quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Adivinha

Fui ao Citador buscar esta citação.

... uma política de verdade e de sinceridade, contraposta a uma política de mentira e de segredo. Advoguei sempre que se fizesse a política da verdade, dizendo-se claramente ...


Adivinha: de quem é?

A- Teófilo Braga
B - António José de Almeida
C- António Salazar
D - Palma Carlos
E - Pinheiro de Azevedo
F - Mario Soares
G - Mota Pinto
H - Cavaco Silva
I - António Guterres
J - José Sócrates
K - PassosCoelho

Não vale ir ao Citador. Dica, a resposta pode não ser unica, mais palavra menos palavra.

Cenas da vida quotidiana de um cidadão em Portugal, Lisboa, em dezembro de 2011

Cena 1 - Talão abandonado numa caixa Multibanco, no Centro Comercial Colombo:

Levantamento, montante: 60,00 euros
saldo contabilistico:      593,51 euro
saldo disponivel:           601,41 euro
saldo autorizado:            19,73 euro

Após a operação de levantamento, o distraido detentor da conta ficou a saber que pode movimentar 19,73 euros, e que tem de aguardar que lhe depositem na conta o seu ordenado, de cerca de 600 euros, para poder usufrui-lo. Este tempo de espera resulta em beneficio para os bancos. O valor médio de uma renda de casa modesta em Lisboa é de 450 euro. Sobram 150 euro. Segundo um dos membros da troica, os salários em Portugal devem baixar porque atualmente são mais altos do que o valor que é produzido.

Cena 2 - Numa carruagem de metro na linha verde, um rapazinho, talvez de 9 anos, para o pai:
"porque não vamos à Assembleia falar com eles, com o primeiro ministro, para ajudar a resolver a crise? Há tantas lojas a fechar e pessoas desempregadas, que podiamos empregar essas pessoas nas lojas"
"Pois, dizia o pai, mas não pode ser só lojas, alguem tem de produzir nas fábricas, nos campos"
"É nisso que podiamos ajudar o Passos Coelho, dizer-lhe que podia empregar essas pessoas"
O pai sorria, mas era um sorriso triste.
O menino, que tem aspeto de inteligente e generoso, aprenderá um dia a lei de Philips: existe uma correlação fortemente positiva entre o desemprego e a contenção dos preços (a contenção dos preços é a politica oficial do BCE,  a qual não foi sujeita a eleições pelos cidadãos e cidadãs europeus)

Cena 3 - Na sala de espera de um hospital privado, 01:30.
Ao fim de uma hora e dez minutos de espera, abriu-se a porta de um dos consultórios e é chamado o nome do cidadão que esperava. Não houve triagem para avaliar o estado de gravidade do cidadão.
No jornal desse dia vinha anunciado o aumento dos custos para os utilizadores dos hospitais públicos e, no jornal do dia seguinte, a de que qualquer cidadão ou cidadã sem capacidade para pagar as despesas no hospital público pode registar no sistema informático das finanças a sua isenção (antigamente, no tempo do para-fascismo, chamava-se atestado de pobreza,  que era obtido na junta de freguesia).
Espera-se aumento da procura de hospitais privados.
Espera-se aumento do tempo de espera.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os velhos de Alexandre O'Neill

Dedicado aos contabilistas que tomam decisões sobre a coisa pública, preocupados por os velhos morrerem tarde em Portugal



Velhos/5

Aceita as suas próprias mãos
Sobre os seus próprios joelhos.

Donde vieram elas até ali?
De que fundo tempo se apuraram as ossudas?

Armas – de guerra por travar.
Instrumentos – do trabalho saqueado.
Signos – placidamente expostos.

As que foram blandiciosas ou rudes
repousam, caligráficas, nas dobradiças
dumas pernas tão alheias a ele, o velho,
que o velho começa e acaba nessas mãos pousadas.





 Velhos de Lisboa

Em suma: somos os velhos,
cheios de cuspo e conselhos,
velhos que ninguém atura
a não ser a literatura
E outros velhos. (os novos
afirmam-se por maus modos
com os velhos). Senectude
é tempo não é virtude...
Decorativos? Talvez...
Mas por dentro “era uma
Vez...”
Velhas atrozes, saídas
de túgurios impossíveis,
disparam, raivoso, o dente
contra tudo e toda a gente.
Velhinhas de gargantilha
visitam o neto, a filha,
e levam bombons de creme
ou palitos “de la reine”.
A ler p’lo sistema Braille
Ó meus senhores escutai!
um velho tira dos dedos
profecias e enredos.
Outros mijam, fazem esgares,
têm poses e vagares
bem merecidos. Nos jardins,
descansam, depois, os rins.

Aqueleoutros (os coitados!)
imaginam-se poupados
pelo tempo, e às escondidas
partem p’ra novas sortidas...
Muito digno, o reformado
perora, e é respeitado
na leitaria: “A mulher
é em casa que se quer!”
Velhotes com mais olhinhos
que tu, fazem recadinhos,
pedem tabaco ao primeiro
e mostram pouco dinheiro...
E os que juntam capicuas
e fotos de mulheres nuas?
E os tontinhos, os gaiteiros,
que usam cravo e põem
cheiros?
(velhos a arrastar a asa
pago bem e vou a casa)
E a velha que se desleixa
e morre sem uma queixa?
E os que armam aos pardais
Nessas hortas e quintais?
(Quem acerta co’os botões
deste velho? Venha a cidade
ajudá-lo a abotoar
que não faz nada de mais!)
Velhos, ó meus queridos
velhos,
saltem-me para os joelhos:
vamos brincar?
        
             Alexandre O’Neill

O papa no metro de Washington

Em 17 de abril de 2008, o papa Bento XVI visitou Washington.
O metro de washington aproveitou para fazer publicidade, com a personagem a dar graças ao céu por haver metro em vez de ter de ir de carro.
Mas o filme publicitário  tinha um boneco com a cabeça a abanar que representava o papa.
A igreja manifestou o seu desgosto e o Metro retirou o anuncio.

Encontrado na Internet

Encontrado na Internet, em
http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/


POST-IT DE ROBERT WYATT

 
"É óbvio que [ao capitalismo] não interessa que toda a gente morra à fome porque aí desaparecem os consumidores. Basta que as pessoas tenham dinheiro para comprar Coca-Cola, hamburgueres e discos da Britney Spears."

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Por teu livre pensamento

Poema de David Mourão Ferreira para o fado Abandono, cantado por Amália Rodrigues, numa altura em que a Pide prendia pessoas.
Todas as formas de expressão são legítimas, para cada forma de opressão, mesmo que não tenham o efeito imediato de libertação do que nos separa do cumprimento da declaração universal dos direitos humanos.


Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.

O yuppie do Brás e Brás





Travessa de S.Domingos, a rua do Brás e Brás desde 1777




O yuppie (young urban professional) tomou as rédeas do Brás e Brás por meios legítimos, através dos mecanismos estatutários da assembleia de acionistas.
A sua experiencia de gestão era muito curta e sempre fora protegida pelos familiares e pelos conhecidos já lançados no mundo dos negócios.
Apesar da sua juventude, convenceu acionistas do Brás e Brás a vender-lhe ações, convenceu os quadros e os trabalhadores a apoiá-lo.
Assim que tomou o poder, deu o dito pelo não dito e começou a aplicar as suas receitas, mais ou menos teóricas.
O Brás e Brás era um grupo com um volume de negócios interessante, o principal fornecedor da industria de restauração e hotelaria.
Apesar do contexto ser favorável, o Brás e Brás foi fechando secções, reduzindo pessoal, entrando francamente na zona dos prejuízos, tudo de acordo com as receitas teóricas.
Felizmente o yuppie anda agora longe, não sei onde, as antigas instalações foram vendidas para construção de um hotel e os empregados sobreviventes estão numa nova loja, na Rua do Poço do Borratem.
História típica de yuppies.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A novela do PET aos 18 de dezembro de 2011 - um grupo no metropolitano de Lisboa

                                                               






Recebi de uma jovem colega que continuou no metropolitano um convite para o jantar de despedida de um grupo de colegas que brevemente ou há pouco tempo vão passar ou passaram à reforma .
É de uso quando alguém termina a sua vida ativa profissional dedicar-lhe uma refeição em comum.
Mas já não é tão usual um grupo numeroso como este  fazê-lo, com a agravante de serem, para a maioria, reformas antecipadas.
Técnicos com menos de 65 anos, alguns com 55 anos, insatisfeitos com o clima de trabalho e de incerteza que se vive nas empresas de transportes, assim decidiram.
Uns terão possibilidade de continuar a sua vida ativa profissional, talvez em áreas distintas da sua formação base, outros terão a esperança de virem a ser consultados pelos futuros concessionários privados, outros ainda terão a ilusão de uma segunda juventude e tentarão uma consultoria num país de expressão portuguesa, outros usufruindo o tempo de lazer, outros correrão o risco de se desvanecerem numa reforma de decisões continuamente adiadas.
Porém, continuará a ser verdade que os recursos humanos são o capital mais importante de uma empresa.
E portanto os ativos e o metropolitano ficarão mais pobres, agravada a pobreza com a perda do "saber como" que os retirantes não tiveram tempo nem a quem transmitir.
E sabe-se como é dificil encontrar o caminho de uma informação técnica no meio dos arquivos digitais de Teras de Teras de informação que a transição do papel para os bytes gerou.
Estará o senhor ministro da economia e transportes satisfeito por um dos desideratos do seu plano estratégico de transportes ter  já sido atingido no metropolitano de Lisboa - a redução dos custos com pessoal.
Transferiu custos para o seu colega ministro da segurança social.
Dentro de uma lógica de recessão ou destruição criativas, não é necessária a preocupação com o "saber como".
Bastam os indicadores económicos, e acreditar no que os técnicos afetos ao pensamento dominante arranjarem como argumento técnico, seja ou não consistente, mas que possa ser apresentado numa entrevista televisiva para calar os descontentes e manter apoios indefetíveis.
Por tudo isto, respondi assim à minha jovem colega:



Cara amiga

É uma impressão muito forte ver uma lista tão extensa de colegas que vão deixar a vida ativa no metropolitano de Lisboa.
Nunca se deve escrever sob o efeito de uma emoção como essa, mas devemos também não cumprir um dever, como dizia Fernando Pessoa.
Deixe-se assim exteriorizar a raiva pela impotência perante um facto – o trabalho de muitos de nós é simplesmente ignorado e considerado um desperdício, ou um prejuízo, em vez de fonte de utilidade para a comunidade.
O grave é que um tão elevado número de técnicos abandonar repentinamente a atividade numa empresa é o mesmo que um indicador essencial para a saúde, numas análises clínicas, ter saído do intervalo de normalidade e indiciar uma doença ameaçadora, fatal se não tratada.
Imagine-se a raiva de um médico que não tem antídotos para o veneno, ou instrumentos para intervir, ou fármacos para o tratamento, enquanto recem-chegados, vindos de outros contextos, impõem as suas regras de redução de meios.

Há muitos anos, poucos meses depois de ter entrado ao serviço do metropolitano, viajava eu numa carruagem de metro, ainda as ML-7, encostado à porta da cabina do maquinista, depois de um dia de trabalho às voltas com o cálculo e traçado dos diagramas de marcha.
Aquelas portas tinham um pequeno orifício.
Era das primeiras coisas que nos diziam quando entravámos para o metro.
“Não espreite pelo buraco que uma vez alguém espetou uma esferográfica numa vista” .
Mas não era por causa do orifício que eu ia a ouvir a conversa entre o maquinista e um colega a que dava boleia na cabina.
A chapa deixava passar os sons de forma intelegível, apesar do ruído da composição.

O 25 de Abril de 1974 tinha acontecido havia pouco e era o tempo dos plenários em que todos podiam exprimir-se e em que aos poucos se foi redefinindo a estrutura da empresa, em debate mais ou menos alargado, como raramente veio a repetir-se.
Outros dirão que a reorganização do metro e dos transportes foi obra de senhores com gravata, muito sérios e compenetrados do seu alto saber e poder reconhecido pela democracia recente.
Talvez, mas o entusiasmo que se viveu na altura, em que se sentia a possibilidade de redestribuir o rendimento nacional de forma mais justa, deslocando-o do território do capital para o do trabalho, e de intervir no destino das empresas em que se trabalhava deixou a memória de que não, que não foram, naqueles primeiros tempos depois da revolução, os senhores engravatados que decidiram como o metro ia ser.

Porém, estas coisas têm os seus riscos.
À saída das estações do metro ouviam-se gritos de jovens radicais, às vezes com cara de poucos amigos, sobraçando o jornal do partido, o Luta Popular, e tentando salvar a população não só das forças imperiais e capitalistas, mas também do revisionismo pró soviético.
Do mesmo modo, nos plenários do metro, nas diferentes secções de trabalho e oficinas, aparecia sempre um ou outro militante do MRPP a doutrinar os colegas contra os lacaios do imperialismo.
E era isso mesmo que fazia o colega  a quem o maquinista tinha dado boleia e que eu escutava, encostado à porta da cabina, enquanto a composição chegava à estação Palhavã, que era como se chamava então a estação Praça de Espanha.

Tinhamos então no metro 105 maquinistas e outros tantos técnicos de engenharia.
E dizia o colega, enquanto o maquinista travava suavemente a composição na entrada da estação: “A culpa de não haver dinheiro é da quantidade de engenheiros que cá temos. Não fazem nada, ganham bem e não servem para nada”. E prosseguiu com acusações demolidoras de obediência dos engenheiros aos desígnios imperialistas de Washington e de Moscovo, com o mesmo entusiasmo dos vendedores do Luta Popular, prometendo intervenções decisivas no próximo plenário.
Ainda pensei bater à porta da cabina e desfiar alguns argumentos idealistas de um recem licenciado, esperançoso nas virtudes e nas capacidades da engenharia para contribuir para o bem estar e para a prosperidade de uma comunidade.
Mas o colega irascível seria surdo à definição do problema que justifica uma abordagem com regras para se observar bem e se colocarem hipóteses para a sua solução, para as testarem, para ver bem os parâmetros e as interações em jogo, para executar depois o programa de realização no concreto e ensaiar a obra, o sistema ou o equipamento antes de o colocar em serviço.
E na verdade, se ele estivesse surdo aos argumentos, era porque os engenheiros não eram mesmo necessários.

Pensei nisto com revolta quando vi bem o número elevado de colegas que agora abandonam a vida profissional ativa no metropolitano de Lisboa.
Achei que o colega irascível tinha triunfado.
A esperança do 25 de Abril, de braço dado com o all you need is love dos Beatles e a canções de Zeca Afonso desvaneceu-se  ao longo dos anos.
Com as nossas questiúnculas internas se ia podendo, mas a escola de Chicago de Hayeck e Friedmann e a Goldman Sachs, promovida por Reagan a agencia do governo, fizeram evoluir a economia para a completa desregulação, para a especulação virtual e para o triunfo do interesse egoísta.
Thatcher ajudou, disse que quem aos 30 anos ainda andasse de autocarro devia considerar-se um falhado.
Eram as ideias do MRPP, filtradas pelos académicos das universidades com impacto no mundo da gestão, que triunfavam.
Não é verdade que o senhor presidente da Comissão Europeia foi um distinto militante do MRPP, nos tempos em que eu escutava, encostado à porta da cabina de um ML-7, as doutrinas do seu correlegionário proletário no metro a quem o maquinista deu boleia?

O excesso de oferta de produção e de técnicos, as prodigiosas possibilidades da informática, da eletrónica  e das telecomunicações fizeram esquecer aos decisores a importância do raciocínio cientifico partilhado e referendado.
A economia de _Hayeck e de Friedmann expandiu-se como uma religião de prosélitos entusiasmados.
E começou então a politica de descrédito das empresas publicas e de quem lá trabalha.
Alguns acidentes em Inglaterra com os comboios privatizados não demoveram os académicos entusiasmados com as novas ideias e com os êxitos da informática bancária.
Assim se formaram os governantes que agora temos e as soluções politicas para as questões das dividas mais ou menos estruturais.
O conhecimento cientifico e o “saber como” dos técnicos de engenharia foi sendo menosprezado e considerado qualquer avanço tecnológico como só o sendo se produzisse lucro.
Não faria melhor o colega a quem o maquinista do ML-7 em 1974 deu boleia, enquanto eu escutava encostado à porta da cabina.

Não fui eu que pus os comboios a andar de cada vez que se fez uma ampliação, nem nenhum dos que agora se afastam.
Fomos nós todos.
E parece que agora não somos precisos.
Será.
E se assim for é porque existe a lei da inércia.
O que fizemos foi suficientemente bem feito para continuar a andar, mesmo sem nós.
Durante muito tempo.
O tempo suficiente para passar o pesadelo que se vive.
O pesadelo da incerteza e da insegurança.
Parafraseando o senhor deputado, eles, os senhores governantes, sabem lá o que são metropolitanos, como funcionam, como se fazem, para que servem e porque são úteis.
É natural que nos ignorem.

Tenho pena de não ter podido ficar mais um tempo com os que agora saem, eu que passei à reforma há um ano, por me sentir com poucas forças para defender o conceito de serviço público e de aplicação dos princípios da engenharia no metropolitano tal como os entendia, num contexto que já me pareceu adverso, mas que não pensei conduzisse à ameaça presente.
Não me arrependo de ter sido exigente para os colegas mais novos por os ver agora desconsiderados, uma vez que se tivéssemos sido negligentes, o conceito que do trabalho de nós todos faz o senhor ministro é o de aproveitadores de regalias à custa dos contribuintes  (lá vem escrito no PET: "vamos acabar com as regalias").

Gostaria que os senhores governantes que agora nos querem ensinar a aumentar a eficiência do metropolitano soubessem que no tempo em que andavam de calções, logo a seguir ao 25 de Abril, algumas empresas inglesas e norte-americanas deixaram de lhe vender peças sobresselentes e o metropolitano não parou por causa disso, nem por as vicissitudes dos mercados terem encarecido os fornecimentos ao longo dos anos face ao pobre escudo, forçando os técnicos do metro a encontrar soluções mais económicas.
Fomos depois acusados de despesistas e de contrair dividas astronómicas.
Bem gostaria de o ter evitado, mas o clima de novo-riquismo pesou mais nas decisões das administrações.
Que culpa têm os trabalhadores dos transportes para agora serem acusados de responsáveis pelas dívidas?
Mas o resultado do seu trabalho está bem à vista.
Erguer e manter uma rede de metro, mesmo pequena como a nossa, pôr os comboios a andar com segurança, exige muita capacidade, e as estações até são queridas da população.

Sabem lá eles o que são metropolitanos e como funcionam.

Por isso acredito que os colegas mais jovens que ficarem, em todos os níveis profissionais, independentemente da fusão com a Carris, que até era um objetivo do pós-25 de Abril, na perspetiva duma estratégia de serviço da população de Lisboa e da sua área metropolitana, nada que tenha sido descoberto agora, irão aos poucos reerguendo o conceito de serviço público.
Mesmo que tenha de se penar durante uns anos até as concessões e as privatizações demonstrarem o que realmente distingue, na sua simplicidade, uma empresa privada duma empresa pública.
Na empresa privada, o objetivo principal é obter um lucro para remunerar os acionistas com dividendos.
E contas simples mostram que é muito pequena a probabilidade de que o lucro seja menor do que um diferencial positivo de produtividade relativamente à empresa pública.
Na empresa pública, o objetivo principal deve ser o bem comum (por isso já há muitos anos que se diz que a luta dos trabalhadores destas empresas não é só por eles, é também pelos passageiros, e que a repartição equilibrada de quaisquer sacrifícios por todas as classes de rendimento da sociedade é uma condição essencial), embora os colegas que pensam como o colega a quem o maquinista deu boleia em 1974, enquanto eu escutava a conversa, possam achar que não, que não é o bem estar e a prosperidade da comunidade o objetivo principal.

Como dizia o chefe de esquadra da policia, no Ovo da serpente, de Ingmar Bergmann (a história passa-se no tempo da ascensão do nazismo alemão), se cada um fizer bem o seu trabalho (e os jovens que ficarem vão ter esse trabalho, embora num oceano injusto de desemprego, o que lhes aumenta a responsabilidade perante os que não tiverem a sorte de ter um emprego),  a força que daí resultar será eficaz contra a serpente.

Os técnicos que trabalham no metro sabem melhor do que os economistas e os políticos o que fazer quando um equipamento ou um sistema não está a funcionar bem.
E também saberão transportar esse conhecimento para os casos concretos da vida da comunidade.
Os problemas das dividas e da falta de capital reprodutivo para investimento obedecem às mesmas leis da física que tratam os escoamentos de fluidos.
Se o fluido despareceu, tem de se analisar por onde, tapar as fugas e regular os fluxos canalizando-os para onde produzam trabalho útil com proveito para os utilizadores.
E por isso vamos ter confiança em melhores dias.


Sim, minha senhora, digo tudo isto para lhe dizer que sim, irei ao jantar, opção carne, e prometo que não me vou comover, nem desanimar ninguém, nem tentar convencer seja quem for do que eu penso sobre as causas das coisas e das soluções para os problemas.  


Um abraço do colega reformado

sábado, 17 de dezembro de 2011

Um problema de transportes maritimos

A principal empresa brasileira de extração de minério de ferro tinha um problema.
O preço dos fretes estava a aumentar de forma incomportável.
Feitas as contas, se a empresa encomendasse a estaleiros sul-coreanos a construção de 19 supercargueiros, com capacidade da ordem de 400 mil toneladas de minério, muito superior à dos cargueiros normais (o rendimento do transporte maritimo aumenta com a dimensão do navio), os lucros marginais gerados superariam o investimento.
E assim fizeram.
O problema é que a China, um dos principais importadores de minério de ferro brasileiro, não autorizou a acostagem de navios com a capacidade dos supercargueiros para não afetar os armadores chineses (oficialmente a desculpa é de que não há cais para navios tão grandes).
Depois, o preço dos fretes  baixou 3,5 vezes (não é saudável uma baixa destas porque o preço não reflete o custo de produção e da cobertura de riscos).
Finalmente, o casco do navio almirante abriu fendas (vale que já tem casco duplo, de acordo com as novas regras) quando estava a ser carregado.
http://economia.ig.com.br/vale-so-sabera-o-que-causou-rachadura-em-supercargueiro-em-2012/n1597411094790.html

Conclusão: a empresa vai vender a sua frota de supercargueiros a preço inferior ao custo e vai voltar a encomendar fretes às empresas de transporte maritimo. E a organização internacional maritima vai rever as normas de segurança dos cargueiros.

Serve este exemplo para mostrar os riscos da inovação e da insuficiencia dos testes antes da colocação em serviço.
Assunto relacionado com a segurança nos transportes, essencial quando se tomam decisões, quer se trate de navios, aviões, metropolitanos ou pontes rodoviárias (o dinheiro gasto em testes é menos do que o valor dos riscos possíveis).

Paradoxos curiosos

Paradoxo 1 - o senhor presidente do banco central alemão disse sorridente que os paises endividados são como os alcoólicos.
Não vou muito fora da metáfora, porque infelizmente há muito boa gente com dependencia de drogas, mas vejamos a evolução da dívida pública entre 2000 e 2010 em % do PIB:
França:         de 57,3 para  82,3
UK :             de 41   para   79,9
Alemanha:     de 59,7 para  83,2

Paradoxo 2 - uma das razões apresentadas pelo atual governo (e tambem pelo anterior), é que "o Estado" gere as empresas pior que os privados. No caso da privatização dos 21% da EDP, acabam de ser selecionadas, no procedimento de ajuste direto por consulta a um numero limitado de concorrentes, três  potenciais compradores que são empresas ou de capitais públicos ou apoiadas (contraditoriamente à luz das regras da UE) pelo "Estado".

Ryncophorus ferrugineus - o escaravelho bicudo da palmeira





http://www.drapalg.min-agricultura.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=185&Itemid=36

Voltando ao tema, verifica-se que a maior parte das palmeiras à beira do rio, na Expo, entre a marina e o teatro Camões, já estão atacadas.
Impressiona como é fácil a propagação da doença, através do escaravelho, que é um coleóptero com um voo de raio de ação de 5 km, atraído pelos odores da seiva das palmeiras.
São as larvas que, depositadas em buracos nos tecidos mais brandos da coroa da palmeira se vão alimentando através do interior.
Existem 3 ou 4 gerações de larvas por ano.
O Instituto de Agronomia recomenda incinerar as palmeiras depois de aplicar inseticida para tentar evitar que os escaravelhos voem para árvores mais próximas ainda não afetadas.
Mas será solução?
Não será preferível deixar os escaravelhos levarem a colonização das mais gravemente atacadas até ao ponto de insustentabilidade para eles próprios (ponto de vista de Adam Smith, não intervir) , enquanto se protegem preventivamente as árvores ainda não afetadas, sabendo que entre outubro e abril o voo do escaravelho está limitado pelas condições ambientais (ponto de vista do estado social, intervenção preventiva) e se tratam as atacadas?
Como sobreviveram as palmeiras até agora? Terá havido alteração genética, nelas ou no ryncophorus ferrugineus?
Tratamento preventivo: Instalação de armadilhas com feronomas e inseticida para atrair e matar os escaravelhos, interrompendo o ciclo sexual
Tratamento: pulverização com inseticida da coroa da palmeira ou  injeção de inseticida na base do tronco; aplicação nos orificios das larvas de adubo e de uma espécie de nematodo que se alimenta das larvas (curioso, é outra espécie de nemátodo que, propagado por outro inseto, o longicórneo, anda a dar cabo dos pinheiros silvestres portugueses).

Assunto aborrecido e sem interesse?
Talvez não, porque se dá o caso de haver uma determinação de 2007 da UE que manda combater a praga para impedir a sua disseminação.
Infelizmente, no nosso país este é o comportamento normal.
Embora há anos que se tenha visto a degradação progressiva das palmeiras, só agora se começa a falar claramente.
Estaremos em mais uma situação em que não vai fazer-se o que diz a determinação comunitária porque "não há dinheiro".
E contudo, há fundos QREN disponíveis para isto, mas exigem um planeamento cuidado, coisa que não está nos hábitos nacionais.
Então o mais provável será uma solução à medida da atual política de austeridade: queimam-se as palmeiras. Alguem dirá, mais ou menos inspirado no senhor ministro da economia e transportes (para salvar as empresas de transportes da falencia, e os empregos de 17.000 (menos alguns) funcionários, vamos ter de despedir alguns desses 17.000 funcionários) que para salvar as palmeiras que for possivel salvar se queimarão as palmeiras que for preciso queimar.
Vamos continuar com um aeroporto que não cumpre as determinações de ruido da UE porque não há dinheiro, nem um plano credível de faseamento da construção de um novo aeroporto conforme com as regras.

É uma pena não se parar um pouco para se pensar, para pôr hipóteses.
Como estas:
- a falta de atenção aos ataques dos parasitas que põem os seus instrumentos de acumulação das mais valias a alimentar-se de organismos indefesos conduz a situações de insustentabilidade desses organismos;
- para além da ausencia de regulação do fenómeno anterior, a falta de adoção de ações baseadas na análise científica das relações de causa e efeito e das circunstancias catalisadoras dos fenómenos conduz ao agravamento do estado sanitário dos organismos
- o tratamento eficaz de uma praga assim não é compativel com uma contenção de custos; teme-se um arranque maciço de árvores e uma diminuição da qualidade de vida e ambiental.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ao manifestante desconhecido





Felicitações à revista Time, por ter tido o discernimento de escolher para personalidade do ano o manifestante desconhecido, desde a Tunisia, o Egito e a Siria, até aos ocupantes de Londres, Wall Street, Madrid.
Por não querer encandear os leitores com o brilho de grandes inventores, políticos, atores ou economistas, que afinal pouco contribuiram para o cumprimento dos artigos XXII  e XXIII da Declaração universal dos direitos humanos:

art. XXII: "Todas as pessoas, como membros da sociedade, têm direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade" 
art. XXIII:  "Todas as pessoas têm direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego".

O manifestante desconhecido fez mais por isso e foi portanto bem escolhido.
Duvido que os politicos e os economistas com poder decisório tenham percebido.
Duvido que o primeiro ministro e o seu adjunto, vaiados em Matosinhos em 14 de dezembro de 2011 tenham percebido.

A fé na sua ideologia será superior à força com que a senhora jovem desempregada com o filho ao colo bateu no tejadilho do carro oficial por entre seguranças preocupados.
A fé, sem razão, nas ideologias, em vez do estudo das necessidades reais e da escolha participada e alargada das soluções, independentemente das ideologias, gera, como Goya pintou, monstros.
Por isso há manifestantes desconhecidos, mesmo que muitos reproduzam o erro dos decisores, e tenham fé sem razão em ideologias.
Como Paul Krugmann escreveu, "who’s really being un-American here? Not the protesters, who are simply trying to get their voices heard. No, the real extremists here are America’s oligarchs, who want to suppress any criticism of the sources of their wealth".




Ainda os escaravelhos que atacam as palmeiras

Sobre a praga do escaravelho que ataca as palmeiras, ver a informação disponibilizada pela CML em

http://www.cm-lisboa.pt/archive/doc/Praga_Palmeiras_-_FOLHETO.pdf

O autocarro elétrico da Caetanobus em Lisboa


LX Trenó Electrico from Câmara Municipal de Lisboa on Vimeo.

Aplausos para a CaetanoBus, de Vila Nova de Gaia, e para a EFACEC.
Já circula em testes de “endurance” em Lisboa, por um curto período, até 24 de Dezembro de 2011, o autocarro elétrico fabricado por aquelas firmas.

O autocarro pode considerar-se ainda um protótipo, pelo que o fabricante tem interesse em testar o seu comportamento em situações reais.
Com o apoio da câmara municipal de Lisboa, que forneceu o motorista e o acompanhante para esclarecimento dos passageiros, o autocarro circula das 10:00 às 21:00 parando junto das estações de metro e dos parques de estacionamento da Baixa.
O transporte é gratuito num circuito de cerca de 4,5 km, do Cais do Sodré ao Martim Moniz, passando pela Praça do Comércio, Rua da Prata, Praça da Figueira, e  do Martim Moniz  para o Cais do Sodré passando pelo Rossio, Rua do Ouro e Rua do Arsenal.


Contar, com as paragens mais prolongadas no Cais do Sodré, meia hora para cada circuito, pelo que terão de estar com atenção às passagens.
Nota-se a falta de informação nas paragens da Carris e nas estações do metro. Não estão assinalados os pontos de paragem do autocarro.


O fabrico deste autocarro beneficiou de um financiamento QREN, o que vem confirmar que é possível investir em Portugal com pouco dinheiro, com a condição de apresentar um projeto bem estruturado, bem fundamentado e com um cronograma financeiro credível (recentemente a UE aumentou a comparticipação comunitária, mas permanece a condição sine qua non, o projeto tem de estar bem feito, o que é incompatível com pressas, secretismos de gabinete e desculpas de que “não há dinheiro”).

Por maiores que tenham sido, sem duvida, os progressos da eficencia dos motores de combustíveis fósseis, é inadmissível, em termos futuros (apesar do Canadá ter desistido do protocolo de Quioto, provavelmente enfeitiçado pelas areias petrolíferas em que é rico) andar a poluir com CO2, óxidos de azoto, particulas e ruído o ambiente urbano.
Embora o preço de venda seja superior ao dobro de um autocarro diesel equivalente, e o preço das baterias seja elevado, a justificação desta tecnologia está na redução das emissões de gases com efeito de estufa e no menor custo da energia por km.

Daí que tenha sido uma má noticia a desistência da Nissan da fábrica de baterias.
Vamos ver se a CaetanoBus e a EFACEC não desistem perante as dificuldades, tendo já obtido um sucesso ao vender um autocarro que se encontra em serviço entre Frankfurt e Offenbach.
Da parte do atual governo não haverá muitas esperanças, embora o senhor ministro da economia tenha comentado, durante a visita que fez à fábrica, que era necessário ter boas ideias como esta para estimular a economia.

Seria interessante o desenvolvimento de um modelo mais pequeno que pudesse ser utilizado nas ruas da Graça e de Alfama. Esse tipo de veículo poderia ter aplicação em frotas de empresa, ou em transportes internos nas empresas.
Embora o consumo energético específico seja maior do que um veículo elétrico ferroviário, dado o maior atrito de rolamento das rodas de borracha, a vantagem do autocarro elétrico é a ausência de catenária.
É verdade que já existem trólei-buses com alguma autonomia graças a baterias ou a supercondensadores, que permitem “saltar” algumas centenas de metros sem catenária.
Mas a tecnologia deste autocarro terá alguns anos de vida útil.
Compartimentos das baterias (cerca de 1,5 ton)  nos dois flancos e na retaguarda

Algumas curiosidades: as baterias são inglesas, mas montadas a partir de células elementares de lítio e fosfato de ferro fabricadas na China; o motor elétrico, de 150 kW, é fabricado nos USA; o chassis de aço, com suspensão pneumática, vem da Alemanha, a carroçaria de alumínio é de Vila Nova de Gaia, a integração da eletrónica e software é da EFACEC, coroando uma obra de engenharia de alto valor .

Consumos já testados durante 3 meses em Vila Nova de Gaia: 1,2 kWh/km (o meu pessimismo estimaria 1,5 kWh/km) a uma média de 14 km/h, o que dá uma autonomia entre cargas de 80 a 100km sem comprometer a longevidade das baterias (70 km, segundo o meu pessimismo, mas suficiente para um serviço diário correspondente ). Comparar com consumos típicos de autocarros diesel entre 40 e 50 litros/100km (equivalente energético de 4 kWh/km).

Seria interessante a CML estender por mais uns dias os ensaios, diversificando os percursos de modo a incluir troços inclinados, como por exemplo a Av.Almirante Reis. Isso permitiria testar o comportamento do autocarro nas subidas, eventualmente carregando-o com sacos de areia ou bocados de carril, como se faz no metropolitano de Lisboa.

Fixação de cadeiras de rodas

Rampa rebatível pelo motorista

Vale a pena também chamar a atenção para as soluções neste autocarro da fixação de cadeiras de rodas e da rampa rebatível para estas. Penso que o metropolitano ganharia em aplicar soluções semelhantes nas suas automotoras, ainda que para isso fosse necessário recorrer a um financiamento QREN. Mas eu sou suspeito, uma vez que durante muitos anos tentei isso em vão.




Finalmente,  seria desejável que a Carris, o Metro e as empresas dos parques de estacionamento divulgassem esta iniciativa e convidassem os seus clientes a dar uma voltinha no autocarro elétrico.
E que a CML sinalizasse melhor os pontos de paragem e as horas de passagem.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os escaravelhos do senhor presidente da câmara

Palmeira já atacada (folhas de cima secando e esmorecendo em forma de guarda chuva. Raizes fracas e desenraizamento devido às chuvas e vento.



A notícia era preocupante e foi dada pelo próprio senhor presidente da câmara de Lisboa.
Que uma praga de escaravelhos tinha atacado as palmeiras de Lisboa.
Tardio é o diagnóstico e mais uma vez é insuficiente a informação sobre a terapêutica.
Os técnicos sanitários da vegetação devem sofrer tanto como os técnicos de transportes.
Vêem a seu devido tempo as ameaças e as inconformidades, tentam organizar um plano de resolução dos problemas, mas alguem vem dizer que não há dinheiro, ou que a solução é outra, embora não sejam técnicos da especialidade.
O dinheiro que se poupa com a não intervenção nas palmeiras é menos ou mais do que o prejuízo de se deixar morrer as palmeiras?
O que se poupa em não investir nos transportes coletivos é menos ou mais do que o prejuízo do desperdício devido à utilização do transporte individual?
Ignoro se se trata da  mesma doença que atacou as palmeiras do Algarve, depois de uma época florescente de importação de palmeiras de 10 metros de altura, para embelezar de uma noite para o dia as avenidas junto do mar e para auto-gratificação dos senhores presidentes de câmara.
No caso da doença dos transportes coletivos conheço mais ou menos as razões da praga, são os escaravelhos automóveis que absorveram a maior quota de deslocações diárias, congestionando o transito e desperdiçando combustiveis fósseis devido à menor eficiencia energética.
Ignoro se a doença da suspensão dos investimentos nos transportes coletivos vai continuar, não obstante os limites de comparticipação nacional nos investimentos estruturais terem baixado para 5% (problema: o financiamento da UE só vem se o projeto do empreendimento estiver bem feito, bem fundamentado e com a avaliação ambiental; não é compatível com projetos feitos à pressa, à medida do decisor político, e no secretismo dos gabinetes).
Na verdade ignoro, não é fornecida informação pública, possivelmente por a fonte não saber o que há-de fazer sem ser cortar nas despesas.
É uma hipótese.

PS - O Instituto Superior de Agronomia já confirmou. Trata-se da mesma praga que apareceu no Algarve em 2007. É mesmo grave e as palmeiras só se salvam se os escaravelhos forem detetados na fase inicial da infestação. Caso contrário serão incineradas. Metáfora da ameaça que paira sobre os transportes coletivos? Ou, sendo eu ignorante em botânica, ser-me-á permitido colocar a hipótese de que nem todas as palmeiras infestadas devem ser incineradas? Para evitar que os escaravelhos fujam para as que ainda estão sãs? E também poderei colocar a hipótese de que os escaravelhos movem-se apenas pelo interesse egoista e a sua atividade não foi devidamente controlada e regulada por quem foi eleito para isso? Como proteger as empresas de transportes dos escaravelhos?

Requiem pela fábrica de baterias da Nissan

Nunca fui um entusiasta do governo anterior.
Mas como técnico, reconhecia publicamente que a sua politica no dominio das energias renováveis, incluindo a sua aplicação aos transportes, estava correta.
O atual governo, onde predomina a formação economista, como tal sem massa critica para decidir com conhecimento de causa, provavelmente aconselhada por técnicos de engenharia com menor sensibilidade para as energias renováveis, e mais vocacionados para a gestão dos combustíveis fósseis, suspendeu os programas de instalação de centros de produção de energia renovável e os programas de mobilidade elétrica.

Não surpreende portanto a desistencia da Nissan da sua fábrica de baterias para automóveis elétricos. Provavelmente a tecnologia das baterias de lítio evoluirá assim como a forma de armazenamento do hidrogénio no automóvel , em depósitos sob pressão ou sob a forma de hidretos químicos (o automóvel elétrico é o mesmo nos dois casos: com baterias, a fonte de energia são as baterias; no caso do automóvel alimentado por hidrogénio, a fonte de energia é a pilha de combustivel) . Poderá vir a acontecer o mesmo que aconteceu com as memórias de ferrite de computador, tornadas obsoletas em poucos anos. Porém, os investimentos justificam-se prevendo o tempo de vida util e a possibilidade de reconversão das fábricas.

Pelo que o mais provável terá sido a Nissan, verificando a anulação do programa de mobilidade elétrica (instalação de postos de carregamento públicos, planeamento de frotas de ambito municipal de viaturas elétricas ligeiras ou de mini-autocarros), polidamente informar o governo português que a conjuntura internacional não está boa para investir em mais fábricas. É que a ideia era tambem desenvolver o mercado de automoveis eletricos em Portugal (e em Israel) para testar a viabilidade de expansão do sistema (notar que estão em desenvolvimento sistemas de substituição de baterias seladas em regime de "pool" para troca rápida, uma vez que o tempo de carregamento é sempre elevado) .

É patético ver um primeiro ministro a falar sobre automóveis elétricos, dizendo que está muito contente por a AutoEuropa continuar a investir em Portugal e que se a Nissan não quis investir não foi por ter o memorando na gaveta.
Mas no dia em que se sabe que o Canadá não subscreveu a prorrogação do protocolo de Quioto, declarando que não está para pagar multas, é provável que a influencia que a cultura canadense exerce sobre o senhor ministro da economia explique as decisões tomadas em transportes de tecnologia elétrica.
Parafraseando o senhor deputado, que sabem estes senhores governantes de veículos elétricos? e dos efeitos nefastos das suspensões de projetos em curso?

E contudo, eles movem-se por eletricidade. Baterias em carregamento na Praça de Londres enquanto o dono está na sua vida. Existem 1062 postos de abastecimento.

Estais de parabens, não vai haver ópera

Senhores governantes responsáveis pela cultura pública, estais de parabens.
Tinheis uma despesa a suprimir e fizestes mais do que suprimi-la.
Eliminastes a necessidade da despesa.
Para isso deixastes as ervas daninhas da televisão, desde as telenovelas e concursos aos reality-shows, crescerem até afogarem a necessidade de espetáculos culturais.
Já não é preciso ópera.

Parafraseando o senhor deputado: Que sabeis vós de ópera e de cultura para decidirdes assim?

Num orçamento de cultura já de si insignificante, deveis ter poupado muito, sim senhor.

Eu bem dizia que a ópera é um espetáculo popular e subversivo, que o diga John Adams a explicar que entre um palestiniano e um judeu não há diferenças de código genético, ou Verdi a explicar que não se apedreja a mulher adúltera, ou Nuno Corte Real a denunciar o gangsterismo bancário.

Então manda-se recado às produtoras de ópera que tinham sido contratadas há quase dois anos (é, é um mercado em que os contratos se fazem com grande antecedencia) e diz-se que só há espetáculo se fizerem um desconto.
Que terão pensado as produtoras?
E as cláusulas de indemnização por rescisão, terão acionado? (os adjudicatários do TGV para o Caia e para a travessia do Tejo irão acionar as cláusulas? ).

Nesta apagada e vil tristeza assim continuaremos, agora sem ópera.
Consta que ainda deixam apresentar uma das 5 óperas previstas para 2012: Cosi fan tutte, de Mozart. Traduzindo: assim fazem todas. Lá está, uma ópera subversiva para a moral dominante: duas jovens mulheres a flirtar enquanto os noivos não chegam.

E se subvertessemos as coisas e fizessemos como em New York? Subscrições publicas para a produção dos espetáculos, publicidade e venda dos direitos de transmissão.
Ou então, concurso público para concessão do teatro de S.Carlos, talvez ao teatro de Madrid ou de Milão.

Mais um defice colossal, desta vez no 2ºsemestre de 2011

Com a devida vénia ao DN, ao dinheirovivo.pt e a Antonio Peres Metelo, resumo as contas do seu artigo:




Temos assim que, no 1º semestre de 2011, para alem das despesas extraordinárias não previstas no orçamento, apareceram ainda 900 milhões de euros de despesas ordinárias (relativas ao funcionamento normal das instituições publicas, linha 8).
E no 2º semestre de 2011, a acreditar nas declarações do senhor primeiro ministro de 4 de dezembro de que houve um "excedente" de 2000 milhões de euros, temos que apareceram 2650 milhões de euros de despesas ordinárias não previstas (linha 19).
Isto é, no período de responsabilidade do novo governo, com todos os cortes de gorduras anunciados e com todo o escrutínio das contas com e sem troica, as despesas ordinárias não previstas cresceram, de um semestre para o outro, quase 200%.
Evidentemente que os especialistas de "marketing" explicarão que o dinheiro está a ser canalizado para antecipar o pagamento de dívidas ou para pagar dívidas em atraso (e os 78000 milhões de euros do memorando com a troica eram para...?) e que um ignorante de economia como eu não pode ter a pretensão de perceber como estas coisas funcionam.
Porém, se eu apresentasse em casa umas contas para pagar com esta imprecisão de um semestre para o outro, como reagiria a minha mulher?
E se, colocando outra hipótese, se o gestor de conta do meu banco me anunciasse no fim de um semestre que eu teria de pagar uma divida muito maior do que a que me tinha anunciado no semestre anterior, como avaliaria eu a competencia técnica contabilistica desse gestor? Ou admitiria antes que ele esteve a ocultar-me informação? E se sim, que confiança poderia eu ter nele? é que ele estava a gerir o meu dinheiro, era eu o dono do ativo (como qualquer um de nós, como cidadão, é o dono dos dinheiros publicos, não os ministros, pelo que não é admissivel a ocultação de informação nem erros de previsão tão grandes - se as declarações do senhor primeiro ministro de 4 de dezembro correspondem à verdade, claro).
É evidente que, nesta história toda, os donos dos ativos (os eleitores) gostariam de saber quem são os credores, para quem e para que setores de atividade estão sendo canalizados os empréstimos da troica, qual a sua componente produtiva, por que setores de distribui a divida, que dinheiro entra no país e que dinheiro sai, isto é, gostariam que fosse feita uma auditoria às dividas.
Que é assim que fazem quando as contas de casa correm mal.
Mas não estou seguro de que os contabilistas que detêm o poder queiram fazer isso.

Ficheiro Excel em:


PS em 14 de dezembro de 2011 - O senhor secretário de estado da administração pública, Helder Rosalino, veio esclarecer que no orçamento de 2011 apenas se inscreverão, como receitas extraordinárias, 55% dos 6000 milhões de euros do fundo de pensões da banca, a saber, 3300 milhões de euros. 
Isto é, está esclarecida a função dos restantes 45%, os 2650 milhões de euros da linha 19 do quadro (a menos de 50 milhões...) . São o veneno do presente envenenado para os orçamentos de 2012 e seguintes, para ir tapando a despesa do pagamento das pensões dos bancários.
Consegue-se assim um defice orçamental de 4,5% do PIB para 2011, em vez dos 5,9% da troica.
Porém, ouvidos alguns senhores economistas mais cotados na praça económica do que este humilde escriba, registe-se o que dizem:
Silva Lopes: "...vamos ficar a pagar as pensões. É um defice artificial..."
João Loureiro: "... é um artificio contabilistico..."
Miguel Beleza: "...esta receita é fictícia, é uma aldrabice.Todos os governos fazem isto..."
Ora, se os sábios e os ignorantes dizem o mesmo, é porque é mesmo assim. Se um contabilista que trabalhasse para mim me apresentasse estas contas, eu mudava de contabilista.







terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O transporte ferroviário e a feira provisória de Santos






Feira popular de Santos, durante o mês do natal de 2011, em Lisboa.
Uma das razões por que as pessoas trabalham, é para obter rendimentos que lhes permitam oferecer divertimentos às crianças.
Digo as coisas assim para explicar aos senhores contabilistas que andam a tomar decisões, que o valor dos benefícios dessa ação, oferecer divertimento a crianças, deve ser contabilizado quando se contabiliza o rendimento utilizado na sua compra.
Obviamente que os beneficios são a alegria das crianças e o contributo para a sua estabilidade emocional em período de desenvolvimento mental. 
Digo assim para explicar aos senhores contabilistas que andam a tomar decisões que numa equação em que num dos membros se contabilize a poupança por não se ter gasto dinheiro na feira, deverá contabilizar-se, no outro lado, os prejuízos de termos agora as crianças tristes  e emocionalmente instáveis, e a incapacidade, no futuro, de evitarem que outros contabilistas com as mesmas ideias tomem decisões análogas.
Digo também as coisas assim para recordar a miséria moral que foi a permuta dos terrenos da câmara municipal onde se encontrava a antiga feira popular com os terrenos de uma construtora no Parque Meyer.
Numa altura em que deixou de haver investimento publico em infraestruturas, valerá a pena recordar que nos tempos da bancarrota de 1892 se faziam subscrições publicas.
Em alternativa, talvez fazer um concurso público internacional para concessão de uma feira popular.
Mas o interesse do video é tambem o de recordar,  uma vez que o PET descobriu que o transporte rodoviário por autocarros é mais económico (claro, uma automotora diesel de tecnologia antiga com capacidade para 150 passageiros consome mais combustível do que uma carrinha diesel common rail), que a força resistente do atrito de rolamento devido ao contacto de uma roda de ferro com um carril é de 3 a 7 vezes menor, crescendo a diferença com   a velocidade, do que no caso do pneu com o asfalto.
Por isso o comboiozinho movido por energia gravítica, da feira provisória de Santos, faz 16 arremetidas, perdendo apenas 1m de cada vez.
Se as rodas fossem de borracha...fazia 5 arremetidas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Arvo Part, compositor estónio e o seu Miserere





Procurei no youtube o Miserere de Arvo Part, compositor estónio, e só encontrei este.
Não liguem às imagens, que foram tiradas do Ivan o Terrivel de Eisenstein, filmado muitos anos antes da musica ter sido composta.
Arvo Part compõe predominantemente musica religiosa, num estilo considerado minimalista com ligação aos cantos religiosos do século XV, conforme retirei de:
http://en.wikipedia.org/wiki/Arvo_P%C3%A4rt
Foi recentemente convidado para integrar o conselho para a cultura do Vaticano.
Penso que a sua música será de fácil adesão nos momentos mais tranquilos, associados à ideia de espiritualidade (até ao instante 5:40 neste vídeo, por exemplo), ou nos momentos mais vistosos, associados aos aspetos dramáticos (depois do instante 5:40).
O Miserere foi escolhido pelo realizador Nino Moreti de "Habemus papam" para acompanhar as imagens finais da renuncia do papa eleito, por se sentir impotente para as tarefas pensadas.
O Miserere de Arvo Part poderá ser assim a metáfora da incapacidade ou do não aproveitamento das pessoas para os objetivos de bem comum que desejamos.
Curiosamente, foi recentemente nomeado membro do referido conselho da cultura do Vaticano o português José Tolentino de Mendonça, que, em entrevista ao DN, a propósito das relações entre a religião, a cultura e a ciencia teve esta frase importante:
"Determinar a fronteira e o conteúdo do bem comum nem sempre é muito claro, as não se pode desistir disso".
Este blogue, limitado no alcance das suas compreensões dos sistemas físicos em que nos integramos, diria que essa fronteira será provavelmente a linha divisória que atribuiu às ideias de Melo Antunes, a linha flutuante entre o setor público e o setor privado.
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/04/as-pedras-furadas-ou-breves-reflexoes.html
E também vem à memória deste blogue, sempre que assiste à atração centripeta pela Europa dos paises bálticos, o drama da cristianização forçada do ultimo povo báltico pagão no século XIV pelos cavaleiros teutões.
Sem que o blogue tenha a intenção de separar as pessoas, claro.
As guerras passadas devem ser fonte de união e não de divisão, por revelarem como tão vítimas são os vencidos como os vencedores, e como a natureza humana em certos momentos do processo histórico corresponde ao "miserere", esperando-se naturalmente que essa condição seja ultrapassada no devir histórico, que para isso a humanidade já dispõe de tecnologia.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O sacrifício da dama

Com a devida vénia à secção de xadrez do DN, vejam este problema:

As brancas jogam com mate em duas jogadas

Os problemas de mate em duas jogadas, como este, são normalmente abstrações (não é natural deixar chegar a dama negra a uma posição desprotegida como aquela em que está no problema)  em que se procura a solução mais rápida num jogo que já está ganho. Mas mesmo assim têm interesse para estudar as combinações possíveis e para ver como uma ação pouco frequente pode ser a resposta para o caminho mais curto.
Para encurtar razões, a solução neste caso é sacrificar a dama branca.
A dama branca em c5, ao ser tomada pelo bispo de b4 permite o mate do rei negro por cavalo em c3; se tomada pela dama negra permite o mate pelo bispo em h7; se tomada pelo peão negro de d6 permite o mate pela torre em e5; se tomada pelo cavalo negro de b3 o mate será pelo cavalo em d2; se tomada pelo cavalo de e6 o mate será pelo bispo em d5; se deixada a dama branca à solta, dará o mate em d5; se protegida a casa d5 pelo cavalo negro em f4, o mate sobrevem pelo cavalo em g3.
É verdade que o jogo já estava perdido para as pretas, assim como, se associarmos o rei negro às ameaças que pairam sobre a UE e a sua moeda, podemos, ingenuamente ou talvez não, acreditar que as más jogadas dos ultimos anos não vão impedir que se ganhe o jogo da Europa unida e solidária, com politicas de emprego e de geração seletiva de riqueza util.
Mas conviria realmente, para que Obama e Paul Krugman ("os paises do norte vão acumular superavits, e os paises periféricos vão dizer adeus à prosperidade") não andem tão preocupados com as más decisões e indecisões da ultima cimeira (de facto,  para uma mente norte americana deve ser muito dificil entender por que o BCE não pode fazer o mesmo que a reserva federal dos USA; talvez seja porque nenhum governante europeu disse dos bancos o que o presidente Jackson disse:Também tenho sido um observador atento do que o Second Bank of the United States tem feito. Tenho colaboradores a vigiar-vos há longo tempo e estou convencido de que vocês usaram os fundos do banco para especular . Quando ganham, dividem os lucros entre vocês; quando perdem, debitam ao banco… vocês são um ninho de víboras e de ladrões”), que se apressassem as medidas realmente eficazes, ainda que fosse preciso contrariar o senhor governador do BCE, Mario Draghi.
Muito bem, agora que expliquei o problema de xadrez, vamos sacrificar a dama?