terça-feira, 16 de outubro de 2012

Falas de governantes - a senhora secretária de estado do tesouro não vê sinais de espiral recessiva

A senhora secretária de estado do Tesouro Maria Luis Albuquerque, a quem dedico este "post", afirmou em entrevista não ver sinais de uma espiral de recessão.
Pode ser uma questão de semântica, e então não há razão para se falar em espiral.
Mas talvez que o problema seja a falta de formação em ciências físicas que impede que  a senhora veja o mecanismo de realimentaçao positiva.
Que em inglês se chama "feedback".
Não falemos em espiral, que a senhora secretária acha que não vê, neste momento, apesar de todos os avisos e evidencias.
Vamos a um gráfico de retas, com base na relação entre o corte de rendimentos ou o aumento dos impostos (com a consequente redução da procura interna), e a diminuição do PIB  que a senhora diretora do FMI revelou, com base nas observações empíricas dos seus serviços e na sua larga experiencia (1 euro de cortes implica entre 0,9 e 1,7 euros - valor médio 1,3 euros - de diminuição do PIB):



O gráfico está mais ou menos à escala, pelo que se pode ver o efeito de sucessivos cortes , iguais, ao longo do tempo. Podemos admitir que um ciclo de efeitos durará um ano. Evidentemente que é um modelo de aproximação não garantida, uma vez que ao longo do tempo nada garante que as curvas de relação entre os cortes e a diminuição do PIB se manterão. Certo é que, em zonas de PIB pequeno, se poderá considerar zona perigosa, em que a partir de certa altura, por mais investimentos que se façam, dificilmente deles se retirará retorno.
Podemos também ilustrar o fenómeno neste esquema de blocos de realimentação (feedback). O efeito sentido à saida de um sistema é realimentado, influenciando novamente o sistema, e assim, sucessiva e recessivamente.
É o mesmo mecanismo na condução automóvel, em que, se o condutor insiste em virar o volante no sentido em que não deve, o efeito se vai agravando até ao despiste final.



Quem, eles?

No período final do fascismo de Salazar morria gente por causa da cegueira do primeiro ministro.
Pintores em Alcântara ou generais na fronteira alentejana.
Jovens na guerra, portugueses e dos países ocupados.
Mas nunca faltou o humor político no teatro de revista e nas conversas, até por causa disso mesmo.
Vamos continuar a usar o humor no atual momento de crise.

O padre de uma aldeia próxima da fronteira com Espanha, na Beira Alta, na região  que no tratado de Alcanices optou pela integração em Portugal, vituperava sistematicamente, nas suas homilias, os espanhóis.
Que eram eles os culpados de tudo o que de  mal acontecia na região e em Portugal.
E para o provar, chegava ao ponto de afirmar que os espanhóis tinham estado na origem do sacrifício de Jesus Cristo.
A coisa tomou tais proporções que chegaram queixas ao bispo, nomeadamente de colegas padres espanhóis que não viam com bons olhos tanta animosidade.
Já bastava o provérbio que de Espanha nem bom vento nem bom casamento.
O padre foi chamado ao bispo e teve de lhe prometer que deixava de culpar os espanhóis pelos  malefícios da vida.
Mas estava-se na Páscoa, e o padre , na sua homilia, descreveu a ultima ceia e o sofrimento pungente de Cristo ao aproximar-se a hora da morte.
“Um de vós irá trair-me”, e poisou os olhos sobre Pedro.
Pedro, com os seus modos bruscos, interrogou-se “Quem, eu?”
O olhar de Cristo demorou-se então em João, que com voz doce também se interrogou “Quem, eu?”
E deteve-se finalmente em Judas.
E também este se interrogou, pretextando surpresa:
 “Quien, yo?”.  

Lembrei-me desta anedota ao ler a notícia da senhora diretora do FMI, a lembrar que as medidas de austeridade são tomadas pelos governos, não pelo FMI, e do senhor presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, que são os governos que tomam as medidas, não a união europeia.

Quem? Eles?




7 meses depois

Em época de apresentação do orçamento para 2013 e do retificativo (mais um) para 2012, o comentador afeto ao partido no poder escreve com todas as letras que o governo é incompetente e irresponsável.
O comentador afeto ao maior partido da oposição apelida o governo de bárbaros arrivistas e tecnocratas incompetentes.
Recordo o que escrevi no princípio de  março de 2012, a propósito da suspensão dos fundos QREN:

Confirmam-se, 7 meses depois,  as previsões da incompetencia dos senhores governantes.
Mas sinto agora repugnância depois da investigação do jornal Publico sobre o provável favorecimento em 2004 e 2005 da empresa do atual primeiro ministro parecer confirmar a anterior denuncia pública do comportamento de Miguel Relvas indiciador de cronycapitalism.
Penso que seria curial a procuradoria da Republica determinar a investigação, mesmo sem denuncia particular.
Penso que deveriam iniciar-se imediatamente negociações com a UE para apoio técnico para reativar os projetos QREN, incluindo o TGV.

Medidas corretivas concretas - 2


Medida 2a -  Levantamento do sigilo bancário em Portugal e acessibilidade pública, mediante identificação prévia, às informações em “site” na internet. Inicio de negociações para o mesmo, com a UE, nomeadamente na Holanda e Reino Unido, e com os parceiros económicos, nomeadamente a Suíça. Colaboração com os USA nas medidas de limitação das ações lesivas das “off-shore”.
Vantagens: Rastreabilidade dos movimentos de dinheiro e diminuição da fraude fiscal.

Medida 2b – Taxação das transações bolsistas. Trata-se de medida amplamente conhecida desde a proposta da taxa Tobin, subscrita por políticos como Sarkozy. Aplicada em França com o valor de 0,2%. Proposta para Portugal com o valor de 0,3%.
Vantagens : estender ao capital os sacrifícios do equilíbrio orçamental; moderar, embora ligeiramente, a especulação bolsista

Ver

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

As 3 meninas que não têm ASE

Dedicado ao senhor ministro Crato

A minha sobrinha-neta contou-me, com aquele ar compenetrado que as meninas de 12 anos sabem fazer, que na turma dela só há 3 meninas que não têm ASE (apoio social escolar) e que os outros 27 meninos e meninas da turma têm.
E que só descobriu isso porque lhe impediram, a ela e às duas coleguinhas, o acesso à cantina da escola.
Isto é, a cantina só pode ser utilizada pelos alunos que têm ASE.
Será mais uma medida de “racionalização”.
Com aspas, claro, porque será pouco racional o prejuízo que isto causa.
O prejuízo é difícil de contabilizar, mas é muito fácil de explicar: é que é uma discriminação explícita para os utilizadores da cantina; são imediatamente denunciados como beneficiários do ASE.
Antigamente, os meninos e meninas do ASE levantavam as suas senhas e todos iam, com senhas iguais, umas pagas e outras não, almoçar à cantina.
Agora não.
Como se diz quando se têm estas idades, é muito feio.
Ou como se diz em matemática, é aumentar o coeficiente de Gini.

PS - Apenas para completar a informação, esclareço que o uso da cantina por alunos sem ASE só é interditado nos dias em que o horário dos alunos não cobre a hora de almoço; isto é, se as aulas começam às 13:30 já não podem frequentar a cantina; se as aulas começarem às 9:00 e acabarem às 14:00, já podem. Será mais uma consequencia do preço da refeição ser muito inferior ao seu custo de produção. Mas não é isso que está em causa; o que está em causa é a humilhação que decorre da discriminação evidenciada.

Medidas corretivas concretas - 1 - auditoria e exportações


Medida 1a (âmbito abrangente) – realização com divulgação pública da sua evolução e da monitorização posterior a fazer pelo menos trimestralmente, de uma auditoria à dívida publica, à dívida privada e à dívida externa pública e privada.
Objetivo: conhecer, credor a credor, a origem, o montante e o destino concreto dos dinheiros de cada dívida (classificação por tipo de destino)
Avaliação da correção do montante, juros e prazo de amortização de cada dívida e eventual renegociação
Meios: sem prejuízo da coordenação pelas entidades oficiais, participação obrigatória de universidades em regime de senha de presença e abertura à participação de particulares por concurso de candidaturas em regime de voluntariado
Vantagens: para alem de identificação de possíveis hipóteses de renegociação, tem a vantagem de medidas análogas que os cidadãos tomam: saber para onde foi o dinheiro da divida que contraíram, para decidir em que deixar de gastar dinheiro

Media 1 b (implementação imediata) -  determinação, para cada empresa, de três coeficientes para expressão do peso das importações no seu volume de negócios: um coeficiente correspondendo à diferença entre o que  a empresa exporta e o que a empresa importa; o segundo  coeficiente correspondente à diferença entre a soma das partes importadas de todas as aquisições da empresa e o que a empresa exporta, incluindo nesta diferença a saída dos lucros no caso da empresa-mãe ser externa; o terceiro coeficiente corresponde à pegada ecológica de todas as aquisições importadas (por exemplo, toneladas.km de fruta ou peixe importado vezes a emissão de CO2 por km do meio de transporte utilizado).
Objetivo: aplicar os coeficientes ao cálculo de benefícios fiscais, nomeadamente redução da TSU, para as empresas com menores importações líquidas, e ao cálculo de penalizações de empresas que importem demasiado
Vantagens:  proteção da produção nacional e aplicação de taxa de CO2 e sua utilização em apoio a energias renováveis e transporte coletivo

Ver

PS em 19 de novembro de 2012 - inclui-se nos benefícios fiscais a reduçâo do IRC em função do comportamento facilitador de exportações ou de redução de importações

Medidas corretivas concretas - Introdução

Deixem-me pôr as coisas assim:  as sociedades foram-se organizando segundo uma divisão do trabalho.
A evolução tecnológica foi provocando uma especialização cada vez maior.
Quer os remadores do Reno que combateram o vapor , os operários têxteis que combateram os primeiros teares mecânicos, ou os 62 desenhadores da sala de desenho de um fabricante automóvel que foram substituidos por 5 postos de computador, tenham tido ou não razão para as suas lutas, a verdade é que a evolução tecnológica conduziu a uma situação em que só uma pequena percentagem da população precisa de ser população ativa e só uma pequena percentagem desta  necessita de estar empregada em atividades essenciais de sobrevivência e de lazer.
Isto é,  o extraordinário aumento da capacidade de produção e de produtividade libertou a população da necessidade de produzir os meios necessários à sobrevivência e ao lazer.
O desenvolvimento da teoria económica e financeira permitiu que apenas uma pequena parte beneficiasse da maior fatia do rendimento, isto é, favoreceu a concentração da propriedade dos meios de produção e dos ativos.
Assim, na base do edifício temos a produção agrícola e depois a industrial, beneficiando da referida grande capacidade de produção e produtividade.
A seguir temos os serviços, em grande parte criando ativos virtuais sem correspondência com valores reais.
Karl Marx previu que os benefícios da evolução tecnológica seriam utilizados para o bem estar das sociedades.
As experiencias do Estado-providencia, relativamente bem sucedidas nos países escandinavos, pareceram dar alguma razão a essa previsão, e assim até se compreenderia o ataque encarniçado dos neo-liberais para redução do papel do Estado na garantia do bem estar.
Os anos recentes parecem configurar uma ameaça grave a esse conceito de bem estar e de Estado-providencia, ilustrada pelo desemprego elevado e expressa pela afirmação de que as despesas públicas são insustentáveis.
Serão ou não, mas o certo é que basta que uma parte minoritária da população produza os bens essenciais para que toda a população sobreviva.
Se se mantiver o atual modelo de propriedade dos meios de produção e de repartição dos rendimentos, uma pequeníssima parte da população concentrará a maior parte do rendimento, uma percentagem inferior a 50% terá as suas fontes de rendimento minimamente suficientes para uma vida  digna, e a maioria viverá abaixo da dignidade, apenas com a garantia de programas assistenciais que impeçam, por exemplo, o crescimento excessivo da criminalidade ou a propagação de epidemias, uma vez que o código genético do 1% que detem os 80% do rendimento é rigorosamente o mesmo dos sem-abrigo.
Esses programas assistenciais beneficiam, igualmente, dos progressos tecnológicos e subsequente elevada produtividade.
Os preços anormalmente altos dos medicamentos para as doenças graves, como  cancro e HIV, são exemplo da pressão dos grandes grupos químico-famaceuticos para reduzir o papel do Estado na assistência contribuindo para o aumento das despesas públicas, consideradas insustentáveis (assiste-se, no entanto, a curiosas experiencias em que o Estado, após o insucesso de negociações com os laboratórios, tomou a iniciativa de “violar” as patentes e produzir os medicamentos caros, a preços muito inferiores; caso do Brasil, África do Sul e  Índia).
Nos anos 30 do século XX, um dos problemas de matemática nas escolas alemãs tinha no seu enunciado quando custava a educação de uma criança com deficiência mental (1800 marcos), uma criança média (350 marcos) e uma criança de coeficiente de inteligência elevado (150 marcos), perguntando capciosamente, em função do orçamento disponível, de quantas crianças deficientes poderia o Estado cuidar.
Esta pequena história recorda a recente interpretação do relatório sobre a ética do racionamento de medicamentos caros em função das caraterísticas do doente, ou a anterior discussão sobre a justificação de tratamentos de hemodiálise a reformados idosos sem rendimentos.
Independentemente das dificuldades financeiras de um Estado, estamos perante graves ameaças à declaração universal dos direitos humanos.
Por isso, deixem-me pôr o problema assim: antes da atual crise, ficou combinado que umas pessoas faziam umas coisas e outras outras; que uns trabalhavam num setor de serviços e outras num setor primário.
Privilegiou-se o setor de serviços não transacionável (concretamente em Portugal, desde as eleições de 1989) e reduziram-se as atividades nos setores agrícola/alimentar e industrial; agora, com o desemprego, existem demasiadas pessoas que são desprezadas  e tratadas indignamente por governos que não colocam o combate ao desemprego como primeira prioridade, apenas porque não precisam de toda a população para a produção de bens e serviços, contentando-se com a pequena parte que tem emprego.
E só isso, essa ameaça de violação sistemática da declaração universal, já é suficiente para que se questione o atual modelo económico-financeiro, procurando medidas corretivas concretas.
Duvida-se que os simples procedimentos formais da democracia em vigor permitam, em países com limitada, no tempo, vivencia democrática, e com as limitações de vida cultural expressas pelos resultados do PISA, alterar no sentido positivo o referido sistema económico-financeiro, de modo a garantir à maioria da população um nível razoável de qualidade de vida.
De facto, a população desempregada tende a engrossar a abstenção sempre que há eleições, e a abstenção não é considerada na composição dos parlamentos.
Estimula-se assim a marginalidade e restringe-se a capacidade eleitoral dos cidadãos.
Poucos têm garantia de emprego, poucos votam, não há votos suficientes para mudar o sistema político, económico e financeiro.
Os cidadãos alemães dos anos trinta demonstraram grande falta de solidariedade entre os vários grupos sociais. Quem tinha rendimentos e quem acreditou nas suas mentiras, deu o poder a Hitler, primeiro por eleições, dando mais votos ao partido nazi, e depois por referendo, dando-lhe poderes absolutos.
Em escala diferente, guardando as devidas distancias, pode acontece o mesmo nas eleições em Portugal, falta de solidariedade para com os grupos marginalizados.
Que não interpretem mal a falta de confiança na democracia para a resolução da crise atual.
Os problemas que lhe estão adstritos têm soluções técnicas que não dependem da ideologia dos técnicos (ou simples cidadãos) e por isso não pode haver exclusivos de partidos ou soluções unicas ou salvadores de pátrias.
Tampouco existem receitas universais (que ideológicas, quer técnicas) para resolver a crise porque as variáveis económicas não estão relacionadas entre si por leis deterministas. Numa dada conjuntura pode ser bom aumentar os impostos, mas noutra pode ser péssimo; o crescimento é normalmente bom, mas pode resultar de ações imorais (venda de armamento, tráfico de droga, estrangulamento do mercado por grupos oligopolistas). E infelizmente são pouco eficazes as armas de que democracia dispõe para enfrentar estes perigos.
Como dizia Churchill, a democracia é o pior sistema, mas os outros ainda são piores. Mais uma razão para o melhorarmos.
E para o melhorar, defende-se a implementação de mecanismos de participação ativa de cidadãos e a apresentação nesse âmbito, de sugestões de medidas corretivas concretas (um exemplo, não necessariamente a seguir,  mas a estudar, sem duvida, para se retirar dele o que possa ser aplicado em Portugal, poderá ser o da Islândia após a crise financeira de 2008)  .
O enunciado de medidas concretas é o objetivo de próximos “posts”, pretendendo-se em cada um apresentar uma medida de grande abrangência podendo envolver o relacionamento internacional, e outra de impacto mais concreto ou de aplicação mais imediata.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Privatização e concessão da ANA, ou a gestão à maneira de Mofina Mendes

Tal como no caso da parceria público-bancária, ou o que eu penso que isso seja, no caso da transferencia dos fundos de pensões dos bancários para as finanças públicas, ver

, defronto-me agora com outra dúvida de interpretação, a propósito da contabilização das receitas de concessão e de venda da ANA.

Já nos tinham explicado, os senhores economistas-comentadores, que as receitas de uma concessão pelo Estado são abatidas ao défice público, por se tratar de uma atividade continuada.
Já as receitas decorrentes de uma privatização, por ser uma venda definitiva, só podem ser consignadas ao abate da dívida pública mas não ao défice.

Uma das minhas dúvidas é se os senhores governantes financeiros se comportaram como Mofina Mendes a fazer contas com o pote à cabeça que, de tanto entusiasmo, colocou mal o pé, pregou com o pote no chão e lá se foram as receitas para abater no défice e na dívida.
Pode não ter sido, mas um observador exterior e leigo como eu, dá razão a Gabriela Canavilhas quando pôs a hipótese deste governo ser um bando de adolescentes alunos de uma turma de contabilidade analítica com uma visão muito limitada (tal como Mofina Mendes?) do mundo real.
Não é que a ideia da concessão em vez da privatização veio dos iluminados para conseguir que o défice seja só de 5%? é que  com a privatização o Eurostat não deixa contabilizar no abate do défice… não foi nada por consideração do interesse público em conservar um setor economicamente estratégico e rentável na esfera pública.
Foi um bom esforço de imaginação, de busca de uma solução, embora ao estilo de Mofina Mendes.
Só que,o tal Eurostat manifestou reservas e pediu elementos.
Vem o senhor ministro Miguel Relvas explicar que não vale dar a notícia de que há problemas, que já falou com a senhora presidente do INE e que até dia 26 de Outubro vamos ter a aprovação.
Percebeu mal, o senhor ministro, como é natural em quem trata de muitas coisas  muito depressa: o que é até dia 26 é o envio dos elementos pedidos ao Eurostat.

Tenho de facto muitas duvidas sobre estes processos de privatização e de concessão.
Não são feitos em meu nome.
E estas coisas vão-se repetindo, lembrando a afirmação de Marx que, da primeira vez é uma tragédia, mas depois é uma farsa.
E se de facto, como qualquer análise matemática indica, não há possibilidade de cumprir os objetivos do memorando, é correto propor a renegociação dos termos, do ponto de vista de custos de financiamento e de prazos.
Como já muita gente séria vem dizendo há muito tempo.
Ou estaremos a falar para Mofina Mendes?

IMI e surrealismo

Podem as palavras, que são uma realidade objetiva, descrever um facto (ou não facto) surrealista, que ultrapassa as regras de relacionamento entre pessoas ou entre pessoas e conceitos?
Não sei, mas vou tentar.
Recebemos como herança,  meu irmão e eu, um prédio antigo em Coimbra arrendado à Direção de Finanças de Coimbra.
Por decisão unilateral do inquilino, os serviços que utilizam o prédio foram mudando, primeiro, para a Direção Regional de Agricultura da Região Centro e, depois, até à atualidade, para a delegação do Instituto Geográfico Português.
Caiu-se naquele equilibrio em que o senhorio não gasta dinheiro na conservação do prédio, que o inquilino , por interesse próprio, lá vai fazendo, mas também recebe uma renda contida.
Veio então a crise do IMI e da atualização das rendas (portaria 240 de 2012).
Veio também a diretiva implacável de cortar despesas ou obter receitas públicas. 
Imaginemos Kafka numa repartição puxando pela inventiva para cumprir a diretiva.
E o esforço deu frutos.
Recebemos um oficio do MAMAOT (quando se formou este superministério, ninguém fez um teste simples, terá sido por ignorancia, de conformidade da sigla? é que pequenos pormenores, como o desenho de um símbolo ou a conjugação de letras de uma sigla podem revelar desadequação relativamente à realidade e, aplicando um corolário da lei de Murphy, se podem, certamente que revelarão) com um formulário para preenchimento.
Tratava-se do formulário de inscrição na lista de fornecedores do MAMAOT para satisfação dos requisitos da contratação pública e das boas práticas de gestão dos fundos públicos.
Mas tratava-se tambem de um pedido para nós, os chamados proprietários do prédio, nos constituirmos em fornecedores de serviços ao MAMAOT, com a obrigação implicita de abrirmos a respetiva atividade nos serviços de finanças e de fornecermos os elementos para investigação fiscal (!!! a base da política fiscal portuguesa é esta, já hámuitos anos: o contribuinte é um criminoso que dee apresentar provas de que não é criminoso).
Eis a componente surrealista.
Não queremos ser fornecedores.
Nunca tivemos vocação para atividade económica continuada visando o lucro.
É, há pessoas assim.
Que não precisam de vir para as caixas de comentários da internet discutir o que é e o que não é serviço público, e que durante a sua vida ativa fizeram isso, serviço público, em função das necessidades da comunidade.
Há um direito constitucional que diz que ninguém pode ser obrigado a desempenhar uma atividade que não quer.
Podemos aceitar uma relação contratual de arrendamento.
Declaramos anualmente no IRS as rendas recebidas, considerando a retenção na fonte e a contribuição autárquica paga.
Pagamos o IRS em conformidade.
Mas não queremos ser fornecedores de serviços.
Se quiserem denunciar o contrato de arrendamento, podem; eu até preferia que não, mas podem, não me oponho.
Se quiserem utilizar um coeficiente de valorização superior ao coeficiente justo para efeitos de atualização do IMI, podem, que eu aceito um pequeno aproveitamento dos senhores fiscais tributários, porque já está elaborado o meu plano B, contrariamente aos governantes financeiros do meu país (ao aumento de impostos sucederá uma  redução dos seguros)
Assim como o sapateiro de Apeles não devia subir acima da sandália, não suba o MAMAOT acima do limiar da ameaça à dignidade do cidadão.
Não sejam surrealistas.
Acalmem essas mentes pesquisadoras de medidas punitivas.
Pensem antes nas medidas de financiamento (QREN, claro) e estímulo à reabilitação urbana.
Quando quiserem, podemos discutir medidas muito concretas.
Querem?



Luisa Basto - Minha vida, meu amor




Fui pastora, camponesa,
operária, forasteira.
Fui ao mar, servi à mesa,
fui cigarra cantigueira

Amassei o pão amigo,
chorei por ti, carpideira.
Fui à vida, ceifei trigo,
aplainei muita madeira

Sei o caminho que sou
porque estás à minha beira

Rasguei de sulcos a terra,
reguei as flores do jardim.
Tratei soldados na guerra
que nunca mais tinha fim

Andei por montes e vales,
fiz-me ao caminho e à estrada.
ai Maria, não te cales
calada não vales nada

Sei do caminho que sou
porque estás à minha beira

            Nuno Gomes dos Santos, cantado por Luisa Bastos,
           musica de Paulo de Carvalho, CD editado por Ovação


Deixo hoje este registo de homenagem à mulher,
- quando vejo nas noticias a tentativa de assassinio, no Paquistão, de Malala, uma menina de 14 anos que defendeu publicamente o seu direito à escola (pobre fundamentalista que ignoras o que o profeta Maomé disse, que mais vale a tinta de um sábio - como Malala quer ser -  do que o sangue de um mártir - como tu queres ser) ,
- quando leio a sugestão de Christine Lagarde de individualização das declarações fiscais entre homem e mulher, para facilitar a atribuição de benefícios à mulher correspondendo à sua condição específica
- quando ouço a empregada do café dizer-me que depois de o fechar, só chega a casa duas horas depois da viagem de metro e de duas camionetas, apesar da distancia em linha reta de casa ao emprego ser de 12 quilómetros (como é possível, depois de saberem isto, virem os senhores economistas dizer que o país precisa é de competitividade dos seus trabalhadores; que culpa tem a senhora da rede de transportes ser assim? a deslocação casa-trabalho dos trabalhadores alemães é feita a 6 km/h segundo a reta de ligação?).



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A polémica das PPP

Declaração prévia:
1 - o que vai seguir-se não é a defesa do modelo das PPP, nem dos governantes, financeiros, empresários e técnicos que as materializaram.
2 - É uma tentativa de registo de factos.
3 - O autor deste blogue detesta campanhas persecutórias e condenações sem análise cuidada de provas.
4 – o autor desconfiou do conceito de PPP quando começou a ouvir falar delas, nos anos 90, a propósito do metro de Londres, que abdicou do conceito de serviço público (conservando-o porem na parte operacional do metropolitano) criando as PPP com 3 grandes consórcios que faziam a manutenção e os investimentos ao arrepio das diretivas europeias (sem concurso público porque adjudicavam diretamente ao fabricante que participava no consórcio), sucedendo que um deles faliu.
5 – A razão da sua desconfiança, e falta de fé nas PPP é continuar a dar a primazia ao conceito de serviço público (prioridade à segurança, eficiência e comodidade no transporte integrado na comunidade, em detrimento do critério do lucro)
6 – essa desconfiança não invalida o respeito por várias experiencias de sucesso de gestão integrada de sistemas de transporte por companhias privadas, porque todos os casos devem ser estudados com as suas especificidades. Porém, uma gestão privada só se justifica se o lucro que ela obtem for inferior ao diferencial do valor da eficiência entre a empresa privada e a empresa pública, o que raramente se verifica na prática
7 – é parecer do autor que os critérios de seleção de grandes empreendimentos que conduziram à presente discussão sobre as PPP começaram por falhar por omissão de um debate alargado: por exemplo, foi dada prioridade às infraestruturas rodoviárias, quando já se sabia que o transporte ferroviário é mais eficiente; igualmente falhou a utilização de critérios de engenharia nessa seleção, isto é, os cálculos fundamentadores não foram suficientemente debatidos
8 – como técnico de transportes, sempre pareceu ao autor deste blogue que a ignorância dos conceitos fundamentais para estabelecimento de redes ou infraestruturas de transportes era muito grande entre os senhores ministros que foram empossados nessa pasta, e que os senhores dirigentes que colocaram à frente dos principais órgãos e empresas o foram, regra geral, não por critérios de competência (aliás, não se realizam concursos públicos para provimento desses lugares) mas como comissários políticos e elementos de ligação com os empresários do setor; tais circunstancias podem gerar promiscuidade entre o serviço público e empresas privadas com apropriação não ética de benefícios  por informação e posição privilegiadas
9 - relativamente à origem dos fundos que permitiriam a construção dos empreendimentos, é parecer do autor deste blogue que os métodos clássicos seriam  preferíveis, desde a utilização de fundos QREN aos empréstimos do BEI e outros financiadores (mesmo que isso reduzisse o numero de empreendimentos possíveis, evidentemente). Por mais “moderna” que pudesse parecer a teoria das auto-estradas sem custos para o utilizador, o princípio da precaução deveria ter feito prevalecer o método clássico das portagens, com fundamento no desperdício energético quando comparado com o transporte ferroviário
10 – se o que se segue pode parecer desculpabilizante para os responsáveis pelas PPP, gostaria de repetir que o modelo das PPP sempre teve a minha opinião contrária; passados estes anos todos, talvez ingenuamente possa dizer que agora se deverá dar ouvidos a quem já  pensava assim desde o início, numa altura em que se agravou a descredibilização dos serviços públicos, numa campanha que visava aquilo que os atuais governantes confessam: que, diabolizando as despesas do Estado, querem ver os serviços públicos reduzidos à sua expressão mais simples (o que evidentemente contraria o conceito de serviço público que defendo)

Factos:
1 – assiste-se neste momento a um clamor vingativo contra o governo anterior e contra alguns responsáveis pelas PPP, que, como qualquer clamor vingativo, pouco considera  factos
2 – a primeira PPP em Portugal foi a ponte Vasco da Gama, projetada durante um governo de cor diferente do governo anterior ao atual, e cujo ministro dos transportes passou a presidente da concessionária (ver artigo da wikipedia sobre cronycapitalism)
3 – segundo a auditoria recentemente encomendada pelo atual governo, o numero de PPP contratadas pelo Estado português foi de 22
4 – das 22 PPP contratadas, 8 foram-no pelo governo anterior ao atual, em consonância com orientações da união europeia para estimulo da economia (pessoalmente, já registei acima a minha discordância deste modelo)
5 – de acordo com a auditoria referida em 3, os encargos para o Estado das 22 PPP atingem o montante de 11.700 milhões de euros durante 30 anos, incluindo IVA
6 – a acusação que foi feita publicamente ao anterior governo é que o compromisso das PPP atingia 50.000 a 70.000 milhões de euros (dada a complexidade e a renegociação evolutiva, será expetável que o valor real se encontre entre o calculado pela auditoria e um valor mais baixo do que o valor mais baixo da “acusação”)
7 – tomando como base um cálculo expedito comparativo do eng. Pompeu dos Santos entre a ponte Vasco da Gama e a ponte das Lezírias, uma extrapolação também expedita, desprezando variáveis financeiras e custos de recursos humanos para as entidades públicas necessários à sua capacitação técnica, conduzirá á suposição  de que um modelo clássico, com recuros a concursos públicos e controle das empreitadas pelos serviços públicos, permitiria a construção das mesmas infraestruturas por metade do preço, isto é, 6.000 milhões de euros
8 – é assim provável, com a reserva de que a complexidade do caso exige  estudo por grupos pluri-disciplinares que poderão inutilizar esta estimativa ou demonstrar a inutilidade de algumas infraestruturas construidas, que os governos anteriores, desde 1993 (governos de Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates)  só poderão ser acusados de uma má gestão correspondente à geração de encargos dispensáveis de 6.000 milhões de euros/30 anos =200 milhões de euros/ano.
9 – recorda-se que o conceito de PPP é a construção da infraestrutura não ter custos para o Estado, sendo o empreiteiro ressarcido posteriormente ao longo de 30 anos,  quer por uma renda, quer por portagens, quer por lucros de exploração; no fundo, é como se o empreiteiro se constituisse em financeiro do Estado, com a vantagem,  para ele, de dominar a parte financeira do negócio e assim poder prejudicar o Estado sob a capa do respeito pela ordem financeira internacional
10 – um exemplo do que se diz no ponto 9 é a acusação tornada pública de que 705 milhões de euros foram negociados como compensações contingentes sem conhecimento do Tribunal de Contas; afinal, parece que esses 705 milhões de euros resultam diretamente da subida de taxas de juro
11 – como se sai deste imbróglio?  Possivelmente ninguém saberá, dada a pouca força negocial perante a banca e os 4 grandes (dois empreiteiros e dois bancos) , mas podia tentar fazer-se mais do que desistir de alguns troços anteriormente projetados, e evitar a passagem dos custos de operação e manutenção para o Estado sem que disponha de recursos técnicos, humanos e financeiros para isso  e, naturalmente, considerando que o esforço tem de ser repartido, mediante uma taxa direta sobre os concessionários que continuem a explorar e manter (já sei, vão invocar que assim abrem falência e têm de se deslocalizar para o estrangeiro; chega sempre uma fase nas negociações em que tem de se dizer a frase maldita: “é pegar ou largar”)
12 – é ainda de assinalar que o atual secretário de Estado dos transportes participou ativamente na negociação do financiamento das PPP rodoviárias enquanto diretor da Caixa/Banco de Investimento, e que foi também administrador do consórcio que assinou o contrato para o TGV, não parecendo portanto que possa vir a negociar a indemnização com o referido consórcio por não cumprimento do contrato pelo Estado (pessoalmente não tenho fé no argumento de que o contrato não era válido por falta de um visto do Tribunal de Contas, mas é assunto de jurídicos) - ver artigo da wikipedia sobre cronycapitalism.

Uma parceria público-bancária?


Estas coisas são muito complicadas e eu tenho dificuldade em perceber.
Também não sou obrigado a perceber tudo, mas vou escrever para ver se percebo melhor.
Como se sabe, em 2011 houve a ideia brilhante de contribuir para a redução do défice através da transferência de 6000 milhões de euros de fundos de pensões da banca.
Podia discutir-se se não seria mais correto abater na dívida em vez de ir ao défice, mas como digo, estas coisas são difíceis de perceber por leigos como eu.
Apesar de leigo, porém, como cidadão tenho o direito de discordar da solução pela simples razão de que, passada a boa notícia de reduzir o défice em 2011, ficarem as finanças públicas com  a obrigação de pagar as pensões dos reformados da banca que até então recebiam dos fundos.
Verifica-se agora, depois de conhecidos os maus resultados da execução orçamental nos primeiros 7 meses de 2012, com insuficiência nítida da receita fiscal (os senhores governantes não quiseram aplicar o principio da precaução associado à lei de Laffer sobre a redução da receita à medida que sobem os impostos), que é preciso dar uma volta à obrigação de pagar as novas pensões.
Portanto, como cidadão e crente no princípio da conservação (nada se pode obter a partir do nada e quando se obtem um beneficio têm de se contabilizar os custos) e do princípio da precaução (não faças nada hoje de que possas sofrer as consequências amanhã) , mantenho a minha discordância (ver alternativas noutros posts deste blogue).
E com a agilidade de quem tem sempre uma solução na manga, os senhores governantes lembraram-se, e muito bem, de um expediente que já tem sido falado neste blogue, que é o de utilizar títulos de dívida ou obrigações como meio de pagamento (ou de promessa de pagamento).
Só que neste caso, o sentido parece ser outro.
Vejamos:
Quando o Estado ficou com os 6000 milhões de euros dos fundos de pensões, não ficou só com  a obrigação de pagar as pensões (onde já se viu a banca privada fazer um negócio favorável à coisa pública?)
Ficou também combinado o Estado ficar com a responsabilidade por 3000 milhões de euros de títulos de dívida de empréstimos que a administração local ou empresas públicas tinham aos bancos.
A ver se entendi bem: o metro, por exemplo,  outras empresas públicas, e autarquias, pediram emprestado há tempos e receberam da banca 3000 milhões de euros.
Ficaram a dever ao banco e têm pago religiosamente o serviço da dívida aos bancos (não confundir com as despesas operacionais das empresas).
De repente, deixam de dever ao banco e passam a dever ao Estado, à coisa pública, isto é, a elas próprias (além de que dívidas de cobrança difícil valem menos do que o valor facial, isto é, o Estado não tinha que pagar por elas 3000 milhões de euros).
Será assim, ou é a minha incapacidade de compreensão de questões financeiras a toldar-me o entendimento?
Isto é, o Estado está a financiar os bancos com 3000 milhões de euros (1500 milhões para o BCP, 700 milhões para o BPI e 500 milhões para o BES) na esperança de que os devedores, empresas públicas e autarquias lhe paguem, a ele, Estado os 3000 milhões?
Se é assim, é uma operação como a que a senhora ex-ministra Ferreira Leite fez, vendeu as dividas de que o Estado era credor por tuta e meia a uma sociedade financeira (que terá sido feito dessa sociedade na crise de 2007-2008?). Mas em sentido contrário. Agora o Estado é comprador para ficar credor (mas não era já fiador? fica credor de uma dívida a si próprio de que é avalista? terá sido descoberta um forma de evanescer uma dívida?).
Parece ser um bom exemplo de uma parceria público-bancária. O Estado fica como credor de cobranças difíceis e os bancos melhoram a sua relação empréstimos concedidos/depósitos e as empresas públicas, se o Estado lhes perdoar parte da dívida como indemnização compensatória, reduzem a dívida.
Só vantagens.
Se é assim, como dar credibilidade ao senhor ministro das finanças e à senhora secretária de estado do tesouro quando dizem que não há dinheiro?
Porém os bancos duvidaram de tanta generosidade e a comissão europeia já levantou dificuldades. Mas o ministério das finanças parece que tranquilizou os bancos. Que ia meter um empenho para que a comissão autorizasse o negócio.
Será verdade, tudo isto? Interpretei bem? Ou estamos perante mais um caso de cronycapitalism? De profunda promiscuidade entre governantes e banqueiros?





domingo, 7 de outubro de 2012

Cronycapitalism - Sugestão de estudo para um pequeno caso


Animadíssimos em alinhar pela corrente dominante, os governantes de Pristina, Kosovo, lançaram um concurso para a privatização da sua companhia de telecomunicações.
Um dos concorrentes é um consórcio em que participam a PT , portuguesa, e uma empresa cujo principal acionista é Madeleine Albright. Essa mesma , a antiga secretária de estado de Bush.
Pode ser que este consórcio não ganhe, porque a competição é renhida.
Mas é um exemplo interessante de oportunidade de negócio na sequencia de uma intervenção armada que se supunha ter como motivação a democratização da zona.
Não era, era para abrir a zona aos negócios internacionais das grandes empresas privadas.
Penso que este é um caso de cronycapitalism (capitalismo de amigos, de compadrio, de conhecimentos, de promiscuidade entre os políticos e os grupos económicos) que podia ser estudado pelos académicos.

Para os curiosos sobre o cronycapitalism, ver

A taxa Tobin




Só agora vi este video com o discurso do reitor da Universidade de Coimbra.
Guerra Junqueiro dizia que Coimbra não era uma universidade euma tradição, era uma infeção.
E a história acabou por lhe dar razão, passe a rima.
Mas os tempos mudam.
E como diz este reitor, com muito trabalho, o pensamento da universidade de Coimbra mudou.
Longe vão os tempos da inquisição que sacrificou Damião de Goes, do deserto no ensino da matemática, e do triste professor de Santa Comba.
Em Coimbra vê-se este video e acredita-se que há esperança.
A taxa Tobin, se aplicado 1% sobre o valor das movimentações bancárias, equivaleria a 14% de redução do salários do setor privado (ceteris paribus, claro).
E será pelo parenteses que as mentalidades governantes inviabilizarão a proposta concreta.
Que os capitais reagirão em fuga.
Como diriam os castelhanos, "pues que se vayan".
Ou talvez não fossem tanto embora, se a união europeia cumprisse o seu papel e acabasse com os "off-shores" de Londres e da Holanda (harmonização fiscal).
Ou talvez não fosse preciso ir tão longe, bastaria que se concertassem as estratégias com os tais grupos amigos da coesão ou dos 5+5 paises mediterrânicos, ou os famosos PIIGS.
Não diga o governo que não há alternativas. De facto não há, mas só para quem tiver uma fé cega na sua ideologia. Há que anos que se fala na taxa Tobin...


sábado, 6 de outubro de 2012

A metáfora da bandeira



                                                      com a devida vénia ao Expresso
Antes que se ponham para aí a investigar impiedosamente quem foi o responsável pelo erro do sentido da bandeira nacional hasteada pelos senhores presidentes da República e da Câmara municipal, para ^pô a ferros num pelourinho o inocente, deixem-me que explique que se trata de um erro de projeto, de execução ou de manutenção.
Qualquer bandeira deve ter os componentes acessórios necessários e suficientes para que o seu içar só seja possível no sentido correto. Por isso, se a bandeira foi içada no sentido errado, foi porque faltavam esses componentes, já desde o projeto, ou na execução, ou na manutenção da bandeira e do mastro, roldanas e cabos para a içar.
Não culpem quem deu os cabos trocados aos senhores presidentes.
Mas é uma metáfora interessante, os senhores presidentes não saberem o que têm em mãos. É como se falassem sem verem bem em que sentido estão as coisas de que falam. Provavelmente porque os portugueses tem um défice de interpretação dos dados da realidade, como dizem os resultados do PISA e como é gritante a ausência de dados fiáveis na discussão de qualquer assunto neste país.

Viva o 5 de outubro


Viva o 5 de outubro

Um aplauso para Ana Maria Pinto, que fora do protocolo da sessão comemorativa, cantou a canção Firmeza, de João José Cochofel e Fernando Lopes Graça

"Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.

Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.

Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta."

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Cenas da vida quotidiana

Cena 1A cena passa-se numa máquina ATM de multibanco. A senhora pequenina, de bengala e óculos com lentes muito grossas, demora-se. Parece ter dificuldades com o menu. Oiço-a a interrogar-se se a máquina estará boa. Diz que só faz pagamentos. Pede-me auxílio. Instintivamente lanço olhares furtivos à volta, não vá a senhora ter um cúmplice prestes a assaltar. Mas não, aliás o sítio é movimentado, com um engraxador e um quiosque de jornais ao lado. Pergunto-lhe se já verificou se a maquina está a fornecer dinheiro. Está, o ícone confirma. A senhora retira e volta a pôr o cartão. Digo-lhe que tem de marcar o código e ela marca, é uma pessoa confiante. Ela diz, vê? Só faz pagamentos. Não, não, digo eu, agora tem de carregar na tecla dos levantamentos; quer levantar dinheiro, não é? Sim, sim, então tem de carregar aqui, ao lado do ecran. Devia ser isso, a senhora devia estar habituada ao teclado horizontal com indicação em cada tecla do montante a levantar. E agora tem de carregar na tecla ao lado do ecran, correspondente ao montante que deseja. Quanto é? 20 euros, diz a senhora, e o seu dedo com artrite pressiona a tecla. O ecran ilumina-se de vermelho e afixa a informação: o saldo autorizado não permite o levantamento. Pronto, digo eu, tem de ir ao banco ver isso. Ah, pois é, concorda a senhora, enquanto retira o cartão.
Fico a pensar que pode ser significativa a percentagem de pessoas cuja conta não tem 20 euros. A senhora esperará ansiosa que chegue o dia de recebimento da sua reforma ou que um familiar mais remediado faça uma transferencia. Ansiará que o tempo passe depressa. Uma pessoa idosa deveria ter qualidade de vida, e ansiar por que o tempo passasse devagar.
Que poderíamos fazer para que as pessoas pudessem ter mais de 20 euros na sua conta?
Vejamos, dizem os senhores economistas que nos governam, que o problema é da dívida pública e que por isso têm de lançar impostos.
Então é simples, basta lançar uma taxa, vá lá, 50 centimos,  por cada operação do multibanco, a pagar pelos bancos diretamente ao Estado, sem a repercutirem nos clientes. Quanto daria por ano? 500 milhões de euros?

Cena 2A cena passa-se num pequeno supermercado. É hora de almoço, por isso está só uma caixa aberta. Chego à fila onde já se encontram 4 cidadãs e cidadãos, alinhados no corredor. Vejo um cidadão surgir junto da caixa, vindo do corredor adjacente. Acontece muito nos supermercados pequenos. Os expositores tiram a visão e quem vem do lado e nunca sabe como está a fila do corredor alinhado com a caixa aberta. O senhor, pequenino, de cabelo já ralo e com um bigode argentino, abana a cabeça desiludido. O ar de desilusão dá lugar a um ar de reprovação e de crítica por só estar uma caixa aberta. Desculpa-se em voz baixa que não se percebe. Recuo ligeiramente, dando-lhe a entender que podia pôr-se à minha frente; não sofro da necessidade de provar a minha importância.  Mas ele continua a abanar a cabeça. O conceito de fila organizada não lhe é caro. Sente que as coisas devem estar organizadas para ele não ter contrariedades. Pode ser um complexo psicológico que lhe ficou da infância, consequência de medos e inseguranças que só eram esquecidos quando as coisas corriam bem. Ou um condicionamento egocêntrico que o impede de identificar corretamente as leis do mundo exterior. Ou a consequência da divulgação do conceito de consumidor, como predomínio do individual sobre a organização coletiva. Já se juntaram três pessoas atrás de mim. E de repente, surge uma jovem funcionária que diz: pela mesma ordem podem vir para esta caixa. Imediatamente o senhor dá energicamente uma volta sobre si próprio e é o primeiro a ser atendido.
Fico a pensar no que dizia Francisco Pereira de Moura, que passar à frente numa fila é fascismo, e que isso não é um insulto, é apenas a verificação dum modo de pensar e atuar, de quem sente que os seus interesses egoístas devem ser atendidos independentemente da existência de outros cidadãos e cidadãs.
E que quem assim procede vota de acordo com o que pensa e faz.
E que os seus eleitos provavelmente aplicam na íntegra o seu conceito.
Independentemente do que possa pensar quem possa ser prejudicado com isso.
O partido nazi também foi o partido mais votado, nas eleições de 1929.

Cena 3  - A cena passa-se na barbearia. Os dois funcionários são brasileiros e por isso a televisão mostra sempre o canal dedicado aos brasileiros emigrantes. Notícias da cidade de Goiânia. Foi encontrada nas ruas uma égua abandonada, magra em extremo e maltratada. A polícia entregou-a aos cuidados de um veterinário e investigou até encontrar o dono. O pobre homem vive nos restos de uma antiga quinta absorvida pela expansão urbana. A égua recuperar-se-á mas a policia quer garantias de que o velho a alimentará e tratará bem. O homem, mal arranjado, com a barba por fazer e o cabelo muito branco desalinhado, não confessa, por pudor, que não tem dinheiro para alimentar a égua, que só a deixou fugir porque tinha estado adoentado.
Fico a pensar que o mesmo aconteceu há pouco em Lisboa, na zona da antiga quinta da Curraleira. O pobre cavalo andou fugido pela Avenida Almirante Reis. Mas no Brasil, um país com indicadores de crescimento tão firmes, ainda há equídeos que correm o risco de morrer porque os donos lhes vão reduzindo a ração, aos poucos, até ao limite?
Como dizia Karl Marx, a repetição da história é uma tragédia.


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Pequena contribuição para o Congresso democrático das alternativas


No seguimento do anterior post sobre o congresso democrático das alternativas:

Enviei a seguinte modesta colaboração, esperando que o congresso tenha sucesso, que tenha recolhido muitas subscrições, e que possa ter seguimento através da dinamização da sociedade civil:





Como técnico, apenas sei tentar analisar as questões de transportes e de energia aplicadas a meios urbanos.
Concluí que a política deste governo não respeita dois objetivos essenciais nos transportes urbanos:

- redução dos consumos de energia por passageiro.km (energia consumida para transportar um passageiro durante  um quilómetro) mediante a escolha do modo de transporte mais eficiente
- separação entre a gestão das contas correntes (pessoal e fornecimentos e serviços externos – contas da empresa dependentes dos utilizadores ou beneficiários) e a gestão e o serviço da divida publica dos investimentos (contas públicas dependentes do orçamento de Estado)

Tentei demonstrar com cálculos a sustentabilidade do transporte metropolitano quando comparado com o transporte individual e com o transporte rodoviário (cálculos em   http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/04/comparacao-das-rodas-de-borracha-e-de.html
e em

Tentei calcular o prejuízo que temos todos os anos na área metropolitana de Lisboa por não conseguirmos desviar 10% do tráfego automóvel para o modo ferroviário (claro que exige investimentos, mas não apenas).

Para passar da teoria à prática, penso que não seria difícil reunir um grupo de técnicos que pormenorizasse  medidas a propor para beneficiar de fundos comunitários, eventualmente sob coordenação da Ordem dos Engenheiros, mas com a participação ativa de estruturas do ministério dos transportes, de universidades, de institutos de engenharia e de empresas do setor, e aberta à participação de cidadãos.
Nesta área, a defesa do modo ferroviário é ponto assente em Bruxelas como uma prioridade, nomeadamente das redes trans-europeias.

Em questões de transportes e energia, a proposta essencial para a estratégia será a de investir nas infraestruturas que permitam a transferência de uma quota cada vez maior do transporte individual e do transporte rodoviário para o transporte ferroviário.
Os investimentos necessários requerem a elaboração de projetos com suficiente profundidade para poderem beneficiar dos fundos do QREN ou de programa que lhe sucederá para 2014-2020.

Na energia,  a estratégia deverá ser a de investir em energias renováveis e em linhas de transmissão em alta tensão, pelo menos até França, exportando o excesso de produção no território português.
Igualmente se aplica aqui a necessidade de projetos bem elaborados para beneficiarem dos fundos QREN ou sucedâneo sendo certo que a politica europeia, de redução da dependência do petróleo e das emissões de CO2 devidas às centrais elétricas de combustíveis fósseis, é convergente com o aumento da importância das renováveis em Portugal (apesar de isso não beneficiar os detentores das centrais de combustíveis fósseis e apesar do custo mais elevado de produção do kWh a partir das renováveis).
Ver



Como cidadão, apenas posso propor uma série de sugestões já faladas na comunicação social e discutidas pelos parceiros sociais com o governo.
Mantem-se porem a necessidade de alargamento do debate sobre essas medidas.
Sugere-se o envolvimento das assembleias de freguesia através de canais de comunicação com os órgãos de governo e estatística  para receção de informação de dados e indicadores de economia e sociologia e de cálculos fundamentadores de propostas, e para disseminação e retransmissão aos órgãos oficiais das contribuições dos cidadãos):

- transferência de divida externa para divida interna (por exemplo, resgate de empréstimos externos com certificados e obrigações de tesouro)
- subscrições públicas de certificados de aforro com eventual periodo aumentado de carência com benefícios fiscais para captação da poupança das famílias de 130 mil milhões de euros
- negociação direta com a comissão europeia de flexibilização das normas de proibição de restrições às importações
- fórmula variável da TSU entrando com um coeficiente proporcional à relação entre a componente importada e a componente exportada no custo do produto da empresas
- auditoria às dívidas pública e privada e sua  monitorização mensal, determinando os consumos para cada tipo de despesa (i.é, saber-se o destino por tipo de despesa, do dinheiro obtido por empréstimo, como condição indispensável para se poder limitar os gastos que provocam o endividamento, público ou privado)
- aplicação do conceito de “kurzarbeit” (redução do horário de trabalho semanal nas empresas de bens transacionáveis em função da procura, com compensação em ações de formação subsidiadas por fundos QREN)
- negociar diretamente com a comissão europeia  apoios técnicos e a alocação de verbas QREN para investimentos publicos geradores de emprego, nomeadamente:
·         a ligação ferroviária de alta velocidade Lisboa-Sines-Madrid para passageiros e mercadorias
·         o desenvolvimento de centrais de bio-massa
·         o desenvolvimento de uma central solar de coletores e sais fundidos em parceria com a Estremadura espanhola
·         expansão das frotas de veículos elétricos de serviço público (por exemplo, não se justifica que os veículos de apoio das câmaras ou grandes firmas em serviço urbano, ou os veículos pequenos de recolha de resíduos sólidos nas cidades continuem a ser de combustíveis fósseis)
·         o desenvolvimento de uma parceria para retoma da produção dos estaleiros de Viana do Castelo sem que o estado não perca a totalidade do capital
·         o desenvolvimento de centrais eólicas e fotovoltaicas com ligação a França através de linha de transmissão de muito alta tensão
·         o desenvolvimento de planos de reabilitação urbana com emparcelamento de números de matriz para melhoria da habitabilidade

Penso que a  estratégia deverá incidir essenciamente:
·         na autonomia do país em produção alimentar
·         na autonomia do país em produção de energia elétrica
·         na retoma do investimento em infraestruturas através de fundos QREN


Sugestão para livros que discutem métodos de debate público, de abordagem de problemas e de tomada de decisões:

- A sabedoria das multidões, de James Surowiecky, ed. Lua de papel
- A revolução sem lider, de Carne Ross, ed. Bertrand
- Portugal, dívida pública e défice democrático, de Paulo Trigo Pereira, ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos

Sobre a temática das energias renováveis e luta contra a dependencia de combustíveis fósseis, sugiro:

- 10 tecnologias para salvar o planeta, como conciliar clima com energia, de Chris Goodall



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A conferencia de imprensa dos impostos enormes do senhor ministro da voz pausada Vitor Gaspar

Voltando ao tema, depois da conferencia de imprensa do senhor ministro das finanças em 3 de Outubro de 2012 e depois do desalento de ver o esforço recair principalmente sobre o aumento dos impostos de quem trabalha e de ver a determinação do governo em paralisar os investimentos e, consequentemente, em estimular o desemprego (curiosamente, a constituição da republica portuguesa diz explicitamente, isto é, sem deixar qualquer margem para duvidas de interpretação, que o governo deve promver politicas de pleno emprego), venho recordar propostas de combate ao desemprego já antigas neste blogue: o “kurzarbeit” (possibilidade de redução do numero de horas de trabalho semanais com compensação em formação com fundos QREN) e os projetos de infrasestruturas comparticipadas pelo QREN:

Diz o senhor ministro da voz pausada que está a analisar com os parceiros sociais propostas específicas de combate ao desemprego. Acredito, mas os parceiros sociais também se deviam abrir mais à participação dos cidadãos. Isto devia ser mais falado, em termos concretos e com divulgação de cálculos fundamentadores.
E se, finalmente, se convenceu, o senhor ministro da voz pausada, que não é pecado taxar as transações financeiras (refiro-me à taxação das transações, não me refiro à taxação das mais valias em bolsa), embora considere ser preciso consultar os sacerdotes da comissão do índex para obter uma autorização de legislação (engraçado: quando se trata de violar um contrato feito com os seus funcionários, a entidade que o senhor ministro da voz pausada representa pode cortar salários; quando se trata de alterar as regras de uma transação, vai ajuizadamente pedir uma autorização para legislação; que bonito de se ver), ao menos veja se dá mais atenção a quem há dois anos e meio  vem falando disso:

Não descobri nada de novo, há dois anos e meio. Limitei-me a ler as secções de atualidade financeira de jornais diários.
Eu sei que o senhor ministro da voz pausada é muito competente tecnicamente  (“tecnicamente” aqui refere-se apenas à capacidade de trabalho em contabilidade, porque paralisar investimentos não me parece poder classificar-se dessa forma dum ponto de vista mais abrangente, para mais com uma comparticipação do QREN que pode chegar a 95%), mas dois anos e meio para descobrir uma coisa que qualquer cidadão já tinha visto não é tempo demais?

Sinceramente parece-me que sim, que é tempo demais; que não denota o regular funcionamento duma instituição como um ministério das finanças, se é que constitucionalmente me estou a fazer entender.

PS em 5 de outubro de 2012 - O senhor professor Augusto Mateus comentou o discurso do senhr ministro Vitor Gaspar elogiando a redução do défice público mas criticando vigorosamente a ausencia de uma estratégia económica do atual governo, nomeadamente com o não aproveitamento dos fundos QREN. E afirmou que a chave é o investimento privado.
Penso que é uma proposta semelhante ao guizo no pescoço do gato. Estamos todos de acordo, mas quem investe, já que o Estado está proibido pela ideologia dominante, em Bruxelas e em Lisboa?
Retomo as fórmulas do PIB em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/06/um-pouco-de-teoria-economica-o-pib-e.html

investimento privado = poupanças privadas + poupanças do Estado + importações - exportações

Estando as poupanças do Estado pelas ruas da amargura (queda de receitas, impostos descontrolados, perda de dividendos) e não convindo que sejam positivas as importações líquidas (importações - exportações), resta às poupanças privadas avançarem.
Talvez, se os seus detentores concordarem em as retirar de onde as têm, agora que já se fala na troca de títulos de empréstimos ou no pagamento de dívidas com títulos.
Ou então, lá está, fazer os investimentos à custa de importações (o problema, para alem  de haver poucos interessados, é que quando uma empresa estrangeira investe em Portugal, o que ela vende conta para o PIB português, mas como tem de exportar os lucros, o produto nacional bruto acaba por ficar mais pequeno do que o produto interno bruto; isto sem falar que provavelmente o investidor estrangeiro vai privilegiar fatores de produção externos).
Penso que podia ser aqui outro campo de aplicação de fundos QREN.
Esta discussão será interessante se se apresentarem propostas concretas (o senhor ministro da economia, verdade seja dita, até o tem feito por vezes, com insucessos pelo meio, como a desistencia das minas de Moncorvo, da fábrica de baterias de tração, do regadio do Alqueva, etc, etc).
E se se analisarem com cuidado os fluxos dos fatores de produção (isto é, quanto do material necessário para produzir um determinado bem em Portugal é importado, e quanto se tem de exportar com os lucros?).
Por tudo isto, continuo a estranhar que o senhor ministro das finanças e os senhores comentadores não abordem com decisão o tema da dívida externa privada (bancos e empresas) e não esclareçam a composição da dívida privada por tipo de utilização e a sua evolução trimestral.





terça-feira, 2 de outubro de 2012

António Coutinho



Este blogue já registou o pensamento sábio de António Coutinho, diretor do instituto de ciencia da Fundação Gulbenkian: 

Agora que termina o seu mandato, ao mesmo tempo tempo que vai trabalhar na autonomização do instituto relativamente à casa mãe, o serviço público da Antena 2, que os nibelungos ainda não conseguiram paralisar, transmitiu a seguinte entrevista:


É uma pena os meios de comunicação social não darem mais atenção e não divulgarem o que pensa e faz António Coutinho.
Eu sei que a incultura tem muita força, e que faltam meios de divulgação da cultura e dos métodos de organização de comunidades produtivas e de tomada de decisões.
Que pessoas como António Coutinho se envolvem com os seus pares especialistas e conseguem trabalhar em grupo com a participação de todos e que até acabam por dizer que a ciência em Portugal progrediu muito desde 1980.
Como eu gostaria que isso tivesse acontecido fora do seu círculo especializado.
Mas sublinho a importância do que diz António Coutinho: que o principal é a tolerância de saber ouvir as críticas, de dar força aos jovens, de não se ficarem, nas comunidades de trabalho,  pelo top-down e investir decididamente no método bottom-up, envolvendo os colaboradores em trabalho de equipa. De abordar os problemas e adotar os métodos de solução conforme os bons princípios.
Que não são as regras que fazem falta, são os princípios. É a ausencia de respeito pelos princípios que leva as pessoas a suspirarem por regras.
Pena, mesmo, a dinamização da sociedade civil, ao nível das assembleias de freguesia, ao nível dos programas de TV e rádio, ao nível de grupos de especialistas, ser tão difícil em Portugal.

Não são precisos lideres iluminados ou guiados por uma fé cega que arrastem multidões e salvem pátrias.
Não são precisas reformas que irão ao encontro de interesses em expansão.
São as próprias pessoas, ao seu nível, que podem fazer o país progredir, apesar dos detentores das interpretações ditas corretas das coisas.
Vou repetir-me, vou citar novamente "a sabedoria das multidões" de James Surowiecky, "a revolução sem líderes" de Carne Ross, "a economia dos pobres" de A.Banerjee e E.Duflo, "Portugal:divida publica e defice democrático" de P.Trigo Pereira, "economia portuguesa, as ultimas decadas" de Luciano Amaral, "segurança social: o futuro hipotecado" de F.Ribeiro Mendes, "os ultimos 200 anos da economia portuguesa e os p´roximos 30" de Luis Monteiro.

Vivemos desalento.
Recordo o poema de Manuel Alegre em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/04/manuela-alegre-de-nambuangongo-balada.html

E este pequeno excerto de Álvaro de Campos , na fase final da sua vida:
"...as coisas são sensações nossas sem objetividade determinável, e eu, sensação também de mim mesmo, não posso crer que tenha mais realidade que as outras coisas. Sou, como toda a gente, uma ficção do intermezzo falso como as horas que passam e as obras que ficam no rodopio subatómico deste inconcebível universo".

"Inconcebível universo".
Como estas duas palavras, assim juntas, dizem tanto...

Como dizem os médicos, temos de reagir.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Estaleiros de Viana do Castelo em 1 de outubro de 2012


Em 10 de setembro escreveu-se neste blogue que uma das formas de aumentar a produção em Portugal seria executar o programa de construção de navios patrulha.


Não é esse o entendimento do governo atual, que cancelou o programa, contribuindo para mais uma desvalorização dos estaleiros de Viana do Castelo.
Chamo a atenção para que o argumento de falta de dinheiro, utilizado pelo ministério das finanças, o é sem vir acompanhado de fundamentação, nem sequer um quadro Excel com a distribuição das rubricas orçamentais (isto é, o orçamento de estado é secreto até ser apresentado; não contem contribuições de entidades alheias ao governo e seus apoiantes; ficaram de fora portanto, pelo menos, 70% de portugueses).
Além disso, lógico será haver verbas do tipo QREN para financiar o patrulhamento de uma parte da costa da união europeia.

Reproduzo assim, com muito respeito pelos trabalhadores dos estaleiros de Viana,  numa altura em que já houve respostas ao caderno de encargos para a privatização, mas ainda não há propostas confirmadas, uma foto da manifestação dos trabalhadores contra a privatização, em 1 de Outubro.


com a devida vénia ao MSN


Para não ser acusado de fazer criticas destrutivas, apresento a sugestão do que os cidadãos costumam fazer quando ninguém oferece o valor justo pelo bem que querem vender: negociam com quem tem mais experiencia no negócio a utilização das infraestruturas que possuem.
Pode não ser uma concessão, pode ser uma parceria, apesar da desvalorização da palavra (que não do conceito), pode ser um aluguer , pode ser um comodato… a Noruega precisa de navios para as suas carreiras entre fiords (existem normas específicas para navegação nos fiords). Já houve contactos exploratórios; não podiam pôr de lado o tal concurso e pôr os estaleiros a negociar diretamente com o embaixador da Noruega? (diabo, havia um gabinete de advogados que veria as suas receitas diminuir).
Ah, é verdade, convinha o senhor governo não se esquecer que o pouco dinheiro que pensa obter com a privatização não pode ser utilizado para reduzir défices. Quando muito dívida.

PS em 2 de outubro de 2012 - Hoje foi anunciada a assinatura na Venezuela de um aditamento ao contrato para o fornecimento dos 2 asfalteiros. A empresa venezuelana aceitou a prorrogação do prazo de construção. Porém, os estaleiros vão ter de lançar os concursos para o fornecimento de chapa e equipamentos para substituir os que forma anulados. Tambem vai ser preciso contratar pessoal.
Tudo isto enquanto decorre um rigido processo de reprivatização que não admite apenas a gestão da empresa e a assunção dos correspondentes eventuais  prejuizos por terceiros sem que o estado perca a propriedade.
Posso ser acusado de descrente, mas não acredito que o atual governo apoie este projeto (ninguem viu na televisão um senhor ministro a vangloriar-se de ter feito um negócio fora de portas...). Mais facilmente utilizará as burocracias da contratação publica para o paralisar, como qualquer fariseu ou publicano dos evangelhos.
Vamos ver.
Espero sinceramente estar enganado, que não venha a poder dizer daqui a dois anos (novo prazo para o fornecimento), que os estaleiros foram vitimas de um ato de banditismo.