quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Estais de parabens, não vai haver ópera

Senhores governantes responsáveis pela cultura pública, estais de parabens.
Tinheis uma despesa a suprimir e fizestes mais do que suprimi-la.
Eliminastes a necessidade da despesa.
Para isso deixastes as ervas daninhas da televisão, desde as telenovelas e concursos aos reality-shows, crescerem até afogarem a necessidade de espetáculos culturais.
Já não é preciso ópera.

Parafraseando o senhor deputado: Que sabeis vós de ópera e de cultura para decidirdes assim?

Num orçamento de cultura já de si insignificante, deveis ter poupado muito, sim senhor.

Eu bem dizia que a ópera é um espetáculo popular e subversivo, que o diga John Adams a explicar que entre um palestiniano e um judeu não há diferenças de código genético, ou Verdi a explicar que não se apedreja a mulher adúltera, ou Nuno Corte Real a denunciar o gangsterismo bancário.

Então manda-se recado às produtoras de ópera que tinham sido contratadas há quase dois anos (é, é um mercado em que os contratos se fazem com grande antecedencia) e diz-se que só há espetáculo se fizerem um desconto.
Que terão pensado as produtoras?
E as cláusulas de indemnização por rescisão, terão acionado? (os adjudicatários do TGV para o Caia e para a travessia do Tejo irão acionar as cláusulas? ).

Nesta apagada e vil tristeza assim continuaremos, agora sem ópera.
Consta que ainda deixam apresentar uma das 5 óperas previstas para 2012: Cosi fan tutte, de Mozart. Traduzindo: assim fazem todas. Lá está, uma ópera subversiva para a moral dominante: duas jovens mulheres a flirtar enquanto os noivos não chegam.

E se subvertessemos as coisas e fizessemos como em New York? Subscrições publicas para a produção dos espetáculos, publicidade e venda dos direitos de transmissão.
Ou então, concurso público para concessão do teatro de S.Carlos, talvez ao teatro de Madrid ou de Milão.

Mais um defice colossal, desta vez no 2ºsemestre de 2011

Com a devida vénia ao DN, ao dinheirovivo.pt e a Antonio Peres Metelo, resumo as contas do seu artigo:




Temos assim que, no 1º semestre de 2011, para alem das despesas extraordinárias não previstas no orçamento, apareceram ainda 900 milhões de euros de despesas ordinárias (relativas ao funcionamento normal das instituições publicas, linha 8).
E no 2º semestre de 2011, a acreditar nas declarações do senhor primeiro ministro de 4 de dezembro de que houve um "excedente" de 2000 milhões de euros, temos que apareceram 2650 milhões de euros de despesas ordinárias não previstas (linha 19).
Isto é, no período de responsabilidade do novo governo, com todos os cortes de gorduras anunciados e com todo o escrutínio das contas com e sem troica, as despesas ordinárias não previstas cresceram, de um semestre para o outro, quase 200%.
Evidentemente que os especialistas de "marketing" explicarão que o dinheiro está a ser canalizado para antecipar o pagamento de dívidas ou para pagar dívidas em atraso (e os 78000 milhões de euros do memorando com a troica eram para...?) e que um ignorante de economia como eu não pode ter a pretensão de perceber como estas coisas funcionam.
Porém, se eu apresentasse em casa umas contas para pagar com esta imprecisão de um semestre para o outro, como reagiria a minha mulher?
E se, colocando outra hipótese, se o gestor de conta do meu banco me anunciasse no fim de um semestre que eu teria de pagar uma divida muito maior do que a que me tinha anunciado no semestre anterior, como avaliaria eu a competencia técnica contabilistica desse gestor? Ou admitiria antes que ele esteve a ocultar-me informação? E se sim, que confiança poderia eu ter nele? é que ele estava a gerir o meu dinheiro, era eu o dono do ativo (como qualquer um de nós, como cidadão, é o dono dos dinheiros publicos, não os ministros, pelo que não é admissivel a ocultação de informação nem erros de previsão tão grandes - se as declarações do senhor primeiro ministro de 4 de dezembro correspondem à verdade, claro).
É evidente que, nesta história toda, os donos dos ativos (os eleitores) gostariam de saber quem são os credores, para quem e para que setores de atividade estão sendo canalizados os empréstimos da troica, qual a sua componente produtiva, por que setores de distribui a divida, que dinheiro entra no país e que dinheiro sai, isto é, gostariam que fosse feita uma auditoria às dividas.
Que é assim que fazem quando as contas de casa correm mal.
Mas não estou seguro de que os contabilistas que detêm o poder queiram fazer isso.

Ficheiro Excel em:


PS em 14 de dezembro de 2011 - O senhor secretário de estado da administração pública, Helder Rosalino, veio esclarecer que no orçamento de 2011 apenas se inscreverão, como receitas extraordinárias, 55% dos 6000 milhões de euros do fundo de pensões da banca, a saber, 3300 milhões de euros. 
Isto é, está esclarecida a função dos restantes 45%, os 2650 milhões de euros da linha 19 do quadro (a menos de 50 milhões...) . São o veneno do presente envenenado para os orçamentos de 2012 e seguintes, para ir tapando a despesa do pagamento das pensões dos bancários.
Consegue-se assim um defice orçamental de 4,5% do PIB para 2011, em vez dos 5,9% da troica.
Porém, ouvidos alguns senhores economistas mais cotados na praça económica do que este humilde escriba, registe-se o que dizem:
Silva Lopes: "...vamos ficar a pagar as pensões. É um defice artificial..."
João Loureiro: "... é um artificio contabilistico..."
Miguel Beleza: "...esta receita é fictícia, é uma aldrabice.Todos os governos fazem isto..."
Ora, se os sábios e os ignorantes dizem o mesmo, é porque é mesmo assim. Se um contabilista que trabalhasse para mim me apresentasse estas contas, eu mudava de contabilista.







terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O transporte ferroviário e a feira provisória de Santos






Feira popular de Santos, durante o mês do natal de 2011, em Lisboa.
Uma das razões por que as pessoas trabalham, é para obter rendimentos que lhes permitam oferecer divertimentos às crianças.
Digo as coisas assim para explicar aos senhores contabilistas que andam a tomar decisões, que o valor dos benefícios dessa ação, oferecer divertimento a crianças, deve ser contabilizado quando se contabiliza o rendimento utilizado na sua compra.
Obviamente que os beneficios são a alegria das crianças e o contributo para a sua estabilidade emocional em período de desenvolvimento mental. 
Digo assim para explicar aos senhores contabilistas que andam a tomar decisões que numa equação em que num dos membros se contabilize a poupança por não se ter gasto dinheiro na feira, deverá contabilizar-se, no outro lado, os prejuízos de termos agora as crianças tristes  e emocionalmente instáveis, e a incapacidade, no futuro, de evitarem que outros contabilistas com as mesmas ideias tomem decisões análogas.
Digo também as coisas assim para recordar a miséria moral que foi a permuta dos terrenos da câmara municipal onde se encontrava a antiga feira popular com os terrenos de uma construtora no Parque Meyer.
Numa altura em que deixou de haver investimento publico em infraestruturas, valerá a pena recordar que nos tempos da bancarrota de 1892 se faziam subscrições publicas.
Em alternativa, talvez fazer um concurso público internacional para concessão de uma feira popular.
Mas o interesse do video é tambem o de recordar,  uma vez que o PET descobriu que o transporte rodoviário por autocarros é mais económico (claro, uma automotora diesel de tecnologia antiga com capacidade para 150 passageiros consome mais combustível do que uma carrinha diesel common rail), que a força resistente do atrito de rolamento devido ao contacto de uma roda de ferro com um carril é de 3 a 7 vezes menor, crescendo a diferença com   a velocidade, do que no caso do pneu com o asfalto.
Por isso o comboiozinho movido por energia gravítica, da feira provisória de Santos, faz 16 arremetidas, perdendo apenas 1m de cada vez.
Se as rodas fossem de borracha...fazia 5 arremetidas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Arvo Part, compositor estónio e o seu Miserere





Procurei no youtube o Miserere de Arvo Part, compositor estónio, e só encontrei este.
Não liguem às imagens, que foram tiradas do Ivan o Terrivel de Eisenstein, filmado muitos anos antes da musica ter sido composta.
Arvo Part compõe predominantemente musica religiosa, num estilo considerado minimalista com ligação aos cantos religiosos do século XV, conforme retirei de:
http://en.wikipedia.org/wiki/Arvo_P%C3%A4rt
Foi recentemente convidado para integrar o conselho para a cultura do Vaticano.
Penso que a sua música será de fácil adesão nos momentos mais tranquilos, associados à ideia de espiritualidade (até ao instante 5:40 neste vídeo, por exemplo), ou nos momentos mais vistosos, associados aos aspetos dramáticos (depois do instante 5:40).
O Miserere foi escolhido pelo realizador Nino Moreti de "Habemus papam" para acompanhar as imagens finais da renuncia do papa eleito, por se sentir impotente para as tarefas pensadas.
O Miserere de Arvo Part poderá ser assim a metáfora da incapacidade ou do não aproveitamento das pessoas para os objetivos de bem comum que desejamos.
Curiosamente, foi recentemente nomeado membro do referido conselho da cultura do Vaticano o português José Tolentino de Mendonça, que, em entrevista ao DN, a propósito das relações entre a religião, a cultura e a ciencia teve esta frase importante:
"Determinar a fronteira e o conteúdo do bem comum nem sempre é muito claro, as não se pode desistir disso".
Este blogue, limitado no alcance das suas compreensões dos sistemas físicos em que nos integramos, diria que essa fronteira será provavelmente a linha divisória que atribuiu às ideias de Melo Antunes, a linha flutuante entre o setor público e o setor privado.
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/04/as-pedras-furadas-ou-breves-reflexoes.html
E também vem à memória deste blogue, sempre que assiste à atração centripeta pela Europa dos paises bálticos, o drama da cristianização forçada do ultimo povo báltico pagão no século XIV pelos cavaleiros teutões.
Sem que o blogue tenha a intenção de separar as pessoas, claro.
As guerras passadas devem ser fonte de união e não de divisão, por revelarem como tão vítimas são os vencidos como os vencedores, e como a natureza humana em certos momentos do processo histórico corresponde ao "miserere", esperando-se naturalmente que essa condição seja ultrapassada no devir histórico, que para isso a humanidade já dispõe de tecnologia.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O sacrifício da dama

Com a devida vénia à secção de xadrez do DN, vejam este problema:

As brancas jogam com mate em duas jogadas

Os problemas de mate em duas jogadas, como este, são normalmente abstrações (não é natural deixar chegar a dama negra a uma posição desprotegida como aquela em que está no problema)  em que se procura a solução mais rápida num jogo que já está ganho. Mas mesmo assim têm interesse para estudar as combinações possíveis e para ver como uma ação pouco frequente pode ser a resposta para o caminho mais curto.
Para encurtar razões, a solução neste caso é sacrificar a dama branca.
A dama branca em c5, ao ser tomada pelo bispo de b4 permite o mate do rei negro por cavalo em c3; se tomada pela dama negra permite o mate pelo bispo em h7; se tomada pelo peão negro de d6 permite o mate pela torre em e5; se tomada pelo cavalo negro de b3 o mate será pelo cavalo em d2; se tomada pelo cavalo de e6 o mate será pelo bispo em d5; se deixada a dama branca à solta, dará o mate em d5; se protegida a casa d5 pelo cavalo negro em f4, o mate sobrevem pelo cavalo em g3.
É verdade que o jogo já estava perdido para as pretas, assim como, se associarmos o rei negro às ameaças que pairam sobre a UE e a sua moeda, podemos, ingenuamente ou talvez não, acreditar que as más jogadas dos ultimos anos não vão impedir que se ganhe o jogo da Europa unida e solidária, com politicas de emprego e de geração seletiva de riqueza util.
Mas conviria realmente, para que Obama e Paul Krugman ("os paises do norte vão acumular superavits, e os paises periféricos vão dizer adeus à prosperidade") não andem tão preocupados com as más decisões e indecisões da ultima cimeira (de facto,  para uma mente norte americana deve ser muito dificil entender por que o BCE não pode fazer o mesmo que a reserva federal dos USA; talvez seja porque nenhum governante europeu disse dos bancos o que o presidente Jackson disse:Também tenho sido um observador atento do que o Second Bank of the United States tem feito. Tenho colaboradores a vigiar-vos há longo tempo e estou convencido de que vocês usaram os fundos do banco para especular . Quando ganham, dividem os lucros entre vocês; quando perdem, debitam ao banco… vocês são um ninho de víboras e de ladrões”), que se apressassem as medidas realmente eficazes, ainda que fosse preciso contrariar o senhor governador do BCE, Mario Draghi.
Muito bem, agora que expliquei o problema de xadrez, vamos sacrificar a dama?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O mercado de escravos

Com a devida vénia ao DN, que assinalou , a propósito da descoberta de um cemitério de escravos, a efeméride da chegada a Lagos, no Algarve, do primeiro carregamento de escravos, em 1444.
Segundo o cronista Azurara, o infante D.Henrique assistiu ao desembarque.
D.Henrique era um empreendedor, possuidor do "know how" que a casa de Lencastre detinha.
Do ponto de vista do processo histórico, talvez se possa falar no despontar de uma forma de burguesia aristocrática, comercial e investidora na exploração e comércio marítimo.
Dado que no "know how" da casa de Lencastre e do seu ilustre filho, D.Henrique, não se encontrava o domínio da tecnologia do carvão e do vapor, a força de produção mais rentável para os empreendedores da altura era efetivamente o trabalho escravo.
Assim se iniciou, em 1444, um investimento rentável ao longo de 4 séculos.
Por estas e por outras é que os habitantes de Quenns em New York recusaram a estátua da rainha portuguesa Catarina, que está agora no Parque da Expo.
Recusaram mal, porque a História devia unir e não separar as pessoas, mas compreende-se.
O filme Amistad de Spielberg também não ajudou.
Valha-nos que houve quem lutasse sinceramente pela abolição da escravatura em Portugal no século XIX, quando a força de produção do carvão e do vapor já era mais rentável , pelo menos nos territórios europeus, levando os empreendedores ingleses a combater o tráfego de escravos para rentabilizar os investimentos no vapor.
Honra ao alferes português Eusébio de Oliveira, que apresou em Moçambique a barca negreira Charles & George em 1857, um ano depois da inauguração do caminho de ferro e da abolição da escravatura em Portugal. As justiças francesa e inglesa da época  defendeu uma, e absteve-se a outra, os esclavagistas franceses.
Assim vou discorrendo, pensando coisas desagradáveis sobre as diplomacias francesa e inglesa, depois de ler o testemunho do senhor primeiro ministro inglês no fim da cimeira europeia de 9 de dezembro de 2011: "Que foi duro estar numa sala em que os outros 26 só diziam que tinha de se deixar de pensar nos interesses nacionais e seguir a multidão (crowd)". Talvez tenha sido por influencia do conflito do senhor governador do Banco de Portugal com o senhor deputado, um problema de "crowding  out".
Interesses nacionais britânicos...

A novela do PET aos 9 de dezembro de 2011 - um não

O dia 9 de dezembro de 2011 fica assinalado pelo não dos partidos no poder, em aceitar um período de discussão pública do PET.
O não abrangeu tambem a proposta para elaboração de um relatório ambiental e a avaliação mais cuidada dos operadores de transportes existentes.
Entretanto, permanece em secretismo o relatório do grupo de trabalho para os transportes nas áreas metropolitanas, entregue aos governantes em 30 de novembro.

Lamenta-se profundamente o critério de secretismo.
É contra as regras de abordagem de problemas complexos, impedir a participação e a contribuição alargada, além de ser uma falta de consideração com quem trabalha no setor.
O segredo já não é a alma do negócio, é uma grande ameaça.
Já era assim no tempo da Inquisição (dificuldades de interpretação poderão concluir que estou a chamar inquisitoriais aos senhores governantes; não estou, estou só a dizer que o método foi utilizado pela inquisição; só isso).
Também é contra as regras da UE, no que toca às avaliações ambientais (aquela de dizer que os autocarros emitem menos gases de efeito de estufa do que o caminho de ferro , sem explicar que se estão a comparar tecnologias de eras diferentes, é de antologia).
Mas é sempre fácil a desculpa de que não há dinheiro para cumprir os requisitos ambientais da UE (embora fosse mais verdade dizer que não há vontade de elaborar os processos de candidatura aos correspondentes fundos europeus).
Continuemos então a aguardar os próximos capítulos desta triste novela.

As dívidas públicas

Não confundir divida publica com divida externa.
No caso português, a divida publica, incluindo a divida das empresas publicas (válido a partir de 2011), será da ordem de 115% do PIB e a  divida privada da ordem de 130% (inclui a divida de particulares, para comprar carro ou casa, por exemplo, e de empresas privadas) .

Dado que os decisores, gestores e economistas que nos governam, ou que querem que pensemos como eles, põem  a tónica na ineficiencia do setor publico e na melhor gestão dos privados, será interessante ver o que se passa nos outros países.
Até porque já não se pode dizer que com as desgraças dos outros se pode bem, porque estamos todos no mesmo barco.

O indicador divida publica não pode ser interpretado como explicando tudo, para mais referido a outro indicador, o PIB, cujo cálculo é por vezes nebuloso.
Mas pode dar uma ideia de como os referidos decisores, gestores e economistas, cedem à tentação de atirar poeira para os olhos dos cidadãos e cidadãs.



                   Divida publica em % em função do PIB


        2000
        2010
Portugal
        48,5
       93,3*
Espanha
        59,3
        61
França
        57,3
        82,3
Bélgica
       107,9
        96,2
Holanda
         53,8
        62,9
UK
         41
        79,9
Irlanda
         37,8
        94,9
Alemanha
         59,7
       83,2
Dinamarca
         52,4
       43,7
Suécia
         53,9
       39,7
Noruega
         30
        44
Finlandia
         43,8
       48,3
Polonia
        36,8
       54,9
Rep.Checa
        18,5
       37,6
Austria
        59,7
       71,8
Italia
       109,2
      118,4
Grecia
       103,4
      144,8
Hungria
         54,9
        82,3
Romenia
         22,5
        31
Bulgaria
         72,5
        16,3
Estonia
           5,1
          6,7

*sem incluir a divida das empresas publicas, do BPN e da Madeira

É interessante notar o decréscimo da dívida acumulada da Dinamarca e da Suécia, e depois comparar com a sua despesa pública em 2010, cerca de 57% no caso da Dinamarca e  de 57,2% no caso da Suecia.
(Ver também o peso de outras despesas públicas em:
Parece um comportamento melhor do que o da Alemanha (despesa publica de 46% e divida de 83%, a aumentar) e o da França (despesa pública de 57% e dívida pública de 82%, a aumentar).

Não seria de se fazer como nas empresas, um benchmarking internacional, com os técnicos de economia dinamarqueses e suecos a explicarem como fazem as coisas? (a hipótese deste blogue será, fundamentalmente, porque haverá nesses países menores dificuldades de formulação e de interpretação de enunciados de problemas).

O crawling peg e o verniz que estala

Lembram-se do crawling peg?
Quem não sabia o que era o crawling peg era igmnorante e como tal olhado com desdem.
O crawling peg perdeu um poucochinho a oportunidade porque era uma forma de tentar controlar a desvalorização de uma moeda.
Desvalorizar sim, para ajudar às exportações, mas não muito, por causa das dívidas.Por um lado, parece que há uns sábios que acham que é de encarar a saída do euro e então lá voltamos ao crawling peg. Por outro lado, outros sábios dizem que não há futuro fora do euro.
Na verdade, na história da Europa podem ver-se, desde há muitos séculos, com umas ou outras motivações, muitas manifestações de vontade de uma Europa solidária, não tribal.
Não e, por exemplo, de aceitar um tribalismo económico em que uma empresa portuguesa paga juros mais altos do que uma sua homóloga alemã. Mesmo que as produtividades fossem diferentes, porque quem pagaria o diferencial seriam os salários e não os juros.
Mas enfim, talvez o crawling peg possa ser atualmente aplicado ao euro em si. Desvalorizar um bocadinho, emitir mais moeda, controlar o  aumento de divida e da inflação (então, um bocadinho de inflação não faz mal, é como a estricnina que se usava nos anti-diarreicos; claro que não podia haver enganos na dosagem) e apertar o escoamento da moeda para os offshores e inshores (Londres, Hoanda, Suiça).
Confesso que já não me lembrava o que era o crawling peg, traduzido à letra por a marca da tartaruga: fixação de um valor e de uma banda em torno do qual a taxa de cambio de uma moeda pode variar. Tive de consultar a infopedia e a wikipedia.

Mas tudo isto a propósito de outro palavrão de que nunca tinha ouvido falar e que me obrigou a ir às ditas infopedia e wikipedia: o crowding out, traduzindo à letra: pôr a malta de fora.
Deu-se o caso que o senhor governador do Banco de Portugal se dignou prestar esclarecimentos à comissão parlamentar de finanças e, quando lamentava que os empréstimos ao Estado, através de títulos de dívida pública,  pelos esforçados bancos portugueses, lhes tinham reduzido a capacidade para emprestar às empresas privadas para estimulo da economia, foi interrompido por um aparte do senhor deputado João Galamba.
Que não era verdade.
O senhor deputado podia ter pronunciado um aparte mais cordato, mas foi o que lhe saiu, talvez por ser impulsivo, o senhor deputado.
Não gostou o senhor governador do Banco de Portugal, que logo ali chamou ignorante ao senhor deputado e que fosse aprender o que era o crowding out, que os bancos só podem emprestar ao setor público, aos particulares e às empresas privadas, e que se emprestam ao público deixam de poder emprestar às empresas privadas.
Pessoalmente, não me parece bonito o aparte, mas o senhor governador do Banco de Portugal ão tinha necessidade de estalar o verniz dessa maneira.
Todos sabemos que é uma pessoa muito importante, muito competente tecnicamente, como aliás são todas as pessoas importantes deste país, como se comprova pelo elevado grau de progresso em que vivemos.
Veio depois o senhor deputado, em artigo no DN de 2011-12-07, alinhavar argumentos contra posição do senhor governador do Banco de Portugal:
- que o volume de crédito não é fixo
- que até muito recentemente a concessão de crédito por compra de títulos de dívida publica não contava para o racio de capital do banco
- que uma carteira de títulos de dívida pública ajudava os bancos a obter financiamento junto do BCE.
Consultada a Infopedia e a Wikipedia,
http://www.infopedia.pt/$crowding-out
http://en.wikipedia.org/wiki/Crowding_out_(economics)
http://www.knoow.net/cienceconempr/economia/crowdingout.htm
lá vem  a explicação que investimento público e impostos elevados provocam aumento da taxa de juro e logo diminuição do investimento privado. Mas que, como qualquer nebulosa questão de economia, a diversidade de variáveis que entram no jogo torna o efeito de crowding out importante nuns casos e insignificante noutros (situação de desemprego elevado, por exemplo).

Pensa este blogue que não vale a pena no contexto atual discutir muito estas teorias, e que possivelmente o senhor governador do Banco de Portugal e o senhor deputado até estarão a dizer o mesmo.

Diria este blogue que o mais importante seria discutir em debate alargado a todas as sensibilidades politicas e aplicá-las de seguida,  medidas para estimular o emprego, as exportações e a substituição das importações essenciais.
Isto para não dizer, como os economistas aterrados propõem,
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/economicomio-lxii-as-22-medidas-dos.html
que o banco central europeu deveria poder emitir mais moeda para financiar um orçamento europeu, emprestar diretamente aos Estados sem passar pelos bancos nacionais, e que deveria ser criada uma moeda , o bancor, de uso exclusivo nos pagamentos internacionais intra-europeus, para absorver os desequilibrios entre balanças comerciais dos paises da UE, dentro ou fora da zona euro.
Mas os senhores governantes da UE ainda não se convenceram com as propostas dos economistas aterrados...por mera obsessão ideológica, desconfio.

Petição para a prevalência da democracia sobre as politicas de austeridade

Pensa este blogue que a questão do euro deixou de ser uma questão ideológica para passar a ser uma questão técnica, em que tanto economistas de direita como os das agencias de notação financeira, como o presidente dos USA, como os economistas das 22 medidas, aterrados e  mais ou menos de esquerda, defendem um papel para o BCE semelhante ao da reserva federal dos USA, com emissão de moeda quando necessário (não se venha com o fantasma da inflação porque há regras que permitem o seu controle).

Por isso aqui se deixa a referencia da petição da Avaaz.
Não percam o artigo de P.Krugman, a ultima referncia citada no texto ("...a central bank morbidly obsessed with inflation").

"Aterrorizados pelos grandes bancos, os governantes da União Europeia querem alterar as regras para impedir os investimentos públicos vultosos.
Isso é uma loucura: nos anos 30 foram esses investimentos que permitiram à Europa e aos USA escapar à grande depressão.
A Europa precisa de disciplinar e regular os bancos, não de lhes subordinar o direito dos eleitores a escolher politicas que criem empregos."

Excerto do texto da petição que pode ser assinada em:
 http://www.avaaz.org/en/democracy_trumps_austerity/?vl 





Panicked by big banks, EU governments – all but 5 of which are conservative-led -- want to change our constitutions and the EU treaty to permanently ban high public spending. This is nuts: in the 1930s such spending was precisely what allowed Europe and the US to escape the Great Depression. Europe needs to toughen up and regulate the banks, not surrender to them our right to choose policies that create jobs. Not now, and certainly not for ever.
Dear friends,


In 24 hours EU leaders may take an axe to our jobs and our democracy. But our votes can block this. If we send a massive signal to the summit that we won't surrender our rights and our future, we can change their minds. Sign the petition urging leaders to reject austerity and save our economy: 

Sign the petition!
Tomorrow EU leaders may wave through a crazy Merkel/Sarkozy plan that would abolish our right to choose sane economic policies. But, together, we can stop our leaders trashing our democracy and our jobs.

Panicked by big banks, EU governments – all but 5 of which are conservative-led -- want to change our constitutions and the EU treaty to permanently ban high public spending. This is nuts: in the 1930s such spending was precisely what allowed Europe and the US to escape the Great Depression. Europe needs to toughen up and regulate the banks, not surrender to them our right to choose policies that create jobs. Not now, and certainly not for ever.

Democracy is our trump card. The 27 EU leaders can’t just agree this plan themselves -- they need to come up with solutions that will stand the test of referenda or parliamentary votes. If we raise a mass chorus from across Europe today we can change their political calculations and force a rethink. Let's call on our leaders to reject austerity, regulate the banks, and invest in our future. If we reach 100,000 signers we'll deliver the petition to the waiting media outside tomorrow's summit. Sign and send to everyone. 

http://www.avaaz.org/en/democracy_trumps_austerity/?vl 

A few Eurozone countries used the single currency as an excuse to over-spend and Europe needs to stop that happening again. But short-circuiting democracy always backfires and can provoke a right-wing backlash. The tough economic decisions Europe needs must be taken by strong, democratic, accountable institutions. Even Germany has repeatedly violated, and is currently violating, it's own promises to limit its debt and deficit. Keeping those promises would have been counter-productive at a time when money is tight. 

The hawkish bond buyers have already toppled three European governments -- let's make that the limit. If Germany allows it the European Central Bank can do what other central banks do -- intervene to guarantee government bonds and face down the markets. Since Italy isn't bankrupt the bank can even make money on this. If the ECB buys time the EU can find a more sensible and democratic way out of the current crisis, including through new measures to tax speculation and channel credit to those of us who need it most.

This is about the survival of the European welfare state, which represents our core values and helps stabilise our economies when recessions hit. If the new constitutions and treaties are agreed this week our governments would have to keep cutting spending on unemployment insurance, pensions and health, worsening the recession. It's a no brainer. For the sake of our democracies, our societies and our economies, we have to say no. Sign the petition: 

http://www.avaaz.org/en/democracy_trumps_austerity/?vl 

Reasonable people can disagree about the best way to protect us all from national overspending and crippling debt. But imposing austerity measures that we already know won't work and tying the hands of our democracy is not the answer. Over and over again, our community has stood up and won real accountability from our leaders when they have tried to bypass us -- now we must come together and demand to be heard once again. 

With hope, 

Alex, Emma, Ricken, Jamie, Pascal, Giulia, Stephanie, Laura and the rest of the Avaaz team. 

More information: 

Germany’s Denial, Europe’s Disaster (New York Times)
http://www.nytimes.com/2011/11/30/opinion/germanys-denial-europes-disaster.html?_r=2&hp

Merkozy EU Treaty plan faces obstacles (Der Spiegel)
http://www.spiegel.de/international/europe/0,1518,802221,00.html

Eurozone warned of credit downgrades after Germany and France strike deal (The Guardian)
http://www.guardian.co.uk/business/2011/dec/05/eurozone-credit-downgrade-germany-france?INTCMP=SRCH

Killing the Euro (New York Times)
http://www.nytimes.com/2011/11/30/opinion/germanys-denial-europes-disaster.html?_r=2&hp

Is the euro zone’s flaw fatal? (Washington Post)
http://www.nytimes.com/2011/12/02/opinion/krugman-killing-the-euro.html?src=ISMR_AP_LO_MST_FB

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

I wish I knew, histórias de Xangai


I Wish I Knew (Trailer) from filmswelike on Vimeo.


Confesso que não é um filme atraente.
A própria estética oriental como que afasta o entusiasmo dos espetadores ocidentais.
Mas o simples facto de olhar a realidade sem o deprimente complexo maniqueista de dividir tudo em bom ou mau (numa das primeiras cenas, um cidadão conta como o pai  membro do poartido comunista e secretário da sociedade dos direitos humanos, foi mandado assassinar pelo regime de Chang-Kai Chek, em 1933; outros testemunhos contam os sofrimentos das famílias no tempo da revolução cultural) que tanto afeta a cultura ocidental, e a serenidade com que testemunha as dificuldades e sofrimentos das pessoas enquanto a economia e a urbanização chinesas crescem com pujança, convida a reter este filme como importante.
O filme começa com uma reflexão: "Aqui, nestas ruinas desertas, sinto-me impotente". As ruinas estão desertas porque acabou uma estrutura social e ainda bem. A impotencia é o individualismo perante a força do coletivo. O objetivo da reflexão será com cada um que vê o filme, mas eu diria que poderia ser outro convite, à colaboração estreita com a China.
Para saber porque cresceu desta maneira a economia chinesa, desde 1990, quando era primeiro ministro em Portugal o atual presidente da repúlica.
Dirão os economistas porque o subsolo é rico, porque os cidadãos e cidadãs já tinham uma estrutura educacional forte pronta a absorver as novas possibilidades das tecnologias, e porque o poder central compreendeu que em muitos domínios é mais eficiente a descentralização .
Que bom que seria se a colaboração ocidental permitisse evitar os erros das sociedades ocidentais, nomeadamente o crescimento das desigualdades sociais e a agressão ambiental, enquanto a curva dos rendimentos se mantem longe da zona dos rendimentos decrescentes.
E que a coboração ocidental evitasse os erros de projeto e construção de edificios que caem por deficientes fundações, e comboios de alta velocidade que chocam por incumprimento das normas de segurança do projeto de sinalização e controle ferroviários.
A presença portuguesa em Macau sugere que seria viável ganharmos alguma coisa com isso.
Mas os caminhos que têm sido seguidos parecem ínvios.
Por exemplo, enveredou-se por uma política de privatizações que não tem o apoio de pelo menos 20% de eleitores.
Andam agora uns governantes muito preocupados porque a Three Gorges se dispõem a montar uma fábrica de turbinas em Portugal (que saudades da SEPSA, da SOREFAME e da MAGUE) se, e só se, lhes venderem os 21,5% da EDP.
Repetição da argmentação que deu o BPN ao BIC angolano?
Salvo melhor opinião, os caminhos deveriam ser outros, fora da lógica de privatização "a tout prix".
Isto para não falar da desigualdade de tratamento de me terem obrigado a cumprir as regras dos concursos publicos enquanto o próprio governo as interpreta com liberal amplitude.
Mas como digo, 20% não chega para traçar o rumo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

As lágrimas amargas de Elsa Fornero

Roubei o título a Fassbinder.


Lágrimas amargas é melodramático, mas lágrimas são lágrimas.
E muitas vezes são sentidas.
Elsa Fornero sentiu-as, embora seja ministra.
O drama de uma paixão homosexual dos anos 70 de Fassbinder não será uma metáfora para a crise das dívidas públicas que nos atormenta, mas os mecanismos cerebrais que desencadeiam as lágrimas são os mesmos, por imposição do código genético e da evolução ao longo dos milénios.
Petra von Kant move-se num contexto de emoções desequilibradas, com sadismos, ciumes, frustrações de orientações sexuais, e chora.
Elsa Fornero acreditou em sistemas de pensões corretoras das desigualdades sociais.
Mas o sistema financeiro governado pelos decisores do BCE e da UE não quer estar ao serviço da ideia solidária da Europa (Jacques Delors tambem acha).
O BCE não quer injetar liquidez para o conjunto da Europa, mesmo fabricando moeda e subindo um pouco a inflação, para que a uma empresa portuguesa pudesse ser exigida  a mesma taxa de juro que a uma empresa alemã ou holandesa.
E então Elsa Fornero chora.
Esta senhora é professora na universidade de Turim de Macroeconomia e de Economia da poupança, da previdencia e dos fundos de pensões.
Como independente, participou num governo da comuna de Turim em aliança com partidos de esquerda e centro esquerda.
Defende, acima de tudo, a equidade (se cá viesse, como diz a canção...) e a sustentabilidade.
As lágrimas são sinceras.
Tanto quanto entendi do italiano, a medida adotada pelo governo italiano consiste em desindexar as pensões, poupando as  menores, relativamente à inflação  (indexação automática das pensões foi coisa que nunca houve em Portugal, os aumentos de pensões e salários de um ano correspondiam sempre aos aumentos de preços do ano anterior quando a inflação subia; mas também somos uma economia menos produtiva...).
A senhora ter-se-á comovido e não conseguiu articular a palavra sacrificios (requeridos por este ciclo que psicologicamente afeta as pessoas).
Talvez, quando a emoção passar, as lágrimas secarem e a razão regressar, se possa pensar em dar prioridade à Declaração universal dos direitos humanos, do direito ao emprego e à segurança social, sobre as regras dos rankings, dos credit default swaps e dos crowding out.
Parafraseando o novo primeiro ministro italiano, que se comova, mas que corrija as coisas, sem se importar de propor  correções tambem nos outros paises da Europa.
Sem prejuizo das medidas de contenção, claro (prefiro dizer contenção; austeridade parece-me que será em situações mais graves; não pioremos as coisas, não?).


Brodheim

Como se diz em França, "je lève mon chapeau".
E também com a devida vénia à revista Notícias Magazie, do DN e JN.
O peso da moda nesta revista é grande, mas não devemos ser preconceituosos.
Ronald Brodheim é o representante de marcas de moda internacional, com lojas na Avenida da Liberdade.
Filho de Erich Brodheim, judeu austriaco refugiado em Portugal na segunda grande guerra ( lembro-me de quando era miúdo, há muitos anos, de ver uma menina austriaca na Figueira da Foz, tambem de uma familia refugiada; a Alemanha fazendo o mesmo crime e o mesmo disparate económico que Portugal fez com D.Manuel, a quem os historiadores chamam venturoso).

E tiro o chapéu porque com Ronald Brodheim se aprende melhor economia do que com os decisores, gestores e comentadores televisivos (salvo poucas exceções, evidentemente).
Erich Brodheim montou uma firma de importações e exportações e, a seguir ao 25 de Abril de 1974, juntamente  com o filho, em vez de fugirem para o Brasil, fizeram  o que deviam fazer: como não havia dinheiro para importações, serviram de intermediários para a exportação de "lençois, toalhas, objetos de louça" para os grandes armazens de Londres e Paris... Durante 12 anos, fomos a China daqueles tempos". Como diz Ronald Brodheim sobre o 25 de abril de 1974, "Foi fantástico".

A reportagem não explica se a representação das marcas de moda estrangeiras é atualmente compativel com a incorporação nacional no negócio, mas sobre o periodo 1974-1986, parece ser exemplar, a atuação desta firma.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Esperança

Não estou seguro de que venham a prestar muita atenção à fórmula da desaceleração no movimento uniformemente retardado, o que será uma pena porque lhes daria mais segurança no cálculo das distancias de travagem quando conduzirem.
Mas tenho esperança de que seja uma geração com mais capacidade de organização e de resolução das questões da coisa publica.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Le roi d'Ys

Ópera de Eduard Lalo, estreada em 1888, com uma história de ciumes, vinganças e fantasias milagrosas em ambiente mais ou menos medieval, ou gótica, como agora se diz, com a moda do senhor dos aneis.
Ver em:
http://operaparaprincipiantes.blogspot.com/2011/02/le-roi-dys.html
 e em:
http://www.youtube.com/watch?v=MxuKA4sXNkY&feature=related

Não será o melhor exemplo para convencer as pessoas a gostarem de ópera, mas continuo a pensar que os compositores de ópera conseguiram traduzir emoções, sentimentos  e dilemas humanos.
No fundo, dilemas é um problema fundamental da humanidade, julgo eu.
Oiço na Antena 2 uma área do Roi d'Ys e ocorre-me que toda a ópera é uma metáfora do que nos atormenta.
Na ópera, a filha do rei, por ciúmes e vingança, ou por divergência de interesses, destroi a cidade sabotando as comportas do dique de proteção.

Foi o que fizeram os gurus  da não intervenção financeira como Alain Greenspan, sacerdotes da ideologia neo liberal de deixar os mercados funcionar.
Deixaram as comportas da desregulação financeira abertas.
Abate-se a crise sobre o país de Obama, e chama-se outro guru neo liberal, Tim Gaithner, para o Tesouro.
Diziam os gregos clássicos que o antídoto da   mordedura do cão é a saliva do próprio cão.
No caso da ópera, a sabotadora é atormentada pelo remorso (coisa que os adeptos do neo-liberalismo não conhecem)  e o santo protetor da cidade salva a cidade das inundações aceitando o seu sacrifico humano .

Talvez a metáfora não seja perfeita, porque não são os decisores, crentes ferverosos nos dogmas da minimização da despesa publica e da recessão criativa ("só cresceremos depois de terminado o período de declínio económico" -  que La Palice peça aos deuses comiseração) que vão sacrificar-se para a entidade poderosa salvar a civitatis.
Parece que no nosso caso o sacrificio humano que se pede é antes o dos habitantes.

Mas é interessante, a ideia da ópera.
Haver entidades míticas a quem se sacrifica, recebendo-se em troca a salvação.
Quem cria o problema sacrifica-se existencialmente para o resolver; toda e qualquer semelhança com mitos religiosos ou existencialistas é pura coincidencia.
Fecunda, a imaginação humana.

Inflorescência

Não é um stegossáurio nem um plessiossário curioso, num jardim de Lisboa, interrogando-se sobre o que os habitantes fizeram da sua terra passada.
É uma inflorescencia de uma planta gorda, vulgo cato.



Outono



Atropelamento mortal na 24 de julho por elétrico em 1 de dezembro de 2011

As vias reservadas na Av.24 de julho para elétricos, autocarros e taxis não oferecem o nivel de segurança desejável.
Não posso sustentar esta afirmação em estatísticas donde possa inferir, pelo cruzamento da probabilidade de ocorrencia com a gravidade das consequencias, o nivel de risco associado.
Mas posso analisar as condições de segurança por observação do local.
É verdade que, como a comunicação social informou, a propósito do atropelamento mortal de 1 de dezembro de 2011, que em 47%  dos casos de atropelamento nas ruas e estradas ,  segundo a autoridade de segurança rodoviária, ANSR, a "culpa" é dos peões atropelados.
Não me parece correto punir assim, com a pena capital, a "indisciplina dos peões" ou a desatenção de jovens, à uma da madrugada.
O cérebro humano não foi desenvolvido, através da evolução, para tomar as decisões corretas em ambiente de variação tão rápida de parâmetros suscetíveis de gerar acidentes, como é o ambiente de tráfego dos veículos motorizados.
Por isso seria bom que, com um bocadinho de humildade, os analistas de acidentes, os técnicos da segurança rodoviária, e o respetivo ministério ou secretaria de estado, reconhecessem que não basta diagnosticar a "indisciplina dos peões", e que há ações que podem e devem ser desenvolvidas.
Dá-se como exemplo os atropelamentos no metro sul do Tejo, de pessoas idosas que não tiveram capacidade para apreender as situações de perigo.
Foi proposta a redução de velocidade em zonas bem definidas e a introdução de sinalização luminosa em passadeiras para travessia. São medidas insuficientes (a medida correta, embora dispendiosa, seria a segregação integral das vias para elétricos, com cruzamentos desnivelados) e julgo que não foram implementadas.
No caso da 24 de julho, é evidente o risco para os peões que circulam nos passeios estreitos, a poucos centímetros de elétricos e autocarros que podem atingir os 60 km/h (deveriam também, dados os elevados custos da segregação integral, ser estabelecidas zonas de restrição de velocidade a 30 e a 50 km/h junto de pontos de risco, uma vez que um elétrico, a 60km/h, necessita de cerca de 120m para parar).
O sentido das vias ao longo de uma travessia completa da avenida muda muitas vezes (pormenor importante do ponto de vista dos automatismos do subconsciente, uma vez que o elétrico que atropelou as vitimas vinha em sentido contrário ao do taxi das vitimas).
Não existem passadeiras assinaladas, e deveriam existir, com alarme de aproximação.
Os passeios estreitos têm obstruções de postes, abrigos-paragens, paineis publicitários e muretes de canteiros de árvores.
Acrescem nesta zona os riscos das vias de tráfego automóvel.
Não existem, e deveriam existir, zonas de paragem de taxis.

Não parece correto contentarmo-nos com a justificação de "indisciplina dos peões".
Há tambem deficiencias infraestruturais.




A ilustrar a necessidade de uma campanha de sensibilização para utilização das passagens aéreas nesta zona junto um fotograma da reportagem televisiva no local do atropelamento, a cerca de 200m da passagem aérea de Santos sobre a via férrea,, em que se vê uma jovem a saltar a rede de proteção do caminho de ferro depois de atravessar as vias.

Salvamento dos pescadores de Caxinas em 2 de dezembro de 2011

Este blogue congratula-se com o salvamento dos pescadores do Virgem do Sameiro, de Caxinas.
Ainda bem que a embarcação afundada tinha uma balsa que aguentou os náufragos durante 3 dias.
Ainda bem que ainda há meios humanos e aéreos para o resgate por helicoptero, e que já têm um honroso historial de salvamentos.
Mas lamenta-se o tratamento emotivo pelos meios de comunicação social, em detrimento da chamada de atenção para o rigoroso cumprimento das medidas de segurança.
Intitular a reportagem do salvamento como milagre não ajuda nada à criação da cultura de segurança marítima que é necessário desenvolver.
Ver anterior texto:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/06/seguranca-no-mar-pode-acontecer.html

Mais uma vez se salienta a reclamação da Associação pró maior segurança dos homens do mar, expressa pelo seu presidente José Festas, no sentido de garantir o equipamento das embarcações de pesca com radio balizas EPIRB de alarme automático e localização por GPS.
É evidente que é um sistema caro e que exige formação aos pescadores.
Mas, para alem das balsas e dos procedimentos corretos de manutenção das embarcações, são , juntamente com os coletes de segurança e os fatos térmicos, equipamentos essenciais, e teriam evitado, com grande probabilidade, as mortes ocorridas nos naufrágios do Salgueirinha em Aveiro em outubro de 2004, do Luz do Sameiro na Nazaré em dezembro de 2006 e do Rosamar na Galiza em dezembro de 2008.