https://www.publico.pt/autor/samuel-alemao
“A ferrovia deixou de ser apenas um modo de transporte. Hoje é um instrumento de política climática, um fator de competitividade económica e um elemento central da coesão territorial.”"
https://www.publico.pt/autor/samuel-alemao
Não existe informação estatística fiável sobre os riscos de utilização de bicicletas. Porque uma análise estatística correta exige conhecer o número de passageiros-km (número de utilizadores de bicicleta vezes o percurso médio dos utilizadores), ou viagens-km (assumindo 1 pessoa apenas em cada bicicleta) num período e numa zona.
Numa análise para vários modos de transporte, a DG MOVE publicou em 2012 o statistical pocketbook
|
modo |
Vítimas mortais por 1000 Mpass-km |
|
avião |
0,10 |
|
comboio |
0,16 |
|
autocarro |
0,43 |
|
automóvel |
4,45 |
|
duas rodas |
52,59 |
Estes valores carecem de ser atualizados e desagregados (separando trotinetas, bicicletas, motorizadas e motos), o que a DG MOVE não parece ter feito, publicando relatórios de sinistralidade com as estatísticas de acidentes na ferrovia e nas estradas como já mostrado na 1ª carta aberta em https://transport.ec.europa.eu/background/road-safety-statistics-2025_en de que destaco aqui o quadro de vítimas mortais nas estradas da UE em 2024 por modo de transporte:
Supondo que o número de deslocações diárias é igual ao da população vezes um fator de cerca de 1,7, e que nesta última ligação se estima na sequência de sondagens a percentagem de população que utiliza a bicicleta e com que periodicidade e extensão o faz (3km diários 2 vezes por semana), construí a seguinte tabela, reiterando tratar-se de hipóteses não confirmadas (o que sugere a necessidade das instituições comunitárias e nacionais melhorarem o tratamento estatístico da utilização dos modos de transporte ditos suaves):
|
País |
População M |
Utilizadores de bicicleta M |
MKm/ano todos utilizadores |
Nº anual vítimas mortais em bicicleta |
Vítimas mortais em
bicicleta/1000Mpass-km
|
|
NL |
18 |
12 |
3600 |
168 |
47 |
|
SE |
9,5 |
3 |
900 |
23 |
25 |
|
DE |
63 |
30 |
9000 |
445 |
49 |
|
DK |
4,7 |
3 |
900 |
22 |
24 |
|
PT |
10 |
2 |
600 |
33 |
55 |
número de vítimas mortais (VMs) em bicicletas por país retirado de https://road-safety.transport.ec.europa.eu/document/download/ed29ad84-b2f1-429e-97ca-2b713e7dc1b1_en?filename=ERSOnext_AnnualReport_20260323.pdf
Comparando com os valores acima do pocketbook de 2012 (valor de 4,45 VMs para o automóvel já é elevado), mais uma vez se estima para Portugal um valor nocivo intolerável. Valores graves na Holanda, contrariando a ideia divulgada da circulação neste país de bicicletas ser segura, e na Alemanha. Valores razoáveis na Suécia e na Dinamarca.
Será importante avaliar a correção destas aproximações, mas julgo que só as instancias oficiais o poderão fazer se houver vontade política para isso, em nome da defesa da segurança rodoviária e do direito das pessoas se moverem em segurança.
No caso da Holanda, considerando 5 milhões de ciclistas com um percurso diário de 5 km em 300 dias por ano teríamos 5 x 5 x 300 = 7500 Mpass-km por ano, o que daria 23 VMs por 1000 Mpass-km, valor razoável comparativamente mas ainda grave segundo o pocketbook de 2012.
O crescimento da utilização dos 2 rodas exige que se façam sondagens e estatísticas rigorosas.
Sentidas condolencias aos familiares e amigos.
Portugal foi o pior país da União Europeia em 2024 com 6 mortes na ferrovia por 1000 km de rede ferroviária (total 20 vítimas mortais) para uma média europeia de 3 or 1000 km de rede. https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Railway_safety_statistics_in_the_EU
Estes números não incluem suicídios, que em Portugal em 2024 atingiram 17 (entretanto foi criado o número de apoio 1411 mas não é divulgado em campanhas de sensibilização).
Atropelado pelo Alfa na passagem de nível do Loreto, a cerca de 1.100m a norte da estação de Coimbra, faleceu um peregrino integrado num grupo de cerca de 50 pessoas. Algumas das quais já tinham atravessado as vias quando as cancelas baixaram e os sinais acústicos começaram.
Sim, eu sei, os dispositivos de proteção estavam a funcionar conforme projetados. E também decorre presentemente um programa de eliminação de passagens de nível. Mas não existe campanha de sensibilização para os comportamentos positivos (ou a serem imitados) obrigatória para os canais de televisão nem obtenção significativa de financiamento comunitário. Tampouco se divulgam as circunstancias dos acidentes e o que deveria ter sido feito para evitar as vítimas mortais.
Pessoalmente, considero que a exploração de comboios a velocidades da ordem de 160 km/h e 200 km/h é incompatível com a existencia de passagens de nível. No caso de Loreto, estimei para distancias de visibilidade às curvas mais próximas 170m para o percurso ascendente e 480m para o descendente. Isso significa que o comboio atinge a passagem de nível depois de ser visto no percurso ascendente em 4s para 160km/h e em 3s para 200km/h. No caso do percurso descendente o comboio atingirá a PN em 10s ou em 8s, respetivamente. A travessia da PN por um peão a 3,5 km/h demorará cerca de 10s (mesmo fora das vias estará sujeito ao efeito de sucção) . Mesmo que se aumente o tempo de aviso continuará a existir risco com ou sem desobediencia aos sinais.
Em resumo, impõe-se o desenvolvimento de campanhas de sensibilização pela positiva e reforço do financiamento e da capacidade de execução da eliminação das PNs. Assunto a mercer a atenção da comunicação social.
![]() |
| vista em planta da PN de Loreto, N para a esquerda |
![]() |
| vista para a aproximação do percurso ascendente |
![]() |
| vista para a aproximação do percurso descendente |
Exmo Senhor ministro
Como referido na primeira carta aberta desta série, as disciplinas de análise de riscos e de engenharia de transportes têm como finalidade avaliar as causas e circunstancias dos acidentes e propor recomendações para os evitar.
Recordo a morte por atropelamento de Flávia Vasconcelos em outubro de 2025 como exemplo para propor uma alteração do código da Estrada :
https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/10/morte-por-aropelamento-de-flavia.html
O acidente deu-se numa passadeira de peões que a vítima atravessava a correr depois de um automóvel ter parado na via esquerda sendo ultrapasado por outro na via direita que, por falta de visibilidade mútua, colheu mortalmente a vítima.
O que parece conveniente neste caso é promover rapidamente uma alteração do Código no sentido de proibir taxativamente a ultrapassagem e obrigar ao stop se outro carro estiver parado imediatamente antes das passagens de peões, especialmente havendo mais do que uma via, dado que um automóvel parado antes da passagem pode ocultar o peão que atravessa.
Parece também importante impor o limite de 30km/h ao atravessamento de uma passagem de peões pelos veículos (automóveis, biciletas, trotinetas, etc), uma vez que a atual redação do Código parece insuficiente (determina redução da velocidade à aproximação da passagem de peões sem quantificar).
Aporia
Responde-me, Theodor
E depois de Homs, de Gaza, de Sbrenica, de Bucha,
Será possível
existir?
Theodor, a
humanidade deste lado ocidental da Terra
É bárbara,
estúpida e exibe traços perturbantes de sociopatia
A Poesia,
essa talvez seja possível
Já a existência,
essa não creio
A Poesia
depois de todos os horrores
durante todas
as matanças
pode até ser
a finta possível
Desenhar numa
bonita letra manhãs claras entre holocaustos,
Holocaustos,
Theodor, no plural, o mal nunca é singular
O Deus
coisa que colocámos no altar
não nos
quer com memória
Quer-nos bêbados
de presente
E sem
memória não saberemos reconhecer pelo cheiro
o leite
negro da madrugada
E voltaremos
a bebê-lo de manhã, ao entardecer e à noite
E a beber e
a beber seguiremos enquanto coisas
Coisas de
valor relativo
Cotadas numa
bolsa que é uma algália na cintura dos acumuladores
Somos agora
coisas, apenas coisas, Theodor
O Espírito
limpa-se em sessões de desintoxicação pagas em moeda
Ninguém quer
essa excrecência
Há-de
tornar-se tão inútil
Como os
restos da cauda do primata escondidos no fundo do cóccix
Não, não
foi a Poesia a tornar-se impossível, Theodor
Foi o Espírito quem não conseguiu fugir à morte
Rita Tormenta, 2024
Aporia, dúvida, hesitação perante a possibilidade de duas conclusões opostas
https://www.rtp.pt/play/p1109/e927096/a-vida-breve
https://pt.wikipedia.org/wiki/Theodor_W._Adorno
https://pt.wikipedia.org/wiki/Aporia
Tell me, Theodor!
Aporia, 2024
Com base
nos números da DG MOVE (Direção de Mobilidade da Comissão Europeia) de vítimas
mortais a 30 dias em colisões com outros veículos ou despistes, tivemos em 2025
na UE:
Peões
3560
-
Trotinetas
148
45% das quais em despistes
Ciclistas
1819
27% das quais em despistes
Motorizadas e motos
4162
36% das quais em despistes
Autos ligeiros
8712
44% das quais em despistes
Estes
números são suficientes para dizer que a estratégia zero mortes está ainda
muito longe da realidade, sendo que afinal a causa despiste é significativa,
isto é, não pode desprezar-se o risco de acidentes por tipo de veículo isolado.
Isso é particularmente importante nas trotinetas e nos automóveis ligeiros. Num
caso por dificuldade de controle, noutro por desadaptação à infraestrutura, nos
dois casos por excesso de velocidade ou distração
Seguimento de: https://fcsseratostenes.blogspot.com/2026/04/ponto-de-situacao-em-9-de-abril-de-2026.html