domingo, 19 de abril de 2026

Mortes na estrada em 17 e 18abr2026

 O objetivo deste texto é o de propor medidas adicionais às que o senhor ministro da Administração Interna tem vindo a propor para redução da sinistralidade. Refiro em seguida as vítimas mortais de acidentes em 16 e 17 de abril.

1 - Morte de dois trabalhadores na CRIL ao km10,4 no sentido Sacavém-Algés, perto das 3:00 da madrugada de sexta feira em conseuencia de colisão de um ligeiro comercial com a viatura das vítimas, parada na berma, em trabalhos de reparação da via. Aparentemente terá sido um caso de excesso de velocidade e perda de controle, por exemplo, por sonolencia. O acidente terá ocorrido a seguir a uma curva, ignorando-se se a viatura dos trabalhos estava sinalizada com antecedencia e se o condutor  causador estava em condições para conduzir. São circunstâncias que devem ser objeto de tratamento em campanhas de sensibilização de transmissão obrigatória em todos os canais e mostrando principalmente os comportamenots positivos para suscitar a normalidade da imitação.

assinalado o local do acidente ao  km 10,4 a cerca de 900m para poente do Strada Outlet

vista da aproximação a 300m do local do acidente


2 - morte de uma jovem de 25 anos em passeio com um grupo de amigos em trotinetas, no entroncamento da rua da Firmeza com a rua Santos Pousada, no Porto, pouco depois das 00:00 de 18 de abril, sábado.  A morte foi consequencia de queda após choque com uma das trotinetas do grupo, que terá travado à aproximação do entroncamento. Nenhum dos participantes usava capacete de segurança, cuja obrigatoriedade foi retirada do Código da Estrada em dezembro de 2018 pelo então secretário da Administração Interna para não prejudicar o mercado das trotinetas. Presumivelmente terá havido excesso de velocidade considerando a aproximação de um entroncamento sem visibilidade, acrescendo a hipótese se a circulação se fazia pela rua da Firmeza, estar a ser feita contra o sentido obrigatório neste troço da rua da Firmeza (a outra hipótese seria, vindos da rua Santos Pousada, ter havido uma atrapalhação ao pretender-se virar para a rua da Firmeza) . São evidentemente circunstancias a tratar nas campanhas de sensibilização, especialmente orientadas para os jovens, mais uma vez desejavelmente com exibição de comportamenttos positivos. Neste caso, chamando a atenção que a distancia entre dois veículos, sejam quais forem, deve ser equivalente à percorrida na velocidade em causa num tempo igual ao tempo de reação e atuação da travagem de 2 segundos, isto é,  distancia = tempo em s  x velocidade em m/s  ou  = tempo em s  x  velocidade em km/h a dividir por 3,6


vista da rua de Santos Pousada a partir da rua da Firmeza


vista da rua de Santos Pousada a partir da rua da Firmeza




aproximaçao da rua da Firmeza vindo da rua Santos Pousada



É importante referir alguns dados da estatística de acidentes rodoviários de 2025 da União Europeia, em que Portugal ocupa o 5º pior resultado em vítimas mortais a 30 dias com 55 vítimas mortais por milhão de habitantes  (média da UE 43 ; pior país Roménia com 68). Isto prova a necessidade das campanhas de sensibilização para que se reduza a exposição aos riscos e se contrarie a ideia que a liberdade é ter o comportamento que se quer sem considerar o risco para o próximo.
O quadro seguinte mostra a matriz de colisões de tipos de veículos e de peões com outros veículos em toda a UE. Destaca-se o volume de vítimas mortais entre peões, motorizadas e motos, e autos ligeiros. Julgo que a modéstia dos números de vítimas mortais nas trotinetas e ciclistas decorrerá da menor quilometragem. De notar a elevada percentagem de despistes.




Informação sobre a estatística da UE em                                        https://transport.ec.europa.eu/background/road-safety-statistics-2025_en




     






A propósito da proposta de alargamento dos limites para o visto prévio do TdC

 Comentário enviado ao autor do artigo https://www.publico.pt/2026/04/16/opiniao/opiniao/governo-afinal-governa-2171367


Caro Manuel Carvalho

Surpreendeu-me o seu elogio ao governo.
Em 36 anos de vida profissional no metro tive dois contactos com o Tdc e um com os advogados que fizeram o código da contratação pública. Do TdC tive um dia inteiro com dois procuradores que procuravam falhas minhas no processo de expansão de Entrecampos para o Campo Grande (quando um longo relatório foi publicado sobre outros casos no metro, nada vinha sobre mim) e uma grande desilusão quando o TdC pôs o seu, dele, visto ao contrato da linha circular 1 mês depois da lei 2/2020 da AR que não era uma recomendação, era uma lei que mandava suspender a construção da linha circular; afinal o TdC não empata as iniciativas do governo, especialmente se elas são um disparate. A propósito, também me surpreendi por concordar com uma coisa que Leitão Amaro disse, que ideia ir fazer uma linha circular no centro da cidade a 200 milhões por km (houve quem avisasse que ia sair mais caro do que em zonas melhores) quando há ainda tantas áreas periféricas a ver passar autocarros e automóveis... será que leu alguns escritos meus que ninguém lê?
Dos advogados do CCP estive também um dia inteiro, com os meus colegas, na sessão de propaganda dos seus autores junto das empresas públicas. Infelizmente, apenas 2 colegas e eu próprio propuseram alterações (então falava-se pouco em consultas públicas, embora já hoje a doutrina oficial é que questões técnicas de engenharia são irrelevantes, foi o adjetivo que recebi na apreciação a uma das consultas em que enviei contributos, não admira que os erros técnicos se acumulem, e não será por causa do TdC). Propus uma medida para acelerar os processos de concurso, mas respondeu-me o senhor advogado que não podia ser porque tinhamos de ser razoáveis. Isto é, quem tem experiencia de concursos públicos sobre temas técnicos não é razoável, e quem faz as leis sem ter experiência da obra na frente de trabalho  é-o.
Entretanto, longe vão os tempos em que uma portaria eliminava liminarmente a proposta mais baixa (agora, recupera-se depois nos trabalhos a mais).
Difícil, muito difícil provar que houve compadrio num negócio (cronycapitalism), então alargando os limites ... estava eu calmamente na pausa do café quando telefonou um senhor da administração para o meu colega. "Então quando é que despachas aquele assunto?" (acho que era qualquer coisa relacionada com caixas de robalos, não sei, nem podia provar nada em tribunal se fosse chamado. Só sei que a única hipótese é nós, técnicos, aplicarmos os princípios da deontologia profissional, aliás como em qualquer profissão, exigindo a ordem por escrito.
Enfim, são agora os tempos da vivacidade das espículas vivissimas, experientes nos passeios empreendedores à beira-mar azul, férteis em recursos como Ulisses e hábeis em encurtar a distância entre a realidade e as perceções. 

Com os melhores cumprimentos



PS 1 - a propósito do comentário sobre o debate, terei lido mal interpretando "ou" como inclusivo, ou (exclusivo) terá sido influência de Oriana Fallaci? quando escreve "crimes que decorrem de um combate contra ... o radicalismo ...do PCP está a validar aquela parte do relatório das sevícias do 25 de novembro que dizia que um dirigente do PCP tinha sido visto numa paragem de autocarros do Campo Grande, e (inclusivo) esquecendo aquela ordem "deixem sair os chaimites do Jaime Neves", correndo o risco de estar a explicar os assaltos e assassínios nas sedes na região militar de Pires Veloso?

PS 2 - já que falei na linha circular, segue em anexo uma pequena análise da problemática  da mobilidade na AML         https://1drv.ms/w/c/1ebc954ed8ae7f5f/IQC1Wq77cvVVQKkRQT0-fhr7AWfMeZGu1r2JeFYhi0x3N5k?e=SJByVR



quinta-feira, 9 de abril de 2026

Ponto de situação em 9 de abril de 2026 da investigação ao acidente de Adamuz

 

Notícias em 9 de abril de 2026 com base numa informação da Guardia Civil remetida à juíza do processo:




Duma maneira geral, a causa do acidente parece não oferecer dúvidas, fratura do carril numa zona de soldadura adjacente a uma aparelho de mudança de via (AMV). Decorrendo o inquérito técnico da CIAF, por entre dificuldades de coordenação com a juiza e a ADIF (retirada apressada de elementos e destroços no local para repor a circulação, indefinições no acesso ás caixas negras), espera-se que as circunsutancoas que contribuiram para o acidentes sejam determinadas com o mínimo de incertezas.
Para mim a circunstancia mais conribuinte para o desastre é a presença do AMV de ponta. Não parece haver dúvidas que depois da fratura inicial dum pedaço da alma do carril e do deitar de lado de um troço  de carril imediatamente antes da ponta do AMV (não está ainda esclarecido exatamente o movimento de oscilação lateral que terá levado a esse deitar de lado), sobreveio o descarrilamento das 3 ultimas carrugens, com alguns bogies desviados pela lança curva do AMV para a via contrária. Pessoalmente, considero que a presença de um AMV de ponta num troço de Alta Velocidade (AV) é um erro de projeto. Adamuz é uma estação técnica que deveria ter um resguardo acessível apenas por um desvio em sentido contrário ao normal, isto é, por um AMV de talão. 
Outras circunstancias associadas ou não à presença do AMV de ponta:
1 - provável falha na verificação da qualidade da soldadura. Havendo excesso de temperatura, o aço fragiliza, circunstancia que pode agravar-se com:
1.1 - variações acentuadas da temperatura ambiente (o que foi o caso com temperaturas noturnas muito baixas) induzindo contrações e dilatações sucessivas fragilizando a soldadura (já há gestores de infraestruturas a isolar termicamente troços de carril, para além das medidas contra a neve)
2 - provável falha nas rotinas de compactação do balastro eventualmente abatido com as chuvadas
(curiosamente, tivemos pocos dias antes, em janeiro, entre as estações de Entrecampos e Areeiro da rede suburbana, uma  fratura da alma do carril junto de um AMV com a forma semelhante à da fratura de Adamuz, com provável origem nas circunstancias 1.1 e 2)
3 - ultrapassagem da tonelagem pela passagem de n comboios , suportada pelos carris e pelas soldaduras
4 - composição química dos carris não adequada ou diferente entre troços antigos e renovados
5 - não utilização de leito de via betonado
6 - não utilização de "fish-plates" ou placas de união por fixação na alma do carril parafusos nas soldaduras
7 - não utilização de encarriladores (prática sistemática nos inícios das pontes) antes das pontas do AMV
8 - provável falha nas rotinas de manutenção preventiva, realizadas sem especial atenção aos AMVs  a cargo das inspeções dos comboios especiais de inspeção por ultra-sons
9 - ausencia nos comboios de AV  de sensores automáticos, com transmissão telemática para um centro de controle, de vibrações anormais indiciando por deteção de análise algoritmica, fraturas ou anomalias do carril
10 -  imprecisa deteção de fratura de carril por sensores instalados na via conforme referido na notícia do el Mundo de 9abr2026 com base no relatorio da Guardia  Civil de 28mar2026 enviado à juiza do processo (a notícia refere que na véspera do acidente houve uma quebra da tensão contínua de monitorização que poderia ter origem em fratura do carril, mas não esclarece se essa quebra foi transitória ou intermitente)

Relativamente à circunstância 10, ignoro se o sistema de monitorização da via, de fabrico Hitachi Rail GTS cobre toda a rede ou apenas locais como AMVs, e se tem fiabilidade para detetar a fratura do carril. A informação disponível é que injeta no carril uma tensão que leva a uma leitura de 1,5V que terá baixado para 0,78V mas sem indicar de forma permanente ou transitória. Será um sistema equivalente aos antigos circuitos de via, que dividiam a linha e davam aos semáforos as condiçoes de via ocupada ou via livre consoante valor da tensão baixo ou alto, mas não me parece muito fiável e só eficaz em pequenos troços . Assunto a esclarecer e especialmente a incluir nas especificações de qualquer sistema AV (em alternativa imposição aos operadores que o seu material circulante terá de ter sensores de fratura de carril) porque o sistema ERTMS (com Eurobalizas ou radio), tal como o sistema LZB (cabo estendido no eixo da via independente dos carris,  em serviço na linha de AV Madrid-Sevilha para controle e ATP) não inclui a monitorização da continuidade dos carris. Ver 


Notícias anteriores:


Informação sobre detetores de carril partido:

PS em 11abr2026 - O sistema de deteção de carril partido instalado em Adamuz não transmitia a informação para a central de operações da linha Madrid-Sevilha, mas para uma central técnica em Cordova.  Era portanto utilizado nas açoes de manutenção e não na transmissão em tempo real pasra  acentral de operações. O ERTMS não deteta fratura de carril contrariamente à tecnologia clássica dos circuitos de via que alimentavam os sinais laterais. Circunstancia a ter em conta na elaboração dos cadernos de encargos para  as linhas de AV.




quarta-feira, 8 de abril de 2026

As posições oficiais perante acidentes rodoviários ou ferroviários, em Portugal e na França

 

Peço desculpa por escrever "a quente" sujeitando-me a fazer afirmações precipitadas. No entanto, penso que devo fazê-las na esperança de que a comunicação social não deixe morrer os assuntos que são de natreza pública. Escrevo com indignação porque Portugal tem dos piores níveis de sinistralidade rodoviária e ferroviária. Vítimas mortais por milhão de habitantes na estrada em 2025: média na EU 44, em Portugal 58 . Vítimas mortais na ferrovia por mil km em 2023: média na EU 2,6, em Portugal 6 .
Por isso, apesar da bem intencionada intervenção do senhor ministro da Administração Interna apelando à prudencia na condução, não posso concordar com o lavar de mãos sob a forma duma "falha coletiva". escondendo a inação dos sucessivos governos, por exemplo na revisão do Código da Estrada e na fiscalização de velocidades excessivas.
A minha indignação é também porque os senhores governantes dos outros países também se desculpam com as falhas das vítimas. Escrevo também impressionado pelo acidente de hoje, 7 de abril, colisão de um TGV com o reboque de um camião de transporte de uma peça de uma ponte militar. O comboio era de facto um TGV mas a linha era regional, isto é, os projetistas cometeram o erro de pôr comboios de caraterísticas dinâmicas diferentes utilizando a mesma linha em simultaneidade, além de que um TGV mesmo a 160km/h é incompatível com a existencia de passagens de nível por razões de segurança. Apressaram-se "as autoridades" a dizer que a passagem de nível funcionava normalmente e que as cancelas estavam baixadas. Não é esse o relato do motorista do camião, parou quando as cancelas estavam baixadas e viu passar um comboio regional. As cancelas subiram e ele arrancou. Imediatamente a seguir as cancelas baixaram e o TGV apanhou o reboque. Há fotos que comprovam que as cancelas mais próximas da posição de arranque do camião estão levantadas, tendo ele batido nas cancelas opostas. Evidentemente que isto tem de ser confirmado pelo inquérito, mas é indigno virem a correr "as autoridades" dizer que a culpa é das vítimas, acusando o motorista do camião de homicídio involuntário. Um relatório da ERA (Agencia europeia ferroviária) de 2024 diz que 2% dos acidentes em passagens de nível não estavam relacionados com o comportamento das vítimas. 

É indigno levantar um processo por homicídio involuntário sem que o inquérito descubra primeiro as reais circunstâncias do acidente. É indigno continuarem a existir tantas passagens de nível e tantos acidentes atribuindo as culpas apenas ao comportamento das vítimas e não aos governos e aos gestores das infraestruturas. Segundo a SNCF em 2024 foram 89 acidentes em passagens de nível com 20 mortos. Ainda em 25mar2026 tinha havido uma colisão de um regional com um camião transportando no reboque uma cabana para campismo, com a morte do condutor do camião em Saint-Raphael, uma cidade turística perto de Cannes.

Em Portugal decorre , como aliás em França, um plano de eliminação de passagens de nível. Veremos se eles são executados e com que velocidade. 

Os tráfegos devem estar segregados.

Acidente em Noeux les mines/Pas de Calais

semi-barreira mais próxima da posição de arranque do camião levantada (lado direito do camião), isto é, não terá sido percutida


semi-barreira do lado esquerdo do camião levantada; ausencia de vestígios da semi-barreira mais afastada da posição de arranque do camião, indício de ter sido percutida


localização de Noeux les Mines
localização da passagem de nível do acidente







Acidente em Saint Raphael/Var                                                                                            https://www.franceinfo.fr/var/les-conducteurs-se-retrouvent-pieges-une-faille-du-passage-a-niveau-est-elle-la-cause-de-la-collision-mortelle-dans-le-var_7894079.html 



Vista da passagem de nível de Saint Raphael com indicação de lomba


Localização da passagem de nível em Saint Raphael em zona turística










sábado, 4 de abril de 2026

Continua a discussão sobre a bitola

No programa da RTP2 Passagem de nível de 27mar2026   https://www.rtp.pt/play/p16147/e918163/passagem-de-nivel          em que se analisou a falência das ligações ferroviárias a Espanha, o responsável da Captrain, de transporte de mercadorias, afirmou que a discussão sobre a bitola abafa a importancia dos outros componentes da interoperabilidade através das fronteiras, como a diferença da tensão elétrica (25kVAC em Portugal, como na Europa, e 3kVDC nas linhas convencionais de Espanha, com a agravante da maioria da rede espanhola de mercadorias não estar eletrificada sequer). Na verdade não devia ser assim, a discussão não devia ser sobre a bitola, apenas sobre a bitola, deveria ser sobre a interoperabilidade, a capacidade de uma nova rede ferroviária portuguesa se interligar com a rede europeia TEN-T, de acordo com a regulamento europeu 2024/1679. Essa ligação terá de ser feita através da rede espanhola com as mesmas características da rede europeia de modo a não introduzir descontinuidades na passagem das fronteiras espanhola e francesa. Tem de se acelerar a adoção do sistema de sinalização e controle ERTMS (continuo a discordar da opção pelo STM, destinado a equipar novo material circulante equipado com ERTMS para poder circular em linhas convencionais equipadas com o CONVEL, quando a regulamentação europeia determinou a desativação dos sistemas B até 2040) sem o que a locomotiva espanhola não poderá entrar na rede nacional. Outro problema é a certificação dos maquinistas e do conhecimento de linguas.

Mas nós, portugueses, gostamos de reduzir qualquer problema global à discussão de um componente, para cada grupo valorizar ou desvalorizar esse componente. Deveríamos esttar a discutir como coordenar com Espanha a ligação à Europa, para estimular as nossas exportações de bens e a transferência de carga rodoviária de longo curso para a ferrovia. Para isso deveria ser aprovado pelos dois países um programa com datas bem definidas de aproximação da bitola europeia e restantes coomponentes da interoperabilidade até aos portos portugueses. Tentei em vão estimular essa discussão quando em maio de 2025 apresentei uma comunicação no 11ºcongresso rodoferroviário português        https://11crp.crp.pt/wp-content/uploads/2025/06/11_CRP_paper_22.pdf                  de que reproduzo um gráfico com uma proposta de calendarização dessa aproximação:


Do lado oficial, do governo e da IP, insiste-se em adiar o mais possível a construção de linhas em bitola europeia e em aproveitar o atraso espanhol na construção de linhas de bitola europeia também para mercadorias (apenas se prevê a ligação da fronteira francesa a Vitoria  no Y basco e a Valencia no corredor mediterrânico antes de 2030).

Por isso o vice presidente da IP na Comissão de Mobilidade e Transportes da Assembleia da República, em 31mar2026, anunciou que iria pedir à CE o adiamento do prazo de introdução da bitola europeia para 2040:     https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/transportes/detalhe/ip-vai-continuar-a-construir-alta-velocidade-em-bitola-iberica-e-ate-2040-reavaliamos

https://canal.parlamento.pt/cid/9296/audicao-ip-infraestruturas-de-portugal


 Em síntese, a posição do eng Carlos Fernandes e da IP é a de construir as linhas de Alta Velocidsde em bitola ibérica e adiar para 2040 a avaliação da eventual mudança para bitola europeia, o que, considerando os tempos de projeto ao da colocação em serviço equivale a um adiamento sine die.

Efetivamente, a redação do artigo 17 do regulamento 1679 pode induzir em erro o leitor e deixar-se influenciar pela insistencia do eng Carlos Fernandes em falar em "migração", com origem no termo em inglês. 
Ficámos a saber que o prazo do pedido de derrogação do art.17.1 ou isenção da bitola europeia nas novas linhas de construção ainda não iniciada (caso de Porto-Oiã) foi 2040. Parece muito forçado um prazo destes quando o art.17.5 fala em isenção temporária e pedido acompanhado do parecer do estado membro vizinho e 6 meses para a Comissão responder ao pedido.

Em síntese do art.17 do regulamento 1679 - Bitola europeia standard para a ferrovia:
17.1 - bitola UIC até 31dez2030 se construção de nova linha da rede “core” iniciada depois de jul2024
17.2 – permitida a não construção em bitola UIC de uma nova linha que não esteja planeada em jul2024 mediante uma ACB (análise socioeconómica de custos benefícios) negativa a realizar até jul2026; não aplicável em Portugal por já estarem planeadas todas as ligações a Espanha
17.3 - aplicável apenas ao troço Évora-Caia por estar integrado num corredor europeu e não ter bitola UIC; avaliação coordenada com Espanha até jul2026 para migração da bitola ibérica para UIC incluindo ACB e avaliação do impacto na interoperabilidade; elaboração do plano de migração até jul2027.(Nota: bate certo com a implementing decision de 30out2025)
17.5 – para linhas novas (com início de construção após jul2024 ), possível isenção de cumprimento da bitola UIC, mas sempre temporária, dependente de ACB negativa  e coordenada com Espanha, duvidando-se que uma isenção por 10 anos seja aceite pela Comissão. Esta deverá responder ao pedido em 6 meses,       ( Nota: mas quando fez a IP o pedido? inclui o  parecer de Espanha? nada no art.17.5 diz que a ACB deve ter um prazo, isto é, a IP quer um adiamento sine die)
Comentários a algumas frases entre aspas do eng Carlos Fernandes:
1 -  "todos os padrões (da interoperabilidade) quando um dia se justificar" - o calendário do regulamento 1679 já é uma justificação
2 - "temos de construir em bitola ibérica e no fim em 2040 reavaliamos" - isto quer dizer que  ignoram o calendário do regulamento 1679 (core 2030, extended core 2040 e comprehensive 2050, tendo já havido uma implementing decision para 2034 em vez de 2030 para a LAV Lisboa-Madrid)
3 -  “está previsto no regulamento que obriga a que os países que tenham uma bitola diferente tenham que apresentar um estudo sobre a sua rede" -  não, o que o art.17.2 diz em inglês é que só permite a construção de uma nova linha em bitola não UIC se em jul2024  não estiver planeada para ligação transfronteiriça (ora, as ligações fronteiriças já estavam planeadas no regulamento 1679 -  não confundir com a tradução enviesada e tendenciosa para português, que traduziu por novas linhas que em jul2024 ainda não tinham um plano de construção, isto é, se as linhas estão planeadas, não há que fazer ACB para avaliar se se "migra" ou não; só ao troço Évora-Caia por estar em construção, é aplicável o art.17.3 e a ACB para avaliar quando muda para UIC conforme a implementing decision de 30out2025)
4 - "estamos a avaliar, em grande articulação com Espanha" - não se deduz das declarações do coordenador do corredor atlantico espanhol, Sebastian Ruiz, nem dos relatos das cimeiras luso-espanholas existir essa grande articulação, mas seria desejável que a existir, fossem divulgados os pormenores. Confirma-se o prazo jul2026 para entrega do estudo mas segundo o art.17.3 só é aplicável ao Évora-Caia por já estar em construção e não ao resto da LAV Lisboa-Évora por já estar planeada)
5 - linha Lisboa-Porto. “O regulamento que saiu obriga nas linhas novas a que que país apresente uma análise custo- benefício que possa justificar uma derrogação dessa obrigação”. “Portugal está a fazer essa análise e, com parte da linha construída, não faz sentido migrar" - não, não há linha construida Porto-Oiã, e o que a anterior comissária disse foi que independentemente da construção, em 2030 a bitola devia ser UIC
6 - " não tem sentido nesta fase criar um troço de 70 quilómetros em bitola europeia que a nada se ligava” - o que tem sentido é acelerar a construção dos troços de acordo com os padrões europeus para obter financiamento com o Rail Baltica, e preparar esquemas de transbordo como em qualquer obra extensa
7 -"não há nenhuma linha espanhola prevista para se ligar a Portugal em bitola UIC" - é o próprio regulamento 1679 e a implementing decision que prevêem, tem é de ser coordenado com Espanha em vez do governo português andar sempre a pedir adiamentos
8 - “o que Espanha está a fazer é que a parte final das linhas que está a construir é em bitola ibérica para poder ir as cidades” - esta afirmação não corresponde à verdade, ainda recentemente Espanha adjudicou o estudo da ligação Talayuela/Oropesa a Madrid integrante da LAV Lx-Mad em bitola UIC. Idem para Sevilha-Huelva. Idem para Valencia-Barcelona.
9 - "quem saia da alta velocidade em Campanhã tenha mais de 200 destinos que pode ir de comboio" - transbordos bem dimensionados evitariam o monopólio da bitola ibérica. Além disso, o padrão europeu é novas linhas serem de via dupla para tráfego misto, o que obriga a pendentes (inclinação das linhas) inferiores às que estão no projeto Porto-Oiã
10 - “Quando tivermos a linha toda construída  e estiver prevista a linha em bitola europeia a ligar-se à linha portuguesa, o que não está neste momento previsto”  -                    compreendemos as razões por que a IP queira fugir ao cumprimento do art.17 do regulamento 1679 e do art.2.3 da "implementing decision" transformando uma isenção temporária em 14 anos de diferimento (até 2040) e ignorando as dificuldades  para  a continuidade do serviço com a transição da bitola com travessas de dupla fixação, mas na realidade deve interpretar-se, sem subterfúgios para contrariar a regulamentação da coesão e interoperabilidade europeia, o art.2.3 da "implementing decision" para, o mais tardar, ter a LAV Lx-Mad em bitola UIC em 2034, até para evitar (no que seria mais um incumprimento das diretivas europeias) o monopólio da Talgo em comboios de eixos variáveis. No caso da LAV Lx-Por  o que está previsto neste momento, no regulamento 1679, é 2030 (embora se duvide, face à oposição da IP e ao suporte oficial, que tal venha a ser possível).
art.2.3:       (a)   each, Portugal and Spain, develop by the end of 2027 a coordinated plan for deploying the European standard nominal track gauge of 1 435 mm on the high-speed line between Lisbon and Madrid , in accordance with Article 17 of Regulation (EU) 2024/1679                                                (b) coordinate and complete the track gauge migration between Lisbon and Madrid in accordance with the plan referred in point (a) and in conformity with Regulation (EU) 2024/1679.