segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Cartas de Bucuresti, abril de 2003

Nota prévia - Este blogue serve também para o seu humilde escriba deixar algumas recordações da sua vida profissional. Neste caso, para que os concidadãos romenos não se zanguem com o que deixo escrito, acrescento que em quase dez anos e depois da adesão da Roménia à União Europeia, muita coisa terá mudado; por exemplo, o hotel abandonado, preferido de Ceausescu, é hoje o hotel Cota 1400, muito utilizado por turistas ao longo de todo o ano.


1ª carta


Querida amiga

Aqui estou, como prometido, a dar-lhe noticias da terra de Bucur.
Já é noite, talvez em Lisboa ainda não e a minha amiga ainda esteja no seu gabinete.
Escrevo calmamente no meu quarto de hotel com o computador portátil e amanhã deixarei a memória USB com o texto na receção para lho enviarem por email.
O novo aeroporto de Bucareste pareceu-me bem construído, mas o átrio das chegadas é demasiado pequeno para a multidão que espera.
No meio da confusão  de motoristas de táxi a oferecer os seus serviços um deles perguntou-me em francês para onde eu queria ir.
Em francês, como se adivinhasse a minha ligação à cultura francesa, apesar dos crimes de Napoleão.
O homem era grande e anafado, parecia estar sozinho e aceitei a proposta do serviço por 20 euros.
O táxi era um Dacia com 20 anos, igual ao velho Renault 12.
O motorista era conversador; quando passámos pelo arco do triunfo disse-me que era um admirador do general de Gaulle, que tinha estudado francês no liceu_e repetiu muitas vezes que Bucareste é a Paris da Europa Oriental; que gosta de receber a paga em euros e acha   que a Roménia espera ansiosamente a entrada na União Europeia.
Bucareste à noite é linda, com iluminação modesta nas avenidas arborizadas.
Vê-se que houve influencia dos “boulevards” parisienses e dos campos elísios.
Às minhas perguntas sobre os partidos políticos não respondia, mas sobre as difíceis condições de vida e de trabalho era pródigo em queixas.
O hotel Marriot fica a seguir ao grande palácio dos congressos, de arquitetura monumental e massiça, que Ceausescu mandou construir, rodeado por um amplo espaço ajardinado, de vegetação rasteira. É agora a sede do Parlamento nacional.
O motorista entrega-me a pequena mala e diz que o transporte de um hóspede do Marriot vale mais do que 20 euros, e que tinha gostado tanto de conversar em francês comigo que ficaria satisfeitíssimo se eu lhe desse 30 euros.
Que foi o que fiz, perante um empregado do hotel um pouco escandalizado.
Como é hábito nas nossas reuniões de técnicos de eletrotecnia de metropolitanos, uma simpática refeição ligeira e variada serviu de base ao reencontro do nosso grupo e à conversa sobre os acontecimentos internacionais desde a reunião anterior, em Bruxelas. Foi pena não ter trazido a minha mulher, para fazer companhia às simpáticas esposas dos colegas romenos anfitriões e dos colegas de Hamburgo e de Varsóvia,  mas seria inconveniente para o programa das suas aulas.
A qualidade do serviço do hotel é muito boa e os empregados são amáveis.
Recolho ao quarto para rever os assuntos a tratar amanhã na reunião e para lhe escrever estas breves palavras.

Veremos se amanhã à noite não estarei demasiado cansado para lhe relatar o dia.

Boa noite.



2ª carta

Interessantíssimos os temas da reunião de hoje.
Analisámos todos os sistemas de manutenção de todos os tipos de equipamentos elétricos ou sistemas de controle em uso nos metropolitanos do nosso grupo. Mas talvez isso não lhe interesse muito, pelo menos por enquanto, no seu percurso profissional.
Possivelmente por razões económicas, a reunião decorre num dos edifícios do metropolitano de Bucareste.
Sabe que não gosto muito de um indicador que estou a construir?
O metro de Lisboa tem cerca de 30 km de rede e foi inaugurado em 59. O metro de Bucareste tem cerca de 50 km e foi inaugurado em 74. Multiplicando a extensão da rede pelo ano de inauguração obtemos o tal indicador, que dá uma ideia pouco favorável par ao nosso metro. É verdade que o transporte coletivo na Roménia, por força do fraco poder de compra da população, predomina sobre o transporte individual, mas o metro de Lisboa continua mal colocado em âmbito de cobertura geográfica e de volume de população se o compararmos com as cidades de poder de compra semelhante ao nosso. Infelizmente, não temos sabido aplicar da melhor forma o dinheiro que temos investido na nossa rede.


A parte central de Bucareste ostenta os vestígios das glórias passadas no inicio da belle epoque, antes da primeira grande guerra, no período de expnsaõ da industrialização germânica, em quarteirões de mansardas, ou em ruas sossegadas de grandes mansões. Não se preocuparam muito em conservar os bairros antigos. A urbanização à francesa sobrepôs-se. Consta que o rei Carol I dividia as suas capacidades estratégicas pela captação dos investimentos alemães e pela  cultura francesa. Mas agora os edifícios mostram ruína. É deprimente ver nas ruas comerciais a maior parte das lojas fechada, com o correio a apodrecer e o lixo a acumular-se. Há movimento de pessoas; deduzo, pela forma como se deslocam,  que têm trabalho; reparo nas jovens mulheres, sempre vestidas de forma clássica. O transito é escasso, maioritariamente táxis Dacia, e há ainda veículos de tração animal, com rodas de borracha, pobres bichos, pobres donos. Nas placas centrais, ajardinadas e arborizadas, vejo vários  grupos de funcionárias municipais. Mas estão normalmente sentadas, sem trabalhar, com os cestos do farnel ao lado. Vestem saias largas e compridas e lenços na cabeça de tez morena. Detenho-me a ler o programa do teatro de ópera, também rodeado de uma área verde. É grande o contraste com a pobreza geral, quase todos os dias há um concerto, um bailado ou uma ópera. Reparo num nome importante no panorama operático, Elena Obratsova.

Depois da sessão da tarde da nossa reunião e antes do jantar, saí do hotel para explorar a longa avenida no sentido dos subúrbios.
Mais uma vez vi gente movimentando-se rapidamente de regresso a casa, aparentemente poupando dinheiro graças ao percurso a pé.
Os passeios são largos, mas os pavimentos são poeirentos. A urbanização é incaracterística. Há uma igreja ortodoxa, com as suas cúpulas, abafada entre blocos de habitação social. A distribuição elétrica é feita por cabos pendurados em postes de madeira. Mas vejo confiança no olhar da mulher jovem que caminha determinada pelo passeio, com um pequeno saco de compras, equilibrando-se nos seus sapatos clássicos de verniz preto de salto alto. Assim como assim, há sempre alguém que acredita no futuro.

Espero não a ter maçado com mais esta carta.
Até amanhã.

3ª carta

Querida amiga

Estou cansado.
Este foi o dia mais cansativo, e só teve, de trabalho, uma rápida visita ao centro de comando do metro. Os nossos colegas estão muito contentes com os fornecimentos da grande companhia alemã, mas eu diria que o equipamento é um pouco tosco, não será o ideal para facilitar o comando centralizado do movimento dos comboios em toda a rede e para suportar as extensões da rede que estão programadas, mas enfim, funciona.
O metropolitano de Bucareste decidiu poupar-nos um dia inteiro de trabalho e ofereceu-nos um passeio de 150 quilómetros até aos Cárpatos, para visita do palácio romântico do rei Carol, o castelo de Pelese, a norte de Ploiesti.
O rei Carol era um nobre alemão a quem ofereceram o trono da Roménia, na altura da independência do país relativamente ao império otomano.
Vivia-se a época dos nacionalismos românticos, e o elemento que entrelaçava os novos países era a ligação às casas reais da Europa no poder. Tudo subordinado, evidentemente, à ascensão dos grandes industriais e das casas financeiras suporte da industrialização.
Deixe-me contar-lhe um facto terrível: ao longo de toda a estrada não vi uma única cabeça de gado nos campos, nem vacas, nem ovelhas, nem cabras.
Passámos por ruínas de explorações petrolíferas – como sabe, a Roménia tem poços de petróleo e de gás, em terra e no mar Negro -  mas as torres que avistei da estrada estavam inoperacionais.
A Roménia espera , provavelmente, a entrada na união europeia para arrancar com as explorações agro-alimentares, com o reinicio da exploração petrolífera e o desenvolvimento do turismo, não sei.
Mas sei que a desmotivação de todo um povo e o acantonamento de uma economia frágil na zona da armadilha da pobreza dos rendimentos impossíveis para qualquer investimento, conduz a esta desgraça.
Eu sei que todos os povos, em épocas de crise, são capazes de encontrar dentro de si próprios meios de sobrevivência que escapam aos registos dos economistas, mas a sensação que me domina é a de que, se por uma catástrofe natural o país desaparecesse, ninguém iria importar-se.
Antes da visita ao palácio, levaram-nos ao hotel alpino preferido de Ceausescu para as suas férias na neve e para as receções aos aliados, a poucos quilómetros de Siniu, onde se encontra o palácio de Pelese.
Foi uma desilusão para os nossos anfitriões, que não esperavam que o hotel estivesse fechado. O casal mal encarado que guardava o complexo informou que só abririam para os 3 meses de verão. O colega do metro de Bucareste lamentou baixinho, com sinceridade mas claramente sem querer defender a politica cega de Ceausescu, que no tempo dele nunca o hotel estaria fechado.
Siniu parecia feita de casas de bonecas, lá ao fundo. Do outro lado, as encostas cobertas de coníferas ocupavam o resto do horizonte.
Estavamos nos Cárpatos.
E imersos em mais um exemplo da desmotivação e da espera pelos investimentos da Europa.

Regressámos há pouco, sem grande vontade para jantar depois do abundante almoço oferecido no palácio.
Vem-me à ideia a comissão de receção aos turistas à entrada da rampa de acesso ao palácio do rei Carol: um violinista e a sua musica romena e uma cigana robusta com uma pulseira de ferro e um pequeno leão a ela acorrentado. Lá tivemos de deixar umas moedas, que no meu caso até foram euros.

Desejo-lhe uma boa noite.

Até amanhã.





4ª carta

Estou a escrever-lha do aeroporto de Munique. Tenho ainda 3 horas antes do embarque para Lisboa e já combinei com a simpática assistente da sala de informática do aeroporto o envio do email com este texto, que o meu portátil ainda não tem wi-fi.

Aproveitei o sábado de manhã para dar mais uma volta pela cidade, antes de seguir para o aeroporto.
Visito o jardim botânico. Está repleto de espécies interessantíssimas. Mas o estado de abandono e de desleixo é mais uma vez deprimente. Surpreendo atrás dos vidros da estufa laboratorial o semblante desanimado de duas botânicas, atrás dos microscópios. Comovo-me com a degradação dos canteiros, dos caminhos ladeados de palmeiras, com a ausência de jardineiros, com os vidros partidos das estufas, com a invasão inconveniente das raízes das árvores tropicais. Eis a Roménia dos nossos dias, esperando a salvação com a união à Europa.
Regresso aos boulevards e à praça da Liberdade.
Desço o parque  rei Carol, quase gémeo do nosso Parque Eduardo VII.                      .
Um grupo de jardineiros está alargando as caldeiras das árvores para aumentar a eficácia da rega. O trabalho é para ser feito com enxadas, não há mecanização, e a rega será com um depósito com rodas, puxado por homens. Cada um dos jardineiros está junto da sua árvore, alinhadas segundo o declive até à rotunda ao fundo, a prça da Liberdade. Falta pouco para o meio dia. Todos  eles estão imóveis, com o queixo encostado ao cabo da enxada, contemplando a pequena carroça que ao longe,  na rotunda, contorna a placa central onde um grupo de mulheres de saias amplas apanha as ervas daninhas. De repente, ouve-se a sirene do meio-dia e todos eles largam as enxadas, que caem no chão, e dirigem-se para o refeitório. Continuo a descer o declive e verifico que as apanhadoras de ervas daninhas têm outro horário, porque continuam a trabalhar, porém, do seguinte modo: estão alinhadas lado a lado, mas imagine que estão todas em pé, direitas, menos as duas da ponta direita, a última com o tronco a 90º e a penultima completamente dobrada, em plena função arrancadora da erva.  Imagine agora que, em frente dessas duas, um jovem em mangas de camisa e calças enfiadas nas botas de jardineiro corre desalmada e paralelamente à fila, da ponta direita para a ponta esquerda. À medida que corre, as mulheres que deixa para trás vão-se endireitando e aquelas de que se aproxima vão-se dobrando. Chega ao fim da fila e recomeça em sentido inverso. Há um efeito de onda que se propaga de um lado para o outro e depois para o outro lado.
O jovem virá a ser dirigente de qualquer coisa, pelo entusiasmo com que desempenha a sua função de encarregado. Terá aperfeiçoado a sua técnica de gestão de pessoal nalgum curso de motivação  e de otimização dos ativos humanos. Mas deixou-me um pouco triste.

No caminho de taxi para o aeroporto, recordo as conversas que tive com o nosso colega do metro de Bucareste: que a Roménia tem de desenvolver o turismo, pôr a funcionar a extração de petróleo e de gás e, sobretudo, que não cometa o erro de deixar estiolar a sua produção agro-alimentar. Que nunca se deixem embalar pelos produtos alimentares mais baratos da Alemanha e da Polónia, porque a autonomia alimentar e energética são os pilares da independência politica e da soberania. Que não se iludam com a miragem da união europeia a distribuir dinheiro sem que os seus diretórios gémeos dos grupos bancários e industriais queiram em troca ficar com o controle da atividade económica mais rentável, e sobretudo, que não se iludam com a febre da construção de edificios de grandes arquitetos e de auto-estradas e de empréstimos para o consumo.

O táxi que me levou ao aeroporto foi chamado pela receção do hotel, que aliás insistiu em fazê-lo. Desta vez era um Mercedes grande, com motorista de fato completo e gravata, serviço de limusina. Paguei dez euros e o motorista recusou a gorjeta. Mas não falava francês.  São diferentes, a economia registada que paga impostos e a economia paralela.
Lojas vazias de bens e de pessoas no aeroporto.
Entrada para o avião.
Reparo que algumas passageiras são mulheres jovens, bem vestidas e penteadas de forma moderna, fora do padrão que observara na cidade.
Sorte, uma delas senta-se ao meu lado.
Quando chega a refeição pergunto toscamente para onde vai. Digo-lhe que é uma draguna demisoara (uma bela rapariga) .
Andrea  conta que estuda química alimentar e que vai continuar os estudos em Madrid. Que tem família em Sevilha. Ri-se muito quando lhe pergunto se as outras belas romenas também vão estudar para Espanha, mas confirmo que domina a sua especialidade quando lhe falo do meu refluxo esofágico e das alergias do meu cólon excitavel.
O seu corpo é magnifico, e o cabelo apanhado para trás dá-lhe ao olhar um sentido penetrante, ao mesmo tempo meigo e esquivo.
Recordo-me do meu professor de Economia, Daniel Barbosa, antigo ministro salazarista, que explicava que o que equilibrava a balança de pagamentos de Portugal eram as receitas do turismo e as remessas dos emigrantes, apesar do esforço de industrialização e de autonomização da produção de energia elétrica.
Andrea ainda esteve sentada a meu lado na sala de espera do aeroporto de Munique, mas depressa foi chamada, tal como muitas das outras jovens romenas para o embarque para Madrid. Mas deixou-me o numero do seu telemóvel. Pode ser que um dia venha estudar química alimentar para Lisboa.

Já anunciaram também o meu embarque.
Vou acabar, porque ainda tenho de pedir à simpática assistente para lhe enviar o email e de percorrer vários tapetes rolantes até ao avião.

Até muito em breve.

Um beijo.


domingo, 18 de novembro de 2012

Desperta uma raiva surda

Desperta uma raiva surda ler os comentários do senhor ex-ministro das finanças Miguel Beleza sobre a redução do quadro de pessoal dos funcionários públicos.
Que é muito positiva a redução do numero de funcionários públicos.
Que foi maior do que o previsto. De janeiro a setembro de 2012 a diminuição foi de 5,1% .
Estão muito contentes os senhores economistas porque o indicador da redução dos quadros de pessoal é sempre um sucesso nas apresentações de powerpoint quando se quer mostrar  progresso de uma empresa.
Quando se fala para quem não tem experiencia nas frentes de trabalho.
Porque não é só porque o peso do Estado e dos seus funcionários está dentro de valores médios na união europeia.
Ou porque esse peso está de acordo com o que os cidadãos esperam das funções do Estado nos domínios da saúde, da educação e da segurança social e com o que está escrito na Constituição e na declaração universal dos direitos humanos.
A questão essencial é que muitos dos que saíram poderiam ter ficado mais tempo se o ambiente de descredibilização criado pelo governo não os desmotivasse.
A questão essencial é que muitos desses eram profissionais cuja experiencia faz falta.
Muitos desses eram professores que desistiram perante o economicismo do seu ministério.
Nos países em que se respeitam os mais idosos, o provérbio diz que quando morre um velho é uma biblioteca que arde.
No país dos economistas contentes em reduzir quadros de pessoal, mesmo que essa redução se repercuta em aumento dos encargos da segurança social, ou aumento do desemprego, ou aumento da ineficiência dos serviços públicos, não interessa aproveitar a experiencia dos  mais velhos.
Desperta uma raiva surda ver os senhores economistas a desprezar essa experiencia.
Não querem saber dos riscos de cortar cegamente nos quadros de pessoal.
O acidente com a plataforma petrolífera “Deep horizon” no golfo do México em 2010, ocorreu numa fase de redução drástica dos quadros de pessoal na plataforma, especialmente o mais qualificado, substituindo as suas funções por “e-drilling” à distancia (através de centrais de comando remoto).
O acidente com o petroleiro Exxon Valdez no Alasca em 1989, ocorreu numa altura em que a companhia tinha reduzido o seu pessoal de 182 mil para 80 mil funcionários (informação recolhida, com a devida vénia, no Dinheiro Vivo de 17 de Novembro de 2012), “melhorando” os seus indicadores de produtividade e competitividade, mas correndo riscos intoleráveis.
Desperta uma raiva surda saber que facilmente se esquecem as decisões dos senhores economistas quando o risco se traduz em acidente.
Desperta uma raiva surda saber que a redução do numero de professores e a subordinação aos critérios de cortes na Educação vão ter com elevada probabilidade consequências graves para a educação das crianças.

sábado, 17 de novembro de 2012

O tornado no Algarve - É revoltante

É revoltante saber que o serviço meteorológico detetou atempadamente a probabilidade de ocorrencia do tornado e não avisou a Marinha para prevenção da população.

Este é um dos tipos de acidente natural que pode  ocorrer em determinadas condições, sabendo-se porem que em muitos casos pode não haver consequencias.
Outro exemplo é o de maremotos a seguir a abalos sísmicos.
A exemplo do que se passa no Japão, qualquer abalo sísmico provoca o acionamento dos alarmes nas zonas costeiras. As populações protegem-se, sabendo que muitas vezes o sismo não origina o maremoto, mas cumprem rigorosamente as normas de proteção. O caso do maremoto de março de 2011 teve  consequencias trágicas devido à grande proximidade do epicentro da costa, pelo que não houve tempo para fugir.
No caso do tornado de 16 de novembro de 2012 na zona de Silves, a probabilidade de ocorrencia do tornado deveria ter sido comunicada à Marinha para proceder à vigilancia da costa e ao desencadear do alarme.
Há alguns anos, um capitão de porto do Algarve ordenou a evacuaçao das praias depois de ter recebido um aviso de maremoto a partir de um avião.
Todos troçaram da atuação da Marinha neste caso, quando deveria ter sido aplaudida.
A ligação ente o serviço meteorológico e a Marinha para fins de acionamento de alarmes deveria ser obrigatória, sempre com o esclarecimento de que pode não ocorrer o fenómeno destrutivo, mas criando a cultura da precaução com a colaboração das escolas (treino das crianças para se protegerem debaixo das carteiras ou mesas.
Infelizmente em Portugal assiste-se a uma discussão bizantina sobre a possibilidade ou não, segundo a Constituição, da Marinha desempenhar funções de proteção civil sem declaração de estado de sitio ou de estado de emergencia (artigo 275º nº6 - as forças armadas podem ser incumbidas nos termos da lei de colaborar em missões de proteção civil ...; nº7 - as leis que regulam o estado de sitio e o estado de emergencia fixam as condições do emprego das forças armadas quando se verifiquem essas situações.  -  salvo melhor opinião, as palavras "essas situações" referem-se ao estado de sitio e ao estado de emergencia no próprio nº7 e não às situações do nº6 e, por maioria de razão, aos numeros anteriores, como missões humanitárias no exterior do país).
Será provavelmente um exemplo de defice de interpretação e de dificuldade de comunicação através da lingua portuguesa.
Será ainda um exemplo de incapacidade dos governantes para entenderem os dados dos problemas (no caso da prevenção dos maremotos, é importante desenvolver redes de baizas de deteção no mar, mas isso não dispensa a utilização da Marinha para o alarme das populações) e reagirem com medidas concretas para resolução de problemas (não me refiro apenas aos atuais governantes, visto a incompreensão da necessidade de ligação dos serviços meteorológicos à Marinha para prevenção de acidentes naturais com origem no  mar vir de governos anteriores).
E assim se desperdiçam as capacidades e os conhecimentos práticos da Marinha sobre os perigos do mar na prevenção dos riscos associados.

PS em 17 de novembro - Consta que o serviço meteorológico avisou a Proteção Civil, que por sua vez avisou o senhor ministro da admnistração interna. Tudo muito certinho de acordo com os modelos jurídicos, caracterizados pela sua dificuldade em reproduzir a realidade e pela morosidade burocrática e hierárquica. Mantem-se a crítica: um perigo vindo do mar deve ser tratado pela entidade que tem experiencia em assuntos do mar, a Marinha, à qual os serviços de proteção civil deveriam fornecer os equipamentos e sistemas de alarme público necessários, a  acionar autonomamente, sem ter de pedir autorização a que senhor ministro seja. É esta visão prática que os senhores governantes e os senhores juridicos têm relutancia em aceitar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Imaginem, já se está a preparar Abril

Imaginem, já se está a preparar Abril.
As comemorações dos 39 anos do 25 de abril de 1974.
De uma coletânea a ser publicada perto de si, excertos de um poema de Ari dos Santos, a Fábrica:

Da alavanca ao tear da roda ao torno
da linha de montagem ao cadinho
do aço incandescente a entrar no forno
à agulha a trabalhar devagarinho.

Da prensa que se faz para esmagar
à tupia no corno da madeira
do formão que nasceu a golpear
à força bruta de uma britadeira.

Do ferro e do cimento até ao molde
que é quase um esgar de plástico sereno
do maçarico humano que nos solde
à luz da luta e não do acetileno

nasce este canto imenso e universal
sincopado enérgico fabril
sereia que soou em Portugal
à hora de pegarmos por Abril.


Escrito numa altura em que os computadores ainda não eram utilizados nos escritórios, nas fábricas, nas oficinas, nas lojas, mas como é bonito.
E como até podia ser utilizado pela propaganda do atual governo, que já reconheceu (ou pelo menos, parte dele) que é preciso "reindustrializar" o país (conviria que se visse entretanto como é com a apropriação e o destino das mais valias).

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Artigo de opinião: Ricardo Salgado, os banqueiros, os vidros partidos e o surrealismo

Arcanjo S.Miguel, por Guido Reni, século XVII, Bolonha

As religiões cristã e islâmica criticam violentamente o juro agiota.
No livro sagrado da religião cristã é atribuída a Jesus Cristo a afirmação de que são mais inteligentes os filhos das trevas do que os filhos da luz, o que possivelmente, na forma alegórica como ele se expressava, quereria dizer que os financeiros e os banqueiros eram pessoas mais inteligentes do que os comuns dos cidadãos que lhes entregam o dinheiro.
A forma como Ricardo Salgado tem gerido o seu grupo parece confirmar a tese cristã.
Primeiro, fez o que pôde para  não tocar no presente envenenado da troika – o  empréstimo para melhorar a relação entre os depósitos e os empréstimos concedidos.
Uns dirão que o presente era envenenado porque permitiria a entrada do Estado no capital do banco (francamente, com a promiscuidade, ou convívio intenso de benefício mútuo, entre os bancos e os políticos decisores, era assim tão mau o “Estado” entrar no capital?).
Foi sempre o que disse Ricardo Salgado.
Mas outros dirão que o veneno estava simplesmente no empréstimo provir da troika.
Que ela nunca perderá mais do que o devedor ganhará, com os juros e as comissões que aplica.
E então, como banqueiro assisado, Ricardo Salgado fez o que o próprio Estado deveria ter feito: recapitalizou-se através dos próprios acionistas.
Realmente é interessante comparar o montante do empréstimo da troika, 78.000 milhões de euros (menos os 7.500 milhões que ficaram por aproveitar para os resgates de bancos), com o montante de depósitos em toda a banca, 130.000 milhões de euros.
Não quero, evidentemente, sugerir a expropriação pura e simples para nos libertarmos imediatamente do malfadado memorando da troika, porque não faço revoluções, nem sequer no meu bairro.
Estou apenas a exercer o meu direito à expressão de que para mim isto, o Estado não poder aplicar a mesma receita,  é surrealismo (recordo que em Itália a maior parte da dívida pública é interna).
Aproveito também para criticar a política irresponsável dos secretários de Estado do Tesouro que, ao longo de vários anos, quase acabaram com os certificados de aforro, debitando arrogantemente na imprensa conceitos mal apreendidos na faculdade (por acaso até nem estou a criticar o atual governo, que tentou a reabilitação dos certificados de aforro, embora o débito de conceitos mal apreendidos na faculdade de economia se aplique a outras ações do atual governo).
Depois, voltando a Ricardo Salgado, apresenta lucros.
Nos 3 primeiros trimestres de 2012 o BES vendeu 1280 imóveis que lhe advieram por incapacidade dos devedores, por 240 milhões de euros (mas cuidado, foram capitais que vieram da Russia e da China; e se daqui a uns tempos temos o ministério publico a investigar acusações de branqueamento de dinheiros como no caso das compras angolanas de apartamentos do monstro que foi construido no lugar do hotel Estoril Sol?).
Foi uma excelente receita, mas que foi absorvida pelas contas do grupo; que interessam agora os desgraçados que não conseguiram pagar os seus empréstimos ?
Aliás, se alguém se suicidar, como em Espanha, suspendem-se os despejos, não é verdade? Somos um país cristão, embora por isso mesmo sejamos de opinião que os filhos das trevas se orientam financeiramente muito melhor do que os filhos da luz, e sempre contribuiremos para o banco alimentar.
Bem, não devo usar o condicional.
Recentemente suicidou-se o construtor civil de um empreendimento turistico de luxo na serra, perto de Castro Marim, com campo de golfe e hotel, que ainda funcionam; mas as vivendas construidas não encontraram comprador e o homem não resistiu.
Ignoro que banco era credor.
Os jornais não falaram, possivelmente para não induzir a imitação.
Nos 3 primeiros trimestres de 2012 o BES teve 90,4 milhões de euros de lucro.
A CGD e o BCP tiveram 900 milhões de prejuízos no mesmo período (claro, o crédito  mal parado); e  o Santander e o BPI tiveram em conjunto 347,6 milhões de euros de lucro.
Não é muito grande, o lucro, e ainda por cima é menor do que no ano anterior.
Vamos ter pena dos acionistas se não receberem os dividendos e se o banco não puder fazer auto-investimento, mas quem vive dos rendimentos do seu trabalho e das suas pensões viu os seus rendimentos diminuídos gravemente.
Será outro exemplo de surrealismo, as cabeças bem pensantes acharem que a equidade não é chamada para aqui (sim, sim, é preciso não afugentar o capital, embora as grandes empresas tenham as suas sedes fiscais em in-shores europeus, e acima de tudo, não enervar os mercados).
Evidentemente que também aqui não estou a propor a expropriação completa dos lucros, mas parcial era boa ideia.

Até porque, continuando a bater na tecla do surrealismo, será verdade o que li no DN, que a maioria das empresas que têm empréstimos a correr estão a receber cartas dos seus bancos informando que, considerando as condições da conjuntura, patita e patatá, os spreads subiram?
Isto é assim?
Sobem-se os juros (é como se subissem os juros, o que interessa é o serviço da dívida) unilateralmente?
Às pobres das empresas que já tinham contratado juros a uma taxa superior à dos seus homólogos alemães?
Lá está, para mim é surrealismo não existir harmonização fiscal na união europeia; para outros não é, paciência.
E depois os senhores governantes e o senhor governador do Banco de Portugal, que se isto é verdade já devia ter dado uma espadeirada nos filhos das trevas (digo isto na hipótese do senhor ser cristão e poder inspirar-se no arcanjo S.Miguel), vêm rasgar as vestes na comunicação social dizendo que as empresas têm de reduzir os custos de contexto e de produção?
Surrealismo, digo eu.
E não sei se não virão depois dizer que eu estou a instigar ao assalto aos bancos, como aqueles moços no norte, que se entretiveram a partir montras de bancos e visores de multibancos; uma moradora chamou a policia, mas depois veio a televisão e apressou-se a dizer, vá lá, sempre de cara escondida, que até tinha ido manifestar a sua solidariedade aos vandalozinhos quando eles disseram à policia que tinham partido os vidros por serem contra o sistema, que até trocaram gestos de polegar para cima e que se soubesse que não eram vândalos, eram só contra o sistema, que talvez até nem tivesse chamado a policia.
Surrealismo, digo eu.




quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O melhor povo do mundo









Beneficiando por enquanto da programação com interesse da RTP2, à espera que o seu novo orçamento de 3 milhões de euros, o anuncio do fim das indemnizações compensatórias e a proibição de publicidade (teria a vantagem de se poder reduzir a taxa da fatura da eletricidade…) a asfixiem, vejo um programa sobre o genocídio dos tainos pelos espanhóis.

Os tainos eram o povo índio pré-colombiano que desapareceu enquanto povo com Colombo e os seus sucessores nas ilhas de S.Domingos, Porto Rico e Cuba, devido à guerra, à escravatura em minas de ouro e na agricultura, e às doenças como a varíola.
Apenas subsistiram genes pela mestiçagem com os espanhóis (que tomavam mulheres taino) e os africanos trazidos depois como escravos.

Os documentos históricos que contam a história do fim dos tainos e os vestígios arqueológicos permitem fazer uma análise “darwiniana” da luta entre espanhóis e tainos e são um episódio que ilustra o processo histórico, desde a ganância pela exploração de uma mina de ouro que rapidamente foi esgotada e pela apropriação da força produtiva do povo escravizado, até ao desrespeito pelo sistema ecológico, que culminou com a morte coletiva dos primeiros colonos espanhóis em La Isabela, vitimas da recusa em se alimentarem dos recursos naturais da ilha (o que provocou a morte por deficiencia de vitamina C e escorbuto).

Dos tainos ficaram palavras transmitidas pelos espanhóis, como tabaco, amoque, canoa, barbecue, hurricane (huracan), Cuba (cubacan) … não é engraçado?

E também é muito interessante recordar as palavras de Cristóvão Colombo sobre os tainos na carta para os reis católicos, comunicando-lhes a descoberta das índias ocidentais:
 “Eles são um povo amável e amigável… são o melhor povo do mundo … trouxeram-nos papagaios, bolas de algodão, lanças e muitas outras coisas … darão uns bons escravos … com cinquenta homens podemos subjugá-los a todos e fazer deles o que quisermos”.

Curioso, como Cristóvão Colombo lhes chamava o melhor povo do mundo e como justificava por que lhes chamava isso.

domingo, 11 de novembro de 2012

Manual expedito de neo-liberalismo – como tornar-se um neo-liberal perfeito em 3 passos


1 – vamos conter os preços por meio de uma taxa elevada de desemprego. É a lei de Philips. Muitos irão para o desemprego, mas alguns terão emprego. Apesar das novas tecnologias, é sempre preciso haver assalariados. Verdade que com a baixa de preços os salários também baixarão, mas ter emprego é bom. Outros, poucos, terão negócios a florescer. Portanto, uma certa percentagem, dos que têm emprego e dos que têm rendimentos crescentes, ficarão confortáveis. Com uma boa taxa de abstenção nas eleições, e sabe-se como os desempregados se desmobilizam nas eleições, até pode ser que um governo neo-liberal ganhe as eleições. E em qualquer caso, as poupanças para os principais detentores de capital e as transferências de rendimento para eles serão sempre superiores ao aumento de encargos com as forças de segurança, ainda assim as mais beneficiadas nos orçamentos de Estado.
2 – vamos assegurar a livre escolha, como dizia Milton Friedman. Os consumidores poderão escolher livremente (bem, os tais da tal percentagem que estarão confortáveis) entre os produtos cada vez mais baratos, graças à concorrência e às novas tecnologias de financiamento, produção e comercialização dos grandes financeiros, grandes produtores e grandes comercializadores, os quais concorrerão de acordo com a lei da selva, vencendo os mais fortes (como se sabe dos programas do National Geographic, é impossível regular a lei da selva ou partilhar o habitat sem violencia).
3 – vamos reduzir ao mínimo possível a intervenção do Estado na sociedade. Por exemplo, vai ser preciso ter um laboratório público pago com os impostos e contribuições, ou então pagar a laboratórios privados com os ditos impostos ou contribuições, para monitorizar e controlar os riscos de epidemias. Vai ser preciso pagar esquemas de assistência para evitar situações de grande impacto mediático, como por exemplo, surtos de suicídios por se cair no desemprego ou por ser-se despejado de casa. Mas duma maneira geral, graças às novas tecnologias de gestão, vai ser possível baixar os impostos aos investidores para estimular a iniciativa empresarial, ao mesmo tempo que se aumenta a carga fiscal sobre os assalariados. Assim os impostos podem baixar (só para a parte empresarial, claro) à medida que a atividade industrial crescer, e assim se reduzirá o peso do Estado, sendo os impostos suficientes para os tais esquemas assistenciais imprescindíveis.





Provérbio chinês



Não me dês o peixe.
Empresta-me a cana e ensina-me a pescar.
Pago-te com os peixes que for pescando.
Metade para ti e metade para mim.
Até ter o empréstimo pago.
Como sabes pescar bem e depressa,
Vais ensinar-me aqui, na minha praia (tem de ser aqui),
a pescar bem e depressa.
Assim o empréstimo será rapidamente pago.
E poderás ensinar outros a pescar.

Exercicio de surrealismo



1 - Retirei os dados seguintes do dinheiro vivo, o suplemento de economia do DN. Todos os valores são em percentagem relativa ao PIB:

1.1 - Despesas com segurança social:

Portugal,    2011                  6,6%
Média UE, 2010                20%

1.2 – Despesas com educação:

Portugal,   2011                  4,7%
Média UE, 2010                 5,5%

1.3 – Variação dos salários da função pública entre 2005  e  2011:

Portugal  (peso dos salários da FP no PIB: 12%)         - 18,8%
Média da zona €                                                             + 1,1%

2 – Numa das primeiras entrevistas de membros da troika, em Maio de 2011, Paul Thomsen explicou que um dos objetivos era baixar o salário dos trabalhadores portugueses, demasiado alto em função da produção e em relação aos salários de países como a Polónia, Republica Checa, países Bálticos, Bulgária e Roménia.

3 – Depois da quinta avaliação do programa da troika, em Outubro de 2012, o senhor ministro das finanças veio dizer que, considerando o excesso de cerca de 2% do PIB da despesa de Portugal com educação, saúde e segurança social relativamente à média europeia, haveria de proceder-se em 2013 e 2014 a cortes na despesa pública equivalentes a esses 2%, o que será cerca de 4.000 milhões de euros.

Existe uma evidente contradição entre os pontos 1 e os pontos 2 e 3.
Ou uma dissonancia cognitiva entre a realidade e o que nos apresentam como fundamento das medidas da troika, num exercício de surrealismo.
Mais valia serem francos: o indicador desemprego está propositadamente alto para conter o nível de preços, através da redução da procura.
Mas não têm coragem.

sábado, 10 de novembro de 2012

John Q, filme de 2002 de Nick Cassavetes, e a gestão por provérbios



Numa tarde de Novembro, a SIC passou este filme.
Vem a propósito, o tema, quando a mensagem do governo foi lançada, sob a forma de uma relação entre impostos e serviço nacional de saúde.
O filme baseia-se num caso verídico, em que um pai sequestrou um hospital por não lhe tratar o filho e acabou morto pela policia.
Mas a história neste filme acaba bem e denuncia as falhas das coberturas dos seguros de saúde nos USA.
Possivelmente terá contribuído para a aprovação da reforma da saúde (ou melhor, dos seguros de saúde) de Obama, apesar da feroz oposição do Tea Party e aliados.
Sabemos que o atual governo português tem horror a tudo o que seja serviço público,  que a reforma da saúde de Obama se preocupa com a sustentabilidade da industria seguradora, e que a história nos USA  associa aumento de impostos e melhoria do bem estar social ao partido democrata e diminuição de impostos e maior desigualdade social ao partido republicano.
Porém, verificam-se atualmente situações de graves carências nos USA (cerca de 47 milhões numa população de 313 milhões de pessoas recebem ajuda alimentar).
Tal não deverá acontecer por baixa produtividade, como é a desculpa em Portugal, porque nos USA a produtividade é suposto ser elevada.
Dir-se-ia então que os mecanismos que induzem estes factos estarão algures, talvez no sistema económico  e financeiro que condiciona as sociedades (sobrepondo-se às diretivas da declaração universal dos direitos humanos) e  na conceção de democracia vigente (que não interpreta as enormes taxas de abstenção, que não analisa em debate aberto o tratamento cientifico dos dados, e que falha no combate ao desemprego e às desigualdades).
De pouco servirá então aplaudir o filme John Q, apesar da violenta crítica à arrogância das seguradoras e às preocupações de lucro dos hospitais privados.
De pouco servirá também discutir a indignação provocada pelas declarações da senhora diretora do banco alimentar contra a fome.
Ou a indignação por ver um senhor secretário de Estado da Educação declarar que vai entregar os dados da ASE (ação social escolar) relativos às situações de carência alimentar de 10.000 alunos, precisamente ao banco alimentar contra a fome, para que ajude os respetivos agregados familiares (não é a ajuda que indigna, é a demissão dos políticos e dos economistas por terem deixado as coisas chegar a este ponto sabendo que os cortes anunciavam este desemprego).
Já que as teorias económicas dos que nos governam não foram capazes de evitar isto (pelo menos é o que diz a senhora Christine Lagarde, que se enganaram no multiplicador cortes-recessão e que, no caso dos países periféricos – terá lido alguma coisa sobre o teorema de Fermat-Weber que descreve a absorção da energia dos componentes periféricos pelo componente central? – os cortes podem ter um efeito ainda mais demolidor quando ultrapassam os limites);
já que a velocidade de aceitação das propostas dos economistas aterrados é tão baixa (vá que nalguns paises da UE já há taxas sobre transações financeiras, já há limitações rigorosas de short selling e de CDSs, mas tanto que ainda falta, numa teoria dominada, como disse Krugman, pelo medo mórbido da inflação);
então eu sugiro a sabedoria popular, a gestão por provérbios.
Como diz o provérbio chinês, não me dês o peixe para eu comer, não me concedas empréstimos a juros superiores à minha taxa de crescimento, dize-me antes como se faz e como se arranjam os instrumentos para pescar o peixe, não me instales aqui fábricas como os ursos de peluche que nem pagavam a renda das instalações para depois as levar, isto é, até podes vir para cá, mas fica cá tu também, não foi assim no tempo do marquês de Pombal? Com a estratégia da industrialização e a reorganização da economia (“structure follows strategie”, não o contrário).
Vê-se pelos apelidos que andam por aí…
Mesmo que alguém tenha de pagar mais impostos, desde que se façam as contas à distribuição da coleta sobre o rendimento do trabalho (25% da coleta) e do capital (9% da coleta) e se pague de acordo com os resultados das contas, mesmo que não faça o "ajustamento" igualitário de repente, para não enervar muito os mercados...

Como destruir uma empresa - dedicado ao senhor primeiro ministro Passos Coelho

Ocorreu-me, talvez não devesse ter-me ocorrido, mas ocorreu-me, que gerir num governo a coisa pública deveria ser como gerir uma empresa.
Vá que as dimensões do âmbito de atuação são diferentes, que as leis que controlam as variáveis não são exatamente as mesmas, mas mesmo assim, se dou crédito àquela senhora que criticava o governo dizendo que estaria perdida se gerisse a sua própria casa como o senhor primeiro ministro governa o país, então também me parece que estar no executivo do país deveria ser como estar no executivo de uma empresa.
Escrevi executivo de propósito, para combater a ideia de que o governo manda no país.
Não manda, quem manda na empresa são os acionistas.
Mas infelizmente os acionistas podem ser enganados pelos executivos.
E os executivos podem-se enganar a eles próprios, ou ser enganados por outros executivos de outros países.
Ocorreu-me isto, ainda sob a impressão daquela noticia de que em 2013 e 2014 o governo cortará 4.000 milhões de euros na despesa pública, ao passar os olhos por um pequeno livrinho, “Como destruir uma empresa em 12 meses … ou antes”, de Luís Castañeda, ed. Actual Editora.
Por um lado, é inevitável associar este título ao balanço de um ano de governo sob teorias neo-liberais, por mais elevado e puro de intenções que seja o olhar de Milton Friedman na capa do seu livro, a liberdade de escolher (como se costuma dizer, onde está a liberdade de escolher se não se tiver recursos para pagar o que se quereria escolher?).
Por outro lado, é quase um passe mágico por-nos à frente esta meta, de evaporar 4.000 milhões de euros. Parece que este numero resultou da comparação dos custos, em percentagem, da segurança social em Portugal com a média dos custos na União Europeia.
Parece que a diferença é de 2% do PIB.
Logo, cerca de 3.300 milhões de euros.
Arredondados, pela diligencia do governo perante a troika.
Quando se faz um orçamento numa empresa, determinado por estratégias definidas, analisam-se os casos e quantificam-se.
Põe-se no orçamento aquilo que parece possível, em análise transversal e integrada.
Dizer que vão ter de se cortar 4.000 milhões de euros sem analisar caso a caso, só porque o diferencial para a média dos 27 estados levou a esse resultado, parece um corte cego.
O antigo ministro Bagão Félix disse “estou envergonhado”, por o senhor ministro das finanças Vítor Gaspar vir dizer que técnicos da troika “já estão” a ver em que casos vão cortar na despesa.  
E a senhora doutora Teodora veio dizer que primeiro se vê onde se pode cortar e depois se define o montante a cortar.
Também me impressionou a escrita de Vasco Graça Moura, que, pondo de lado a compulsão para escrever artigos sobre artigos zurzindo no anterior primeiro ministro Sócrates, conseguiu descrever com elegância literária a origem da crise:
“As estratégias localizadas nada podem contra uma dimensão globalizada dessa crise, a desdobrar-se em estrangulamentos sucessivos, como os anéis implacáveis de uma boa constrictor, e a bloquear soluções.” (em DN, 7 de Novembro de 2012: se está a desculpar o governo atual, está por extensão a fazer o mesmo em relação ao anterior … e a reconhecer que a solução terá de vir principalmente de fora … com renegociação da dívida, prazos e juros? Talvez afinal seja pela poesia que a crise se resolva …)
Por tudo isto quis ver o que dizia o livrinho, tão recomendado aos gestores.
Por exemplo, na página 18:
  • Uma forma de destruir uma empresa é não ter um modelo de gestão
Eu sei que o plano estratégico do senhor primeiro ministro é simples, é a minimização do Estado, a elementarização das suas funções e dos seus processos, a redução ou cessação da prestação de serviços de saúde, educação e segurança social, deixando os maiores graus de liberdade possíveis para os grupos económicos e esperando que eles assegurem as funções necessárias à comunidade, diretamente ou através de impostos.
Mas para se atingir esse objetivo de Estado mínimo, vai mesmo ter de se mudar de modelo de gestão (na verdade, isso só deveria ser possível com o apoio expresso de dois terços dos eleitores).
Ora vejamos o que diz o livrinho, imaginando que um diretor geral é uma espécie de primeiro ministro:
“ Quando uma empresa despede o diretor geral e contrata um novo, nem sempre é conveniente que este altere o modelo de gestão, porque o fracasso do anterior pode não ter sido por o modelo ser mau (nota do comentador: esta é uma grande debilidade da democracia, deixar que se instale no eleitorado a ideia de que é um sistema que está errado, em vez de mudar a forma como ele é executado), mas resultar do facto de o director não ter sabido ou não ter podido aplicá-lo de uma forma eficaz. Este ponto é importante porque muitas vezes um novo director, ao procurar alterar o modelo, acaba por criar problemas mais graves do que os que motivaram o despedimento do seu antecessor.”
Pena perder-se o “know-how” quando na ânsia de reduzir o Estado social se desfazem as equipas que durante anos prestaram o seu serviço público (nem sempre os privados têm condições para aproveitar esse "know-how").
Mas vejamos outras recomendações do livrinho para evitar a destruição da empresa:
  • Na página 44 alerta-se para outro risco para as empresas, a “doença do diretor executivo” cujos sintomas são o considerar-se infalível, que os opositores estão desligados da realidade, que nenhuma decisão sobre um assunto importante pode ser tomada sem ele, que só aceita dos colaboradores próximos  bajulação;
  • Na página 48 o risco é o de ignorar a história da empresa e o “know-how” dos empregados mais antigos;
  • Na página 62 o risco é o de não considerar os processos da empresa como um todo, envolvendo clientes e empregados  sem compartimentos estanques e sem desprezar as minorias (nota do comentador: partidos mais pequenos e organizações de cidadãos);
  • Na página 63 alerta-se para  o risco de considerar o orçamento anual auto-suficiente, quando a empresa necessita de um plano estratégico, mais uma vez elaborado com o envolvimento de todos na empresa e centrado nos clientes, respeitando os objetivos e missão fundamentais da empresa (nota do comentador: constituição); o plano estratégico deverá ter um âmbito temporal superior ao período de serviço do diretor geral (nota do comentador: o plano de expansão das infra-estruturas deverá ter uma duração superior a uma legislatura, de modo a não haver soluções de continuidade na execução dos empreendimentos)

Pena o senhor primeiro ministro não ter tempo para ler este pequeno livro.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Análise de riscos de inundações no metropolitano de Lisboa

Duas notícias recentes chamaram a atenção para a disciplina da análise de riscos.

Primeiro, foi a condenação em tribunal de membros da comissão de proteção civil italiana que não souberam prever o sismo de Áquila.

Depois, foi a devastação do furacão Sandy na costa de Nova Iorque.

Relativamente à condenação dos membros da proteção civil italiana, pode dizer-se que ela foi insólita, porque não é possível prever sismos com os instrumentos disponíveis atualmente.
E não é fiável a técnica estatística baseada na quase periodicidade da libertação da energia nos pontos de fricção das placas tectónicas por deslocação destas.
Poderá então dizer-se que o fundamento da condenação terá sido a não aplicação do princípio da precaução pela proteção civil quando lhe foi apresentada a hipótese de que a libertação de gás rádon depois de vários pequenos sismos e antes do grande sismo.
Mas também não há evidencia cientifica da ocorrência de fugas de rádon antes de um sismo forte.
Poderá haver uma correlação estatística.
Donde, a condenação só poderá ter por base uma inobservância do principio da precaução.
Pelo que deveria abranger toda a a estrutura organizacional da comunidade, especialmente as competências de aprovação de um parque habitacional em região sísmica.
Ou talvez melhor, deveria haver outro tipo de condenação, que não a de um tribunal que aparentemente não é competente para avaliar a problemática dos fenómenos sísmicos. Por outras palavras, trata-se de um assunto de proteção civil, de análise de riscos (recorda-se a definição de risco como a combinação da probabilidade de ocorrencia de um acidente com a gravidade das suas consequecias) e adoção de medidas mitigadoras (em função da avaliação do nível de risco), fundamentada em registos estatísticos dos fenómenos sísmicos e no acompanhamento da evolução da vulcanologia, da movimentação das placas tectónicas e das prospeções perfuradoras da crosta terrestre.
A triste realidade é que este tipo de ações é normalmente residual em qualquer país, entregue a um grupo de cientistas ou técnicos que não conseguem fundos e investimento para as suas investigações e aplicações.
E que fazem uns levantamentos ou cartas de risco a que ninguém liga.
Obviamente que depois da catástrofe aparecem sempre políticos que se distinguem pela capacidade de ação.
A propósito dos efeitos do furacão Sandy na costa leste dos USA, faço a seguinte reflexão:
Cerca de 40 mortos e a extensão dos edifícios destruídos depois dos avisos meteorológicos e das restrições de circulação indiciam grande debilidade das infra-estruturas.
Especialmente depois da experiencia com o furacão Katrina ter revelado o grave desmazelo na manutenção dos diques de proteção de Nova Orleãs (claro que num país cujo presidente defendia o Estado mínimo, haveria que cortar na manutenção dos diques, assim como se tinha cortado na manutenção da ponte rodoviária de Milwauke que caiu pura e simplesmente).
De assinalar a inundação de galerias e estações do metropolitano de Nova Iorque.
Admitindo uma população na área afetada de Nova Iorque de 20 milhões, um fenómeno da mesma gravidade na zona de Lisboa, considerando 2,5 milhões de habitantes, provocaria 5 mortos e cerca de 10.000 desalojados.
Estes números são evidentemente discutíveis e a conclusão de que revelam debilidades das infra-estruturas também.

Mas se também é discutível o montante das verbas a inscrever no orçamento para a previsão da mitigação dos riscos e para o funcionamento da estrutura para o seu estudo e implementação, já não existe desculpa para não se fazerem estudos de vulnerabilidade, se proceder à sua disseminação e se adotarem algumas medidas.

Fizemos isso no metropolitano de Lisboa (no domínio da análise de riscos foi realizado a seguir ao incêndio as obras da estação Alameda, em 1997, um notável estudo de avaliação de riscos com o apoio de consultores ingleses), especialmente depois do acidente no túnel do Terreiro do Paço em Junho de 2000.
Estudaram-se os riscos de inundação ao longo da Avenida Almirante Reis, na Praça da Figueira e nas estações junto do rio.
Ao longo da vida do metro por 3 vezes foi forçada a interrupção da circulação por penetração de água na galeria e estações.
Foram por isso propostas algumas soluções, umas concretizadas e outras não.
A estação do Rossio já tinha sido protegida com comportas no topo das escadas de acesso, mas havia vulnerabilidades nas bocas de ventilação, especialmente nas estações próximas do Tejo.
Os projetistas do reforço do túnel do Terreiro do Paço (cujo troço abriu à exploração em Dezembro de 2007), incluindo estacas de contenção à volta do túnel, consideraram os riscos sísmicos e foi instalado um sistema de monitorização da geometria do túnel que exige a verificação periódica das condições de segurança.

Como é natural em processos semelhantes, a avaliação das medidas mitigadoras em função dos custos levou a que pouco se tivesse feito para alem disso.
Não foram:
  • remodelados os acessos das estações da Avenida Almirante Reis com sobre-elevação da cota da soleira e criação de muretes protetores contra cheias perpendicularmente às escadas;
  • substituídas as comportas da estação Rossio por outras mais leves e manobráveis;
  • construídas coberturas dos acessos das estações junto do rio nem subidas as cotas das grelhas dos postos de ventilação;
  • integralmente cumpridos os requisitos da lei da água (DL 58/2005).

Este último facto, considerando que esta lei constitui a transposição de uma diretiva comunitária, reveste-se de alguma gravidade, esperando-se naturalmente que isso não venha a ser posto em foco pela ocorrência de um acidente grave na frente ribeirinha.
De acordo com os números 7 e 8 do art 40 deste DL 58/2005, enquanto não for definida pela Administração da Região Hidrográfica, pela Proteção Civil e pelos Bombeiros a zona inundável (coisa que desconheço se já foi feito, estranhando que a câmara municipal não integre o conjunto das entidades definidoras),  considera-se que a área inundável (impondo condicionamentos construtivos) se estende até 100m de distancia das margens, o que abrangerá as estações Santa Apolónia, Terreiro do Paço e Cais do Sodré (infelizmente, pelas notícias que todos os Outonos nos chegam da Europa, também nos países ditos desenvolvidos da Europa central não parece resolvida a proteção contra inundações).
As cotas nas plantas terrestres referem-se  ao nível médio dos mares (Nm) e este refere-se ao zero hidrográfico (ZH).
No porto de Lisboa o Nm foi definido ainda no século XIX a partir das observações no marégrafo de Cascais em 2,08m acima do ZH.
São normais valores máximos de preia-mar de 4,5 m e mínimos de baixa mar de 1,1 m (relativamente ao ZH).
Para o T.Paço o valor do Nm é 2,20 m.
O valor de Nm foi atualizado para 2,32 m, por ter vindo a subir cerca de 12 cm desde o século XIX.
As cotas das plantas deverão ser diminuídas de 15cm se estimarmos o seu valor aproximado para 2050.


tomada de ar fresco para a estação


acesso sul e poente

No caso de T.Paço, onde nas cartas se lê a cota de 3,38, deverá então ler-se 3,23.
A Camara Municipal de Almada propôs os seguintes limites para consideração dos limites de cheias e inundações (ignoro a evolução, uma vez que a tutela das frentes ribeirinhas é um mistério de complexidade de entidades envolvidas):
  • 3,90m relativamente ao Nm (6,25m relativamente ao ZH)  para limite mínimo das soleiras  ou muretes de proteção contra galgamento por cheias;
  • 3,40m para cheias de rio e  preia mar máxima coincidentes com temporal (considerou-se apenas a simultaneidade dos fatores anteriores com vento sudoeste superior a 100 km/h e uma depressão atmosférica com superfície frontal intensas; não se considerou o risco de maremoto, o qual fundamenta a adoção do valor mais elevado de 3,90m) e considerando a subida dos nível médio do mar (probabilidade definida como uma ocorrência de período superior a 100 anos e inferior  1000 anos);
  • 3,10m para cheias de ocorrência de período menor que 100 anos

Concluir-se-á que os muretes de Te rreiro do Paço deveriam ter pelo menos 3,90-3,23=67cm ~70cm, verificando-se que os muretes das grelhas de ventilação têm 50cm.

A consideração do risco sísmico em Lisboa, a recordação do maremoto de 1755 e do sismo de 1969 deveria merecer um pouco mais de atenção pública, para além dos técnicos da Administração da Região Hidrológica de Lisboa, da CML, da Proteção Civil e do RSB no sentido da definição das zonas inundáveis da Baixa de acordo com o DL 58/2005 e na divulgação das medidas mitigadoras.

Esta preocupação é muito bem compreendida pela população japonesa, que respeita os alarmes de maremoto em consequência de abalos sísmicos, sendo que, para magnitudes superiores a  6,5 ,   70% dos abalos não provocam maremoto (a pouca eficácia do alarme do maremoto de Fukushima em Março de 2011 deveu-se à extrema proximidade do epicentro do sismo relativamente à costa japonesa).
Dito de outra forma, os alarmes são frequentes, mas não é por eles não terem consequências que a população os desvaloriza.
Julga-se portanto que a discussão aberta deste tema é vantajosa.
As condições sísmicas da região de Lisboa dependem da falha sísmica de Gorringe, a sudoeste do cabo de S.Vicente, na zona de fricção das placas tectónicas europeia e africana, responsável pelos maremotos do Algarve em  1722 e de Lisboa em 1531 e em 1755 (neste caso também no Algarve, golfo de Cadis e Marrocos) .
Admitindo que a probabilidade de ocorrência de um sismo de grau 9 com maremoto de consequências catastróficas poderá corresponder, de acordo com o histórico da zona de Lisboa, a um acontecimento entre 100 a 10.000 anos  (classificação : “improvável”, mas possível), e considerando as consequências catastróficas, a matriz frequência/gravidade da norma EN 50126 dá um risco classificado como “tolerável”.
De acordo com a norma, um risco tolerável, apesar de o ser, deve exigir estudos  de mitigação à autoridade responsável pela área e, se razoável do ponto de vista económico e social, medidas mitigadoras ou preventivas.
Tem-se conhecimento de que a Autoridade Nacional da Protecção Civil já procedeu ao levantamento da carta de vulnerabilidade de toda a costa algarvia e que eventualmente o faria para a zona ribeirinha de Lisboa.
Seria assim altamente desejável que, apesar do contexto financeiro desfavorável que atualmente se vive, se desenvolvesse uma estratégia de colaboração do metropolitano com a Autoridade Nacional da Protecção Civil para o levantamento da carta de vulnerabilidade a maremotos e riscos sísmicos da zona ribeirinha de Lisboa onde se encontram 3 estações e para o estudo de medidas de mitigação.





quinta-feira, 8 de novembro de 2012

America, America

Que alívio, o Tea Party não conseguiu eleger o seu candidato, adepto confesso do Estado mínimo e inimigo do Estado social.
Não é que Obama ofereça muita confiança para cumprir a promessa de retirar os exércitos invasores, mas enfim, ter as teorias neo-liberais a serem impostas pelo presidente dos USA seria mau para o mundo.
Pena Obama tambem não poder cumprir aquela sua afirmação "não foi para fazer o jogo dos senhores de Wall Street que fui eleito", mas nestes tempos de crise é dificil.
Também era interessante resolver aquele assunto de 47 milhões de norte-americanos receberem senhas de alimentação (15% da população).
E acabar com as condições de vida degradantes de cada vez maior numero de cidadãos.
Até mesmo em Washington, como testemunhou uma recente reportagem da BBC.
Não é só um assunto interno dos USA, diz respeito ao resto do mundo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A divida pública



Este blogue tem recomendado, para análise da problemática da dívida pública, o livro de Paulo Trigo Pereira, da coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Saiu recentemente um livro de vários autores, coordenado por Raquel Varela, "Quem paga o Estado Social em Portugal?", ed.Bertrand, com informação abundante e interessantissima sobre o tema.
E com a vantagem de ter uma perspetiva ligeiramente diferente daquela que o "pensamento correto e dominante" nos quer fazer crer.
Por exemplo, aquilo que os senhores ministro e secretário de Estado dos transportes chamam "regalias", como por exemplo o transporte gratuito dos funcionários e familiares de uma empresa de transportes, é classificado no Sistema Europeu de Contas, da Unbião Europeia, como salários. Isto é, "acabar com as regalias", como anunciado pelos senhores governantes é,  para a União Europeia, aliás como ela anunciou logo no inicio do programa da troika, "baixar os salários".
Interessante ainda ver que em Portugal a distribuição da coleta dos impostos foi, em 2010, de 25,3% para o trabalho e de 9,4% para o capital.
Ou a demonstração matemática de que a divida pública é uma forma de acumulação de capital privado ...

domingo, 4 de novembro de 2012

O chairman convocou o conselho consultivo e já recebeu o relatório do psiquiatra


O chairman convocou  o conselho consultivo com carater de urgência.
A empresa tinha uma dimensão significativa, embora não pudesse classificar-se entre as grandes do panorama económico europeu, apresentava alguns indicadores preocupantes e o CEO dava indícios de, juntamente com o CFO, tomarem as medidas de efeitos precisamente contrários à reversão pretendida para os indicadores e que tinham provocado o agravamento desses  mesmos indicadores.
Por exemplo, advogavam o progressivo corte nas despesas da empresa, cortando salários, fornecimentos e investimentos, caindo na armadilha da pobreza e da ineficiência de investimentos, à imagem da política escocesa de redução da  ração diária de palha.
Tinham também aumentado os preços de venda, sem cuidarem de aumentar o volume e a rentabilidade de negócios, através da quantidade, da eficiência e da diversificação da produção.
Apesar da gravidade da situação, os conselheiros ficaram surpreendidos com o entusiasmo inovador com que o chairman apresentou a sua proposta: contratação de um psiquiatra credenciado para analisar o CEO e o CFO.
Embora o parecer do conselho consultivo não fosse vinculativo, ainda assim a proposta do chairman mereceu a concordância de 55% dos conselheiros.
Complementarmente, o chairman pretendia evitar os custos para a empresa da convocação de uma assembleia geral de acionistas para alterar a composição da estrutura acionista.
Por isso pretendia manter a administração, nomeadamente os administradores que defendiam investimento reprodutivo e a manutenção da qualidade dos serviços prestados, mas reforçando-a com pequenos acionistas que se tinham destacado nas criticas ao CEO e CFO apresentando medidas alternativas coerentes.
Dentre essas medidas destacava-se a renegociação das condições de financiamento junto da banca de modo a imitar o serviço da dívida a 5% do volume de vendas, e a recapitalização da empresa através do aumento de capital pelos acionistas, com distribuição regressiva do número de ações em função do peso de cada acionista (isto é, os pequenos acionistas teriam direito a mais ações do que os grandes acionistas, embora a contribuição destes para a recapitalização fosse maior).
Os pequenos acionistas propunham ainda a conversão de capitais dos maiores acionistas, ainda não aplicados na empresa,  em títulos de dívida destinados a resgatar os empréstimos de juro mais desfavorável que a empresa tinha contraído junto da banca nos últimos 2 anos.

O processo de contratação do psiquiatra foi rápido, tendo previamente sido suspensos os procedimentos habitualmente em vigor na empresa,  e não tardaram os primeiros resultados, com a listagem dos sintomas observados e o diagnóstico preliminar.

Assim, o psiquiatra começou por afastar a hipótese dos sintomas de ausência de insight (auto-análise) revelados pelo CEO terem por origem perturbações orgânicas.
Baseou-se, para isso, na grande resiliência perante situações adversas ou de stress revelada pelo CEO, na não evidencia de défice cognitivo e na ausência de perturbações somatoformes.
No entanto, a sua grande capacidade para, perante a evidencia da realidade, persistir na manutenção do comportamento e recusar sistematicamente a perceção de eventual psicose associada, conduziu ao diagnóstico de hipomania, caraterizada por episódios breves e repetidos de  ciclotimia, que por sua vez, caso o doente não seja retirado das suas funções, ou sucumba ao stress, ou venha a cair na dependência do tratamento com antidepressivos, poderá derivar para perturbações bipolares.
O diagnóstico de ciclotimia foi confirmado pela variabilidade de humor, contrastando o tom persuasivo de algumas intervenções do CEO dirigidas ao marketing dos clientes ou aos próprios trabalhadores da empresa, com o tom agressivo, sem admitir a interrupção do discurso, com que responde a críticas do principal grupo de acionistas que se lhe opõem e dos pequenos grupos de acionistas. Ou episódios de secretismo intenso na gestão da empresa, alternando com outros episódios de apelo à participação de todos os acionistas em debates alargados sobre as estratégias a adotar.
O diagnóstico de hipomania foi ainda confirmado pelas manifestações de ideias de grandeza e delirantes, nomeadamente a crença de que só ele poderá salvar a empresa das ameaças, mesmo que com a sua ação perca a confiança da assembleia geral dos acionistas e dos trabalhadores da empresa.
A agravar estes diagnósticos, conta-se a sistemática utilização de mecanismos de defesa, de que se destaca a fuga de ideias, ou manobras de diversão com mudança do tema de discussão central, quando acusado de tomada de decisões prejudiciais ou apanhado em contradições sobre afirmações anteriores.
Tudo ponderado, o psiquiatra recomendou  o afastamento definitivo do CEO das suas funções.

Relativamente ao CFO, o psiquiatra não conseguiu confirmar, mas em presença dos sintomas, colocou a hipótese de que a ausência de insight possa ter origem em perturbações orgânicas com origem em dependência de alcalóides do tipo cocainoide, atendendo aos largos períodos de tempo passados em empresas congéneres e de âmbito supranacional onde o seu consumo é prática corrente e responsável por muitas das decisões tomadas ao mais alto nível nessas empresas, como confirma o panorama económico-financeiro internacional.
O diagnóstico foi assim de hipomania de grau mais grave do que a do CEO, atendendo aos sintomas de ausência de perceção da psicose, à perturbação da expressão retardada do fluxo do pensamento e à ideia delirante de auto-valorização ligada à obrigação moral de retribuir as compras dos clientes com a aplicação das suas ideias, mesmo que essas ideias conduzam ao aumento dos preços, e à crença de que só ele conseguirá obter os juros mais baixos para os empréstimos.
Também neste caso o diagnóstico foi substancialmente agravado pela evidencia dos sintomas do complexo de Hubris associados a episódios de exibição de mecanismos de defesa, como, por exemplo, a tendência para humilhar o acionista opositor ou o cliente discordante da estratégia comercial da empresa, ao mesmo tempo que, em aparente, mas aparente apenas, dissonância cognitiva, elogia as qualidades destes. Ou quando contrata consultores da sua escola para, em secretismo, fundamentar decisões prejudiciais aos trabalhadores e clientes da empresa.
Tudo ponderado, e considerando os riscos para a empresa decorrentes da sua permanência em funções, o psiquiatra recomendou a urgente cessação de funções do CFO.
O psiquiatra entregou as suas conclusões ao chairman.

Toda a empresa aguarda ansiosamente a decisão do chairman.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Medidas corretivas concretas - 6

6 a aplicar os fundos QREN na área das energias, executando os  estudos e projetos necessários para as candidaturas; considerando os inconvenientes da importação de combustíveis fósseis para a produção de energia elétrica, nomeadamente gás natural e carvão,continuar a instalação de centrais de produção de energias renováveis, nomeadamente eólicas, hídricas e solares térmicas e fotovoltaicas, promovendo:
- a renegociação das rendas para a disponibilidade de centrais de combustíveis fósseis
- a facilidade de trocas de energia na fronteira com Espanha e na fronteira Espanha-França para absorção de excedentes da produção renovável no sentido da exportação, e receção de energia em caso de carência
- o estudo e projeto de uma linha de transmissão de energia elétrica de muito alta tensão contínua entre Portugal e a França (desejável coincidência de grande parte do traçado com a linha ferroviária de alta velocidade do eixo trans-europeu)
6b- central solar concentradora com sais térmicos, com eventual parceria com as realizações congéneres na Andaluzia. Notar que a produção de energia elétrica continua a ser mais barata, em termos nominais, em centrais térmicas de gás natural ou de carvão. No entanto, considerando que estes combustíveis fósseis são importados, deverá insistir-se na produção por fontes renováveis, minimizando a parte importada das instalações de produção.

Medidas corretivas concretas - 5

5a  - Tendo como referencia o acordo de Londres de 1953, com perdão de parte da dívida da Alemanha e limitação do serviço anual da dívida a 5% do valor das exportações, negociar com as mais altas instancias da União Europeia, do BCE e do FMI  e em coordenação com os países PIIGS, a redução da divida (por maioria de razão se de uma auditoria resultar uma  componente ilegítima e se da análise histórica se comprovar  juros superiores ao razoável)  e estabelecer que a  soma destinada ao pagamento anual da dívida não pode exceder 5% das receitas do Estado.

5b – Proibição ou forte limitação através de sobretaxação progressiva, das vendas a descoberto (short-selling) e das transações dos CDS (credit default swaps)  e dos derivados futuros (algumas destas medidas aliás já decididas internacionalmente)

A TDT em outubro de 2012

Volto à vergonha da introdução da TDT em Portugal:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=tdt

Numa recente tese de doutoramento em Ciencias da comunicação, na Universidade do Minho, Sergio Denicoli afirmou que a implementção da TDT em Portugal configura indícios de favorecimento de operadores de canais pagos que as autoridades deveriam investigar.

Efetivamente, como anteriormente referido, a nova tecnologia permitia mais canais para substituir os 4 canais gratuitos, mas essa capacidade foi revertida para os operadores de canais pagos.
Poderá ser um caso de cronycapitalism/promiscuidade entre poder politico e poder económico, de que o maior beneficiário terá sido a PT.

É um facto que muita gente de poucos recursos económicos se viu privada do seu entretenimento por não ter capacidade para contratar a televisão paga ou para comprar a nova antena, o cabo e o recetor/amplificador/descodificador necessários para continuar a ver os canais não pagos.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa realizou uma investigação com 23.000 inquéritos recolhidos, tendo concluido que, em Lisboa, 20% de idosos de poucos recursos deixaram de ver televisão.
É uma vergonha e uma crueldade, especialmente quando entidades responsáveis pela passagem do analógico para o digital garantem que ela foi um sucesso.

Parece que somos uma democracia de percentagens, e que desde que a maioria possa ver televisão, a falta de qualidade de vida da minoria que não vê é irrelevante para o poder politico.

É uma vergonha porque a tecnologia permitia evitar isso, e é uma crueldade que se faz às pessoas, sem a desculpa de falta de dinheiro.

PS - Segundo o DN, a PT vai processar Sergio Denicoli por difamação. Provavelmente a PT terá interpretado "indícios de favorecimento" por acusação de corrupção. Independentemente da suscetibilidade da companhia, o que está em causa é a privação da televisão dos idosos sem recursos. E seria aí que a PT, porque efetivamente aumentou as suas receitas graças aos novos clientes com recursos para passar a pagar a TDT, se deveria concentrar, ajudando a resolver os problemas , que  muitas vezes obrigam ao estudo caso a caso para a melhor solução técnica. Não é uma obrigação legal, mas é um princípio básico: uma tecnologia nova deve facultar pelo menos o que a anterior fazia.