domingo, 20 de março de 2016

Ela move-se, apesar de tudo, "Portugal sou eu"

Para mim é um facto curioso, os programas na televisão dão uma ideia mais real da problemática das empresas produtivas do que os congressos e seminários em que aparecem uns senhores economistas mais ou menos ligados aos grupos da imprensa e seus parceiros económicos, repisando a tecla da competitividade, da produtividade e da necessidade das reformas estruturais (seja isso lá o que for), ou aqueles horríveis artigos nos suplementos económicos dos jornais sobre fazedores e empreendedores com eles muitoo sorridentes nas fotografias de promoção.
E o que provam esses programas na televisão é a realidade de empresss que produzem e que exportam.
Apesar de tudo, como dizia Galileu, e o tudo aqui será a incapacidade de muitos decisores compreenderem a resposta a dar à eterna questão "Porque temos de trabalhar?" e a incapacidade de organizar o trabalho em equipa para um fim útil.
A sensação é de que as elites que nos têm governado (as internas e as externas, que a incompetencia dos senhores de Bruxelas é enorme) são o principal obstáculo a que as pessoas normais consigam trabalhar e produzir.

Por exemplo, na RTP3 (pequenissima audiencia, mas depois não se queixem de não estar informados, de terem a perceção que nada se produz) o programa "ideias e companhias", de que sugiro o episódio de 19 de março de 2016 em que se refere o programa "Portugal sou eu" destindo a promover a exportação e a substituição de importações):
http://www.rtp.pt/play/p2190/e228732/ideias-e-companhias

Deste programa refiro as declarações do presidente da Wood One, grande empresa produtora de mobiliário para Portugal e exportação:
- o segredo do sucesso passa pela parte humana
- os empresários cometem por vezes erros graves, por exemplo, quando apareceu a internet houve muitas dispensas de agentes comerciais, o que nós não fizemos, porque os agentes comerciais descobrem negócios que a internet não consegue  (isto sem prejuízo da atualização tecnológica da empresa, robotização da produção e produção de energia fotovoltaica) - (comentário meu: infelizmente existe um provincianismo de novos ricos que se embasbaca com as maravilhas da internet, e isso deve ser contrariado)
- a decisão da admissão de novos colaboradores é tomada pelos trabalhadores, não por  mim

Ou as declarações do presidente da Tintas2000, uma grande empresa produtora de tintas:
- a minha empresa tem 35 anos de atividade e todos os anos apresentou resultados positivos, mas eu só uma vez levei lucros para casa (esta afirmação marca uma dissidencia até agora insanável nos teóricos do neo liberalismo: a ideia do interesse egoísta de Adam Smith não deve ser ser a do lucro máximo; essa é uma ideia primária, que não reflete sobre as consequencias do objetivo lucro máximo nem sobre todos os parametros envolventes; a declaração deste empresário é mais correta, que os benefícios gerados pela empresa devem ser investidos no  seu próprio desenvolvimento em função da utilidade soccial, isto é, os acionistas deverão receber a paga do seu trabalho como diretores ou a remuneração a taxas de juro baixas; tal como Álvaro Cunhal pregava quando fez parte dos primeiros governos provisórios a seguir ao 25 de abril de 1974 : pedimos aos empresários que se contentem com lucros menores)
- a crise tem sido uma maravilha... tem de ser entendida... devemos reagir trabalhando mais pelo desenvolvimento da empresa
- o mais importante são as pessoas.

Dá que pensar, neste país há quem trabalhe bem, mas existem também decisores que atuam no sentido contrário, e uma comunicação social que os apoia... dum lado quem produz, do outro quem fala alto...

terça-feira, 15 de março de 2016

O DN vai mudar, em peso, e a RR também

Quando abri o DN e dei com a notícia, de que ia deixar o seu edifício no cimo da avenida da Liberdade, pensei que bela ideia que tiveram para o primeiro de abril.
Era uma mentira aonível daquela da mudança de sentido de circulação em Inglaterra. Numa semana de adaptação dos cidadãos ao novo sentido os autocarros e os camiões circulariam já pela direita e os ligeiros ainda pela esquerda.
Mas depois reparei que a mentira de primeiro de abril costuma vir na primeira página, e além disso ainda estavamos na primeira semana de março.
Nao era mentira de primeiro de abril.
O edificio foi vendido e vai ser transformado e hotel de charme.
Respeitando a traça original e mantendo os frescos interiores e as letras exteriores, claro, claro, que o edificio é classificado.
Eis mais uma vantagem da competitividade, da flexibilidade e da inovação dos gestores dos grandes conselhos de administração.
Toda a atividade do DN se deslocará para uma das torres de Lisboa.
Acontecerá o mesmo com o edificio da Radio Renascença, que se concentrará na quinta do bom pastor, na Buraca.
Também será um hotel de charme.
Lisboa enriquece com os turistas.
E empobrece como cidade sem habitantes, apenas com prestadores de serviços aos turistas, centro de atração dos habitantes dos suburbios ao fim de semana, dos turistas de terceira idade dos cruzeiros, dos jovens turistas  cumprindo os seus rituais de viagem, talvez um pouco desiludidos por visitarem a reserva dos selvagens e verem poucos selvagens (Admirável mundo novo).
Uma cidade precisa de habitantes, com habitações com condições de conforto, áreas suficientes e estacionamento. Precisa de setor secundário, oficinas, fábricas e fabriquetas. Mas parece que Lisboa só pode ter terciário, e quaternário (as start up de informáticos desinibidos e inteligentes). Terão sido os eleitores que decidiram assim? Explicaram isso nas campanhas eleitorais?
Já há anos que a tendencia centrífuga se acentua. Expulsaram da baixa os correios, os tribunais, até o governo civil e a sua esquadra de policia. Como novos-ricos provincianos deslocalizaram-se serviços para a zona da Expo. Os conselhos de administração votam alegremente a concentração de serviços para aproveitarem sinergias cada vez mais longe da baixa (interessante, a edp, com todos os seus defeitos penalizadores dos contribuintes, fez o contrário). Ignoram que uma das conquistas da internet é precisamente permitir a descentralização, dispensar os veios de transmissão concentrados nas grandes naves oficinais. Não é isso que fazem os conselhos de administração em Nova Iorque, Paris, Londres, não se afastam do seu downtown, não o querem ver asfixiado.
Tudo isto indicia uma ausencia de planeamento estratégico do urbanismo e da organização territorial. Assim é impossível ter uma rede de transportes da área metropolitana consistente.
Pobre cidade que há 30 anos tinha 800.000 habitantes e agora tem 500.000 .


Reproduzo um texto que enviei no período de discussão pública do PDM em 2011. Não digo que detenho a sabedoria, mas gostaria de ver estas questões debatidas.

De: fernando silva [fcsseratostenes@hotmail.com] Enviado: sábado, 14 de Maio de 2011 1:12 Para: revisao.pdm@cm-lisboa.pt
Assunto: Sugestões para a revisão do PDM
Exmos Senhores
Infelizmente, por motivos particulares, não me foi possível estudar a fundo o plano diretor municipal de Lisboa; no entanto, envio o seguinte parecer. Como principal comentário e sugestão de complementos ao plano diretor municipal, julgo que a manutenção dos atuais limites do município de Lisboa condiciona desfavoravelmente o desenvolvimento de uma plano coordenado de estruturação económica da área metropolitana, pelo que seria de esperar que o PDM desse grande relevo ao objetivo de fusão de municípios ou, pelo menos, de agregação de forma mais eficaz do que o atual modelo da área metropolitana.
 Considerando que é dito no site do PDM que se pretende:
 - uma estratégia de desenvolvimento para a Lisboa dos próximos anos
 - atrair novos habitantes
 - reabilitar o edificado
 - melhorar o transporte publico
 - maior eficiência energética,
 junto as  seguintes observações, chamando a atenção que o atual período de constrangimentos financeiros (embora algumas ações possam ser desenvolvidas com o apoio de fundos de coesão da EU e possam contribuir para o crescimento do PIB sem agravamento significativo do endividamento) não impede que se estudem e elaborem desde já planos a médio e longo prazo:
1 – não é sustentável em termos de respeito pela lei do ruído e das normas de segurança a manutenção de um aeroporto dentro dos limites da cidade, pelo que o estudo do plano de ordenamento dos terrenos e da sua integração na rede de transportes deveria ser desde já iniciado
2 – o plano do nó de Alcântara deveria ser reformulado de modo a contemplar:
2.1 - a saída do terminal de contentores para o novo terminal da Trafaria/fecho da Golada,
2.2 - a reformulação da rede de transportes evitando o enterramento das estações suburbanas e do metropolitano,
2.3 - o projeto de um sistema de retenção e prevenção de inundações no vale de Alcantara
 3 – não obstante as obras em curso no Terreiro do Paço e nas Ribeira das Naus, a cidade necessita de uma ligação rodoviária que faça o “by-pass” do Terreiro do Paço, conforme contemplado em anteriores planos diretores (incluindo o projeto do túnel rodoviário que motivou a construção mais profunda do túnel de metropolitano) . Seria por isso altamente conveniente o estudo de alternativas possíveis, ainda que contrariando anterior parecer do IGESPAR que se opôs à “conquista de terreno ao rio”, o que viabilizaria esse “by-pass” em termos mais económicos do que um tunel
4 – não é possível ordenar o território de um município ou de uma área metropolitana sem integrar as redes de transporte coletivos, e não é possível projetar novas linhas de metropolitano e de suburbanos na área metropolitana sem as integrar na estrutura urbana de habitação, escritórios, comércio e oficinas. Neste aspeto, Lisboa teria a ganhar em:
4.1 – criar um operador único, a exemplo de Paris, Bruxelas, Barcelona, Milão
4.2 – reformular o plano de expansão da rede de metropolitano, que padece da intenção de uma linha circular de dispendiosa execução no aproveitamento das linhas existentes, propondo-se, em alternativa, a construção de novos troços com critérios de construção económica, como seja em viaduto (esta problemática, integrando também o nó de Alcântara e a correspondência entre o metropolitano e o serviço suburbano na terceira travessia do Tejo, está analisada em: http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/01/as-pontes-de-koenigsberg-ou-um-ponto-de.html )
4.3 – incentivar a construção de parques de estacionamento do tipo “park and ride” com ligação a linhas de metro, à entrada da cidade (o exemplo mais evidente será a construção de um parque deste tipo junto das Amoreiras, prolongando a linha vermelha do metro até lá)
4.4 – fiscalizar severamente o estacionamento indevido, especialmente nos passeios e na obstrução aos veículos de transporte coletivo
4.5 – preparar um plano progressivo de taxação da entrada de veículos na cidade, mantendo a coordenação com as alternativas de transporte coletivo;
 5 – considerando que entre os principais motivos da desertificação da cidade se contam:
5.1 - a degradação dos edifícios
5.2 – a reduzida área por sala ou quarto em cada fogo
5.3 – os custos elevados de reconstrução e comercialização
5.4 – a falta de lugares de estacionamento,
 sugere-se a preparação de um plano de reabilitação, com recurso a estudantes das faculdades de arquitetura em estágios, de emparcelamento de fogos (por exemplo, reconstruir 2 ou 3 prédios num só), de modo a aumentar as áreas específicas de habitação e obter áreas de quintal e de estacionamento interiores
6 - todas as medidas do ponto 4 podem ser classificadas como ações de melhoria da eficiência energética, sugerindo-se igualmente:
6.1 - a incentivação da utilização de terraços e coberturas de edifícios públicos ou partes de parques publicos para instalação de painéis fotovoltaicos de produção de energia.

6.2 – a utilização das águas nascentes no subsolo, nomeadamente as captadas nos túneis do metropolitano, para rega e usos sanitários em instalações públicas. 

 

segunda-feira, 14 de março de 2016

nós, portugueses, sentimo-nos - o insulto do gasóleo, a carne de porco e os pequenos camiões elétricos

Dado que sou um mau português, no sentido corrente e proverbial, discordo do provérbio "quem não se sente não é filho de boa gente".
Como o provérbio deve ter sido gerado antes das inovações freudianas, não culpo ninguém, e antes me parece que que tem tendencia para se sentir insultado é quem se sente inseguro, nas suas convicções, por exemplo.
Por outro lado, como mau português, no mesmo sentido, acho que as coisas devem ser dicutidas com base na quantificação de factos.
Por isso fiquei encantado quando, pela primeira vez, li os resultados de uma experimentação em condições reais de exploração de pequenos camiões diesel versus elétrico integral.
Fico a dever a alegria à revista "Veículos elétricos"nº7, janeiro-fevereiro2016 (edição Dicas &Pistas) e a comparação foi entre o Fuso Canter Mitsubishi diesel (7,5 ton de carga e peso máximo de 11ton) e o Fus Canter E-Cell.
Os resultados para transporte de carga média de 2 toneladas foram um consumo no depósito de 14,1 litros/100km de gasóleo para um e 47,6 kWh/100km para o elétrico, com percursos médios de 50km.
Considerando um rendimento de 0,8 para o veículo elétrico, temos  para a energia nas rodas 0,476x0,8= 0,38 kwh/km .
Na versão diesel considerando 1 litro equivalente a 10kWh, temos 0,141 litros/km equivalente a 1,41kWh/km , que por sua vez correspondem a 0,38 kWh/km nas rodas .
O rendimento diesel foi portanto  1,41/0,38 = 3,7 , isto é, 1 litro de gasóleo no depósito, equivalente a 10kWh, produziu nas rodas 10/3,7=2,7kWh. No veículo elétrico 10 kWh na bateria produziram nas rodas 8 kWh.

E é por isto que não posso concordar que a ANTRAM se sinta ofendida com o pedido do ministro da economia de não encher o depósito em Espanha.
No caso da carne de porco temos um grande problema com a distribuição, que se comportam como autenticos sabotadores da economia agrícola portuguesa (laranjas da Africa do sul e de Espanha à venda em Portugal?). No caso da carne de porco são evidentemente preços de dumping, e há legislação internacional contra o dumping (para mais com ajudas do estado...). Ainda por cima, consta que o pingo doce já tem comprado aos espanhois carne mais cara que aos portugueses. 
Já quanto ao ministro da economia, acho exagero querer a sua demissão e criticá-lo porque pediu para por gasóleo em Portugal. Os custos de combustível são 35% dos custos totais, pelo que o aumento de 10% do gasóleo  é um aumento de 3,5% global e todos temos de pagar impostos (menos os ricos, como escreveu João Cesar das Neves). Além disso, o transporte por camião tem vindo a decair desde há anos, não é o aumento do combustível que o tem provocado, e a ANTRAM já devia ter preparado um plano de transição para a adaptação das frotas: ele´trico integral para pequenos camiões, híbrido e gás para os médios e grandes, vocacionados para a complementaridade e distribuição a partir de plataformas logísticas ferroviárias e portuárias (se bem que aqui provavelmente estou a delirar). Isto para não falar na "eletrificação " das autoestradas (ainda mais deliro, mas estou a falar de um plano de transição a 30 anos, depois não culpem a UE...)



https://oeconomistaport.wordpress.com/2016/03/14/producao-porcina-veja-como-a-ue-e-os-governos-desmontam-a-nossa-economia/


http://www.tsf.pt/sociedade/interior/distribuicao-demarca-se-de-problemas-dos-suinicultores-e-produtores-de-leite-5076469.html

domingo, 13 de março de 2016

nós, portugueses, e o latim

Oiço na antena 2 , no programa ciberdúvidas, a lamentação da professora de latim Susana Marta Pereira. Que os alunos até se interessavam pelo latim, pela pesquisa das raízes etimológicas. Mas as decisões superiores são no sentido de separar os doutoramentos de português dos de latim, e assim reduzir a apetência destes or falta de perspetivas de carreira.
A professora queixava-se de que na Alemanha e na Inglaterra dão mais atenção ao latim. Que há interesses e ideias por cá. Percebe, mas não entende. E que pode ser natural, que daqui a uns anos se reverta a situação.
http://www.rtp.pt/play/p263/e227729/paginas-de-portugues
«Países como Inglaterra, Alemanha e Espanha colocam, actualmente, nos seus curricula o ensino do Latim, por perceberem a sua relevância na aprendizagem de matérias tão diversas que vão desde a matemática à biologia, à filosofia, à literatura e à aprendizagem das línguas, entre elas o inglês e o alemão. Em Portugal segue-se o caminho oposto.»
[in jornal “Público” de 11/04/2014]

Eu sou mais pessimista. A linguagem influencia o pensamento, provavelmente por mecanismos neuronais, não sei, mas certamente por estar associada a lógicas e métodos de exposição e portanto de raciocínio.
Infelizmente predomina na cultura portuguesa o método imediatista, a forma primária de reagir. Os secundários são considerados limitados, uns impecilhos quando conduzem e não deixam os primários que vêm atrás ultrapassar, ou que nas reuniões as atrasam a pedir para explicar melhor o que os primários já disseram que entenderam (normalmente não entenderam).
Mário Cláudio falou na caraterística portuguesa da boçalidade, e Guerra Junqueiro foi ainda mais depreciativo, ao declarar o povo resignado e subordinado às elites.
Acho que exageram. 
É como no caso do latim.
Há professores dedicados e alunos interessados.
Mas as elites decisórias conseguem descobrir modo de estragar tudo.
Como na economia, tão sábios que são os especialistas e estamos no estado em que estamos. Com  agravante de parecer que seguem os especialistas da comissão europeia e do BCE, que não sabem como acabar com a deflação...





sábado, 5 de março de 2016

Dardo de ouro

Recebi a seguinte missiva:



Dardo de ouro, o triplo C, competência, conhecimentos, concretizações


Assunto: Dívida no valor de 500€ à sociedade Sorrisos, unipessoal


Exmo Sr

Recebemos a informação da Sorrisos unipessoal que se encontra por liquidar, estando vencida, a quantia de euros 500.

Como V.Exa sabe, esta sociedade dedica-se a vender sorrisos nas viagens de metropolitano, nomeadamente através da distribuição de sorrisos durante as horas de ponta, de modo a contribuir para bons ambientes de trabalho e consequente aumento da competitividade e produtividade do país, competindo aos passageiros que os recebem devolvê-los.

Ora, não tendo VExa devolvido nenhum sorriso aos funcionários da empresa durante as viagens que realizou no período entre 2011 e 2015, correspondente à vigência do XIX governo, incorrendo assim em dívida por cada sorriso não devolvido, e não tendo nós conhecimento de nenhum motivo válido para o atraso verificado na respetiva liquidação, agradecemos que nos envie o pagamento de acordo com as indicações abaixo mencionadas (entidade, referência multibanco, montante).

Caso necessite de algum esclarecimento adicioinal, não hesite em contactar-nos, pois a razão da nossa existência é a satisfação não só dos nossos clientes credores, mas também dos seus devedores.
É timbre da nossa sociedade, com origem na Inglaterra mas já espalhada por muitos países da Europa, especialmente naqueles que instituiram sistemas de perdão fiscal para grandes montantes,  encontrar soluções que permitam aos devedores negociar as suas dívidas. No caso vertente, por exemplo, é nítida a vantagem para os devedores, considerando que a dívida por não devolução dos sorrisos ascendeu a cerca de 250€, incluindo juros de mora, constituindo os restantes 250€ a nossa comissão.
Acresce que, graças à nossa experiência, podemos aportar valor sob a forma de aconselhamento à negociação das dívidas num contexto macroeconómico e regulatório em que saberemos valorizar clientes e devedores.

Certos de contar com a vossa compreensão, apresentamos os melhores cumprimentos

Atenciosamente

Maria Luisa, Dardo de ouro, gestão e cobrança amigável de dívidas


PS - No DN de hoje, o seu diretor, André Macedo, a propósito da cessação unilateral dos contratos swap de empresas de transporte em 2013 por decisão da então ministra das finanças , afirma que foi mais um exemplo da sua impreparação (podem sempre renegociar-e os contratos, mas nestes casos de contratos swap, tão retorcidos na sua reação ao desce e sobe das taxas de juro e com uma vigência até 2027, não poderia renegociar-se uma espera menos penalisadora para ver se as taxas de juro sempre sobem ou não? é tudo tão virtual, menos os milhões de euros que t~em de se pagar aos especuladores...).
Mais uma vez discordo, no seguimento do já aqui escrito neste blogue, do diretor do DN. A senhora ex-ministra era exímia em acumular dinheiro pedido emprestado a taxas inferiores às das dívidas anteriores (isto é, contraía dívidas para pagar dívidas), como qualquer um de nós faz quando está falido. Mas não era impreparação, apesar da ignorância de como funciona a indústria, era auto-convencimento, a certeza no seu foro íntimo de que estava a salvar o país (psicose definida como hipomania, de que padecem os profetas com o exclusivo da revelação) e, portanto, o que outros apontavam estava sempre errado, e que a sua conceção e perceção se deveria sempre sobrepor à realidade. Daí o ar surpreso com que responde às críticas.
Mas enfim, votos de sucessos pessoais e profissionais na Dardo de ouro, desde que não prejudique terceiros.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Mães e automóveis


Penso que não se consegue identificar a senhora.
O objetivo de mostrar a foto é chamar a atenção para o estacionamento em segunda fila do carro da senhora, com a porta aberta do lado do transito, enquanto ajeita o bébé na cadeirinha.
Os automóveis têm este efeito perverso: desarmam os mecanismos de defesa do indivíduo e, por extensão, de conservação da espécie, por levarem mães, já de si sujeitas às pressões do dia a dia,  a terem comportamentos de risco.
Penso que seria um bom tema para análise psicológica.
Perto desta cena, esteve durante muito tempo outra senhora no seu carro, com o filho autista (balançando continuamente a cabeça). Que drama esconderá essa senhora? numa sociedade que não integra convenientemente quem sofre de autismo.
Cenas do quotidiano.

Je vous salue, Marie, The last temptation, o crime da aldeia velha, o evangelho segundo Saramago, os dois dads da igreja metodista, a manifestação em Luton, o meu país prometido, a dança dos demónios

1 - Je vous salue, Marie, filme de Godard
https://fr.wikipedia.org/wiki/Je_vous_salue,_Marie

João Paulo II afirmou que o filme feria gravemente os sentimentos religiosos dos crentes, um cinema foi incendiado em Tours, e em Lisboa fizeram-se amargas manifestações e declarações de desagravo e de protesto, com o então presidente da câmara de Lisboa rasgando as vestes como no evangelho. O filme enternece... e o enternecimento é bom para o espírito

2 - A última tentação de Cristo,filme de Scorsese, sobre o livro de Nikos Kazantzakis. Um cinema incendiado em Paris, mais manifestações de ofendidos em Lisboa.
https://en.wikipedia.org/wiki/The_Last_Temptation_of_Christ_(film)

3 - o crime da aldeia velha, peça de teatro de Bernardo Santareno. Trata a vontade sádica dos rituais de castigo da diferença, de imolação da minoria que não se comporta como a tradição dominante
j

4 - o evangelho segundo Saramago - deu origem ao episódio caricato de um senhor secretário de Estado da cultura se queixar de que o livro não retratava os sentimentos dos portugueses

5 - o cartaz à porta do templo da igreja metodista é claro: Jesus também teve dois papás, e saiu-se muito bem. O cartaz francês  é esteticamente muito bonito. A montagem do BE saiu "kitsch". Fez-me lembrar a montra de uma loja na Almirante Reis, uma pessoa passava e olhava para a imagem de Cristo, e dois passos depois via-o a piscar o olho, graças às lamelas pintadas com orientações diferentes, mas como pouca gente reparava, não deu protestos

reproduzido do DN

6 - a manifestação em Luton  - este video circulou pela internet há uns tempos, com mensagens sugerindo grande preocupação. De facto existe intolerancia, mais ou menos religiosa, mais ou menos tribal e sociológica, dos dois lados. Penso que associada a deficientes desempenhos do sistema de educação, a muito elevadas taxas de desemprego e ao predomínio de correntes de pensamento que estimulam a desigualdade. Recordo o primeiro presidente do Paquistão: "antes de muçulmanos, devemos ser cidadãos" e a necessidade de contextualizar no tempo os ensinamentos bíblicos e corânicos. Até Lutero ordenou contra os anabatistas "Matem os camponeses onde os encontrarem".  A verdade é que, como a reporter Stacey Dooley (https://en.wikipedia.org/wiki/Stacey_Dooley ) testemunhou, assim é dificil dialogar; contextualizemos então o versiculo 33-1 na guerra que o profeta conduzia ("pondera as ordens dadas pelos hipócritas e por quem não é de confiança") :



7 - Alentejo prometido - sou um admirador das edições da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Por não gostar de comprar nos supermercados Pingo Doce laranjas de Espanha, camarões do Equador e pevides da China (incrível, não é? isentar o transporte das mercadorias de uma taxa de carbono moralizadora, como até Vitor Gaspar já reconheceu). No seio da sociedade Jerónimo Martins, com sede fiscal na Holanda porque os acionistas americanos o querem (Soares dos Santos o disse na TV, que eu vi e ouvi), existe afinal a semente do progresso na diversidade de opiniões e a liberdade de expressão. Por isso é inaceitável o clima de ameaças e de insultos a Henrique Raposo pelo seu livro Alentejo prometido. Eu realçaria outros aspetos do Alentejo, os aspetos positivos da reforma agrária, porque chamámos Catarina à nossa filha, por exemplo, mas cada qual pensa como pensa. E até diria que sou parecido com os alentejanos, também me é dificil exprimir por gestos o carinho pelos meus netos. Agora ameaças não, não é aceitável. Só se sente ofendido quem se sente inseguro. Valha-nos Freud.

8 - E para fechar a lista de intolerancias (ou de denúncias de intolerancias) que o sistema educacional deveria combater, cito o livro coordenado por António Marujo e José Eduardo Franco, "Dança dos demónios, intolerancia em Portugal", edição Círculo dos Leitores. Tentemos um esforço de entendimento, mesmo que o português não seja uma língua fácil para nos entendermos, e mesmo que as nossas mentes ainda estejam demasiado fechadas e não gostem de se abrir ao pensamento dos outros, ou mesmo que estejamos sempre de pé atrás, à espera que perturbem a nossa insegurança.

quarta-feira, 2 de março de 2016

RTP3, os números do dinheiroo

http://www.rtp.pt/play/p2241/e226552/numeros-do-dinheiro

Trata-se de um programa de muito interesse, nesta altura em que os decisores e os grandes economistas que nos conduziram até aqui com a sua incapacidade de abrir as suas mentes continuam sem abrir as mentes, e quando os seus seguidores locais continuam a querer convencer-nos que não há alternativa à austeridade restrita do FMI, CE e BCE.
Muito interessantes as declarações do moderador Peres Metelo, de Teixeira dos Santos e de Braga de Macedo de que os bancos centrais, no seguimento da reunião do G20, têm de preparar os helicopteros para distribuir dinheiro para consumo e investimento (que dirão os economistas e comentadores de direita tão críticos do orçamento de Estado de 2016?).
Mas são as declarações de Ricardo Pais Mamede, entre os minutos 45 e 47:30, que mais me interessam:
"o dinheiro que os bancos centrais têm injetado na economia continua a servir para investimento em ativos especulativos que não estimulam a economia... a economia monetarista está a tornar-se prejudicial também por impor taxas de juro negativas, porque o capital foge e provoca desvalorizações e guerras cambiais... só com estímulos à economia à velha maneira keynesiana (deuses, o que dirão os economistas e comentadores de direita?) para aumentar o consumo e principalmente o investimento... o problema é que os parlamentos de paises com dinheiro não querem investir porque beneficiaria os países pobres, e os parlamentos dos países pobres não têm dinheiro".

Parece mesmo que a melhor solução seria ampliar os planos Juncker, CEF e 2020 (mas isso exige projetos bem feitos, e em Portugal prefere-se discutir assuntos acessórios e depois entregar os projetos a gabinetes de amigos que os fazem à pressa e sem ouvir todas as partes interessadas - mais uma vez faz falta técnicos da UE virem-nos ajudar) e, principalmente, a boa solução seria o parlamento europeu ir mudando de composição para que se possa também ir mudando aquelas regras restritivas que estrangulam o progresso de quem trabalha e não tem dinheiro para investimentos.

Trumbo




Sou um sentimental.
Comovo-me ao ver um filme como este.
Sobre o período da caça -ás bruxas do senador McCarty.
Trumbo é, apesar de centrado na personagem, um filme bem feito e honesto.
Comovi-me com a conversa com a filha (quando na escola outra aluna aparece sem comer, que fazes? partilho respondeu a filha), com a ingenuidade do Rapaz e o touro,  e mais ainda quando descubro que Kirk Douglas foi coprodutor de Spartacus, que eu vi em 1962 e que muito me surpreendeu nessa altura por vir dos USA.
Nestes tempos em que nos arriscamos a ter na casa branca um ainda pior que Reagan (que aparece no filme, juntamente com John Wayne, no papel de delator dos colegas), conforta saber que do outro lado do Atlântico há quem pense como nós.
Gostei também de saber que Gregory Peck e Lucile Ball tiveram atitudes corajosas contra a caça às bruxas.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Aeroporto, aeroporto, fevereiro de 2016

compra de um bilhete aero-bus; a vendedora está desprotegida relativamente ao vento norte e frio (ver a copa das palmeiras); em termos energéticos e ambientais pode questionar-se um serviço com autocarros diesel em paralelo com uma linha de metro; será uma concorrencia dea cordo com Adam Smith, mas Adan Smith não sabia nada de consumos energéticos de autocarros e metros

parabens à privada Ana, o seu aeroporto está um mimo, aproxima-se dos volumes do aeroporto de Málaga de há 10 anos atrás (já é um progresso)

parabens também às companhias low cost, exímias nos preços dumping.; na verdade. mais vale vender barato do que transportar lugares vazios; 

Também é verdade que as low cost geraram uma procura artificial e especialmente não reprodutiva, não geradora de bens transacionáveis ou de substituição de importações; e que também vivem à custa de benefícios ou subsídios nos combustíveis e na utilização de infraestruturas aeroportuárias e de manutenção. Mas são muito úteis para o turismo, e a juventude "easy jet", especialmente a desocupada, aprecia muito.
Lá conseguiram convencer as altas instancias de que o aeroporto do Montijo é uma ótima ideia. Será, mas eu preferiria que não houvesse tantos aviões a sobrevoar a cidade e a margem sul.  

As taxas de juro em fevereiro de 2016

Não, não são as taxas que as obrigações do tesouro português têm de pagar "aos mercados".
Refiro-me à taxa Euribor a 6 meses, aquela que às vezes é notícia por ser "manipulada" à conveniência de grandes bancos (com a devida vénia ao DN):



A teoria económica diz que se a taxa de inflação está alta aumentar a taxa de juro reduz a inflação e que  se queremos aumentar a inflação devemos baixar a taxa de juro. Mas o que vemos é as taxas de juro a baixar, até negativas(!?) e a inflação a manter-se muito abaixo dos 2%.
Taxas de juro baixas e inflação e nível de preços baixos podem ser muito interessantes para quem quer obter empréstimos e comprar barato. Mas se quem quer obter empréstimos quer investir numa fábrica,  como é que se vai lançar nisso se a inflação e o nível de preços estiverem baixos, pelo que teria de vender os seus produtos abaixo do preço de produção e abaixo dos próprios juros?
É evidente: a economia europeia foi a que reagiu pior à depressão de 2008.
Pobre Mario Draghi que parece que já percebeu e que está a falar sozinho. Os sábios da troika não querem ouvir falar de estímulos à produção (nem em combater o desemprego, nem em valorizar o fator trabalho em detrimento do fator capital - claro que tem de se ampliar o plano Juncker para além dos programas 2020, com a colaboração de equipas mistas para estudo de investimentos, especialmente em países em que os decisores são pessoas tão importantes que sabem sempre tudo, quer sejam presidentes de empresas públicas ferroviárias  ou rodoviárias, quer sejam presidentes de câmaras de cidades com circulares entupidas).
E contudo, graças ao DN, é interessante registar as opiniões de:
- Martin Wolf, economista chefe do Financial Times: "os principais governos podem pedir emprestado com taxas de juro reais nulas, ou até negativas a longo prazo. A obsessão pela austeridade, mesmo quando os custos dos empréstimos são tão baixos, é de loucos"... "os bancos centrais poderiam enviar dinheiro , de preferencia em formato eletrónico, a todos os cidadãos adultos"...
Quando um ignorante como eu diz isto (ver
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2016/01/conto-fantastico-o-petroleo-ou-um-dia.html   ) , e um economista como Martin Wolf também , a probabilidade de ser verdade que os decisores estão loucos deve ser muito próxima de 1. Talvez porque uma lei não obedece a curvas lineares, pode variar a sua derivada consoante o domínio em que as variáveis se encontram . Não esperem que aumentando o valor absoluto de taxas de juro negativas que a taxa de inflação suba. É física, não é economia. A taxa de juro que uma empresa produtiva paga depende das suas coordenadas geográficas, não da sua produtividade.
- Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças da Grécia "embora os países europeus tenham permanecido democráticos, as instituições da UE, para onde a soberania sobre as decisões cruciais foi transferida, permaneceram sem democracia" ... "tal como acontece com todos os gestores de carteis, os tecnocratas da UE trataram a verdadeira democracia pan-europeia como uma ameaça ... quem se opõe à abordagem tecnocrática é rotulado de anti-europeu" ... (nota minha: esta deve ser dedicada ao senhor deputado Paulo Rangel).
O valor e a segurança de um depósito de um cidadão europeu depende das coordenadas geográficas do seu banco. Mais uma vez a física, não a economia.
Vale ainda a pena uma terceira opinião:
- Wolfgang Munchau: "Olhando para trás, o erro crasso cometido pelas autoridades europeias foi não terem conseguido limpar o sistema bancário em 2008, após o colapso do Lehman Brothers. Esse foi o pecado original. Posteriormente, muitos mais erros agravaram o problema: a austeridade orçamental pró-cíclica, as várias falhas de política do BCE e o fracasso na criação de uma união bancária adequada. O mais curioso é que cada uma dessas decisões foi, essencialmente, resultado da pressão exercida pelos políticos alemães"



http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/o-dinheiro-de-helicoptero-pode-nao-estar-muito-distante-5046431.html

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/yanis-varoufakis/interior/europa-a-democracia-ou-o-fim-5046361.html

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/wolfgang-munchau/interior/o-regresso-dos-gemeos-toxicos-das-financas-europeias-5029863.html

Irlanda, fevereiro de 2016

Interessam-me alguns factos da Irlanda nestes tempos.
Primeiro, o seu sistema eleitoral para as legislativas: por voto preferencial, transferível para respeitar a ordem de preferencia expressa pelo eleitor (se o candidato X não puder ser eleito por insuficiencia de votos, então, por mim, que seja o candidato Y). Em princípio, parecerá que os pequenos partidos poderão ser menos representados. No entanto, pode suceder que o candidato Y, que atépoderá ser independente, obtenha uma votação elevada.
Para as presidenciais penso que é o sistema ideal, especialmente se houvesse vice-presidente (não duplas fixas presidente-vice-presidente).
Para as legislativas, continuo a preferir o método de Hondt (existem variantes do método proporcional). Por mim, a variante seria aproveitar todos os votos perdidos e atribuir proporcionalmente , de acordo com a menor média (eleitores por eleito), n deputados por um círculo nacional (além de diminuir o número de círculos distritais, precisamente para diminuir as perdas dos pequenos partidos.
Devemos aproveitar as lições da história, de que partidos únicos e falta de diversidade não dão bons resultados, devemos apoiar a existencia da diversidade de partidos e de formas de participação cívica. A questão da "governabilidade" está relacionada com a dificuldade de compreensão entre as pessoas e isso combate-se com técnicas de organização e métodos, e é normalmente invocada por quem consegue obter o apoio de maiorias para infernizar a vida de minorias.
Infelizmente o sistema eleitoral é um tema de matemática complexa, objeto de estudo desde finais dos século XVIII (Condorcet, Bordas...) e de teses que já deram um prémio Nobel de Economia. Mas enfim, apesar de tudo a sabedoria popular, mesmo ignorando os teoremas, pode chegar a uma conclusão útil, desde que a informação circule e não seja manipulada pela comunicação social e pelos políticos interesseiros.
Sistemas como o americano, "quem tiver mais votos leva tudo" é primitivo porque anterior ao desenvolvimento matemático do tema. Infelizmente cristalizou e os norte-americanos não saem dele.
Mas vamos à Irlanda, que apesar de tudo, e o tudo é o cumprimento escrupuloso do diktat da troika, além de que o peso financeiro das colónias irlandesas nos USA e no mundo inte,iro garante investimento estrangeiro que equilibra o saldo orçamental.
Quanto aso indicadores, temos, com a devida vénia ao DN e Dinheiro Vivo:




Apesar de uma boa evolução do PIB, mantem-se o défice público e uma dívida pública elevada (provavelmente a privada não será tão elevada, pela razão exposta, alto investimento estrangeiro, o que mostrará a inoperancia das medidas da troika). Notar que apesar da existencia de défice a dívida diminuiu (provavelmente devido a privatizações mais rentáveis do que as portuguesas).
Para comparar a evolução do PIB com a da Alemanha, zona euro e Espanha:



Aparentemente, não são os governos de países de economias periféricas que são inteiramente responsáveis pelos descalabros e pelos exitos. As curvas movem-se de forma semelhante, são interdependentes, com já a economia clássica sabia. Quando muito, os governos serão responsáveis por parte da diferença entre os melhores e os piores indicadores. E mesmo assim o condicionalismo externo é extremamente forte. Não culpemos os pensionistas e os funcionários públicos pela desgraça nem pela evidência de que a economia europeia foi a que pior reagiu à depressão de 2008.
Mas confesso, tenho inveja de alguns factos irlandeses. Por exemplo, aproveitaram fundos comunitários  para estudo da ligação entre os seus parques eólicos e as redes elétricas francesa e inglesa através de cabos submarinos de muito alta tensão contínua (exemplo que deveria servir para Portugal para exportação do seu excesso de capacidade instalada através de cabo submarino entre o Minho ou Galiza e o golfo da Biscaia).

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O acidente em Dalfsen, na Holanda

Este acidente coloca a questão da segurança do maquinista, num caso em que ele não poderia evitar o acidente.
Com as informações disponíveis baseadas em testemunhos visuais, não é possível evitar este tipo de acidentes (colisão do comboio com uma grua do tipo caterpillar que atravessava a linha numa passagem de nível).
Isto é, o tempo de atravessamento da linha por um veículo do tipo da grua é superior ao intervalo entre comboios suburbanos.
Não é possível explorar em segurança uma linha de suburbanos, para mais em via única, com passagens de nível. Por mais cancelas automatizadas que se ponham, por mais alarmes que se ponham (as distancias de travagem para 80 km/h são de cerca de 350m), por mais sistemas de pedido de atravessamento com interrupção da circulação ferroviária.
Não dá.
Na Holanda, em 2015, houve 30 acidentes em passagens de nível, com 13 mortos.
É inadmissível, é intolerável.
As pessoas têm direito a viajar de comboio e nas estradas sem correrem estes riscos.
No caso de Dalfsen já se quer transformar o condutor da grua em bode expiatório (o código da estrada na Holanda não obriga a acompanhar a grua por um agente da polícia? o caminho era privado e atravessava a linha?), não os decisores que não preparam as infraestruturas para o tráfego requerido.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Vende-se

Vende-se, não a estátua, não o candeeiro, nem a ave que excrementiza a cabeça da estátua do  Dona Maria.
Vende-se o edifício da CP, lá em cima.
Vítima do critério de "produtividade espacial", o inverso de m2 por funcionário, isto é, número de funcionários por m2.
Curioso Musk, o empresário do Tesla, achar que precisa de muitos m2 livres na sua fábrica.
Diferenças de conceções.
Até quando? como perguntava Catão.


Odeon, fevereiro de 2016

Odeon, fevereiro de 2016, baixa de Lisboa, ponto de encontro de turistas


Saudosismo

Sou um saudosista, pronto. Tenho saudades do símbolo antigo do metro de Lisboa. Mas ainda há algumas estações que o mantêm.  M clássico. Nos anos noventa uma credenciada empresa de publicidade ganhou um concurso para"uma nova identidade". Também é bonito, mas eu gostava mais do clássico. Não digo onde está. Tenho medo que se lembrem dele.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Portugal na balança da Europa de Almeida Garrett

"Quando pois, ó varões athenienses, quando o que vos cumpre haveis de fazer? Quando alguma coisa accontecer? Quando a desgraça vier? E do presente estado de coisas qual deve ser a vossa opinião? ... querereis continuar a andar como vadios pelas praças perguntando uns aos outros: o que ha de novo? - e que maior novidade póde haver do que subjugar o Macedónio os Athenienses, e estar dando leis à Grécia? ... cedo vos fareis vos mesmos outro Philippe (o Macedónio) se, como atequi haveis feito, continuardes a cuidar assim de vossas coisas."
                                                                                                              Demosthen, Philipp


Transcrição, com a grafia da época, da citação de Demostenes com que Almeida Garrett iniciou o seu livro Portugal na balança da Europa (edição fac-simile da Universidade de Coimbra e Edições a Bela e o Monstro,2013, sobre a edição de 1830 de S.W.Sustenance, 162 Piccadilly, Londres, preço 6 s).
O autor analisa a condução catastrófica dos destinos do país ao longo da história pela oligarquia (o governo de poucos) em lugar do que hoje chamamos meritocracia, mas a que na altura chamou aristocracia (o governo dos ótimos, do grego aristos).
Para concluir, dada a penúria de recursos, que se não for possível a soberania plena, ao menos, "talvez uma federação..." (na altura, a federação seria com a Espanha; na atualidade a federação será com a União Europeia).
Eu diria federação, não protetorado, e mais diria que se passa tempo demais nas praças, sem produzir... e que no esforço coletivo de maior número possível de cidadãos e cidadãs participantes nos processos políticos a todos os níveis, se concretizará a ideia do "governo dos ótimos", ou democracia participativa (passe a redundância).

junto da Ginjinha do Rossio, de copinho de plástico na mão,"o que há de novo?"



What a wonderfull world, the lady in nº6

Que mundo maravilhoso, e não é só uma recordação de Louis Armstrong, é o encantamento perante a senhora retratada na reportagem televisiva da Reed Entertainement, que a RTP3 retransmitiu, que Ferreira Fernandes "apanhou" na sua crónica, e que o pseudónimo Dom Dinis "pregou" no youtube. Senhora de 109 anos.
Maravilhoso mundo da internet (e do resto), ainda que... fica bem clara na reportagem a monstruosidade dos campos de concentração nazis, onde a senhora esteve presa, no extraordinário campo de Teresienstadt.
Extraordinário porque os nazis quiseram fazer crer que protegiam os artistas até que a guerra acabasse. E convenceram disso os visitantes da Cruz Vermelha que os visitaram periodicamente. Ocorre-me que as grandes potencias, atualmente, fazem o mesmo com a guerra da Síria e da Líbia, ignoram...Uma sobrevivente de Auschwitz, violoncelista, tocou para o demente dr Mengele...
Mas a senhora do nº6 faz acreditar na espécie humana, "eu olho para o lado bom...não odeio, nem nunca odiarei, o ódio gera ódio... devíamos agradecer a Bach ..."
Isto vai, ao longo do processo histórico...




quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Titanic em Portugal em 2016


A propósito da crónica do professor João Cesar das Neves no DN de 18 de fevereiro de 2016


Caro Professor

Com muita pena minha, eu, membro do grupo dos reformados do metropolitano a quem cortaram o complemento de reforma, não tenho tido oportunidade de comentar as suas quase sempre apreciadas crónicas no DN.
Discordando normalmente de si, gosto porém de apreciar os seus argumentos e, pelo meu lado, de protestar, sabendo embora que fui, e sou, um privilegiado cujos privilégios ajudaram a afundar o Titanic, conforme se poderia interpretar a sua metáfora do DN de 18 de fevereiro.
Embora, de cada vez que o professor fala em austeridade e privilégios insustentáveis na parte dos rendimentos do trabalho, eu me lembre do gráfico que circulou recentemente, a riqueza dos 50% com registos bancários mais pobres no mundo a perder rendimentos e as 62 pessoas mais ricas a ganhá-los:

O seu Titanic é de facto uma interessante metáfora, que eu gostaria de comentar da seguinte forma.
Não há dúvida, o navio da economia portuguesa chocou com o iceberg em 2008.
Mas olhe que a bordo havia quem dava atenção ao rumo errado. Por exemplo, o professor Medina Carreira, e até eu, em comunicações que fazia no metropolitano, com base em análises sobre o problema da energia.
Se a companhia do Titanic não tivesse já implementado alguns cortes, como o corte da compra de binóculos mais eficazes, talvez o piloto tivesse avistado o iceberg a tempo de uma manobra salvadora. Estes critérios economicistas às vezes vão contra a segurança…
Ou talvez se a administração da companhia, que não percebia nada de navegação (sei do que falo, como técnico do metropolitano fartei-me de ver ignorantes na sua administração) não tivesse aquela ideia maluca de provar a sua competitividade chegando mais depressa a Nova York do que os competidores, em vez de estar sossegadinha como o capitão queria, para não bater em icebergs, talvez que, talvez que…
Mas são suposições.
Mais certo é dizer que a sua ficção está correta. O navio bateu no iceberg e só 10% foi abaixo.
Quem dera que a realidade do Titanic tivesse sido essa. Mas não foi. O piloto torceu todo o leme para tentar fugir (errado, devia bater com a proa, mais resistente do que o bordo e isolada por paredes estanques do resto do casco; ao contrário do rasgo lateral, em que o iceberg foi sucessivamente abrindo todos os compartimentos estanques que não puderam assim cumprir a sua missão de projeto, manter a flutuabilidade) e gritou para a casa das máquinas “máxima força à ré” (errado, se queria virar, devia acelerar; certo, se queria bater de frente).
Eu diria que bater de frente era manter uma política de investimento (se não havia dinheiro em Portugal teria de vir da União europeia, certo? Mas esse Tricheur, perdão, Trichet…) e tentar virar seria uma política de austeridade que abre um rasgo no bordo do casco de muito mais do que 10% (por causa dos multiplicadores errados conforme disse a sra Lagarde, não foi?).
Mas não é este o sentido da sua metáfora.
Embora eu concorde com a ideia do flutuador, mas estava a pensar mais no flutuador ( e do combustível, claro) do investimento.
Até o almirante Draghi já veio dizer, com todas as letras, que as políticas orçamentais têm de considerar mais investimento público, que isso se está a perceber cada vez mais…palavras do almirante… e que pena se ouvir falar tão pouco do CEF, cujas candidaturas por Portugal estão entregues sabe-se lá a quem, sem discussão pública…
E também concordo com o flutuador do trabalho nas chapas rasgadas do Titanic (rasgadas, como diz, ao nível do cavername do BES e do BANIF, sem qualquer culpa dos reformados do metro, perdão, dos marinheiros) ou em infraestruturas de um país civilizado, que nunca me neguei, nem eu nem os meus colegas reformados privilegiados do metropolitano, a trabalhar nelas, mesmo que fosse preciso fazê-lo no natal ou no ano novo.
Aceito a sua dúvida sobre outros critérios  de flutuabilidade, mas desculpará dizer-lhe que não está próxima da realidade a sua afirmação de que não havia alternativa contra o risco de afogamento (TINA? Penso antes que TIAA) e nunca foi explicada “qual a opção credível e viável de flutuação” .
Como assim? Dito por quem escreveu, como dizia a viúva Helmsley, “os ricos não pagam impostos”. Quando ainda há tantas entidades para isentar da isenção de IMI? quando ainda temos a taxa Tobin nos arquétipos? quando é insignificante a deslocação do rendimento do capital para o trabalho e quando o engenheiro de finanças, perdão, de máquinas do navio, do novo capitão (não, não votei nele, mas confesso que votei num dos partidos que o sentaram na ponte de comando), consegue armar o quadro Excel das transferências de rendimentos  de modo a manter a carga fiscal e os critérios do tratado de funcionamento da UE, já criticados pelo almirante Draghi?
Que fugirão, os fornecedores de flutuadores e de combustível, perdão, os investidores? Para onde? se até a Suiça acabou com o sigilo bancário e o presidente dos USA aplica multas a off-shores e a bancos manipuladores (será verdade que o Deutsche Bank imparidadou 6 mil milhões? Terão sido os marinheiros do Titanic?).
E não digo isto por achar bem o tal cartaz da JCP que criticou. Que também não acho, com os peixinhos pequenos a querer comer o peixe grande (lembra-se do Padre António Vieira a ralhar aos peixes? "Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande... A diferença que há entre o pão e os outros comeres é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses do ano; porém, o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos").
Não diga por isso (no sentido de ser uma proposta que eu faço, não quero impor nem proibir nada) que os marinheiros só pensam em “reduzir os preços dos restaurantes, aumentar os consumos” (sim, mas também os impostos sobre os combustíveis e o crédito, para equilibrar o navio…) , “retomar a festa” (se cumprirmos o artigo da CRP sobre as políticas ativas de emprego reduzimos o tempo para as festas, certo? Não ao desemprego e ao excesso de tempo livre para festa) e “redecorar os camarotes dos pensionistas”.
Enfim, professor, a propósito desta sua última frase, muito gostaria que comentasse, se lhes achar algum interesse, uns pequenos cálculos que fiz sobre o valor de investimento do diferencial de vencimentos ao longo dos anos em que os vencimentos no metropolitano foram substancialmente inferiores aos do setor privado e simplesmente inferiores aos de outras empresas públicas, e que justificava o conceito de complementos de reforma, vigente na contratação coletiva para admitidos até 2004:

Com os melhores cumprimentos e votos de saúde

Fernando Santos e Silva







Os hipermercados e o imposto sobre os combustíveis

Queixam-se as virgens púdicas de que o imposto sobre produtos petrolíferos, 6 centimos por litro, vai repercutir-se ao longo da cadeia da economia e encarecer as coisas.
Até nem seria muito mau, já se viu que a deflação é como a austeridade, mata a economia.
Mas não e o essencial, o que interessa é limitar as importações, no caso de combustíveis fosseis.
Analisemos o caso da grande distribuição e da procura pelos consumidores através da utilização do seu transporte privado, assunto já tratado neste blogue, a propósito da lei de Fermat-Weber (cujo estudo devia ser obrigatório nas faculdades de Economia):
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=fermat+weber

Seja D os custos de combustível duma grande distribuidora para abastecimento de uma sua grande superfície comercial, representada na figura da situação I por um quadrado.
Seja  "a" a distancia média entre os consumidores e o hipermercado, admitindo que corresponde aos custos de combustível para os consumidores se abastecerem.


Temos assim para a situação I:

custos de combustível dos consumidores:    8a
custos de combustível da distribuidora:         D





Admitamos agora que os consumidores perceberam que estavam a suportar custos de combustível da distribuidora por terem de se deslocar demasiado longe, o que obrigou a distribuidora a repensar a sua estratégia e a construir hipermercados mais pequenos mas mais perto dos consumidores, a metade da distancia entre o grande hipermercado e os consumidores e ente os pequenos hipermercados, e representados estes por quadrados mais pequenos na figura da situação II.
O balanço de custos, admitindo que se mantém o primitivo hipermercado como logística de distribuição e não contando os consumidores mais próximos do grande hipermercado, passou a ser, considerando o número de consumidores suficientemente grande para que o custo unitário do transporte da distribuidora seja semelhante aos dos consumidores:

custos de combustível dos consumidores:    4a
custos de combustível da distribuidora:        3a+D

variação da situação I para a II:
          consumidores:      -4a
          distribuidora:        +3a
          variação total:       -a

Isto é, com a situação II o país ficou a ganhar porque tem de importar menos "a" . Mas a distribuidora ficou a perder 3a.

Dá para pensar, não dá?
Sobre a fundamentação dos impostos, por exemplo...








Deniz Gamze Erguven

Quem é Deniz Gamze Erguven?

Vou recuar no tempo para responder.
Há muitos anos, a minha professora de História propôs aos seus meninos do 4ºano (atual 8º) um trabalho de grupo sobre um tema do império romano.
Juntamente com um parceiro, resolvemos fazer a lista de todos os imperadores romanos e dos reis da Gália pré-francesa. Claro que a crítica foi a desatenção dos movimentos sociais e suas causas.
No ano seguinte, o meu professor de português passou como tema para o teste, uma redação sobre um tema que nos tivesse impressionado. Ora eu tinha ganho um certo gosto pelas histórias imperiais. Tinha comprado um livrinho com a história do império bizantino e outro, da coleção PUF (Presses universitaires de France) sobre a história da Turquia. Tinha ficado impressionado com a brutalidade de um episódio dos janízaros, a guarda pretoriana do sultão de Constantinopla, isto é, Istambul, e foi isso que pus na redação. Claro que o professor não gostou, ele que queria detetar sensibilidades artísticas e literárias para poder exibir nos seus encontros interpares.

Isto para dizer que me interesso pelos acontecimentos na Turquia e no médio oriente. Admiro o esforço de Ataturk para passar do império medieval dos otomanos para uma república laica moderna (e contudo, o senhor Erdogan é um retrógrado que tem feito o povo regredir no sentido de uma república islâmica, um pouco como seria se um partido democrata cristão reimpusesse a santa inquisição).
Achei curioso o alinhamento da Turquia com a Alemanha na I Grande Guerra, o episódio do desastre dos Dardanelos (que faziam soldados australianos em Galipoli, nos Dardanelos,a morrer tão longe da sua terra?). Compreendi por isso porque o museu de Berlim das antiguidades clássicas é tão rico. Arqueólogos alemães tinham trabalhado intensamente desde o século XIX na Asia Menor (descoberta das ruinas de Troia) e no Egito (busto de Nefertiti em Berlim). Ainda hoje a Turquia se orgulha de cuidar melhor dos vestígios da cultura grega clássica do que os próprios gregos.
O desfecho da I Grande Guerra foi fatal para o império otomano. A Inglaterra imperial, que tinha sido aliada da Turquia na guerra da Crimeia, em 1854, quando a Alemanha ainda não se tinha unificado, quis então conter o expansionismo russo e ao mesmo tempo criar espaço para os seus capitais (estava-se na revolução industrial)  nos territórios do império otomano, ricos em petróleo. Foi uma aliança interesseira. Com o fim da I Grande Guerra, contida a influencia germânica, a Inglaterra pôde assenhorear-se dos poços de petróleo do Iraque ao Cáucaso e à Pérsia, ou obter alianças com a tribo saudita. E retalhar autistamente o mapa do médio oriente, com grandes culpas na situação atual. É por isso que não gostei de ver Peter O´Toole a fazer de Lawrence da Arábia.

Tem sido difícil o progresso civilizacional da Turquia. A censura dos sultões impediu até a difusão da imprensa, só vulgarizada no fim do século XIX. Os indicadores do analfabetismo eram catastróficos. A religião opôs-se ao progresso civilizacional.
E chegamos à Turquia de hoje, que eu desejaria ver integrada na União europeia, desde que respeite e cumpra os princípios básicos de uma sociedade laica, em que as mulheres possam andar de cabelos ao vento, como vemos as suas artistas nos festivais europeus, e os seus cidadãos e cidadãs a participar nas ações comuns, como eu testemunhei nas reuniões com os meus colegas do metro de Istambul. E que os orgãos institucionais respeitem e apoiem a autonomia dos curdos, em vez de criminosamente os culparem da guerra síria.

Não é só o facto da Turquia ser dos países com maior número de jornalistas presos, de manter preso Oçalan, político curdo que defende soluções pacíficas não obstante o aliado USA classificar facciosamente a sua organização como terrorista (como fez aliás com Mandela), de ser gritante a desigualdade de género devido à força religiosa. A sua política externa é perigosa principalmente por ser um aliado da NATO e reprimir a autonomia curda e por tomar partido no eterno conflito sunitas-xiitas (pense-se no período catastrófico que foi para a Europa o das guerras religiosas da Reforma e da Contrarreforma).

Ah, é verdade, Deniz Gamze Erguven, É a realizadora turca, vivendo também em França, do filme Mustang, sobre 5 raparigas cuja educação, primeiro liberal e depois reprimida, é a metáfora da Turquia moderna.

Viva a Turquia,  república laica europeia.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Acidente de Bad Aibling, conferencia de imprensa em 16 de fevereiro de 2016

O acidente, colisão frontal de dois comboios em via única,ocorreu em 9 de fevereiro de 2016.
As declarações sobre as prováveis causas do acidente limitaram-se, no próprio dia, ao anúncio da abertura da investigação pela entidade federal de investigação de acidentes ferroviários, Eisenbahn-Unfalluntersuchungstelle, ao anúncio do inquérito pela companhia privada que explora a linha suburbana (as infraestruturas são geridas pela Deutsche Bubdesbahn), Meridian, subsidiária da Transdev, e à informação pelo comandante da polícia que era pura especulação a hipótese de desativação do sistema de travagem automática.

Na conferencia de imprensa de 16 de fevereiro, o procurador informou que foi falha humana, do controlador de movimento do posto de comando da estação de Bad Aibling.

Assinale-se a diferença de cultura para os USA, Inglaterra e França, em que os passos da investigação são comunicados em conferencias de imprensa imediatas, e em que se chegam a recolher contribuições de cidadãos para ajudar a esclarecer as causas.
Neste caso, o site da Eisenbahn-Unfalluntersuchungstell mantem-se omisso sobre o andamento das investigações.

Assinale-se ainda o excelente serviço da BBC na tentativa de esclarecimento.

Pelas informações até agora prestadas, terá sido o controlador de Bad Aibling que terá autorizado (mediante o acendimento de 3 focos brancos ao lado do sinal vermelho, autorizando a ultrapasagem deste) o comboio no sentido para leste a avançar. Esse comboio estaria atrasado 4 minutos, chocando com o comboio no sentido de oeste que estava no seu horário e já tinha saído da estação de Kolbermoor.





É precário um regulamento de sinalização que permite a um homem só ultrapassar a indicação máxima de segurança de um sinal vermelho. A segurança ferroviária impõe que uma falha humana nunca deverá conduzir a um acidente. Logo, a afirmação do procurador de falha humana significa, na realidade, falha de projeto, o que não é admissível . Esperemos portanto que a acusação não concretize a ameaça de prisão para o controlador, que é neste caso o elo mais fraco (alguma imprensa já divulgou o seu salário anual bruto: 31500 euros, possivelmente para insinuar que é um privilegiado). Num ambiente em pressão (um dos comboios atrasado) existe o risco de troca de operações (exemplo: o controlador ter pensado em reter o comboio sentido oeste em Kolbermoor, ter-se esquecido de executar a operação e ter autorizado o comboio sentido leste a ultrapassar o sinal vermelho, não obstante o itinerário estar feito no painel de comando para o comboio sentido oeste).


situação de risco: o sinal vermelho é anulado por telecomando dos 3 focos brancos; vê-se na via a baliza da travagem automática do sistema PZB90, desativada pelo mesmo telecomando


Mas repito: o regulamento é precário, ultrapassar um sinal vermelho deve exigir pelo menos duas pessoas para além do maquinista, envolvendo por exemplo a comunicação rádio mutuamente  confirmada (acknowledged). Além disso, o sistema de travagem automática em serviço, apesar de recente (a sua instalação foi generalizada na Alemanha depois do acidente em via única na Saxonia-Anhalt em  fevereiro de 2011) é apenas pontual. 
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=anhalthttp://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=anhalt~

A segurança mais elevada exige um sistema ATP de controle contínuo da curva da velocidade. Que neste caso teria impedido o movimento do comboio sentido leste (a menos que o sistema ATP fosse desligado, coisa que o regulamento deve proibir, estabelecendo cantonamento de bastão piloto em caso de avaria, com presença obrigatória de operador no local e confirmação da avaria).
Para reduzir a probabilidade de acidente, um sistema pontual deve repetir os sinais equipados com as balizas de travagem automática. Neste caso, um troço de 5 km, justificar-se-ia, em cada sentido, um sinal de saída, um sinal de intermédio e um sinal de entrada, para além dos sinais de manobra das agulhas em cada estação nas extremidades do troço. Tendo autorizado a ultrapassagem do sinal de saída, o comboio teria  sido travado pelo sinal intermédio. Mas são suposições e um solução de recurso, uma vez que a solução correta é controle contínuo (baseado em localização por comunicação de dados por rádio) e, em caso de avaria, um regulamento com procedimentos mais restritivos, como aliás os comentadores já foram deixando. 
De assinalar também que uma linha suburbana não deve ter troços em via única e não deve ter passagens de nível, como neste caso, pelo que se manteem as principais críticas do post anterior sobre o acidente na Saxonia-Anhal, nomeadamente nos riscos dos critérios economicistas.
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No caso de Bad Aibling, refiro ainda, com base nas informações que circularam, sujeitas a confirmação
1 - a companhia Meridian tem 35 composições, encontrando-se por vezes 10 avariadas; existe um grupo de trabalho com o fornecedor para resolver as multiplas avarias
2 - consta que os dois maquinistas se encontravam em formação, acompanhados por instrutores (todos os 4 morreram, como 7 dos 150 passageiros); não parece aconselhável mais do que uma tripulação nestas condições em plena exploração (compreende-se o fator económico, mas o esforço principal da formação deve ser em circulação noturna fora da exploração (para além do recurso a simulador)
3 - a avaliar pelas horas-minutos indicados, a velocidade não deveria ser superior a 60km/h, sendo que um dos sistemas PZB impõe a limitação de velocidade a 40km/h ao comboio autorizado a ultrapassar o vermelho (ignoro se foi o caso)
4 - no entanto, é de assinalar a estrutura deformável e possivelmente o sistema anti-climbing (antiencavalitamento) que terá evitado mais mortes
5 -  a Deutche Bundesbahn apenas tem cerca de 13% de encravamentos eletrónicos (interlockings) do total de 4000 encravamentos na sua rede, sendo que neste caso o encravamento era de relés (no caso de vias únicas, é aconselhável a redundância dos circuitos de via clássicos com contadores de eixos)

Junto endereços  com mais informação e 2 comentários à notícia dada pela BBC:


The only human error is stupidity of engineering. Obviously German engineering is not all it is cracked up to be. ANY system that allows a single human error to allow a head on collision of two trains is faulty by design.
Human error? Why in 21st Century in a developed nation is a human capable of making that type of mistake without at least two automated systems kicking in to both stop the trains and to alert all sort of people (the operator, his boss, both engineers).

These are relatively easy engineering problems to solve (in the 21st Century) yet hasn't been done.



funcionamento da travagem automática PZB90:
https://en.wikipedia.org/wiki/Punktf%C3%B6rmige_Zugbeeinflussung




PS em 24 de fevereiro - Segundo informações posteriores, um dos comboios era conduzido por um maquinista em formação acompanhado por um instrutor, e o outro por um maquinista acompanhado por um colega de outra rede (situação que a confirmar-se deverá ser esclarecida do ponto de vista regulamentar). Também foi informado que um dos comboios seguia a cerca de 50 km/h, provavelmente o que passou pelo sinal vermelho depois de autorizado por telecomando (limitação automática pelo sistema PZB). Mantem-se a falta de informação peloo gabinete de investigação ed acidentes, o que considero falha grave. Mantenho a opinião de que um sistema tippo PZB, por ser pontual não tem nível de segurança suficiente. Deverá utilizar-se um ATP de controle contínuo, baseado em radiocomunicações de dados (incluindo a localização dos comboios em jogo), exigindo a intervenção de dois agentes para além do maquinista e circulação com bastão piloto em caso de avaria. Não deveria utilizar-se a via única em serviço suburbano com intervalos curtos. E não deveria nunca haver passagens de nível (não contribuiu neste caso para o acidente, contrariamente ao acidente na Holanda de 23 de fevereiro de 2016).





Mario Draghi, em 15 de fevereiro de 2016

Notícia da RTP, Mario Draghi e o BCE: "Está a tornar-se cada vez mais claro que as políticas orçamentais devem apoiar a retoma económica através do investimento público e de uma taxação mais branda".

Deuses, mas aos anos que andamos, pelo menos alguns de nós, a dizer isso.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Oito lamentações à maneira de Jeremias, e uma nona lamentação ainda maior, ou as 8 condecorações



"Porque alcançam os maus tanto sucesso
e os pérfidos  vivem tranquilos na sua malvadez?
Tu os plantaste e eles lançam raízes,
crescem e frutificam"
                                             Jeremias, 12,1-2

1ª lamentação - Paulo Macedo - mostrou a sua competência como gestor e economista enquanto diretor geral das contribuições. Mas como pode compreender um hospital?
2ªlamentação - Campos Cunha - saíu para mostrar que a política do governo Sócrates era insustentável. Mas isso era o que muitos diziam na altura e não foram medalhados
3ªlamentação - Álvaro Pereira - de olhos muito abertos gritou:Vamos acabar com as vossas regalias. Foi forte com os fracos, mas os  mais fortes afastaram-no
4ªlamentação - Lurdes Rodrigues - desceu às escolas, mas não para compreendê-las, antes para lhes anunciar a sua verdade. Perdeu o apoio dos professores e não ganhou o apoio do povo, apesar do presidente da República repetir Deixem trabalhar a senhora
5ªlamentação - Bagão Felix - é uma pessoa simpática e com interesse, como mostram as suas conversas televisivas, um excelente gestor de seguros e analista fiscal e da segurança social. Mas porque é tão fundamentalista nas suas opções?
6ªlamentação - Nuno Crato - como pode um bom matemático abstrair da realidade da desigualdade de condições educacionais das crianças de menores recursos económicos quando a abstração é uma força da matemática?
7ªlamentação - Rui Pereira - como se pode ser tão teórico apoiando-se em estatísticas não atualizadas quando do outro lado da cidade se executa mais um assalto a uma ourivesaria e se ignoram as correlações entre abandono escolar/desemprego e criminalidade?
8ªlamentação - Vitor Gaspar - criativo fornecedor da imagem do oásis a Braga de Macedo, como conseguiu em tão pouco tempo compreender que andamos todos a subsidiar os produtores e distribuidores de combustíveis fósseis depois de ter reduzido a parte dos rendimentos do trabalho?
Lamentação maior - como foi possível termos tido um presidente da República que animadamente revalorizou o escudo nos idos de 78, ignorou a diferença entre Tomas More e Tomas Mann e não se decidiu entre Musgrave e Buchanan enquanto amigos seus não recomendáveis exploravam as fragilidades financeiras do país? Porque ficaram tantos em casa nas eleições que ele ganhou?
Tal como Jeremias esperava o fim do cativeiro de Babilónia, também nós esperaremos o fim desta forma de vida.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Monsieur Moscovici, tenho de corrigir o meu post anterior

Monsieur Moscovici, tenho de corrigir, ou melhor, completar, o meu post anterior.
Gostei de o ouvir dizer que a aprovação do projeto de orçamento de Estado português para 2016, embora com reservas, tinha sido um trabalho técnico para compatibilização com as regras europeias, independentemente da cor do governo.
Assim respondia às insistentes perguntas de alguns jornalistas que gostariam de ver condenados os "extremistas" que suportam no Parlamento português o XXI governo, para utilizar a terminologia do presidente do grupo dos partidos PPE no Parlamento europeu, que o deputado português Rangel, à boa maneira de Miguel de Vasconcelos, também utiliza no mesmo Parlamento.
Claro que o orçamento, no contexto espartilhado pelas ditas regras e pelo falhanço das políticas económicas da UE, não resolve as questões do investimento, do crescimento e do desemprego. E deixa por resolver escandalos como as rendas das PPP e o defice tarifário, sem esquecer o continuado esquecimento da taxa Tobin (que diriam os prosélitos neo-liberais se o orçamento contivesse a taxa Tobin, eles que tanto se escandalizaram porque a taxa da contribuição bancária sobre os passivos subiu de 0,100% para 0,105% ...) .
Também tenho de criticar o orçamento e Monsieur Moscovici e seus comissários porque são omissos em referir a necessidade de fundos comunitários para desenvolver as infraestruturas ferroviárias e energéticas de ligação de Portugal à Europa (Horizonte 2020, plano Juncker, CEF - ou bem que somos uma união ou mal que não somos).
Mas claramente  também, o orçamento desloca o esforço dos sacrifícios no sentido de quem tem maiores rendimentos.
Por isso, enquanto o Parlamento europeu não consegue mudar as regras para se atacar a sério os problemas do investimento, do crescimento e do desemprego, e esperemos que os partidos de esquerda compreendam que é aí que se devem concentrar, em ganhar uma maioria de esquerda, não em sair da UE porque internacionalismo será isso, gostaria de o felicitar pela forma civilizada como comunicou a aprovação do orçamento.
Que viva a Europa.

o rapto de Europa por Zeus, baixo relevo do antigo cinema Europa, agora num bloco de apartamentos, no mesmo local, em Campo de Ourique

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Monsieur Moscovici, vocês dão cabo da paciência de um santo



Vocês fazem perder a paciência a um santo.
Estou farto das vossas implicações, de tanto com que vocês implicam. Das vossas burocracias e dos vossos fundamentalismos.
Não é que não tenham alguma razão. O nosso ministro das finanças do XXI governo é um pouco teórico, tem  pouca experiência da vida real nas frentes de trabalho das empresas. É um académico. Como vocês, afinal.
Tão irrealista é um, para tal taxa de crescimento, como os outros, vocês. Como podem vocês aumentar o crescimento e cortar o desemprego com a vossa paixão pela austeridade? E como se pode crescer com a vossa austeridade, sem evitar a reestruturação da dívida (de que vocês fogem como o Shylock do mercador de Veneza) e cumprindo as vossas utópicas regras orçamentais? (ver http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2014/05/o-triangulo-das-impossibilidades-da.html )

Vocês não querem ver como as vossas regras (foi isso que disseram, não foi? que há regras para cumprir) já limitaram mais do que o suficiente e o conveniente o nosso crescimento. Vá lá que já perceberam com os ingleses, que quando é preciso se mudam regras. Falta agora perceberem o que os italianos vos têm dito. Mas tiveram de bolsar aquela que a Grécia não está a fazer o suficiente para conter a vaga de refugiados. Tenham pudor, nem vale a pena argumentar perante tal disparate. Ajudem antes a parar a guerra, geoestratégico petrolífera ou lá o que for, e chamem a atenção da Turquia para respeitar o povo curdo.
Vocês estão a bloquear a Europa. O que será preciso fazer ? para vocês aceitarem isto tão simples, não podemos viver em deflação, com o desemprego e subemprego que isso acarreta, nem podemos ter diferenças de taxas de juro de país para país, nem podemos ter os defices estruturais ou suas taxas de variação que só podem existir nas vossas cabeças, nem podemos impedir o controle público das empresas estratégicas, nem podemos deixar as coisas nas vossas financeiras mãos, numa frase simples.
Parem lá de discutir se o corte das pensões e dos salários públicos é temporário ou estrutural, se entra, se sai das contas ou se pelo contrário.
Talvez só se possa sair deste impasse por ação do parlamento europeu. Mas têm de se entender para isso, os deputados europeus. Que parecem dominados pela incapacidade de se organizarem, como é caraterístico dos grupos de portugueses.
Não há paciência, vocês querem implodir a união, querem que a Grécia, a Inglaterra, nós, a Itália vos mandem passear?
Acham que não é possível? Deixem-me lembrar-vos que a seguir ao 25 de abril de 1974 também muitos governos estrangeiros ameaçaram Portugal com a quebra de negócios. Não deu em nada, a ameaça, os negócios são feitos com empresas, não com governos (pelo menos nalguns casos, os seficientes), e a Siemens, por exemplo, manteve os seus negócios. A General Eletric, por exemplo, não manteve.
São opções...