha ferroviária de ligação ao centro de Atenas.
O transporte entre as ilhas, quer por via aérea, quer marítima, pareceu-me eficiente e ajustado.
Era abril e os hoteis estavam cheios.
No meio da ilha de Mykonos, em ambiente rural, a capela antiga estava aberta e habitada, coisa rara em Portugal, pelo que pude admirá-la ("no photos" disse o pope, interrompendo a leitura da bíblia, enquanto a mulher assentia com a cabeça e rodava o terço circular).
No café da Ana, foi a Ana, vestida como se estivesse em Londres, que nos atendeu e falava inglês muito melhor do que eu. Estranhei que a sanduiche de peru fumado, embalada em vácuo, fosse Turkey made, não por causa do trocadilho, mas porque deveria haver perus e fábricas de processamento na Grécia.
No dia seguinte, depois da visita à ilha de Delos (pronuncia-se Dilos), a sede da confederação grega cinco séculos antes de Cristo, dissolvida porque o govero de Atenas não quis repartir a sua riqueza com os outros estados federados, jantámos numa esplanada à beira do Egeu.
A moça que nos atendeu encetou uma conversa com a minha mulher sobre as calças que uma e outra vestiam.
Lembrei-me dessa conversa quando no Algarve, noutra conversa, um pai contente me contou que tinha conseguido empregar o filho no bar de um campo de golfe, porque no secundário não conseguia fazer a matemática, o português e o inglês.

Sabe-se agora que o governo mascarava as contas, mas ao turista despreocupado nada parecia antecipar esta crise.
Vieram entretanto os jornais explicar que os gregos eram uns oportunistas que trabalhavam pouco e sem produtividade, com pensões elevadas e uma idade de reforma baixa.
E então lembrei-me dum filme triste, talvez dos mais tristes que vi, com Marcelo Mastroiani, a fazer de caixeiro viajante que todos os anos fazia uma viagem por todo o mundo rural grego para recolher o mel dos apicultores (ver: http://cineclubeybitukatu.blogspot.com/2010/03/0603-o-apicultor-theo-angelopoulos-1986.html).
Das primeiras imagens bucólicas se passou progressivamente para as imagens de degradação e desertificação do mundo rural com modos de transporte ineficientes, até à morte do caixeiro viajante de exaustão e improdutividade.
Talvez esteja aqui a chave: a degradação da agricultura, a desindustrialização que levou a importar as sanduiches turcas, a cegueira da viragem para o setor terciário com a ilusão de que basta ter turismo de qualidade.
Não, não basta, é um fator recorrente, em todos os paises em crise a percentagem de população dedicada ao setor terciário é exagerada (o senhor economista Vitor Bento costuma dizer isto de forma mais correta, a saber que o país deve desenvolver o setor de produção de bens transacionáveis, isto é, que podem vender-se ao estrangeiro ou substituir bens essenciais importados).
Donde, custa-me muito a aceitar que seja solução ir cortando, como o dono do cavalo cortava na ração, e que o esforço de reindustrialização de economias pequenas seja suficiente para compensar a crise internacional (se a California não consegue...).
Caimos assim nas alternativas de Luciano Amaral, nenhuma delas agradável
(ver:  http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/05/madame-butterfly-e-situacao-financeira.html).
Vamos então ter menos rendimentos,  aumentar a tal de produtividade, perder soberania.
Mas ao menos vamos perceber que na origem desta insustentabildade está a ganancia e a especulação dos grandes grupos económicos? Não quer dizer que se consiga acabar com isto, mas ao menos perceber.
Por exemplo, que não pode uma loja com 250 m2, no Chiado, ser alugada por 20.000 euros por mês (terei ouvido bem?), nem uma moradia na quinta do Lago ser vendida por 24 milhões de euros (terei ouvido bem?).
É que não é saudável, nem sustentável, embora possa parecer que estes negócios trazem mais valias. Trazem, mas são efémeras.
Estas coisas evitavam-se com a tal de regulação, mas parece que também não funciona por razões intrínsecas do sistema económico-politico em vigor.
É capaz de ter razão , o senhor ministro da Economia, é preciso mudar de modelo.
Mas a dúvida é grande, que o novo modelo do senhor ministro também funcione.

Donde, resta a nostalgia da viagem às ilhas gregas.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não em meu nome I - a semi-deusa grega

O título deste texto é retirado do movimento contra o desmembramento da Bélgica.
A intenção do seu uso aqui é exprimir a oposição à agressão ao conceito de cultura e civilização europeias pelas forças policiais em Atenas.
Valha a verdade que é melhor do que os tiros assassinos dos exércitos sírio e israelita neste mês de junho de 2011.
Mas porque não deixam a rapariga em paz?








Possivelmente porque recearam que ela lhes batesse nos escudos, com as mãos nuas, como a rapariga da outra fotografia (uma rapariga para dez policias).
Na verdade, há que recear a força da razão quando só se tem a força física.



A rapariga que está a ser arrastada está a sofrer violencia fisica, recebendo uma pena sem julgamento. Na foto vêem-se ela e mais quatro policias...
Não vale a pena argumentar com os doutores da propaganda que repetirão os argumentos do costume, de defesa da ordem e da propriedade, normalmente dos bancos.
A rapariga foi sumariamente julgada pelo policia e condenada à pena de arrastamento pelos cabelos.
Nunca estive numa situação assim.
O mais perto disso foi num dia 5 de Outubro, talvez de 1966.
Nesse tempo, ir ao cemitério do Alto de S.João ou parar para olhar a estátua de António José de Almeida na Av.Miguel Bombarda no dia 5 de Outubro significava exprimir a oposição à barbárie e à indigencia cultural que nos governava.
Por isso os doutores da propaganda da altura explicavam que a policia de choque do capitão Maltês tinha de intervir.
Lembro-me dos olhos assustados do pobre moço policia, debaixo do capacete de aço, com a coronha da espingarda prestes a bater-me,  mas a tremer  e a pedir-me em voz baixa e aterrorizado : "Vá-se embora".
Já Freud explicou há muito tempo que a violencia é a manifestação da insegurança de quem acha que tem o poder.
Mas não a glória.
A rapariga da camisola encarnada parece uma semi-deusa grega. Fez-me lembrar a Venus de Rodes, com a diferença de que era a própria Venus que esticava os seus cabelos.

Zeus terá querido abusar dela, da semi-deusa da manidestação. Ter-lhe-á prometido crédito fácil, acessórios para a sua feminilidade, cavalos à disposição no motor de um carro bonito e promessas de poder. Mas a rapariga repeliu os avanços de Zeus, por demais conhecidas que são as suas práticas, recusou a prestação de serviços que os empréstimos pressupunham e acabou arrastada pelos cabelos nas ruas de Atenas. Atenas, a cidade que acabou com a ideia formosa da confederação grega, com sede em Dilos, a pequena ilha ao lado de Mikonos, quando a ganancia dos seus financeiros impediu que o tesouro da confederação fosse posto ao serviço de todos os gregos da confederação. Depois foi o que se viu, as guerras do Peloponeso e a impertinencia dos invasores persas.
Era contra isso, contra a incompreensão do que é a Europa, a sua cultura e a sua civilização, que as raparigas protestavam.
Os doutores da propaganda acham que não (saberão o que significa Dilos?), e que é preciso manter a ordem.
Não o farão em meu nome, nem no das duas raparigas.
Preocupem-se mais em baixar o coeficiente de Gini e em cumprir a declaração universal dos direitos humanos, e não se dêem tão importantes ares quando aparecem nas televisões.
Porque já evidenciam sintomas da sindroma de Hurbis (do grego falta de humildade e excesso de sobre-estima; sindroma estudada por David Owen, ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/sindroma-de-hubris.html )


Com a devida vénia ao DN pelas fotografias


PS - Se critico os hipócritas, não devo ser hipócrita (mais uma palavra grega). Tenho de concordar que podemos ter de aceitar exceções temporárias ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos. Pode haver situações em que se justificaria arrastar uma cidadã pelos cabelos. 
Se o policia estivesse a arrastar a cidadã que não queria ir trabalhar para uma unidade produtiva de bens transacionáveis indispensável para a recuperação da economia grega, com redistribuição correta das mais valias, estando ela a fazer falta no seu posto de trabalho, então, eu concordaria com o uso da força. 
Mas com o desemprego que vai por aí, não creio que seja o caso da rapariga grega. 
Ela provavelmente não tem um posto de trabalho à espera dela para produzir. 
E o policia tambem é policia porque não tem um posto de trabalho à espera dele. 
Então é mais um exemplo do abissus abissum (abismo atrai abismo, ver Camilo Castelo Branco, ou como antes da lei de Fermat Weber já se tinha a intuição de que qualquer coisa que cresce tem tendencia para atrair mais coisas para se alimentar). 
O desemprego estimula manifestações de rua, que por sua vez estimulam o crescimento da policia, que por sua vez estimula o crescimento de cidadãos que não estão a produzir bens transacionáveis.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

TRADUZIDO DO GREGO – o rapto de Europa feito ao contrário

Era uma vez um país de sol, mar e um povo deslumbrado.
Tanto os cidadãos desse país, como o seu governo,
Tinham ao longo dos anos pedido emprestado dinheiro,
para poderem viver acima dos seus rendimentos.

Para continuarem a pedir empréstimos,
foi contratado um grupo de consultores,
a Goldman Sachs,
que ocultaram as dividas das empresas públicas

Pior que isso, manipularam as contas,
até que o dinheiro faltou e o povo saiu à rua,
o governo mudou
e continuou o dinheiro a faltar

Então o governo pediu ajuda
Aos governos dos países vizinhos
Que partilhavam com o país de sol a história e a cultura
Que a todos tinham maravilhado

O povo continuou a sair á rua,
a ralhar com o governo,
embora não tivesse sido aquele governo
que se tinha endividado tanto

E foi então que a loja de prego
Onde o governo costumava ir,
Pediu como penhor o coração
Da apresentadora de TV preferida pelo povo

O governo hesitou, e voltou a pedir ajuda aos países vizinhos.
Os governos dos paises mais ricos aproveitaram para lhe ralhar.
Esqueceram-se que durante anos tinham andado a emprestar o dinheiro
Com que os cidadãos do pais de sol lhes compravam automóveis e metropolitanos

E logo o juro do empréstimo subiu e os mercados abstratos perderam a calma.
O governo do país de sol lembrou que se não havia dinheiro
Foi porque as lojas de prego tinham prometido juros mais altos do que os que podia pagar,
e os governos ricos e pobres tiveram de injetar dinheiro nelas.

De nada valeu ao governo do país de sol.
Empedernidos e insensíveis, nada demoveu os governos ricos.
Às lojas de prego emprestavam a juro baixo,
Mas elas ao governo do país de sol era alto o juro,

E foi então que o governo do país de sol
se lembrou de perguntar ao império do meio
se não queria comprar uns títulos do Tesouro
a uma taxa de juro mais de amigo

E o império do meio perguntou se podia visitar o país de sol
Claro que sim, disse o governo,
E mostrou-lhe o berço onde tinha nascido
a cultura do país de sol e de todos os países vizinhos

O imperador do meio ficou tão deslumbrado
Como o povo do país de sol
E comprou logo todos os títulos
que havia para vender e pediu mais a um juro ainda mais baixo

Respirou de alívio o governo do país de sol,
mas entretanto, num dos países vizinhos, mais ao norte,
o grande prémio do ano do ramo da oliveira
foi solenemente dado a Xiaobo

Pregava Xiaobo no império do meio da não violência
a grande estratégia de Gandhi
e também a Declaração Universal dos Direitos do Homem,
por isso vivia num campo de concentração.

Tal era uma mancha na imagem do império do meio
Que os governos vizinhos logo aproveitaram
Para rasgar as vestes do seu descontentamento
E dos títulos do Tesouro a venda criticar

Tanto ralharam os governos ricos vizinhos
Que os povos ricos vizinhos começaram a dizer
Que o império do meio andava a fazer ao contrário
o rapto de Europa, filha de Agenor, rei de Tiro.

E se fosse verdade, quem se admiraria?
Não quiseram os governos ricos ajudar,
Porque se queixam agora se o império do meio
Ilhas vier comprar e fábricas instalar?

FINAL

Ponhamos a 9ª sinfonia a tocar em Lisboa,
no Largo de S.Domingos .
Atentemos bem no que dizem os cantores
em tão solene audição.
Não liguemos aos germânicos ralhetes,
antes dêmos a ler ao império do meio a mensagem
do monumento que lá está, para Xiaobo libertar.
E vamos então organizar , a nossa batalha da produção
















NOTAS:
1 - Os versos não rimam porque já custa traduzir do grego e pô-los a rimar ainda custa mais
2 - Europa é, na mitologia grega, o nome da filha do rei de Tiro que foi raptada por Zeus, disfarçado de touro branco, e levada por ele para a ilha de Creta ( ver em:
http://aguerradetroia.wordpress.com/category/6-zeus-jupiter/62-o-rapto-de-europa/ )
3 - todos os restantes factos descritos se baseiam, porém, na realidade e não são pura coincidência