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domingo, 18 de outubro de 2015

Caro André Gustavo

Em primeiro lugar, parabéns pelo teu sucesso nas eleições das legislativas de Portugal de outubro de 2015.
Deixa que te peça desculpa pelo tratamento familiar, que não é vulgar em Portugal, mas espero que me perdoes, atendendo aos meus cabelos brancos, que já vai longe o tempo em que votei pela primeira vez.
Foi em 1969, era ditador o professor Marcelo, que depois se exilou no Brasil, mas que nesse ano autorizou eleições livres, as primeiras depois de 43 anos. E eu digo livres porque a oposição, que na altura era a CDE (ligada mais ou menos ao PCP) e a CEUD (ligada mais ou menos aos que formariam o PS) estavam nas mesas de voto.
Ganhou a União Nacional, suporte da ditadura, com 981 mil votos. Depois foi a CDE, com 115 mil (um dos quais meu) e depois a CEUD, com 17 mil.
Isto para dizer que já estou habituado a votar em minorias, mas sem de maneira nenhuma querer impor o que eu penso à maioria que não pensa como eu. Ou melhor dizendo, voto em ideias e não em ditaduras com goulags, nem em Maduros, nem em Kim Jongs.
E se agora te escrevo, num contexto tão diferente desse ano de 1969 (em que no teu país se vivia também em ditadura...) foi porque me lembrei de fazer uma reflexão contigo.
Nessa altura, estava eu a acabar a minha licenciatura de eletrotecnia (fui um dos poucos privilegiados com um curso superior, nesses tempos) e costumava ler uma revista de telecomunicações e eletrónica, a Wireless World.
Dei por mim a ler um dos seus editoriais e a meditar longamente sobre a questão que punha. O tema era o equipamento eletrónico de um novo tipo de caça fabricado na Suécia e que iria reforçar a aviação da NATO. No focinho do avião estava um arsenal de sensores, detetores, transmissores, radares, cujos esquemas a revista tentava adivinhar e que a grande distancia recolhiam informação sobre o inimigo e utilizavam-na para guiar os misseis até o destruirem.
O editorial fazia uma analogia com os tubarões. Os biólogos já descobriram que o focinho dos bichos está equipado com sensores que detetam a mais pequena porção de sangue e o movimento das presas a grande distancia e que elas não têm hipótese de escapar. E a questão moral era esta: OK, o técnico de eletrónica colabora no projeto, põe a sua ciência ao serviço de arma de matar, e como sabe que quem a detem a utiliza bem? Qual a garantia que um louco não ganhe eleições e não vai pôr os caças a bombardear inocentes?
Assim como assim, Hitler ganhou as eleições e anos depois fez um referendo e ainda teve maior votação, seguindo-se os bombardeamentos de Londres com as V2 e os primeiros caças a jacto.
Na altura não sabia, mas anos depois 4 políticos do mundo ocidental reuniram-se nos Açores e mandaram avançar a aviação sofisticada para apoiar a invasão do Iraque das armas de destruição maciça que afinal não havia, com os resultados conhecidos.
Por uma coisa e por outra, o editorial levou-me a decidir evitar qualquer colaboração fosse com que projeto militar destrutivo fosse.
Mas já na altura reconheci que era legítima essa colaboração, que a responsabilidade de um mau uso de um bombardeiro não é do técnico que o equipa, mas de quem decide a utilização da arma.
Simplesmente não quis trabalhar na industria da eletrónica de armamento, nem criticar os colegas que enveredaram pelo projeto em empresas que vendiam equipamento às forças armadas.
É esse paralelo que estou agora a estabelecer.
Por um lado, é perfeitamente legítimo o teu contrato com o primeiro ministro de Portugal que mentiu aos eleitores em frente das câmaras de televisão nas legislativas de 2011. Sabes, com certeza, daquela vez em que disse que era uma estupidez cortar os subsídios de Natal e depois cortou-os mesmo, ou quando disse que sabia muito bem onde havia de cortar e depois se desculpou a dizer que afinal a situação era mais complexa (sintoma nítido de impreparação).
 Eu sei que estás a pensar "vocês só sabem queixar-se, se vivessem no Brasil, terra de desigualdades ainda maiores, não se queixariam tanto, não sabem a sorte que têm".
Pois, talvez, apesar de tudo este é um país desenvolvido, mas o primeiro ministro que tão bem ajudaste, com o teu "know how", ajudou a aumentar a pobreza e as desigualdades em Portugal.
A riqueza por habitante baixou 12,9% desde 2011, o número mde milionários ultrapassou o número de milionários na Arábia Saudita, 15%  das crianças têm pelo menos um dos pais desempregado há mais de 12  meses, o número de crianças na pobreza ultrapassou 640 mil, mais de um quarto, e sabes como as privações que uma criança sofre condicionam o seu desenvolvimento físico e intelectual, refletindo-se na sua baixa produtividade quando adulto, o risco de pobreza e exclusão social da população em geral subiu 2,1% para 27,5% , claramente acima da média da UE (dados do relatório da Caritas de 2015). Aliás, apenas 40% dos adultos ativos tem o curso secundário completo, quando a média da OCDE é de 77%.
Isto é, aumenta o fosso, e não é por causa da inconsciencia do primeiro ministro anterior e do respetivo ministro das finanças, como o teu cliente costuma desculpar-se, não sei se por sugestão tua, ao mesmo tempo que omite a gravidade da crise financeira internacional de 2008 e o atraso indesculpável do BCE em intervir até baixar as taxas de juro dos empréstimos.
É porque a política do teu cliente e dos seus ministros das finanças foi de clara transferencia do rendimento do fator trabalho para o fator capital, desperdiçando a oportunidade que o petróleo barato e as taxas de juro baixas proporcionaram.
Vou mostrar-te dois gráficos. Talvez queiras utilizá-los nas tuas apresentações, porque compara as desigualdades em vários países e relaciona-as com os problemas sociais em cada país. Foram retirados de um livrinho de que os economistas neo-liberais que nos governam não gostam nada, "The Spirit level", de Richard Wilkinson e Kate Pickett ("O espirito da igualdade, por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor", ed.Presença).


Ponho estes gráficos aqui para mostrar que uma das prioridades de qualquer governo em Portugal deveria ser o combate às desigualdades, o que o teu cliente, com os números que já citei, demonstrou não querer.
Foram 4 anos perdidos, digo-te eu não só pelo que já disse.
Mas também pelo que o governo do teu cliente não fez na minha área profissional.
Parou investimentos que tinham financiamento através de fundos comunitários, de linhas de alta velocidade que ligariam à Europa em bitola internacional a estações de metro que economizam combustível importado, privatizou empresas de produção e distribuição de eletricidade sem primeiro reduzir as taxas de rentabilidade dos produtores, desperdiçou candidaturas a fundos comunitários para aumentar as interligações energéticas com a Europa (só uma pequena parte foi proposta).
Dirás que sou parte interessada porque me cortaram o complemento de reforma, que era mais uma prova de que sou um privilegiado.
Pois, serei, mas era um contrato. Como é um contrato pagar a dívida ao credor. Só que o teu primeiro ministro é forte com os fracos e fraco com os fortes. Não quer sequer ouvir falar na taxa Tobin nem em renegociar a dívida (ao menos os prazos...) mas acha que o contrato com os reformados não precisa de ser respeitado.
Tem o conselheiro do primeiro ministro que sacrifica assim o seu povo consciência de que é cúmplice na sua ação, ou sente apenas que se limita a cumprir um contrato? como o técnico de eletrónica do jacto da NATO ... se receber uma proposta de uma força política oposta considerá-la-á?
Glorificaste na campanha eleitoral os exitos da parte da sociedade portuguesa que tem crescido apesar da crise, desviando os holofotes da outra parte, que aliás prefere abster-se nas eleições, assim aumentando um fosso de desigualdade de rendimentos que já era inadmissível.
Discretamente deixaste no esquecimento o crescimento da dívida, a pública e a privada, o défice acima do previsto (ai a ministra das finanças que, imprudente, não segue as tuas recomendações e nega a evidencia...) porque tudo isso mete contas e faz doer a cabeça.
Aproveitaste a ténue subida do PIB e a descida da taxa de desemprego para ganhares eleitores. Deixaste na penumbra a sangria da  emigração e a diminuição da população ativa, que sabes muito bem que nestes casos é melhor não dizer nada. E aquela ideia de retirar os desistentes da estatística do desemprego quando se atrasam um dia em responder à pergunta se ainda estão desempregados foi tua? cerca de 50 mil todos os meses, foi uma boa ideia ... mas não deve ter sido tua, não te tenho nessa conta, apenas a aproveitaste. Conheces, com certeza, a lei de Philips, que relaciona o desemprego com a baixa de preços. É esse o objetivo do teu primeiro ministro, conte os preços, e para isso precisa de aumentar o desemprego para, baixando a procura, baixar os preços. Mas o teu marketing tem de dizer o contrário às pessoas, e para isso nada melhor do que umas contas maquilhadas do desemprego, não é?
E deu resultado, isso e a condução da imagem.
Embora saibas que é o conteúdo, a essencia, o concreto, e não a imagem, a aparencia, o virtual, que resolvem as coisas.
Até os indicadores da saúde, depois de se agravarem nos dois primeiros anos com os cortes em serviços essenciais, mostraram ligeiras melhorias á aproximação das eleições...

Difícil, este dilema moral.
Difícil governar um país.
Difícil, combater as desigualdades, uma sociedade dividida entre sucesso e insucesso.

Vamos ver como correm as coisas, como o povo português mais sacrificado vai reagir à continuação das dificuldades, como combaterá a promiscuidade entre o poder económico-financeiro e o poder político.
Encontramo-nos nas próximas eleições?

Até lá desejo-te, eu e também os reformados, os desempregados e os desvalidos deste país, os maiores sucessos profissionais e pessoais.

Um abraço







domingo, 11 de outubro de 2015

Resultados eleitorais - os sábios

No momento em que escrevo não se conhecem ainda os resultados eleitorais da emigração, de modo que só posso registar o seguinte quadro, em que as percentagens são referidas ao total de inscritos nos cadernos eleitorais e os mandatos ordenados por ordem decrescente:

partido ou                votos               %                 nºdeputados
conjunto

inscritos               9 439 651           100,00
votantes               5 374 363             56,93                 230

abstenções           4 065 288             43,07              
PSD                     1 979 132 (1)       20,96(1)                 86

PS                        1 740 300             18,4                     85
BE                           549153               5,80                   19
CDS                                                                            18
PCP                         444 319 (2)        4,70(2)                 15                
PEV                                                                              2

brancos                   112 293               1,11
nulos                         86 571               0,92

(1) inclui votos no CDS
(2) inclui votos no PEV

Os sábios que comentam os resultados na TV, repisando o bordão desagradável "para as pessoas lá em casa perceberem", como se lhes competisse formar a opinião das pessoas, insistem nas teses de bipolarização e na exclusão de partes significativas de votantes de representação no governo. Têm uma certa razão, mas se e só se a assembleia da República, como orgão legislativo, prevalecesse sobre o governo, este como orgão executivo. Ora, na prática, é o orgão executivo que toma as iniciativas. Então, parecerá preferível fazer representar no governo todas as sensibilidades, consoante o seu peso eleitoral. O que deveria levar a que o governo considerasse as motivações dos 43% de abstencionistas. Isto é, deveria desenvolver as técnicas de sondagem aplicada a casos concretos, como por exemplo as privatizações, em que as poucas sondagens conhecidas as desaprovam. Mas os sábios comentadores não querem saber dessas minudencias (que diriam eles se os 43% de abstenções estivessem representados no parlamento pelos correspondentes lugares vazios?).
E explicam com gráficos por que a coligação de direita, embora perdendo votos, ganhou as eleições depois de 4 anos de austeridade.
quanto maior o saldo estrutural maior a austeridade



as estatísticas do desemprego e do PIB, embora trabalhadas no que toca aos efeitos da emigração e redução da população ativa, empregos precários e dédice de registo dos desistentes, foram habilmente utilizadas para aumentar a confiança no governo a partir de julho de 2013 aumentando as intenções de voto no PSD-CDS

Os sábios também não querem saber de algo que permitiria interpretar melhor os resultados da votação: o voto preferencial, ou seja, cada eleitor, para que o seu voto fosse validado, teria de assinalar por ordem decrescente 3 forças políticas concorrentes, com a correspondente ponderação diferenciadora (ou melhor, cada eleitor disporia de, por exemplo, 6 pontos para atribuir a uma força política, 3 para outra e 1 para uma terceira).
Tão pouco se preocupam com as teorias da psicologia comportamental e social da necessidade de integração em grupos através da obediencia a lideres ou da acomodação a soluções conhecidas em contextos de grande complexidade.

Para os sábios é ainda dispensável discutir a forma de equilibrar o saldo orçamental. Não querem saber, ou simplesmente não fazem ideia, por nunca terem trabalhado em empresas produtivas, de que modo se pode aumentar o investimento privado e comunitário (através de projetos rigorosos suportando candidaturas aos fundos europeus), reduzindo o nível de poupanças (pode parecer paradoxal, mas as poupanças no banco, a render,  reduzem o saldo orçamental), reduzindo as importações (o contrário do que está a acontecer, com o aumento da importação de automóveis, especialmente das gamas mais elevadas, com a loucura do predomínio do transporte individual e do transporte aéreo sobre o transporte ferroviário,  com o imobilismo na produção energética de fontes renováveis e na construção de infraestruturas para a sua exportação, e com a pressão das grandes superfícies comerciais para aumentar o défice alimentar) e aumentando as exportações (os sábios mostram-se contentes com o saldo positivo da balança de pagamentos, mas isso só acontece porque o setor de serviços, turismo e serviços de engenharia incluidos, conseguem compensar o défice tremendo em bens (haverá alguma regra da UE que proiba IVA mais elevado sobre bens importados que não sejam produzidos em Portugal?) .


Mas vejo-os a assustar as pessoas, anunciando que as politicas austeritárias são para manter. De facto são, considerando as questões do défice energético e do défice orçamental, da balança de pagamentos de bens desequilibrada e do desperdício dos fundos comunitários em infraestruturas reprodutivas como as energéticas e as ferroviárias. Mas não ao nível do castigo sistemático do fator trabalho e dos pensionistas e reformados (ficará na história das campanhas eleitorais o episódio da senhora vestida de rosa: "quer que vá buscar o recibo?"). Não os vejo também, aos sábios, discutir a taxa Tobin, e fico a pensar que continua a ser verdade a "boutade" de João Cesar das Neves, que não é propriamente um intelectual de esquerda,"os ricos não pagam impostos em Portugal". E não fica bem a uma classe política passar a campanha eleitoral a dizer que o pior já passou, e depois continuarem as restrições.


Vejo-os a ameaçar as maiores desgraças, com subidas incontroláveis dos juros "nos mercados" se o novo governo desenvolver politicas de esquerda (não ficou provado que a crise internacional de 2008 aconteceu por falta de controle sobre a especulação financeira, dos subprime aos swap? e que é para evitar esses descontroles que existem instituições como o BCE?).

Como dizia um colega meu, os sábios não são mais doutores que eu, e se estou a ver mal as questões, também me parece que os sábios o estão a fazer.
Deveriam ser mais humildes.
Salvo melhor opinião, claro.

Nota: os gráficos foram retirados de   http://www.pedro-magalhaes.org/perplexos/    e a sua citação não significa concordancia com eles, especialmente no relativo às estatísticas do desemprego (sendo conhecidas a influencia da emigração, da redução da população ativa, do emprego precário e subemprego, e do deficiente registo dos desistentes) e da confiança, dado que a amostra não inclui os 60% de portugueses e portuguesas que vivem em condições precárias (reconheço que 40% de cidadãos e cidadãs vivem bem ou remediadamente), mas concordo que, apesar de omitir as causas da abstenção, é uma boa análise, pelo menos bate certo com os resultados (perdendo votos enquanto a oposição subia o número de votantes, a coligação PSD-CDS teve mais votos)

PS em 15 de outubro de 2015 -  Finalmente são conhecidos os resultados da votação dos emigrantes. Junto então os resultados finais com as percentagens referidas ao número de eleitores inscritos, mas estou visceralmente indignado com o tratamento dado à emigração. 
Nada ganho com isso, mas a minha realidade é esta, visceralmente indignado com a anulação dos votos enviados de Caracas e de Timor, por razões pífias, os envelopes foram endereçados ao ministério dos negócios estrangeiros em vez das freguesias respetivas. 
Faz lembrar as não menos pífias razões do cartão de cidadão não poder ser vitalício. 
Na era das assinaturas eletrónicas e da internet, o cartão tem de ser renovado?  
Quando ainda se conservam papiros dos antigos egipcíos...o voto dos emigrantes não pode ser enviado pela internet? 
E as entidades ditas competentes vão resolver o problema para as próximas eleições dinamizando a inscrição como eleitores? e o novo parlamento vai reformular o voto dos emigrantes, para que não se desrespeitem as pessoas que querem votar e são desconsideradas desta maneira? sem que ninguém apresente desculpas? 
Assinale-se ainda o valor elevado da abstenção, 44,14%, que deveria tornar  humildes os políticos eleitos pela pequenez da sua representação (imaginem que os lugares no parlamento correspondentes aos eleitores que se abstiveram ou votaram branco, nulo ou nos restantes partidos, estavam vazios, cerca de 150, dado que o método de  Hondt dá uma vantagem aos mais votados, neste caso a abstenção ...)  e que revela a necessidade de mudanças. Para obter o número de deputados eleitos por cada 1% de votos relativamente aos eleitores votantes, basta multiplicar os valores indicados pela percentagem de votantes, 55,86%.

partido ou                votos            % relativamente    nºdeputados     nºdeputados       nºvotos
conjunto                                          aos inscritos                             por cada 1%      por cada
                                                                                                     dos inscritos      deputado
                                                                                                     (eficiência)        (esforço)
inscritos               9 682 553           100,00%
votantes               5 408 805             55,86%                 230                       4,12        
abstenções           4 273 748             44,14%            

PSD                      2 082 511 (1)       21,51%                   89                       4,97(1)     19 463(1)  
PS                        1 747 685             18,05%                  86                       4,76          20 322
BE                           550 892               5,60%                 19                        3,34          28 994
CDS                                                                              18        
PCP                         445 980 (2)        4,61%                    15                       3,69(2)     26 234(2)
PEV                                                                                2
PAN                          57 849               0,60%                    1                        1,67         57 849
brancos e nulos         202 395               2,10%
restantes partidos      319 524              3,30%



(1) inclui votos no CDS; caso se considere a mesma distribuição de votos entre PSD e CDS das eleições de 2011, o PSD teria em 2015 recebido 1 598 479 votos (abaixo do PS) e o CDS 484 032 (acima do PCP/PEV), considerando que em conjunto estes dois partidos receberam menos 731 218 votos
(2) inclui votos no PEV

sexta-feira, 14 de março de 2014

Abra os olhos

Agora que se aproximam eleições,



Abra os olhos e combata a fraude deste governo




A falta de diversidade do governo pode sair-lhe cara:

- mais impostos
- mais desemprego
- mais emigração
- mais investimento líquido negativo
- maior degradação da balança comercial de bens
- maior tempo de espera na saúde, educação e segurança social

quarta-feira, 4 de julho de 2012

As castas, mutatis mutandis - ou a explicação por que não há revoluções na rua, apenas vaias aos governantes

Podemos colocar a hipótese de que, depois do 25 de Abril de 1974, o povo português foi desenvolvendo uma cultura política, segundo critérios pacíficos.

Também podemos pôr a hipótese de que, quem vai para a rua manifestar-se, o faz integrado em estruturas, ou respeitando as regras acordadas com estas estruturas e as entidades oficiais com que acordam a realização das manifestações.

Pelo que, apesar de tudo, o ambiente em Portugal é relativamente pacífico, e não se vêem revoluções na rua contra as difíceis condições económicas em que cada vez mais portugueses vivem.

Também podemos admitir uma hipótese menos idealista do que esta, embora mantendo o gosto pela paz nas ruas.

Uma grande fatia da população portuguesa teve de reduzir custos, embora sem afetar a área dos bens e serviços essenciais. Trata-se de trabalhadores por conta de outrem que viram os seus rendimentos diminuídos da ordem de 15 a 20%  (não foi só o corte de 14% nos salários através do corte dos subsídios de natal e de férias dos funcionários públicos e reformados; foi a redução do consumo destes cidadãso que afetou muitas ativdas privadas, nomeadamente restauração e turismo, foi a concentração nas poupanas, foi a cessação de apoios a familiares que trabalham em atividades privadas com a subsequente redução dos rendimentos, daí a estimativa de 15 a 20% para todos).

A questão não será muito grave para essa população, na medida em que parece que a procura dos particulares, isto é, o consumo, não terá caído mais de 5 a 8% (não tenho os dados corretos, nem confiança nos dados do INE, dada a pujança da economia paralela).

Porém, outra fatia crescente da população entrou na faixa das carências do essencial, incluindo os desempregados. Para alem das carências, há a acrescentar os efeitos do desemprego na psicologia das pessoas, diminuindo a auto-estima e contribuindo para perturbações do tipo de depressões, as quais atuam precisamente no sentido inverso de considerar o desemprego como uma nova oportunidade; isto é, as depressões diminuem as hipóteses de desenvolvimento de iniciativas particulares. Serão 20% da população.

Há ainda a contar com a faixa da pobreza, presa na respetiva armadilha (isto é, os rendimentos obtidos são insuficientes para investir em condições de aumento dos rendimentos – estão numa zona de rendimentos descrescentes apesar do valor dos seus rendimentos ser muito baixo). Acrescem os efeitos negativos da depressão . Serão 20% da população.

Temos então que a depressão e a consequente falta de estímulo e de iniciativa podem, por hipótese, justificar o clima pacifico em que se vive.

Podemos ainda admitir que 10% dos portugueses trabalha ou é empresário em atividades que estão em crescimento ou que não sofreram recessão, beneficiando dos preços baixos que o desemprego “segura”, de acordo com a lei de Philips, e das taxas de juro baixas (excessivamente, na minha humilde opinião) do BCE; apesar da ameaça da inflação devida aos custos da energia e dos alimentos e sustentando assim um razoável nível de vida de 25% de portugueses.

Admitindo que 5% dos portugueses são os donos de Portugal (na linguagem corrente) e suas famílias e círculos restritos, e que, com ou sem mérito, com ou sem ética, têm beneficiado do contexto, temos que a primeira fatia referida, a da classe média que viu os seus rendimentos diminuidos mas teve a felicidade de não mergulhar na faixa da pobreza ou da sua ameaça, terá a dimensão de 100% - (20 + 20 + 25 + 5)% = 30%

Admitamos as seguintes taxas de abstenção para as várias categorias, repetindo entre parênteses o peso da categoria, e recordando que um dos efeitos da depressão é o de ficar em casa em vez de ir votar:

(30% - classe média) --------  40%
(20% - desempregados) ----   50%
(20% - pobreza) -------------- 90%
(25% - beneficiários) --------  30%
(5% - donos de Portugal) ---- 20%

Admitindo que as três primeiras categorias castigarão em eleições a coligação do governo (20% de votos), mas as duas ultimas não (80% de votos) , teríamos como resultado das eleições, para o governo (igualando, para simplificar, a população ao universo dos eleitores):

0,3 x 0,2 (1-0,4) + 0,2 x 0,2 (1 - 0,5) + 0,2 x 0,2 (1 – 0,9) + 0,25 x 0,8 (1 – 0,3) + 0,05 x 0,8 (1 – 0,2) = 0,232

Isto é, o governo recolheria 23,2% dos votos dos eleitores inscritos, com uma abstenção de 0,3 x 0,4 + 0,2 x 0,5 + 0,2 x 0,9 + 0,25 x 0,3 + 0,05 x 0,2 = 0,485 , isto é, 48,5% de abstenções.

A percentagem de votos expressos de apoio à politica do governo seria assim de
100% (0,232/(1 - 0,485)) = 45%

Valor muito lisonjeiro para a coligação do governo, e que não garante uma alternativa melhor, no formalismo democrático existente e no dificil entendimento entre outras forças politicas. Pelo menos, enquanto não for alterado esse formalismo, no sentido de permitir a formação de governos integrando o maior numero possível de sensibilidades e representando o melhor possível todos os cidadãos e cidadãs.

No fundo, a hipótese não é simpática, porque me faz lembrar o problema das castas na Índia, mutatis mutandis, claro, claro, não quero ofender ninguém, embora quem se sentisse ofendido talvez estivesse tambem a sentir-se superior à cultura da India.
Até para instalar uma rede de águas as castas superiores protestaram, há uns anos, que não queriam estar ligadas à mesma rede a que estavam ligadas castas inferiores.

No nosso caso, muitos dos que se sentem bem talvez não vejam razão para mudar de política do governo; não sentirão a solidariedade de quem está pior, que a obrigação já foi cumprida quando doaram para o banco alimentar ("não vamos brincar à caridadezinha" de uma canção política de José Barata Moura, no princípio dos anos 70).

Por isso não gosto de ver os nossos intelectuais a criticar o “amorfismo” da população que não protesta mais organizadamente nas ruas.

Na realidade protesta, mas em manifestações sempre consideradas pouco frequentadas pelos destinatários das suas mensagens, ou em vaias a senhores ministros ou ao senhor presidente que, devendo ser respeitadas, facilmente são enquadradas pelo governo nos meandros de uma politica local.

Mas por isso, pelas hipóteses sobre a vontade de paz social, também não concordo com os apelos à luta, por mais que se diga que só com a luta se conquista aquilo que se merece.

Não discuto esse argumento, mas do ponto de vista estratégico dou mais importância à correlação de forças, e essa mostra a balança a pender mais para o lado do governo, que pode sempre invocar o contexto internacional desfavorável que impede o relançamento da economia, que agravam a quebra do consumo e das receitas, nomeadamente fiscais. E também hipocritametne, como fez a senhora do FMI a propósito das crianças do Níger, o governo pode sempre dizer que há outra parte da população que está ainda pior do que aquela que protesta (por exemplo, quando trabalhadores de empresas públicas de transportes fazem greve para defender os seus acordos de trabalho, o governo pode sempre dizer que a maior parte dos passageiros nem sequer beneficia de acordos coletivos, com a agravante de que o desemprego também fez diminuir a procura do transporte, apesar de alguma transferência do transporte individual para o coletivo).

Na insignificante opinião do escriba deste blogue, o esforço deveria concentrar-se na eficaz representação de todas as categorias sociais no governo (podia começar-se pelo Conselho de Estado, com obrigação de estarem representadas as minorias politicas) e na definição dos métodos de trabalho em equipa do governo e da sua ligação às freguesias, autarquias e à sociedade civil, excluindo o método atual de entregar a uma ideologia ou a uma orientação politica a condução de todos os negócios da coisa pública.

Poderá ser imodéstia, mas parece-me que seria uma luta mais eficaz, atendendo à atual correlação de forças, rever os princípios da democracia e da sua prática, analisando casos como o da Islandia, por exemplo, em que grupos de cidadãos participam ativamente na vida poltica, fora do contexto partidário.


PS em 5 de julho de 2012 - Nem de propósito, como se costuma dizer, hoje as notícias são a diminuição da taxa de juro do BCE, o que é um prémio para a classe média que reduz a prestação da casa, e a inclusão do subsidio de arrendamento social no rendimento das pessoas com rendimento social de inserção, levando assim à exclusão de parte significativa de beneficiários deste rendimento (uma vez que não consideram a renda como dedução) e deslocando a linha de separação dos rendimentos mais para o lado dos maiores rendimentos.
Trata-se de uma ideia cara a Friedman, castigar os pobres porque são uns incompetentes que não contribuem para o PIB, e premiar a classe média que tem emprego e sustenta o sistema político.
Existem, porém, várias questões, que ficam pendentes:
1 - o direito de mobilidade dos senhores governantes e presidente da República fica comprometido uma vez que a segurança proibirá deslocações a zonas de excluidos , o que contraria a Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos;
2 - a decisão de baixar as taxas de juro do BCE é tomada por pessoas que não foram eleitas pelos cidadãos e cidadãs, apesar de ter implicações políticas, como se viu, quanto mais não seja no acentuar das desigualdades; isto é, a decisão é abusiva e ilegítima, os eleitores não delegaram nos senhores financeiros o poder de a tomar;
3 - contrariamente a uma ideia feita, o rendimento social de inserção não foi uma invenção de partidos de esquerda empenhados em exaurir as finanças públicas, mas funciona em países como os USA, entre outras razões, para garantir a obrigatoriedade da frequencia da escola pelas crianças

Questões a resolver, na verdade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Adriano Moreira, em Abril de 2011

Adriano Moreira surpreendeu-me há uns meses numa entrevista na RTP (ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=adriano   ).
O seu relato da submissão do poder político de Salazar ao poder económico dos grandes grupos que dominavam as culturas obrigatórias nas colónias pareceu-me paradigmático.
Agora, através de artigo no DN
(ver
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1833458&seccao=Adriano Moreira&tag=Opini%E3o - Em Foco&page=-1   ), Adriano Moreira sintetiza a essencia do problema da democracia (como evitar que o risco da abstenção transforme o cidadão em espetador passivo ou desviante?) ao mesmo tempo que se interroga sobre as dificuldades de concretização da doutrina social da igreja (como compatibilizar a doutrina social com o que dizem os economistas dos partidos democratas-cristãos? como vincular os politicos eleitos ao dever de fidelidade à verdade na prestação de contas aos eleitores?).
A - Sobre a primeira questão, esta frase de Adriano Moreira é lapidar:

"um dos riscos é que a ameaçadora abstenção continue a enfraquecer a mobilização global da cidadania, tornando frágil a relação entre as percentagens de apoio expressas, e a dimensão de um eleitorado que se entrega à situação de espectador, que não se distingue de destinatário submisso aos resultados."


Tem razão. Nas últimas eleições presidenciais os resultados foram os seguintes 
(ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/01/o-eleitor.html  ):
                                          abstenção ................. 53,4 %
                                          candidato eleito .......  23,2 %
Salvo melhor opinião, será essencial aqui dar mais atenção ao artigo 48 da Constituição 
(Artigo 48.º da Constituição da Republica Portuguesa - Participação na vida pública:
1. Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.
2. Todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre actos do Estado e demais entidades públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos.), pelo que me permito discordar do parecer de Adriano Moreira que propõe a alteração da Constituição. De pouco valerá mexer na lei se não se alterar a sobranceria e a auto-suficiencia (oligopólio?) dos poderes partidário, económico e financeiro. Por maior que seja a boa-vontade dos cidadãos, será sempre insuficiente. Pode ser que dentro das direções dos partidos, dos bancos, das grandes empresas, um ou outro membro vá pensando em mudar de cultura, para uma mais participativa.

B - Sobre a segunda questão (talvez esteja a distorcer o pensamento de Adriano Moreira, mas o que vem escrito nos Atos dos Apóstolos parece-me compatível com a doutrina social da Igreja e nada compatível com a doutrina oficial das faculdades de economia, e o critério socializante das comunidades dos Atos dos Apóstolos contribuiu de forma militar através das ordens religiosas para a expansão da religião cristã), Adriano Moreira faz um bom diagnóstico quando escreve: 
"A crise excessivamente dolorosa e gravosa que atingiu o País, não é apenas efeito colateral da agressão global levada a efeito pelo "credo do mercado", ... tem pesada participação do mau governo, da quebra de confiança entre o poder de sufrágio e os responsáveis eleitos, da ... distância excessiva entre a realidade e o imaginário que o discurso político assumiu ... a intervenção responsável das bases deveria assumir o exercício da correcção necessária, pelo menos do diálogo que rodeia a luta pela captura do poder de sufrágio."
Chegamos à mesma conclusão, com Adriano Moreira a querer mudar a Constituição (sem prejuízo do diálogo a partir das bases) e eu a querer mudar para a cultura participativa, perdoe-se-me a ingenuidade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Deolinda - Que parva que eu sou

O concerto dos Deolinda foi um exito. A sua nova canção "Que parva que eu sou" começou logo a circular na Internet:



Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.


É toda uma geração que se identifica com esta letra.
Já se proclama que é a nova canção de intervenção.
E quando os protestos começam nos jovens, o poder pode tremer.

Sabes, Deolinda, quase que me apetece concordar, que parva que és.
Mas como diria Inês Pedrosa ("Fazes-me falta"), serás antes uma garota zonza.
Demasiado ingénua para pensares, enquanto andaste a estudar, que o mundo talvez não fosse o que lias nos jornais (ou vias na televisão), o que te diziam os teus professores de gestão que os mercados têm de ser competitivos e livres, que as maravilhas da Internet e das novas tecnologias tudo resolviam por si.
Garota zonza, que deste prioridade às noites da 24 de Julho ou da Ribeira.
Que te orgulhaste de, repentinamente, o teu país começar a ter a juventude nas universidades; já não havia aquela separação antipática dos filhos família que podiam tirar os cursos superiores enquanto os teus pais e os pais dos teus vizinhos tinham de procurar cedo trabalho nas lojas, nas oficinas, a aprenderem na universidade da vida em lugar de aprenderem nas escolas indutriais ou comerciais ou nos liceus, como se dizia antigamente das escolas secundárias.
Não reparaste, ocupada como estavas com os teus testes de gestão e com os programas de socialização e normalização que tinhas de preparar para as noites de fim de semana (porque senão não te integravas entre os teu pares e isso seria uma rejeição insuportável), que no teu país se estava a criar uma separação escandalosa entre os cada vez menos que têm a cada vez maior fatia do rendimento e os cada vez mais que têm a cada vez mais pequena fatia do rendimento.
Mas foste sempre acreditando que a culpa era dos malcheirosos que não queriam trabalhar nas fábricas, ou nos transportes públicos, ou então que a culpa era dos professores que ganhavam mais do que os colegas finlandeses.
E para ti nunca houve sindicatos, essa coisa do passado, já ultrapassada.
Nunca achaste importante ir votar.
Aliás, ainda nas últimas eleições, garota zonza, deixaste a abstenção ganhar a votação.
Tiveste coisas mais importantes para fazer, um filme em DVD, ou jogos na Wi.
Ou não tinhas confiança nos politicos.
Eu acho que não podes meter todos os politicos no mesmo saco, mas eu pertenço a uma geração já muito antiga, ultrapassada, jurássica como gostas de dizer, do tempo em que havia 30.000 homens e 15.000 mulheres com um curso superior (não era bom, evidentemente).
Não tenho os números de agora, mas quando acabaste o teu curso superior os numeros eram 260.000 homens e 370.000 mulheres. Essa foi uma vitória do teu país, juntamente com a diminuição espetacular da mortalidade infantil.
Coisas do estado social, ou providencia, como te habituaste, acrítica, a ouvir classificar, sempre para valorizar a iniciativa privada, o mercado desregulado.
Nunca pensaste que era isso, o acriticismo permissivo da desregulação, que os grandes grupos económicos estavam interessados em que tu e a tua geração pensasse, para poderem fazer as suas especulações mais descansados, os seus negócios com as "off-shores", os seus negócios entre amigos.
Achavas bem ires aos grandes centros comerciais e comprar fruta barata, embora ela viesse de países em que os apanhadores de fruta são explorados como se fossem escravos (estes sim,como se fossem escravos: só são aceites como apanhadoras de morangos na Andaluzia marroquinas com filhos, para haver a garantia de que regressam a Marrocos), ou comprares uns sapatos de marca italiana de tiras prateadas feitos na India por um miúdo cheio de fome.
Nunca quiseste saber desses pormenores desagradáveis.
Interessavam-te os melhores preços, mesmo que as empresas de cá fechassem.
Enquanto os teus amigos iam acabando os seus cursos, iam ganhando os seus recibos verdes, iam, como tu dizes,tendo a sorte de poder estagiar, ou, tendo ainda mais sorte, iam arranjando um emprego numa empresa pública, com garantia de trabalho remunerado, com um recibo suficientemente credivel junto dos bancos para viabilizar o empréstimo para a compra do andar nos suburbios de Lisboa ou para a compra da carrinha de prestígio para impressionar os vizinhos. 
Isso não tem mal, tirando talvez essa ideia de querer impressionar a vizinhança com o carro potente, mas a cidade deixou de ser uma cidade para jovens. 
Mas mesmo assim não te importaste muito.
Tu e os teus amigos têm o Facebook para trocar as mensagens de socialização e de normalização em torno da vitimização de quem é mal pago e vê as prestações do crédito subir.
Não terão estudado nos seus cursos o ponto de vista freudiano, que quem se sente remunerado abaixo do que considera o próprio valor, sofre de um problema grave de insegurança e de deficiencia de auto-análise? 
Não tens uma palavra, Deolinda, para quem perde os seus empregos, para quem procura trabalho e não encontra?
E não tens nada a dizer sobre os senhores importantes que vão para a televisão dizer que agora não há dinheiro para fazer investimentos, apesar de ser isso que gera empregos (desde que reprodutivos e úteis, claro)?
O que te choca é ter um curso superior e ganhar mal?
Que mal tem se a tua amiga médica e o teu amigo engenheiro ganharem tanto como o teu vizinho serralheiro ou o teu primo pedreiro?
E se isso acontecer porque o bolo total do rendimento afinal é pequeno e não dá para mais?
Que mal terá isso se o bolo for nosso?
Será pequeno mas será nosso, e seremos nós que mandamos nele, no bolo do rendimento e na distribuição equilibrada do rendimento, não aqueles senhores importantes que falam com um ar tão sério na televisão.
Não vamos poder passar férias nas Caraibas, mas que importa se o bolo for nosso?
Este país seguirá dentro de momentos.
Graças a quem trabalha em algo que possa ser exportado ou vendido no estrangeiro, que é o que poderá suportar isto. 

Sabes, Deolinda, cantas bem e os teus músicos tocam bem.
Mas não deixes que o sucesso te estrague.
O teu poema é minimalista e coloquial. 
Não tem mal, mas não é um bom poema. 
Procura quem faça bons poemas ou já os tenha.
Vai ser utilizado na Internet como aquelas mensagens em que se critica tudo, em que todos nos vitimizamos, mas em que não há soluções.
Reivindicar melhoria de remunerações para uma classe média enganada (desviada dos objetivos durante o seu período de formação)e que não conseguiu erguer uma estrutura produtiva saudável para a economia do país, pode colher muitas palmas nos coliseus (porque os ouvintes se sentem identificados com as tuas palavras, porque os seus centros de prazer antecipam o que lhes vais dizer), mas não resolve o problema da produção de bens uteis, dos investimentos reprodutivos e da distribuição equilibrada dos rendimentos. 

Peço desculpa pelas minhas palavras amargas.
Não és a geração rasca nem és parva.
Mas achaste, tu e a tua geração, que a minha estava ultrapassada.
Está, de facto, na sua capacidade de mudar o mundo (onde vão os Beatles e o "Imagine")e na sua energia.
Mas, Deolinda, tu e a tua geração afastaram-se da realidade e acreditaram nas fadas virtuais do poder económico que nos dirige.
Não acredites agora nos mesmos que há 3 anos atrás propagandeavam os mercados desregulados.
Não enfies mais barretes, garota zonza, deixa-me tambem falar coloquialmente.
Vê se votas como deve ser nas próximas eleições e continua a cantar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Economicómio XXIV - Reflexões rápidas sobre o cérebro humano

O cérebro humano é um factor de produção nas empresas e na vida económica.
Não sou a pessoa mais indicada para o demonstrar, mas em todos os seminários ou apresentações de gurus da economia e da gestão a que tenho assistido lá vem a asserção de que o conhecimento é um factor decisivo para o sucesso das empresas.
Conhecimento e informação são o produto do cérebro humano, que é assim o factor de produção determinante.
O cérebro humano pertence ao indivíduo que o detém.
Logo, a posse deste meio de produção determina a classe dominante na cadeia de produção, sendo certo que o detentor desse meio de produção é o próprio indivíduo.
Logo, ou a lógica é uma batata, ou já atingimos o estágio marxista da posse dos meios de produção pelos próprios trabalhadores assalariados.
Como já referi anteriormente, o raciocínio anterior não é meu, e até tenho pena, mas sim dos autores do livrinho de que já fiz propaganda, “Funky business, capitalismo para sempre”, que serão tudo menos marxistas.
Vem isto a propósito, enquanto exemplo da maravilhosa dialéctica que nos atormenta a paixão dos nossos cérebros por lógica “tudo ou nada”, de duas manifestações curiosas do cérebro humano.
Uma, a de um escritor com uma rara sensibilidade poética e uma vasta cultura literária, que reagiu mal aos resultados eleitorais e invocou o conceito de estupidez para a multidão dos votantes (utilizei aqui o termo multidão para mais uma vez fazer propaganda do livrinho de James Surowiecki , a Sabedoria das Multidões).
O fenómeno das eleições é muito interessante enquanto manifestação de massas, comportando-se o indivíduo aparentemente como sujeito de movimentos indecisos ou erráticos.
Apenas aparentemente e talvez reproduzindo o movimento colectivo dos grandes grupos de animais, para quem as regras desses movimentos são condição de sobrevivência (resistência a predadores, por exemplo, garantindo os caminhos de fuga para todos os individuos do grupo graças à manutenção das posições relativas entre si apesar das constantes mudanças de direcção).
A previsão dos movimentos dos eleitores é assim mais fácil para uma boa empresa de sondagens do que para os próprios indivíduos que irão votar, mas que poderão não antever os resultados.
Nesta perspectiva, os resultados eleitorais não poderão ser classificados como “estupidez”, como de forma inapropriada o dito escritor escreveu.
Assim se poderá compreender como os eleitores, perante a desregrada política económica e financeira dos neo-liberais (respeitando religiosamente a máxima adam smithista: ”laissez faire, laissez passer”) em vez de punir nas eleições os partidos de inspiração liberal, ao contrário os premiaram.
Talvez porque os movimentos de grupo vão seguindo tendências que vão resultando de micro movimentos de imitação (como as aves no grupo migratório ou os peixes nos cardumes, protegendo-se dos predadores) e que não podem bruscamente cindir-se em dois grupos menores em direcções diferentes.
Nesta perspectiva poderia até pensar-se em “estupidez” dos votantes se pulverizassem as tendências.
As novas tendências formar-se-ão assim lentamente, talvez se possam detectar movimentos de mudança (traduzidos por uma derivada ou variação do valor absoluto relativamente a um valor anterior ) e talvez para as próximas eleições mudemos em valor absoluto.
E aqui entro no segundo exemplo de manifestação curiosa do cérebro humano.
Que é a da estratégia da nossa televisão pública. Que compete valentemente com a televisão privada nas audiências de programas de baixo nivel cultural (já imaginaram o que seria se, em vez daqueles senhores que apresentam concursos aparecessem depois do telejornal as personagens do Crepusculo dos Deuses a cantar Wagner? Que a RTP até gravou toda a Tetralogia…).
Para manter os concursos e as novelas, a RTP absorveu indemnizações compensatórias da ordem de 2.400 milhões de euros entre 2000 e 2009 (em 2009 a novidade foi um aumento de capital público de 292 milhões de euros).
Qualquer coisa como 24 km de linhas de metropolitano, chave na mão. Não é um fenómeno cerebral interessante, o que possibilita isto?
Como sabem, a grande desculpa para o sorvedouro da RTP é que precisa de fazer o serviço público.
Não, não faz, vejam o que diz o organizador do festival de cinema documentário e de curtas de Lisboa: "Não há serviço público na RTP".
Assim como é um fenómeno cerebral interessante o passivo de 15.000 milhões de euros do Instituto de Estradas de Portugal (ah, sim, existe a desculpa das Scuts, porque a dívida do IEP é só de 1.500 milhões de euros; mas também é verdade que foi vendido que a administração do IEP era muito “competente”).
Não é mesmo uma manifestação dialéctica do nosso cérebro bem português, podermos discutir números destes, da mesma ordem de grandeza do Lehman Bros?
E assim vamos.
Bem, com certeza.