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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Continuam os resultados desastrosos no PISA

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/12/pisa-programme-for-international.html

Há 3 anos atrás, este blogue teve oportunidade de criticar o excesso de otimismo dos senhores governantes de então, relativamente aos resultados dos testes do PISA de 2009, e as medidas desastrosas e a falta de compreensão da importancia da condição socioeconómica dos pais ou encarregados das crianças no insucesso escolar.
Agora, mais uma vez assistimos a resultados muito maus dos nossos alunos de 15 anos, entregando-se os responsáveis portugueses a descobrir pormenores positivos (é desculpa que se apresente, em 2012 haver mais crianças do 7º ano ou do ensino profissional a responder do que em 2009?! então se muitas crianças têm 15 anos e estão no 7º ano isso não significa que o sistema educacional foi destruído? e queriam que os resultados do PISA não traduzissem isso? ou também sofrem de graves dificuldades de interpretação matemática e literária?).
Há pequenos e poucos aspetos positivos, mas o mais grave é que continuam a não compreender que o fator principal do insucesso escolar é a incapacidade educacional e financeira dos pais e encarregados de educação (quando os há).
E um país assim não poderá, por falta de qualificação dos agentes económicos e fatores de produção, progredir.
Infelizmente não compreendia isto a senhora ex-ministra Lurdes Rodrigues, a das avaliações e do "perdi os professores mas ganhei o povo" (nada disso, desmerecer em profissionais é desmerecer na profissão e na sua eficácia), nem, muito menos, os atuais responsáveis, de que destaco a infeliz promessa do secretário de Estado do ensino básico e secundário, que para 2015 os resultados serão muito melhores porque, entre outras ideias do senhor ministro Crato, há provas de acesso para os professores contratados!

Em resumo, como se pode ver pelos gráficos dos resultados, abaixo da média dos países da OCDE, esta é uma verdadeira tragédia, até porque aumenta o fosso entre as crianças cuja situação socioeconómica as leva ao insucesso e aquelas que têm possibilidade de adquirir qualificações que serão depois devidamente aproveitadas em países estrangeiros.

Peço desculpa, mas a situação financeira em que o país se encontra não tem nada que ver com a incompetencia de quem toma decisões e ignora as causas das coisas.

As deficiencias de aprendizagem em matemática, as dificuldades de interpretação do português escrito e as agora também importantes dificuldades de compreensão das ciências físicas e naturais são partilhadas pela maioria dos alunos de 15 anos e pela maioria dos atuais governantes, e isso é uma tragédia para o país, maior do que o seu endividamento contínuo.




                                                       com a devida vénia ao DN



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Business as usual




Ficou bem ao ministério da educação reconhecer algum mérito ao esforço dos professores e alunos que, tal como com o PISA, mostraram nos resultados do TIMSS e do PIRLS algumas melhorias.
Porém, os cortes na educação são por demais ameaçadores, com provável declínio e contribuição para o aumento da violência e criminalidade na mesma  geração agora avaliada.

O PISA é o programa internacional para avaliação dos estudantes do secundário.
O TIMSS é o programa que avalia a evolução do ensino da matemática e das ciências dos alunos do 4º ano (10 anos de idade) e 8º ano (14 anos).
O PIRLS avalia a literacia.

Os resultados dos testes feitos em 2011 (portanto sem nada dever às medidas do atual governo, e, salvo melhor opinião, sem nada dever à introdução dos exames do 4º ano, porque introduzidos no mesmo ano dos testes) foram agora publicados em:

Segundo a análise do DN, os alunos:
- na leitura,  “não têm  fluência suficiente para fazer interpretações baseando-se no texto”,
- nas ciências, “têm apenas compreensão elementar sem domínio suficiente dos conhecimentos”
. na matemática, “não têm domínio suficiente dos conhecimentos para resolverem problemas de resolução não imediata”

Salvo  melhor opinião, porque me parece que as crianças refletem com fidelidade os seus pais (“não te preocupes, filho eu também nunca gostei de matemática”), e são os mesmos pais que votam, estamos em mais uma situação catastrófica, que ainda não é grave.
Não pretendo culpar os eleitores, apenas reafirmar que a nossa democracia tem poucas defesas contra políticos de falsas promessas que com falinhas mansas se aproveitam da tradiciona pouca preocupação em discutir as coisas em debates alargados baseados em cálculos fundamentados.
Esperemos que a demagogia dos políticos que ganham eleições com essas falsas promessas não vingue novamente em Itália (ou de como uma verdade, que a politica europeia é germanocentrica, como diz Berlusconi, se pode transformar numa catástrofe ainda mais grave).

E até pode acontecer que o problema de dificuldade em interpretar os dados da realidade não seja só português.
Se os grandes bancos internacionais já vão fazendo o seu negócio especulativo “as usual”, com generosidade até para pagar multas aos USA por branqueamento de capitais em off-shores  (caso do USB suíço e do HSBC), porque não haveriam:
- os bancos portugueses de anunciar “fundos” de elevada rendibilidade (com as tais letrinhas pequenas a dizer que a dita não é garantida),
- as empresas de financiamento particular insistir nos seus serviços, com TAEGs mais ou menos especulativos
- o Volkswagen Bank instalar-se com condições irresistíveis para os portugueses comprarem mais carros da marca (isto é, feitas as contas, apesar da Auto Europa, com o negócio da Volkswagen sai mais dinheiro do país do que entra, ou dizendo melhor, o dinheiro que a Alemanha empresta serve para comprar carros alemães com juros; eu ainda sou do tempo em que os bancos não emprestavam dinheiro para compra de automóveis),
- as agencias de viagem anunciarem cruzeiros de 7 dias com pensão completa a preços inferiores aos de estadia igual num hotel,
- as companhias aéreas não “low cost” que apresentaram resultados negativos anunciarem “air shoppings” em capitais europeias a preço de saldo?

Acho que o enunciado do problema  é muito claro:

1 – todos entendem a questão básica, que é a de que o PIB deve crescer
2 – também se compreende que o PIB é expresso por uma fórmula matemática
3 – também é elementar, e como tal, tal como no TIMSS, se compreende, que nessa fórmula apareça como termo negativo as importações (isto é, quanto maiores as importações, menor o PIB)

Então porque cargas de água andamos a estimular as importações, em plena euforia “business as usual”?
Ou talvez o defeito de interpretação seja meu, que não sou capaz de entender que talvez não fosse necessário informar a União Europeia que, devido à crise e à situação de emergência, não é possível a este país garantir a plena e livre circulação de mercadorias e serviços através das suas fronteiras, assim como se suspende o acordo de Schengen quando convem (aos puristas da economia livre recordarei as teorias das vantagens comparativas de David Ricardo que não foram revogadas pela fúria globalizante).
Que talvez fosse suficiente aumentar as taxas pagas por este tipo de publicidade e explicar em programas de serviço publico na televisão porquê.

Não sendo assim, tudo continuará  com “business as usual”, e nesta situação catastrófica embora ainda não grave.

PS em 14 de dezembro - O DN voltou ao tema dos resultados do TIMSS  através de Fernanda Cancio, que chamou a atenção para que, em matemática, cerca de 40% dos alunos portugueses estão nos 2 (em 4) niveis mais elevados, quando a média internacional é de cerca de 30%.
Portanto, as dificuldades de resolução serão comuns a outros paises da Europa, Alemanha incluida (seria interessante ver se há alguma correlação entre o sistema dual de ensino incensado pelo senhor ministro Nuno Crato e essse mau resultado dos alunos alemães; mas provavelmente será apenas o aumento do fosso entre os alunos mais bem preparados e os alunos pior preparados).
E o panorama não seria assim tão catastrófico para Portugal.
O problema é que a diferença entre alunos bem e mal preparados é grande (cada vez maior? interessava ver isso) e talvez a dificuldade de interpretação justifique as más escolhas de politicos que os europeus foram fazendo ao longo de décadas.
Salvo melhor opinião, claro.

 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Carta a Crato

Parabéns, senhor ministro.
Conseguiu reduzir os custos do ministério conforme as orientações de cortes na saúde, na educação e na proteção social, que são as 3 áreas de maior despesa pública (claro que são e que até devem ser).
Graças à sua experiencia destes assuntos e à politica de concentração e de dispensa.
A tal de produtividade, de fazer mais com menos.
Só que a curva da produtividade não é uma função linear.
Tem um ponto de derivada nula, e nunca se sabe para que lado se está, se na curva ascendente, se na curva descendente.
Ou, como matutava o escocês que reduziu progressivamente a ração de palha do cavalo, nunca se sabe quando a produtividade do cavalo começa a baixar, se antes ou depois de morto.
Por isso lhe escrevo esta carta.
Quando se queixa que tem falta de alunos e por isso tem de dispensar professores, eu respondo que há muitos miúdos por aí sem ir à escola, desde crianças ciganas a filhos de imigrantes.
Aí tem uma boa quantidade de alunos para compor o quadro de professores.
Por outro lado, com os números de insucesso escolar, parecerá que são necessários professores para o reduzir. Não direi só para dar aulas com menos alunos, mas para estudar os dados do insucesso e analisar a evolução do insucesso (e abandono) ao longo do ano. Como em qualquer profissão, professor não é só para dar aulas.
Quanto à concentração das escolas, sabe muito bem que o que está a poupar é desperdiçado no transporte dos alunos para as grandes escolas.
Pelo menos enquanto o numero de alunos for maior do que o dos professores: é mais barato deslocar poucos professores para muitas escolas do que muitos alunos para poucas escolas (teorema de Fermat-Weber, certo?).
Isto sem falar nos custos, ou prejuízos, da desertificação do interior (idem).
Bem, mas dirá que os índices da Finlândia mostram que há mais alunos por professor do que em Portugal.
Haverá, mas também é verdade que o índice da relação entre o comprimento do peróneo e o perímetro do peito das mulheres finlandesas é superior ao das mulheres portuguesas e nós gostamos destas assim (gostamos não gostamos?).
E dirá também que não há dinheiro no orçamento de Estado.
Será uma discussão desigual, porque não temos todos os números da realidade, embora vejamos por aí que os rendimentos do capital não são tão maltratados como os do trabalho.
O senhor ministro estará mais perto do senhor ministro das finanças que lhe mostrará os meandros do orçamento (mostrará?) e que lhe deveria arranjar dinheiro em vez de se repetir a dizer que não há.
Experimente mostrar-lhe que os prejuízos das suas medidas são superiores aos benefícios.
São coisas que não entram nos orçamentos mas se pagam quando o insucesso, o abandono escolar e os maus resultados no PISA destes anos de penúria se refletirem no vandalismo e ignorância (e falta de produtividade e de competitividade, claro, claro) da maioria dos jovens adultos que hoje são crianças.
E esse vandalismo e ignorância custam muito, muito mais dinheiro.

Melhores cumprimentos.



PS - Já me esquecia.
A propósito de haver poucos alunos como fundamento para a dispensa de professores.
A minha neta, que  mora para os lados da Estrela, não teve vaga na escolinha para onde pensava iniciar o 1º ciclo.
Houve muitos meninos que sairam das escolinhas privadas e esgotaram as vagas.
A minha sobrinha que mora em Odivelas e que tem a menina dela no 1º ciclo de uma escolinha privada, disse-me que só da turma da filha sairam este ano para o público 16 meninos.
E diz o senhor ministro que há poucos alunos.
Ai é tão feio dizer coisas ao contrário da realidade... será o problema do PISA, a dificuldade dos portugueses que tomam decisões recolherem e analisarem corretamente os dados e depois aplicar as medidas corretivas?
Podia ser um tema para os conselhos de ministros; certamente que os senhores ministros também são vítimas da síndroma do PISA, também terão dificuldades de interpretação.
Achar que a iniciativa privada resolve as coisas no atual contexto, com o endividamento enorme das empresas, pode ser um sintoma de dificuldades interpretativas da realidade.
E pôr o PISA no centro das atenções podia ser um primeiro passo para sairem da vossa redoma de iluminados convencidos de um caminho unico.
Alargar o debate e aceitar as ideias dos outros é um grande passo para vencer as dificuldades de compreensão diagnosticadas pelo PISA, para compreender a linha flexível que separa os rendimentos do trabalho dos rendimentos do capital, para compreender a linha flexível que separa a economia privada da economia pública.
Era uma boa estratégia, para um ministério da Educação...não acha?


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Micro ensaio sobre a dicotomia consenso-cotejamento

Amavel comentador repreendeu-me por neste blogue, a propósito da poesia de Sofia de Melo Breyner,  eu dar alguma importancia  ao confronto esquerda-direita.

Não queria dar muita importancia.
Não sou adepto do mazdeismo do segundo milénio antes de Cristo, com a sua criação do inferno e do paraíso.
Mas não posso ignorar a dialética que se sobrepõe à evolução tecnológica.
E posso dar mais importancia a outros métodos, conforme tenho referido a propósito da Sabedoria das Multidões e da Revolução sem lider.
Também posso deixar-me iludir, nem que seja por um breve instante, com a expressão maravilhosa que o presidente do PASOK, terceira força mais votada, encontrou para o seu objetivo de formar governo: um governo "ecuménico".
"Ecuménico", palavra grega, é isso mesmo, etimologicamente, "aberto para o mundo inteiro", sendo aqui o mundo inteiro uma nação que precisa  de recordar que é o berço da cultura ocidental.
Recordar até o episódio em que a ganancia de Atenas pelo tesouro de Dilos rebentou com a confederação grega.
Aberto também aos criminosos de braço estendido?
Se isso salvar a nação sem violencia, onde está o mal?
Posso sentar-me ao lado de um pitbull se ele estiver açaimado e controlado, não?

Mas deixem-me apresentar o micro ensaio sobre a dicotomia esquerda-direita ,ou a dicotomia consenso-cotejamento.
Os jornais enchem-se com apelos dos políticos ao "consenso", não é?
Infelizmente "consenso" significa sempre a submissão, a troco de uma ilusão, de uma ideia a outra, em vez de se cotejarem as ideias, se fazerem as contas e se retirar de cada uma das ideias o que pode contribuir para a melhoria comum.
É fácil de demonstrar que o cotejamento tem vantagens.
Repare-se em dois grupos de jovens, um de rapazes e outro de raparigas, a chegar a uma esplanada com lugares vagos.
O grupo de rapazes busca imediatamente um consenso que não é mais do que a subordinação das vontades pacíficas da maioria de rapazes que reconhece a um deles a liderança para a escolha. Sentarem-se onde o "lider" propôs, poupa à maioria energia para se concentrar em assuntos mais importantes, como fazer propostas de ocupação de tempo do grupo, e analisar as vantagens e inconvenientes de cada proposta; possivelmente para o lider decidir depois, uma vez que não tem tempo para congeminar os pormenores de cada proposta.
O grupo de raparigas leva mais tempo a sentar-se, mas é um encanto vê-las; cada uma delas volta-se para cada uma das outras a interrogar "ficamos aqui?" enquanto percorrem toda a esplanada; estão a cotejar hipóteses (segundo o método científico no seu melhor) até que se sentam em animada conversa coletiva; está ali um grupo a pulsar em conjunto sintonizado, embora cada uma delas possa estar a dizer coisas diferentes umas das outras. Isto é, a decisão sobre o local de poiso  foi tomada após múltiplas trocas de opinião, e já estão a utilizar o mesmo método para a discussão sobre como vão ocupar o tempo.
Feitas as contas, cada tomada de decisão leva mais tempo, mas o conjunto de tomadas de decisão levou menos tempo e envolveu todas ou quase todas, o que melhora a coesão do grupo e a dedicação de cada uma no grupo.
Por outro lado, os resultados do PISA mostram com clareza que as raparigas ficam mais bem colocadas nos tetes de compreensão e interpretação de dados.
Não admira portanto que internacionalmente, por se seguir o método do "consenso", os resultados estejam tão mal.
Posto isto, ainda há duvidas que os grandes decisores têm de reconhecer que têm seguido caminhos errados até aqui?
Vá lá, governos ecuménicos, precisam-se.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O sistema educativo na Finlandia

O DN traz na sua revista de domingo, 4 de setembro, uma reportagem sobre  a educação na Finlandia, tentando perceber por que os alunos finlandeses ocupam os primeiros lugares no PISA (compreensão de textos na lingua materna, de matemática, de ciencias da natureza) e os portugueses uma muito modesta posição a meio da tabela.
São sempre perigosas estas comparações e há a tentação de importar soluções que funcionam noutros contextos e no nosso não.
Além disso, ninguém quererá que num liceu português, como já aconteceu num liceu finlandês, um aluno mate a tiros de espingarda alguns colegas e professores (na Finlandia não é exigida licença de porte de armas, como nos USA).
Mas centremo-nos nas diferenças que interessam: na Finlandia o ensino é universal e gratuito, são raras as escolas privadas, o ordenado dos professores estará na classe média-baixa, não há sistema de avaliação de professores (o que confirma a hipótese: insistir num sistema de avaliação significa desconfiança dos potenciais avaliados e subserviencia às firmas fornecedoras de sistemas de avaliação), a influencia das limitações financeiras e culturais dos pais no rendimento escolar é baixa.
Este blogue já referiu um exemplo ilustrativo de uma diferença que lhe parece essencial: um aluno português do programa Erasmo na Finlandia copiou num exame; o professor detetou e comunicou ao aluno a expulsão do programa; o pai do menino pediu ao embaixador em Helsinquia e ele foi falar com o diretor da universidade pedindo a reintegração; sem sucesso, claro.
Moral da história: agradece-se muito ao criador ter dotado este nosso povo com uma capacidade de desenrascanço tão grande, mas sinceramente, não precisava; mais valia voar mais baixinho e saber que copiar é proibido e tem sanções, e que nunca deveria ter passado pela cabeça do senhor embaixador tentar uma cunha como esta (ou como qualquer cunha, que sociedade do conhecimento é outra coisa; não é esta mania portuguesa de procurar alguem que conheça alguem que conheça alguem que é o melhor para resolver o problema, em vez de ir à loja aberta a todos os cidadãos e cidadãs onde esses problemas se resolvem).
Preocupação na Finlandia: o ensino nivela tudo e todos, impedindo os sobredotados de evoluirem mais depressa.
Não há sistemas perfeitos, mas isso poderá remediar-se com pequenos acertos, lá na Finlandia.
Desde que não caiam no portuguesissimo defeito de eleger sobredotados.
Como dizia, mais vale voar baixinho, mais vale que um problema complexo seja resolvido com a participação de muitos medianos do que por um sobredotado ou por um grupo restrito de sobredotados fechado em gabinetes a anunciar a conta gotas como vão salvar a pátria.
É que os direitos são iguais, sobredotados ou não; até vem na Constituição.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ainda a Finlandia

Evidentemente que não devemos imitar os outros só por terem exito (a considerar outros parâmetros, como tudo na vida).
Mas a história do aeroporto de Helsinquia e da neve fez-me lembrar a história do bolseiro português em Helsinquia, já não sei em que programa.
O moço tinha umas dificuldades numa das disciplinas e preparou-se para uma exame com uma cábula e com um apoio por telemóvel, possivelmente Nokia, que efetivamente utilizou, à boa maneira portuguesa.
Infelizmente para ele há métodos, uns estatísticos e outros não, que permitem detetar este fenómeno universal, mas de prática eminentemente meridional.
E o moço foi chamado ao reitor que lhe comunicou, com muita pena, que o estágio terminava ali.
Claro que, ao lado da cábula, a instituição nacional em Portugal é a cunha e foi em coformidade o que o senhor embaixador português fez, depois de contactado por amigos comuns de amigos comuns da família do moço.
Foi falar com o reitor, que teve de lhe explicar, com muita pena, que não era possível. Os exames eram feitos para avaliar a preparação do indivíduo, e não a sua capacidade de levar cábulas para o exame ou comunicar por telemóvel com uma equipa de apoio. O estágio terminou mesmo ali e o problema foi o embaixador não ter percebido porquê, nem a maior parte dos decisores portugueses  perceberem, nem a maior parte dos portugueses não decisores perceberem, que diabo, um jeitinho não custa nada, por que cargas de água uma pequena facilidade num exame, basta fechar um bocadinho os olhos, há-de impedir o rapaz de ter o canudo e depois dizer que o tem? O rapaz até pode ter muita iniciativa e muito talento e talento é do que Portugal precisa, para os seus gestores e decisores privados e públicos.

Precisa não, como dizem os nossos vizinhos do outro lado do Atlantico.
Precisa não de talento.
Precisa de gente comum que interprete bem (sózinho ) os enunciados dos problemas tipo PISA e que resolva depois os problemas com os métodos de trabalho em equipa, sem secretismos nem espírito de grupinho, quer o grupinho seja o partido, a variante religiosa, o avental, o grupo económico, o grupo bancário, o grupo empresarial.

Estou a pedir muito?

domingo, 19 de dezembro de 2010

PISA – Programme for International Students Assessment

O PISA – Programme for International Students Assessment (Programa internacional da OCDE para avaliação dos estudantes)

Os representantes das estruturas decisórias nos domínios da Educação do meu país embandeiraram em arco.
Os estudantes portugueses de 15 anos, selecionados quase aleatoriamente para responder a testes e questionários preparados pela OCDE para avaliar a capacidade de interpretação e de resolução de problemas de literacia em matemática, leitura e ciências, melhoraram significativamente e comparativamente com os países europeus mais evoluídos entre os testes de 2006 e os testes de 2009.
Perante este facto, os meus aplausos, pelo sentido positivo da evolução.

Porém, a forma como os referidos representantes interpretaram os resultados, como quem incensa o treinador quando a equipa ganha, merece ser analisada pela gravidade revelada, precisamente na dificuldade de interpretação matemática e na ileteracia matemática que nos tortura.
Os resultados do PISA não demonstram teoremas ou teorias, porque as estatísticas deste tipo mostram correlações, se bem fundamentadas.
Efetivamente parece ser o caso das estatísticas do PISA da OCDE; existem mecanismos estatísticos, aplicáveis aos dados dos testes e dos questionários, que permitem detetar eventuais fraudes, que não consta terem acontecido.
Não disponho de elementos que permitam duvidar da aleatoriedade da seleção dos alunos e da correção dos procedimentos, não obstante a extinção anunciada do GAVE, responsável pelo PISA em Portugal desde 2000, pela anterior senhora ministra ( não terá portanto ocorrido nada de semelhante ao que se passou nos anos 90 nos USA, num concurso ganho pela pior escola de Chicago que teve acesso prévio aos testes, e que originou um interessante filme).
Quem conhece professores que sofreram as imposições da anterior ministra, que dizia que tinha perdido os professores mas tinha ganho o povo, sabe que não deve estabelecer-se uma correlação entre as medidas da senhora ex-ministra e as melhorias verificadas.
Quem conhece um sistema de avaliação sabe como os objetivos teóricos do sistema não têm correspondência com a prática, pelo menos até agora, e da forma como têm sido aplicados.

Vamos porém a factos, para avaliarmos se há razão para tanto contentamento, mesmo descontando o coeficiente de auto-satisfação que caracteriza qualquer dirigente político português.
Eis os resultados dos testes de 2006 e de 2009, de Portugal, Macau e média da OCDE.


Pontuações máximas obtidas por países da OCDE em 2009:

matemática:  Coreia, 546
leitura:          Coreia, 539
ciencias:       Finlandia, 554

Pode ver-se que o contentamento vem da subida de todas as pontuações (matemática, interpretação de leitura e ciências) e da subida na tabela ordenada.
Mas…não quererão ver que os valores de 2006 são tão baixos que as subidas são mais fáceis do que para os países mais bem colocados ? (simples aplicação de um corolário da lei dos rendimentos decrescentes).
E é caso para estar tão contente? quando no conjunto dos 31 países da OCDE estamos sempre claramente abaixo da média e:
- em matemática estamos em 25º (sempre muito atrás de Macau)
- em leitura estamos em 21º (ligeira ultrapassagem relativamente a Macau)
- em ciências estamos em 24º (muito atrás de Macau)
Ou poderemos concluir que os representantes máximos das estruturas decisórias da Educação padecem das mesmas dificuldades de interpretação das leituras?
Espero que não considerem esta interrogação ofensiva.
Mas se o considerarem, estou ao dispor para participar nos próximos testes, juntamente com os ofendidos, desde que os vigilantes sejam de confiança.

Penso que a atitude mais saudável seria reconhecer o que há muito foi informado à anterior senhora ministra, que o insucesso escolar tem fortíssimas raízes no meio social exterior à escola (resulta isto de estudos de correlações após recolha e tratamento de grandes quantidades de dados noutros países mais dados a este tipo de trabalho sério), quer nas limitações económicas e educacionais dos pais (eu sei, os inquéritos do PISA também pesquisam esta problemática e... ainda bem, melhorámos de 2006 para 2009; mas teme-se o efeito das medidas de contenção do plano de estabilidade e contenção), quer no nível de bem-estar social.
E que por isso, por mais que se invista na escola, nunca se poderá atingir o topo da classificação sem resolver os tais problemas exteriores às escolas.

Mas estou a derramar água sobre o molhado.
Deixem-me então dizer que uma das conclusões que estes testes do PISA permitem tirar é que as raparigas obtêm sistematicamente resultados muito melhores do que os rapazes na interpretação da leitura e melhores em ciências, e que em matemática a situação se inverte.
E passa-se isto quer em Macau, quer em Portugal, quer na OCDE (será a questão da comunicação entre os hemisférios cerebrais?).
É curioso e explica o que se passa entre nós.
A assertividade com que os políticos masculinos discutem as coisas tem por base uma menor capacidade de interpretação das suas leituras…
Não admira assim os resultados que os ditos políticos obtêm… os políticos e os decisores das empresas deste nosso amado pais (será que depois disto vão contratar conselheiras em vez de conselheiros?).
Agora compreendo por que corriam melhor as minhas reuniões quando os responsáveis das outras áreas eram do género oposto…

Resultados e informações retirados de:

http://pisa2009.acer.edu.au/multidim.php

http://en.wikipedia.org/wiki/Programme_for_International_Student_Assessment

http://www.gave.min-edu.pt/np3/11.html