terça-feira, 1 de abril de 2025

Chamava-se Palestina, poema de Mahmoud Darwish (1941-2008)

 Atingi a maioridade em plena guerra colonial. Graças à possibilidade de adiar a incorporação durante a universidade, conclui o curso em 1970, dei aukas numa escola do ensino técnico profissional e iniciei o serviço militar em Mafra em 1971. Não cheguei a ser mobilizado e todos os comandantes das unidades por onde passei sabiam o que eu pensava. Não era difícil, na porta do meu carro velhinho estava um autocolante "make love, not war" e apoiava sistematicamente os cantores chamados de intervenção.

Passados mais de 50 anos, quem não gostar de mim dirá que seria normal na minha juventude pensar daquela forma (mas eu lembro-me de que muita gente da minha idade não contestava a política colonial), e anormal continuar a pensar da mesma forma, "make gardens, not war", como já se ouviu na ilha sueca de Gotland. Mas as causas do horror a guerra mantêm-se, Hiroshima, Afganistão, Líbano,Síria, Iraque, Vietname, Yugoslávia, Sudão, Somália, Ruanda, Ucrânia ... Palestina.

Churchill apelava sistematicamente à guerra, considerava Benjamin Britten como traidor. Aplaudo o Requiem da Guerra, com poemas de Wilfred Owen, que começou por acreditar na guerra, e morreu no último ano da I Grande Guerra.

Graças ao jornal espanhol diario.es

https://1drv.ms/w/c/1ebc954ed8ae7f5f/Efe-S1F-_CJDh8ADqiusC3wBxCuadUeL3fWYhGC6bFTnPA?e=eQeGMi

conheci o poema do poeta palestino Mahmoud Darwish, que reproduzo a partir da tradução para espanhol de Luz Gómez Garcia:



Nesta terra há algo
que vale a pena viver:
a indecisão de Abril,
o cheiro do pão ao amanhecer,
as opiniões de uma mulher sobre os homens,
os escritos de Ésquilo,
as primícias do amor,
a erva nas pedras,
as mães erguidas num som de flauta
e o medo que as memórias inspiram nos invasores.

Nesta terra há algo que merece viver:
o final de setembro,
uma senhora que entra,
com todo o seu frescor, no refúgio,
a hora do sol na prisão,
uma nuvem que imita um grupo de animais,
as aclamações de um povo que. sorrindo, elevam à morte,
e o medo que as canções inspiram nos tiranos.

Nesta terra há algo que merece viver:
nesta terra está a senhora da terra,
a mãe dos começos,
a mãe dos finais.

Chamava-se Palestina.
Ainda se chama Palestina.

Senhora: 
Eu mereço,
porque tu és senhora de mim,
eu mereço viver.