domingo, 22 de novembro de 2009

Economicómio XXX – Apelo para uma subscrição pública

Os dias de Natal vão caindo sobre nós, economistas ou não, mas duma maneira que os economistas devem saber explicar melhor do que eu.
Não podendo eu explicá-lo de acordo com as regras da economia, apenas posso manifestar os factos que observo, com muita pena de não ver nenhum economista a explicar os ditos factos.
E os factos que vejo e que desta forma testemunho são, numa grande superfície comercial, onze bancadas cobertas de caixas e saquinhos de chocolates para serem consumidos nesta época de Natal.
Admitindo, de acordo com os princípios dos problemas de Fermi, que cada bancada tem 9 m2 de área, que estão sobrepostos 5 caixas ou saquinhos, cada um com uma área média de 200 cm2 e com 100g de chocolates, teremos que nas 11 onze bancadas foram postos à disposição dos consumidores 25 toneladas de chocolates.
O que chamou a minha atenção para o fenómeno foi que só encontrei uma das onze bancadas com chocolates com a etiqueta do código de barras a começar por 560, isto é, o indicativo de que tinham sido manufacturados em Portugal. Devo dizer que, fazendo o papel do velhinho com obsessões particulares, mas inofensivas, espreitei por amostragem grande quantidade de códigos de barras. Só noutra bancada encontrei chocolates 560, mas numa pequena porção. A esmagadora maioria (esmagadora até pela tonelagem em jogo), era chocolate vindo de Espanha, França, Bélgica, Suíça, Polónia, Indonésia, China, Brasil, Inglaterra.
Poderá afirmar-se que naquela cadeia de hipermercados se importou 90% do chocolate a vender neste fim de ano (desprezo, nesta contabilidade, a matéria prima importada).
As grandes marcas portuguesas de chocolate estavam modestamente representadas.
Como sou do contra, ou, pelo menos, faço por retirar da globalização o que bem entendo, tirei para o meu carrinho de compras 3 saquinhos, de 100 g cada, de amêndoas cobertas de chocolate, saídos da confeitaria da Ajuda, cujas operárias gosto de ver quando calha passar à hora do almoço pela rua do centro cultural do meu bairro (Alvalade).
Eu sei que sou ignorante em economia, mas gostava que os economistas e os eleitos das autarquias compreendessem que os bairros devem ter oficinas e industria. Por causa do PIB, entre outras coisas, mas principalmente por razões de fixação das pessoas às povoações. Da forma como escrevi, parece uma redundância, e é-o na verdade, mas os decisores da câmara de Lisboa têm dificuldade em perceber, e deixam fechar as oficinas, as marcenarias, as fábricas de chocolate (lembram-se da Favorita?).
E agora andamos a subsidiar os fabricantes de chocolate estrangeiros.
Damned. Temos mesmo de os subsidiar?
Se pensarmos que 80% dos alimentos que consumimos são importados, fechamos o quadro do pessimismo (reforçado, esse pessimismo, com a ideia de que, para termos cá esses 80% de alimentos, temos de emitir mais umas doses de CO2 para ajudar ao efeito de estufa).
A importar esta quantidade de alimentos só podemos continuar a endividarmo-nos cada vez mais.
Provincianamente, e contra o parecer de Drucker, o guru dos anos 80 e 90, abandonámos a produção tradicional (o chocolate era uma delas, a metalomecânica ligeira e a pesada também, ainda bem que ainda se faz vinho, azeite e cortiça) e vamos indo atrás de algumas modas.
A Zara salvou, de momento, a industria têxtil do vale do Ave. As T-shirts vão de camião do vale do Ave para Madrid e de Madrid são distribuídas por todo o mundo, por exemplo, por camião para Setúbal, para Lisboa e para as Caldas da Rainha, e por avião para Macau e Hong Kong.
A Zara é um case study nas universidades norte americanas. Já encheu páginas da Harvard Business Review.
Mas, quem salva as fábricas de sapatos?
É que a Aerosoles, uma companhia americana, deixou cair a sua pequena filial portuguesa (será o método GM a funcionar? Como fizeram na Alemanha com a Opel?).
E agora, para os lados de Esmoriz, só criando uma nova empresa com o apoio do Governo.
Mas se não vier o apoio do Governo acabou-se (a fábrica, não o Governo).
Há um ano que os trabalhadores da Aerosoles almoçam um pão e uma sopa (está nos registos da cantina).
Há anos e anos que há mercado internacional para absorver os sapatos produzidos em Portugal. Mas a produção tinha de ser em grandes quantidades. Por causa do efeito de escala. Trabalho artesanal infantil, daquele que se leva para casa, não dá.
E o Governo diz que não tem dinheiro mas que gostava de resolver o problema (ou o que diz é por ordem inversa).
Antigamente, no tempo em que os caixeiros viajantes da Favorita e da Regina colocavam os seus chocolates nas festas de Natal das empresas, quando faltava o dinheiro, fazia-se uma subscrição pública (podiam chamar-lhe aumento de capital por emissão de acções ou de obrigações, mas também podia acontecer por efeito de solidariedade).
Agora existem o micro-crédito, os business angels, os especialistas da bolsa, o instituto de apoio ao investimento para a exportação e a provável falência das soluções para os trabalhadores da Aerosoles.
Então eu pergunto:
Alinham numa subscrição pública para lançar a Investvar, independente da Aerosoles?
Já existe uma agência de publicidade que faz a campanha e só recebe quando os resultados chegarem.
Ou será que não querem que o mercado funcione?
Eu, por mim, até acho que a empresa podia ser pública, assim como assim, como temos de nos endividar por causa da importação dos 90% de chocolate, endividámo-nos mais um bocadinho para fabricar sapatos em escala industrial.
Mas como a maioria dos portugueses vota de acordo com regras económicas contrárias, parece que a única solução é fazermos a subscrição.
Alinham?
PS - Não conheço os pormenores da organização, mas talvez tenha interesse participar na conferencia sobre o consumidor responsável. Ver em http://www.transportesemrevista.com/Default.aspx?tabid=390

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Economicómio XXIX - Cumulative advantage

Talvez eu tenha sido excessivamente crítico das filhas dos presidentes, no Economicómio XXVIII, relacionando-as com informação e posição assimétricas contrariando o princípio da igualdade de oportunidades e de direitos e, naturalmente, o princípio de funcionamento da concorrência em mercado livre.
Pesquisando nos manuais, lá vem uma expressão mais conciliadora: “cumulative advantage”.
Na continuação do Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen Dubner, a que os autores puseram o nome de Superfreakonomics (só encontrei a versão inglesa, é possível que a portuguesa saia antes do Natal), dá-se um exemplo do que é a “cumulative advantage”, que justifica uma vantagem adicional de alguém relativamente a outrem.

Um amigo de um dos autores, visitando uma senhora cortesã, reparou que ela tinha na mesinha de cabeceira o Freakonomics.
Palavra puxa palavra, e arranjou-se um belo almoço para o autor recolher informações preciosas para o novo livro, sobre uma actividade económica que tanto contribui para o PIB, directamente da senhora cortesã com capacidade intelectual. Informações que qualquer outro autor interessado em estudar a dita contribuição de tão nobre actividade para o PIB, por não ter tido a sorte de ser lido por ela, dificilmente poderia recolher.
Cumulative advantage é isso.
A diferença para a violação do princípio da igualdade é muito ténue, como ténue, ténue mas custosa, é a diferença entre o dólar desonesto e o dólar honesto de que falava Lucky Luciano, há uns blogues atrás.
Mas o exemplo, até pelo tipo de actividade que foca, parece adequado à realidade. Parece ser um modelo fidedigno.
Ninguém tem culpa de que o pai seja amigo de um banqueiro e que o banqueiro dê ordens ao seu banco para comprar ou vender os títulos que muito bem entender.
Ninguém tem culpa de que o pai seja presidente de uma republica que facilita os negócios entre as grandes empresas de desenvolvimento tecnológico e os familiares do presidente (se nos USA é assim…).
E assim como assim, comprando umas revistas cor-de-rosa qualquer jovem mulher pode imaginar-se filha do presidente.
Para se produzirem tantas revistas cor-de-rosa é preciso investir grandes montantes que vão direitinhos para a contribuição para o PIB.
Logo, não se poderá dizer que as revistas cor-de-rosa é que educam (como se dizia dantes para o fado), mas que contribuem para o PIB, contribuem.
Não poderemos portanto atirar pedras às filhas do presidentes (falando por hipérbole, claro), que tanto contribuem par ao PIB, falando agora em termos reais.
Mas posso recordar uma tia minha, que nunca enriqueceu, mas que me ensinou, ainda não tinha 10 anos, eu, que pelo facto de pertencer a uma família privilegiada (quem pode tirar um curso superior sem ter de ganhar o dinheiro para isso só pode ser privilegiado, não é?) não era mais do que os outros.
E prefiro dar razão à minha tia, do que às mentes brilhantes que justificam as filhas dos presidentes.

domingo, 15 de novembro de 2009

O nemátodo

Há 6 meses atrás, o senhor ministro da agricultura do governo do meu país desvalorizou o alerta duma associação do centro de Portugal, de que a praga do nemátodo do pinheiro estava a entrar na fase incontrolável.
Nos dias que correm, a mesma associação informa que a situação piorou e é necessário organizar esquemas eficazes de combate à praga.
O nemátodo é um verme microscópico e a doença propaga-se entre Abril e Outubro através de um insecto vector, o longicórneo, vagamente semelhante ao grilo.
A doença é lenta mas é sempre mortal.
A legislação em vigor, comodamente, atribui toda a responsabilidade pelas acções de combate aos proprietários.
De forma semelhante ao que faz com a limpeza dos matos.
Este espírito conduz à realidade actual: a praga saiu do controle e ameaça exterminar o pinheiro bravo.
No terreno ao lado do meu, o cadáver de um pinheiro, assinalado há 10 anos pelos serviços oficiais, já quebrado ao meio, apodrece de ano para ano, pasto do nemátodo.

Ignoro se o maldito insecto já propagou a doença a alguns pinheiros mansos do meu terreno.
Ignoro se o senhor ministro da agricultura do actual governo tem mais conhecimento desta realidade e dos meios de combate do que o seu antecessor.
Permito-me sugerir que a solução é indicar aos proprietários, nos quais me incluo, o endereço de firmas que, a preços controlados e limitados, por objectivo tabelado, combatam a praga, e que o montante dispendido pelos particulares seja deduzido ao rendimento colectável e passível de liquidação a prazo.
Não conheço nenhuma dessas firmas, o que não quer dizer que não existam.
Mas o facto de não conhecer indicia que o mercado da iniciativa privada não está a funcionar.
A teoria económica é muito clara: quando o mercado não está a funcionar e o interesse é colectivo, compete ao governo desencadear acções para responder a esse interesse.
Duvido muito que aceitem a minha sugestão, o que fortalece em mim a ideia de que a praga vai desenvolver-se ainda mais.
Se assim for, parafraseando o texto evangélico, temos de os perdoar, que não sabem o que fazem.
Maldito verme que corrompe os mecanismos de raciocínio da nossa espécie humana.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Vaira Vike Freiberga




Vaira Vike Freiberga já foi presidente da república da Letónia.
O povo da Letónia tem uma história de repressão por ocupantes externos.
O filme André Rubliev (autor do ícone que ilustra este texto), do realizador russo André Tarkovsky, de 1971, contem um episódio da cristianização forçada deste e dos outros povos do Báltico nos séculos XIV e XV, submetidos pelos cavaleiros teutões, polacos e russos, e obrigados a abandonar o paganismo.
Um dos povos desapareceu mesmo. Puro genocídio.
De modo que Vaira Vike Freiberga tem autoridade moral para falar.
E que disse ela?
Que a União Europeia tem de deixar de funcionar como a antiga União Soviética.
O que permite deduzir que tem funcionado como tal e induzir que se não deixar de funcionar assim, deverá implodir.
Pessoalmente, apesar dos inconvenientes que vejo na União Europeia, como seja:
- o fundamentalismo da “concorrência” (disparate, estar a separar a produção , o transporte e a distribuição da electricidade; pode gerar “apagões”; além de que a experiência ensina que a concorrência pode levar ao abaixamento da qualidade exactamente para viabilizar custos baixos)
- o excesso de burocracia (i.é, eurocracia; poderia ser a isto que a senhora Vaira Vike se referia, quando se mostrou disponível para ser presidente da U E, criticando a obscuridade das negociações de bastidores para selecção de candidatos…)
- os riscos de que uns iluminados se reunam outra vez nos Açores e mandem soldados para a terra dos outros (não estou muito certo que a senhora queira referir-se a isto),
julgo que os benefícios superam os inconvenientes, pelo que não concordo com a senhora.
Não impludamos a UE.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Economicómio XXVIII - Welwitschia mirabilis e as filhas dos Presidentes


Com a devida vénia, transcrevo da Wikipédia a descrição desta maravilhosa planta angolana do deserto:
Welwitschia é um género monotípico de plantas verdes gimnospérmicas[1][2] cuja única espécie é a famosa Welwitschia mirabilis Hook.f., que só existe no deserto do Namibe, na Namíbia e em Angola. As Welwitschias são plantas gnetófitas da classe Gnetopsida, pertencentes à ordem Welwitsciales e família Welwitschiaceae.
É uma planta rasteira, formada por um caule lenhoso que não cresce, uma enorme raiz aprumada e duas folhas apenas, provenientes dos cotilédones da semente; as folhas, em forma de fita larga, continuam a crescer durante toda a vida da planta, uma vez que possuem meristemas basais. Com o tempo, as folhas podem atingir mais de dois metros de comprimento e tornam-se esfarrapadas nas extremidades. É difícil avaliar a idade que estas plantas atingem, mas pensa-se que possam viver mais de 1000 anos.
A Welwitschia mirabilis é uma planta dióica, ou seja, os cones masculinos e femininos nascem em plantas diferentes. Tradicionalmente, esta espécie foi classificada como uma gimnospérmica (juntamente com os pinheiros e plantas semelhantes), mas actualmente é classificada como uma gnetófita, uma divisão das plantas verdes que produzem sementes (espermatófitas).
Apesar do clima em que vive, a Welwitschia consegue absorver a água do orvalho através das folhas. Esta espécie tem ainda uma característica fisiológica em comum com as crassuláceas (as plantas com folhas carnudas ou suculentas, como os cactos): o metabolismo ácido - durante o dia, as folhas mantêm os estomas fechados, para impedir a transpiração, mas à noite eles abrem-se, deixam entrar o dióxido de carbono necessário à fotossíntese e armazenam-no, na forma dos ácidos málico e isocítrico nos vacúolos das suas células; durante o dia, estes ácidos libertam o CO2 e convertem-no em glicose através das reacções conhecidas como ciclo de Calvin.
Em Angola põe-se o nome desta flor a meninas, como em Portugal pomos Margarida ou nos USA Iris (lírio).
Corre em Angola o rumor de que Welwitschea José escreveu para a sede da MultiChoice, na Africa do Sul, , informando, parece que a carta dizia informo, que a partir de 2010-01-01 a sua (sua de Tchi-zé, que é o nome por que é mais conhecida Welwitschea José, filha do presidente da Republica de Angola) participação no capital social da MultiChoice Angola, a empresa que explora a televisão por satélite em Angola, subirá para 75%.
Não pode afirmar-se que seja este o facto, apenas se pode afirmar que corre o rumor.
E o facto nem seria ilegal.
Mas a este propósito, é possível que Sarkozy, mais uma vez, dissesse que não era este o capitalismo que queríamos.
O que é natural, que não fosse este o capitalismo que queríamos, nem o dos detentores do capital da empresa de catering que abastece o exercito americano no Iraque, nem o dos detentores do capital da empresa que explora o petróleo do Iraque, mais ou menos ligados a membros do governo da administração Bush.
Como estamos de acordo…como desejaríamos que as filhas dos presidentes da republica, em sintonia com as disposições igualitárias dos textos fundamentais das Constituições dos Estados, estivessem ao nosso lado com as mesmas dificuldades com que nos defrontamos nas lutas quotidianas, com os mesmos comportamentos de cidadãos e com os mesmos níveis de rendimento em função do trabalho executado ou do capital investido que nós temos.
Isso sim, seria o capitalismo que nós desejávamos, embora seja uma utopia, claro.

A casa nova de Joana e o desperdício II

Joana está orgulhosa da casa nova.
Toda em tons de branco, com iluminação indirecta.
A casa não é bem nova, é o primeiro andar de um prediosinho de 2 andares, dos anos 20 do século passado, laboriosamente remodelado em tons claros, eu não diria reconstruído, numa rua da Lapa a descer para o Tejo.
Nesta casa de Joana não terá havido desperdício na iluminação. As lâmpadas são economizadoras, do tipo fluorescentes compactas, e não há que temer a exposição às radiações não ionizantes devidas às altas frequências que elas produzem porque estão lá em cima, por trás das sancas do tecto.
Enquanto esperamos a afinação das formas comerciais de grande consumo da iluminação por leds, é uma boa solução.
Não temos aqui a restituição de cores quentes da iluminação por halogéneo, mas temos a claridade.
Então porque falo de desperdício?
Porque, deuses e deusas dos lares, a casa é pequenina. A sala , o quarto, a cozinha. Tudo se ajusta ao ar delicado e discreto de Joana sem que se expanda em grandes espaços.
Assim se desperdiça Joana numa casa pequenina, como qualquer jovem que queira morar em Lisboa e não possa adquirir um andar de áreas grandes.
Porque a construção antiga raramente era espaçosa e a recuperação dos edifícios teria de passar pelo sacrifício ou pelo “emparcelamento” (anexação) de alguns prédios para que as áreas por fogo aumentassem.
Que possibilidades terão a nova associação de casas antigas (http://www.ap-casas-antigas.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=7&Itemid=8&lang=pt) e também o Grémio das empresas de conservação e restauro do património arquitectónico (http://www.gecorpa.pt/gecorpa1.html), ou outras associações de cariz mais ou menos democratizante, privadas, públicas, municipais, seja o que for, para executar ou participar na execução de um programa consistente de reabilitação dos prédios de Lisboa?
Assim se desertifica a cidade, perante o olhar impotente dos cidadãos e a sobranceria auto-satisfeita dos eleitos da vereação, porque os jovens preferem os andares espaçosos da periferia, a espera nas filas do transito e o estacionamento nos passeios.
Que desperdício, deixar fenecer esta cidade (e os seus habitantes?).

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Economicómio XXVII - “Um gajo tem de trabalhar onde há trabalho”

Homenagem aos trabalhadores portugueses do viaduto de Andorra.

Um dos colegas dos trabalhadores mortos disse uma evidencia que para a comodidade das vidas de muitos de nós choca pelo contraste com essa mesma comodidade.
Estamos entretidos com a ascensão e queda de um pequeno funcionário duma dependência bancária de Tras os Montes, com os concursos e as telenovelas da televisão, enquanto alguns de nós vão e vêm , através da fronteira com Espanha.
Os mesmos que iam à India e traziam a pimenta e cujas viúvas nada recebiam se a nau naufragasse com eles.
Os economistas que nos governam tinham-nos avisado: com a crise (excesso de produtos nas prateleiras das lojas, preços baixos e desemprego alto), quem tivesse emprego fixo ficava melhor, quem não o tivesse ficava pior.
A necessidade de ir trabalhar para longe resulta, não por correlação mas por relação de causa e efeito, duma coisa (utilizo o termo na acepção de entidade desumanizada) que nos entusiasmou há uns anos, pelo menos à maioria de nós, e que é a globalização.
A globalização permite o abaixamento dos preços no consumidor.
Esse é um facto.
Porém, através da concentração da produção em regime quase de monocultura (especialização elevada em qualquer local do mundo, longe do centro de gravidade dos consumidores), e do aproveitamento dos transportes baratos, a produção está longe, muito longe dos consumidores.
O Automóvel Clube é capaz de me expulsar, mas os combustíveis estão baratos, que diabo, muito baratos, e a globalização é uma das provas que estão baratos: produzir localmente deveria ser mais barato por estar perto do centro de gravidade dos consumidores; se me falarem da economia de escala falem-me também das melhorias de produtividade em pequenas produções graças à evolução tecnológica.
Não é só a produção que está longe.
É o próprio trabalho que está longe, em Andorra.
O trabalho deveria estar mais perto da aldeia dos trabalhadores do viaduto de Andorra.
O país é pobre mas o trabalho tem de aparecer.
As mentes bem pensantes que o querem atrasar não têm de ir e vir a Andorra, e quanto mais o atrasarmos mais portugueses morrerão nas estradas de Espanha a ir e vir para o trabalho.
Se quisermos avaliar as vantagens da globalização, temos de avaliar também as suas desvantagens.
Uma análise não deve ser apenas de benefícios (que os tem, a globalização, neste caso tem os salários dos trabalhadores e a sua contribuuição para o equilíbrio da balança de pagamentos do país, pobre como sabemos).
Devem contabilizar-se os custos. E neste caso, nos custos, estão as perdas de vidas humanas, estão a desertificação de extensas área do interior do norte do país, estão o abaixamento da produção interna.
Porque não fazem os economistas que nos governam contas a isto? (já disse que não me refiro aos economistas do governo; refiro-me aqui aos que alimentam a ideia que vivemos numa nova economia maravilhosa, em que a crise do Lehman Bros até ilustra as maravilhas do sistema, e que portanto governam, ou querem governar, a nossa consciência).
Ofereço este argumento ao governo, de que não gosto, mas nisto concordamos (assim já posso criticá-lo no que discordamos).
Sinto ainda que devo referir que, apesar das limitações que nos são próprias, tem-se verificado em Portugal um aumento da cultura da segurança no trabalho.
É verdade que houve uma grande transferência da força de trabalho ao nível de licenciados para esta disciplina, graças também a uma legislação vinculativa, e isso tem custos.
Têm sido raros os acidentes mortais em obras do Metropolitano de Lisboa, por exemplo (último acidente fatal em 2002, com um gruista na obra de Telheiras). Na última expansão, da Alameda para S.Sebastião, apesar das pressas, não houve acidentes fatais devidos à obra. Apesar do desastre do túnel do Terreiro do Paço em Junho de 2000, também não os houve na expansão da Baixa para Santa Apolónia.
Existem muitas dúvidas de que os empreiteiros nas obras dos viadutos espanhóis cumpram os procedimentos de segurança.
Também tivemos cá acidentes, muitas vezes nas mesmas circunstancias de pressas e de falha dos apoios da cofragem da betonagem (situação mais crítica devido à sobrecarga da água), mas a situação agora parece mais controlada, e nesse sentido não devemos criticar o não cumprimento da promessa de conclusão da CRIL antes de 2009-09-27. Só devemos criticar a promessa.

Nota (créditos, como dizem os anglo-saxónicos): como na realidade as minhas ideias são poucas, pelo que estou sempre a repetir-me, como também dizia Jorge Luis Borges, tive nesta apreciação sobre a globalização de me socorrer das ideias de James Kunstler, no seu livro “O fim do petróleo”, que me foi recomendado por um dos leitores ocasionais deste blogue, e que recomendo vivamente, desde que não se deixem impressionar pelo seu tom levemente catastrofista.

domingo, 8 de novembro de 2009

A polémica da maternidade de Elvas

A polémica da maternidade de Elvas já passou à história.
Há 3 anos que os bebés vão nascer a Badajoz e todos andam felizes.
Feita a estatística, estão a nascer 23 alentejaninhos por ano em Badajoz.
Os contribuintes portugueses contribuem para isso com 1.800 euros por cada nascimento, o que dá por ano cerca de 414.000 euros, excluindo despesas extraordinárias.
Eu preferiria que a cidade de Elvas estivesse devidamente equipada, mas esta solução também não me desagrada.
Porém, tenho de ser coerente, e saltando para um domínio de actividade mais próximo de mim, quer-me parecer que seria uma boa solução, analogamente, colocar em mentes espanholas, estremenhas, andaluzes, madrilenas, catalãs, bascas ou valencianas, a resolução de problemas de transportes que nos trazem embaraçados (na acepção portuguesa), por exemplo, na aplicação de técnicas de decisão sobre traçados de linhas e modos de transporte, sobre organização dos espaços metropolitanos e das plataformas de importação e exportação.
Poderíamos, por exemplo, criar na REFER uma extensão espanhola, e no Metropolitano de Lisboa também, já que a RENFE e o Metro de Madrid formam com aqueles, dois pares muito parecidos com a rã a encher o peito e o boi.
Assim como assim, foi para isso que aderimos à União Europeia, para que fosse possível a qualquer gestor europeu concorrer a um lugar em qualquer país da comunidade, não foi? E do ponto de visto económico até deu resultado, com a experiencia da importação da casa de Lencastre, no fim do século XIV, não foi?
Temos de tirar partido dos benefícios da UE.
Sim, parece que foi boa ideia, contratar a maternidade de Badajoz.

Bufus marinus

Com a devida vénia, retiro a informação da Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, cidadão escritor, ilustrador, autor de filmes de animação, fabricante de cerveja artesanal e habitante de um monte alentejano, que oiço num programa da Antena 2.
O Bufus marinus, ou sapo dos canaviais (América do Sul, Austrália) tem umas glândulas nas costas que segregam, para além de toxinas venenosas contra os predadores, um alcalóide, a bufotonina, alucinogénea e euforizante, equiparável à heroína e à cocaina.
Termina aqui a informação científica desta entrada da enciclopédia, porque o resto, tal como nas outras entradas da enciclopédia, é uma ficção, as citações e as histórias.
O que me faz crer na humanidade.
Será talvez o lugar comum de que o que nos surpreende pode ser valioso.
Ou será o alívio de que os disparates que nos vêm à cabeça também vêm à cabeça dos outros e ainda bem que há quem seja capaz de os imaginar e de os passar a letra de forma.
E não seria mais lógica uma realidade em que aquelas citações e aquelas histórias tivessem sido reais?
Da existência da bufotonina e da experiencia dos naturalistas medievais e das suas poções se deduz uma fantasia que os irmãos Grimm desenvolveram.
Beijar as costas dum sapo é absorver uma dose alucinogénea de bufotonina, imaginada equivalente a uma pastilha de ecstasy.
E quando se entrou na ilusão da droga, vê-se aquilo que se deseja, acredita-se naquilo que se quer.
E está explicado como o sapo se transformou no príncipe encantado.
Pobre cinderela, que se lambesses as costas do bufus marinus morrias intoxicada, com o sistema nervoso paralisado, os lindos olhos muito abertos e fixos no infinito, porque é muito pequena a percentagem de bufotonina na secreção das glândulas do sapo.
Mas talvez não seja o bufus marinus a origem do mito do príncipe encantado escondido no sapo.
A psicologia humana precisa dos conceitos do bem e do mal, pelo menos desde que os mazdeistas os definiram para ajudar à formação das grandes religiões monoteístas.
E se o bem fosse a ausência do mal? Se o sapo fosse a personificação do mal? Se o sapo fosse o diabo, mas se o diabo fosse o mal apenas porque se sente só, desprezado e naturalmente diabolizado?
Então o beijo no sapo é o beijo no diabo que de repente já não se sente só ou, se estava acompanhado, achava que ninguém lhe ligava a agora, finalmente que a Cinderela o beijou, deixou de ser um sapo e é um príncipe.
Já dizia Freud (citação da Enciclopédia ou minha?) que a origem da agressividade e das guerras está na insegurança, e que se tratássemos o inimigo como um ser inseguro, cheio de certezas porque desconfiado delas, mas a acreditar nelas apenas para se agarrar a alguma esperança, porque, como dizia Karl Marx (citação minha ou da Enciclopédia?) a religião não é só ópio para o povo, é uma esperança, então, se beijássemos o inimigo vencíamos a guerra.
Interesseiras as religiões altruístas, amar o inimigo mais do que a nós mesmos, para o vencer.
Se beijarmos o sapo, ele transformar-se-á no príncipe da paz e a guerra termina.
É isso, vou comprar a Enciclopédia da estória universal para ver se aprendo mais coisas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Energis VIII – A casa nova de Joana e o desperdício I


A nova urbanização
Joana tinha-me dito: “Um dia destes vai lá ver a minha casa nova”. E eu fui.
Joana trabalha no Parque das Nações.
Esteve 3 anos em Angola numa consultora internacional donde passou para uma grande companhia angolana de bebidas. Este ano conseguiu uma colocação na dependência dessa companhia em Lisboa.
É uma executiva de sucesso, pelo menos enquanto houver petróleo em Angola.
A casa nova de Joana fica numa urbanização recente no fim do prolongamento da rua principal de Prior Velho, quase sobranceira à curva do Trancão, antes de passar por Sacavém e se lançar no Tejo (o Trancão, não a urbanização).
Apesar da crise imobiliária, os novos andares têm-se vendido bem e já se vêem muitos automóveis estacionados.

A desertificação de Lisboa
Temos aqui um sintoma da desertificação da cidade de Lisboa (considerando os seus limites municipais).
Os jovens executivos preferem ir viver para a periferia.
E na verdade, a casa nova de Joana é grande . Ocupará talvez 180 m2, para além de um terraço onde já está uma casota de cão e se poderá montar uma festa para 80 pessoas.
É muito difícil encontrar pelo mesmo preço e qualidade de construção e de acabamentos, áreas semelhantes em Lisboa.
Queixam-se os decisores de que as pessoas abandonam a cidade, queixam-se os arquitectos de que os habitantes que ficam cometem atentados como o fecho das marquises (ainda não compreenderam que se as pessoas fecham as marquises é porque têm pouco espaço em casa?).
Não querem reflectir que as áreas disponíveis, os preços e a qualidade da construção são, regra geral, muito maus.
Já perceberam que tem de haver reabilitação dos edifícios e dos quarteirões.
Mas estão a ir pelo caminho do “o que era bom era que houvesse uma reabilitação do parque habitacional”.
E faltam os planos das intervenções e os projectos de execução integrados. Refiro-me a intervenções e projectos reais e profundos, não a recuperação de fachadas.
Integrado significa aqui inter-disciplinar. Outra dificuldade em Portugal, em que reina a compartimentação estanque.
Anteriores intervenções, como o projecto e a construção dos bairros de Chelas, por exemplo, não geram o reconhecimento pelos autores, com humildade, dos erros cometidos. Pelo contrário, orgulham-se da obra.
Assim é difícil.
As novas intervenções são entretanto preparadas com o secretismo que caracteriza os decisores em Portugal. Não há debate participativo.

O debate público
Dirão os novos gestores da câmara de Lisboa que sim, que há muito debate público.
É verdade, dele resultou a proliferação das vias cicláveis a que se assiste. Resultou de debate público.
Não resultou porém desse debate a decisão de acabar a prazo com o terminal de Alcantara (o problema real não é a altura do muro de contentores, 4 ou 5, é a própria existência do terminal e a inexistência de um plano a prazo para o seu desaparecimento).
Nem de garantir que não mais hotéis nem urbanizações de arquitectos famosos se construam à beira do Tejo.
Nem que se elabore um plano congruente para a zona das comendadeiras , nem que a estratégia seja a fusão de municípios da área metropolitana, nem que se tenha tento com a problemática dos museus de Belém, nem que se estanque a hemorragia da Baixa pombalina.

A restituição das cores
Joana estava radiante com a casa nova. Todos os tectos da casa são falsos, abrigando iluminação de halogéneo. Como o pequeno João corria a bom correr pelo corredor e por todas as divisões da casa, as luzes estavam acesas na sua máxima potência.
O que era bom, por um lado, porque a iluminação de halogéneo restitui as cores num ambiente quente e realça os pormenores. Por isso se adivinhavam os contornos da roupa interior sob a saia, travada como manda a moda deste ano, obrigando Joana a alguns trabalhos de equilíbrio porque ao efeito da saia se juntavam os saltos altos de 10 cm com sola compensada de 2 cm (“Estou da tua altura” dizia Joana).
Mas por outro lado, só a sala grande tinha 30 lâmpadas de 35 W, o que dava mais de 1 kW. Potência instalada só para iluminação: 4 kW.

O problema do consumo
Vá que no telhado do prédio uma pequena instalação solar térmica reduzia o consumo de gás da caldeira central de cada fogo, para aquecimento de águas e de radiadores, mas uma iluminação com lâmpadas fluorescentes compactas permitiria reduzir 3 ou 4 vezes o consumo .
E o problema é que o tecto já está esburacado para as pequenas dicróicas de iluminação de halogéneo …
Joana não vai ter as luzes sempre acesas, mas talvez vá consumir, de electricidade para iluminação (ficando de fora a electricidade para o ar condicionado e o gás para cozinha e aquecimento de águas e ar) cerca de 180 kWh/mês (50 lâmpadas de 35 W acesas 100 horas por mês).
Quando consumiria, se a instalação previsse as lâmpadas fluorescentes compactas (na realidade um projecto cuidadoso fá-lo-ia, para tratar convenientemente as tonalidades deste tipo de lâmpadas), cerca de 45 kWh.
Ao fim do ano são 1.500 kWh de desperdício de energia importada em 80%. Naquele prédio serão 15.000 kWh de desperdício. Naquela urbanização serão 300.000 kWh = 0,3 GWh de desperdício por ano em iluminação.
Um sucesso, licenciado pela respectiva câmara municipal (neste caso, Loures).

Epílogo
Temos aqui um exemplo de que, na realidade, os projectistas ligam mais ao imediato, sendo neste caso o imediato a moda e o conforto da iluminação por luminárias de halogéneo encastradas em tecto falso, do que às regras de economia durante a vida útil da obra. O imediato permite uma publicidade atractiva para vender os andares e consegue-o.
Assim é difícil, muito difícil.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Rodoviarium X –A bala e o jipe, ou a velocidade assassina

As variações dos fenómenos estatísticos permitiram que o massacre da sinistralidade rodoviária dos últimos dias e Portugal continental tenha sido menos intenso.
Estarão as autoridades mais esperançadas que o acréscimo de mortos, relativamente ao ano passado, não seja muito grande.
Inútil insistir que não é através destas comparações estatísticas que se deve atacar o assunto, mas eu não desisto, pelo menos para já.
Peço desculpa pela morbidez do tema de hoje.
É a comparação entre o poder mortífero de uma bala e de um veículo automóvel, e tem por objectivo avaliar se é mais seguro atravessar a linha de fogo de um atirador numa carreira de tiro, ou uma passadeira para peões.
Tomemos uma Magnum .357 .
.357 significa o calibre da pistola. Balas de cerca de 9 mm de diâmetro (0,357 polegadas).
A Magnum é uma das armas preferidas pelas polícias para defesa.
O conceito de defesa, em termos militares, poderá não coincidir com o sentido lato, mas estas coisas já foram pensadas.
Na impossibilidade real, pelo menos enquanto não for praticado o tal ensino obrigatório e monitorizado que “lave o cérebro” das criancinhas impedindo-as de aderirem à criminalidade, e enquanto não for reformada a última reforma penal do senhor ministro que coordenou a comissão dessa reforma, que já foi condenada (a reforma) pelo Procurador Geral da Republica e pela Associação dos Juízes há mais de 2 anos e agora pelo Observatório da Justiça, mas que continua em vigor assim como o seu coordenador continua como ministro demonstrando que é grande a distancia ente a realidade dos técnicos e a burocracia gestionária e virtual dos decisores, prejudicando assim o interesse da comunidade, comunidade essa que no entanto, por insondáveis desígnios dos fenómenos estatísticos, na altura da votação valida a política do partido que mantem o senhor como ministro, para continuar a prejudicá-la, a ela à comunidade, como ia dizendo, temos de concordar que as polícias sim, devem preocupar-se com as armas de defesa.
E temos assim que a Magnum .357 tem a vantagem de não ter por objectivo principal matar o atacante (não podemos dizer só mal da polícia, não é?).
As balas têm um pequeno espaço oco , na parte da frente, para ficarem mais leves e provocarem, graças à elevada velocidade, um efeito de atordoamento.
Chama-se a isso o “stopping power”, ou capacidade de parar o adversário, sem o matar, para o poder dominar enquanto estiver atordoado com o impacto da bala.
Claro que, se virem agentes da polícia com espingardas ou metralhadoras, o objectivo será outro…
Mas quantifiquemos (porque, como dizia Lord Kelvin «Se não podes medir aquilo de que estás a falar, nem expressá-lo em números, o teu conhecimento é pobre e insatisfatório»[1], embora devamos tratar esta máxima com prudência, quando estivermos a falar de física quântica, economia moderna ou beleza feminina), à moda de um problema de Fermi (ver um dos blogues anteriores) :
No caso da pistola Magnum .357 :
Massa de uma bala: 10 g
Velocidade da bala: 400 m/s
Energia cinética da bala: 0,5 x 0,01 x 4002 = 800 J

No caso de um jipe, ou melhor dizendo, de um crossover car (relativamente modesto para os padrões dos nossos apreciadores) com :

Potência: 106 CV
Peso com condutor: 1580 Kg
Velocidade com que se aproxima da passadeira de peões: 12,5 m/s (45 Km/h)
Energia cinética com que bate no peão: 0,5 x 1580 x 12,52 = 123437 J

Podemos então afirmar que o condutor dispõe de uma arma, o seu crossover, que atinge a vítima com uma energia cerca de 150 vezes superior à obtida com a pistola.

Desprezando a massa da vítima na conservação do movimento, admitindo que o crossover travou depois de bater na vítima, e que a queda se faz segundo uma linha a 45º relativamente à superfície, teremos que a vítima bateu no chão à velocidade de (componente vertical):

12,5 x sen 45º =8,8 m/s (32 km/h)

Considerando que o pavimento não sofre deformação, e admitindo 0,2 s para a imobilização da vítima (em 0,2 s o corpo percorria, à velocidade de que vinha animado, 1,8 m) , a passagem da velocidade de 8,8 m/s para 0 m/s em 0,2 s, corresponderá a uma desaceleração de:

8,8/0,2 = 44 m/s2

equivalente a 4,5 G e a uma queda na posição horizontal de uma altura de 4 m , o que provocará na maior parte das pessoas hemorragias internas irreversíveis.
A velocidade de 45 km/h é já uma velocidade assassina.

Temos assim, de um lado, uma pistola que, na maior parte dos casos, não perfurando nenhum orgão vital, atordoa um cidadão; admitamos que mata em 40% dos casos.
Do outro, um veículo que, na maior parte dos casos, mata um cidadão, admitamos que em 95% dos casos.

Admitamos que numa linha de uma carreira de tiro se disparam 20 carregadores por hora (intervalos de 3 minutos) e na passadeira para peões, sem semáforos, a seguir à curva ali ao pé do Hospital da Luz, para quem vem da Avenida Marechal Teixeira Rebelo e quer atravessar a Avenida dos Condes de Carnide, passam 20 carros por hora.

Simplificando o cálculo das probabilidades (10 segundos para disparar um carregador, 10 segundos para atravessar a passadeira, 1 travessia por hora), admitamos que a probabilidade de se ser atingido na carreira de tiro é 20x10/3600 = 0,056 <> 5,6% e igual à do atropelamento na passadeira para quem atravessa aleatoriamente as duas zonas de risco, 1 vez por hora.

A probabilidade de morte no caso da carreira de tiro será de :

0,056 x 0,4 = 0,0228 <> 2,28% (2 fatalidades em 100 travessias ou 100 horas)

E, no caso da passadeira, de:

0,056 x 0,95 = 0,0532 <> 5,32% (5 fatalidades em 100 travessias ou 100 horas)

Vem então a ser mais seguro atravessar a correr, aleatoriamente, a linha da carreira de tiro.
A probabilidade seria da mesma ordem de grandeza para 2 atiradores a disparar na carreira de tiro…

Para diminuir a probabilidade de acidente nas passagens de peões, o código da estrada é claro: devem os automobilistas abrandar à aproximação das passadeiras para peões de modo a poder parar se um peão tiver iniciado a travessia.

Costumam ver os automobilistas a abrandar à aproximação de uma passadeira?

Interroguemo-nos sobre o significado da licença de porte de armas: exige testes psicotécnicos que comprovem estabilidade emocional.
O significado da licença de condução deveria ser o mesmo. Talvez que o número de automobilistas baixasse drasticamente.
Teriamos de adaptar a essa situação o transporte colectivo.
Poupava-se no consumo de energia…

MAS A MENSAGEM A TRANSMITIR AOS NOSSOS CONDUTORES E CONDUTORAS APRESSADAS É ESTA:
1 - A PARTIR DO MOMENTO EM QUE ALCANÇO A VELOCIDADE ASSASSINA DE 45 KM/H, SE ATINGIR UM PEÃO, QUER SEJA ELE QUE NÃO ME TENHA VISTO, QUER SEJA EU QUE O NÃO TENHA VISTO, COM ELEVADA PROBABILIDADE… MATO-O
2 – NINGUÉM PODE GARANTIR QUE NÃO TENHA UM LAPSO DE ATENÇÃO
3 – LOGO, É UMA OBRIGAÇÃO MÍNIMA CUMPRIR OS LIMITES DE VELOCIDADE

[1] Fonte: Boletim de Comunicação, Informação, Cultura e Identidade Cultural da Gestão da Manutenção
do Metropolitano de Lisboa, E.P.E. Ano I - Número 9 – Novembro 2009, ou
http://www.fisicastronomorais.com/pdf/SIeNTR.pdf , ou
http://www.sociologia.ufsc.br/cadernos/Cadernos%20PPGSP%2026.pdf

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Economicómio XXVI – Luis Sepulveda e o liberalismo

Luis Sepulveda é um escritor chileno que pertenceu à juventude do partido de Salvador Allende.
Oiço-o em entrevista na Antena 2: o Chile antes de Pinochet produzia tecnologia e tinha um parlamento com 136 anos de vida democrática; agora o Chile só exporta frutos, peixe congelado, camarões e vinho. As fábricas e as minas fecharam como consequência lógica do neo-liberalismo imposto pela intervenção estrangeira.
Todos podemos comprovar nos hipermercados a presença dos frutos , do peixe congelado, dos camarões e do vinho chilenos.
É um facto histórico a intervenção nas bolsas, em 1973, para baixar a cotação do cobre de que o Chile era um grande exportador. E também é um facto histórico o financiamento pela CIA da revolta de Pinochet contra o governo constitucional saído de eleições democráticas (em 1936 também houve uma revolta semelhante em Espanha, de Franco contra o governo republicano constitucional, saído de eleições democráticas, só que sem intervenção da CIA).
É outro facto histórico que os economistas chilenos de Pinochet decidiram experimentar os conceitos neo-liberais de Milton Friedman. E acabou a indústria chilena. Claro que não podia competir. Por que temos de suportar este dogma da competição que nos afoga a todos? Até à GM?
Reagan e e Tatcher encarregaram-se de espalhar o neo-liberalismo pelo mundo, enquanto a abundância de petróleo o permitiu (já é do domínio público que o mar do Norte já passou o pico, não é?). Fecharam indústrias e reduziu-se a capacidade agrícola nos países mais desenvolvidos e nos menos desenvolvidos e, graças à tecnologia, a produção aumentou. Convenceram-se jovens economistas, que os jovens são fáceis de iludir, das virtudes do liberalismo e do mercado a funcionar. Os jovens são generosos e não ligaram aos avisos de que o mercado não funciona se a informação for assimétrica, ou se houver escassez e nem deve funcionar se uma necessidade social se sobrepuser.
Até à recessão de 2009.
Mas já vamos lançados em voltar ao aumento da produção.
Mesmo depois de avisarem o pessoal, mais uma vez, que este tipo de desenvolvimento não é sustentável. Isto é, estamos a consumir mais do que o que produzimos e a dissipar os recursos não renováveis. Temos de mudar o padrão de consumo (citação do discurso de Santo António aos peixes, uns grandes e acumuladores de mais valias, outros pequenos e pasto dos predadores).
Intervenção americana no Chile em 1973 (honra a Jack Lemmon que fez um filme denunciador).
Apoio americano à UNITA e à guerra civil desde 1975, contrariando a recomendação do encarregado de negócios americano.
Invasão do Iraque em 2003.
Golpe de estado no Irão em 1953 para deposição de Mossadeg (colaboração CIA-M16, devidamente comprovada). Bombardeamentos no Afeganistão em 2009 com vítimas civis.
Não será altura de parar?
Havendo relação entre isto tudo, como parece que há (a ocasião faz o ladrão…), poderemos acusar o neo-liberalismo de crimes contra a humanidade?
Oiço também na Antena 2 a entrevista de um jornalista francês que descreveu o processo de libertação da África do Sul do aparteid. A dado passo, comentando o ambiente propício do liberalismo à livre iniciativa de associações criminosas, cita Lucky Luciano: “É mais difícil ganhar um dólar desonesto do que ganhar um dólar a trabalhar honestamente”. Difícil, nos tempos que correm de contenção dos preços com taxas altas de desemprego, é arranjar trabalho para ganhar o dolar honesto. Sabedoria de mafioso.
Sim, acho que posso acusar o neo-liberalismo de crimes contra a humanidade, mas estejam descansados, não vou lançar nenhuma petição.
É um tribunal interior, não há legislação de suporte para julgar os responsáveis, que para mim são criminosos ao nível de Lucky Luciano mas com a diferença que a sua actividade económica tem cobertura legal.
Não são os únicos (claro que não, não se pode negar a evidência das experiências, efectivamente falhadas e tão combatidas dos antigos partidos comunistas) mas são, de acordo com o meu critério, criminosos.
Foram os governos e as políticas liberais que tiveram mais força no período nas últimas décadas do século XX. Logo… a sua responsabilidade será maior. Já não se pode atirar as culpas para cima dos comunistas (violavam os direitos humanos, não era? O derrube de Salvador Allende e os assassínios dos seus partidários são o quê?).
E, no entanto, Michelle Bachelet, que foi militante da juventude do partido de Salvador Allende, tal como Luis Sepulveda, é agora presidente da republica chilena.
Recomecemos, pois, como os manifestantes silenciosos de Gandhi que se levantavam depois da polícia os derrubar a paulada.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Economicómio XXV_A conferência na Gulbenkian “o ambiente na encruzilhada” ou “au carrefour de l’environement”

Comentário à recente conferência por eminentes pensadores, na Fundação Gulbenkian, subordinada ao tema “O Ambiente na encruzilhada” ou, se quisermos um toque mais cosmopolita, na melhor tradição provinciana, como dizia Sofia de Melo Breyner, “au carrefour de l’environement” .
Ver por favor (saltar por cima do primeiro recorte) em
http://www.gulbenkian.pt/index.php?section=49
e o programa em
http://www.parlamentoglobal.pt/parlamentoglobal/cidadania/Fundação+Gulbenkian/2009/10/19/191009+conferencia+gulbenkian+programa.htm

Pessoalmente, sinto-me arrependido por ter faltado.
Perdi uma oportunidade de testemunhar as intervenções das mentes brilhantes convidadas, de que são exemplo David King e Gilles Lipovetsky.
Não conheciam, pois não? Eu também não. Somos ignorantes.
Tentemos uma análise técnica.
No sentido de análise feita do mesmo modo que as feitas por um técnico que procure a causa ou raiz da falha do sistema; o que é que falhou aqui; e o que falhou aqui, para já, foi não haver ligação de conhecimento entre o trabalho destes senhores, David King e Gilles Lipovetsky, e pessoas ignorantes como este humilde escriba.
(Esta da raiz da falha do sistema é uma pequena homenagem ao meu colega que anda sempre a pregar, nem sempre com êxito que o programa é complicado de aplicar, as maravilhas do programa de análise de falhas RCFA – root cause failure analysis)
Refiro-me somente à falha de circulação de informação entre as mentes brilhantes e as não brilhantes, e não às causas dos horrores e das ameaças à sustentabilidade da nossa (nossa da espécie humana) presença no planeta, que essa análise só está ao alcance das mentes brilhantes.
E já que as mentes brilhantes fugiram um bocadinho à conclusão de que existe mesmo uma falha de comunicação entre o trabalho delas e a realidade dos restantes membros da espécie humana, tenta o humilde escriba divulgar um pouco da conferência.
1 – David King – Pregou uma transformação cultural como se estivéssemos no Renascimento, ou em nova revolução industrial.
Uma educação global e obrigatória poderia por exemplo levar a uma diminuição da taxa de natalidade nas sociedades com menos recursos económicos (terá falado em Malthus?). Mais uma vez, serão as mulheres e as mães que têm de tomar as decisões que irão garantir o futuro sustentável da espécie.
Por outro lado, a produção , nomeadamente de alimentos, deslocalizou-se. Graças à globalização, os países de menores recursos soçobraram na produção de alimentos porque os alimentos que vêm do outro lado do mundo são mais baratos. O problema é que produzir alimentos já cria gases com efeitos de estufa. Ainda por cima, transportá-los gera mais gases. Logo, objectivo: descentralizar a produção.
2 – Gilles Lipovetsky – Anda à volta do conceito do hiperconsumo. Desperta em mim saudades da minha professora de filosofia, em 1961, a dizer que o grande problema era que era preciso produzir para pagar aos operários, e portanto a produção tinha de crescer cada vez mais porque as necessidades consumistas dos produtores cresciam também sempre.
Os hiperconsumidores são a multidão de escravos que os adam smithistas desejam ardentemente para alimentar o aumento dos lucros, porque acreditam como qualquer seguidor de uma religião que o interesse individual dos apropriadores das mais valias se converte por milagre no interesse colectivo dos hiperconsumidores.
O senhor Lipovetsky receia, e eu também, e se um sábio receia uma coisa que é receada por um ignorante, é porque a coisa é mesmo feia, dizia eu que o senhor Lipovetsky receia que a reacção à crise financeira, agora que as taxas de juro e de inflação parece quererem subir e a recessão parar, seja a de voltar ao mesmo, isto é, ao “business as usual”.
Por outras palavras, a tentar desmesuradamente aumentar a produção e os lucros, quando o senhor Lipovetsky pede para reduzirmos o hiperconsumo (diria a minha professora de filosofia que isso conduz a fechar fábricas) , ou talvez que as empresas sejam menos predadoras, que possam reduzir as margens de lucro, para não ser só pedir aos trabalhadores para reduzirem os seus salários.
A ameaça é que as conquistas da tecnologia (pobre Marx que pensava que o progresso das tecnologias servia para satisfazer as necessidades básicas da espécie humana e a seguir trazer-lhe a felicidade; afinal não houve amanhãs a cantar), como por exemplo o desenvolvimento das energias renováveis, sirva apenas para subir um nível no caminho para a desgraça do hiperconsumo, permitindo manter o mesmo modo de vida de desperdício durante mais um tempo.
Como dizia o professor Ilharco, a energia é o problema fundamental da humanidade. E continuar de modo não sustentável, ou sustentável a poder de tecnologia mas apenas durante mais três ou quatro gerações, vai ser mau.
Porque democraticamente, num sistema como este de elevadíssima inércia, as decisões de mudança só serão maioritárias depois do desastre, não antes, e o desastre do Lehman Bros não é nada, comparado com a ameaça.
Pode ser que a imprensa não esteja a ajudar muito, insistindo com temas superficiais (estou a seguir a conferência)…
E há sempre a dúvida se, com as taxas de desemprego elevadas necessárias a manter os preços baixos, de modo a evitar a revolta social, será possível conter essa mesma revolta social e a criminalidade.
Conclusão beatífica da conferência: conter o hiperconsumo, moderar a competição entre indivíduos, estimular a solidariedade social…
Acham que será possível com as ideias liberais que orientam os nossos governos?
Não será essencial centrarmo-nos na educação pública obrigatória e monitorizada?
Mesmo correndo o risco de sermos acusados de querer lavar o cérebro às criancinhas, normalizando-as egualitariamente e prescindindo do orgulho de pertencer ao colégio mais bem colocado no “ranking”?
Seguimos a recomendação do senhor David King?
Cuidado que é preciso mudar a política do nosso ministério da Educação…menos competição individual… predomínio da função social da empresa relativamente à preocupação pelo lucro…

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Energis VII - O secretário de Estado João Fictício Azeitona








João Fictício Azeitona , nascido e criado em Azeitão, e talvez por isso admirador de Sebastião da Gama, tem um nome bem adaptado à sua militância em grupos ecologistas.
Dada a sua proximidade ao partido mais votado, não se estranhou a nomeação como secretário de Estado do Ambiente.
Mas João Fictício teve, enquanto secretário de estado, um comportamento independente das orientações do partido, colocando sempre em primeiro lugar o Ambiente ou, como ele dizia, as pessoas.
Já se percebeu, por esta altura, que este pequeno texto é apenas uma homenagem a João Fictício, e não tem nada que ver, nem sequer por meras coincidências, com a constituição do actual governo da Nação.
João Fictício, a quem muitos acusavam de lírico, o que não deixava de lhe causar um certo prazer, atendendo à admiração por Sebastião da Gama, tratou de fazer jus ao seu nome quando se apanhou na secretaria de estado.
E um dos dossiers, como se diz em burocrático, que tomou entre mãos e fez até avançar, foi o do levantamento e identificação das potencialidades de cultura e produção de espécies vegetais para a produção de combustíveis, ou para mistura com combustíveis fósseis, de modo a reduzir a dependência externa dos ditos, e também a famosa “pegada ecológica”, ou pegada do carbono” do país que muito queria servir.
Em pouco tempo, um grupo de jovens entusiastas que o rodeava, alguns com concepções políticas que mais tarde escandalizaram os chefes do partido, tinham desenhado um mapa do país agrícola com áreas bem marcadas em que estavam assinaladas as espécies que se poderiam cultivar com sucesso, as quantidades de grão, frutos ou bagas que se poderiam obter e as quantidades de combustível vegetal e os respectivos poderes energéticos.E depois, se o projecto ayingisse os objectivos, que não se admirassem de ver andar camiões apenas com óleo de colza, que Rudolf Diesel experimentou o seu primeiro motor com óleo de amendoim.
João Fictício iniciou então uma guerra com entidades públicas e privadas, porque em Portugal é muito difícil planificar de forma integrada seja o que for.
Os proprietários rurais não quiseram associar-se nem coordenar as suas culturas em função das necessidades de produção de combustível vegetal, as empresas industriais de resíduos urbanos e agrícolas desconfiaram de que estavam a querer ficar-lhes com o negócio, as repartições públicas temeram o fim da calma dos gabinetes, e todos acharam que havia ali movimentações de comunistas.
Enquanto essa guerra germinava, como bom azeitonense, impressionado pela quantidade enorme de azeitona que é desperdiçada quando começa a cair, todos os anos, a partir de Outubro, João Fictício promoveu a recolha, por todo o país, da azeitona caída.
Carrinhas de caixa aberta ou de caixa fechada, de grandes empresários de transportes ou individuais que foram a correr registar a sua empresa unipessoal em menos de uma hora, e que responderam aos processos de contratação pública em estrito cumprimento da legislação, percorreram todo o país.
E assim ficou provado, aos olhos de muitos, que era mesmo coisa de comunistas, porque essa ideia de apanhar a azeitona do chão já tinha vindo à tona com a Maria Vitória da ocupação da herdade da Torrebela e do filme de Thomas Harlan (ver em http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_Bela_(filme) ).
Foram assim levantadas do chão toneladas de azeitonas, desde as azinhagas de Carnide, em Lisboa, às estradas e caminhos das serras da Arrábida e do Louro, ali ao lado de Azeitão, aos campos de Sousel e do Alentejo, às terras de Trás os Montes e do Côa.
Não se tocava nas azeitonas agarradas aos ramos. Só se apanhavam as caídas.
Toneladas e toneladas de azeitonas foram prensadas, até nos lagares que as normas comunitárias tinham excluído da produção de azeite por carência de satisfação dos requisitos da União.
Do óleo de azeitona que se obteve, não integrável na cadeia alimentar pelas razões acabadas de expor, produziu-se por transesterificação combustível biodiesel.
Depois, a partir do bagaço da azeitona, com peles, sobras de polpa e caroços, que sobraram nos filtros das centrifugadoras, obteve-se mais óleo, agora iluminante ou para queima.
E por fim ficaram os caroços, da melhor madeira.
Caroços, restos do bagaço e óleo iluminante acabaram em centrais termo-eléctricas de bio-massa, de braço dado com cascas de amêndoa , ramos triturados e sobras dos baldios.
Feitas as contas, conseguiu-se produzir naquele ano, só à conta das azeitonas, aproveitando-se duas pequenas centrais de 5 e de 20 MW já existentes, qualquer coisa como 30 GWh (Gigawatt.hora) ou dizendo doutra forma, 30 milhões de kWh de energia eléctrica.
Não foi muito, num país em que se produz cerca de 47 TWh (Terawatt.hora), ou dizendo de outra forma, 47.000 milhões de kWh.
Porém, esses 30 milhões de GWh ficámos a devê-los às azeitonas, e não a combustíveis fósseis que temos de importar, e quase nada poluíram em emissões de gases com efeito de estufa, quando comparados com as emissões dos combustíveis fósseis. Digo quase nada porque houve algumas emissões durante o processo de recolha e de fabrico dos combustíveis vegetais.
Não gostou um grande industrial com grande volume de negócios na área do aproveitamento de resíduos, talvez “et pour cause”, que lhe tivessem atravessado a herdade a apanhar azeitonas do chão.
E como publicano ofendido rasgando as vestes com pública fúria, processou o secretário de Estado por violação de propriedade privada.
Não teve João Fictício paciência para aturar os senhores jornalistas que quiseram fazer grandes títulos dos jornais, nem os chefes do partido e do governo que lhe exigiram relatórios e arrepio do caminho mudando para alvos prioritários de melhor aceitação pública.
E demitiu-se.
Foi dar aulas para a sua escola, duas ou três cadeiras do curso de engenharia ambiental; desabafa de vez em quando num blogue, relê aos fins de semana a poesia de Sebastião da Gama com a serra da Arrábida como fundo, e está a investigar o potencial das algas para a produção de biodiesel e dos respectivos resíduos para queima em centrais termo-eléctricas de bio-massa.
Este ano pelo Outono, lá estão as azeitonas no chão, morrendo ingloriamente aos pés de quem passa.
Mas atenção, é mesmo verdade, não tem esta história nada que ver com o governo actual.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Energis VI – A energia do hambúrguer e as bicicletas


Deu-se o caso que tive de investigar uns números para um powerpoint a apresentar na minha empresa (minha no sentido do outrem para quem trabalho, ou seja o que for que por este termo devamos entender, dentro ou fora da cobertura da definição já clássica de Gurvitch, de que o trabalho é toda a actividade consciente, penosa e útil).
Estava eu a magicar como comparar gastos específicos de energia de modos de transporte diferentes, e especialmente níveis de emissão de gases com efeito de estufa, assim como quem se prepara para submergir num plano estratégico de transportes para 12 anos, quando tropecei no cheeseburger.
O cheeseburger tem a grande vantagem de responder ao problema fundamental do homem, que é o de arranjar energia para alimentar a combustão dos seus tecidos (seus do homem), por exemplo às 2 ou 3 de uma madrugada em que a restante família esteja longe, em vilegiatura e a inspiração culinária tenha falhado à hora regimental.
Essa energia mede-se por 590 kilocalorias, ou, fazendo as contas ao equivalente, 680 Wh.
Por outras palavras, comendo um cheeseburguer, a nossa massa muscular permite-nos andar uns quilómetros sem emagrecer.
Como a energia que dissipamos a andar, sem entrar em apneia, para aí a 2,5 km/h, corresponde mais ou menos a uma lâmpada de 100 W, segue-se que um cheeseburguer dá para andarmos 680 Wh/100 W = 6,8 horas.
À velocidade referida, 2,5 km/h, foi combustível que deu para andarmos 17 km.
Nada mau.
E quem anda 17 km com 680 Wh anda 1 km com 40 Wh.
Até parece um problema de Fermi, guardando as respeitosas distâncias, claro.
(ver problemas de Fermi em:
http://www.cmpa.tche.br/educacional/secoes_ensino/site_sec_C/arquivos%20e%20Links/F%EDsica/textos_diversos_4.doc
http://algol.fis.uc.pt/quark/viewforum.php?f=14
http://es.wikipedia.org/wiki/Problema_de_Fermi)
E chegado a este ponto, fui comparar, que era para comparar modos de transporte que estava magicando, com o consumo específico do metropolitano, que é, considerando as energias consumidas na sua rede e nos seus edifícios, à volta de 120 Wh por passageiro.km.
Isto desta unidade passageiro.km, ou passageiro-km (não confundir com passageiro por km, ou passageiro/km) às vezes faz confusão mesmo.
120 Wh/pass.km significa que é preciso sacrificar 120 Wh de energia para transportar 1 passageiro durante 1 km.
Ou 2 passageiros durante meio km.
No fundo, quando se diz que o metro de Lisboa transporta por ano cerca de 800 milhões de passageiros.km, o que se está a dizer é que os percursos de todas as viagens realizadas por todos os passageiros durante o ano, alinhados um a seguir ao outro, somaram 800 milhões de km.
Melhor seria dizer então 800 milhões de viagens.km, mas passageiro.km é mais bonito e é esta a unidade em que se exprime o produto de uma empresa de transportes.
Também é preciso ter cuidado para não confundir passageiro.km com lugar.km.
É que aqui temos um dos grandes dramas da energia dos transportes: andar a passear lugares vazios.
A média em Portugal de passageiros por automóvel é de 1,2; na Finlandia é de 1,7.
A média de passageiros numa carruagem de metro é de 26 pessoas, quando ela tem capacidade para 130 com um mínimo de comodidade.
Estamos com problema de procura deste modo de transporte; as pessoas preferem andar de carro e deixá-lo em cima do passeio, a andar de metro.
Voltando ao cheeseburger, temos então que a energia para transportar um passageiro durante 1 km é de 40 Wh para o modo a pé e de 120 Wh para o modo metro.
Dir-se-ia que poderíamos evitar todos aqueles enormes investimentos para construir o metro se estimulássemos as deslocações a pé até ao local de trabalho.
Só que os 40 Wh são enganadores, porque para produzir o cheeseburger, até estar ao alcance da boca do consumidor, foi necessário consumir 5 vezes mais energia (fertilizantes, rações, abate e transporte da carne…), i.é, 200 Wh.
E assim se prova que a alimentação é uma forma deficitária de produzir energia (produzimos menos do que o que consumimos, ainda nos extinguimos, como dizia Malthus, se não ganhamos juízo, já que o desenvolvimento das tecnologias não dá cabo do fosso entre pobres e ricos, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Malthusianism), nem sequer conseguimos ser mais eficientes a andar a pé.
Também é verdade que é preciso mais do que 120 Wh por passageiro.km para fazer andar o metro, porque também houve consumo da energia até ela própria entrar no metro e este também despende energia na construção, na manutenção, no aquecimento, e por aí fora. Por isso é melhor contar, enquanto não se conseguir encher mais lugares nas carruagens, com cerca de 140 Wh/passageiro.km .
Mas não nos vamos ainda embora e vejamos se podemos melhorar a eficiência dos transportes com a máquina de melhor rendimento do mundo: a bicicleta.
Imaginem que, andando sem apneia, para aí a 7 km/h durante as 6,8 horas que o nosso cheeseburguer nos concede, conseguimos fazer cerca de 14 Wh/passageiro.km .
O que é óptimo, se não pensarmos que, para transportar na hora de ponta 15.000 pessoas, que é um número comodamente atingível numa linha de metro, teríamos de encher uma avenida com 8 vias normais de largura (agora é vias que se diz, não é faixas) ao longo de 7 km, para a esvaziar dos 15.000 “clientes do sistema de transporte” numa hora.
Estou a dar 4m de distancia entre 2 bicicletas consecutivas, percorridos em 2 segundos à velocidade de 7 km/h, sendo que os 2 segundos são a distancia sagrada, ou de segurança, em tempo, entre 2 veículos na estrada (mensagem especialmente destinada aos adam smithistas das auto-estradas: a 144 km/h, a distancia de segurança para o carro da frente é 80m).
Mas aqueles 14 Wh/pass.km, como provêm do cheeseburguer, também têm de ser multiplicados por 5 para obter a energia necessária à produção e comercialização do cheeseburguer.
Dá então 70 Wh/passageiro.km de bicicleta.
Mas agora temos de entrar com os custos energéticos da construção e da manutenção das vias, das próprias bicicletas, vamos até 77 Wh/pass.km.
E agora ainda falta a cereja no cimo do bolo.
É que a energia tem um custo mensurável em gases com efeito de estufa (a celebradíssima pegada de carbono, ou pegada ecológica).
E enquanto os 140 Wh/pass.km do metro, graças à distribuição das origens das fontes de energia da EDP, emitem à volta de 400 gCO2/kWh, as pobres vacas dos hambúrgueres, graças à peculiaridade do seu sistema digestivo, contribuem para que o resultado final das emissões da energia do cheeseburguer seja de 1 kgCO2/kWh.
Ora bolas, pois para os fabricantes de hambúrgueres, por mais cómoda que seja a sua visita às 3 da madrugada: 1 passageiro.km de metro emite cerca de 64 gCO2, enquanto o ciclista, por km, emite cerca de 77 gCO2.
Será que os ecologistas que nos governam terão feito bem as contas, ao lançar, na verdadeira acepção da palavra lançar, a moda das ciclovias por tudo quanto é câmara municipal, agora que serenaram as febres das fontes cibernéticas e das rotundas acalmadoras do transito?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Educação VI – uma aventura na 5 de Outubro

Senhora ministra.
Não me quero comparar a si nem dar-lhe conselhos.
E se falo assim é porque não tenho certezas devido à idade que tenho, que nisso estou de acordo com Saramago quando diz que ter dúvidas é o privilégio de quem viveu muito.
Baralham-se-me as ideias quando leio agora, na maior parte da imprensa, que a sua antecessora deixou obra muito positiva, e me lembro de ver a minha mulher a chorar com algumas das suas decisões (suas da antecessora).
Talvez, continuando o tema das dúvidas e de não acreditar no que vejo, que o que vejo aqui era a minha mulher a fazer testes diferentes uns dos outros para dificultar a cópia durante o teste e já eram duas da manhã, que aqueles escribas laudativos da sua antecessora tivessem razão e que os 40.000 professores (30%? 40%, cito de cor) que se reformaram em antecipação e com penalizações eram uns oportunistas que trabalhavam menos que qualquer professor da Estónia ou da Finlandia.
Não me quero comparar, mas se na empresa em que trabalho, uma percentagem dessas me desaparecesse de repente eu gritava ao economista chefe que fosse poupar para longe.
Mas eu sou um técnico insípido, sem sensibilidade artística que apenas reflecte na correlação entre o abaixamento do nível do ensino quando se perdem tantos profissionais (ah! É verdade, como já sou um técnico idoso já estou ultrapassado e de nada me vale a experiencia de vida perante o levante imparável das novas tecnologias, que eu aliás utilizo; por que não haveria de utilizá-las que nunca me neguei a socorrer-me de ferramentas?), a desgraça do abandono escolar que não se consegue mascarar com estatísticas (será verdade, eu que de tudo duvido, que um estudo independente detectou 8 vezes mais de abandono escolar do que as estatísticas oficiais, e eu, que já disse que duvido, até pensava que era mais que 8) e a criminalidade emergente 5 anos depois (falo da correlação porque me mantenho na dúvida, porque os jovens talvez achem que não é correlação, que é causa e efeito).
E como técnico insípido, cheio de dúvidas, habituado a separar claramente os técnicos dos gestores, porque cheio de dúvidas que um gestor que não percebe nada das técnicas de abordagem aos problemas possa ser um bom técnico e que um técnico que tropeça nas artimanhas burocrático-economistas possa ser um bom gestor, pego com a devida vénia na sugestão de Miguel Real (Um certo olhar – Antena 2 - 25 de Outubro de 2009) e que a senhora ministra, assim que puder, escreva “Uma aventura na 5 de Outubro”.
Eu sei que a senhora ministra não vai precisar, como costuma fazer quando preparam um “Uma aventura…” de conhecedores das questões da educação porque já é uma conhecedora.
Mas, sem querer arvorar-me em bom exemplo, como vivo atormentado por dúvidas, sempre que desenvolvo um trabalho técnico, peço a opinião de colegas que pensam de maneira diferente da minha, ou, pelo menos, abordam de maneira diferente os problemas. Método referendário que a comunidade científica segue e que as normas de controle de qualidade das empresas obligent.
Ou talvez seja mesmo preciso pedir o apoio de especialistas em burocracia económica, para que a senhora ministra fique de sobreaviso contra os burocratas e para que a aridez das regras orçamentais e da gestão corrente não invalide a aventura, isto é, que o abandono escolar seja derrotado.
Mas para isso não a posso ajudar, eu que nada sei de economia nem consta que tenha qualquer poder de decisão ou de influência.
Votos dos melhores êxitos.

PS - Diz-me uma professora que já meteu os papeis para a reforma que foram 70.000 no último ano. Cerca de 50% da força de trabalho. Que desgraça, do ponto de vista de gestão empresarial. Que sucesso, do ponto de vista de gestão de tesouraria...

Caim, ou o suicídio da humanidade



Lilith (1892 E.C.), em gravura de John Collier.




Já li o Caim. Ter menos de 180 páginas ajuda.
É um resumo picaresco (no sentido das aventuras do anti-heroi não obedecerem aos conceitos lógicos de tempo e lugar) dos principais episódios da Biblia.
Bem escrito e muito bem imaginado.
Para mim o mais importante é o romance de Lilith, um mito mesopotâmico que os censores hebreus não quiseram que ficasse na Bíblia porque Lilith era uma deusa babilónia, fonte dos prazeres vampirescos e da libertação feminina. Coisa francamente desagradável aos sacerdotes judaico-cristãos-islamicos da comum tradição abraânica.
Ficou-me um sabor a pouco porque me pareceu que a ideia de Saramago, de transformar Caim no representante da humanidade, não é desenvolvida e morre porque Caim comete o suicídio da humanidade ao matar todos os seres humanos da arca de Noé.
Por isso a história da humanidade acaba no fim do livro.
É contraditório com o próprio Saramago, quando diz que o homem é mais misericordioso do que deus, a ponto de pôr Caim a segurar o braço de Abraão quando ia matar o filho Isaac.
Enfim, o livro acaba deixando a hipótese , contraditória com o fim da humanidade, de que a discussão entre os dois grandes assassinos, o deus assassino das crianças de Sodoma, e Caim, que somos todos nós (é, atentados no Iraque, no Afeganistão, fratricídio Israel-Palestina, camorra, violência doméstica, assaltos…é, a espécie humana é um catálogo de assassínios…apesar da Declaração Universal dos Direitos do Homem), é eterna.
Assim como assim, pode ser que a Bíblia seja como aquela história do Jô Soares. Só contaram pra você (para os eleitos e escolhidos do senhor, como diz a Bíblia, dentro do numerus clausus do quadrado de 12 e do quadrado do quadrado de 12), mas a vida existe e continua fora do grupo dos eleitos, entre as pessoas comuns que não foram chamadas nem escolhidas, e que são a humanidade.
Porém, como diria Cesário Verde, o supremo encanto, além da liberdade que cada um tem de interpretar o final do livro como bem entender, ou de imaginar a sua continuação, é de facto Lilith.
Vejam em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lilith


donde retirei a ilustração.

domingo, 25 de outubro de 2009

Rodoviarium IX – a continuação do massacre

Pensei comentar as 4 mortes na estrada no dia 21 de Outubro de 2009, numa altura em que o número de mortes nas estradas já tinha ultrapassado neste ano o número de mortes no mesmo período. Entretanto verificaram-se 6 mortes no dia 23.
Estamos de facto numa situação grave, contrariando o anterior optimismo dos responsáveis.
Não pode continuar a ficar por fazer uma análise de cada acidente e a rápida divulgação das suas causas e circunstâncias (porque se despistou a carrinha de Penafiel com as 7 moças?)
Quando é que os decisores, agarrados às suas estatísticas, compreenderão isto?
Vendeu-se a ideia de que os automóveis agora são mais seguros, assim como as auto-estradas vieram diminuir a sinistralidade.
É perigoso alimentar estas ideias feitas.
Nalguns aspectos os automóveis são mais seguros. Noutros não.
O conforto actual ilude e pode levar o condutor. Sub-liminarmente, a julgar que a condução é um jogo de computador e a subestimar a velocidade real.
Os sistemas electrónicos de ajuda à travagem, à estabilidade e à correcção de trajectória podem, nalgumas circunstâncias, conduzir directamente ao acidente (é o eterno problema dos sensores que alimentam directamente os automatismos sem intervenção humana).
As auto-estradas criaram a ideia feita de que é seguro viajar a altas velocidades.
Bastou chover mais e os acidentes surgiram como cogumelos à chuva.
Atenção a que não deve ter havido aumento de tráfego, porque as estatísticas de vendas de combustível até acusam um ligeiríssimo decréscimo (0,1%).
Logo, para além de ter de se actuar sobre os condutores divulgando as técnicas de condução defensiva e económica e o conhecimento do código, haverá que implementar a referida análise de cada acidente.
Claro que não há técnicos que cheguem nem dinheiro no orçamento para isso, e possivelmente teríamos uma corrida ao tráfico de influências para gabinetes de consultores prestarem esse serviços ao ministério da administração interna para absorver o pouco dinheiro que fosse votado.
Também não seria mau estender a instalação de equipamentos de multa automática por excesso de velocidade e insistir em campanhas de esclarecimento sobre o código da estrada (não chegou a implementar-se um sistema de pontos?).
Poderia ainda ser útil recuperar a extinta Brigada de transito da GNR, mas não deve haver humildade dos decisores que chegue a tanto.
Entretanto, um grupo de técnicos já há uns anos que anda empenhado no OSEC – Observatório de segurança das estradas e cidades. E chama a atenção para o problema do “aqua planning” (hidro planagem). Muitas das estradas e auto-estradas padecem de dificuldades de drenagem (chegam a formar-se linhas de água com mais de 100 m , o que é grave, muito grave).
O acidente pode ocorrer mesmo em velocidades baixas se a camada de água for significativa (maior que meio milímetro) e houver uma velocidade excessiva ou variação excessiva da velocidade da periferia das rodas relativamente à superfície da camada de água (não é preciso ir muito depressa, basta travar, ou mudar de velocidade ou de direcção de forma mais brusca para se perder a aderência).
No caso de travagem sobre camada de água, assume especial risco o caso dos carros de potencia com tracção atrás. Os seus vendedores deviam fornecer gratuitamente cursos de condução em condições atmosféricas adversas. Quando um carro de tracção atrás abranda sobre uma camada de água, a inércia faz “afocinhar” o carro e levantar a traseira, diminuindo o contacto das rodas motrizes com o solo e contribuindo para a perda de aderência.
Se o ministério quer acabar com as mortes na estrada ainda tem muito que fazer. Mas não vejo humildade para se informar.
É pena, ficarmos dependentes apenas das melhorias de segurança introduzidas pelos fabricantes de automóveis, e de eventual consciencialização do código da estrada pelos utilizadores da estrada.

sábado, 24 de outubro de 2009

Economicómio XXIV - As canções de Richard Strauss e o fosso

Gosto de assistir a concertos na Gulbenkian.
Mais gostaria que mais pessoas gostassem.
Mas não gosto de contrariar ninguém nem obrigar as pessoas a gostar seja do que for.
E deixo-me levar por umas quantas reflexões enquanto o soprano canta as canções que Richard (não confundir com os das valsas, se fazem favor) Strauss escreveu na intenção da mulher.
Strauss gostava de ouvir a mulher cantar, e eu não me admiro que também gosto de ouvir a minha. É uma forma de executar os procedimentos de acasalamento como outra qualquer.
Entretanto, a propósito deste concerto, tomo conhecimento de que Strauss esteve em Portugal por várias vezes, nos primeiros anos do século XX, umas vezes para dar concertos e outras para passar uns dias em Sintra a compor.
Seria interessante saber que composições de Strauss nasceram em Sintra.
Mas isto a propósito deste fenómeno: na sociedade portuguesa do inicio do século XX coexistia um vasto grupo de cidadãos em que predominava o analfabetismo e a pobreza, com um pequeno grupo de cidadãos requintados e de nível cultural elevado. Estes recebiam os expoentes da arte da época e com eles conviviam.
Como é sabido, só pode haver cultura se a capacidade produtiva duma sociedade for capaz de eliminar a preocupação pela satisfação das necessidades básicas dos beneficiários. Dado que a produção não chegava para todos, só alguns podiam beneficiar da cultura. Isto é, havia um fosso entre a maioria dos portugueses e a minoria dos que beneficiavam da cultura.
Este fosso foi tentado colmatar com o esforço da I República de alfabetização.
Porém a capacidade produtiva continuou insuficiente e os detentores do poder económico não viram necessidade de estender a todos os benefícios da cultura.
Na actualidade a massificação dos programas televisivos de entretenimento tenta iludir a existência do fosso com a disseminação dos concursos, telenovelas e futebol.
Mas a verdade é que só uma minoria se deixa encantar com as canções de Strauss (não confundir com os das valsas).
É uma pena.
Uma pena e um fosso, claro.
Quer-me parecer que só através do cumprimento do art.27 da Declaração Universal dos Direitos do Homem pelos governos seria possível reduzir o fosso. Mas isso contraria os princípios sagrados da religião do mercado, vulgo adam smithismo, por mais que alguns ministros da cultura (um ministério para a cultura? e se se lembrassem de um ministério para a liberdade?) achem que a cultura também vende, e que Fernando Pessoa vale mais que os contentores de Alcântara.
Por outo lado, se a cultura é um sinal exterior de superioridade, que interesse poderá haver em democratizar a cultura, em desviar dinheiro doutros sinais exteriores de riqueza para essa democratização?
Será esta consideração tão simples que preside à elaboração dos programas da nossa televisão (2.400 milhões de euros em 9 anos de indemnizações compensatórias para a RTP…)?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Rodoviarium VIII – Mais mortes, menos multas

Este é o título de um dos jornais de hoje.
Não é preciso vir uma estatística dizer que morreram mais cidadãos nas estradas de Portugal nos primeiros nove meses deste ano do que nos meses homólogos do ano passado.
Porque as estatísticas são um meio para tentar estabelecer correlações entre factos, não são o fim para justificar a excelência das medidas de um ministério (ou de uma direcção de empresa).
O que é preciso e não há meio de os respectivos ministros darem os meios necessários aos órgãos e aos técnicos existentes (que os há com competência para isso) é analisar cada acidente até encontrar as causas reais e as circunstancias em que ocorreu de modo a tomar medidas para evitar que se repitam.
Todos ficamos muito comovidos quando os acidentes ocorrem mas depois vem o secretismo tão característico dos portugueses que têm uma pequena ou grande quinta para mandar e que dizem logo que o inquérito está a decorrer e nada se pode dizer.
Podia, podia dizer-se; nos países anglo-saxónicos pode dizer-se.
Vejam o caso da morte do cidadão em Corroios pelo metro sul do Tejo. Foi em Julho. Nada se sabe. Houve uma colisão recente com um automóvel. Aguardamos as conclusões que nunca chegarão (ao menos o comandante da polícia foi muito claro: a sinalização no local do acidente é ambígua). Eu confirmo: no estado em que está o metro sul do Tejo, as condições de segurança rodoviária são indesejáveis, o que coloca todas as entidades envolvidas em incumprimento das directivas comunitárias. Quem não conheça Almada terá de circular de automóvel com muito cuidado (gerando as iras dos residentes que já conhecem o traçado e que vêm mais apressados) para entender bem o traçado do comboio que cruza por diversas vezes a rodovia vindo sabe-se lá donde. Na avenida principal, parei antes de uma passadeira porque dois peões já tinham posto o pé na passadeira (é o que diz o código da estrada, não é? abrandar antes de uma passadeira para o caso de algum peão já ter iniciado a travessia e então o código manda parar). E passaram. Como eram novos e iam atentos, pararam eles por sua vez para deixar passar um comboio, no eixo da avenida, que surgiu sem eu saber (possivelmente teria eu forçado a minha passagem na passadeira, se soubesse que vinha aí um comboio) e com uma velocidade tal que seria impossível travar antes da passadeira.
Ora isto, que possivelmente os decisores nunca viram em situação real, é pura e simplesmente intolerável , pior que indesejável.
E continua a circular sem medidas mitigadoras, o metro sul do Tejo (obviamente que a passadeira de peões deveria estar protegida por semáforos)?
Penso que no caso do metro sul do Tejo já entrámos no domínio da responsabilidade criminal.
E possivelmente, quando se pode colocar a hipótese de uma correlação entre o aumento do número de mortes na estrada e a reestruturação das forças policiais (para os mais esquecidos: a extinção da Brigada de Transito da GNR!!!)que conduziu a uma menor fiscalização do transito, também.
Embora não devesse ser preciso a estatística indicar aumento de mortes, para o ministério (terá ficado embaraçado?) accionar as medidas de análise de acidentes em termos eficazes.
Vamos ver como isto evolui.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Economicómio XXIV - Reflexões rápidas sobre o cérebro humano

O cérebro humano é um factor de produção nas empresas e na vida económica.
Não sou a pessoa mais indicada para o demonstrar, mas em todos os seminários ou apresentações de gurus da economia e da gestão a que tenho assistido lá vem a asserção de que o conhecimento é um factor decisivo para o sucesso das empresas.
Conhecimento e informação são o produto do cérebro humano, que é assim o factor de produção determinante.
O cérebro humano pertence ao indivíduo que o detém.
Logo, a posse deste meio de produção determina a classe dominante na cadeia de produção, sendo certo que o detentor desse meio de produção é o próprio indivíduo.
Logo, ou a lógica é uma batata, ou já atingimos o estágio marxista da posse dos meios de produção pelos próprios trabalhadores assalariados.
Como já referi anteriormente, o raciocínio anterior não é meu, e até tenho pena, mas sim dos autores do livrinho de que já fiz propaganda, “Funky business, capitalismo para sempre”, que serão tudo menos marxistas.
Vem isto a propósito, enquanto exemplo da maravilhosa dialéctica que nos atormenta a paixão dos nossos cérebros por lógica “tudo ou nada”, de duas manifestações curiosas do cérebro humano.
Uma, a de um escritor com uma rara sensibilidade poética e uma vasta cultura literária, que reagiu mal aos resultados eleitorais e invocou o conceito de estupidez para a multidão dos votantes (utilizei aqui o termo multidão para mais uma vez fazer propaganda do livrinho de James Surowiecki , a Sabedoria das Multidões).
O fenómeno das eleições é muito interessante enquanto manifestação de massas, comportando-se o indivíduo aparentemente como sujeito de movimentos indecisos ou erráticos.
Apenas aparentemente e talvez reproduzindo o movimento colectivo dos grandes grupos de animais, para quem as regras desses movimentos são condição de sobrevivência (resistência a predadores, por exemplo, garantindo os caminhos de fuga para todos os individuos do grupo graças à manutenção das posições relativas entre si apesar das constantes mudanças de direcção).
A previsão dos movimentos dos eleitores é assim mais fácil para uma boa empresa de sondagens do que para os próprios indivíduos que irão votar, mas que poderão não antever os resultados.
Nesta perspectiva, os resultados eleitorais não poderão ser classificados como “estupidez”, como de forma inapropriada o dito escritor escreveu.
Assim se poderá compreender como os eleitores, perante a desregrada política económica e financeira dos neo-liberais (respeitando religiosamente a máxima adam smithista: ”laissez faire, laissez passer”) em vez de punir nas eleições os partidos de inspiração liberal, ao contrário os premiaram.
Talvez porque os movimentos de grupo vão seguindo tendências que vão resultando de micro movimentos de imitação (como as aves no grupo migratório ou os peixes nos cardumes, protegendo-se dos predadores) e que não podem bruscamente cindir-se em dois grupos menores em direcções diferentes.
Nesta perspectiva poderia até pensar-se em “estupidez” dos votantes se pulverizassem as tendências.
As novas tendências formar-se-ão assim lentamente, talvez se possam detectar movimentos de mudança (traduzidos por uma derivada ou variação do valor absoluto relativamente a um valor anterior ) e talvez para as próximas eleições mudemos em valor absoluto.
E aqui entro no segundo exemplo de manifestação curiosa do cérebro humano.
Que é a da estratégia da nossa televisão pública. Que compete valentemente com a televisão privada nas audiências de programas de baixo nivel cultural (já imaginaram o que seria se, em vez daqueles senhores que apresentam concursos aparecessem depois do telejornal as personagens do Crepusculo dos Deuses a cantar Wagner? Que a RTP até gravou toda a Tetralogia…).
Para manter os concursos e as novelas, a RTP absorveu indemnizações compensatórias da ordem de 2.400 milhões de euros entre 2000 e 2009 (em 2009 a novidade foi um aumento de capital público de 292 milhões de euros).
Qualquer coisa como 24 km de linhas de metropolitano, chave na mão. Não é um fenómeno cerebral interessante, o que possibilita isto?
Como sabem, a grande desculpa para o sorvedouro da RTP é que precisa de fazer o serviço público.
Não, não faz, vejam o que diz o organizador do festival de cinema documentário e de curtas de Lisboa: "Não há serviço público na RTP".
Assim como é um fenómeno cerebral interessante o passivo de 15.000 milhões de euros do Instituto de Estradas de Portugal (ah, sim, existe a desculpa das Scuts, porque a dívida do IEP é só de 1.500 milhões de euros; mas também é verdade que foi vendido que a administração do IEP era muito “competente”).
Não é mesmo uma manifestação dialéctica do nosso cérebro bem português, podermos discutir números destes, da mesma ordem de grandeza do Lehman Bros?
E assim vamos.
Bem, com certeza.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Religo I – Saramago

Antes que os meus amigos se vejam envolvidos na discussão sobre as declarações de Saramago (a Bíblia é um manual de maus costumes e um catálogo de crueldade), quero dizer-vos que o homem tem razão.
Graças à idade, já perdeu a pachorra, como ele próprio diz, para aturar o que as religiões nos querem impingir, e despeja o saco enquanto é tempo.
Todo o apoio. No tempo do bisavô do meu avô queimavam-se pessoas à beira do Tejo por não seguirem os dogmas.
Quanto à Bíblia, lembram-se do episódio em que um pai desvairado pega numa faca para cortar o pescoço ao filho? E da tomada da cidade de Jericó por Josué com o massacre que se lhe seguiu para expulsar as vítimas da terra em que nasceram? (Ui, que isto tem implicações geo-estratégicas).
É tanto mais verdade o que Saramago diz que as palavras de Jesus Cristo no Novo Evangelho são claras: Dantes o coração dos homens era duro e por isso o Antigo Testamento era assim, mas a partir de agora o coração dos homens não pode ser duro…
Pois é, bem dizem que temos de dar o desconto ao tempo em que os textos foram escritos e que não podemos ter uma interpretação literal da Bíblia .
Claro que não, estamos de acordo. Com o que não estamos de acordo é pegar no texto , aliás de alto valor literário e imaginativo, e impô-lo como manual fundamentalista de vida.
Aguardemos os comentários das virgens púdicas ofendidas e dos publicanos farisaicos.
Tem razão, o homem.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Nando e Beto, ou das vantagens em deixarmos as regras eleitorais como estão

Nando ficou muito contente consigo próprio quando foi eleito presidente da sociedade Sabedoria das Multidões - Produtora Lírica de Ilusões.
Os accionistas votaram inequivocamente nele, apesar de a imprensa sensacionalista ter contado umas histórias duvidosas da sua vida privada.
Nando desempenhou muito bem o seu papel de vítima perseguida e exposta nas bocas grandes do mundo e, como ele próprio dizia, com muito talento, convenceu os accionistas.
Porém, os mesmos accionistas, fazendo jus ao nome da sociedade na parte que diz “Sabedoria das Multidões”, e respeitando religiosamente as regras eleitorais em vigor na sociedade, arranjaram maneira de eleger para o Conselho de Fiscalização um número de delegados não afectos a Nando superior ao número de delegados seguidores incondicionais de Nando.
E isso era o que toldava a felicidade de Nando.
Isso e a diminuição dos resultados das vendas das ilusões produzidas pela sociedade; mas desta matéria se ocupava o tesoureiro, técnico contabilista reputadissimo.
Beto também ficou eufórico quando chegou a vez dele e os accionistas da sociedade Os Desunidos da Beira-Rio, uma empresa de lazer e de contentores ligada à exploração marítima e fluvial, pertencente ao grupo-holding da Sabedoria das Multidões - Produtora Lírica de Ilusões, o elegeram presidente da “Desunidos”.
E no calor da vitória, Beto proclamou que quem não pensava como ele tinha perdido.
Ter-se-á Beto precipitado ao fazer tal afirmação, já de si perigosa porque radica nas ideias mazdaistas do Bem e do Mal do século VII antes de Cristo.
Porque os accionistas da “Desunidos” fizeram como os accionistas da “Produtora Lírica”, e elegeram para o Conselho de Fiscalização mais delegados não afectos a Beto, do que delegados seguidores incondicionais de Beto.
Beto empalideceu quando lhe foram dizer que não iria poder fazer aprovar as grandes opções estratégicas da “Desunidos” sem introduzir correcções que os delegados não afectos, representando a vontade dos accionistas que os elegeram, acharem por bem propor.
É natural que haja sempre correcções a propor num grande projecto, uma vez que muitos pares de olhos vêm melhor do que poucos pares de olhos, e nenhum par de olhos vê melhor do que um conjunto alargado de pares de olhos.
É uma lei da psico-sociologia, que se há-de fazer; embora Beto, mal aconselhado, considere infalíveis as suas equipas técnicas; mas só quando concorda com elas.
Beto recompôs-se, recuperou as cores e a calma e retomou com Nando uma velha e perigosa ideia: reformular as regras eleitorais.
Na realidade, por um feliz acaso (serendipity?), as regras eleitorais das empresas do grupo “Sabedoria das Multidões” estão muito bem feitas e permitem aos accionistas minoritários fazer ouvir a sua voz nas assembleias do Conselho de Fiscalização, como factor de contra-poder das estratégias maioritárias.
Nem todas as empresas são assim, havendo assembleias eleitorais em que um accionista poderoso, por ter a maioria das acções, consegue o poder absoluto, sem oposição e sem representação dos accionistas minoritários, na presidência executiva e no Conselho de Fiscalização.
A Humanidade já passou por essa fase no século XVIII, no tempo da delegação divina do poder na monarquia absoluta e o próprio sistema uninominal das eleições presidenciais dos estados unidos da América do Norte é uma sobrevivência desses tempos.
Mas as técnicas de gestão e as leis da matemática entretanto desenvolvidas permitiram regras eleitorais como as que vigoram no grupo “Sabedoria das Multidões”.
Nando e Beto vociferam que assim não há condições para governar as empresas (na realidade, para as governarem só como eles querem, não) e tentam convencer os accionistas a autorizar a mudança das regras.
Mas os accionistas são sábios e não irão nisso.
Assim o espero.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Educação V – o “ranking”

O DN mandou um fotógrafo à escola melhor classificada no “ranking”.
As alunas do colégio Mira Rio deixam-se fotografar nos seus uniformes, e declaram: “Somos a melhor escola porque os nossos professores nos ensinam a sermos as melhores em tudo”.
Temos aqui mulheres competitivas para o futuro, que não aceitarão segundos lugares.
Já dizia a castelhana segunda filha do Medina Sidónia: antes rainha em Lisboa por pouco tempo do que duquesa em Madrid toda a vida.
Coitado do marido, D.João IV, tão dado à música, ter de aturar uma megera destas toda a vida…
Pois daí o DN saltou para a escola pública D.Maria que o ano passado tinha ficado muito bem classificada e este não.
E a directora (ou presidente do conselho executivo, ainda não sei) explicou: sabe, saíram 42 dos 100 professores, a maioria por reforma antecipada porque não estiveram para aturar os disparates da ministra. É natural que os resultados tenham piorado.
Este exemplo não demontra, mas mostra o que se passou neste país com a ministra da Educação de quem o Presidente da Republica disse para a deixarem trabalhar: os professores responsáveis pelos bons resultados de uma escola esgotaram a sua paciência e a escola ficou privada de bons profissionais. Os resultados estão à vista, se bem que as estatísticas possam ser falaciosas (ainda há bem pouco tempo um estudo independente revelou que os números de abandono escolar revelados pela ministra eram um oitavo da realidade estudada – pobre de um subordinado meu que me enganasse dessa maneira, que me informasse que o indicador era um oitavo da realidade).
Eu há anos que já tinha divulgado este fenómeno, porque a minha mulher, que não é propriamente uma Luisa de Guzman, e a irmã, que também não o é, fizeram o mesmo que aqueles 42% (devo esclarecer que há uma penalização, mas a penalização vale menos do que a sensação de impotência de quem se mantém na vida activa perante os disparates da ministra).
Mas ninguém liga, claro.
É estranho, num país em que o ministro do ensino superior tem resolvido problemas e tem o apoio dos professores… haver uma incongruência assim.
Aplicando um critério qualquer de gestão de empresas a saída de 42 bons profissionais, substituídos parcialmente por professores sem experiencia (possivelmente manobrando melhor o Magalhães), provocaria medidas interventivas, quanto mais não fosse para evitar que daqui a 5 anos a criminalidade devida ao abandono escolar suba e que daqui a 10 anos o nível intelectual dos portugueses médios soçobre (porque o nível daquelas meninas de condomínio do Mira Rio certamente que estará acima da média).
Mas não, a orientação de voto dos portugueses e a política de Educação do seu governo não coincide com o que eu penso, ao analisar a realidade.
Pronto, não há coincidência, mas devia falar-se mais nisto, devia fazer-se inquéritos para fazer o seguimento do percurso escolar dos meninos e meninas, tentar estabelecer correlações entre o ranking das escolas por onde andaram e o seu sucesso na universidade .
Provavelmente concluindo que os universitários de sucesso também vêm de escolas mal classificadas no ranking, o que significaria que estamos a perder energias para fazer o ranking.
Mas tudo isto parece não interessar, não ter interesse mediático.
Deixemos essas coisas para as teses de mestrado.
E deixemos que por todo o lado se façam estatísticas muito bem feitas a justificar os sucessos das decisões dos decisores. Assim como assim, as reforma antecipada dos 42% libertou as escolas (e analogamente, as empresas) de vozes incómodas para os decisores. E as meninas do Mira Rio saberão assumir o poder, porque não deixarão que ninguém lhes passe à frente.
Que tempos… que pena que eu tenho que as pessoas não leiam Elinor Ostrom…
Ah!, é verdade, por que chamei pobre a quem me apresentasse um indicador afastado 7/8 da realidade: nada de especial, apenas ficava escrito e divulgado que o senhor tinha má vontade para trabalhar e que fazia disparates. Apenas isso.