Há uns anos, o senhor ministro da administração interna , discursando num congresso de ministros homólogos, em Viana do Castelo, congratulou-se com a descida da criminalidade em Portugal (ele dizia sempre que se baseava nas estatísticas e informações disponíveis, assim como o senhor presidente da República disse sobre a saúde do BES antes de rebentar, que eram as informações de que dispunha; deve ter-se muito cuidado com a fiabilidade dos dados...).
A poucos quarteirões de distancia, porem, decorria um assalto a uma ourivesaria com mortos e feridos.
Pode ter sido um episódio insignificante, especialmente se comparado com os USA, mas ´´e uma ironia do destino, num país como o nosso.
Com a atual senhora ministra da administração interna, senhora muito discreta no seu desempenho, aconteceu agora o mesmo.
No dia seguinte a ter-se congratulado com a descida da criminalidade participada, aconteceu o assalto às 3 da madrugada em plena auto-estrada. Como nos filmes americanos.
A estatística continua benévola, mas um cidadão pensa, e se acontece comigo, ir calmamente à noite pela auto-estrada e ser apanhado num tiroteio? E se tento uma correlação entre o desemprego e a criminalidade vêm os serventuários do atual governo muito zangados dizer que os dados existentes não provam nada.
Claro que não provam, por isso escrevi correlação, não escrevi relação de causa e efeito.
Mas nos países onde se fazem estatísticas com dados um pouco mais fiáveis do que em Portugal (não é uma crítica ao INE, nem à Pordata, nem aos observatórios especializados; existem estatísticas em Portugal com informação credível, como é o caso das causas de mortalidade com o recente exemplo da deteção do aumento de mortes por pneumonia, indiciando que o fecho dos centros de saúde e a concentração por razões economicistas em hospitais centrais veio efetivamente dificultar a assistencia sanitária de proximidade aos primeiros sintomas do que pode ser perigoso; quando os doentes chegam aos hospitais a doença já está num estádio fatal - existirá portanto uma correlação entre o fecho de unidade de saúde e o aumentos de mortes por pneumonia), a correlação entre o desemprego e as taxas de suicídio, o alcoolismo, o baixo PIB/cabeça e o insucesso escolar são claras. Ver por exemplo o caso da reserva de indios Sioux Pine Ridge:
http://en.wikipedia.org/wiki/Pine_Ridge_Indian_Reservation
Ciencia dificil e caprichosa, a estatística, nunca se sabe se se pode confiar nos dados...(talvez o problema esteja na forma como os dados se recolhem, se é que se recolhem)
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terça-feira, 5 de maio de 2015
As estatísticas da criminalidade e os ministros da administração internai
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Fernando de Carvalho Santos e Silva
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21:44
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criminalidade,
desemprego,
estatística,
Pine Ridge
sábado, 30 de novembro de 2013
Torturem os números que eles confessam, ou a propaganda que o governo faz com a estatística
Torturem os números que eles confessam, livro de Pedro Girão
Nogueira Ramos.
Ou de como a mentira dos senhores governantes é apresentada
como verdade estatística.
O artigo no jornal de economia, a propósito da divulgação da
estatística do Eurostat, de diminuição da taxa de desemprego de 17,6% para
15,7%, mostra em fotografia sorridente o
senhor ministro da Economia com a legenda “economia portuguesa está a melhorar
e a gerar postos de trabalho”.
É parte da verdade, pelo menos com base nos dados recolhidos, com a
reserva de que a margem de erro dessa estatística pode ser superior à melhoria
registada.
E também que a melhoria registada se refere ao trimestre anterior,
porque relativamente ao período homólogo do ano anterior, piorou (menor número de pessoas empregadas).
Consultado o INE, verificam-se os seguintes dados (em
milhões):
3ºT/2012
3ºT/2013
nºde desempregados
(1) 0,871 0,839
nº de empregados
(2) 4,657 4,554
população ativa
(3)=(1)+(2) 5,528 5,393
taxa de desemprego (4)=(1)/(3)
0,1576 0,1556
emigração (suposta igual à dimi-
nuição da
população ativa e
total) (5)=(3)2012 – (3)2013 - 0,135
população total
(6) 10,487 10,352
taxa de emprego (7)=(2)/(6) 0,4441 0,4399
Em resumo: desde o mesmo período do ano passado, o número de
desempregados diminuiu 32.000 (principalmente à custa da emigração), e o número
de empregados diminuiu 103.000 (por fecho de empresas e por emigração, mas
admitamos que foi só por emigração).
Isto é, o número de empregados diminuiu 3 vezes mais do que o numero de desempregados.
Então a taxa de desemprego diminuiu num ano 0,20% (passou de
15,76%, e não 17,6% como referiu o Eurostat, para 15,56%) e a taxa de emprego
baixou 0,14% (passou de 44,41% para
43,99%).
Se construirmos o indicador
(desempregados + emigrantes)/(população ativa+emigrantes) , obteremos
uma taxa de desemprego de 17,57%
É claro que todos estes valores dependem da fiabilidade da
recolha dos dados respetivos, sabendo-se como é remota a probabilidade de
traduzirem a realidade completa, e estão certamente no intervalo de erro, pelo
que é uma mentira a auto-satisfação dos senhores governantes, ou simples
manifestação de ignorância ou negligencia matemática, ou aparentemente, má-fé.
O que estes números indiciam é o que se vê no dia a dia, precariedade
dos empregos, fecho de empresas como os estaleiros de Viana do Castelo e uma
população em idade útil desaproveitada e ofendida quando é responsabilizada
pelo seu próprio insucesso ou pelas consequências da ausência de politicas de
pleno emprego, como manda o art.58 da
Constituição o governo desenvolver.
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Fernando de Carvalho Santos e Silva
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19:22
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taxa de desemprego
quarta-feira, 16 de maio de 2012
A Estatística e os chefes de Estado
Este blogue não é para discutir política, mas o seu escriba não resiste aos encantos da Estatística quando aplicada a temas políticos.
Já se viu a correlação entre o estreitamento das faixas da população com maiores rendimentos com o crescimento do respetivo rendimento per capita nessas faixas, enquanto as faixas de população com menos rendimentos aumenta a sua largura e diminui o rendimento per capita.
Falou-se já também na expressão matemática desse fenómeno através do coeficiente de Gini, ou de desigualdade social, em que Portugal vai perdendo os lugares que sucessivamente foi ganhando ao longo dos anos.
Poucos dias depois das eleições do chefe de Estado francês, vejo outra interpretação estatística interessantissima.
Uma empresa de sondagens e marketing, daquelas que correlacionam o código postal do comprador com a natureza, qualidade e custo dos artigos que compra e das lojas em que os compra, deu-se ao trabalho de correlacionar os bairros classificados pelo rendimento per capita dos seus habitantes, com os resultados eleitorais.
Os resultados que se obtivera são impressionantes pela regularidade e pouca dispersão (apertado intervalo de confiança) das curvas. Embora as variações das votações entre bairros sejam pequenas e a diferença entre os dois candidatos em cada bairro tambem seja pequena, verificou-se uma nitida correlação e uma veriação continua desde a votação mais significativa em Sarkozy nos bairros de maior rendimento, diminuindo progressivamente à medida que se consideram os bairros com o rendimento per capita a decrescer, até inverter a tendencia, com a votação mais significativa em Hollande nos bairros de menor rendimento per capita.
Ninguem manipulou os dados, é Estatística, amigo, diria este blogue.
E porque não é mais significativa a votação em Hollande, já que as faixas de população de menores recursos são mais largas?
Ora, isso aprendi eu na História de Portugal, nas guerras liberais, com a aliança das classes populares à aristocracia de D.Miguel.
E nos tempos que correm, com a campanha sistemática de desacreditação nos meios de comunicação social de tudo quanto seja serviços e servidores públicos, e com o endeusamento da "classe" de consumidor, aliás já entendida pelos imperadores romanos, quando falavam em panem et circensis.
É a Estatística...nem sempre em boas mãos.
Já se viu a correlação entre o estreitamento das faixas da população com maiores rendimentos com o crescimento do respetivo rendimento per capita nessas faixas, enquanto as faixas de população com menos rendimentos aumenta a sua largura e diminui o rendimento per capita.
Falou-se já também na expressão matemática desse fenómeno através do coeficiente de Gini, ou de desigualdade social, em que Portugal vai perdendo os lugares que sucessivamente foi ganhando ao longo dos anos.
Poucos dias depois das eleições do chefe de Estado francês, vejo outra interpretação estatística interessantissima.
Uma empresa de sondagens e marketing, daquelas que correlacionam o código postal do comprador com a natureza, qualidade e custo dos artigos que compra e das lojas em que os compra, deu-se ao trabalho de correlacionar os bairros classificados pelo rendimento per capita dos seus habitantes, com os resultados eleitorais.
Os resultados que se obtivera são impressionantes pela regularidade e pouca dispersão (apertado intervalo de confiança) das curvas. Embora as variações das votações entre bairros sejam pequenas e a diferença entre os dois candidatos em cada bairro tambem seja pequena, verificou-se uma nitida correlação e uma veriação continua desde a votação mais significativa em Sarkozy nos bairros de maior rendimento, diminuindo progressivamente à medida que se consideram os bairros com o rendimento per capita a decrescer, até inverter a tendencia, com a votação mais significativa em Hollande nos bairros de menor rendimento per capita.
Ninguem manipulou os dados, é Estatística, amigo, diria este blogue.
E porque não é mais significativa a votação em Hollande, já que as faixas de população de menores recursos são mais largas?
Ora, isso aprendi eu na História de Portugal, nas guerras liberais, com a aliança das classes populares à aristocracia de D.Miguel.
E nos tempos que correm, com a campanha sistemática de desacreditação nos meios de comunicação social de tudo quanto seja serviços e servidores públicos, e com o endeusamento da "classe" de consumidor, aliás já entendida pelos imperadores romanos, quando falavam em panem et circensis.
É a Estatística...nem sempre em boas mãos.
Publicada por
Fernando de Carvalho Santos e Silva
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00:51
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domingo, 15 de abril de 2012
Titanic
Tal como o naufrágio da Medusa, em 1816 ( http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=medusa ), retiraram-se ensinamentos do desastre do Titanic, passando a vigorar normas mais rigorosas de segurança.
No entanto, algumas questões permanecem.
Analisadas agora as chapas e os rebites utilizados na construção do Titanic (e do seu gémeo Olimpic) verificou-se que alguns eram de menor qualidade. Terão sido utilizados por falta de material para a construção num período de intensa procura.
Ter-se-á poupado no peso dos compartimentos estanques e no casco duplo (só o fundo estava reforçado), porque se pretendia um navio capaz de velocidades elevadas (23 nós de velocidade máxima).
Afinal, a White Star poupou bastante na construção. Até na falta de binóculos e de baleeiras de salvamento.
Se tudo corresse bem, o navio era ótimo, como aconteceu com o Olimpic, mas não estava preparado para navegar no meio de icebergs.
Nos tempos que correm, a rapidez de execução (para economia de custos de construção) e as velocidade elevadas (para rendibilidade da exploração) continuam a ser inimigas da segurança, o que volta a pôr a questão do lucro versus segurança nos transportes.
Isto é, é perigoso insistir na tecla do “fazer mais com menos” e de conseguir economia de custos “custe o que custar” (expressão recentemente utilizada pelo ditador argentino Videla, ao afirmar que as sete mil vítimas que confessou terão sido o preço a pagar para evitar a subversão).
Graças às notícias sobre o centenário do afundamento, construí o pequeno quadro com as percentagens das vítimas.

O objetivo não é emitir juízos de valor sobre uma prática corrente na altura (a rentabilização de um navio de luxo graças ao elevado número de passageiros de 3ª classe em condições menos seguras do que em 1ª classe – metáfora de uma forma de organização de uma sociedade) mas mostrar um exemplo de aplicação estatística que revela a correspondência, ou correlação, entre a organização da sociedade e os resultados de circunstancias externas desfavoráveis.
A percentagem de vítimas entre os tripulantes foi superior à dos passageiros, o que honra a memória dos tripulantes.
A percentagem de vítimas entre os passageiros de 3ª classe foi semelhante à dos tripulantes.
A percentagem de vítimas entre os passageiros da 2ª classe foi inferior à da 3ª classe, e a da 1ª classe inferior à da 2ª classe.
A percentagem de vítimas entre os passageiros da 1ª classe (37,5%) foi cerca de metade da percentagem total de vítimas (68%).
Os normativos navais foram alterados para evitar esta distribuição, (idem para os normativos de arquitetura de edifícios, estações de comboios e recintos desportivos em termos de segurança de evacuação) mas a metáfora não garante que o mesmo tenha sido feito para a organização da sociedade, ou terá sido escrita a declaração universal dos direitos humanos, mas os governos não a aplicam.
Notas sobre as condições do naufrágio:
1 – A simples aplicação das regras de navegação teria evitado o acidente. No entanto, a White Star queria reduzir os tempos de viagem. Não compete a uma administração de uma empresa de transportes definir as velocidades de segurança dos seus meios, compete aos técnicos. Naquelas circunstancias, não deveria ter-se seguido a rota mais curta (a ortodromia), mas a loxodromia (a rota de ângulo constante com o meridiano), mais a sul, ou simplesmente fazer-se como os outros navios, parar.
2 – Não é uma crítica ao oficial que ordenou a viragem a estibordo tentando evitar o icebergue, mas a ironia do destino é que provavelmente o navio ter-se-ia salvo se tivesse batido de proa, inundando apenas alguns compartimentos estanques. Também na vida real às vezes mais vale deixar bater do que tentar fugir, mas ninguém pode saber quando se vê numa situação dessas.
No entanto, algumas questões permanecem.
Analisadas agora as chapas e os rebites utilizados na construção do Titanic (e do seu gémeo Olimpic) verificou-se que alguns eram de menor qualidade. Terão sido utilizados por falta de material para a construção num período de intensa procura.
Ter-se-á poupado no peso dos compartimentos estanques e no casco duplo (só o fundo estava reforçado), porque se pretendia um navio capaz de velocidades elevadas (23 nós de velocidade máxima).
Afinal, a White Star poupou bastante na construção. Até na falta de binóculos e de baleeiras de salvamento.
Se tudo corresse bem, o navio era ótimo, como aconteceu com o Olimpic, mas não estava preparado para navegar no meio de icebergs.
Nos tempos que correm, a rapidez de execução (para economia de custos de construção) e as velocidade elevadas (para rendibilidade da exploração) continuam a ser inimigas da segurança, o que volta a pôr a questão do lucro versus segurança nos transportes.
Isto é, é perigoso insistir na tecla do “fazer mais com menos” e de conseguir economia de custos “custe o que custar” (expressão recentemente utilizada pelo ditador argentino Videla, ao afirmar que as sete mil vítimas que confessou terão sido o preço a pagar para evitar a subversão).
Graças às notícias sobre o centenário do afundamento, construí o pequeno quadro com as percentagens das vítimas.

O objetivo não é emitir juízos de valor sobre uma prática corrente na altura (a rentabilização de um navio de luxo graças ao elevado número de passageiros de 3ª classe em condições menos seguras do que em 1ª classe – metáfora de uma forma de organização de uma sociedade) mas mostrar um exemplo de aplicação estatística que revela a correspondência, ou correlação, entre a organização da sociedade e os resultados de circunstancias externas desfavoráveis.
A percentagem de vítimas entre os tripulantes foi superior à dos passageiros, o que honra a memória dos tripulantes.
A percentagem de vítimas entre os passageiros de 3ª classe foi semelhante à dos tripulantes.
A percentagem de vítimas entre os passageiros da 2ª classe foi inferior à da 3ª classe, e a da 1ª classe inferior à da 2ª classe.
A percentagem de vítimas entre os passageiros da 1ª classe (37,5%) foi cerca de metade da percentagem total de vítimas (68%).
Os normativos navais foram alterados para evitar esta distribuição, (idem para os normativos de arquitetura de edifícios, estações de comboios e recintos desportivos em termos de segurança de evacuação) mas a metáfora não garante que o mesmo tenha sido feito para a organização da sociedade, ou terá sido escrita a declaração universal dos direitos humanos, mas os governos não a aplicam.
Notas sobre as condições do naufrágio:
1 – A simples aplicação das regras de navegação teria evitado o acidente. No entanto, a White Star queria reduzir os tempos de viagem. Não compete a uma administração de uma empresa de transportes definir as velocidades de segurança dos seus meios, compete aos técnicos. Naquelas circunstancias, não deveria ter-se seguido a rota mais curta (a ortodromia), mas a loxodromia (a rota de ângulo constante com o meridiano), mais a sul, ou simplesmente fazer-se como os outros navios, parar.
2 – Não é uma crítica ao oficial que ordenou a viragem a estibordo tentando evitar o icebergue, mas a ironia do destino é que provavelmente o navio ter-se-ia salvo se tivesse batido de proa, inundando apenas alguns compartimentos estanques. Também na vida real às vezes mais vale deixar bater do que tentar fugir, mas ninguém pode saber quando se vê numa situação dessas.
Publicada por
Fernando de Carvalho Santos e Silva
à(s)
20:48
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