terça-feira, 15 de março de 2011

Discussão publica do novo mapa de freguesias de Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa teve a amabilidade de enviar aos seus municipes um folheto com um questionário pedindo a opinião sobre o novo mapa de freguesias da cidade, até ao dia 22 de março de 2011.
Disponibilizou igualmente o envio da opinião através de:






Tomei a liberdade de enviar o seguinte parecer:


Assunto: opinião sobre o novo mapa de freguesias de Lisboa

Exmos Senhores

Em primeiro lugar agradeço a  consulta pública em curso sobre este tema.

É a seguinte  minha opinião:

1 – A ideia de redução do número de freguesias de Lisboa parece correta. No entanto,  ela não pode ser tomada como panaceia universal, alem de que os seus motivos e objetivos nunca deverão ser o de simples economia, visto que muitas vezes a economia numa área significa aumento de despesas noutra área. Isso verifica-se por exemplo se a concentração de serviços obrigar a maior numero de deslocações por se ter diminuído o fator de proximidade relativamente à sede da junta, ou por se ter aumentado o numero ou a qualificação dos funcionários, ou por se ter aumentado a complexidade e extensão das funções devido à concentração. Julgo que, a verificar-se a atribuição das competências publicitadas, isso induziria um aumento de custos para equipar cada freguesia com os meios necessários para executar essas competências, por exemplo, as de construção, manutenção e gestão.
2 – Julgo que a concentração em menor numero de freguesias, contrariamente ao anunciado, dificultará a proximidade aos habitantes  dos eleitos e funcionários da junta. Terão de conhecer mais casos e, pior, terão de analisar maior diversidade de problemas. Em termos de proximidade ficar-se-á, nesta perspetiva, pior
3 – A motivação da redução do numero de freguesias não deveria nunca ser a redução do numero de habitantes, uma vez que a cidade se encontra em acelerado processo de desertificação e degradação de áreas habitacionais
4 - Considerando o exposto em 1 e 2 , concordo com a redução do número de freguesias na Baixa (nova proposta 10) com a condição de se salvaguardarem as especificidades ou tradições locais (pelo que não parece ser possível grande economia pelo facto de se fundirem as freguesias – as economias globais serão sempre dependentes de uma correta execução de procedimentos, o que só será possível com a chamada mudança de mentalidades ou, mais tecnicamente, mudando os métodos de organizaão e de tomada de decisões).  Concordo com uma redução menos acentuada nas áreas das novas propostas 13 e 16  (idem). Discordo da sua redução na restante cidade.
5 – Considerando o exposto em 3, discordo da apresentação como prioritária da ação de redução do numero de freguesias, quando a prioridade deveria ser dada às medidas de inversão da desertificação da cidade (nomeadamente planos de reabilitação estrutural dos edificios com emparcelamento de números de matriz predial e construção de parques de estacionamento integrados nos novos prédios – chamo a atenção de que os respetivos investimentos podem ser financiados com fundos da EU; o motivo do emparcelamento consiste nas pequenas áreas por sala ou quarto disponíveis em cada fogo a reabilitar e na inexistência de lugares de estacionamento automóvel integrados). Para a elaboração dos planos de reabilitação deveriam ser chamados os alunos e os recem licenciados das universidades de arquitetura e engenharia
6 – Considerando ainda o exposto em 3 e a necessidade de otimizar a dimensão do município para sua rentabilização, pareceria ser prioritário, e com grau elevado de prioridade, o alargamento dos limites do município na zona da Expo, criando-se uma nova freguesia em toda a zona da Expo. Este objetivo deveria ser uma estratégia não só municipal, como nacional.
7 – O alargamento dos limites do município de Lisboa deveria ser uma estratégia nacional e deveria ser prioritário, do ponto de vista da CML, relativamente à redução do numero de freguesias. Uma economia nacional necessita de uma área metropolitana como motor económico e uma área metropolitana necessita de uma gestão integrada em termos de transportes, de localização de industrias manufatureiras, de serviços, de distribuição comercial e de habitação (o movimento de criação de novos municípios é claramente contrário à racionalização do ordenamento do território e favorece o fenómeno do caciquismo urbano e rural; foi correta a fusão dos municípios de Lisboa e de Belém no fim do século XIX; parecerá menos correta a criação do município de Odivelas)
8 – Como complemento do exposto em 7 requer-se uma estratégia de ordenamento do território de ambos os lados do Tejo, que tenda para transformar a cidade num agregado de municípios, a exemplo de Londres, Paris e Budapeste, juntando os primitivos municípios de Lisboa, Almada, Barreiro e restantes da área metropolitana. Nesta perspetiva, considerando a necessidade de conservar a proximidade existente entre freguesias e habitantes, parece-me errada a estratégia de redução “cega” do número de freguesias (isto é, o facto de se justificar a redução do numero de concelhos não significa que o numero de freguesias deva ser reduzido; deverá sim ser incentivada a fixação da população nas freguesias desertificadas ).
9 – Salvo melhor opinião, se a CML sente dificuldades em termos de excesso de centralização, julgo que a solução adequada seria a reunir as competências agora anunciadas para tornar as freguesias mais fortes, em divisões geográficas da própria CML com partilha das sinergias comuns e em rede informática, ou , em alternativa, racionalizar o organigrama dos serviços técnicos e administrativos da CML, ligados também em rede informática. Como já afirmado em  1, dotar as 24 novas freguesias de recursos humanos e materiais ou de capacidade financeira para adjudicar ao exterior, poderá conduzir, com elevada probabilidade, a um aumento de encargos.

Comentário final:

Embora mais adequado como comentário ao plano diretor municipal, por envolver planos de ação que não são possíveis neste momento devido aos constrangimentos financeiros (embora algumas ações possam ser desenvolvidas com o apoio de fundos de coesão da EU), junto as as seguintes observações:
1 – não é sustentável em termos de respeito pela lei do ruído e das normas de segurança a manutenção de um aeroporto dentro dos limites da cidade, pelo que o estudo do plano de ordenamento dos terrenos e da sua integração na rede de transportes deveria ser  desde já iniciado
2 – o plano do nó de Alcântara deveria ser reformulado de modo a contemplar:
2.1 - a saída do terminal de contentores para o novo terminal da Trafaria/fecho da Golada,
2.2 - a reformulação da rede de transportes evitando o enterramento das estações suburbanas e do metropolitano,
2.3 - o projeto de um sistema de retenção e prevenção de inundações no vale de Alcantara
3 – não obstante as obras em curso no Terreiro do Paço e nas Ribeira das Naus, a cidade necessita de uma ligação rodoviária que faça o “by-pass” do Terreiro do Paço, conforme contemplado em anteriores planos diretores (incluindo o projeto do túnel rodoviário que motivou a construção mais profunda do túnel de metropolitano) . Seria por isso altamente conveniente o estudo de alternativas possíveis, ainda que contrariando anterior parecer do IGESPAR que se opõs à “conquista de terreno ao rio”, o que viabilizaria esse “by-pass” em termos maias económicos do que um tunel
4 – não é possível ordenar o território de um município ou de uma área metropolitana sem integrar as redes de transporte coletivos. Neste aspeto, Lisboa teria a ganhar em:
4.1 – criar um operador único, a exemplo de Paris, Bruxelas, Barcelona, Milão
4.2 – reformular o plano de expansão da rede de metropolitano, que padece da intenção de uma linha circular de dispendiosa execução no aproveitamento das linhas existentes em vez de construir novos troços com critérios de construção económica, como seja em viaduto
4.3 – incentivar a construção de parques de estacionamento do tipo “park and ride” com ligação a linhas de metro, à entrada da cidade (o exemplo mais evidente será a construção de um parque deste tipo junto das Amoreiras, prolongando a linha vermelha do metro até lá)
4.4 – fiscalizar severamente o estacionamento indevido, especialmente nos passeios e na obstrução aos veículos de transporte coletivo
4.5 – preparar um plano progressivo de taxação da entrada de veículos na cidade, mantendo a coordenação com as alternativas de transporte coletivo


Com os melhores cumprimentos

 
Munícipe ID 231 131


Embora sem esperança da eficácia da participação dos cidadãos numa estrutura municipal que parece padecer de graves carencias, nomeadamente estratégias para inverter a tendencia para a desertificação, sugiro aos leitores que enviem as suas opiniões até ao dia 22.



segunda-feira, 14 de março de 2011

Rodoviarium XXIV - os carros de sonho e o limite de 110 km/h

É muito dificil que as pessoas acreditem, mas é verdade.
A força de resistencia de deslocação de um automóvel aumenta com o quadrado da velocidade.
Circular a uma velocidade máxima de 110 km/h em vez de o fazer a 140 km/h significa uma economia de combustível da ordem de 20% (um consumo de 7 l/100 km passa para 5,6 l/100 km).
É por isso que na California o limite de velocidade nas auto-estradas é de 90 km/h.
Mas à boa maneira portuguesa, os condutores portugueses acham-se superiores a essas ninharias.
Pena aparecer um profissional (Fernando Alonso) a dizer que a essa velocidade adormece.
Pena, porque se fosse verdade estaria a confessar que não tem condições psicotécnicas para conduzir uma máquina em condições adversas.
Tornam-se as viagens para o Algarve um bocadinho aborrecidas, é verdade, em vez de 2 horas e 10 minutos de marcha mais 30 minutos para parar na área de serviço, teremos 2 horas e 50 minutos de marcha mais os 30 minutos da paragem. São mais 40 minutos. Mesmo assim, o transporte ferroviário ainda não é competitivo em termos de tempo. Só em termo de consumo específico e emissão de CO2.
Pede-se portanto compreensão, sugerindo-se que se pense na questão em termos globais, como quem tem de gerir um sistema completo de transportes e precisa de ver onde pode economizar.



Entretanto, em plena crise internacional, os fabricantes continuam a projetar "carros de sonho". A desculpa é a de que as inovações que neles aplicam são depois estendidas aos automóveis de grande série. Mas a verdde é que o desenvolvimento do projeto dum carro de 500 ou 700 cavalos exige investimentos vultuosissimos, quanto mais não seja por uma questão de segurança. Dado  o preço dum automóvel de sonho, o numero de unidades vendidas, a duração efémera do modelo ("marketing oblige") e a concorrencia de outros fabricantes, o projeto não pode ser rentável. Logo, teremos de concluir que os compradores dos automóveis mais baratos estão a subsidiar os compradores dos "carros de sonho". Salvo melhor opinião, claro.

A reciclagem

Fez-me lembrar Fernando Pessa.
Numa loja de vestuário feminino anuncia-se que na compra de um soutien usado se desconta 3 euros no preço do novo e o antigo vai para reciclagem, para utilização em paineis isoladores e de absorção acustica.
E esta hein? como diria Fernando Pessa.
Acusa-se a industria da moda de frivolidade, ligeireza, apelo ao consumismo e excesso de produção só escoável através dos procedimentos do seu marketing e afinal, para alem de exportar (a acreditar na semana da moda no Pátio da Galé) também contribuem para o combate ao desperdício energético.
Aplausos.


domingo, 13 de março de 2011

O discurso do presidente e a manif

O presidente pigarreava baixinho e nervosamente enquanto se dirigia para o estudio da televisão.
Rememoriava todos os truques que a conhecida atriz de teatro, professora de dicção no Conservatório, lhe ensinara.
Mas isso não o tranquilizava, nem a confiança que tinha nos seus conselheiros e no seu redator e a certeza de que aquele discurso tinha sido por eles solidamente fundamentado.
Desdobrou o papel com o discurso, sem conseguir erguer o olhar para a câmara.
Os telespetadores, de que cerca de um quarto o tinha eleito havia poucos meses, aguardavam a comunicação freneticamente anunciada pelos serviços da presidencia.
Quando finalmente olhou a câmara, o discurso saiu frouxo e aos solavancos de uma gaguez contrastante com o brilho intelectual com que habitualmente defendia as suas ideias, com a tranquilidade com que analisava os problemas, com o espírito de tolerancia e de abertura às correntes mais progressistas da sociedade, com a cultura profunda que exibia, desde a literatura inglesa do século XVI à literatura alemã  do século XX.
O presidente acabou como pôde o seu discurso, amarrotou o papel e enfiou-o no bolso.
Os assistentes aplaudiram, mas o presidente sabia que era por simpatia.
Tinha acabado de demitir o governo.
Aos solavancos.
A situação não podia continuar assim.
A maneira de discursar, que a falta de governo não era a primeira preocupação.
Tinha de encontrar um terapeuta da fala para que o discurso de demissão do próximo governo pudesse vir a ser mais assertivo; o discurso, que o governo talvez não viesse a ser assertivo.
Os telespetadores reagiram como habitualmente.
Um quarto aplaudiu, o outro quarto decidiu ou confirmou a sua intenção de participar no dia seguinte na manifestação de protesto, contra tudo e contra todos, que tinha sido marcada em várias cidades do país pelo mesmo motivo por que o presidente tinha demitido o governo, e a outra metade absteve-se, isto é, mudou para os canais de entretenimento.
Mas é capaz de ter muito interesse reparar bem no que foi dito no dia seguinte.
Nos jornais, nos debates televisivos, na tal manifestação multi-cidades.
Vou tentar reproduzir algumas das opiniões que foram expressas.
No editorial de um jornal, o seu diretor chamou ao presidente desonesto (intelectualmente, claro, para evitar um processo por difamação ou insinuação de mais valias apropriadas por informação assimétrica). Que um professor daquela sorte (estou parafraseando o Barbeiro de Sevilha) não podia omitir a importancia que os especuladores financeiros do Lehman Bros e do Merryl Linch, e depois os especuladores das seguradoras e a venda das suas obrigações colaterais,  tiveram na crise internacional e na repercussão no nosso país. Nem podia propagandear soluções de privatização liberalizantes porque metade dos eleitores não costumava votar em programas políticos privatizantes.

Na manifestação do Porto, a senhora disse para a entrevistadora: estou a assistir ao desmoronar da educação depois de ter sido professora durante 33 anos, só posso apoiar o protesto dos jovens. E logo a seguir uma jovem disse que somos capazes, se fomos capazes de fazer o 25 de Abril, ela não, que ainda não tinha nascido, tambem seremos capazes de trabalhar todos num programa coletivo, com maior equilibrio na distribuição dos esforços e dos rendimentos, para aumentar a produção e sair da crise  (talvez de destacar este fenómeno: o movimento das forças armadas começou por protestar ao nivel de condições de trabalho e, de repente, Melo Antunes redige um programa de democratização e reorganização social e politica, de coexistencia de um setor publico e um setor privado, que poderá ter sido uma das principais razões do triunfo do movimento) .


Nota: manifestação de professores no Campo Pequeno; o cartaz significa que as aulas de EVT (fusão da Educação visual e trabalhos manuais) só são produtivas se tiverem dois professores

Um manifestante de Coimbra, licenciado em história da ciência portuguesa e mestrando em história do ensino da Física na Universidade de Coimbra no ultimo quartel do século XIX, declarou que o presidente, com aquele discurso a querer colar-se à juventude com um programa de privatizações, era como a universidade de Coimbra antes de ter aberto a sua faculdade de Engenharia, que não era uma tradição, era uma infeção. Mas, para que não ficasse a ideia de que a manifestação elegia bodes expiatórios, logo o manifestante do lado glosou as palavras do primeiro ministro demitido, que tambem o compreendia, às suas mentiras e aos seus movimentos telecomandados da praça de Potsdam.
Na manifestação de Lisboa, um jovem de bigode e pera, escondido num hábito franciscano, opinava que basta de professores de economia a pregarem a insustentabilidade do estado social, que na escandinavia está provado que é sustentável, e terminava com um refrão que repetia incessantemente em alta grita, para desespero da reporter, que o que é preciso é liberdade, pá, liberdade, pá.

Um comentador televisivo, provavelmente por ter sido vitima de acidente neuronal, mudou bruscamente de opinião a meio da entrevista, perante o espanto da entrevistadora que nunca tal tinha visto, e afirmou que, se a União Europeia não fornecesse imediatamente um gabinete de economistas para gerir a nossa crise e se o BCE não fornecesse empréstimos a juros baixos, o país devia sair imediatamente da união monetária e desvalorizar o novo escudo. Questionado sobre a impossibilidade do país sobreviver isolado, o comentador deu a solução: equipas técnicas escandinavas, alemãs ou holandesas de apoio nas fábricas e empresas, a exemplo do gabinete de economistas para orientar o governo, venda da fábrica da Auto Europa aos indianos da Tata,  nacionalização das minas de lítio na Beira Baixa para venda do lítio aos fabricantes de baterias para automóveis elétricos, telemóveis e ipads, a entrada pela mão do Brasil no Mercosul, a negociação de uma parceria com Moçambique para cultivo da jojofa para produção de combustível alternativo ao petróleo, e, se Angola tivesse finalmente um governo saído de eleições fiscalizadas internacionalmente, a negociação de uma parceria para construção de blocos habitacionais e de uma rede de metropolitano em Luanda. Toda a mão de obra atualmente ocupada a vender e manter os Mercedes, os Volkswagen, os Audi, os Opel e os BMW deveria ser reconvertida em mecânicos de manutenção de automóveis antigos, de modo que os automóveis dessas marcas, que para não aumentar o endividamento nunca mais podiam ser vendidos em Portugal,  pudessem circular ainda durante mais 50 anos, como se vê por exemplo em Cuba com os Chevrolet dos anos 50 do século XX.
O destacado jurista, que costumava explicar ao presidente por onde passava a ténue fronteira, entre a constitucionalidade e a inconstitucionalidade dum decreto, atormentou-se com a dialetica do presidente, por não gostar da ideia dialetica, capaz, o presidente, de simultaneamente pregar a estabilidade governativa e a instabilidade governativa; talvez aflito por a realidade dos juros não se render à sua própria condição de presidente estável conforme tinha insinuado na sua campanha eleitoral.
A cidadã anónima, apanhada pela entrevistadora numa rua da capital, respondeu que a saída para a crise era a solução à islandesa, em que o primeiro ministro é uma mulher (o que está de acordo com os resultados do PISA por esse mundo fora, em que as raparigas ficaram sempre à frente dos rapazes na capacidade de interpretação dos factos e na gestão dos recursos) e em que se acabou com  a moda das privatizações, depois de todos os cidadãos e cidadãs terem sido informados do papel relevante que a privatização dos três principais bancos islandeses em 2000 teve na falencia de 2008, e do papel que a privatização das empresas de energia e mineiras teve na desertificação das zonas interiores (sem acabar com o setor privado, evidentemente, que para cada caso há uma solução; não há teoremas universais).
O sociólogo chamado a pronunciar-se sobre o fenómeno no fim do noticiário da hora do jantar, citou:
- o prémio Nobel James Buchanan e as suas teorias da escolha pública, a propósito da opção de uns pela votação em partidos políticos, e de outros pela abstenção, e de outros por movimentos cívicos, a que o presidente chamou "sobressaltos cívicos", como se fosse uma perturbação não reprodutível;
- Mark Kelman e o seu "Skeptical look at the Theoretical and empirical practice of the public choice movement";
- a experiencia da "Convenção das questões nacionais" de Fishkin, descrita em "The voice of the people; Public opinion and democracy", ed.Universidade de Yale, em que uns dias antes das eleições, nos USA, são realizadas reuniões por todo o país entre uma amostragem de eleitores, divididos em grupos que apresentam as suas conclusões aos coordenadores, que as sistematizam; as sessões finais são transmitidas pela televisão.
Pode ser que seja o caminho a seguir, acabando com o secretismo dos governantes, dos empresários, dos partidos politicos, dos presidentes de câmaras, dos gestores das empresas públicas, das direções gerais... pelo menos de alguns ou algumas.
Aguardam-se as sugestões pedidas e a apresentar pela organização da manifestação da geração à rasca.
Nunca se sabe.



Referencias:
- O discurso do rei, filme de Tom Hooper
- Reportagens da SIC Noticias e da TVI 24
- Editoriais, comentários e entrevistas do DN
- Citações bibliográficas do último capítulo da Sabedoria das Multidões, de James Surowiecky

Goya e Jorge de Sena - Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

sábado, 12 de março de 2011

O sismo no Japão de 11 de Março de 2011

A impotencia perante o desastre que atingiu os japoneses leva-nos a sentir-nos solidários com eles.
Devemos à engenharia japonesa o conhecimento avançado sobre as técnicas de construção anti-sísmica de tuneis em terrenos adversos, as técnicas contra a "liquefação" dos solos.
Embora não tivessem estado diretamente presentes nas obras de reforço do tunel acidentado do Terreiro do Paço, os técnicos portugueses do IST e do LNEC que estudaram e executaram o tratamento dos solos beneficiaram da experiencia japonesa.
Ente as ilhas do Japão existem tuneis. O método construtivo de cada um deles dependeu da natureza dos solos, que varia de um para outro. Por exemplo, a percentagem de areia num terreno é um dos indicadores utilizados para a escolha do método.
Há uns anos, um sismo no Japão derrubou viadutos e uma estação de metro colapsou; a liquefação dos solos derrubou edifícios intactos. Os técnicos estudaram as causas e as circunstancias e executaram as soluções.
No desastre de dia 11 de Março as construções de betão armado aguentaram os sismos (infelizmente, a central nuclear afetada não beneficiou dos progressos técnicos porque foi construida há cerca de 40 anos), mas o maremoto foi superior às defesas construidas.
O epicentro foi a cerca de 120 km e à profundidade de 24 km.
A onda atingiu a costa provavelmente em 10 minutos, sem tempo para as pessoas serem avisadas.
Junto algumas imagens em que se podem ver molhes de proteção de zonas habitadas junto da costa.








Junto do aeroporto atingido, uma duna continua, do tipo da nossa ria Formosa, pareceria assegurar a proteção.


É altamente provável que a engenharia japonesa reanalise as defesas contra maremotos e disso todos nós beneficiaremos.
Existe ainda a esperança de que seja possivel detetar as condições de ocorrencia de sismos através do controle dos deslocamento das placas tectónicas.
Continuo a achar que o sistema de boias é muito util para grandes distancias. Neste caso, dada a proximidade, parecerá que qualquer sistema de alarme não será totalmente eficaz. Dados os custos elevados do sistema de boias e a exposição ao vandalismo, continuo a pensar que uma ligação direta à polícia marítima do sistema meteorológico detetor de sismos será a solução imediata a adotar em Portugal.
Depois, haveria que divulgar os estudos já executados pelos investigadores que se dedicam a estes assuntos (e que já estudaram, por exemplo, o risco do desmoronamneto de encostas nas ilhas Canárias).
Também era importante que os estudos de vulnerabilidade a sismos e maremotos e a definição das zonas de inundação fossem divulgados, aprofundados e executadas as recomendações.
Uma das principais é a dificuldade portuguesa de coordenação e de organização das equipas de trabalho (na verdade, são envolvidas muitas organizações, como as camaras municipais, as administrações das bacias hidrográficas,os seviços da proteção civil, a Marinha e o Instituto Hidrográfico, os bombeiros...mas se não se conseguiu ainda a cobertura por radar da costa portuguesa, não podemos admirar-nos de existir esta flaha nos planos de vulnerbilidade das zonas ribeirinhas).
Igualmente seria interessante saber como está em Portugal a aplicação da resolução do parlamento europeu sobre prevenção de catástrofes naturais. Ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/analise-e-prevencao-de-riscos-de.html

Um problema concreto, já aqui falado neste blogue, é até que ponto o fecho da Golada poderia proteger contra um maremoto com origem na faixa de Gorringue. Ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/04/lamentando-aborrecer-os-leitores-e.html

Enfim, temos sempre a desculpa de não termos dinheiro.
Mas como diz o cronista do DN de hoje, dia 12 de Março, a verdade é que os portugueses não tratam do seu jardim como deve ser, para tentar ao menos minimizar as consequencias dos desastre naturais.

Metade, por Oswaldo Montenegro

De repente, a seguir a um noticiário e antes de mais uma transmissão em direto da manifestação de protesto das gerações à rasca, o canal de televisão passou a Metade, de Oswaldo Montenegro.
Existe ainda esperança, quando a Poesia se espalha.




Metade

Oswaldo Montenegro
Composição: Oswaldo Montenegro


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Ver em:



quinta-feira, 10 de março de 2011

O tunel irreversivel

Mais um filme de terror.
Felizmente sem vitimas mas a fazer lembrar o filme Irreversivel, com Monica Belluci.
Trata-se do tunel pedonal sob a Av.Gulbenkian, ligando a zona da estação de Campolide ao
bairro de Campolide.
Exemplo de infraestrutura corretamente projetada do ponto de vista topológico, junto da paragem de autocarros (estranho, não haver uma estação de metro em Campolide) mas um erro irreversivel enquanto fonte de criminalidade, como demonstra o filme com Monica Belluci.
Mais acima, na mesma avenida, está a solução correta, uma passagem aérea pedonal,pré-fabricada.
Até existe capacidade em Portugal para o seu fabrico em condições de vantagem e como bem transacionável (que se pode vender ao exterior ou que substitui importações).
Mas as irreversabilidades à portuguesa são um problema grave.
Profundo e persistente.

Mini ensaio em forma de hipérbole - as desigualdades

Não tem de haver uma explicação lógica.
Pode ser que a lógica seja uma abstração que distorce a realidade e as relações entre causas e efeitos e se enrede sem solução nas circunstancias dos eventos.
O caso é que o coeficiente de Gini continua a crescer, aqui e além.
A desigualdade de circunstancias e de resultados é grande.
Por exemplo, na guerra da Bósnia acontecia, em simultaneidade, um concerto sinfónico em Serajevo e  o bombardeamento da ponte de Mostar.
Enquanto Napoleão agredia os povos da Europa (embora paradoxalmente lhes oferecesse o código civil libertador), Beethoven apresentava as suas sinfonias no Musicverein, por baixo do qual passam agora composições do metropolitano em leito de via especialmente tratado, enquanto de forma diversa vizinhos de outros metropolitanos se queixam das vibrações induzidas.
Nos países escandinavos vive-se em paz (com alguns sobressaltos, mas predominando o conceito de paz e de segurança social, nos termos do artigo 22 da declaração universal dos direitos humanos, pelo menos por enquanto), e em paises mediterrânicos não.
Nós por cá, nem todos bem.
Há uns de nós recebendo razoáveis rendimentos e outros não, sem que a qualidade ou a quantidade do que cada um produziu tenha obrigatoriamente que ver com a quantidade de rendimento recebida.
Já se fazem manifestações por causa disso.
Dizem os que gostam de se ver na televisão ou de se ler nos jornais, que são as coisas a funcionar a duas velocidades e que isso não pode ser.
Mais uma metáfora.
Ninguém ligou a quem avisou quando foram tomadas as medidas de desregulamentação da economia.
Que se vivia melhor em economia de mercado, foi a proposta de quem agora volta a propor o mesmo (valha a verdade que legitimamente, porque se os manifestantes que se manifestam agora, a 12 de março, tivessem votado nas ultimas eleições presidenciais para sufragar os mecanismos de garantia de cumprimento do artigo 23 da declaração universal dos direitos humanos, o do direito ao trabalho, duvido muito que o senhor presidente da republica portuguesa tivesse recolhido o numero de votos suficiente para a sua eleição, mas não devemos fazer ficção histórica).

Então a explicação, ou a hipótese, apenas isso, uma entre entre infinitas hipóteses, é que vivemos na beira enlameada de uma poça de água estagnada e um deus criança entretem-se acocorado a vergastar as formigas que nós somos, a jogar-lhes em cima a água suja, a pisá-las, e sendo muitas as formigas, há sempre algumas que estão bem.
O deus criança açula uns contra os outros, pôs-lhes cérebros supostamente racionais apenas para que uns possam deduzir raciocínios lógicos de que a culpa é dos outros, mas estes outros também têm os mesmos cérebros de ilusão e também culpam precisamente do mesmo aqueles uns.
Ou nem sequer pôs cérebros ou cortexes novos, foi por estouvadice e desatenção que deixou perder genes aos organismos antecessores dos homens-formigas na escala da evolução, por exemplo os genes inibidores do crescimento das células e como consequencia os neurónios desenvolveram-se para além do razoável, e divertiu-se ainda a limitar os comportamentos poligâmicos.
De vez em quando, a mãe deus, ou o pai deus, que dedução por dedução, se não pode haver relógio sem relojoeiro, também não pode haver relojoeiro sem pai nem mãe, chama o deus criança e repreende-o, não faças isso às criaturas, coitadas, elas têm sensibilidade como qualquer bicho, mas daí a pouco lá está outra vez o deus criança nas suas sádicas atividades.
E assim sem fim, pelo menos por enquanto.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Compramos ouro

Compra-se ouro, pratas, joias, cautelas de penhor.
Compra-se dívida, como se diz agora.
A taxa de aparecimento destas lojas parece a dos cogumelos.
Parece que os valores pagos não são  melhores do que nas ourivesarias, o que está de acordo com a tradição dos usurários clandestinos.
É o mercado a funcionar entregue a si próprio e alimentando-se de tudo o que pode.
Interessante ver esta proliferação, essencial para minimizar os riscos de assalto. Em caso de assalto, os prejuízos são pequenos. E os encargos de mão de obra são pequenos enquanto a taxa de desemprego for grande.
Parafraseando Fernando Pessoa, quanto do teu ouro é ouro do Brasil?


Quase primavera, em Lisboa

Nem tudo é mau em Lisboa.
Os prunus ajudam a compensar.


Azulejos de Lisboa I - Campolide

Exemplos de azulejos em prédios antigos em Lisboa, em Campolide
                                                                                                                             

terça-feira, 8 de março de 2011

A Física explicada por palavras simples aos economistas

Penso que naquelas coleções de livrinhos de divulgação, "a ciencia X explicada por palavas simples a ..." faz falta um com este título.
É que os economistas têm uma formação muito boa em matemática.
Alguns até ganharam prémios Nobel com modelos matemáticos extraordinários.
Têm também uma boa compreensão jurídica das coisas.
Sabem explicar por que aconteceu um fenómeno, embora não o tenham conseguido prever.
Mas falta-lhes a perspetiva e os conceitos da Física.
Não conseguem envolver o raciocínio físico nas suas análises.
Sabem o custo de um produto.
Não sabem o valor desse produto.
Ficam aquem do seu significado físico.
Sabem calcular o PIB, mas não sabem como funciona ou se é útil o produto cuja transação entrou no cálculo do PIB.

Então eu vou tentar ajudar a compreender alguns conceitos físicos.
A Física é a ciencia que estuda a matéria e a energia e todas as interações entre os seus componentes.

1 - as variáveis multiplas. O universo a que se aplica a Economia é composto por muitas variáveis obedecendo a estatísticas de difícil modelização ou com correlações fracas entre elas.  Estudar a variaçao de uma variável ou a relação entre duas, fixando os valores das restantes variáveis será apenas uma abstração ou um modelo que não representa  realidade, embora possa servir para a estudar. Pense-se no movimeno browniano  das moléculas de um gás num recipiente. Por uma questão de humildade, podem os economistas pensar que esse é o significado físico dos conjuntos de variáveis económicas. Que os elementos dos conjuntos que estudam,desde as movimentações nas bolsas até às tendencias dos mercados, seguem mais as leis estocásticas do que as decisões racionais
2 - fenómenos transitórios. Existem na natureza fenómenos transitórios, cujo nome significa que a passagem de um estado para outro nunca poderá ser instantânea. Por exemplo, um automóvel leva tempo para se imobilizar (o que o automobilista devia ter em conta nas passadeiras de peões), a corrente elétrica não passa instantaneamente a zero quando se abre um interruptor (porque a variação do fluxo magnético associado à corrente elétrica é proporcional à tensão elétrica gerada e esta não pode ser infinita; por isso salta o arco elétrico até  corrente se extinguir). É dificil na economia distinguir um fenómeno transitório dum estado estacionário, porque as variáveis são de facto muitas e as correlações entre elas pouco definidas, e a escala do tempo pode complicar a análise; então no jogo bolsista...
3 - a oscilação é um fenómeno natural. Ocorre quando a força excitadora contraria o que está a sair do sistema. Este introduz um tempo de atraso, não pode responder instantaneamente às solicitações, e pode inverter o sentido da solicitação. Se a solicitação pretende que a saída aumente, isto é, se se pretende que o sistema seja um amplificador, é necessário que a sua ação chegue à saida do sistema conjugando esforços. Caso contrário, temos que uma medida que num dado instante iria produzir um bom resultado, acaba por produzir o efeito contrário porque a constante de tempo ou os circuitos internos do sistema lhe alteraram o sentido (a fase). E o sistema, sem regulação externa, acaba por ir oscilando ao longo dos anos; por exemplo, mediando grandes depressões com períodos de crescimento...
4 - o princípio da conservação. Um sistema isolado tem um nivel de energia constante. Não há criação de energia, o que há é conversão de uma forma de energia noutra. Por exemplo, a energia elétrica transformada em calor no aquecedor, a energia química potencial do petróleo convertida em energia mecânica. Os próprios preços, se entendidos como unidades de transferencia de potencial de aquisição, e portanto analogia de transformação de energias, serão constantes num sistema isolado. Isto é, se um preço é demasiado baixo, como diz o anuncio do grande grupo de distribuição, é porque outro ou outros são demasiado altos. Ou se o preço de um produto chinês é demasiado baixo, é porque os salários de quem o produziu foi comprimido em benefício de outro recoletor do rendimento (isto é, as mais valias não nascem de geração espontânea, estão sob a forma potencial os respetivos fatores de produção). E outro exemplo: é dificil  poupar num fator de produção; isso pode significar que se está a desperdiçar noutro (o que se economiza na reciclagem do lixo pode não compensar o excesso do consumo que produz o lixo; a economia em lampadas fluorescentes pode desperdiçar-se na sua reciclagem, se se fizer a reciclagem, claro; o que se economiza num investimento, que não se faz, pode perder-se no adicional de gastos devido à sua ausencia).
5 - fatores de ponderação. As variáveis que contribuem para um resultado final podem ter coefcientes diferentes em funão da sua importancia para esse resultado. Embora seja um fenómeno matemático perfeitamente dominado pelos economistas, a incompreensão fisica das causas de cada fator de ponderação pode levar os economistas a recomendar cortes cegos, isto é, cortar na mesma proporção independentemente da ponderação ou do rendimento de cada variável. Por exemplo, numa transportadora de comboios elétricos, o esforço de economia da fatura elétrica deve concentrar-se nas poupanças na tração elétrica e os consumos de iluminação e de força motriz devem ser contidos comparativamente com os consumos de tração elétrica; cada fator deve ter o seu tratamento diferenciado.
6 - custo da energia nos transportes. É vulgar as análise de custos dos sitemas de transporte esquecerem tods as variáveis e os prncípios físicos. Por exemplo, considera-se  o transporte rodoviário mais económico do que o ferroviário; considera-se o transporte individual como mais eficaz. O problema é que o transporte rodoviário assenta no contacto roda de borracha-asfalto, a que está associado um coeficiente de atrito superior ao do transporte ferroviário. Foi por isso que se desenvolveu o transporte ferroviário. É necessária menos energia por peso deslocado, quer no arranque, quer na manutenção do movimento. Evidentemente que o peso "morto" de um veículo ferroviário não poderá consumir a economia relativa ao modo rodoviário quando comparado com o peso morto de um veículo rodoviário. Mais uma vez entra aqui o conceito de dimensão ótima.
Por curiosidade, compare-se a energia de tração (energia na roda) necessária para deslocar um passageiro durante um quilómetro e 2 minutos, a uma média de 30 km/h:
-  num comboio metropolitano com ocupação média de um quarto da capacidade : 60 Wh  ; 
-  num automóvel com ocupação média de 1,3 passageiros : 350 Wh (6 l/100 km)
Igualmente os encargos com a construção, manutenção e exploração das infraestruturas ferroviárias não deverão absorver as economias, obtidas com a eficiencia energética do transporte, quando comparados com os encargos de construção, manutenção e exploração das infrsaestruturas rodoviárias. É que as análises económicas têm a tendencia para esquecer a inclusão dos custos de construção, manutenção e exploração das estradas e os custos de produção, transporte, refinação e distribuição dos combustíveis quando comparam com os custos e rentabilidade dos investimentos ferroviários, nomeadamente o TGV. Tambem há tendencia para esquecer os benefícios por economia de tempo de trabalho devido aos transportes coletivos por evitarem os engarrafamentos.Também têm tendencia para esquecer, no caso do transporte aéreo, os custos de construção, manutenção e exploração dos aeroportos, incluindo as deslocações dos empregados, e as emissões de gases com efeito de estufa dos aviões, dos aeroportos e de todas as atividades subsidiárias.
Graças a estes esquecimentos e a uma mais lenta evolução tecnológica no modo ferroviário relativamente ao modo rodoviário, assistiu-se a um crescimento exagerado (para o que tambem contribuiu o dogma neoliberal da livre iniciativa para o negócio dos camionistas) do transporte de mercadorias nas autoestradas europeias. A própria UE teve de introduzir diretivas para o desenvolvimento do transporte de mercadorias pela ferrovia e por via maritima. e a Suiça teve de introduzir fatores de limitação do tráfego pesado rodoviário de atravessamento.

Passe a imodéstia, poderá ter interesse para os economistas a consideração do post:

 http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/08/calculos-para-investimento-em-redes-de.html

e do powerpoint com a problemática dos custos de energia, das emissões de CO2  e das poupanças nos transportes, que fiquei a dever aos estudos do Imperial College sobre transportes metropolitanos:

http://cid-95ca2795d8cd20fd.office.live.com/view.aspx/Metros%20potential%20to%20reduce%20energy%20consumption%20and%20GHG%20emissions/NOVA%20versao%20base%2022out09%20PPT%20DESENV%20%20POTENC%20%20METROS%20P%5E_REDUZIR%20CONSUMOS.pptx

Os clãs, o tribalismo, o problema da tomada de decisões, os think tanks e o aparelhismo serodio entre tantos outros problemas como o da capacidade organizativa

Por mais que tente, não consigo fugir à ideia de que uma das principais dificuldades no nosso país é a  soberana indiferença pelos mecanismos eficazes de tomada de decisões.
Volto assim a citar a Sabedoria das Multidões.
Que, por sinal, também foi citada favoravelmente numa crónica de Manuel Maria Carrilho.
Nem seria preciso citar aquele livro.
Qualquer consultor de organização sabe como se faz quando quer suscitar ideias numa empresa que a dinamizem.
Não propõe a contratação de um guru afamado, nem aposta numa administração validada por um grupo político.
Junta o maior número possível de profissionais ligados ao negócio, lista uma série de temas, de ameaças e de oportunidades, como se costuma dizer, divide o grande grupo em pequenos grupos, o mais possível heterogéneos, e depois da discussão recolhe as conclusões de cada grupo e resume e hierarquiza as medidas propostas.
É um método difícil de aplicar em Portugal.

Isto a propósito da sua crónica de dia 25 de Fevereiro, que tomei a libertar de reproduzir no fim deste post.

A mim me parece que, no fundo, a questão está em como tomar decisões eficazes.
Por coincidência, a citação do DN do dia seguinte era, de JJRousseau,  que pensam por todos os outros que “há um pequeno grupo de homens e mulheres que pensam por todos os outros, e para o qual todos os outros falam e agem”.
A crónica de MMCarrilho critica os governantes e os candidatos a governantes neste país por não recorrerem às técnicas dos “think tanks”.

Não o fazem porque cultivamos, à boa maneira lusitana, o tribalismo dos grupos e clãs.
Não necessariamente unidos por laços familiares, mas grupos em que quem tem ambições políticas socializa e se normaliza segundo as técnicas primárias de integração num grupo, supostamente mecanismo de poder decisório, ou de polarização em torno da opinião julgada politicamente correta.

Algumas entidades promovem iniciativas interessantes, juntando intelectuais com prestigio mediático.
Mas afastam-se do programa acima descrito de divisão em grupos e recolha de propostas.
Preferem um painel de gurus convidados que se exibem perante uma audiência embevecida que se move no sentido da normalização dentro de um grupo, eventualmente a criar de acordo com a sabedoria dos  gurus.
Sem querer tirar mérito à iniciativa do DN de promover debates e conferencias na sequencia do seu trabalho de investigação sobre “o estado a que o Estado chegou”, e também sem querer tirar o mérito às entrevistas ou debates com senhores economistas prestigiados que podemos ver na televisão, a verdade será que estamos a colecionar doutas opiniões de quem sabe de forma académica como devem ser geridas as empresas e a coisa pública, mas tem pouca experiência “no terreno” na problemática da produção de bens transacionáveis, como eles gostam de chamar aos bens e serviços suscetíveis de ser vendidos ao exterior.

De modo que somos chegados a este dilema:
- ou repetimos o velho hábito nacional de delegar nas personalidades a função de pensar e agir,
- ou pensamos e agimos nós próprios

A proposta  de MM Carrilho para a segunda hipótese é a dos think tanks.
Outra  é o conceito de “sociedade civil”, outra a dos movimentos dos cidadãos, outra a das redes sociais, etc, etc.
Infelizmente o método seguido tende para a polarização em torno da opinião de um grupo restrito.

Veja-se o caso da discussão pública da proposta da câmara de Lisboa para um novo mapa das freguesias: a consulta pública é um pró-forma com um prazo apertado e a proposta foi preparada por um grupo restrito. É uma prática corrente em qualquer organização portuguesa, possivelmente por um complexo de inferioridade de quem faz um trabalho e receia que outros o critiquem antes de estar concluído; depois de concluído acreditam mais nele.

Vamos ter de aguardar para ganhar perspetiva e ver se o que se está a passar é mesmo uma evolução.


Artigo de MMCarrilho:
"Preparado para governar?", foi com esta pergunta a Pedro Passos Coelho que Judite de Sousa tocou no essencial, na sua Grande Entrevista da semana passada. Era mesmo essa a pergunta que certamente todos os espectadores estavam a fazer naquele momento, perante a repetição de argumentos gastos, de fórmulas vagas, de ideias gerais. Toca-se aqui num dos mais graves problemas nacionais, o da impreparação dos partidos e dos seus líderes para o competente e responsável exercício do poder.
A raiz desta situação vem de longe. Lembro-me, logo a seguir ao 25 de Abril, da generalizada incompreensão com que era vista a sugestão de alguns partidos europeus para se criarem em Portugal instituições que formassem quadros, estu- dassem os problemas e preparassem com seriedade as respostas de que o País carecia. A custo, lá se criaram algumas, nomeadamente fundações, que rapidamente acabaram nas mãos do mais serôdio aparelhismo.
Mas essa sugestão apontava para uma verdadeira necessidade nacional, a da indispensável qualifi-cação dos partidos políticos, ao nível dos quadros, das ideias e das propostas. Função que desde os anos 80 foi sendo cada vez mais assumida pelos think tanks, que hoje marcam a vida política de tantos países.
A propósito, é talvez bom saber que na austera Alemanha o papel destes organismos é de tal modo considerado vital para a vida política que eles são subvencionados, e quase exclusivamente, pelo Estado. Por exemplo, a Fundação Friedrich--Ebert, ligada aos sociais-democratas, tem um orçamento de 128 milhões de euros, e nela trabalham 614 pessoas. A Fundação Konrad Adenauer, ligada aos democratas-cristãos, tem 560 funcionários e um orçamento de 100 milhões de euros. Uma e outra, como muitas mais, funcionam com total autonomia dos partidos, e a sua função essencial é muito precisa: pensar, preparando as estratégias e as respostas que o país e o mundo exigem no médio/longo prazo.
Há hoje no mundo, segundo o recente relatório (é de 18 de Janeiro) de James G. McGann, da Universidade de Pensilvânia, 6480 think tanks. Este número traduz a generalizada convicção de que a política exige, para que os problemas sejam tratados com conhecimento e seriedade, um verdadeiro trabalho de deliberação colectiva que envolva, para lá dos partidos, a sociedade civil na multiplicidade das suas formas de expressão. E ele aponta também para o facto de, nos nossos dias, nenhum projecto com dimensão colectiva conseguir aparecer, e sobretudo mobilizar os cidadãos, se não suscitar em torno deles.
não suscitar em torno dele uma reflexão organizada e um debate sem restrições.
Por cá, as coisas são diferentes. Os partidos, todos eles, tornaram- -se organizações fechadas, pouco orientadas pelo interesse nacional e muito viradas para a perpetuação dos seus interesses. A sociedade civil e as diversas elites têm-se, em geral, demitido das suas responsabilidades (com excepções, é preciso dizê-lo, nomeadamente de algumas elites religiosas), emergindo apenas quando se aproximam eleições, e também elas mais à procura de lugares, e sobretudo de influência, do que do exercício de qualquer missão desinteressada.
O momento actual, que sem ser eleitoral já o é, é bem ilustrativo do que digo. O PS ressuscita instrumentalmente as suas desacreditadas "Novas Fronteiras", que nunca produziram uma ideia que fosse sobre o que quer que seja. O PSD parece que gosta do modelo e avança com um "Mais Sociedade, Portugal faz-se consigo" que - o nome diz tudo, não é? - não passa de um expediente para ir branqueando a evidente impreparação que tem revelado para, se chegar ao poder, enfrentar a crise e dar a volta à situação.
É que, quando isto é a sério - como acontece na Alemanha, em França ou em Inglaterra -, é nos próprios partidos, no seu interior, que se investe em abertura e qualificação, e esse investimento faz-se de um modo contínuo, estruturado e orgânico. Porque aí a convicção nuclear é que é na diversidade das ideias, na sua competência e audácia, que estão as chaves de que se precisa para lidar com o mundo de hoje, e para se preparar o futuro.
Ao arrepio de tudo isto, os regulamentos do PS para o próximo congresso estabelecem a inqualificável proibição de apresentação de moções globais, aos militantes que não sejam candidatos a secretário-geral! A fórmula deste pluralismo estropiado define-se na seguinte fórmula: "Tens ideias? Então candidata-te! Ah, não te candidatas? Então cala-te!" Ao criar-se, num gesto de indiscutível inspiração totalitária, um regime de liberdade condicional para os militantes "que tenham ideias", está-se a alimentar a teia do pior conformismo, cujas funestas consequências são bem conhecidas - e não se farão esperar! E logo agora, que o país tanto precisava de abertura e de ousadia para enfrentar o seu tão problemático futuro.

A metáfora dos marinheiros

Na Marinha estudou-se um anacronismo interessante.
Como se comportaria um marinheiro do tempo dos descobrimentos e das viagens à India no submarino Tridente?
Ou numa fragata dos anos 60 do século XX?
Provavelmente seria inutil.
Talvez não o fosse num dos navios que levou a corte para o Brasil, e seguramente seria muito util nos primeiros navios que trouxeram o ouro do Brasil.
Os ensaistas costumam dizer que não se deve olhar para os factos históricos exclusivamente com as lentes de óculos contemporaneos, isto é, julgar personagens que não dispunham do conhecimento de factos que hoje temos.
Lembrei-me disto ao ler num editorial, possivelmente influenciado, o editorial, pela canção A luta é alegria, que o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e Engels em 1848, apelava à revolução violenta.
De facto vêm no Manifesto o substantivo luta e o adjetivo violenta.
Mas ninguém utiliza agora os termos que Galileu e Newton utilizaram nos seus evangelhos da Física nascente.
Nem ninguem se limita agora ao dominio da mecanica clássica, agora que até a mecânica quantica já é antiga.
Embora todos apliquem agora os conceitos e as fórmulas da mecânica clássica se apropriado.
Por isso mais valia que se traduzisse esse conceito de luta violenta e que se tivesse um bocadinho mais de consideração pelas técnicas de análise marxista dos modos e das tecnologias de produção, dos mecanismos da sua apropriação e distribuição de rendimentos, dos fenómenos de interação entre as instituições sociais, os grandes grupos económicos e  as empresas por um lado e as mudanças tecnológicas pelo outro.
Seria um debate mais científico e mais aberto, com argumentos e não com adjetivos e mecanismos de normalização em grupos restritos, embora alguns destes grupos possam pensar que o entrincheiramento e o atirar adjetivos ao adversário político seja mais seguro (e contudo, paradoxalmente, defendem na economia o derrube dos muros e das trincheiras).
Provavelmente mais profícuo, o que seria francamente desejável.
Até porque a proposta marxista era aproveitar os avanços tecnológicos para aliviar o esforço de trabalho das populações e aumentar-lhes os benefícios.
Ora, quando se pretende fazer recair sobre as faixas da população com menores rendimentos o maior esforço para recuperar da crise, ou se tomam medidas que privam as faixas de menores recursos de meios de subsistencia, o que se está a fazer na prática é tender para a reconstituição do estádio social que motivou os termos em que o Manifesto foi escrito.
Isto é, é querer um retrocesso histórico de mais de 160 anos.
Pessoalmente discordo dessa reconstituição e parece-me que as medidas já citadas neste blogue seriam  mais eficazes.



Ver o Manifesto em:
http://www.pcp.pt/publica/edicoes-avante/25501144/manifpc.html

Ti Zé tira o pé tô prazo expirou há bwé



Brigadeiro Mata Frakuzx pede "Não tragam bandeiras de partido, por favor". Têm os partidos de compreender que não têm o monopólio da vida política. Mas é difícil, a organização, o estudo sistemático dos problemas, a elaboração de hipótses, a experimentação... Custará assim tanto a compreender que tem de haver eleições em prazo razoável e que a atividade económica dos grandes grupos, bancos e famílias ricas tem de ser regulada e conhecida?
Angola, Angola, já o primeiro produtor de petróleo de África... cuidado que o petróleo não é infinito.

A sindroma da lotaria e a manifestação de dia 12 da geração à rasca

O jogo é uma das atividades viciantes do cérebro.
Retira prazer, isto é, produz dopamina e outros neurotransmissores, da expetativa e dos resultados, mesmo perdendo a aposta.
Não sofendo desse vício, isto é, produzindo eu a minha dopamina e outros neurotransmissores a partir de outras atividades, penso ter distancia suficiente para  fazer uma analogia com um dos dogmas do neoliberalismo que nos governa: que a riqueza advem principalmente da capacidade e da iniciativa de empreender de cada indivíduo.
Em resumo, o prémio da lotaria só sai a alguns e só sai a quem concorre.
Mas, e a maioria a quem não sai a lotaria, ou porque não tem capacidade para concorrer, ou não concorreu porque já acha demasiada a dependencia do acaso na vida corrente, ou simplesmente não lhe saiu a sorte grande porque os negócios correram mal (por exemplo, serem comprados por uma multi-nacional americana depois de esta ter posto à venda produtos concorrentes ao preço da chuva)?
A lotaria cultiva a desigualdade, e como tal devia ser contida (não digo proibida).
Talvez por isso haja tanta preocupação em aplicar os dinheiros da lotaria em intervenção social.
Mais um exemplo de remediar, em vez de atuar a montante.

Vem isto a propósito de uma reportagem no Noticias Sábado do DN sobre os "Inovadores... os empresários sem medo que tiveram a coragem de apostar em coisas completamente novas e venceram. Conheça os negócios do futuro em Portugal".
Como diz o outro, o entusiasmo e o acreditar que nos vai sair a sorte grande move montanhas e multidões.
A mim soa-me mais a iludir as pessoas.
Mas o facto é que saiu a sorte grande a alguns estes empresários. Um deles é diretor da Cisco em Londres e afirma, entre as apologias à inovação, que "o direito ao emprego não existe. Se o emprego não está disponível, devo poder criar o meu emprego ... os desempregados criam o seu emprego ou emigram". Lá está, e quem não consegue? Como dizia Melo Antunes, há espaço para todas as forms de organizaçõ e de produção. Porquê então este vício de dogmas exclusivistas? Tem de se procurar no cérebro a origem destas deficiências. Psiquiatras sociais, precisam-se. Local de trabalho: os centros de análise e de decisão dos economicómios.
Mas estou de acordo, o direito ao emprego não existe.
De facto, o artigo 23 da Declaração universal dos direitos humanos apenas declara, no seu ponto 1, que
"Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego."
Eu até acrescentaria que, para além do direito ao trabalho existe o dever, das sociedades organizadas, de fornecer trabalho, e dos cidadãos e cidadãs, o dever de trabalhar (pode ser polémico, mas o dever de trabalhar limita o direito à liberdade individual, tenho muita pena, o que legitima o direito da sociedade organizada de perguntar ao cidadão ou cidadã, em caso de duvida, por que não trabalha, com a condição de lhes dar a escolher, podendo trabalhar, várias hipóteses, incluindo horários adequados ao seu estado de saúde).

Vamos clarificar as coisas.
Os dogmas neoliberais de que não existe o direito ao emprego e de que a sociedade organizada deve minimizar a componente social dos gastos públicos, opõe-se:
- aos direitos humanos conforme a declaração universal;
- ao lema da revolução francesa, Égalité, traduzido, graças à evolução das ciencias sociais, por um indicador confiável, o coeficiente de Gini.

Custa-me ver eleger políticos que tendem mais para os dogmas neoliberais.
Especialmente quando, no tempo do afluxo dos fundos da UE, os deixou ir para atividades não reprodutivas e, no caso do metropolitano de Lisboa, sumptuárias (desperdício na construção e manutenção de estações). Pior ainda, quando colaboraram no estrangulamento da capacidade produtiva agro-alimentar de Portugal (lembram-se dos subsídios para arrancar oliveiras, figueiras, amendoeiras, vinha? lembram-se da repressão do movimento cooperativo orientado para a produção cerealífera que teve como consequencia a diminuição da área explorada de propriedades com mais de 20 ha? lembram-se do escandalo da imposição de quotas à produção de leite nos Açores? lembram-se da redução da frota pesqueira e da zona marítima exclusiva? ) .
Por isso eu gostaria de participar na manifestação de dia 12 de março da geração à rasca.
Certamente que muitos desempregados licenciados não se importariam de ir gerir explorações agrícolas para contribuir para a diminuição do endividamento público e privado do país (podiam começar por apareer na feira de Cabanas, Palmela, agora em Abril).
Mas se calhar há uma desadequação geracional; a geração de recibos verdes não deve gostar que eu receba uma reforma razoável e dirá que nunca mais morro para não ter de me sustentar (embora toda a vida ativa tenha descontado cerca de 35% do salário bruto).
E depois, se calhar, a geração à rasca não concorda comigo, que o essencial é defender os direitos e os deveres da declaração universal e centrar toda, mas toda a atividade económica e financeira no controle do coeficiente de Gini.
Se calhar não concorda comigo.
Tenho pena, de não poder alinhar na manifestação.
Tenho pena que a juventude não ouça a velhice, que a queira responsabilizar pelas dificuldades (curioso, um país tão pequeno, ter conseguido influenciar tanto a crise financeira internacional), e não pense em responsabilizar (politicamente apenas, nas eleições, que eu não gosto de vinganças) os políticos que geriram imprudentemente os fundos da UE a seguir à adesão.
Tenho pena, pronto, como é próprio da geração velha.





Por vezes dás contigo desanimado
Por vezes dás contigo a desconfiar
Por vezes dás contigo sobressaltado
Por vezes dás contigo a desesperar


De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar


De pouco vale o cinto sempre apertado
De pouco vale andar a lamuriar
De pouco vale um ar sempre carregado
De pouco vale a raiva para te ajudar


De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino


Não falta quem te avise «toma cuidado»
Não falta quem te queira mandar calar
Não falta quem te deixe ressabiado
Não falta quem te venda o próprio ar


De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino


Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
A luta continua

A natureza explosiva das finanças

O professor João Cesar das Neves não deve gostar do filme Inside Job, a avaliar pelo seu artigo:

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1800235&seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco

De modo que, de forma interessante como é seu costume, acaba por encontrar a solução para as causas da crise de 2008.
É da natureza das finanças; elas são explosivas, e por isso de vez em quando explodem como a nitroglicerina, ou caem como os aviões (alguma semelhança com a teoria cíclica das crises marxista?).
E o professor interroga-se por que consideram as pessoas normal que haja acidentes com a dinamite e os aviões, e não o aceitem nas finanças.
Permito-me uma explicação:  porque não há leis universais, isto é, válidas em todos os domínios (exceto esta mesmo, claro). O que pode ser válido para a aviação, pode não ser válido para as finanças.
Mas mesmo que fosse, devia o professor pensar que o combustível dos aviões também é explosivo, mas quando o acidente acontece, uma comissão debruça-se sobre o assunto e faz recomendações para evitar a repetição do acidente.
Por acaso, até houve uma comissão para o caso do Lehman Bros, que concluiu que o acidente podia ter sido evitado se não fosem as políticas de desregulamentação, de excessivos empréstimos e de "securitização" das dívidas:


Mas não vale a pena argumentar. A perceção do desequilíbrio de rendimentos (coeficiente de Gini) é grande e é um dos ingredientes para o risco de "convulsão social", como diz o ex-superpolícia.
Será mais uma explosão, controlada ou não. Ver outra analogia com uma situação explosiva, termo utilizado  há mais de um ano por politicos destacados deste país:

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/01/economicomio-xxxvii-uma-situacao.html

Pensando  melhor, será que o professor tem razão?
E que está a fazer um aviso?
Que vamos ter de lidar com as finanças e a economia com fatos ignifugos, com perímetros de segurança e toda a parafernália das minas e armadilhas?
Bm avisa o senhor Tricheur, perdão Trichet do BCE, que o objetivo é conter a inflação.
E como há pressões inflacionistas a dar com um pau (guerra no Afeganistão, cotação do petróleo, cotação dos cereais) é natural que a pressão da caldeira vá aumentando, até explodir e o sistema regenerar-se por si, até ao próximo dente da curva do crescimento em onda de dentes de serra.






O preço dos alimentos

Aplausos para o DN que no editorial do dia 7 de Março de 2011 resume o essencial do problema.
A alimentação é evidentemente essencial.
O preço dos cereais e oleaginosas subiu entre 40% e 60% no ultimo ano.
A explicação mais simples é o mau tempo, mas pode ser que a especulação financeira já esteja a agravar o problema.
Portugal:
-  importa 6.300 milhões de euros,
-  exporta 3.300 milhões de euros,
-  produz  7.000 milhões de euros,
-  consome  10.000 milhões de euros,
                                                                de bens alimentares.
Donde se conclui que para reduzir o endividamento (quanto da importação poderia ser dispensado por não serem produtos essenciais?) é imperativo aumentar a produção do setor agro-alimentar.
O que baixaria a taxa de desemprego, embora exigisse investimentos e capacidade para gerir investimentos.
O problema é de facto grave, depois de durante tantos anos a política oficial ter despovoado os campos.
Apetece fazer "rewind" e repovoar os campos.
Mas com a política de fecho de escolas e de unidades de saúde e de cortes nos investimentos, parece difícil.
Renovo a sugestão para visita à feira de produtos agrícolas em Cabanas, Palmela, junto da capela de S.Gonçalo, em Abril.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A televisão

Com a devida vénia ao DN e ao seu crítico de cinema João Lopes.
A propósito de Pedro Tamen e do seu livro Um teatro às escuras, e a propósito de Jean -Luc Godard e do seu filme Filme Socialismo, o crítico considerou que a imagem não é uma revelação automática, mas antes uma nova máscara contendo a promessa de uma revelação. E comentou: Oh ! tristeza  da televisão; por ser sede de transparencias pueris.
E ainda citou Jean Luc Godard:  "Dêem-nos a televisão e um automóvel, e libertem-nos da liberdade".
Já lá dizia a letra da canção dos Deolinda, que na televisão está alguém pior que eu, apesar, ou por isso mesmo, de ter audiencias.
Bom que seria, se se incluisse nas medidas de recuperação do país o lançamento de um imposto sobre os programas deseducativos da televisão, passe o aspeto antipático da sugestão. Não seria dificil encontrar um juri para classificar os programas.

Economicomium LXX - O governador do banco de Inglaterra

Com a devida vénia ao DN:

O governador do banco de Inglaterra, Mervyn King afirmou que a procura  da rentabilidade a curto prazo pelos bancos continua, os bonus dos bancos continuam  e a desregulamentação é cada vez mais importante.
Nestas condições, é provável a oorrencia de nova crise, identica à de 2008.

É provável e pode ser que não aconteça; também é provável que tenham sido desenvolvidas novas técnicas que permitam adiar a crise por mais uns tempos.
A hipótese de crise em 2008 foi colocada com fundamento em 2005 (ver o filme Inside Job).
Regista-se a hipótese de governador do banco de Inglaterra, numa altura em que a especulação financeira obtem lucros com a alta do preço dos alimentos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Economicomium LXIX - As tangerinas na saída da crise

A simpática apresentadora fez o seu programa de televisão no supermercado.
Que 75% dos alimentos são importados e são importados através do aumento do endividamento.
E que a saída da crise inclui a produção dos alimentos importados para limitar o endividamento.
Por exemplo, há que aumentar a produção de tangerinas, que têm a particularidade de dificilmente serem encontradas no mercado exterior (não confundir com clementinas, ou clemenvilas, ou o que for, que são mais doces, que não têm caroços, mas que querem, eu gosto de tangerinas).
Há que aumentar a produção de trigo, cujas importações sobem a 88% (a propósito, a superficie agricola dedicada à produção de cereais é, neste momento, inferior à superficie cerealífera em 1976).
Por alturas da adesão de Portugal à UE, muitos urbanos estranharam os subsídios para arranque de vinha, de oliveiras, de figueiras, as limitações de produção de leite, etc, etc.
Parece que estavam certos, que foi um disparate, que não admira nada que a importaçõ de alimentos tenha subido tanto.
Mas não está tudo perdido.
Houve não urbanos que continuaram a produzir em regime de economia de subsistencia, de troca e em zonas geográficas restritas.
Agora, é só reativar estes circuitos, sem esquecer a correção dos disparates que se fizeram com o abandono da floresta (claro, claro, a  maioria da floresta é particular, mas os particulares carecem de apoio técnico que é fácil às universidades prestar e carecem tambem de que as entidades oficiais garantam preços controlados, isto é, que regulem).
Sugiro a visita à próxima feira de Abril da região de Palmela, em Cabanas: produção de vinho, azeite, queijos, doces e gado ovino. 
Não é só a Auto-Europa, na região.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Intervenção coletiva necessária e urgente

Com a devida vénia ao DN de dia 3 de Março de 2011 e a António Martins, presidente da ASJP.

Conforme recomenda Luis Monteiro no seu livro os ultimos 200 anos e os próximos 30,  reabilitar o mundo da justiça é a medida prioritária nº 10  para combater a crise (uma má justiça afasta investidores).
Ver em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/economicomio-lxi-as-medidas-contra.html

O caso é extremamente grave se for verdade o que relata Antonio Martins, presidente da ASJP, tornando urgente e necessária uma intervenção coletiva pra reabilitação da Justiça no nosso país.
Não pretendo criticar o senhor ministro, que merece consideração, quanto mais não seja por ter enfrentado Américo Tomás.
Entenda-se este texto como uma proposta para melhoria através de uma ação coletiva e participada, de acordo com os principios da Sabedoria das Multidões.

Resumo da situação descrita no DN:
1 - reformaram-se repentinamente mais de 70 juizes
2 - conforme um relatório europeu, a taxa de descongestionamento dos processos é boa e o numero de juizes por habitante é baixo comparativamente com os outros paises, pelo que os juizes não podem ser acusados de ineficientes
3 - o sistema informático Citius veio a gerar ineficiência, gastando os juizes mais 114% do tempo que gastavam antes do sistema para o mesmo trabalho
4 - existe uma "cultura contra a justiça" que se manifesta:
4.1 - em reformas legislativas desastrosas (reforma da ação executiva, reforma do processo penal de 2007)
4.2 - manutenção da burocracia processual (civil, penal, laboral, administrativa, fiscal) que permite expedientes para atrasar os processos
4.3 - "assassínio" de boas ideias, como a reforma do mapa judiciário (não basta desejar uma boa reforma; é necessário que ela seja estudada e planeada de modo a ser eficaz)

Se a análise está correta, e tudo indica que sim porque quem anda nas frentes das batalhas conhece melhor os assuntos, e se se confirmam os imbróglios imobiliários referidos em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/03/e-sempre-interessante-ouvir.html

é mesmo necessária uma mudança de cultura (a mudança de mentalidades de que falava o capitão de Abril Vitor Alves) e uma intervenção participativa e coletiva, sem secretismos.
Trata-se de assunto que diz respeito a todos, pelo que ao abrigo do art.48 da Constituição todos temos o direito de sermos informados e de nos pronunciarmos.

Very fast post in blog 44 - a convulsão social

Segundo declarações do ex-secretário geral da segurança, dito super-policia, a sociedade portuguesa corre o risco de enfrentar uma "convulsão social" por motivo da desigualdade de rendimentos.
Este senhor foi a unica entidade ligada aos problemas de segurança, exercendo um alto cargo, que colocou a hipótese do agravamento da criminalidade juvenil se dever a um "sobressalto geracional", isto é, existir uma correlação entre a violencia juvenil que se verifica num dado instante e as condições de deficiencia educacional e de desemprego uns anos antes (deveria existir um departamento oficial com uma equipa de sociólogos a estudar estes fenómenos, mas isso não faz parte da politica do ministério da administração interna).
Estou de acordo com o senhor. O indicador principal da gestão da coisa publica deveria ser o coeficiente de Gini, de desigualdade social ou dos rendimentos.
Porque um valor alto e a crescer, como é o caso de Portugal, pode induzir de facto uma"convulsão social".
As coisas previnem-se, preferencialmente a remediarem-se, e não estão a ser prevenidas.

O poder económico e a coisa pública, Adriano Moreira e o Ministério da Justiça

É sempre interessante ouvir intervenientes num processo histórico recordar o passado, nem sempre coincidindo com as versões em que mais se acredita.
As declarações do professor Adriano Moreira em recentes entrevistas à Antena 2 e à RTP2 serão disso exemplo e deveriam, salvo melhor opinião, ser registadas e integradas pelos historiadores.

Adriano Moreira, apesar de jovem professor de direito não diretamente ligado ao regime, foi convidado por Salazar para ministro do Ultramar para atualizar a sua estrutura organizativa. Recebeu carta branca e assim acabou com o estatuto do indigena que vedava o acesso à cidadania aos naturais das colonias de origem africana.

O livro "Os donos de Portugal" constitue um documento precioso que mostra à evidencia a permeabilidade entre os grandes grupos económicos portugueses e as estruturas governamentais. Essa permeabilidade manifesta-se na ocupação de lugares importantes nesses grupos por antigos ministros, e no papel importante dos grupos nas obras ou na prestação de serviços adjudicados pelo setor público.

Salazar temia, segundo hipótese de Adriano Moreira, uma terceira guerra mundial. Daí argumentar que Portugal defendia, com a guerra colonial, a civilização ocidental. Contrariamente à opinião mais divulgada, no princípio dos anos 60 falou-se na independencia das colónias, evidentemente à revelia dos movimentos de libertação, segundo o modelo da África do Sul (proposta do governador de Angola, Deslandes) ou numa federação (proposta de Sarmento Rodrigues, governador de Moçambique).

Entre as estruturas do poder político e os grupos económicos existem ligações que podem ser a atividade de bancos ou de universidades (principalmente de economia e gestão, evidentemente). É importante o papel das universidades de economia na difusão das ideias de des-regulação e de privatização que predominam entre os políticos, não obstante a clareza com que documentários como "Capitalismo - uma história de amor" e "Inside job - a verdade da crise" explicaram a responsabilidade dos especuladores financeiros e dos professores de economia na crise de 2008.

Na sequência das reformas de Adriano Moreira nas colónias chegou-se a uma situação de conflito com os grandes grupos económicos que exploravam a agricultura nas colónias. Adriano Moreira quis acabar com as culturas obrigatórias, de natureza monopolista, que  favoreciam os grupos económicos.
Salazar informou Adriano Moreira que podia apoiá-lo em todas as reformas, menos nessa. Não poderia arranjar-se melhor demonstração de que o poder económico controla o poder político. E Adriano Moreira demitiu-se.

Embora o setor publico se vá enfraquecendo progressivamente em Portugal, na atualidade ele ainda se manifesta pela existencia de algumas empresas públicas rentáveis. Por exemplo, os CTT. Neste domínio, é interessante verificar como uma administração dos CTT, há cerca de 6 anos, eliminou um departamento de obras para entregar empreitadas a uma empresa instaladora de redes de cabos por ajuste direto, através de uma parceria com ela. O assunto encontra-se nos tribunais, e é também um excelente exemplo, para além do domínio do poder público pelo poder económico, da fé que os decisores, normalmente ignorantes dos pormenores da realidade, têm no "outsourcing" (nota: existem casos específicos, não sujeitos a regras universais, em que o "outsourcing" é a melhor solução para  empresa, quer seja pública, quer seja privada).
É também muito interessante analisar a verdadeira tragédia grega que se abateu sobre algumas iniciativas do ministério da justiça, com ofertas por empresas de construção civil para construirem edificios para tribunais a custo zero, com posterior aluguer ao ministério. O contrato da cidade judiciária do Porto não foi assinado porque o adjudicatário selecionado pretextou impossibilidade de o cumprir pelos preços da proposta,devido à crise internacional ( investimento de 114 milhões de euros pelo adjudicatário, aluguer mensal ao ministério por 643 mil euros durante 30 anos, o que significa um pagamento de 231,5 milhões de euros com um juro de 5,43%).
A cerimónia da primeira pedra foi realizada em Agosto de 2009,  mas nada foi construido até agora.
Estamos portanto perante um impasse ou, em terminologia anglo-saxónica, um flop.
Entretanto, a empresa que preside ao consórcio do caso da cidade judiciária do Porto é a mesma a quem foi adjudicada por ajuste direto (numa consulta direta a 5 empresas pretextando confidencialidade para satisfazer a letra do código de contratação pública) por 90 milhões de euros,  a ampliação da sede da Polícia Judiciária  na rua Gomes Freire, ocupando os terrenos da antiga escola de medicina veterinária.
Como se costuma dizer, mundo pequeno, este.


O assunto é interessantissimo, de facto; fascinante, como diria Mr Spock. Talvez se possa concluir que negócios com contrapartidas ou ofertas de investimentos a custo zero raramente serão um bom negócio. Na verdade, se o negócio é bom, por que tem de ser um consórcio de empreiteiros a fazê-lo e não o serviço público? Por que tem de ser vedado a uma entidade pública um negócio? Vedar um negócio por motivo de natureza da entidade pretendente é contra as leis da concorrencia...como dizia Melo Antunes, há que coexistir.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O senhor professor

O senhor professor falava com propriedade e com os músculos da face distendidos, muito sério.
Dirigia-se aos jovens, maioritários na plateia.
"Estou a ser antipático mas digo-vos isto para vosso bem. Vocês devem lutar para acabar com os empregos estáveis por toda a vida. Devem lutar para acabar com as regalias sociais que conduziram ao estado atual".
Parecia estar a ser sincero.
Alguém se levantou na plateia a perguntar há quantos anos o professor lecionava na mesma universidade e qual o montante da reforma que iria auferir.
Um dos seguranças da sala obrigou o intruso a sentar-se.
Aliás as perguntas não foram ampliadas porque não tinha microfone.
Mas o professor ouviu-as e respondeu que o caso dele era diferente.
De facto era diferente, o professor tinha direito a um emprego estável para toda a vida e com garantias sociais.
Eu fiquei a interrogar-me se em funções de segurança no transporte aéreo, ou em segurança ferroviária, se podem ter empregos instáveis, com mudança de atividade assim que se atinge algum conhecimento e experiencia (e diminuindo assim os níveis de segurança).
Ou em medicina, em que toda uma vida não chega para compreender todas as implicações que um fenómeno conhecido possa ter.
Mas o professor achará que sim, que se deve ter fé na auto-regulação do mercado do trabalho, e que os empregos têm de ser instáveis porque as regalias sociais conduziram a nossa comunidade à penuria.
Pode ser que o professor tenha razão.
Mas quanto aos empregos instáveis não tem quando se trata de segurança nos transportes.
E quanto às culpas do estado social, então o Inside job está equivocado quando diz que a culpa foi dos especuladores financeiros?

Na verdade, a ineficiência no setor público é muito grande. Mas o peso do setor público já não é decisivo nos tempos que correm.
O enquadramento jurídico é também ineficaz. Mas como dizia Camilo Castelo Branco, de que serve ao regente fazer uma lei perfeita, se ela pode ser sempre iludida por mais perfeita que seja?

Custa-me assim dar crédito ao senhor professor.
Ele estará a identificar bem os sintomas e algumas causas da doença.
Mas as medidas de prevenção e de tratamento que propõe parecem pouco realistas, salvo melhor opinião.