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sábado, 23 de janeiro de 2016

Meditação sobre as crianças de Bombaim, União Indiana



Com a devida vénia ao DN, reproduzo a fotografia de um grupo de crianças em Bombaim.
Parece daquelas fotos que são premiadas internacionalmente.
São crianças pobres com a atenção concentrada num smartphone.
A mim sugere-me a desigualdade no tratamento das crianças, que ameaça eternizar a desigualdade entre os adultos e entre as nações.
Vejo nos olhares e nas atitudes destas crianças curiosidade e inteligência.
Nada devia impedir o seu desenvolvimento pleno.
Talvez algumas tenham sucesso, apenas algumas porque as condições adversas afetam o desenvolvimento das crianças em todas as suas componentes.
O seu país, um grande e produtivo país, continuará com indicadores de subdesenvolvimento. Continuará a viver abaixo das suas potencialidades.
Os decisores por todo o mundo continuarão com as suas políticas, enganando os eleitores com ilusões de progresso, que agora se vive melhor (pudera, com os avanços tecnológicos claro que tem de se viver melhor) e os economistas académicos continuarão servilmente a justificar as suas políticas (claro, no interesse próprio).
Tento imaginar, mas pouco entendo de sociologia, humana e animal, se nas outras espécies existe o mesmo grau de falta de solidariedade entre indivíduos, se a parte mais saudável, com mais poder físico, com mais capacidade de luta pela sobrevivência, despreza assim a parte mais fraca. Se, como se diz em coloquial, também no meio animal "chacun s'arranje".
Penso que não, que o mais parecido será o sacrifício dos animais mais velhos e doentes colocando-os na periferia da manada para proteger as crias no centro.
Agora sacrificar crianças? Com os mesmos neurónios, sinapses e estômago à nascença?
É esse o significado das estísticas da Oxfam baseadas em dados do Credit Suiss (ficando de fora as off-shores e a economia paralela):
http://www.bbc.com/news/business-35339475


Ver anteriores estudos da Oxfan em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2015/01/da-oxfam-davos.html

Apressados, o Instituto  Adam Smith e o Instituto de Assuntos Económicos reclamam que o que interessa é melhorar as condições de vida dos pobres (já sabemos que melhoram, mas graças às tecnologia) e não nos preocuparmos com os ricos (claro, embora me pareça que invocam o nome de Adam Smith em vão, que era mais humano que eles são, mas não tinha hipóteses de saber como iriam evoluir as formas e relações de produção).
E noutra escala, é o mesmo desprezo pelas crianças que não têm pais com capacidade financeira e educacional que mostra a estatística da população escolar e docente em Portugal:


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Continuam os resultados desastrosos no PISA

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/12/pisa-programme-for-international.html

Há 3 anos atrás, este blogue teve oportunidade de criticar o excesso de otimismo dos senhores governantes de então, relativamente aos resultados dos testes do PISA de 2009, e as medidas desastrosas e a falta de compreensão da importancia da condição socioeconómica dos pais ou encarregados das crianças no insucesso escolar.
Agora, mais uma vez assistimos a resultados muito maus dos nossos alunos de 15 anos, entregando-se os responsáveis portugueses a descobrir pormenores positivos (é desculpa que se apresente, em 2012 haver mais crianças do 7º ano ou do ensino profissional a responder do que em 2009?! então se muitas crianças têm 15 anos e estão no 7º ano isso não significa que o sistema educacional foi destruído? e queriam que os resultados do PISA não traduzissem isso? ou também sofrem de graves dificuldades de interpretação matemática e literária?).
Há pequenos e poucos aspetos positivos, mas o mais grave é que continuam a não compreender que o fator principal do insucesso escolar é a incapacidade educacional e financeira dos pais e encarregados de educação (quando os há).
E um país assim não poderá, por falta de qualificação dos agentes económicos e fatores de produção, progredir.
Infelizmente não compreendia isto a senhora ex-ministra Lurdes Rodrigues, a das avaliações e do "perdi os professores mas ganhei o povo" (nada disso, desmerecer em profissionais é desmerecer na profissão e na sua eficácia), nem, muito menos, os atuais responsáveis, de que destaco a infeliz promessa do secretário de Estado do ensino básico e secundário, que para 2015 os resultados serão muito melhores porque, entre outras ideias do senhor ministro Crato, há provas de acesso para os professores contratados!

Em resumo, como se pode ver pelos gráficos dos resultados, abaixo da média dos países da OCDE, esta é uma verdadeira tragédia, até porque aumenta o fosso entre as crianças cuja situação socioeconómica as leva ao insucesso e aquelas que têm possibilidade de adquirir qualificações que serão depois devidamente aproveitadas em países estrangeiros.

Peço desculpa, mas a situação financeira em que o país se encontra não tem nada que ver com a incompetencia de quem toma decisões e ignora as causas das coisas.

As deficiencias de aprendizagem em matemática, as dificuldades de interpretação do português escrito e as agora também importantes dificuldades de compreensão das ciências físicas e naturais são partilhadas pela maioria dos alunos de 15 anos e pela maioria dos atuais governantes, e isso é uma tragédia para o país, maior do que o seu endividamento contínuo.




                                                       com a devida vénia ao DN



domingo, 28 de julho de 2013

Um pequeno estudo para um grande problema

Pequeno estudo de Jaime Reis do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa publicado na Economic History Review sobre a influencia dos salários baixos e do desinvestimento em educação na baixa estatura da população.
Com base nos registos dos recrutas desde o século XVII em Portugal e comparando com a Europa, a conclusão foi que a estatura da população portuguesa manteve-se dentro da média europeia até meados do século XIX, divergindo no sentido negativo a partir daí.
Já se sabia que a politica de cortes, para alem de provocar recessão a curto prazo, provoca a médio e longo prazo graves retrocessos intelectuais por deficiência de formação escolar, agravando o efeito do desinvestimento na educação (por outras palavras, é impossível uma escola publica produzir estatisticamente bons resultados se os pais ou encarregados de educação não tiverem capacidade financeira e educacional).
Foi por isso que Portugal divergiu, e diverge da Europa.
Por isso devia atacar-se aqui este problema, com grau prioritário.
Mas não.
Também foi um escândalo, em Inglaterra, quando os economistas “randomistas” (analistas dos dados estatísticos) concluíram que a politica de Thatcher de cortes na alimentação das escolas públicas estava correlacionada fortemente com a diminuição do rendimento escolar.
Tudo coisas que se sabem, mas que ideologia dos governantes não quer deixar ver.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Carta a Crato

Parabéns, senhor ministro.
Conseguiu reduzir os custos do ministério conforme as orientações de cortes na saúde, na educação e na proteção social, que são as 3 áreas de maior despesa pública (claro que são e que até devem ser).
Graças à sua experiencia destes assuntos e à politica de concentração e de dispensa.
A tal de produtividade, de fazer mais com menos.
Só que a curva da produtividade não é uma função linear.
Tem um ponto de derivada nula, e nunca se sabe para que lado se está, se na curva ascendente, se na curva descendente.
Ou, como matutava o escocês que reduziu progressivamente a ração de palha do cavalo, nunca se sabe quando a produtividade do cavalo começa a baixar, se antes ou depois de morto.
Por isso lhe escrevo esta carta.
Quando se queixa que tem falta de alunos e por isso tem de dispensar professores, eu respondo que há muitos miúdos por aí sem ir à escola, desde crianças ciganas a filhos de imigrantes.
Aí tem uma boa quantidade de alunos para compor o quadro de professores.
Por outro lado, com os números de insucesso escolar, parecerá que são necessários professores para o reduzir. Não direi só para dar aulas com menos alunos, mas para estudar os dados do insucesso e analisar a evolução do insucesso (e abandono) ao longo do ano. Como em qualquer profissão, professor não é só para dar aulas.
Quanto à concentração das escolas, sabe muito bem que o que está a poupar é desperdiçado no transporte dos alunos para as grandes escolas.
Pelo menos enquanto o numero de alunos for maior do que o dos professores: é mais barato deslocar poucos professores para muitas escolas do que muitos alunos para poucas escolas (teorema de Fermat-Weber, certo?).
Isto sem falar nos custos, ou prejuízos, da desertificação do interior (idem).
Bem, mas dirá que os índices da Finlândia mostram que há mais alunos por professor do que em Portugal.
Haverá, mas também é verdade que o índice da relação entre o comprimento do peróneo e o perímetro do peito das mulheres finlandesas é superior ao das mulheres portuguesas e nós gostamos destas assim (gostamos não gostamos?).
E dirá também que não há dinheiro no orçamento de Estado.
Será uma discussão desigual, porque não temos todos os números da realidade, embora vejamos por aí que os rendimentos do capital não são tão maltratados como os do trabalho.
O senhor ministro estará mais perto do senhor ministro das finanças que lhe mostrará os meandros do orçamento (mostrará?) e que lhe deveria arranjar dinheiro em vez de se repetir a dizer que não há.
Experimente mostrar-lhe que os prejuízos das suas medidas são superiores aos benefícios.
São coisas que não entram nos orçamentos mas se pagam quando o insucesso, o abandono escolar e os maus resultados no PISA destes anos de penúria se refletirem no vandalismo e ignorância (e falta de produtividade e de competitividade, claro, claro) da maioria dos jovens adultos que hoje são crianças.
E esse vandalismo e ignorância custam muito, muito mais dinheiro.

Melhores cumprimentos.



PS - Já me esquecia.
A propósito de haver poucos alunos como fundamento para a dispensa de professores.
A minha neta, que  mora para os lados da Estrela, não teve vaga na escolinha para onde pensava iniciar o 1º ciclo.
Houve muitos meninos que sairam das escolinhas privadas e esgotaram as vagas.
A minha sobrinha que mora em Odivelas e que tem a menina dela no 1º ciclo de uma escolinha privada, disse-me que só da turma da filha sairam este ano para o público 16 meninos.
E diz o senhor ministro que há poucos alunos.
Ai é tão feio dizer coisas ao contrário da realidade... será o problema do PISA, a dificuldade dos portugueses que tomam decisões recolherem e analisarem corretamente os dados e depois aplicar as medidas corretivas?
Podia ser um tema para os conselhos de ministros; certamente que os senhores ministros também são vítimas da síndroma do PISA, também terão dificuldades de interpretação.
Achar que a iniciativa privada resolve as coisas no atual contexto, com o endividamento enorme das empresas, pode ser um sintoma de dificuldades interpretativas da realidade.
E pôr o PISA no centro das atenções podia ser um primeiro passo para sairem da vossa redoma de iluminados convencidos de um caminho unico.
Alargar o debate e aceitar as ideias dos outros é um grande passo para vencer as dificuldades de compreensão diagnosticadas pelo PISA, para compreender a linha flexível que separa os rendimentos do trabalho dos rendimentos do capital, para compreender a linha flexível que separa a economia privada da economia pública.
Era uma boa estratégia, para um ministério da Educação...não acha?


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Aos senhores dos ministérios da educação

No dia de mais um anúncio de restrições na educação, desta vez nas disciplinas de educação visual e de informática




Exposição de trabalhos de alunos de educação visual  da Escola básica e secundária Barbosa du Bocage, de Setubal, na Direção regional de Lisboa e Vale do Tejo


Há sempre muitas esperanças nas crianças.
Elas crescem e a certa altura algo começa a falhar na nossa sociedade.
Começa a acentuar-se a diferença e a desigualdade e a reproduzir-se a estrutura social de antigamente.
Surge o predomínio de uns poucos sobre muitos.
Como em qualquer sociedade restrita e limitada, os códigos de supremacia só são válidos no âmbito restrito dessa sociedade, mas têm  força suficiente para impedir o progresso.
Sim, somos diferentes dos outros povos.
Emocionalmente individualistas, sensíveis e contemporizadores se a depressão não nos cega.
Constituimo-nos espetadores escondidos na nossa periferia.
Refratários aos estrangeirados.
Mas as nossas crianças mostram a sua arte com exuberancia nos breves momentos do esplendor das tintas nas tampas de caixas de sapatos nas escolas.
A vós, senhores dos ministérios da educação, a oportunidade de continuar a cortar no investimento nas crianças, a vós a horrível tarefa de ajudar a enevoar o futuro.
E que horrível tarefa.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A escola de Carlos Drummond de Andrade

Esperando não cometer nenhuma violação das sacrossantas leis do copyright, acho que Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro de primeira grandeza, tem um recadinho para o novo ministro da educação, descontando que a escola deve ser laica, claro, mas percebe-se a intenção:




"Para Sara, Raquel, Lia e para todas as crianças"
Carlos Drummond de Andrade

 Eu queria uma escola que cultivasse
 a curiosidade de aprender
 que é em vocês natural.

 Eu queria uma escola que educasse
 seu corpo e seus movimentos:
 que possibilitasse seu crescimento
 físico e sadio. Normal

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse tudo sobre a natureza,
 o ar, a matéria, as plantas, os animais,
 seu próprio corpo. Deus.

 Mas que ensinasse primeiro pela
 observação, pela descoberta,
 pela experimentação.

 E que dessas coisas lhes ensinasse
 não só o conhecer, como também
 a aceitar, a amar e preservar.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse tudo sobre a nossa história
 e a nossa terra de uma maneira
 viva e atraente.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse a usarem bem a nossa língua,
  a pensarem e a se expressarem
 com clareza.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinassem a pensar, a raciocinar,
 a procurar soluções.

 Eu queria uma escola que desde cedo
 usasse materiais concretos para que vocês pudessem ir formando corretamente os conceitos matemáticos, os conceitos de números, as operações... pedrinhas... só porcariinhas!... fazendo vocês aprenderem brincando...

Oh! meu Deus!

Deus que livre vocês de uma escola
 em que tenham que copiar pontos.

 Deus que livre vocês de decorar
 sem entender, nomes, datas, fatos...

 Deus que livre vocês de aceitarem
 conhecimentos "prontos",
 mediocremente embalados
 nos livros didáticos descartáveis.

 Deus que livre vocês de ficarem
 passivos, ouvindo e repetindo,
 repetindo, repetindo...

 Eu também queria uma escola
 que ensinasse a conviver, a
 coooperar,
 a respeitar, a esperar, a saber viver
 em comunidade, em união.

 Que vocês aprendessem
 a transformar e criar.

 Que lhes desse múltiplos meios de
 vocês expressarem cada
 sentimento,
 cada drama, cada emoção.

 Ah! E antes que eu me esqueça:

 Deus que livre vocês
 de um professor incompetente.

A criação imperfeita, o cosmos, a vida e o código genético da natureza, de Marcelo Gleiser

Aproveitando a felicidade de ainda termos uma Antena 2 a funcionar, dedicada a assuntos de cultura, enquanto não cai a espada de Damocles anunciada pelo novo senhor secretário de estado da cultura que acha as estações culturais uns guetos, ouvi este programa:


O entrevistado era Marcelo Gleiser, físico brasileiro, professor nos USA, que, entre outras coisas falou das observações de supernovas e da descoberta em 1998 por Berkeley, na California, e por uma universidade australiana, de que o universo se encontra em expansão acelerada.
A conclusão foi devidamente testada experimentalmente, podendo desde então afirmar-se que Einstein poderia ter dito que não tinha dúvidas, quer da capacidade da espécie humana de expandir o erro, quer da expansão do universo. Também se pode afirmar que 73% da energia do Universo é desconhecida (energia escura, responsável pela expansão acelerada, e escura por só se poderem observar os efeitos gravitacionais, não os do radiamento), e que só 4% da matéria é composta pelos nossos conhecidos eletrões e protões.

Temos assim de nos contentar com a nossa crescente ignorancia, embora  isso de nada valha se quisermos discutir política ou economia. Mas ao menos já sabemos que a perfeição do universo é ilusória, que a teoria final da unificação parece estar cada vez mais longe (embora quem mande goste de exibir ideias perfeitas muito arrumadinhas nas suas cabeças e determinadas nos seus programas) , que as assimetrias e imperfeições dominam, juntamente com os erros de corrupção genética (lembram-se da teoria de que um tronco comum teve um desvio do gene de proteção contra o desenvolvimento de tumores cerebrais e o cérebro do antepassado começou a desenvolver um cortex pré frontal?).

Fascinante, não é? Mais informações sobre o livro em 

Tambem interessante neste mesmo programa da Antena 2 a entrevista do novo ministro da educação, Nuno Crato, feita uns meses antes da nomeação. Interessa reter as afirmações de que o ensino não deverá desprezar, como até agora, a abstração, a memorização, a realização de exames exigentes e a organização sistemática dos programas.
Assunto a seguir para verificação da capacidade de aplicação do que parece ser uma teoria correta da educação desenvolvida a partir da experiencia real, e tão desprezada pelas senhoras anteriores ministras da educação, perfeitamente imunes aos avisos da navegação emitidos.

Pena se aplicarem os cortes à Antena 2.



domingo, 19 de junho de 2011

Tentativa de resposta a uma questão de Alvaro Santos Pereira num artigo da macroeconomia divertida

Caro senhor Professor

Em primeiro lugar, embora não tenha votado nos partidos do governo, as minhas felicitações e votos das maiores felicidade no dificil cargo, o que será bom para todo o País.
Há uns anos contactei-o no seu blogue, teve a amabilidade de me responder,  mas não dei seguimento ao contacto.

Envio-lhe este comentário, pedindo desde já desculpa para a minha imodéstia em julgar que conheço razões para um problema, porque na sua crónica da Macroeconomia divertida, O valor da Educação,  do NS de 2011-06-18 pediu resposta para a seguinte questão:


Questão de ASP: porque será que se mantém o baixo valor dado à educação pelas gerações de emigrantes portugueses?
Enquadramento:
1- as minhas duas avós eram analfabetas; licenciei-me em 1970, ano em que existiam apenas 30.000 cidadãos e cidadãs portugueses licenciados!!
2 - Portugal atingiu 50% de população alfabetizada no século XX, a Espanha no século XIX, a França no século XVIII, a Alemanha e a Inglaterra no século XVII, a Escandinávia no século XVI, funcionando o respetivo século como indicador do alargamento da capacidade de intervenção na vida económica e no progresso económico por faixas cada vez maiores da população
3 - o que mais me impressionou quando comecei a minha vida profissional no metropolitano de Lisboa, em 1974, foi o baixo nivel de habilitações literárias da maioria dos funcionários (coisa que não se verifica atualmente), quer ao nivel escolar quer ao nivel escolar profissional (o que não impedia o alto nivel profissional de grande parte deles), indiciando a preocupação dos pais em colocar rapidamente os filhos a "ganhar a vida"
4 - só após o 25 de Abril de 1974 se generalizou a preocupação das famílias em assegurar um curso superior aos filhos
5 - a experiencia ensina que, apesar dos acessórios que a tecnologia vai continuamente pondo ao serviço das novas gerações, apesar das melhorias das condições de vida, e apesar do progresso nos conceitos de direitos da mulher, a tendencia natural é as novas gerações reproduzirem os comportamentos da geração anterior, desde hábitos de alcoolismo (ou outras drogas) ao desprezo pela cultura entendida como clássica, ao desprezo pelas regras de segurança rodoviária, ou ao prosaico desprezo pela matemática e pela física (diz o pai para o filho: não te preocupes, que eu no meu tempo tambem tinha negativa a matemática); nos casos extremos, é muito dificil a jovens cérebros (6-10 anos) evitarem danos irreversiveis em termos de capacidade de aprendizagem se o seu desenvolvimento escolar não for bem acompanhado, isto é, dificilmente os filhos de emigrantes mal integrados poderão ser profissionais qualificados mais tarde
6 - neste sentido, apesar da crescente "escolarização" verificada em Portugal, o insucesso e o abandono escolares são outra forma de exprimir o desprezo pela cultura e educação, e de reproduzir o comportamento das gerações anteriores de privilegiar o começar a trabalhar na adolescencia em vez de estudar
7 - pelo que conheço, e que é pouco, das gerações novas, filhos de emigrantes portugueses, verificar-se-ão em quantidades significativas os dois casos:
7.1 - jovens perfeitamente integrados na sociedade, com empregos qualificados a todos os niveis (julgo que isto se verifica mais em França)
7.2 - jovens perfeitamente marginalizados que não beneficiaram de acompanhamento eficaz durante o periodo critico de aprendizagem cognitiva antes dos 10 anos e que por isso reproduzirão a condição de não qualificação ou de não inclusão dos progenitores (são casos típicos os de mães portuguesas que não falam inglês) ou, pior que isso, enveredarão pela criminalidade ou pela não inclusão (julgo que isso se verificará mais nos USA e no Canadá); a atitude de alguns emigrantes de não preocupação com o sucesso escolar dos filhos contrasta com a prática dos emigrantes  mexicanos que têm como objetivo que os filhos falem inglês perfeitamente, embora seja verdade que por razões geográficas e históricas existe emigração mexicana para os USA há mais tempo do que de Portugal
Conclusão - considerando o exposto, a justificação económica para o baixo valor dado à educação por parte das novas gerações de emigrantes será a justificação económica da incapacidade educacional e financeira de acompanhamento do percurso escolar pelos pais das crianças, que assim são vítimas de insucesso escolar e de limitação do desenvolvimento das suas capacidades cognitivas. Ficará assim ao critério de cada um eleger as causas, desde um regime laboral que implica a chegada a casa do pai emigrante esgotado,até à ineficiencia de programas de inclusão e integração das mães emigrantes, à ineficiencia de programas de substituição do papel de pais quando incapazes do tal acompanhamento, às limitações orçamentais que conduzem diretamente a essas ineficiencias, às politicas de estimulo ao desemprego para contenção de custos, etc, etc.

Aproveito, abusando da sua paciencia,  para manifestar as seguintes duvidas:
1 - quando cedemos à pressão publicitária e compramos Mercedes, Hyundais e outros automóveis, e quando compramos Smartphones, qual a percentagem dos 78 mil milhões que vão ser reexportados para pagar estes gadgets?
2 - terá o seu Ministério disponibilidade para divulgar o que pensa das 25 medidas propostas no livro de Luis Monteiro "Os ultimos 200 anos da nossa economia e os próximos 30 anos"
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/economicomio-lxi-as-medidas-contra.html
3 - no caso do TGV Porto-Lisboa-Madrid, terá o seu Ministério disponibilidade para considerar a eficiencia energética (energia consumida por passageiro.km) como um dos principais fatores de decisão por um modo de transporte, o que justificaria reivindicar junto de Bruxelas mais verbas a fundo perdido do que as anunciadas e divulgar o que pensa desta argumentação
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/madrid-lisboa-de-aviao-ou-de-tgv.html    ?

Os melhores cumprimentos

F.Santos e Silva

domingo, 19 de dezembro de 2010

PISA – Programme for International Students Assessment

O PISA – Programme for International Students Assessment (Programa internacional da OCDE para avaliação dos estudantes)

Os representantes das estruturas decisórias nos domínios da Educação do meu país embandeiraram em arco.
Os estudantes portugueses de 15 anos, selecionados quase aleatoriamente para responder a testes e questionários preparados pela OCDE para avaliar a capacidade de interpretação e de resolução de problemas de literacia em matemática, leitura e ciências, melhoraram significativamente e comparativamente com os países europeus mais evoluídos entre os testes de 2006 e os testes de 2009.
Perante este facto, os meus aplausos, pelo sentido positivo da evolução.

Porém, a forma como os referidos representantes interpretaram os resultados, como quem incensa o treinador quando a equipa ganha, merece ser analisada pela gravidade revelada, precisamente na dificuldade de interpretação matemática e na ileteracia matemática que nos tortura.
Os resultados do PISA não demonstram teoremas ou teorias, porque as estatísticas deste tipo mostram correlações, se bem fundamentadas.
Efetivamente parece ser o caso das estatísticas do PISA da OCDE; existem mecanismos estatísticos, aplicáveis aos dados dos testes e dos questionários, que permitem detetar eventuais fraudes, que não consta terem acontecido.
Não disponho de elementos que permitam duvidar da aleatoriedade da seleção dos alunos e da correção dos procedimentos, não obstante a extinção anunciada do GAVE, responsável pelo PISA em Portugal desde 2000, pela anterior senhora ministra ( não terá portanto ocorrido nada de semelhante ao que se passou nos anos 90 nos USA, num concurso ganho pela pior escola de Chicago que teve acesso prévio aos testes, e que originou um interessante filme).
Quem conhece professores que sofreram as imposições da anterior ministra, que dizia que tinha perdido os professores mas tinha ganho o povo, sabe que não deve estabelecer-se uma correlação entre as medidas da senhora ex-ministra e as melhorias verificadas.
Quem conhece um sistema de avaliação sabe como os objetivos teóricos do sistema não têm correspondência com a prática, pelo menos até agora, e da forma como têm sido aplicados.

Vamos porém a factos, para avaliarmos se há razão para tanto contentamento, mesmo descontando o coeficiente de auto-satisfação que caracteriza qualquer dirigente político português.
Eis os resultados dos testes de 2006 e de 2009, de Portugal, Macau e média da OCDE.


Pontuações máximas obtidas por países da OCDE em 2009:

matemática:  Coreia, 546
leitura:          Coreia, 539
ciencias:       Finlandia, 554

Pode ver-se que o contentamento vem da subida de todas as pontuações (matemática, interpretação de leitura e ciências) e da subida na tabela ordenada.
Mas…não quererão ver que os valores de 2006 são tão baixos que as subidas são mais fáceis do que para os países mais bem colocados ? (simples aplicação de um corolário da lei dos rendimentos decrescentes).
E é caso para estar tão contente? quando no conjunto dos 31 países da OCDE estamos sempre claramente abaixo da média e:
- em matemática estamos em 25º (sempre muito atrás de Macau)
- em leitura estamos em 21º (ligeira ultrapassagem relativamente a Macau)
- em ciências estamos em 24º (muito atrás de Macau)
Ou poderemos concluir que os representantes máximos das estruturas decisórias da Educação padecem das mesmas dificuldades de interpretação das leituras?
Espero que não considerem esta interrogação ofensiva.
Mas se o considerarem, estou ao dispor para participar nos próximos testes, juntamente com os ofendidos, desde que os vigilantes sejam de confiança.

Penso que a atitude mais saudável seria reconhecer o que há muito foi informado à anterior senhora ministra, que o insucesso escolar tem fortíssimas raízes no meio social exterior à escola (resulta isto de estudos de correlações após recolha e tratamento de grandes quantidades de dados noutros países mais dados a este tipo de trabalho sério), quer nas limitações económicas e educacionais dos pais (eu sei, os inquéritos do PISA também pesquisam esta problemática e... ainda bem, melhorámos de 2006 para 2009; mas teme-se o efeito das medidas de contenção do plano de estabilidade e contenção), quer no nível de bem-estar social.
E que por isso, por mais que se invista na escola, nunca se poderá atingir o topo da classificação sem resolver os tais problemas exteriores às escolas.

Mas estou a derramar água sobre o molhado.
Deixem-me então dizer que uma das conclusões que estes testes do PISA permitem tirar é que as raparigas obtêm sistematicamente resultados muito melhores do que os rapazes na interpretação da leitura e melhores em ciências, e que em matemática a situação se inverte.
E passa-se isto quer em Macau, quer em Portugal, quer na OCDE (será a questão da comunicação entre os hemisférios cerebrais?).
É curioso e explica o que se passa entre nós.
A assertividade com que os políticos masculinos discutem as coisas tem por base uma menor capacidade de interpretação das suas leituras…
Não admira assim os resultados que os ditos políticos obtêm… os políticos e os decisores das empresas deste nosso amado pais (será que depois disto vão contratar conselheiras em vez de conselheiros?).
Agora compreendo por que corriam melhor as minhas reuniões quando os responsáveis das outras áreas eram do género oposto…

Resultados e informações retirados de:

http://pisa2009.acer.edu.au/multidim.php

http://en.wikipedia.org/wiki/Programme_for_International_Student_Assessment

http://www.gave.min-edu.pt/np3/11.html

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Help Bing Give to Schools

É extremamente curioso. No país mais rico do mundo, um gigante da informática, a Microsoft através do seu motor de busca Bing, apela a contribuições de 3 dolares para apoiar as pequenas escolas locais e a luta contra a iliteracia.

É isso, estamos a precisar de subscrições públicas.
Aprendamos com os paises ricos.

Mais informação em :

http://www.discoverbing.com/education/searchwithpurpose/?fbid=H3v17Kt3nvk&wom=false

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Educação XVII - Federico Garcia Lorca

'

Por um acaso, ouço na Antena 2 algumas das canções espanholas antigas de Federico Garcia Lorca (experimentem ver no youtube, por exemplo em:
      http://il.youtube.com/user/Kirsche01 ).

Vejo ainda no DN a notícia da recente morte, aos 101 anos, da caseira da vivenda de férias da família, Maria Mata, amiga do poeta, e cujo pai também foi fuzilado por franquistas.
Lorca não era apenas poeta. Era músico de formação clássica. Tocava e compunha. Como recordava Maria Mata, «Parece que lo estoy viendo tocar, porque le salía la música del alma».
No caso das canções antigas, ele próprio as recolheu entre o povo. Para algumas reescreveu o texto, para outras conservou o original.

Cito o caso para fazer uma reflexão à moda dos idosos.

Que a espécie humana é capaz do melhor e do pior.
Capaz de viver a música e de fuzilar.
Capaz de tratar bem um doente no hospital e de disparar sobre ele uma caçadeira num assalto (escrevo assim porque um bando armado anda de noite a matar e roubar gado na península de Setúbal e dispara sobre quem aparece).
Capaz de invocar o alto prestígio de economista, pelo menos no nosso meio em Portugal, em discurso na TV arrasador do pobre povo que é sempre o responsável pelo estado miserável das finanças por querer  viver melhor, nunca os decisores ou o governo porque o trigo cresceria para baixo se não fosse o ministro da agricultura, como dizia Brecht, mas capaz de, sendo também economista de prestígio, escrever livros em que a solidariedade também entra na equação (Joseph Stiglitz) ou reconhecer, como Partha Dasgupta (Economics a very short introduction, ed Oxford University Press), que, apesar de toda a ciência económica, os fracassos da humanidade acontecem porque as pessoas ainda têm muito a aprender sobre como viver uns com os outros. Dito de outra forma, a prioridade deveria ser o cumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

E por associação de ideias, por ter escrito "as pessoas têm muito a aprender...", cito agora, com a devida vénia ao DN, a evolução da criminalidade violenta registada de 1998 a 2009.

 Existirá uma correlação entre esta curva e a curva da ineficiência das políticas dos ministérios da Educação 20, 15, 10 anos antes? É que na base do nosso descontentamento e dos nossos fracassos (nossos e dos outros, claro) está a questão de Partha Dasgupta: as pessoas têm muito a aprender; não aprenderam quando andaram na escola, cresceram elas e cresce o indicador crime. Existirá essa correlação? Seria um exercício interessante, para um grupo de sociólogos investigar os dados, começando por comparar a evolução das curvas, da criminalidade e do insucesso escolar, separadas pela constante de tempo C necessária para a entrada no mundo do crime. Será que em 2007 - C  houve melhorias transitórias nas escolas ou será um simples sobressalto de registos? Será que há uma correlação entre o grau de iliteracia e a curva da criminalidade? Se há, a situação só poderá corrigir-se C anos depois de começar a tomar as medidas corretivas para diminuir o insucesso escolar... Qual será o valor de C?




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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Educação XVI - carta ao senhor diretor do DN depois de um editorial em que louva a coragem em fechar escolas

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Exmo Senhor Diretor

Há anos que a orientação editorial do DN apoia as reformas dos ministérios da Educação, insistindo que os professores a elas se opõem, corporativamente.
Felizmente, existe pluralismo no DN e algumas reportagens mostram que muitos professores não o fazem por espírito de corporação.
Por outro lado, essas reportagens têm revelado que no ministério não há só cinzentismo, burocracia e distanciamento relativamente aos problemas reais das escolas.
Por exemplo, a reportagem sobre o programa “Uma turma mais”.
O que me choca e me leva a escrever, é porém a insistência da direção em louvar a coragem do ministério no programa do fecho de escolas, mesmo confessando, a direção, desconhecer todos os dados do problema.
Quando coragem seria combater a desertificação do interior do país, assumindo claramente que as causas do insucesso das escolas são principalmente exteriores às escolas.
As políticas dos sucessivos ministérios da Educação há anos que se traduzem, com uma constante de tempo de vários anos, na persistência do insucesso escolar e, consequentemente, no aumento da criminalidade, da iliteracia e da desigualdade social.
E com este “pensamento único” de privilegiar as reformas sem cuidar das consequências negativas do fecho das escolas nem da impossibilidade do sistema de transportes assegurar uma solução económica e fiável nos dias de intempérie, a opinião pública não é convidada a reagir.
Será uma síndroma de Stefan Zweig, mas tudo isto me entristece muito.
Desejaria muito que o DN lançasse uma série de reportagens sobre os estudos nos USA para combate ao insucesso escolar, desde o NCLB (No child left behind) aos métodos do tipo Direct Instruction e sobre as análises de Steven Levitt (Freakonomics) sobre o insucesso escolar.
Com os melhores cumprimentos.

F.Santos e Silva


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sábado, 7 de agosto de 2010

Educação XIV - Apesar de tudo

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Apesar de tudo, ainda há esperança.
Quanto mais não seja porque a probabilidade de tomar uma decisão errada, num contexto de variáveis múltiplas e de correlações mútuas desconhecidas para quem toma a decisão, pode ser menor do que tomar uma decisão mais acertada.
Diagnóstico: o número de reprovações é elevado
Problema: Como diminui-lo?
Proposta 1 de solução: eliminar as reprovações
Proposta 2 de solução: melhorar a preparação dos alunos

Fica agora por resolver a questão de como operacionalizar a proposta 2, uma vez que a fé necessária para acreditar na proposta 1 ultrapassa a capacidade normal dos cidadãos e cidadãs (como dizia o DN de hoje, não estamos na Escandinávia).

Foi falado neste blogue, em 4 de Junho deste ano, como nos USA se têm registado progressos na execução desta proposta 2, nomeadamente através dos programas "Direct Instruction" e "No chil left behind" (ver

http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=left+behind).

Verifico agora, por informação dos jornais, que em Portugal, apesar da alienação das realidades de correntes mediáticas de burocratas do ministério da Educação, que há outras correntes que abordam corretamente a questão.

Existe um programa, intitulado "Mais sucesso", desdobrando-se noutros programas, de que se destaca o "Turma mais" que combatem o insucesso escolar naquilo que está ao alcance da escola (melhorar a capacidade educacional e financeira dos pais no período em que as crianças têm entre 5 e 12 anos, a qual é fator decisivo, não está ao alcance das escolas). Verificou-se no último ano letivo, que das 65 escolas abrangidas pelo programa "Turma mais", em 64 das escolas o número de reprovações baixou 30%. Qual é o segredo? A criação de uma turma por onde rodam todos os alunos, acabando aqueles que tem mais dificuldades por se concentrar nela e beneficiando de mais atenção. Isto é, houve necessidade de aumentar o número de professores e de horas (com os correspondentes custos, claro).

Eu penso que não era preciso a experiencia, que já se sabia que as soluções economicistas de reduzir o número de professores e aumentar o número de alunos por turma conduzia à degradação. Houve professores ofendidos pela anterior senhora ministra, acusados de preguiçosos.
Mas a experiencia da "Turma mais" aí está.
O problema é que é só em 65 escolas, e já se concretizam as ameaças de escolas com 2000 alunos em consequencia do fecho das pequenas.

Por um lado há esperança, por outro lado, vê-se o abismo bem perto.


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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Educação XII - Catilinária contra o fecho das escolas e o facilitismo da passagem do 8º para o 10º ano

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A indignação impede-me de estar calado.
O atual ministério da Educação prossegue a ação destruidora dos anteriores ministérios.
Destruidora é a palavra que se aplica à capacidade da maioria dos cidadãos do futuro, que agora são crianças, apreenderem as causas e as circunstancias das coisas do que lhes diz respeito.
E isso acontece porque continua a privilegiar-se:

•   o conceito idealista de Rousseau e de Piaget de centrar o método educativo na criança e no seu prazer na descoberta pela aprendizagem, desprezando a definição concreta dos programas e da sua execução (como diz o prof.Nuno Crato, é a ideologia do “eduquês” executada pelos burocratas das direções gerais invocando pretensiosas inovações)
•  a aplicação de medidas que melhoram indicadores (especialmente económicos ou, sendo educacionais, aqueles que mais facilmente iludam as pessoas e mais se prestam a ser sobrevalorizados pelos escribas laudatórios da comunicação social) sem atender a todos os dados da realidade

O que escrevo não tem nada de político.
É apenas uma apreciação do ponto de vista técnico e de gestão de recursos.

Do ponto de vista técnico, porque a recolha de dados que se faz não é completa.

Por exemplo, são apresentados powerpoints na Assembleia da Republica mostrando em gráfico a diminuição do insucesso escolar nas escolas primárias desde o fecho das escolas com menos de 10 alunos em 2005.
É verdade, existe uma correlação positiva entre o fecho das escolas com menos de 10 alunos e a diminuição do insucesso escolar.
Mas correlação entre duas variáveis significa que elas se movem no mesmo sentido, não quer dizer que uma cause a outra. O número de incêndios também diminuiu desde 2005 e não podemos dizer que o insucesso escolar diminuiu por ter diminuído o número de incêndios. Além disso, há muitas outras variáveis em jogo e algumas delas sim, influenciam mais fortemente a diminuição do insucesso escolar, como seja o aumento do nível escolar e económico dos pais (por outras palavras, o ambiente económico-social exterior à escola influencia mais fortemente o sucesso escolar do que as melhorias da própria escola; logo, se concentrarmos os esforços naquilo que menos contribui para o objetivo, estamos a desperdiçar, claramente, recursos). Tudo isto se estuda nas primeiras páginas dos manuais de análise estatística e é por isso que escrevo que a minha apreciação é fortemente negativa do ponto de vista técnico.

• Do ponto de vista de gestão de recursos, porque a via deliberada do facilitismo conduz inapelavelmente á desmotivação dos profissionais (os tais professores, de que os seniores já se reformaram, e de que alguns juniores já são vítimas da ação nefasta dos anteriores monistérios).
O que me leva a um grau elevado de indignação é a recente decisão, logo a seguir ao anúncio do fecho das escolas primárias com menos de 20 alunos, de estender aos alunos do 8º ano (antigo 4º ano do liceu) com mais de 15 anos, que reprovaram (agora diz-se que foram retidos) a possibilidade de, mediante a prestação de provas (e como são duvidosos os critérios de dificuldade de algumas provas…) passarem diretamente para o 10º ano.

É uma vergonha de facilitismo.
É dizer que vale zero o esforço de quem dá e de quem vai às aulas.
Ir às aulas é abrir as portas à capacidade de interpretação.

Custa-me ver a senhora ministra, que é uma pessoa de bem e sensível, anunciar estas medidas:

Porque fechar as escolas com menos de 20 alunos não é combater as causas do insucesso; é comprar a diminuição do insucesso com o sacrifício das crianças que são transportadas para longe de casa e aumentar o abandono das povoações do interior

• Porque facilitar a passagem para o 10º ano de quem foi reprovado ao longo do ano vai permitir melhorar o indicador de retenção de alunos, não vai melhorar a sua capacidade de interpretação
Imagino o sofrimento interior desta senhora, ao defender estas medidas.
Como sei que sofre? Simples – porque numa entrevista, para justificar que os alunos das escolas que fecham iriam ficar melhor, utilizou na mesma frase, por duas vezes, o mesmo adjetivo, aplicado a dois substantivos diferentes: que as salas das escolas maiores eram mais adequadas e que os equipamentos eram mais adequados.
Não eram as palavras e o sentimento dela.
Nem de mim, que indignado estou.

Mas para que não se diga que protesto, critico e nada proponho como alternativa, sugiro que os serviços do ministério e os cidadãos estudem a viabilidade de aplicação:

Dos ensinamentos retirados dos dados recolhidos pelo departamento federal de educação dos USA a propósito do No child left behind, cujo principal objetivo é reduzir as diferenças entre alunos; ver

http://en.wikipedia.org/wiki/No_Child_Left_Behind_Act


Do sistema de ensino “Direct Instruction” (DI), baseado na rigorosa definição dos programas, minimizando as deficiências locais, e que, apesar de só estar aplicado em 1% das escolas públicas dos USA, foi avaliado publicamente da seguinte forma: "When the testing was over, students in DI classrooms had placed first in reading, first in math, first in spelling and first in language. No other model came close" ; ver

http://dreamcatcherlearning.com/index.php?option=com_content&view=article&id=3&Itemid=3


http://en.wikipedia.org/wiki/Direct_Instruction

PS - Ah! Fecham-se as escolas do interior por razões financeiras? Sugiro ás entidades competentes o estudo do programa oficial de empréstimos dos USA. Não posso recomendar porque não me debrucei sobre ele (além de não ser especialistas de finanças, claro). Mas sugiro que o estudem:

http://www2.ed.gov/offices/OSFAP/DirectLoan/index.html

E, num âmbito não oficial, será também interessante estudar as soluções para o ensino, privado ou púiblico, desta empresa inglesa:

http://www2.education.co.uk/about-us/


 

 

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Very fast post in blog – 18. Os dois substitutos

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Dou parte da evolução da substituição da minha mulher, professora, depois de reformada. O primeiro substituto meteu baixa poucos dias depois de se apresentar, dar um dia de aulas e depois faltar, às aulas e aos encontros com a minha mulher para lhe transmitir informação. Ao fim de um mês foi substituído. Por um senhor que acaba de desistir ao fim de outro mês de muitas faltas. Desistiu entretanto a minha mulher de se oferecer para continuar a dar aulas “porque a lei não o prevê”, como diz a diretora da escola. Como dizem os brasileiros, cansámos de ver a degradação a que os sucessivos ministérios da educação e seus governos conduziram o ensino público em Portugal. Não nos responsabilizem por isso.


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segunda-feira, 15 de março de 2010

Educação X - Crime, disse eu, crime na escola

Não resisto, tenho de vos contar.

Minha mulher, professora de Matemática de miúdos e miúdas dos 10 aos 15 anos, reformou-se.

Só lhes disse, a eles e elas, na última aula. Um deles vociferou: Eu mato o novo professor. Mas era linguagem figurada. Apenas para dizer que gostavam dela.

Apesar de já ter 65 anos (ela até ficava mais um ou dois anos se não a obrigassem a dar aulas de substituição; não era por serem de substituição, era porque com 65 anos já custa dar um horário de 22 horas, e para mais, sem guião para seguir nas tais aulas de substituição).

Quando entendeu necessário pôr um aluno na rua, sempre chamou a senhora auxiliar para acompanhar o aluno ao exterior. Isto para evitar aquelas cenas que passaram na televisão da disputa do telemóvel.

Nunca foi agredida por pais de alunos, mas ajudou, juntamente com a polícia da “Escola segura”, a evitar que o fizessem a uma colega.

E sempre disse que as medidas da ministra Lurdes Rodrigues eram ofensivas e que eram a desconsideração dos professores.

O que só poderia dar mau resultado, como se comprovou.

O professor Carlos Fiolhais chama à situação que agora se vive a remoção pela atual ministra dos destroços da luta, sendo que o enfraquecimento dos professores foi o pior que podia ter acontecido.

Sistema de avaliação, estatuto da carreira docente, estatuto do aluno, não eram reformas, eram erros. Não respondia ao cerne da questão, que é exterior à escola e se traduz pela dificuldade das famílias, com a agravante delas muitas vezes não existirem, promoverem o acompanhamento educacional das crianças e o respetivo suporte financeiro.

Que os erros tivessem sido cometidos pela ministra já é grave.

Mas que tivessem sido validados pelo restante governo e pelo presidente da republica (deixem trabalhar a senhora ministra, foi uma frase que ficou na história; quando se cometem erros, quem os comete não deve ser deixado á solta) é extremamente grave, porque compromete as novas gerações e o futuro da nação.

De modo que a diretora da escola rapidamente selecionou um substituto para a minha mulher, que combinou com ele, na segunda feira, ás 9 horas, antes da aula das 10, um pequeno encontro para o informar da matéria dada, dos principais problemas da turma, dos tipos de teste que deram melhor resultado com os alunos.

O professor substituto chegou no dia aprazado, às 10 horas, quando a aula estava a começar. Desculpou-se que lhe tinham batido por trás, no carro, por estar a chover muito. Combinaram para o dia segunite, terça feira, em que o horário era idêntico. A minha mulher esperou até às dez e meia. O substituto não apareceu.

Na quarta feira, voltou a minha mulher à escola. Questões de regular burocracias. Ninguém lhe soube dar novas do substituto. Alguém disse: Ele parecia aterrorizado, ontem.

Ah, parece que na sexta feira andava por lá. Pobre moço, engenheiro mecânico de formação. Nunca quis dar aulas. Está ali na escola como quem vende cafés a recibo verde no Colombo.

Mas isto é um crime, disse eu para a minha mulher, é um crime na escola. E com efeitos na sociedade futura.

Quem tinha vocação para professor agora escolhe outra profissão, numa altura em que tantos professores com experiencia se reformaram. Foi no que deu a campanha descredibilizadora da ministra Lurdes Rodrigues (coitados dos opinadores dos jornais: tão convencidos com aquela de que os professores portugueses trabalhavam muito menos do que na Finlandia; encontro num recorte antigo de jornal um opinador a chamar “campanha imobilizadora” às posições dos professores contra o autoritarismo de Lurdes Rodrigues; podem estar contentes com as suas opiniões: os professores de agora trabalham mais horas na escola, e os alunos já aparecem com armas de fogo, como na Finlandia e nos países evoluídos).

Isto não é uma generalização. Isto é apenas um exemplo do que se está a passar. Quem tem capacidade para ser professor não vai para o ensino público. Quando muito irá para o privado. Mas os custos do privado estão a afastar crianças novamente para o público, porque na educação não existem os seguros que vemos na saúde. Por outro lado, o crescimento do ensino privado traduziu-se por alguma degradação (exceções honrosas à parte, claro).

Conclusão: depois da catástrofe de anos e anos de má gestão excessivamente centralizadora dos ministérios, culminando com os erros da ministra Lurdes Rodrigues, tem de se traçar um plano de recuperação e de melhoria para evitar a catástrofe de gerações sem preparação cultural e sem capacidade para a qualificação tecnológica (o que desembocará fatalmente em menores PIBs).

Podemos ser um país sem dinheiro. Mas para a educação das crianças, em igualdade de oportunidades, deveríamos canalizar os nossos esforços e o máximo das nossas capacidades.

Depois da catástrofe devíamos aplicar os métodos da “Sabedoria das multidões” para traçar o plano de recuperação. A equipa central de técnicos experientes (não esquecer que a senhora ministra Lurdes nunca deu aulas nos ciclos de ensino que tutelou), escolhida sem ligar às simpatias partidárias dos seus técnicos, em debate alargado com equipas de especialistas e com a participação dos cidadãos…e depois, aplicar o plano de recuperação, para evitar a repetição da catástrofe.

É um direito das crianças e é uma obrigação dos adultos.

Não a cumprir é crime (de acordo com o meu tribunal interior, apenas, estejam os “criminosos” descansados).

Digo eu, que é crime, crime na escola, e com efeitos, agora e no futuro.


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sábado, 23 de janeiro de 2010

Educação IX - A produtividade no ensino

Seja um sistema de ensino A com 150.000 professores que produzem, cada professor, 20 horas por semana ao longo de 32 semanas.
A produção total do sistema é, assim, de:
150.000 x 20 x 32 = 96 milhões de horas por ano
(seria mais correcto considerar como produção o número de horas.aluno, mas simplifiquemos admitindo que todas as turmas têm o mesmo número de alunos ao longo do ano)
Considerando a produtividade de um factor de produção como um quociente entre a quantidade total produzida e a quantidade utilizada desse factor de produção, temos que a produtividade é de:
96.000.000 : 150.000 = 640 horas por ano por professor.

Seja agora um sistema de ensino B com 120.000 professores que produzem, cada professor, 24 horas por semana ao longo de 32 semanas.
A produção total do sistema é, assim, de:
120.000 x 24 x 32 = 92,16 milhões de horas por ano
E a produtividade foi de:
91.160.000 : 120.000 = 768 horas por ano por professor

Comparando A e B, no pressuposto de que o volume de alunos, o número de alunos por turma e a taxa de absentismo eram iguais em ambos os casos, temos que:
O sistema B tem menos 20% de professores que trabalham 20% mais do que no sistema A
O sistema A tem menor produtividade do que o sistema B.
No entanto, o sistema A produziu mais horas de aulas.

1ª conclusão: os alunos do sistema B, mais eficiente, tiveram menos aulas com professores que, individualmente, dão mais aulas.

Toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência, até porque não disponho dos números reais e porque ninguém escolheria o sistema B, a menos que quisesse, cumulativamente:
- prejudicar economicamente os professores
- prejudicar a educação dos alunos
- agravar a criminalidade daí a uns anos, subsequente ao insucesso escolar

2ª conclusâo: desconfiem da próxima vez que um senhor, com estudos de economia, aparecer na televisão a dizer que do que o país precisa é de aumentar a produtividade; assim como assim, quando as variáveis são muitas, é fácil manipular os números…

domingo, 10 de janeiro de 2010

Gestionarium XIII - O discurso de Alçada

A ministra disse para quem a quis ouvir, digo quis porque nestas coisas acredito que muita gente não quer ouvir, que gosta de ir às escolas para participar.
Quem quiser recordar-se, recorda-se que a ex-ministra dizia que ia à escolas para explicar que o seu modelo era, afinal, o melhor.
Os escribas subservientes escreveram durante 4 anos que o problema era a dificuldade de comunicar e que os professores eram uns privilegiados que não queriam abdicar dos privilégios.
Mas o discurso de Alçada é claro e a assinatura de todos os intervenientes ficou no acordo de principio.
É um acordo , não é um consenso.
Um acordo é um compromisso com um prazo de validade.
Consenso é o predomínio de alguém. (Vejam a Sabedoria das Multidões, desconfiem dos consensos).
Perderam-se quase 4 anos, numa área em que as consequências dos erros se medem com um tempo de reacção de vários anos e a evidencia mais chocante é o aumento de criminalidade e dificuldade de integração na estrutura produtiva dos jovens que falham a escola (a experiencia vivida na frente pelos professores mostrou que foi sempre falhada a intenção da ex-ministra de vencer o insucesso escolar).
Desde o princípio tentei disseminar a argumentação, baseada na experiencia da professora minha informadora particular, nalguma informação sobre o sistema nacional de educação dos USA (Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen Dubner) e na minha própria experiencia pessoal, de que um sistema de avaliação não é o essencial.
Está assinado o acordo e agora é público que afinal o problema não estava apenas na avaliação. Havia problema na definição da carreira.
Como acontece com qualquer pessoa, quer seja empresário, investigador universitário, trabalhador, são precisos incentivos…faz parte da natureza humana.
Perderam-se quase 4 anos com aquela ideia da ex-ministra de que o modelo dela, que recebera a revelação, é que tinha de ser adotado pela multidão, que seria salva se o adotasse.
Casos destes estimulam o aparecimento da síndroma de Aristarco, que verificou, no século III antes de Cristo, que era a Terra que anda à volta do Sol. Como se sabe, foi preciso esperar 16 séculos para o pessoal abrir os olhos e as mentes.
Um caso parecido com Eratóstenes, que mediu com rigor o comprimento do arco do minuto, isto é, a milha, no século II AC; 17 séculos depois foi definido um valor diferente da milha (1609 m); mais 2 séculos e a academia das ciências britânicas descobriu que o valor de Eratóstenes estava correcto (1852 m). Curiosamente, o valor de 1609 m pertence ao sistema chamado “imperial”.
Isto de impor coisas imperialmente não é uma boa ideia, embora possa dar bons resultados durante algum tempo.
Não se pode enganar toda a gente durante todo o tempo…
Aguardemos pela revelação que a ex-ministra quererá impor no seu novo cargo, na FLAD. Como dizia o deputado António Filipe, que mal teriam feito os correspondentes americanos da fundação? Não lhes bastava o Iraque, o Afeganistão e o Lehman Bros?
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Educação VIII - A cimeira ibero-americana

Prolongo a mensagem de Sofia de Melo Breyner sobre a necessidade da educação indiscriminada de todos os cidadãos. O presidente de El Salvador , Maurício Funes, tem um rasgo de lucidez e diz aos seus confrades:

“Abrir a porta à Educação não é uma questão de ideologia, é uma questão de sobrevivência … é a única possibilidade de grande parte da população sair da pobreza”.

É assim tão difícil de entender, ou não querem mesmo que grande parte da população saia da pobreza ? (da pobreza, da taxa de natalidade excessiva, do seguidismo da tradição alienante, do aproveitamento pelas organizações religiosas, da exploração pelos critérios adam smithistas, etc. etc, mas depois dizem que escrevo por questão de ideologia…)

sábado, 28 de novembro de 2009

Educação VII - Sofia de Melo Breyner

Oiço na Antena 2 uma entrevista de Sofia de Melo Breyner.
Cito de cor: Do ponto de vista cultural estamos divididos em castas. É uma alienação cultural e uma discriminação entre as pessoas que impede que o que se escreve seja entendido por todos. Só o ensino poderá fazer a desalienação, para que as pessoas compreendam.

Subscrevo, mas se bem interpreto, isto quer dizer que as escolas devem ser eficientes para todos, sem “rankings”, porque todas têm de ser boas.
Infelizmente, continua a vigorar o conceito mazdeista de bons e maus.
Recomendamo-nos pôr os filhos nas escolas privadas que são melhores.
Aceitamos a degradação do ensino público, fatal quando 50% dos professores pediram a reforma no último ano.

Foi tão fácil enganar (alienar, i.é, afastar da realidade) os cidadãos e as cidadãs com toda aquela propaganda da “avaliação dos professores” e dos “professores titulares”…

E depois não pedem desculpa aos cidadãos e cidadãs…

Pelo contrário, continuam a explicar aos cidadãos e cidadãs o que eles devem pensar.

É uma pena.

Assim vamos continuar a ser discriminados, uns privilegiados e outros não.