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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Johan Galtung, as amoras e as azeitonas do meu país

Volto a citar Johan Galtung: "o arquetipo da violencia estrutural (meios de impedir os individuos de desenvolverem o seu potencial) assenta na exploração dos grupos mais fracos pelos que estão no topo da cadeia do poder".

Isto não é o que dizem os teóricos das universidades, apóstolos do neoliberalismo, crentes na desregulação e na redução dos rendimentos do ator trabalho de modo a conter os custos de produção através do aumento do desemprego.

Muito menos o que insistem os não menos teóricos do FMI ao recomendar mais reestrutuações laborais, leia-se despedimentos para um crescimento futuro (passando pela falencia da segurança social).

Mas é o que resulta da observação da realidade, o domínio dos mecanismos económicos e financeiros pelos mais fortes e a consequente desigualdade crescente (mais uma vez cito os gráficos com base em dados reais de Pikety, Zucman e Wilkinson).

Lembrei-me disto a propósito das amoreiras do largo da Luz. As amoras já estão maduras, e caem esborrachando-se no chão, desperdiçadas pelas crianças, tanto como as folhas da árvore que já não alimentam bichos da seda.
Perdem-se as amoras, as folhas das amoreiras, e dentro de uns meses, as azeitonas que caem sem que aproveitem a sua energia potencial, energia na aceção literal.

Como diz a citação de Galtung, há meios de imoedir os indivíduos de desenvolverem o seu potencial.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Da Oxfam a Davos

O relatório da Oxfam de 2014 é claro: a diferença entre os ricos e os pobres aumenta a uma velocidade excessiva.
80 pessoas detêm a mesma riqueza de outras 3500 milhões de pessoas.
Vendo de outra forma, 1% da população, os mais ricos, cerca de 70 milhões de pessoas, têm 48% da riqueza mundial, isto é, quase metade desta.
Analisando a evolução dos ultimos 3 anos, tem-se para o numero de pessoas com a riqueza de metade da população mundial:
2009.............. 388
2013..............   85
2014..............   80
E para a percentagem de riqueza mundial detida pelos 1% mais ricos:
2009.............  44%
2014.............  48%
Os dados indicam portanto que a desigualdade aumenta.
Dirão os adeptos das ideias de Haiek, Friedman, Thatcher e Reagan,  do pensamento dominante dos decisores da união europeia, que possivelmente se estará numa parte descendente de uma curva sinusoidal, e que a desigualdade diminuirá mesmo que não se faça nada.
Tambem poderão dizer, como reação às medidas de quantitative easing de Mario Draghi, em janeiro de 2015 (BCE e bancos centrais nacionais podem comprar no mercado secundário dívida pública) que continuam por realizar reformas estruturais (penso que o que querem dizer é a contínua desvalorização do fator trabalho para o fator capital poder crescer), e que  enquanto elas não se realizarem as medidas de austeridade não darão efeito.
É uma espécie de retórica escolástica, encontrar sempre uma desculpa quando os dados dizem o contrário. Prometer a quem trabalha (os falhados, como dizia Thatcher, incapazes de criar os próprios negócios)  reduzir os seus rendimentos para que o custo de vida baixe e assim haver crescimento (como, se só há crescimento se houver investimento e só há investimento se houver remuneração do capital investido?) .
Neste blogue já se contou a história do simpático contramestre da manutenção das máquinas de bilhetes do metropolitano de Lisboa que, há muitos anos, dizia em todas as conversas que o que o metropolitano precisava era de uma reestruturação.
Qualquer coisa que iluda as pessoas e que nunca se atinja.
Ou que, quando se atingir, volte a ser preciso outra reestruturação.
O aumento da desigualdade reflete um fenómeno físico num sistema abandonado a si próprio, sem correção das forças dominantes. Os elementos de maior rendimento de funcionamento, precisamente por isso, tendem a aumentar a distancia dos elementos de menor rendimento. É a lei de Fermat-Weber.
Os dados mostram isso. É o que está registado no livro O espírito da igualdade, de R,Wilkinson e K.Pickett, ed.Presença, e recentemente, com mais impacto mediático, O capital no século XXI, de Thomas Piketty, ed.Temas e Debates, com a evidencia de que a desigualdade aumenta porque o rendimento dos elementos financeiros, o crescimento do capital, é superior ao rendimento do sistema produtivo de bens úteis, ao crescimento do PIB.
Mas não era preciso a evidencia cientifica do tratamento dos dados.
Vê-se, a desigualdade, basta ver as dificuldades de quem está desempregado e a quantidade de matrículas novas de Mercedes, Audi e BMW. Basta ver a obscenidade dos anuncios na televisão de automóveis de 40.000 euros ou mais, logo a seguir a programas em que os comentadores repetem que não há dinheiro porque os portugueses viveram acima das suas possibilidades.

Por tudo isto, não tenho a mínima confiança nos senhores economistas que nos governaram e governam e que nos conduziram aqui. A esta desigualdade crescente, depois de durante anos e anos (muito antes da crise de 2008), nos mentirem a todos garantindo que as desigualdades diminuiam.
Mentiram, e não foi por causa da crise de 2008 que as desigualdades cresceram.
Nem são suficientes as medidas de Mario Draghi, que nem sequer igualam o poder de intervenção da reserva federal americana.
Não é de reformas estruturais que a Europa e os paises endividados precisam. Já dizia Chandler, "structure follows strategie". E a estratégia tem de ser o cumprimento da declaração universal dos direitos humanos,  centrada no emprego e na dignidade da vida.
Não nos negócios dos mercados primários e secundários dos bancos, nas decisões de assembleias de acionistas que não respeitam o princípio uma voz um voto, no sigilo bancário e respetivos off-shores... nos mecanismos formais de democracias que permitem governantes como os que temos.

PS em 28 de janeiro - Um pequeno esclarecimento referente à lei de Fermat-Weber. Quando digo que o sitema está abandonado a si prórpio não quero dizer que ele está isolado de influências externas. Se estivesse isolado a lei da entropia máxima conduziria a um estado caótico em que a distribuição seria mais ou menos uniforme. Refiro-me antes a um sistema em que se permite que os elementos dominantes possam introduzir no sistema forças que os mais fracos não têm, agravando progressivamente as desigualdades. Por alguma razão os excedentes comerciais da Alemanha igualam os defices comerciais dos paises do sul da Europa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O choque de civilizações de Samuel Huntington

Penso que a designação "choque de civilizações" é um pouco forçada, típica da perspetiva egocêntrica norte-americana. 
A minha professora de história e filosofia separava muito bem os conceitos de civilização e de cultura. 
Desenvolveu-se de facto uma ideologia e uma cultura wahabita de retrocesso medieval e aos tempos biblicos de "olho por olho, dente por dente". Por sinal patrocinada atualmente pela Arabia Saudita, que pela sua aliança com os USA representa um papel dominante nisto tudo, desde o preço do petróleo à geo-estratégia do médio oriente.
Em termos práticos, o choque de culturas manifesta-se ao nivel das pessoas nos atentados terroristas. 
Mas aqui penso que é necessário o estudo caso a caso dos intervenientes. 
O melhor exemplo para mim é o livro de Haruki Murakami, Underground (existe uma edição em português  da Tinta da China) em que ele entrevista autores e vitimas do atentado no metro de Toquio. 
É necessário estudar bem as circunstancias e as causa em cada atentado, a exemplo do que se deve fazer nos acidentes de transportes. 
No caso de Paris parece clara a influencia da cultura  das periferias de Paris e as circunstancias de dificil emprego dos jovens das comunidades imigradas. 
No caso de Toquio a doença dos autores era uma crença numa seita religiosa de derivação cristã, não quaisquer dificuldades económicas, antes desadaptação social e fragilidade psicótica. 
Mas claro que os comportamentos desviantes de pessoas originárias de culturas islamicas estão a ser mais mediáticos (não esquecer o "cristão" Breivik que assassinou 72 jovens na muito civilizada Noruega), desde as mortes por telecomando de crianças armadilhadas na Nigéria até às chicotadas em publico na Arabia Saudita do blogger Raif Badawi (https://www.facebook.com/pages/Free-Saudi-Liberals-%D8%A7%D9%84%D9%84%D9%8A%D8%A8%D8%B1%D8%A7%D9%84%D9%8A%D9%88%D9%86-%D8%A7%D9%84%D8%B3%D8%B9%D9%88%D8%AF%D9%8A%D9%88%D9%86-%D9%85%D8%AC%D8%A7%D9%86%D8%A7/435007313283066). 
Por suprema hipocrisia, o ministro dos negócios estrangeiros da Arabia Saudita esteve na manifestação de Paris.
Cito a historiadora marroquina Hanane Harrath numa excelente reportagem do DN: "os responsáveis muçulmanos não podem manter por mais tempo o fosso que é defender a modernidade tecnológica sem modernidade intelectual. O desafio que enfrentam é o de dessacralizar crenças e dogmas. O nosso drama é que todos os dias eles impedem isso".  
E um anónimo ativista saudita: "a liberdade de expressão nunca existiu no meu país. É hipocrisia as autoridades terem condenado o ataque em Paris, mas também são hipócritas os lideres mundiais que se manifestam em defesa da liberdade de expressão e continuam aliados da Arábia saudita. Não é principalmente a defesa da liberdade que juntou todas estas personalidades e sim o ponto comum, a condenação do terrorismo".
Dificil, resolver isto tudo, mas existem os padrões e os mecanismos. 
Existe uma ONU, uma declaração universal dos direitos humanos, uma UNESCO e a possibilidade de alguns governos e algumas organizações não governamentais funcionarem como mediadores. 
Foi assim que se resolveu (penso) o conflito na Irlanda do norte e no pais basco. 
Existem tambem ferramentas de analise económica que já demonstraram a necessidade de alterar algumas regras (comércio de armas, de droga, regulação de mercados e de off-shores, controle da corrupção dos governos dos paises menos desenvolvidos...) e de reduzir as desigualdades sociais em todos os países (ver http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2014/10/os-congressos-das-elites-e-o-que-as.html e os livros fundamentados em análise de dados:  O capital no século XXI de Thomas Piketty, ed.Temas e Debates, A riqueza oculta das nações de Gabriel Zucman, ed Temas e Debates, e O espírito da igualdade  de R.Wilkinson e K.Pickett, ed.Presença).

Pena a comunicação social, essencial para defender a liberdade de expressão que desempenha um papel importante na solução, ajudar a ocultar factos para não prejudicar os interesses de grandes companhias(volto ao exemplo das ligações com a Arabia Saudita, mas o problema é mais geral, claro).
Veremos a evolução disto tudo, mas convem ir falando disto, no meio de opiniões mais e  menos controversas.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os congressos das elites e o que as elites andam a ler

Confesso que não gosto de ir a seminários, conferencias ou congressos, mas até gosto depois de lá estar, se o assunto tem interesse técnico e impacto na comunidade.
Também vou a muito poucos.
Mas choca-me, talvez por excesso de sensibilidade minha, o ar soberano das elites que os promovem, que neles se exibem, que neles demonstram a incapacidade para fundamentar as suas opiniões segundo o método científico.
Raramente apresentei trabalhos em seminários. Das poucas vezes fiquei com a ideia de que  as pessoas não tinham seguido o meu powerpoint. Que até o moderador não  tinha percebido. Certamente por limitações minhas.
Choca-me ainda ver a auto-satisfação e o cabotinismo dos governantes ou familiares que comparecem nesses seminários, acolitados pelos presidentes dos eventos, na maior parte das vezes ligados aos interesses de empresas ou grupos económicos mais ou menos internacionalizados que os patrocinam.
Para mim, o sucesso de um seminário, congresso ou conferencia medir-se-ia por uma alteração de comportamento e um inicio de atividade segundo um rumo demonstrado no evento como util para a comunidade.
Mas julgo que o sucesso é antes medido pelo impacto mediático, talvez até diplomático, pelo marketing das empresas e pela visibildade dada a alguns oradores, moderadores ou presidentes do evento. Ou por algum negócio facilitado.
Não quero dizer que não haja boas intenções ou voluntarismo desinteressado nalgumas iniciativas.
Ou simplesmente consciencia de responsabilidade social de uma ou outra fundação.
Veja-se por exemplo o seminário sobre a liberdade na democracia. Quando circulou o convite para assistir já estava o programa fixado. Não houve apelo público a apresentação de comunicações. E nos paineis o peso de personalidade mediáticas.
Pode ser defeito meu, insuficiencia minha de participação cidadã, mas nenhum dos participantes teve alguma vez contactos comigo ou com o círculo dos meus colegas e dos meus amigos. Nem no serviço militar, nem na universidade, nem na atividade profissional.
Reparem que não estou a vitimizar-me, conheci muita gente boa ao longo da minha vida, que teriam uma palavra a dizer. Mas não, não fizeram parte do núcleo seleto dos convidados.
Não fizeram parte das elites.
Talvez porque do ponto de visto ideológico não esteja perto dos partidos que habitualmente gerem a coisa pública, com os resultados negativos conhecidos.
Talvez porque do ponto de vista profissional tenha tido poucas relações com as profissões que dominam a economia e a politica do país, advogados, economistas.
Talvez a profissão de engenharia, a sua preocupação, quando os seus servidores não atraiçoam o que aprenderam na alma mater,  em fundamentar com dados reais de utilidade pública e em realizar com uma programação concreta.
Talvez porque não me identifico com os métodos da intelectualidade portuguesa, tão  nem com os processos de reconhecimento dos seus méritos.
Pena não ter havido um convite público, não para só para assistir, mas à participação efetiva.
Ou tomemos o exemplo da grande fundação que é um exemplo de uma politica cultural de interesse nacional. E que convidou as elites para falar das politicas públicas.
Existe uma certa ironia no tema, quando muito do que a fundação faz competiria à secretaria de Estado da cultura.
Existe uma ironia quando o secretário de Estado da cultura comparece no evento e é cumprimentado pelo presidente da fundação, emérito profissional da banca.
A cultura em simbiose com as grandes empresas petrolíferas e com as elites bancárias.
Não tem mal nenhum, sempre que o Metropolitain de Nova Iorque transmite uma ópera não se esquece de lembrar que isso só foi possível graças ao generoso apoio dos seus mecenas, acionistas principais de empresas que geram lucros.
Mas choca-me, como disse, ver perguntar-se às elites o que se deve fazer para sair desta crise, quando foram as elites que dirigiram o país, que aconselharam os seus políticos, que formataram o pensamento dos leitores dos jornais de opinião e dos eleitores.
Eleitores esses, quer tenham votado quer se tenham abstido, que são usados, ou desfrutados, pelas elites para justificarem o seu poder politico e o seu poder económico. E depois de desfrutados, acusados de serem os responsáveis pelos gastos acima das posses do país e levados a pagar o resgate.
Mas eis que o professor de economia da universidade norte-americana, autor de comentários lidos com reverencia, propõe em plena conferencia, com vivacidade intelectual, a indexação do pagamento da dívida pública ao crescimento da economia.
Quando leio no jornal acode-me à ideia a pergunta, o que andam a ler as elites tão ligadas ao sistema neste país (ou na tal universidade norte-americana)?
E tento adivinhar, andam a ler o capital no século XXI de Thomas Piketty, já publicado em português pela Temas e Debates/Círculo Leitores, que enchem as montras das livrarias.
Já aqui foi referido, o livro. O seu tema central é, fundamentando com a análise de dados reais desde o século XVIII, o ser maior a taxa de retorno do capital do que a taxa de crescimento da economia, e que isso só pode gerar desigualdades sociais. Como solução, uma discreta taxação dos rendimentos do capital com base nas transmissões automáticas entre bancos. Sim, era o fim do sigilo e dos off-shores, uma espécie de utopia. Mas acalmem-se as elites que Thomas Piketty não se confessa nem quer ser revolucionário.
De modo que o professor da conferencia sobre politicas públicas resolveu interpretar assim Piketty.
E eu confesso que não sei se bem se mal, mas sei que os pobres economistas andam entretidissimos e preocupados a tentar descobrir erros no Execl de Piketty, sem conseguir.
Mas há um problema tipo paradoxo.
O livro tem 910 páginas e o seu autor diz que o escreveu para convencer os eleitores, não os politicos. De facto, eleitores bem informados arrumariam os politicos defensores da austeridade anti-investimentos com as análises e os gráficos deste livro, mas teriam de o ler. Embora grandes defensores da austeridade a tout prix como Oliver Blanchard e Vitor Gaspar andem agora a pregar "investimentos inteligentes", talvez porque as taxas de juro para o nosso país sejam agora de 3,5% quando eram em abril de 2011 de 11% .
910 páginas para mudar o sistema é pedir demasiado aos eleitores, embora pareça que não devia ser necessário lê-las para acreditar que não podem ser os bancos (e Wall street) a decidir as regras do jogo. Assim como assim, se a EuroDisney é um sucesso de procura, por que razão tem 1700 milhões de euros de dívida? Não deveria antes mudar-se as regras bancárias?
Mas enfim, tentando converter leitores em eleitores, apresento três gráficos do livro, com as legendas do autor. Vejam como no tempo dos Beatles o mundo era mais igualitário e havia esperança (Imagine...):





Ver juntamente com este livro os seguintes:

- A riqueza oculta das nações, inquérito sobre os paraisos fiscais, de Gabriel Zucman, ed, Temas e Debates/Círculo Leitores, 143 páginas

- O espírito da igualdade, por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor, de Richard Wilkinson e Kate Pickett, ed. Presença, 350 páginas

domingo, 11 de maio de 2014

Thomas Piketty, o capital no século XXI

Este blogue já tinha reparado na referencia que Manuel Maria Carrilho tinha feito ao livro, chamando a atenção para a sua tese, fundamentada na análise de dados reais ao longo de séculos, que a desigualdade na distribuição de rendimentos aumenta sempre que a taxa de retorno do capital é superior à taxa de crescimento da economia, que em consequencia existe acumulação de capital no seio dos 1% mais ricos em detrimento da maioria, aumentando a desigualdade.

http://en.wikipedia.org/wiki/Capital_in_the_Twenty-First_Century

Os comentadores televisivos de direita e os propagandistas do atual governo andam em pânico com o sucesso internacional do livro, mas não conseguem contestar os dados e a interpretação dos dados.
Fundamentalmente porque ele diz e prova o mesmo que  livros como os donos de Portugal e como os sindicalistas e os não sindicalistas das manifestações contra os cortes vêm dizendo: que a economia desregulada (os mercados...) conduz ao pagamento das emergencias pelos salários e pelas pensões (até o senhor doutor Catroga, na entrevista ao DN de 10 de maio de 2014 o diz: "as pessoas, nos países endividados,...são quem tem de financiar os custos do ajustamento") e ao reforço da direção da economia pelas famílias ricas e suas dinastias e pelos super-assalariados que os servem, como os funcionários do FMI e do BCE (isto é, oligarquia e plutocracia, ao invés de democracia; não é possível ter simultaneamente desigualdade e democracia).

E mais em pânico ficam quando Piketty propõe uma medida mitigadora: a taxação progressiva sobre os rendimentos dos capitais (seria esta a ameaça do atual primeiro ministro no caso do chumbo de medidas pelo tribunal constitucional?).
Lá vão os comentadores e propagandistas do governo (aguarda-se a reação de João Cesar das Neves, embora o papa Francisco também não goste de fossos de desigualdade) ameaçar com a fuga dos capitais para a Holanda, Inglaterra e restantes off-shores (a menos que os respetivos governos e os eurocratas tenham lido o livro). Talvez achem que Piketty é marxista e contentam-se em mandá-lo para o inferno e pô-lo no index.
Podiamos começar pelo fim do sigilo bancário. Numa altura em que o comércio ilegal internacional de armas, droga, escravatura e matérias primas é feito de sangue, não seria mau começar por aí.
Que dirá Ban-ki-moon?
Ou podiamos ser mais modestos, em Portugal. Acelerar a taxa Tobin e, de forma inovadora, transformar, por exemplo, 40% da valorização bolsista dos donos de Portugal em propriedade do Estado com fins exclusivos de transação na bolsa e injeção dos proveitos na segurança social. Poupava nas transferencias, não se ia aos depósitos das grandes fortunas, cumpria-se a sugestão de Piketty, combatia-se a desigualdade, não era?
Podia-se discutir isto na campanha eleitoral para 25 de maio...

Curioso reparar na reação do senhor ex-ministro João Salgueiro quando se saiu no programa Olhos nos olhos, perante o espanto de Judite de Sousa e o silencio cumplice de Medina Carreira, que "os últimos dados não dizem que a desigualdade tenha aumentado". Cumplice porque os indicadores de pobreza e o coeficiente de Gini dão resultados diferentes se modificarmos os patamares definidores da pobreza (90 centimos por dia) e a paridade do poder de compra.
Devia mesmo discutir-se isto na campanha eleitoral.