quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

As mortes na Saxonia-Anhalt

Exmo Sr.Diretor do DN

O DN noticiou o acidente ferroviário na Saxónia-Anhalt, ocorrido próximo de Magdeburgo, em 29 de Fevereiro de 2011.
Que, provavelmente, teria havido erro humano, mas que se aguardavam os resultados do inquérito.
Mais de uma semana depois, o jornal não voltou ao assunto, e com elevada probabilidade não será dada publicidade aos resultados do inquérito, quando os houver.
Não pretendo discutir critérios editoriais, mas gostaria de chamar a atenção para uma perspetiva técnica: os acidentes não acontecem por erro humano; resultam de um conjunto de circunstancias de vária natureza que contribuem para o acidente; podem resultar de cortes em investimento, em pessoal ou em manutenção; em técnica ferroviária, um erro humano nunca poderá, por si só, provocar um acidente, porque existem equipamentos destinados a evitar o acidente, apesar do erro humano.
E esta é a crítica que eu me permito fazer: para além do reporte do acidente, a comunicação social deveria divulgar o conceito de que existem equipamentos destinados a evitar as consequencias  de um erro humano, pelo que a probabilidade de ocorrer um acidente por erro humano é extremamente reduzida.
Com os melhores cumprimentos.
F.Santos e Silva


Primeira locomotiva do comboio de mercadorias, que se manteve carrilado após a colisão, com restos da primeira carruagem da unidade dupla de passageiros que circulava em sentido contrário


À esquerda, o comboio de mercadorias; ao centro, restos da primeira carruagem e a unidade dupla, que se deitou ao lado da via





Carruagem da retaguarda da unidade dupla







1 - o acidente consistiu na colisão frontal num troço de via unica, próximo de Hordorf, entre um comboio de mercadorias no sentido oeste-leste e uma unidade dupla de passageiros no sentido leste-oeste (Magdeburgo-Halberstadt), na região de Saxonia-Anhalt
2 - o comboio de mercadorias era gerido pela Peine-Salzgitter, fabricante de produtos químicos; a unidade dupla de passageiros, pela Veolia/Harz Elbe Express; a infra-estrutura é gerida pela Deutsch Bahn
3 - na altura do acidente estava nevoeiro cerrado e caía neve
4 - na altura do acidente contaram-se 10 mortos
5 - presumivelmente (a confirmar-se durante o inquérito) o maquinista do comboio de mercadorias arrancou indevidamente na zona de via dupla para cruzamento e entrou na via única passando pelo sinal vermelho e pela agulha na posição contrária
6 - o centro de comando tentou sem sucesso contactar via rádio o maquinista do comboio de mercadorias
7 - os sinais não estão equipados com "train stop", cuja função é provocar automaticamente a travagem das composições em caso de ultrapassagem de um sinal proibitivo
8 - segundo a Deutsch Bahn, existem poucos train stops na rede ferroviária da antiga Alemanha de Leste , em que se integrava a Saxonia-Anhalt, contrariamente à rede da antiga Alemanha Federal em que a instalação é sistemática
9 - em consequencia deste acidente, a Deutsch Bahn anunciou que iria instalar train stops em todas as linhas
10 - a Deutsch Bahn tem vindo a aplicar, depois da sua privatização,  uma política de cortes nos quadros de pessoal e nos custos de investimento e de manutenção, incluindo a entrega a concessionários da exploração multipla das vias; é já visível a degradação do serviço da rede suburbana de Berlim

mais informações sobre a política da Deutsch Bahn:
http://www.wsws.org/articles/2011/feb2011/trai-f03.shtml

Penso que este é o sentido das mortes deste acidente:  que não se transforme um maquinista sem garantias no emprego, com horários sobrecarregados, com formação deficiente, com ameaças de reforma tardia, em bode expiatório das políticas da Deutsch Bahn, dos seus cortes, das suas entregas da exploração a concessionários, das suas economias em investimento em equipamento de segurança.
Recordo que o acidente nos arredores de Bruxelas em janeiro de 2010, tem as mesmas cracteristicas: vários operadores a utilizar as mesmas vias ferreas, um maquinista com pouca experiencia, neve intensa com visibilidade reduzida dos sinais, ausencia de train stop ou controle automático da marcha dos comboios.
Votos de que o governo alemão autorize a Deutsch Bahn a igualizar o tratamento de segurança das infra-estruturas ferroviárias (train stops, ATP automatic train protection, redução dos troços em via única) em todo o território do seu país e que reconsidere a utilização por multipos concessionários operadores das mesmas vias.

Registo dos últimos acidentes na Alemanha:
1998 - Eschede - descarrilamento do ICE devido a teste de rodas - 101 mortos
2000 - Bruhl - descarrilamento - 9 mortos
2003 - Baden-Wurtenberg - colisão - 6 mortos
2006 - Emsland - colisão na via de ensaios do Maglev - 23 mortos






terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ruinas 15 - A passagem

Chamei ruina a esta passagem pelo estado lamentoso.
O projeto de uma passagem pedonal subterranea é dificil.
Porque deve prever uma manutenção eficaz.
Não previu neste caso, sob as vias de rodagem do lado nascente do Campo Grande, no fim da Avenida da Igreja.
E o resultado é este.
Um susto, apesar da iluminaçao estar a funcionar, para quem foge ao risco de atropelamento, e cai no risco de assalto.
Precisamos mais de projetistas, de educadores e de empregadores do que de guardas, de câmaras de video vigilancia e de operadores de limpeza urbana, de que tambem precisamos.
E não é só isso.
Esta passagem foi construida tambem em intenção das pessoas com mobilidade reduzida, para acesso ao jardim do Campo Grande.
Tê-la assim é uma manifestação de desrespeito por elas.
Não seria mau se se agravasse a criminalização dos assaltos, porque estes inibem a construção de poassagens subterraneas, e se se pusesse um cartaz multi-lingue ao cimo da rampa: "É proibido assaltar pessoas".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Arquitectorium 9 - O prédio da Vodafone no Porto

O jovem arquiteto do gabinete Barbosa e Guimarães fala do seu projeto com orgulho.
E diz uma coisa que revela que tem um grande poder de síntese, capaz de explicar em poucas palavras um facto tristemente verdadeiro:
“Com o tempo, fomo-nos apercebendo de que nos concursos o grosso das obras não era entregue pela qualidade do projeto, mas antes pelo preço ou por cunhas”.

Será tão difícil convencer o Tribunal de Contas e os sacerdotes do Código de Contratação Pública que o essencial da questão está aqui?

Que o preço mata o objetivo de serviço público dos equipamentos sociais?
E não é com leis que isso se resolve, nem sequer com fiscalização (como dizia Juvenal, quem guarda o guarda?).

É com o desenvolvimento de uma cultura não provinciana, não nova-rica, não arrogante, não sobranceira, isto é, participativa, apelando ao debate coletivo.
Se ainda há coisas boas a acontecer, e pessoas a fazer o diagnótico das inconformidades, é porque é possível compreender isto, não será?

Wafa Sultan, psicóloga

http://cid-95ca2795d8cd20fd.office.live.com/richupload.aspx/Wafa%20Sultan?nl=1







Penso que vale a pena ver esta entrevista de 2006 à Al-Jazzeera.
A senhora é síria-árabe-americana, psicóloga, e vive atualmente em Los Angeles.

Pessoalmente, parece-me que o entusiasmo da senhora deixa na sombra as atrocidades praticadas pelas outras religiões, desde a Inquisição aos ataques a Sabra e Chatila e à faixa de Gaza.
Mas não é por aí que devemos ir.
O essencial é que o choque é entre o humanismo (interessante a senhora chamar a atenção para o papel da ciência na história da humanidade) e a Idade Média, independentemente de religiões.
Até porque o profeta Maomé era um chefe político que tinha de conquistar as tribos árabes unificando-as.
Salvo melhor opinião, não vejo no Alcorão nenhuma obrigação de conquistar os outros povos. E muito menos matá-los, claro. Isso estará nos textos sagrados acrescentados depois da morte do profeta.
Como diz a senhora, e muito bem, o que há a fazer é rever esses livros sagrados.
Para que quem quiser possa crer nas pedras, sem que atire as pedras a ninguém.

Discordo IV - a reunião de Bruxelas de 4 de Fevereiro de 2011

1 - Discordo do fim da indexação dos aumentos salariais à inflação - parece que os políticos estão com dificuldades matemáticas; indexação significa a manutenção de uma co-relação; acresce que a quota da contribuição dos salários para a inflação não é a que tem maior peso (OK, tentemos baixar esse peso com os tais aumentos de produtividade, mas isso é outra conversa, até porque o crescimento dos salários em Portugal tem sido inferior ao da inflação, por mais que desagrade aos senhores economistas que nos querem fazer a opinião);
2 - Discordo do aumento para 67 anos da idade da reforma - aos 67 anos os neurónios e os neurotransmissores, nomeadamente a acetilcolina, não têm o mesmo rendimento dos anos anteriores; além de que continuam aqui a verificar-se dificuldades de compreensão matemática: o indicador correto deveria ser o número de anos de desconto para a segurança social, afetado do coeficiente de desgaste das profissões exercidas;
3 - Concordo com a inclusão na Constituição de limites para o défice público e para todos os endividamentos (400% do PIB em Portugal): público (83% em Portugal), das empresas públicas, das parcerias público-privadas, privado (empresas e particulares), e dos bancos (públicos e privados); sem sigilos, doutra maneira não;
4 - Concordo com a harmonização da tributação das empresas - a bem dizer, até concordo com uma taxa a aplicar às empresas exteriores à união europeia que nos vendem produtos a preços de dumping
5 - Discordo da preocupação dos senhores governantes dos países dominantes em querer "flexibilizar" as leis laborais em Portugal; é falta de conhecimento das realidades concretas ; nós portugueses, ligamos pouco às leis, é como já estivessem flexíveis; preocupem-se antes em reduzir o coeficiente de Gini, das desigualdades de rendimentos, em todos os países da união europeia; isto para não falar do cumprimento das cláusulas da declaração universal dos direitos do homem.

Arquitectorium 8 - Notícias do coiso conspícuo da baía de Cascais

Já estão quase todas vendidas as habitações que substituiram o antigo hotel Estoril-Sol.
Ver em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2009/10/arquitectorium-4-o-coiso-conspicuo.html

Segundo informações do orgulhoso representante da agência imobiliária, as vendas foram um sucesso.
60% dos compradores são portugueses.
Os apartamentos mais baratos são T2 com 170 m2 e custam 1,4 milhões de euros.
Fica assim provado que os investimentos podem ser rentáveis, até porque a eficiência energética de um  edificio em condomínio é superior à da urbanização em moradias e porque 40% dos clientes são estangeiros.
Fica tambem a compreender-se por que se demoliu o Estoril -Sol.

Mas ficam três grandes dúvidas:
- do ponto de vista estético foi cometido um atentado com a demolição;
- as técnicas de manutenção estarão dominadas para garantir a longevidade do edifício, estruturado em perfis  e chapas metálicas, na vizinhança do oceano?
- ficando mais uma vez provado o elevado rendimento per capita dos habitantes da região de Cascais, qual será o coeficiente de Gini, ou indicador das desigualdades de rendimento, desta região?

Permanece a certeza que já tinha sido incluida nos textos evengélicos: que os filhos das trevas têm muito maior capacidade gestionária do que os filhos da luz.

O mercado do chão do loureiro

Uma importante companhia de construção civil está prestes a concluir o novo silo de estacionamento da EMEL onde era o mercado do chão do loureiro.
Seis pisos de estacionamento para 200 viaturas.
O que é positivo.
A possibilidade de estacionamento favorece a fixação de moradores na cidade desertificada.
No rés do chão está previsto um supermercado.
Facto tambem positivo.
No último piso prevê-se  um restaurante ou um bar, envidraçado, com vistas para o Tejo.

Onde está então a questão?
Primeiro, o projeto não foi debatido com clareza, esclarecendo as dúvidas sobre o supermercado e sobre o aproveitamento do terraço.
Teria sido fácil divulgar o projeto nos meios de comunicação social.
Segundo, a altura do novo edificio ultrapassou a do anterior edificio, o que é um facto sensível por retirar a vista a quem passa na Calçada do Marquês de Abrantes(e também à esplanada do bar aí existente).
Porém, o porta-voz da EMEL afirma que a sércea do novo edificio é a mesma do antigo.
Não é, mas a sobranceria, a arrogancia e a auto-suficiencia do poder municipal definem as suas verdades que têm de ser aceites pelos cidadãos.

É uma hipótese de probabilidade elevada, que são a arrogancia, a sobranceria e a auto-suficiencia dos grandes empreiteiros e dos grandes donos de obra que impedem o debate aberto com os cidadãos.
Daí a termos uma má solução apesar dos objetivos corretos é um pequeno passo.
E há finalmente o "chico-espertismo", de acrescentar uns metros à sércea antiga.
Só dois ou três.
Quem quiser ver a vista que suba ao terraço.

É isso, a arrogancia, a sobranceria e a auto-suficiencia nova-rica, provinciana e chico-esperta caracterizam as decisões dos assuntos públicos.
Talvez que o principal problema das comunidades portuguesas não seja a dificuldade que temos em nos organizarmos.
Talvez seja antes o deficiente método de tomada de decisões.
Por isso estou sempre a falar na Sabedoria das Multidões.

Com assinalável insucesso...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Detroit, 1967


Em 1967, em Detroit, uma revolta de rua provocou cerca de 40 mortos durante a repressão policial.
Havia um problema na cidade que se traduzia por um muro que separava a zona em que a população branca podia construir habitações porque tinha acesso ao crédito, da zona em que a população negra não tinha acesso ao crédito (informação retirada de um programa Odisseia sobre as crises financeiras).
Em 1974, na Irlanda do Norte, a polícia, sem qualquer provocação, disparou a matar sobre manifestantes irlandeses (o governo inglês veio anos mais tarde a apresentar desculpas).
Estes dois pequenos exemplos servem apenas para mostrar que as populações ocidentais  não têm  razão para se sentirem superiores a quem quer que seja que tenha necessidade de se manifestar, com mais ou menos ingenuidade ou melhor ou pior enganado.
E seria bom que os meios de comunicação social não incentivassem esse sentimento de superioridade, esse “espírito de cruzados”.

Vanessa, Vanessa


Se, por acaso, este texto chegar a ti, quero que acredites que desejo sinceramente que ultrapasses os teus problemas de momento e  que te sintas bem em voltar a competir.
Escrevo isto porque posso ser mal interpretado nas considerações que vou fazer.
Nós, portugueses, somos inseguros, e como tal, achamos que, sempre que alguém se distingue ou sempre que realizamos uma obra notável, somos os melhores do mundo.

Por teres sido campeã, os portugueses exerceram sobre ti uma pressão para que fosses sempre a melhor.
Sabes, a competição de uma pessoa consigo própria é, em princípio, saudável.
A alta competição, por aquilo de que a pessoa tem de abdicar e pelas expetativas e exigências da opinião pública, pode ultrapassar os limites do aceitável.

Quando todos se entusiasmavam com os teus êxitos, eu impressionava-me com a vida que tu fazias.
Fechada num retiro, a treinar assim que acordavas, até que te deitavas.
Lembras-te de como foi engraçado vestires-te e maquilhares-te para aquela série de fotografias para “promover Portugal”, aquela campanha do ministro Pinho?
Ficaste gira.
Mas voltaste logo à vida monástica que fazias.

A opinião pública é perigosa.
Especialmente porque exprime com clareza a insegurança e a necessidade de a compensar.
De preferência com sucessos de pessoas como tu, que não exijam esforços aos espetadores.

Como seria bom para todos nós se, em vez de querermos ser os melhores, nos contentássemos em ser esforçados e honestos naquilo que fazemos, mesmo que os resultados dos alemães, dos franceses, dos ingleses, dos australianos, sejam melhores do que os nossos.
O problema é que muitos dos que exigem os teus sucessos não se esforçam no seu próprio trabalho.
E bastava definir uns objetivos razoáveis, na faixa de cima da mediania, por exemplo.

Como dizia o sargento da polícia no Ovo da Serpente de Ingmar Bergmann, que naquele momento, o que ele queria era apenas que cada um exercesse a sua profissão, que o equilibrista no arame que ele tinha na frente fosse fazer os seus números.

Não te preocupes.
Podes não continuar a ser a melhor, mas basta que dês aquilo que é razoável dares.
Mais não; que a saúde está primeiro.
Mais vale competir honestamente do que ser a primeira à custa de violência.

Felicidades para ti.






sábado, 5 de fevereiro de 2011

Economicómio LXVIII - Portugal tem de se reindustrializar

O título pertence a uma frase de João Ferreira do Amaral, economista professor do ISEG: "Portugal tem uma agenda clarissima: tem de se reindustrializar".
Quando uma afirmação é feita por um professor e é também feita de forma independente por um ignorante,  a probabilidade de estar certa é elevadissima.
Como ignorante de economia, sempre achei que o setor industrial em Portugal andava a ser desprezado.
Logo, parece-me altamente provável que a reindustrialização seja uma diretiva correta.
Continuação do testemunho de João Fereira do Amaral: "Inserimo-nos mal na globalização: especializámo-nos em setores não transacionáveis e o resultado foi perder mercados e acumular défice na balança de pagamentos".
É isso, tem de se investir na industria.
Para a minha geração (e para a de João Ferreira do Amaral), há um pouco de nostalgia nisto. Quando "tirámos" os nossos cursos, como se dizia na altura (quando havia 30.000 cidadãos e 15.000 cidadãs com curso superior no país, o que era um indicador de grave atraso cultural ), a opinião dominante era que a industria devia desenvolver-se.
Apesar do "condicionamento industrial" imposto pelo regime anterior ao 25 de Abril de 1974, que dificultava o surgimento de novas industrias, técnicos desse regime, como Rafael Duque e Ferreira Dias tentaram a industrialização do país.
Nos anos 80 e 90 do século XX, contrariando a opinião de muitos técnicos, fecharam fábricas de metalomecanica como a Sorefame, a Mague, a Lisnave, a Precix.
Foram invocadas razões de mercado.
A história demonstrou que eram más razões (por exemplo, o preço dos petroleiros sul-coreanos subiu quando perdeu a concorrencia de estaleiros como os da Lisnave).
Logo, a reindustrialização é a diretiva a seguir.
Dispensa-se a vitimização da falta de dinheiro porque para estas coisas ainda existe o QREN.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ainda a Ameixoeira

1 - Comecemos por esta imagem, perto da calçada do forte da Ameixoeira e sobranceira à estrada do desvio.
Carneiros admirados com o humano e o humano admirado com os carneiros.
Diz-me o pastor que só cuida dos bichos para manter a tradição, que número de bichos não rentabiliza a produção de queijo (lá está outra vez a lei oculta dos rendimentos decrescentes), que o que justifca o trabalho é a venda de cordeiros (são sempre os inocentes que pagam) e que a câmara está a exigir plantas rigorosas com os terrenos ocupados pelos ovinos.
Salvo melhor opinião, se os senhores da câmara tivessem um pingo de amor vivido pela sua cidade, não deixavam morrer os rebanhos.



2 - Dois recantos com potencial turístico



                                                                                



3 - As ruínas das fotos do dia 22 de Julho de 2010 mantêm-se.
     Ver
     http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/07/ruinas-6-ameixoeira.html




4 - A junta de freguesia. Mostro novamente o edificio da junta de freguesia.
Que lhe reserva o plano tão incensado de redução de 53 para 24 freguesias em Lisboa?
O plano conduzirá mesmo a poupanças?
Ou será o reconhecimento da derrota que é a desertificação da cidade?
Se uma freguesia tem poucos habitantes deve fechar-se ou deve repovoar-se?
Se uma cidade que tinha há 30 anos 800.000 habitantes e tem agora 500.000 deve preocupar-se primeiro com o número das suas freguesias ou deve estudar o alargamento dos seus limites para recuperar habitantes?
Quem louva o plano estará só a pensar nas economias decorrentes da redução de orgãos e de autarcas?
Não haverá trabalho para os atuais autarcas executarem?
Quem integra o rebanho da Ameixoeira na sua urbanização?
Quem projeta a instalação de centros de interesse (hoteis, rstaurantes, salas de espetáculo, museus) para o turismo neste bairro, à semelhança do que as cidades europeias fazem, recuperando os bairros tradicionais para o turismo?
Fundindo freguesias e afastando as pessoas dos pontos de decisão?
Quanto vale o trabalho que vai deixar de se fazer, mais ou menos do que as poupanças?
Não querem os senhores da câmara acreditar que a inteligencia distribui-se, não se concentra.
Amam a sua cidade?
Querem que as pessoas acredite?



5 - Estrada da Ameixoeira. A estrada é estreita e tem dum lado a igreja da Ameixoeira e um antigo solar onde está instalada uma universidade privada, e, do outro, uma encosta íngreme que se prolonga até à Calçada de Carriche.





        Seria interessante que a junta de freguesia ou a CML contratassem especialistas de geologia para avaliação dos riscos de deslizamentos de terras e elaboração de recomendações.





Pelo menos a garantia de um  caminho de escoamento das águas e enxurradas era boa ideia.
O mesmo para a cumeada do outro lado da estrada do desvio, sobranceira à quinta das Lavadeiras.


 










6 - Um pouco de abstracionismo. Liquens sobre o muro da estrada da Ameixoeira, do lado do norte. Sinal também de que a poluição não é tanta como se poderia temer.








7 - O jardim. E de repente, um jardim do século XVIII ao dispor dos munícipes, com bancos de azulejos de fazer inveja aos antiquários, com reformados a gozar o sol de inverno. Nem tudo é mau nesta cidade.



















terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Deolinda - Que parva que eu sou

O concerto dos Deolinda foi um exito. A sua nova canção "Que parva que eu sou" começou logo a circular na Internet:



Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.


É toda uma geração que se identifica com esta letra.
Já se proclama que é a nova canção de intervenção.
E quando os protestos começam nos jovens, o poder pode tremer.

Sabes, Deolinda, quase que me apetece concordar, que parva que és.
Mas como diria Inês Pedrosa ("Fazes-me falta"), serás antes uma garota zonza.
Demasiado ingénua para pensares, enquanto andaste a estudar, que o mundo talvez não fosse o que lias nos jornais (ou vias na televisão), o que te diziam os teus professores de gestão que os mercados têm de ser competitivos e livres, que as maravilhas da Internet e das novas tecnologias tudo resolviam por si.
Garota zonza, que deste prioridade às noites da 24 de Julho ou da Ribeira.
Que te orgulhaste de, repentinamente, o teu país começar a ter a juventude nas universidades; já não havia aquela separação antipática dos filhos família que podiam tirar os cursos superiores enquanto os teus pais e os pais dos teus vizinhos tinham de procurar cedo trabalho nas lojas, nas oficinas, a aprenderem na universidade da vida em lugar de aprenderem nas escolas indutriais ou comerciais ou nos liceus, como se dizia antigamente das escolas secundárias.
Não reparaste, ocupada como estavas com os teus testes de gestão e com os programas de socialização e normalização que tinhas de preparar para as noites de fim de semana (porque senão não te integravas entre os teu pares e isso seria uma rejeição insuportável), que no teu país se estava a criar uma separação escandalosa entre os cada vez menos que têm a cada vez maior fatia do rendimento e os cada vez mais que têm a cada vez mais pequena fatia do rendimento.
Mas foste sempre acreditando que a culpa era dos malcheirosos que não queriam trabalhar nas fábricas, ou nos transportes públicos, ou então que a culpa era dos professores que ganhavam mais do que os colegas finlandeses.
E para ti nunca houve sindicatos, essa coisa do passado, já ultrapassada.
Nunca achaste importante ir votar.
Aliás, ainda nas últimas eleições, garota zonza, deixaste a abstenção ganhar a votação.
Tiveste coisas mais importantes para fazer, um filme em DVD, ou jogos na Wi.
Ou não tinhas confiança nos politicos.
Eu acho que não podes meter todos os politicos no mesmo saco, mas eu pertenço a uma geração já muito antiga, ultrapassada, jurássica como gostas de dizer, do tempo em que havia 30.000 homens e 15.000 mulheres com um curso superior (não era bom, evidentemente).
Não tenho os números de agora, mas quando acabaste o teu curso superior os numeros eram 260.000 homens e 370.000 mulheres. Essa foi uma vitória do teu país, juntamente com a diminuição espetacular da mortalidade infantil.
Coisas do estado social, ou providencia, como te habituaste, acrítica, a ouvir classificar, sempre para valorizar a iniciativa privada, o mercado desregulado.
Nunca pensaste que era isso, o acriticismo permissivo da desregulação, que os grandes grupos económicos estavam interessados em que tu e a tua geração pensasse, para poderem fazer as suas especulações mais descansados, os seus negócios com as "off-shores", os seus negócios entre amigos.
Achavas bem ires aos grandes centros comerciais e comprar fruta barata, embora ela viesse de países em que os apanhadores de fruta são explorados como se fossem escravos (estes sim,como se fossem escravos: só são aceites como apanhadoras de morangos na Andaluzia marroquinas com filhos, para haver a garantia de que regressam a Marrocos), ou comprares uns sapatos de marca italiana de tiras prateadas feitos na India por um miúdo cheio de fome.
Nunca quiseste saber desses pormenores desagradáveis.
Interessavam-te os melhores preços, mesmo que as empresas de cá fechassem.
Enquanto os teus amigos iam acabando os seus cursos, iam ganhando os seus recibos verdes, iam, como tu dizes,tendo a sorte de poder estagiar, ou, tendo ainda mais sorte, iam arranjando um emprego numa empresa pública, com garantia de trabalho remunerado, com um recibo suficientemente credivel junto dos bancos para viabilizar o empréstimo para a compra do andar nos suburbios de Lisboa ou para a compra da carrinha de prestígio para impressionar os vizinhos. 
Isso não tem mal, tirando talvez essa ideia de querer impressionar a vizinhança com o carro potente, mas a cidade deixou de ser uma cidade para jovens. 
Mas mesmo assim não te importaste muito.
Tu e os teus amigos têm o Facebook para trocar as mensagens de socialização e de normalização em torno da vitimização de quem é mal pago e vê as prestações do crédito subir.
Não terão estudado nos seus cursos o ponto de vista freudiano, que quem se sente remunerado abaixo do que considera o próprio valor, sofre de um problema grave de insegurança e de deficiencia de auto-análise? 
Não tens uma palavra, Deolinda, para quem perde os seus empregos, para quem procura trabalho e não encontra?
E não tens nada a dizer sobre os senhores importantes que vão para a televisão dizer que agora não há dinheiro para fazer investimentos, apesar de ser isso que gera empregos (desde que reprodutivos e úteis, claro)?
O que te choca é ter um curso superior e ganhar mal?
Que mal tem se a tua amiga médica e o teu amigo engenheiro ganharem tanto como o teu vizinho serralheiro ou o teu primo pedreiro?
E se isso acontecer porque o bolo total do rendimento afinal é pequeno e não dá para mais?
Que mal terá isso se o bolo for nosso?
Será pequeno mas será nosso, e seremos nós que mandamos nele, no bolo do rendimento e na distribuição equilibrada do rendimento, não aqueles senhores importantes que falam com um ar tão sério na televisão.
Não vamos poder passar férias nas Caraibas, mas que importa se o bolo for nosso?
Este país seguirá dentro de momentos.
Graças a quem trabalha em algo que possa ser exportado ou vendido no estrangeiro, que é o que poderá suportar isto. 

Sabes, Deolinda, cantas bem e os teus músicos tocam bem.
Mas não deixes que o sucesso te estrague.
O teu poema é minimalista e coloquial. 
Não tem mal, mas não é um bom poema. 
Procura quem faça bons poemas ou já os tenha.
Vai ser utilizado na Internet como aquelas mensagens em que se critica tudo, em que todos nos vitimizamos, mas em que não há soluções.
Reivindicar melhoria de remunerações para uma classe média enganada (desviada dos objetivos durante o seu período de formação)e que não conseguiu erguer uma estrutura produtiva saudável para a economia do país, pode colher muitas palmas nos coliseus (porque os ouvintes se sentem identificados com as tuas palavras, porque os seus centros de prazer antecipam o que lhes vais dizer), mas não resolve o problema da produção de bens uteis, dos investimentos reprodutivos e da distribuição equilibrada dos rendimentos. 

Peço desculpa pelas minhas palavras amargas.
Não és a geração rasca nem és parva.
Mas achaste, tu e a tua geração, que a minha estava ultrapassada.
Está, de facto, na sua capacidade de mudar o mundo (onde vão os Beatles e o "Imagine")e na sua energia.
Mas, Deolinda, tu e a tua geração afastaram-se da realidade e acreditaram nas fadas virtuais do poder económico que nos dirige.
Não acredites agora nos mesmos que há 3 anos atrás propagandeavam os mercados desregulados.
Não enfies mais barretes, garota zonza, deixa-me tambem falar coloquialmente.
Vê se votas como deve ser nas próximas eleições e continua a cantar.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Edmund Burke

A citação de hoje do DN é muito curiosa:  "A economia é uma virtude distributiva e consiste, não em poupar, mas em escolher".
O seu autor é Edmund Burke, politico inglês que apoiou a independencia das colónias americanas.
É considerado liberal e fundador do conservadorismo anglo-saxónico.
Não há detentores da verdade, mas parece importante esta ideia, no pressuposto de que a sociedade humana não consegue evitar a sua condenação eterna à condição de "produtor" e que o principal é distribuir bem.
E que economia não é poupar ...
Burke nunca ouviu falar no coeficiente de Gini.
Penso que seria uma boa ideia insistir no debate público deste indicador.
Até porque já dizia Adam Smith que a cada um segundo as suas necessidades.

A Oficina Agricola do Centro de Apoio a Deficientes do Alto Tamega

A noticia convida a acreditar na espécie humana.
O Instituto de Empreendedorismo Social (instituição sem fins lucrativos; principais membros: Fundação EDP e Santander Totta) premiou a Oficina Agricola de Apoio a Deficientes do Alto Tamega (terrenos da Camara Municipal de Boticas; gestão da Misericórdia de Boticas).
Ver em:
http://diarioatual.com/?p=8929

A Oficina Agricola permite a um grupo de 11 deficientes ligeiros produzir agricultura biológica.
Não apenas na região mas em todo o país, existem exemplos de iniciativas semelhantes.
A minha duvida é a mesma  de John Steinbeck nas Vinhas da Ira, em plena recessão de 1929.
Por que não há mais casos destes? e por que não é maior o apoio oficial (tantos jovens especialistas de serviço social  podiam fornecer a mão de obra de apoio).
Possível resposta à questão dois: com a diretiva de "menos Estado"e de redução das despesas públicas,  com o nível de endividamento e com os maus exemplos das entidades públicas que falham nos seus resultados, nenhuma entidade oficial toma a iniciativa.
E assim ficam por esse país fora hectares e hectares de terra que podiam ser trabalhados por pessoas com deficiência.
Claro que há sempre o risco de acusação de trabalho escravo.
Mas assim como estamos, numa sociedade que não põe a render aquilo de que dispõe porque não quer ou não pode investir, parece-me de maior risco.

A linha do Oriente vai a caminho do Aeroporto

A linha do Oriente vai a caminho do Aeroporto


O texto seguinte necessita de um esclarecimento.
Não se trata de uma folha de memórias da minha vida profissional.
É uma ficção construída a partir de alguns factos verídicos, que todavia não aconteceram da forma descrita nem com a cronologia indicada (a descrição rigorosa dos acontecimentos obrigaria a uma pesquisa rigorosa que eu não fiz e tornaria interminável a escrita de um livro de outras memórias), e de outros factos puramente imaginários.
Algumas personagens e  empresas são inventadas, assim como as ações, quando verídicas,  das personagens ou das empresas, podem não corresponder à personagem ou à empresa que no texto as executou.
Trata-se de uma técnica de escrita de ficção muito utilizada em  temática de sociedades religiosas, esotéricas, maçónicas ou mafiosas, com estritos fins de entretenimento.
É pois aplicável a todo o texto a velha expressão: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.



Verão de 2002.
A questão do tunel do Terreiro do Paço encontrava-se em resolução.
A tuneladora, esforçadamente até empenar o veio principal, furava desde o poço da Ameixoeira, a caminho do Campo Grande.
A posição da estação Ameixoeira era algo excentrica relativamente ao traçado que se pretendia, que era o de uma ligação ferroviária entre Odivelas e o Campo Grande.
Tinha sido o senhor presidente da junta de freguesia que exigira o desvio para a Ameixoeira, uma freguesia esquecida pelos lisboetas, apesar de ter qualidades para ser uma atração turistica, assim como Grisengen está para Viena de Áustria.
Afortunadamente, o desvio pôs o traçado de tal maneira que só poderia atingir-se Odivelas em viaduto.
Construir metropolitanos em viadutos é uma forma mais barata e rápida de o fazer.
Permite tambem nivelar o percurso e assim economizar energia.
Por isso poucas vezes se tem recorrido a este método.
Mas aqui teve de ser.
Entre a Pontinha e a Falagueira executava-se um trabalho em grande parte a céu aberto de grande interesse para os especialistas da geotecnia e construção de tuneis, considerando o grande teor de argila dos terrenos, instáveis sempre que chovia.
Falagueira era um nome demasiado rural e "ancien regime" para uma estação de metro.
Por isso se lhe chamou Amadora Este.
Para ser uma nova centralidade, nas palavras do senhor presidente da câmara.
E para dinamizar um investimento imobiliário em torno de um grande centro comercial a construir sobre a estação.
Era uma ideia inspirada no método seguido em Hong Kong, em que se entrega ao metropolitano a exploração das mais valias imobiliárias decorrentes do serviço de transportes prestado.
Mas com inovações próprias da mentalidade portuguesa.
O investimento imobiliário tinha o inconveniente de ir ocupar dos melhores terrenos agrícolas do país, só comparáveis aos barros vermelhos de Beja, por isso tinha sido ali estabelecida, à estrada dos Salgados, a estação nacional agro-zootécnica.
Mas que era isso comparado com o brilho do senhor presidente da câmara nos comícios das suas eleições autárquicas, e o entusiasmo dos seus apoiantes?
As coisas não correram de feição.
O contrato continha uma cláusula que dizia que o Estado se responsabilizava por eventuais prejuízos do investimento.
Mas se desse lucro, o lucro era do investidor.
Isso se soube quando o primeiro ministro foi apanhado pela comunicação social na casa de férias do investidor, numa ilha que ele, investidor, tinha comprado perto de Angra dos Reis.
O primeiro ministro gostava de férias no mar.
Já no ano anterior tinha vindo nas capas das revistas de atualidades sociais noutra ilha, dessa vez grega, em casa de um rico armador grego.
Por isso, discretamente, foram deixando cair o investimento no esquecimento, explicando o senhor presidente da câmara, pacientemente, que toda a organização do território estava a ser reequacionada numa perspetiva integrada para considerar as questões associadas ao fecho da CRIL que viria da Buraca, às ligações  à CREL e às vias rápidas para Sintra,  e a uma linha de trolei-bus que ligaria a estação da Reboleira a um novo e megalómano centro comercial, junto do Casal da Perdigueira.

Uma capela do século XVII , na colina de um dos solares da Pontinha,  que tinha sobrevivido ao terramoto, ameaçou desconjuntar-se com a escavação tão perto.
Mas foi possível estabilizar os terrenos e compor a capela. Por sinal com uns azulejos muito bonitos.

A administração do metro já tinha assim uma boa carteira de projetos e empreendimentos para apresentar ao governo e justificar a sua existencia.
Porém,  o termo do seu mandato só ocorreria daí a um ano, e sabe-se que o sucesso junto da opinião pública de uma empresa como o metropolitano pesa na qualidade dos futuros cargos públicos a atribuir aos militantes que lá tenham cumprido as suas missões.
Foi então pedido ao gabinete de orçamento e financiamento que elegesse um projeto suscetivel de obter fundos europeus e que tivesse visibilidade mediática.
Poderá parecer estranho ser um gabinete de financeiros a escolher os traçados das novas linhas ou expansões da rede do  metropolitano.
Os métodos de preenchimento das  matrizes habitação-emprego para esboçar os novos traçados estão ao alcance de qualquer pessoa com a escolaridade obrigatória, mas a distorção urbanistica existente na região de Lisboa (com a desertificação galopante), a sobreposição de competencias com, por exemplo, a autoridade metropolitana de transportes e as câmaras, a grande diversidade de disciplinas técnicas que é necessário integrar para construir uma linha nova, são fatores suficientes para recomendar maior tecnicidade ao exercício desta função.
E esta situação já era assim havia largos anos.
As administrações achavam que a tarefa mais importante era a de arranjar financiamentos e para isso não serviam os simples técnicos especializados em construir e operar metropolitanos.
É verdade que o departamento de traçados colaborava com o departamento financeiro, mas também a esses lhes faltavam as competencias de quem tivesse experiencia na exploração ou na manutenção decomboios.
De modo que o colega economista diretor do departamento teve uma amena conversa no ministério dos transportes e de lá veio com a ideia de que uma linha de metro que servisse o aeroporto teria financiamento assegurado, porque em todas as reuniões a que o senhor ministro tinha ido na Europa lhe diziam que as capitais tinham de ter um serviço ferroviário que as ligasse ao aeroporto.

O traçado foi, como de costume, debatido apenas no círculo restrito do departamento financeiro e submetidas ao presidente da administração  e ao administrador do pelouro das obras, em cada encruzilhada de decisão, as opções para o desenvolvimento do traçado.
A linha vermelha funcionava então entre a estação Alameda e a estação Oriente.
O objetivo era prolongá-la a partir da estação Oriente, eliminar o término com aparelhos de via, virar para poente numa curva com o raio de 250 metros, fazer uma estação em Moscavide, sob o viaduto, prosseguir para a Encarnação, para uma estação perto da praça da igreja, infletir para sudoeste e aportar à praça do aeroporto, construindo a estação de acesso ao aeroporto e o novo término.
No Verão de 2002 o novo traçado foi apresentado como candidatura aos fundos da União Europeia.
O senhor ministro dos transportes tomou o assunto como pessoal e foi aprovada a candidatura.
O argumento de suporte era fortissimo: tratava-se de servir o aeroporto de Lisboa, mesmo que se ocultasse o facto de que por razões de segurança aérea e de ruido urbano já havia planos para deslocar o aeroporto para fora de Lisboa.
Mas isso não era problema para a capacidade de empreendimento dos planeadores: a estação de metro do aeroporto serviria a nova urbanização emergente.
O facto de os terrenos do aeroporto terem sido expropriados para utilização como serviço público, o que implicaria chamar os herdeiros dos expropriados para negociação do empreendimento, não parecia preocupar os planeadores.
Nestas pequenas coisas se vê a utilidade e a importancia dos grupos fechados com ramificações em todos os organismos.
O facto dos administradores do metropolitano, os titulares do ministério dos transportes e obras públicas e os funcionários da burocracia europeia pertencerem ao mesmo grupo político facilitou a aprovação da candidatura.
No entanto, devemos notar que a afirmação acima, de que são importantes os grupos fechados, é uma violação grosseira dos direitos dos cidadãos à diversidade de associação e à liberdade de participação em trabalhos para o bem comum ou, se não quisermos esta expressão de cariz talvez romântico, em trabalhos de interesse público.

Parenteses para fundamentar juridicamente a afirmação anterior:
(Artigo 48.º da Constituição da Republica Portuguesa - Participação na vida pública:
1. Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.

2. Todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre actos do Estado e demais entidades públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos.)

Então, por influencia do artigo 48, ou porque já há uns anos se tinha este procedimento no metropolitano
de Lisboa, o novo traçado circulou por todas as direções do metropolitano para recolha de sugestões e pareceres, baseados nas respetivas experiencias. 
O parecer foi simples de dar.
Propus pura e simplesmente a reprovação do projeto, atitude nada conciliatória depois de tão grande sucesso na aprovação da candidatura aos fundos.
Chamei a atenção para que os projetos de traçados de linhas de metro, por razões de economia de energia e de vida útil do material circulante e dos carris e não deveriam ter curvas com um raio tão apertado, não deveriam ter desníveis tão grandes entre as suas estações (porque a energia que se consegue regenerar nos declives pondo os motores a funcionar como geradores é sempre menor do que a energia necessária para vencer os desníveis da rampa correspondente; a estação Oriente encontra-se abaixo do nível do mar e a etação Aeroporto quase à cota 100).
Considerei ainda que os terrenos junto de Oriente são aluvionares, isto é, lodos de rio, que a construção de tuneis neste terrenos é mais dispendiosa, que era preciso suspender (escorar) o viaduto de Moscavide para fazer uma estação por baixo, o que é uma boa maneira de gastar mais dinheiro na construção, quer era preciso fazer o mesmo com os dois adutores de água a Lisboa.
Que passar pela Encarnação era passar por uma zona de moradias, pouco populosa, quando Sacavem, a urbanização da Portela, Prior Velho, carecem de modo ferroviário.
Que, se o objetivo era ligar o aeroporto a Oriente, então a história do aeroporto tinhaa solução.
Isto de se ignorar a história é muitas vezes uma das principais razões de se ecolher uma má solução.
A avenida de Berlim não se chama de Berlim por causa disso, foi uma coincidencia, mas quando o aeroporto foi construido, em 1940, a doca dos Olivais funcionava tambem como aeroporto para hidro-aviões.
Então, supondo que um cidadão precisava de fazer a viagem New-York - Berlim (atendendo à guerra, não podia ser um cidadão qualquer, mas as linhas civis funcionavam, às vezes) , a primeira parte fazia-se de hidro-avião via Açores até aos Olivais. Aqui o passageiro apanhava um autocarro que o deixava no aeroporto da Portela onde apanhava o avião para Berlim.
Que tem isto que ver com o novo traçado da linha do Oriente?
Tem que a estação do Oriente está mesmo ao lado da doca dos Olivais, e que, se o passageiro queria ir de modo ferroviário urbano daí até ao aeroporto, seria simples: em viaduto ao longo da avenida de Berlim, eventualmente enterrando na praça do aeroporto para diminuir o desnível. E prolongando até ao Campo Grande em viaduto adjacente à segunda circular. Claro que nada obrigava a que o serviço do aeroporto fosse feito pela linha pré-existente. A ideia de uma rede de metropolitano é, quando necessário servir dois pontos, fazer como na geometria, definir uma linha. É da correspondencia nos cruzamentos das linhas que se forma uma rede. Com a vantagem de, se houver uma perturbação numa linha, ser  possível encontrar um caminho alternativo que não prejudique os compromissos dos passageiros. Infelizmente os planeadores institucionais sempre tiveram tendencia para achar que a rede é um conjunto de linhas serpenteantes com vida autónoma, e que o ideal seria andar com os passageiros às voltas sem eles precisarem de mudar de comboio. Também infelizmente os planeadores foram criando nós de correspondencia com percursos enormes entre uma linha e outra, a pretexto de pôr lojas no caminho dos passageiros.
A construção em viaduto fica mais económica. Numa primeira fase, o material circulante pode ser ligeiro e, portanto, mais barato (por razões de segurança estrutural, os viadutos devem serr dimensionados para material pesado,  não tanto mais do que 13 toneladas por eixo). Podem ser utilizados elemento pré-fabricados, o que acelera a execução. Pode evitar-se a propagação do ruido para os moradores através de barreiras acústicas. Entroncando nesta linha poderia desenvolver-se uma rede de modo ferroviário ligeiro em viaduto servindo todo o eixo longitudinal da Alta de Lisboa.

Tudo isto fez parte do parecer que deixou os colegas do departamento financeiro e orçamental muito escandalizados comigo porque mudar agora de projeto seria perder os fundos. Mas bastou-lhes ignorar o parecer e deixar chegar o Outono desse ano de 2002 para considerar aprovado o traçado.
Abençoado país em que se escolhe uma má solução porque há fundos.
Abençoado país em que há fundos para uma má solução.

E assim passámos à fase seguinte, a dos projetos do túnel e das estações para aquele traçado, desenvolvidos pelos colegas da empresa filiada do Metropolitano vocacionada para isso.

Entretanto, a administração terminara o seu mandato e o ministério quis dar um sinal de renovação que apagasse na opinião pública a má impressão do desastre do Terreiro do Paço, nomeando como presidente um técnico de prestígio entre o próprio meio da engenharia civil.
Como se diz nas artes perfirmativas, faz sempre efeito uma tirada de moralização dos procedimentos, de melhoria da gestão dos dinheiros públicos. Complementando a ação do ministério existem por trás as auditorias do Tribunal de Contas, garantindo assim aos cidadãos o escrutínio da aplicação dos dinheiros.
Infelizmente, apesar desta estrutura institucional, estamos mais ou menos ao mesmo nível da teoria do pelourinho medieval. Servia o pelourinho para expôr os prevaricadores aos olhos da população. Mas quem definia quem era prevaricador era o juiz, e o juiz podia ser o bom juiz ou o mau juiz, como se vê no fresco de Monsaraz recebendo umas galinhas como prémio. Donde recuando mais uns séculos caimos no pensamento romano de Juvenal "quem guarda o guarda?". Deixem-me dizer que é necessária a existencia da dualidade de ação e de escrutínio, quem faz o projeto e quem o verifica, quem executa a obra e quem fiscaliza, quem é responsável pela obra, o metropolitano, e quem examina as contas , o Tribunal de contas.
É necessário que o guarda de Juvenal guarde e que tenha outro guarda a guardá-lo. É necessário que existam o juiz e o pelourinho.
Mas não é suficiente, como se verá a seguir.
Não basta haver um orgão institucional para a ação e outro orgão para o escrutínio.
Dezasete séculos depois de Juvenal a humanidade encontrou um método para tentar resolver este dilema. Ficou nos manuais de história conhecido como método científico. Sistematizado  por René Descartes mas já aplicado com o nascimento da academia britânica das ciências: tudo o que cada  membro descobrisse era obrigado a pôr em comum para que do conhecimento participado e inter-ativo pudesse haver progresso.
Porém, a dificuldade de apreensão e  de aplicação dos conceitos e a força passiva da burocracia institucionalizada impedem que se resolvam as questões com a ciência na equação.
De que serve a dualidade se quem decidiu e quem fez o projeto do traçado não quis estudar alternativas, e se quem fiscaliza a aplicação dos dinheiros não sabe como se faz um projeto, como se consideram as disciplinas técnicas que contribuem para ele?
A solução é mesmo científica. As escolas técnicas têm capacidade para dotar os seus licenciados (agora diz-se mestres) com as competências suficientes para resolver os problemas, mas não combate a sua inibição em integrara as disciplinas especializadas E as formas de organização institucionais ainda menos combatem essa inibição.
Fica assim o espaço aberto para quem fez carreira nos grupos de influencia.
Com todos os riscos que isso tem, de afastar as competencias técnicas dos territórios das resoluções.
Volto a dizer: a solução é, para além da dualidade de orgãos que se controlem mutuamente, o exercício das competências técnicas de acordo com o método científico.

Mas como se disse, o critério de escolha do presidente da administração pelo ministério foi o do prestígio junto dos orgãos da classe técnica.
A primeira escolha não aceitou porque se incompatibilizou imediatamente com o indigitado vogal do pelouro das finanças. Estava-se no período de encerramento do inquérito sobre o desastre do Terreiro do Paço e por isso o ministério tinha de harmonizar com todas as forças políticas os elementos da solução.
A segunda escolha formou par com novo indigitado pelo principal partido da oposição para o pelouro das finanças.
O novo presidente  iniciou a sua função moralizadora  com um discurso duro dirigido aos colegas dos projetos e das obras.
"Esta é uma casa inquinada por uma prosmicuidade entre quem faz os projetos e quem faz a fiscalização. Há leis contra isso. Esta é uma casa cheia de esquemas".
Imagino que estas frases, publicadas em jornais, satisfariam o apetite de pelourinho dos leitores e elevariam o presidente ao pedestal de justiceiro.
Mas para quem estava no  interior da casa foi apenas um insulto.
Provavelmente o presidente quereria referir-se a ofertas de alguns grandes empreiteiros a fiscais de obra e até a alguns técnicos. Mas como poderia ele provar fosse o que fosse se ninguem passa um recibo a dizer "declaro que recebi um mercedes por serviços indevidamente prestados para fechar uma receção provisória"? Nem os próprios colegas podiam provar. E os procedimentos formais de conferencia de medições e de faturas eram cumpridos. Ainda aqui, a unica garantia contra qualquer foma de corrupção é a formação moral dos atores.
Mas as grandes empresas são assim. A onda de emoção é absorvida e a estrutura move-se em função dos objetivos. Mal e descoordenadamente mas move-se.

Os projetos da obra do tunel e das estações foram-se desenvolvendo, cm todas as dificuldades geotécnicas da zona, e o presidente introduziu uma inovação no Metro. A verificação dos projetos seria feita por uma empresa do exterior. Era de facto a primeira vez que tal acontecia e a fundamentação foi a mesma: combater a promiscuidade com o empreiteiro e entre projetistas e fiscais.
Foi selecionado um destacado gabinete de engenharia  dirigido por um influente  membro dos orgãos da classe técnica.
Entretanto, desenrolavam-se, lentamente, os processos de expropriações, desde hortas com poços até campos de futebol e de ténis, cada um pondo mais um atraso na obra.
Dois anos passaram.
O gabinete de verificação fizera as suas revisões. O processo de aprovação ambiental tinha seguido os seus tramites. O concurso publico para a execução da obra foi lançado.

Foi então que o presidente a conheceu. Ela era a principal acionista de uma das empresas que concorria e destacava-se na análise dos pormenores dos projetos. Foi ela que chamou a atenção para o inconveniente do tunel passar demasiado perto das caves das moradias da Encarnação, gerando ruido e vibrações de incomodidade à passagem dos comboios.
Era muito dificil resistir aos seus encantos. Imagine-se uma top-model com o curso de engenharia civil e a capacidade de um guru da Harvard Businness para gerir uma reunião . Aliás, o pai, o  fundador da empresa, tinha-a mandado para uma pós-graduação em Harvard plena de sucesso. 
O presidente concordou com a argumentação. Muito recentemente tinham sido realizadas medições de vibrações e ruidos em casas próximas da rede em serviço, e os resultados tinham sido desastrosos. Tinham sido ultrapassados os valores normalizados como toleráveis. O presidente não queria novas situações dessas.
Deu instruções para os projetistas rebaixarem 8 metros a posição da estação Encarnação.

Protestei quando soube. Fiz uns pequenos cálculos com os custos adicionais de exploração devido ao maior consumo de energia elétrica na iluminação da futura estação, na ventilação, nas escadas mecânicas e elevadores, por ter mais 8 metros de profundidade. Juntei os consumos adicionais de energia de tração por aumento do desnível com a estação do Aeroporto.
Achei, por ser da competência dos colegas de engenharia civil, que não devia fazer as contas aos gastos adicionais da escavação e da construção, embora fosse uma conta simples multiplicar o volume correspondente aos 8 metros pelas poucas centenas de euros do custo unitário por metro cúbico.
Esforço inútil. A decisão estava tomada e os projetos foram alterados.

A empresa dela não ganhou o concurso, mas as moradias que tinha comprado antes do processo e onde tinha já instalado alguns serviços valorizaram-se. Podem agora ser demolidas e, no seu lugar, erguer blocos de habitação e escritórios com parques de estacionamento subterrâneo de grande profundidade.
A troco de mais umas despesas de exploração do metropolitano de Lisboa.



Dalila e Sansão no S.Carlos - Continuação, ou o problema da centralização

Dalila, sedutora, continua a tirar a força a Sansão. Certamente de acordo com as orientações do Sumo Sacerdote.
Em Março do ano passado protestei contra a demissão do anterior diretor do S.Carlos  pela senhora ministra da Cultura  (http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/03/dalila-no-scarlos.html).
Em Setembro tentei mostrar que a própria programação do S.Carlos para 2010-2011 era devida em parte ao anterior diretor e não parecia má   (http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/fotografia-vinha-no-oje-de-dia-16-de.html  ;  http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/senhora-muito-inspirada.html).
Tentei também contrariar o apoio que a senhora ministra encontra no meio musical português, apesar de ser reconhecido que o anterior diretor contratou cantores portgueses e que estes sempre tiveram dificuldade em arranjar contratos no S.Carlos. Lamentei ainda que o novo diretor do Opart (fusão do S.Carlos e da Companhia Nacional de Bailado) não revelasse que assuntos graves tinha para discutir com a senhora ministra. O secretismo mata-nos. Além de ser uma grosseira violação dos direitos do artigo 48º da Constituição da Republica Portuguesa. Mas admiti que a senhora ministra pudesse ter razão.
Hoje, dois dias depois da demissão do senhor diretor do Opart, que continua a dizer que só revela as razões da demissão, para alem da falta de condições, à senhora ministra, acho sinceramente que a senhora ministra não teve razão, e está a piorar o problema da Cultura.
Há aqui um problema de gestão.
O S.Carlos não é um clube de futebol para se demitir o diretor como se fosse um treinador.
E um teatro de ópera não deve estar fundido com uma companha de  bailado. Porquê? Porque a natureza estruturou-se assim. O rendimento otimo de uma unidade física segue mais ou menos uma curva de Gauss. Os rendimentos são decrescentes a partir da zona de rendimento ótimo. O desenvolvimento dos microprocessadores a partir dos anos 70 do século XX permitiu a inteligencia distribuida em qualquer sistema de processamento.
Quer seja um teatro de ópera quer seja uma empresa.
O segredo está em distribuir a inteligencia (pôr a ciência na equação, como costuma dizer o professor Carvalho Rodrigues), sem que nenhuma inteligência se considere melhor do que o conjunto das outras.
Era isso que o senhor diretor da Opart, agora demitido, devia saber quando aceitou o cargo.
Era isso que os estruturadores das empresas de capitais públicos deviam aplicar quando estruturam as emprsas. As estruturas clássicas em pirâmide e fluxo rígido da informação e dos comandos geram ineficiência e inibição. Foi também isso que Ricardo Pais explicou, que a gestão do S.João do Porto não deve estar misturada com a gestão do D.Maria de Lisboa. Que as economias que se podem fazer com a fusão tambem se podem fazer com os teatros separados.
A gestão da  manutenção do  material circulante não deve estar misturada com a gestão da manutenção das infraestruturas fixas, como se insiste, porque apesar do congelamento das expansões, há uma infinidade de trabalho de melhorias para fazer.
Mas parece dificil, o panorama da Cultura em Portugal continua sob fortes ameaças, apesar do estudo de Augusto Mateus.
É uma pena. Não conseguirmos erguer um debate ativo, eficiente e participado, sobre estas questões.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Lusitania hoje, 26 de janeiro de 2011

Com a devida vénia ao DN pelas notícias de hoje na Lusitânia e do mundo:

1 - A Lusitânia e o melhor dos lusitanos - Aconteceu o mesmo à Lusitania, associação inter-municipal para a promoção da região de Viseu-Guarda-Coimbra, que já tinha acontecido à agência para a promoção da Baixa-Chiado. Os lusitanos são assim, têm muita dificuldade em governar-se. É uma idiossincracia. Aparecem sempre uns lusitanos que acham que sabem como as coisas devem ser feitas. Não têm dúvidas e fazem uns ares muito sérios de quem não admite contrariedades. Nós lusitanos somos assim, temos dificuldade em ler o livro da Sabedoria das Multidões, o do trabalho em equipa com cada membro do grupo a pensar pela sua cabeça. Acreditamos em poções mágicas, em feiticeiros e em Asterixes. Não conseguimos interpretar o enunciado do problema e ouvimos pouco o que alguns lusitanos timidamente argumentam. A Lusitania vai ser extinta, depois de terem desaparecido uns milhões de euros e de não terem resultado os projetos bonitos e virtuais que foram aplaudidos há uns anos pela inovação e criatividade (Viseu digital, Museus virtuais, desenvolvimento sustentável, Dão digital, Prevenção florestal). Refiro-me à Lusitania agência inter-municipal. Os representantes dos vários municipios não se entenderam. Já dizia a minha professora de instrução primária. Os lusitanos sentavam-se à porta das cabanas e perguntavam a quem passava como se resolvia o problema; o mal não estava no método, porque é uma prospeção de dados; o problema é que quem respondia não dispunha de dados suficientes para a resposta e as respostas não eram debatidas entre si; faltava a todos o método científico.
2 - Ainda os blindados - agora parece decidido pelo senhor ministro, depois de rescindido o contrato (coisa estranha, parece-me que não há fundamento para a rescisão), que os dois blindados são para serem postos ao serviço; caso típico da idiossincracia lusitana, rescindir mas só parte; mais do que o caso dos submarinos alemães, que seguem mais o roteiro internacional do financiamento pela grande empresa alemã de consultores ou avaliadores de concursos para uma decisão favorável para ela; não é uma acusação, a Siemens, por exemplo, foi condenada por isso em 2000, nos USA; no ano seguinte o governo alemão fez aprovar legislação contra esses financiamentos, mas os representantes do fabricante dos submarinos talvez não tenham sido bem informados sobre a nova legislação.
3 - O segundo sputnik - que ternura a expressão encontrada por Obama para mobilizar os seus eleitores; assim como em 1957 o Sputnik estimulou o desenvolvimento da astronáutica dos USA, assim agora os USA devem investir mais na educação e na ciência. Cheguei a pensar que Obama estava a pensar numa nova URSS, as afinal a ideia é competirem melhor com os outros países e poderem vencê-los. Mas porque hão-de os USA quererem ser sempre os vencedores? Não podem ficar ex-aequo? Lembro-me de quando era miúdo que  havia muitos miúdos assim, a achar que tinham de ficar sempre em primeiro.
4 - Berlusconi - Talvez que a unica maneira de resolver este problema (que não seja esperar que Jupiter se lembre de chamar o alegre primeiro-ministro) seja a esquerda compreender que não nos devemos levar muito a sério. Ninguém nem nada merece tanta seriedade. O problema de Berlusconi não é ter dormido com uma moça de vida fácil de 17 anos. Se fosse esse o problema, a esquerda italiana quando esteve no poder teria legislado de modo a regular a industria do sexo, a regular o mercado do emprego  e a integração dos imigrantes na sociedade. Coisa que não fez. Então o problema de Berlusconi é o que Massimo Mateo, diretor da orquestra Divino Sospiro, disse a propósito da ópera Antígono, que Berlusconi é a anti-cultura mas ainda bem que a Itália tem cultura para onde as pessoas se podem voltar. O problema de Berlusconi é que não tem interesse nenhum em que a distribuição dos rendimentos da população seja mais equilibrada, que era por que a esquerda devia lutar; mas a televisão italiana fala mais na moça marroquina e na conselheira regional da Lombardia, antiga higienista oral de Berlusconi, Nicole Minetti.
Allora, me pare che la sinistra italiana, si veramente vuole il bene della gente, cosa che dovete fare è trovare un politico umanista di grande cultura e una consigliere per economie chiamata, da esempio, Maria Pregatore. Adesso si può battere l'avversario con le loro stesse armi.
5 - Forum de Davos -  alguns exitos passados: contribuição para a declaração greco-turca de 1988, o encontro Frederik de Klerk - Mandela em 1992, o acordo Simon Peres-Arafat  em 1994.  Sem querer menosprezar outras preocupações dos grandes pensadores (tema deste ano: normalização mundial), talvez que pudessem dar mais atenção à conjetura de Parta Daguspta (ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=dasgupta ) , que é a de, no fundo dos grandes fracassos da economia mundial, estar a grandeza do que falta ainda às pessoas por esse mundo fora aprender para que  se entendam entre si.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Discordo III - o investimento estrangeiro e as exportações

Discordo quando dizem que neste país ninguém produz, ninguem trabalha, ninguém exporta, ninguem tem competitividade, ninguem consegue convencer os investidores estrangeiros.

E discordo com os seguintes fundamentos:

1 - Informação do Boletim de Inverno do Banco de Portugal de 11 de janeiro de 2011 - o crescimento das exportações em 2010 foi de 9%; prevê-se para 2011 e 2012 um crescimento anual da ordem de 6%; como é compreensível, prevê-se para 2011 uma contração da procura interna, da ordem de 3,6%, que sucede a um crescimento de 0,5 % em 2010. Variações portanto favoráveis para o PIB (exportações a crescer e importaões a diminuir)

2 -  Informação da AICEP (agencia para o investimento e comercio externo) através de Basílio Horta em 23 de janeiro de 2011  - "O investimento estrangeiro em Portugal cresceu 17,6%, atingindo, segundo as Nações Unidas, três mil milhões de euros em 2010. Pelo contrário, o investimento estrangeiro na Europa caiu 22,2%, com a Irlanda a registar uma descida de 66,3% e a Grécia de 38%"
http://www.dn.pt/bolsa/interior.aspx?content_id=1764033

3 - informações várias sobre o crescimento das exportações de: mobiliário (http://www.dn.pt/bolsa/interior.aspx?content_id=1758826), de torres eólicas (http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1758272&utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+DN-Economia+(DN+-+Economia , de sapatos (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=442865),  de vinhos  (http://article.wn.com/view/2011/01/13/exporta_es_de_vinhos_alentejanos_para_o_brasil_cresceram_48/)

Salvo melhor opinião, estes números deveriam ter sido amplamente debatidos à vista dos senhores eleitores telespetadores ao longo da campanha eleitoral, primeiro, para contrariar a ideia da necessidade de salvadores da pátria, que a pátria sabe tratar de si própria; segundo, para contrariar a ideia de que o fator trabalho contribui pouco para o rendimento nacional (tem é uma quota pequena na sua distribuição).
Podia ser que os cidadãos e as cidadãs não andassem tão preocupados com a problemática do "nervosismo dos mercados".
Assim como foi, dá-me ideia de que houve manipulação sob a forma de ocultação.

Não pretendo dizer que o mérito seja do governo ou de "personalidades", embora Basilio Horta e os seus colaboradores mereçam parabens pelo seu trabalho; nem que os resultados são suficientes, que não são; e o mérito é principalmente de quem trabalha nas respetivas empresas.

Pretendo apenas dizer que este é um dos caminhos; se quisermos pôr na equação a ciência ou, pelo menos, a capacidade de interpretação de factos e números.