Mostrar mensagens com a etiqueta cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cultura. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O ministério da Cultura

Com o devido respeito pela cidadã Teresa Morais e pela sua ação cívica, mas depois de 4 anos de uma política cultural que nos envergonha, e parafraseando António Aleixo, direi que vós, que do alto do vosso governo anunciais um novo ministério da Cultura, calai-vos que podem os deputados querer um ministério da Cultura a sério.

sábado, 24 de outubro de 2015

Folio, festival literário em Óbidos

Pedro Mexia, que não pode ser acusado de ser um perigoso esquerdista, moderou durante o festival um encontro com Eduardo Lourenço e Hélia Correia. A finalizar, pediu aos dois  um comentário sobre o facto de um agente político ameaçar com uma reação da União Europeia e do mercados.
Eduardo Lourenço foi-se perdendo em divagações até que se interrompeu e depois disse depressa: "em linguagem corrente, é uma chantagem". E a sala bateu palmas. Depois Hélia Correia disse que a sua imaginação é mais de enredos, e então o que tinha imaginado era que o povo tinha decidido uma coisa e foi ao palácio do príncipe para a propor. Mas o lacaio à porta disse-lhes que não valia a pena estarem a perder o seu tempo e o do principe, porque já se sabe o que o principe acha de tudo isso. E Hélia Correia concluiu que de facto se poupou tempo. Enquanto os gregos passaram por várias negociações com o principe, várias eleições e um referendo para depois ficarem acabrunhados, o povo de cá fica logo acabrunhado se seguir o conselho do lacaio. Mais palmas da assistencia.
E eu, que de forma preconceituosa pensei que o Folio era um encontro fechado de uma elite de costas voltadas para a realidade, tiro-lhes o chapéu, pelo menos a Eduardo Lourenço e  Hélia Correia.
É isso, a cultura pode valer mais do que 1% do PIB, pode ser subversiva para com o poder instalado. Provavelmente por isso é que o primeiro ministro da Hungria deixou de ir à ópera, depois de ter sido vaiado num espetáculo. Coisa que não poderá acontecer em Portugal. Nunca o presidente da República ou o seu primeiro ministro foram vistos no São Carlos...  

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O share da TV - Don Giovanni

Reparo que na secção de espetáculos e TV do jornal a notícia é que no dia anterior, 27 de dezembro, sábado, a audiencia da RTP2 foi de cerca de 1,1% , a pior do ano.
Reparei porque nesse dia tinha assistido à retransmissão do Don Giovanni, gravado em 2006 na inauguração do teatro das figuras de Faro. Cantores portugueses, à exceção do protagonista, Nicola Bau.
E tinha-me parecido um espetáculo de qualidade elevada, digno de figurar na programação do canal Mezzo, por exemplo.
Pois terá sido o dia de pior audiencia do canal RTP2.
Não vou culpar o público. Há anos, quando o São Carlos levava a ópera ao Coliseu, ele enchia-se. E hoje também se voltasse a haver ópera no Coliseu.
Também me recordo, sempre que se fala de cultura, da resposta de uma senhora, do povo, como se costuma dizer, que assistia à gravação de um "reality show" e dizia alegremente para a entrevistadora: "Sei muito bem que isto não é cultura, mas é disto que gostamos e estou muito contente por estar aqui a assistir".
É a diferença entre as senhoras do povo e os hierarcas que no governo ou nas instituições tomam decisões ou as boicotam.
As senhoras do povo sabem o que é cultura, os hierarcas terão aprendido a não saber o que é a cultura.
Ou simplesmente, a avaliar pelo comportamento dos senhores presidente da República, primeiro ministro e ministra das finanças, serão culturalmente extremamente limitados.
Por isso imagino Mozart e o seu libretista da Ponte a projetar na sua personagem D.João as psicopatologias dos detentores do poder. D.João diz claramente que não suporta oposição e não admite réplicas. Ilude o povo que se arma para o castigar.Subordina todos à sua vontade.
Ora é sabido, depois de Freud, que a necessidade de D.João se afirmar como conquistador (do governo se afirmar como triunfador na sua estratégia política) deriva da sua impotência de se realizar humanamente (do governo conseguir investimento e emprego).
Por isso o vejo como uma metáfora do imobilismo e da incapacidade do atual governo de investir nas coisas certas, recuando quando se trata de concretizar, como no caso da ligação ferroviária a Madrid ou de candidatar, aos fundos comunitários, investimentos em infraestruturas produtivas até 26 de fevereiro de 2015.
Se o dia da transmissão de Don Giovanni foi o da pior audiencia da RTP2, foi porque o governo é impotente para conduzir uma política eficaz de cultura.
Por isso se desculpará, como qualquer afetado por uma doença psicológica, com causas externas a si próprio, como não haver dinheiro (num país em que a gestão do pavilhão atlantico não parece ter problemas, em que os espetadores acorrem em massa aos festivais de verão, em que se vendem mais de 10.000 automóveis por  mês?) nem procura de bens deste tipo de cultura. E que o melhor será fugir à ira popular como D.João, extinguir o canal RTP2 e privatizar a RTP.
Isto é, deixar que a programação seja decidida e aprovada numa assembleia de acionistas de acesso restrito e em que não é respeitada a regra "uma voz, um voto".
Já no tempo dos antigos atenienses se sabia que isso não era democracia.

Ver também:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/12/citacao-de-pedro-burmester.html

terça-feira, 1 de julho de 2014

A entrevista do senhor secretário de Estado da Cultura

O manifestante empunhou o seu cartaz. 1%, orçamento da Cultura.
Tão longe da realidade.
O senhor secretário de Estado da Cultura acha que não pode ser.
Este blogue foi muito crítico da atuação dos ministérios da Cultura dos governos anteriores.
O atual responsável foi entrevistado pela Antena2.
Respondeu de modo mal educado, ao mesmo tempo que se vitimizava por o entrevistador não o deixar falar.
Mas o entrevistador deixou-o falar, deixou-o dizer que a situação da Cinemateca não é crítica porque a sua direção não o informou disso (é uma das carateristicas do estado de negação, se se repetir que a cinemateca não está em situação crítica ela não estará) .
Deixou-o dizer que antes de setembro não anuncia o que vai ser a programação do São Carlos (pobres bem intencionados diretores do São Carlos, já devem ter medido bem a extensão do desastre da politica cultural deste governo).
"Se estivesse atento às minhas intervenções no Parlamento não me fazia essa pergunta".
Arrogante, prepotente e mal educado, o senhor secretário de Estado... mas realmente votaram naquele partido, há 3 anos.
Pode ser que não o seja tanto se perder as eleições.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

o canal Mezzo em fevereiro de 2014: Le fou d'Elsa, Laurent Petitgirard e Louis Aragon

Graças ao canal mezzo, tomo conhecimento do compositor contemporâneo Laurent Petitgirard e de algumas das suas composições, num concerto em Moscovo, em Fevereiro de 2013.
Uma das peças é a interpretação musical do poema de Louis Aragon, “Le fou d’Elsa” (o louco por Elsa), sobre os tesouros da cultura islâmica, como o poema persa Majnun e Leila, equivalente ao Romeu e Julieta, a propósito da conquista de Granada pelos reis católicos,   sobre a riqueza da diversidade cultural, sobre a intolerância religiosa, sobre a decadencia das sociedades islâmicas depois da queda de Granada, sobre a colonização que se lhe seguiu.
Pena não serem utilizados argumentos destes para a compreensão entre os povos.
Talvez seja porque a cultura é uma arma, mas que deve estar escondida, se necessário cortando-lhe as verbas, apesar de ser rentável, como faz o atual governo, não vá o povo votar contra os seus interesses, dele, governo.
Se puderem vejam nesta ligação, “”Le fou d’Elsa”:



sábado, 28 de dezembro de 2013

Citação de Pedro Burmester

"Tenho receio das pessoas que têm poder e receiam a cultura, ou não a entendem, ou não a acham necessária, ou não a acham vital para o desenvolvimento seja duma cidade, seja dum país, ou até para o bem estar das pessoas" - entrevista ao Expresso de 7 de dezembro de 2013.

Recordo o ar contrafeito de quase todos os membros do atual governo, por serem obrigados a assistir a um concerto de uma orquestra sinfónica, no verão de 2011, numa iniciativa oficial que pretendia disfarçar o desinvestimento na cultura. Liam-se nos seus rostos os sinais da incomodidade de quem se vê numa situação a que não está habituado; no caso, de quem não costumava, e não costuma, ir a concertos sinfónicos.
Melhor que eu, descreve esta triste circunstancia, de sermos governados por uma maioria de incultos, a sabedoria da senhora que assistia a um "reality show" e disse para a reporter: " Eu sei bem que isto não é cultura, mas é disto que gostamos".
É o primeiro passo para resolver um problema, identificá-lo, saber que o governo não gosta ou não entende a cultura.
É um ponto de partida.
E isto não tem nada que ver com ser-se de esquerda ou de direita.



sábado, 16 de novembro de 2013

La fille du regiment

Penso que é precipitada a ideia de que La fille du regiment é uma ópera ligeira e sem pretensões.
A ópera pode ser subversiva como a canção de intervenção e de protesto.
O primeiro ministro da Hungria foi vaiado quando se dirigia ao teatro de ópera.
Talvez por isso, e pela sua grande insensibilidade ao que seja arte, não se veem nem o senhor presidente da República nem o senhor primeiro ministro no camarote principal do São Carlos.
E não será por vergonha por estarmos tão longe do 1% do PIB no orçamento da cultura.
Não sentem mesmo a ópera.
Toleram quem trabalha nesta área.
Aplausos para o teatro de São Carlos eu conseguiu apresentar duas óperas neste final de ano.
E permita-se-me a interpretação da Fille du regiment: uma sociedade anquilosada sob a estrutura do domínio feudal e sem instituições participativas (a nobreza austríaca na ocupação do Tirol) é contrariada pelos ideais da revolução francesa (libertando a filha da marquesa para que possa casar com o jovem lavrador tirolês dos seus afetos – que ironia do destino ser um ditador como Napoleão a espalhar ideiass de fraternidade, igualdade e liberdade). Não admira que o encenador tenha apresentado a heroína como se fosse a estátua da Liberdade.
Liberdade que, nos termos dos ideais da revolução francesa, não parece estar de saúde no país dirigido pelas estruturas anquilosadas do senhor primeiro ministro e do senhor presidente da Republica.
Aplausos especialmente para os intérpretes, de que se destaca o soprano Cristiana Olveira, sem desemerecer no bom nível dos restantes.

sábado, 17 de agosto de 2013

O museu do carro elétrico do Porto

Tomo conhecimento pelo JN do protesto dos trabalhadores do STCP pelo fecho, há mais de 6 meses, do museu do carro elétrico do Porto, em Massarelos.
Nos tempos que correm já não se tem confiança no que dizem os decisores, pelo que pouco crédito dou à afirmação de que o projeto de remodelação do edifício não foi abandonado.
Até que se possa acreditar que o projeto é para avançar (com fundos do QREN, se não forem sobranceiramente desviados pelos governantes para outros fins), concordo com os trabalhadores do STCP; o fecho do museu é um crime público por omissão, próprio de um país atrasado que não dedica à cultura verbas proporcionalmente às disponíveis, apesar do museu gerar receitas e ter programas interessantíssimos de apoio social a jovens de meios problemáticos (reconstrução de carroçarias de elétricos, por exemplo).

http://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_do_Carro_El%C3%A9ctrico

domingo, 28 de julho de 2013

A Antena 2, no meio da tormenta

Este blogue andava admirado, como os decisores da RTP/RDP ainda não tinham embirrado com a Antena 2.
Por que mistérios andariam distraidos deixando-se cumprir o seu serviço público cultural a um nível francamente superior ao que seria de esperar do panorama audiovisual português.
E então um comunicado do senhor diretor Rui Pego chama-me à realidade.
São suprimidos os programas de Alexandre Delgado, Antonio Cartaxo, Pedro Amaral e Rui Vieira Nery.
O comunicado do senhor diretor apresenta uma desculpa que se tornou fatal: é preciso fazer cortes (e contudo, enquanto a despesa pública com a cultura for inferior a 1% do PIB é muito dificil aceitar este argumento). Mas apresenta outros, que me parecem simplesmente pífios, como por exemplo querer garantir a diversidsade musical recorrendo a produção própria (eu pensava que António Cartaxo era jornalista da estação, mas confesso que posso estar enganado, ou o talvez já estivesse reformado, não sei e a noticia não explica).
Ora, não reconheço ao senhor diretor nivel intelectual e formação musical para utilizar argumentos desses.
Acho que deve limitar-se a usar o argumento da força e  do horror à cultura dos nibelungos.
Alguns dos episódios dos programas que agora cessam tiveram um nivel inteectual, mesmo por padrões internacionais, muito elevado, enquanto resultado de investigação e divulgação de aspetos desconhecidos e humanos da produção musical património da Humanidade.
Alguns dos autores são compositores de elevado nível, ou musicólogos de investigação rigorosa, isto é, sabem do que falam, são produtores ou cultivadores de musica, isto é, sabem do que falam (sabem os decisores do que decidem?).
Mas enfim, é preciso mostrar cortes ao senhor ministro da cultura (o primeiro  ministro, cujo nivel intelectual é francamente baixo, nunca tendo saido da vulgaridade das cantigas de maior audiencia televisiva).
É preciso que os nibelungos continuem a sua tarefa destrutiva.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

o museu do brinquedo de Sintra

É verdade que cultura é quando os humanos se conseguem libertar das tarefas da subsistencia para criar uma dependencia de um nível mais elaborado.
Mas pode sobreviver-se com algumas limitações económicas continuando a praticar cultura.
Não é o entendimento do atual governo, embora pareça, pelo exemplo do museu do brinquedo, estar-se perante um simples caso de ignorancia das realidades por quem fez a lei das fundações.
Ou de como é perigoso pôr a circular na internet comentários furiosos contra os gastos das fundações.
Já tinhamos o exemplo da casa de Paula Rego em Cascais. Uma desajeitada intervenção estatal.
Temos agora o exemplo do museu de Sintra, ameaçado de fecho porque a câmara de Sintra não pode continuar a pagar-lhe 5 mil euros por mês, o que implicaria, de acordo com a lei das fundações, perder verbas.
Logo, a redação da lei foi feita segundo critérios primários, do estilo "o que era bom era cortar nas fundações".
Os senhores governantes  têm com evidencia um défice cultural muito grande, e uma grande dificuldade em justificar as suas medidas, porque num país em que o ministro das finanças anda de BMW série 7 pago pelos contribuintes (e pelos credores)  a desculpa de não haver dinheiro é curta.
Citando a diretora do museu, Ana Arbués Moreira: "Cinco mil euros por mês é pouco, mas era muito importante para nós. Era tudo oque tínhamos... a cultura deste país não interessa, é como se fosse um luxo".

A cultura não é um luxo, é uma necessidade de uma sociedade, acima de raciocínios primários de cortes cegos.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Atravesso um deserto e a sua secreta desolação

Retirado do opúsculo comemorativo do 3ºaniversário da Casa da Achada/Centro Mário Dionísio, em 29 de setembro de 2012, um poema de Jose Angel Valente, poeta espanhol já falecido:

Atravesso um deserto e a sua secreta
desolação sem nome.
O coração
tem a secura da pedra
e os estalidos noturnos
da sua matéria ou do seu nada.
Há porém uma remota luz
e sei que não estou só;
ainda que depois de tanto e tanto não haja
nem um só pensamento
capaz contra a morte,
não estou só.
Toco por fim esta mão que partilha a minha vida
e nela me confirmo
e palpo quanto amo, 
levanto-o ao céu
e mesmo sendo cinza proclamo: cinza.
Mesmo sendo cinza tudo quanto tenho,
tenho tudo quanto me foi oferecido como esperança.

A Casa da Achada é uma associação cultural aberta ao debate, partindo do espólio de Mário Dionísio e tendo-o como patrono. A sua ação neste momento é a de oposição à barbárie que a pretexto da crise pretende ignorar a Cultura.
Gostaria de salientar no poema a referencia à remota luz e a não se estar só nesta oposição à barbárie dos nibelungos que nos governam.
E a referencia à dependencia da cinza, destino fatal que a mecânica quantica descreve: o elemento dominante na Natureza é o carbono, quase tudo gira à volta da necessidade de converter a energia latente desse carbono em atividade util (até a Cultura é uma atividade útil, porque não querem perceber isso os nibelungos que nos governam?).

domingo, 21 de outubro de 2012

A incultura de quem não vê, não ouve, não fala




Diz quem está dentro destes assuntos que o orçamento que atribuíram à RTP2 de 3 milhões de euros é uma forma de a estrangular, de impedir o seu trabalho.
Mas como os bárbaros dizem, o numero de espetadores é muito reduzido e não se pode gastar muito dinheiro.
Eu penso que se deve responder com o exercício da competência e da intervenção, pelo menos enquanto seja humanamente possível com um mínimo de dignidade.
Entretanto Jorge Wemans já se demitiu do cargo de diretor da RTP2.
Programas como as sete irmãs (as grandes companhias de petróleo) conseguiram passar, como o documentário "Os donos de Portugal":
http://www.rtp.pt/programa/tv/p28826/c81758
Mas não existe só a RTP2, existe ainda a Antena2, a quem já amputaram programas de análise e intervenção cívica (recordo “Um certo olhar”), mas que ainda produz serviço cultural de qualidade, nomeadamente no campo da chamada musica clássica.
Hoje aprendi (devemos aprender sempre) que Luigi Nono, compositor falecido em 1990, também ele era interventivo.
Graças ao programa Caleidoscópio – A idade do génio

ouvi um excerto da obra de Luigi Nono dedicada à memória de Luciano Cruz, militante chileno do MIR (movimento de esquerda revolucionaria) , morto em circunstancias não esclarecidas em 1971, antes da eleição de Salvador Allende.
O texto intitula-se “Como una ola (onda)  de fuerza y luz”, e declara a perenidade do ideal de liberdade em que Luciano Cruz acreditava, numa altura em que a generosidade e  a ingenuidade faziam crer num futuro melhor para as pessoas :

Tudo ponderado, boas razões para as pessoas crescidas, muito sérias, muito competentes e bem postas, que decidem por todos nós, acharem que os orçamentos da RTP2 e da Antena2 são alvos a abater.
É mais ou menos o argumento do filme Farenheit451: depois dos bárbaros tomarem o poder, grupos de cidadãos reuniam-se para celebrar a cultura, cada um com a incumbência de decorar um livro.

Isso esperamos da incultura e do complexo de salvador único do primeiro ministro, que cantou a Nini vestida de organdi,  mas nunca sentiu as canções de Ari, nem ultrapassou as canções estouvadas das Doce.
Da incultura e da incompreensão do ministro das finanças, que acredita que os seus modelos são mais reais do que a realidade, que cita imagens literárias que se viram contra ele como o otimismo de Pangloss ou a história trágico-maritima, e que conjuga o verbo precluir como se fosse anglo-saxónico.
Da incultura e da incapacidade do presidente da República de realizar a análise, segundo todas as perspetivas que o povo português votou, e a síntese das ações a tomar, talvez porque, como dizia Saramago, confundia Tomas More com Tomas Man.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Simone Veil

Graças a um artigo de Francisco de Assis no Publico de dia 2 de agosto de 2012, leio a extraordinária citação de Simone Veil:
"A força que mata é uma forma sumária, grosseira, de força.
Muito mais variada nos seus métodos, mais surpreendente nos seus efeitos, é a outra força, a que não mata; ou seja, a que não mata ainda.
Vai matar certamente, ou vai matar talvez, ou talvez esteja apenas suspensa sobre o ser que a todo o instante pode matar; em todo  o caso transforma o homem em pedra".
                                                                           Simone Veil, a Fonte grega

Imagino a força que não mata como a insensibilidade que corta na Cultura, alinhando com os Goebbels e com os generais franquistas que puxavam da pistola sempre que ouviam falar de Cultura. Ainda ontem a RTP2 transmitiu o filme do fim do bunker de Hitler e do seu grupo de seguidores, os que amavam o seu país e o queriam salvar.
Imagino a força que não mata como o convite aos desempregados e aos reformados para se sentirem inuteis.
Imagino-a esgrimida pelos sacerdotes do "empreendedorismo" e da minimização das despesas públicas e da proteção social para os cortes na saúde (como já foi dito num debate televisivo: faz sentido gastar dinheiro com hemodiálise numa pessoa que já não produz?), na educação e na segurança social, que são as 3 maiores despesas.
Imagino-a como o crime sem nome, à distancia de uma geração de jovens, de deixar o abandono escolar afetar a população escolar, gerando nos adultos em que eles se tornarem a criminalidade, a violencia e a incompreeensão dos mecanismos da sociedade (como aliás já hoje os relatórios do PISA revelam).

Não há dinheiro, dirá o inefável ministro das finanças.
Nem pode haver, com um ministro das finanças que estima um aumento do IVA de 11% e ele baixa 2%, e com um ministro da Economia que não debate com a sociedade civil esta questão básica: nenhum país pode sobreviver a importar 80% dos alimentos  e 80% da energia primária que consome.
Isso sim, é impossivel.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Entrevista do senhor secretário de Estado da Cultura em 15 de julho de 2012

Este blogue é muito crítico para os últimos governantes da Cultura, especialmente o atual. Ver:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=cultura

A entrevista que o senhor secretário de Estado concedeu ao DN em 15 de Julho de 2012 não tranquiliza.

Salvo melhor opinião, ficou muito por dizer na entrevista, e escusava de ter dito que “o senhor primeiro ministro tem vindo a conhecer mais profundamente os problemas que afetam o universo da cultura; é uma pessoa muito sensivel às artes e ao património”.

Porque não justificou a reorganização em curso e porque achou que ainda se pode cortar mais na Cultura (claro que pode, pode sempre ficar-se mais longe do objetivo de 1% do orçamento de Estado).

Anunciou que o programa Europa criativa injetará 1800 milhões de euros na cultura, mas não se vê uma proposta de organização participativa de todo o país nesse esforço.

Devia estar a assistir-se a uma mobilização do país, de todo o país.

Teme-se que seja uma organização monocromática, da cor do governo e do senhor secretário de Estado, que contratará possivelmente o maestro Vitorino de Almeida para animar anúncios televisivos.

Secretário de Estado que é um excelente escritor (como Gabriela Canavilhas era excelente pianista e por aí se ficava, se excluirmos critérios de apreciação estética visual) mas que se fica por aí. Como parece confirmar-se pela reestruturação em curso: destaque a coisas dos livros, diluição dos arquivos e museus em grandes direções gerais (não seria preferível baixar custos mantendo as direções gerais anteriores?). E pelo despejo de tudo que meta palcos num ACE (agrupamento complementar de empresas), desde a ópera do S.Carlos ao bailado do CNB e aos teatros nacionais. Ignoram o senhor secretário de Estado e a pessoa sensível que toma as decisões que a ópera é mesmo subversiva, que continua a ser subversiva (John Adams, Nuno Corte-Real, António Pinho Vargas). Ou não ignoram e por isso decidem assim.

Decidem mal.

Eu lembro-me de ver o Coliseu dos Recreios cheio nas récitas de ópera.

E vejo no canal Mezzo produções de ópera por essa Europa fora, não necessariamente nas capitais.

Parafraseando Mário Soares a propósito do governo, o senhor secretário de Estado não sabe o que anda a fazer.

E para que não diga que só faço críticas destrutivas, aqui lhe deixo a sugestão: enquanto a RTP é pública, obrigue-a a passar às segundas feiras uma peça de teatro (não, não não me refiro a telenovelas, mas como nos anos 60 do século passado), daquelas dos Ibsen, Strindberg, Tchekov, Beckett, Pinter, Ionesco, e mais modernos, claro. E as privadas, se quisessem, também poderiam passar teatro às segundas feiras, e se não quisessem, poderiam pagar uma taxa para licenciamento da incultura que emitem, como as industrias poluidoras devem pagar as emissões de gases com efeito de estufa.
Ajudava a compensar o défice (público).

PS em 19 de julho de 2012 - os dados sobre as bizarras fusões de direções gerais (racionalizadoras do ponto de vista económico, irracionais do ponto de vista cultural) retirei-os de um artigo de Isabel Pires de Lima, ex ministra da Cultura.
De um artigo de opinião do DN de hoje sobre a crise moral e a politica cultural, em que o autor recorda o conceito de Marx de que  a primeira vez que o erro acontece na História é uma tragédia, mas a segunda vez é uma farsa, a propósito da incultura e do percurso académico de José Sócrates e de Miguel Relvas, retiro uma citação de Manuel Maria Carrilho, ex ministro da Cultura: "...é preciso recuar bem para lá do 25 de abril para se encontrar uma combinação tão grotesca de incompetencia, ineficácia e incuria, como a que nesta área (politica cultural) caracteriza o atual governo".
E quem sou eu para contrariar Manuel Maria Carrilho?









terça-feira, 19 de junho de 2012

Como é diferente o amor pela ópera na Turquia

Não entendam como um convite a um passeio turístico a Istanbul, em época de crise, mesmo com a desculpa de ser cultural.


Mas passou-me pelos olhos o anuncio do festival de ópera em Julho, em Istanbul, interessada que está a Turquia em fazer "charme" à Europa ocidental e central e segura do seu clima mediterrânico e do seu PIB crescente (aguardam-se as negociações com os revoltados curdos).

E lembrei-me da aversão que os nossos governantes têm à ópera.

Com alguma razão, quanto a mim, que ela pode ser subversiva, quando põe a nú as fragilidades do pensamento de quem detem o poder politico (ver o Don Carlos, o MacBeth ou o Boris Godounov) ou o poder financeiro (ver o Banksters, do nosso Corte Real, ou Dias Levantados, do também nosso Pinho Vargas) alem de requerer produções muito caras.

Ver o programa de Istanbul, de 7 a 19 de Julho de 2012, incluindo temas clássicos nos teatros da Europa ocidental e central, como o Rapto no Serralho, e Bajazeto, em:
http://www.istanbuloperafestival.gov.tr/eng/index.htmlhttp://www.istanbuloperafestival.gov.tr/eng/index.html

E lembrei-me também do esforço dos trabalhadores da cultura e da ópera do S.Carlos, reduzidos pelo garrote financeiro a montarem um festival no largo de S.Carlos praticamente sem referencias de ópera, de 30 de junho a 31de julho. Ver em:
http://www.festivalaolargo.com/#

Vejam ainda o programa com que o senhor secretário de estado da cultura convenceu o maestro Vitorino de Almeida a realizar concertos sinfónicos pelo país fora, com base nas várias orquestras descentralizadas existentes, de 14 de Junho a 30 de Setembro. Como de forma algo provinciana, de quem não está à vontade quando fala de musica sinfónica e, muito menos, de ópera, disse o senhor secretário de estado que esta iniciativa, que custou 495 mil euros (tanto, 25 mil euros por concerto? talvez aplicar uma taxa por cada minuto de telenovela nas televisões para cobrir as despesas…), “mostrava o lado informal da musica sinfónica” (o que é o lado informal da música sinfónica?).
Ver em:
http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=51859

Mas não deixem de ver o ar provinciano das fotografias do concerto inaugural com as senhoras ministras e senhores ministros sentados na plateia improvisada no palácio da Ajuda, constrangidas e constrangidos por terem de marcar presença numa coisa tão chata como um concerto sinfónico (vá lá que não era ópera), a que nunca iriam se não fossem ministros dum governo para quem a cultura não interessa, ou só interessa se tiver valor mediático, como as perucas trans-seculares de Joana Vasconcelos nos quartos de Versailles. Que ar de baile de bombeiros e de cerimonial do regime com que ficaram todos.
http://www.portugal.gov.pt/pt/fotos-e-videos/fotos/20120614-sec-orquestra.aspx
http://www.grandeorquestradeverao.pt/programacao/programacao/


Ou, de como, mais uma vez parafraseando Júlio Dantas, como é diferente o amor pela ópera na Turquia.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Critica de ópera - La rondine (a andorinha) no S.Carlos








La rondine, opera de Puccini, estreada em Monte Carlo em março de 1917, decorria a guerra na Europa. A Itália ao lado da Inglaterra, França e USA contra a Alemanha, Áustria e Turquia. Uma guerra tribal em ponto grande.

Enquanto na preparação das batalhas os generais utilizavam o número de mortos como mais um fator de produção de vitórias, Puccini, italiano, terminava o seu trabalho com os libretistas austríacos e apresentava a sua ópera em Monte Carlo.

Como se vem dizendo neste blogue, a ópera tem uma componente subversiva.

Por exemplo, de Verdi, o Don Carlo combate de forma demolidora a insanidade da Inquisição e do poder absoluto, o Nabuco apela à liberdade de um povo, e Stifelio condena quem condena a mulher adúltera.

Houve até o caso de “La muette de Portici”, de Auber, que catalizou a revolução de 1830 que levou à separação da Bélgica relativamente aos Países Baixos.

Dora Rodrigues, a cortesã apaixonada ,e Mário Alves, o jovem de boas famílias

Marco Alves dos Santos, o poeta boémio, e Carla Caramujo, a camareira da cortesã

Aparentemente leviana e retratando de forma melodramática as angustias e os amores de um jovem sem problemas de dinheiro e de uma mulher mais madura amante de um banqueiro, a ópera La rondine, que significa andorinha, tem para nós o significado político de ser a única ópera apresentada pelo S.Carlos neste ano, após os cortes determinados pelo governo terem inviabilizado os espetáculos anunciados.

Por outro lado, um dos temas da ópera é a liberdade de movimentos da andorinha e a sua capacidade de emigrar.

Parece que nem de propósito, quando as politicas do governo forçam os jovens do país a fazer como as andorinhas.
o lustre principal do S.Carlos

o camarote presidencial sempre deserto

o salão nobre preparado para o lançamento de um modelo automóvel de uma marca de luxo, ou uma forma de reduzir o defice do teatro

Terá sido uma bofetada com luva branca nos senhores que têm dinheiro para enviar uma delegação ao campeonato da Europa de futebol mas não têm dinheiro para a cultura (governo de um país que dedica à cultura menos de 1% do seu orçamento público não merece grande respeito) nem sequer para combinar uma digressão a Madrid ou Barcelona do excelente espetáculo que o S.Carlos conseguiu produzir.

Duvido que os senhores do governo que tutelam a politica cultural percebam sequer o nível artístico atingido pelos intérpretes, de que me permito destacar a soprano Dora Rodrigues, nem o valor”de mercado”, como eles dizem, das suas prestações.

Aliás, o camarote presidencial do S.Carlos está sistematicamente vazio, não vão os espetadores vaiar eventuais ocupantes, que ainda por cima fariam um esforço insano por ver e ouvir uma ópera.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Politica cultural - Europa criativa

Ficou célebre uma afirmação atribuída ao senhor secretário de estado da cultura em resposta às dúvidas de um entrevistador: “que parte da frase ‘não há dinheiro’ é que não percebeu?”

Mas ficou uma questão.
Existe uma politica cultural na UE que reconhece que a cultura estimula o crescimento económico.
Existe atualmente um programa de apoio com validade de 2007 até 2013 dotado com 400 milhões de euros e acaba de ser formalizado o programa de apoio "Europa creativa" para 2014-2020, dotado com 1800 milhões de euros.
Estranha-se assim muito a informação do senhor secretário de estado e receia-se que a afirmação, a ter sido proferida, revele ignorância, mentira, ou simplesmente execução das diretivas da turma de contabilidade aplicada de alunos inexperientes, voluntaristas e incultos (imagem de Gabriela Canavilhas, antiga ministra da cultura de que este blogue discordava na maioria das questões, mas nesta concorda).
Evidentemente que o recurso às verbas disponíveis exige, tal como no caso da comparticipação nos fundos QREN, a elaboração de projetos rigorosos.
Que era do que a secretaria de estado deveria estar a tratar.
Estará?

Mais informação sobre o programa e sobre a sua fundamentação em:
http://ec.europa.eu/culture/creative-europe/


donde retirei a primeira frase:
“Europe needs to invest more in its cultural and creative sectors because they significantly contribute to economic growth, employment, innovation and social cohesion”

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

À atenção da antiga Secretaria de Estado da Cultura

Não vale a pena discutir a extinção real ou virtual da Secretaria de Estado da Cultura, porque os senhores governantes têm sempre, por definição, toda a razão.
E têm também razão em poupar tudo o que podem  poupar.
Mas não podiam autorizar uma pequena verba para desmontar a placa da fotografia?
Não basta  o que os senhores governantes fazem à cultura, ela também tem de sofrer com os especialistas de grafiti?


Fica na rua Ivens, em frente do prédio abandonado do metropolitano de Lisboa, para onde se tinha previsto um par de elevadores para acessibilidade, à estação da Baixa, de pessoas com mobilidade reduzida.
                                                               




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Os direitos de autor e as limitações à disseminação da cultura

Este blogue manifesta-se contra os projetos de lei que pretendem limitar a disseminação da cultura através da Internet, com o pretexto eufemista da defesa dos direitos autorais.
Na verdade, os principais prejudicados com a livre circulação de informação são os grupos editoriais.
Não se pretende eliminar os fatores de remuneração dos autores, mas a circulação das suas obras contribuem para um aumento da sua procura.
Espera-se, portanto, que não vinguem os projetos de lei que ameaçam essa disseminação.
A cultura, tal como a ciência desde que a academia de ciências britânica quebrou o sigilo, precisa de não estar escondida.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ópera no S.Carlos

Tarde de domingo de janeiro de 2012.
Terá sido, provavelmente, a última ópera apresentada no S.Carlos este ano.
E, se a política cultural do atual governo se mantiver, tão cedo não haverá ópera no S.Carlos.
Estão previstos concertos para ir ocupando os músicos, e rentabilização do espaço, como os economistas gostam, como restaurante, entre outros usos.
S.Carlos como restaurante

É verdade que existem dificuldades financeiras, mas as manifestações culturais de um povo são também um indicador importante.
Veja-se a imagem do camarote real/presidencial do S.Carlos.
Há muitos anos que não o vejo habitado.
Isso mostra bem a importância que os governos e os presidentes da República dão à cultura.
Os senhores governantes não gostam de ópera

Farão bem, do seu ponto de vista, em não irem à ópera.

Como já tenho dito, a ópera é subversiva, os compositores e os libretistas têm sempre segundas intenções.
Veja-se o caso desta ópera, Cosi fan tutte (assim fazem todas)  que se receia ser a última por muitos anos: Mozart pôs a empregada doméstica a cantar:
"Que vida maldita, a de criada!
de manhã à noite
sua-se, trabalha-se, faz-se e depois,
de tudo o que se faz, nada é para nós.
Há já meia hora que bato;
o chocolate está pronto, e a mim compete-me
cheirá-lo e ficar com a boca seca?
a minha boca não será, por acaso, igual à vossa, ó elegantes senhoras?"
Nada mal, para século XVIII, em Viena, capital do Império.
15 minutos antes do inicio. A sala encheu-se. A taxa de ocupação não justifica os cortes

Fazem bem, os senhores do governo, em não irem à ópera.
O primeiro ministro hungaro foi vaiado quando entrava na ópera de Budapeste.
Berlusconi, ainda primeiro ministro, teve de ouvir, logo a seguir ao coro dos hebreus, do Nabuco (Vai pensamento, sobre asas douradas...) o maestro Ricardo Muti a protestar contra os cortes na cultura "estou triste com o que se passa no meu país").
Os bárbaros tomaram o poder, mas ainda podemos chamar-lhes bárbaros.


Transcrevo um email recebido:
No último dia 12 de março a Itália festejava os 150 anos de sua criação, ocasião em que a Ópera de Roma apresentou a ópera Nabuco de Verdi, símbolo da unificação do país, que invocava a escravidão dos Judeus na Babilônia, uma obra não só musical mas também, política à época em que a Itália estava sujeita ao império dos Habsburgos (1840).
Sylvio Berlusconi assistia, pessoalmente, à apresentação, que era dirigida pelo maestro Ricardo Mutti. Antes da apresentação o prefeito de Roma, Gianni Alemanno - ex-ministro do governo Berlusconi, discursou, protestando contra os cortes nas verbas da cultura, o que contribuiu para politizar o evento.
 
Como Mutti declararia ao TIME, houve, já de início, uma incomum ovação, clima que se transformou numa verdadeira "noite de revolução" quando sentiu uma atmosfera de tensão ao se iniciar os acordes do coral "Va pensiero" o famoso hino contra a dominação. Há situações que não se podem descrever, mas apenas sentir; o silêncio absoluto do público, na expectativa do hino; clima que se transforma em fervor aos primeiros acordes do mesmo. A reação visceral do público quando o côro entoa - "Ó minha pátria, tão bela e perdida?"  Ao terminar o hino os aplausos da plateia interrompem a ópera e o público se manifesta com gritos de "bis", "viva Itália", "viva Verdi".
 
Não sendo usual dar bis durante uma ópera, e embora Mutti já o tenha feito uma vez em 1986, no teatro La Scala de Milão, o maestro hesitou pois, como ele depois disse: "não cabia um simples bis; havia de ter um propósito particular".
 
Dado que o público já havia revelado seu sentimento patriótico fez com que o maestro se voltasse no púlpito e encarasse o público, e com ele o próprio Berlusconi.
 
Fazendo-se silêncio, pronunciou-se da seguinte forma, e reagindo a um grito de "longa vida à Itália" disse RICCARDO MUTTI:
 
"Sim, longa vida à Itália mas... [aplausos]. Já não tenho 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto aquiesço ao vosso pedido de bis para o Va Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o côro que cantava "Ó meu pais, belo e perdido", eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual assenta a história da Itália. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente "bela e perdida". [aplausos retumbantes, inclusive dos artistas da peça] Reina aqui um "clima italiano"; eu, Mutti, me calei por longos anos.
Gostaria agora...nós deveriamos dar sentido a este canto; como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um côro que cantou magnificamente e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos."

 
Foi assim que Mutti convidou o público a cantar o Côro dos Escravos.
Toda a ópera de Roma se levantou... O coral também se levantou. Vê-se, também, o pranto dos artistas.