Caro José Bagarrão
Por falta de espaço nos comentários à mensagem "Carta ao diretor geral da minha empresa", aqui respondo ao seu comentário:
Então estamos mesmo perante um problema de manutenção. E não só, um problema de gestão, ao nível mais alto dos decisores, e um problema de projeto. Tentemos analisar cada um dos tipos.
Problema de manutenção
Risco, ou a combinação da probabilidade de ocorrência de um acidente (para um dado critério de manutenção, se estamos a analisar questões de manutenção) com a gravidade das consequências desse acidente. Definido nível dessa combinação, os decisores aceitam ou não esse nível de risco em função do que custa eliminá-lo (não querem correr o risco) ou atenuá-lo (suportam algum risco).
Vale a pena à administração de um prédio do centro de Lisboa gastar 150.000 euros para substituir uma série de painéis de vidro cuja fixação exige um rigoroso cumprimento do procedimento de montagem e de verificação periódica?
Imaginemos que a fiscalização conseguiu garantir que todas as peças do kit de montagem (ai, desculpe, do conjunto de montagem) foram corretamente montadas; não basta, agora é necessário que periodicamente a equipa de manutenção vá verificar o binário de aperto; e mais, que não exagerem no aperto, porque se exagerarem, sujeito às dilatações das variações de temperatura, o vidro poderá fendilhar.
Durante uns meses largos puderam ver-se numa rua ao Saldanha vedações provisórias que impediam o estacionamento por baixo dos painéis ameaçadores.
Até que a administração do prédio fez as contas, ponderou a probabilidade de convergência de todos os fatores conducentes à queda e combinou com o cálculo das indemnizações e o tempo da sua amortização.
Claramente suportável, gritou triunfante o gestor, e as vedações saíram da rua ao Saldanha.
E na verdade, já foi isto há uns anos, ainda nenhum painel caiu, nem de pedra nem de vidro, “je touche le bois”.
Onde se falhou aqui? Na minha opinião de ignorante, na decisão provinciana de, numa região sísmica e mediterrânica, ter fachadas de revestimento de pedra e de vidro (curioso, é a mesma opinião do arquiteto Ribeiro Teles). Erro de gestão? Erro de projeto? Erro de manutenção?
Problema de gestão
Valeu a pena à companhia de aviação Pulkovo poupar dinheiro na revisão dos reatores do avião às 5.000 horas quando o intervalo recomendado pelo fabricante é de 2500 horas? Deixe-me batizar de coeficiente Pulkovo a relação entre o numero de horas do intervalo recomendado e o numero de horas sem manutenção ao fim das quais o avião cai : 2500/9000 = 0,278 .
Pode ter sido um erro de gestão, que pode ter sido: revejam a 0,5 ;, o que foi um erro porque, de per si, o fator 0,5 não provocava o acidente, isso só aconteceria por sobreposição de outros erros; mas sobrepôs-se um erro de exploração: deixaram passar as 5.000 horas e não avisaram a manutenção; sobrepôs-se um erro (ou omissão) de manutenção e atingiram-se as 9.000 horas fatais. É por isso que o fabricante recomenda 2.500 horas.
Mas podem voar com segurança 5.000 horas. 9.000 horas é que não. E o risco aqui é aparecerem decisores a fixar em 5.000 o intervalo. Inocentemos aqui o projetista.
Demos um salto a Itália, às ruínas de Pompeia. As infraestruturas romanas da época de Vitruvius não podem ser acusadas de erros de projeto. Os pilares das pontes viram proas de barco para montante para que os pilares não se descalcem. As dolomites vulcânicas ainda resistem à chuva nas juntas das pedras.
Mas não resistiram ao sismo que antecedeu a erupção de 79 DC. Menos resistiram ao ataque da aviação norte-americana que as bombardeou em 1943 (bárbaros, só comparável à destruição parcial do museu de Bagdad em 2003 – é o que eu quero dizer quando falo na conjetura do cantoneiro e na falta de cultura que por aí vai). E ainda menos está agora a resistir ao ataque (ou da omissão, ou do pacto com a ganância dos senhores das obras) do ministério da Cultura italiano. Lá como cá. Que encomendou uma reparação defeituosa das paredes da casa dos gladiadores, que se desmoronou no seguimento das ultimas chuvadas. O cimento aplicado pela equipas selecionadas na era das tecnologias avançadas não fez o que as dolomites vulcânicas normalizadas por Vitruvius fizeram em 2000 anos nas pontes romanas e nas termas de Caracala. Deixou que a casa dos gladiadores, não porque morassem lá os gladiadores, mas porque os frescos que de lá foram para o museu representavam gladiadores. Erro de projeto não foi, foi erro de gestão, porque se o operário que aplicou mal o cimento podia não saber como deveria proceder, alguém no circuito deveria saber.
Erro de projeto
Deixa-me preocupado quando fala nos erros de projeto, porque de facto estamos muito sujeitos a eles.
É que é costume, na cerimónia de corta-fitas nas inaugurações, tantas vezes em período eleitoral, serem os projetistas incensados. Nem se fala das falhas dos projetos. Nem se fala do esforço coletivo de quem antes e durante a obra tentou compensar as ditas falhas. Também não me parece haver muito conhecimento da matéria (claro que conhecimento é mais bonito do que “skills” ou “know-how”) por parte de quem incensa e de quem contratou projetistas de renome, que desenvolvem os seus projetos com grande insensibilidade relativamente a quem depois vai fazer a manutenção daquelas infraestruturas.
Quando me falam assim, de erros de projeto, lembro-me sempre do grande arquiteto Calatrava, quando na cerimónia de assinatura do contrato para ampliação da gare do Oriente para receber o TGV, sem concurso publico, confessou os erros do projeto original que não iria agora repetir.
Claro, legalmente pode isentar-se de concurso público quem faz uma ampliação, por razões de direitos de autor; mas quem precisa de ampliar quando se podia fazer uma infraestrutura para o TGV independente, com a vantagem de “fugir” à presença incómoda da estação de metro mesmo por baixo, na vertical da ampliação? – que falta de visão integrada.
Diga-me, por favor, como podíamos ter evitado os erros de Calatrava, com aquela cobertura que deixa o noroeste em dias de chuva descer até aos cais (coitados dos passageiros, recolhidos na sala de espera um piso abaixo, a ter de correr escada rolante acima quando sentem o comboio na Centeeira).
Deixe-me citar-lhe uma troca de palavras numa reunião de obra durante a discussão dos projetos da gare do Oriente e da estação do metropolitano: Santiago Calatrava: Sabe quem eu sou? Yo soy Calatrava, e o interlocutor: e eu sou o diretor de Exploração. Mas vingou o erro de Calatrava.
Como pode, assim limitado pelas linhas de orientação superiormente definidas, um técnico convencer o projetista de que está a laborar em erro, sem ter ao seu dispor os mecanismos descritos na “Sabedoria das multidões “ de James Surowiecky?
Comentário final
Receio que alguém possa interpretar algumas passagens do seu comentário como falta de confiança, sua ou minha, em alguns executantes das tarefas de manutenção das nossas redes de transportes. Devo reiterar a minha confiança nos técnicos de manutenção que no último ano desempenharam as suas tarefas nos nossos operadores de transportes, muitas vezes sem os meios para isso e outras vezes sendo preteridos pelo recurso a contratação exterior, com as pechas burocráticas e os riscos de sujeição a entidades que privilegiam o lucro em detrimento do bem estar da comunidade. Apenas chamei a atenção para que, se os técnicos qualificados ficaram em Houston ou em San Diego, e não embarcaram na Deepwater ou no Carnival Splendor, os técnicos que lá estavam foram vítimas e não responsáveis. Como diz, erros de gestão.
Porém, a conclusão do seu comentário tem a minha admiração e peço licença para utilizar a sua frase, perfeitamente integrável no espírito do “Sabedoria das multidões” de James Surowiecky: “O trabalho em equipa – projectistas, técnicos de manutenção – …é a única forma de poder reduzir a probabilidade de acidentes.”