sexta-feira, 22 de maio de 2026

Comentários a vários artigos

 

https://www.publico.pt/autor/samuel-alemao

Caro Samuel Alemão

Cumprimento-o pela sua produtividade e pela pertinência dos seus artigos.
Infelizmente os decisores sentem-se muito acima das questões levantadas e consideram explicitamente como não relevantes os argumentos que lhes são contrários.
Mas isso não impede alguns comentários.
1 - horário noturno do metro - como muito bem refere, o próprio metro diz que o intervalo noturno é essencial para a manutenção. E a manutenção, acrescento eu com base na experiência, é essencial para a segurança. Ainda recentemente houve um descarrilamento em Alvalade no início da exploração porque durante a noite uma intervenção mal planeada ou executada por quem não tinha preparação para isso escavacou um aparelho de mudança de via (seria outsourcing? não consegui saber com o muro de ocultação, embora saiba que os quadros de pessoal da manutenção de via têm sido barbaramente reduzidos  com critérios economicistas, ou armadilha da poupança imediata - vamos poupar agora o que for possível com a redução dos gastos com o pessoal para pagar depois o que for preciso com os custos dos acidentes provocados por falta de manutenção) e com as pressas para repôr a circulação o pessoal da sinalização mandou avançar um comboio quando outro aparelho de mudança de via não estava em condições de segurança. Entretanto houve outro descarrilamento num término, sem passageiros, mas prometi ao meu colega ainda no ativo não falar em pormenores.  
Neste momento mantem-se o esquema de uma rede geral em tensão, podendo isolar-se uma ou outra linha desligando a tensão. Por exemplo, linha verde sob tensão toda a noite com circulação para o Cais do Sodré, mas as outras 3 linhas sem tensão. Só que os procedimentos de segurança impõem atrasos na colocação de barreiras e lanternas que assinalam a parte de 3ºcarril sob tensão e as partes desligadas. Isso leva tempo. Para evitar isso pode estudar-se uma rede separada de tensão (alimentações isoladas umas das outras, mas terá de se estudar a geometria do sistema e instalar encravamentos que impeçam ligações erradas). Pode fazer-se, mas ainda não se fez. E na verdade, tirando eventos excecionais (Rock in Rio por exemplo na Belavista, pôde fazer-se um fim de semana com energia toda a noite, sem esquecer que as teorias economicistas também reduziram os quadros de maquinistas e não haverá pessoal que chegue para conduzir os comboios toda a noite, assunto a esclarecer) os sistemas complementares da Carris costumam dar conta do recado, a menos que também vão faltando os motoristas. Em resumo, não se pode ter tudo, cortar nos quadros de pessoal e ter disponibilidade permanente dos meios de transporte público.
2 - inauguração da linha circular no 1ºtrimestre de 2027 -  o aumento do custo dos 5 lotes da linha circular de 210 milhões para 380 milhões (preços de 2022, não atuais) pode ter muitas "justificações", da rotura das cadeias de abastecimento às sucessivas guerras, mas como fator desencadeador oculto temos os preços artificialmente baixos na fase de concurso e recusa de dar crédito a técnicos que assumam que com esses preços a obra não poderia fazer-se (seria a palavra dum técnico com base na sua deontologia contra  o critério classificativo em que as administrações preferem privilegiar o preço baixo, embora na verdade, a lei o sugira mas não obriga; há muitos anos, pelo contrário, havia uma portaria que excluia automáticamente o preço mais baixo, mas há muito que foi desativada). Em vão vários técnicos avisaram que a obra de ligação ao Cais do Sodré era viável mas as dificuldades técnicas aconselhavam a não as fazer por serem caras e que melhor seria desenvolver ligações às periferias em vez da pequena circular (decidida em 2009 por uma senhora secretária de Estado muito convencida das suas certezas, e ignorando ilegalmente e anticonstitucionalmente porque o art.165.z atribui a competencia legislativa do ordenamento do território à AR e não ao governo,no preciso ano em que a linha circular de Londres passou a ser em espiral ou laço)  
3 - tunel rodoviário sob a Calçada de Carriche - no princípio do século XXI os decisores de Boston decidiram encher a cidade de túneis para dar vazão ao tráfego rodoviário do transporte individual. Desprezaram o transporte público ferroviário e têm agora uns belos túneis congestionados que a gasolina nos USA é barata. Pelos vistos um admirador de Boston quer fazer um tunel com uma pendente de 4,7% e 1,5 km de comprimento da base da Calçada de Carriche até a um futuro largo do Lumiar junto do cruzamento com o viaduto do eixo Norte-Sul. Depois enchem a boca com loas à mobilidade suave e à sustentabilidade ambiental em lugar de corrigir a linha circular passando-a a linha em laço (tem o inconveniente de obrigar a mais 1 ou 2 comboios em comparação com a linha circular mas tem um indice de fiabilidade superior. Em resumo, estar a privilegiar o transporte individual em vez de prolongar a linha de metro de Odivelas ao Hospital Beatriz Angelo onde deveria haver um parque dissuasor para os utilizadores da A8 vindos de Ericeira, Mafra e Malveira é um mau investimento. Mas é difícil de explicar isto aos decisores. Desculpam-se com os automóveis e autocarros elétricos, quando as leis da Física explicam que a eficiencia energética de veículos com roda de aço contra o carril (menor resistencia ao rolamento) é superior á da roda de borracha sobre o asfalto (maior resistencia ao rolamento dada a deformação do pneu). Mas é difícil explicar as leis da Física aos decisores.  
4- prolongamento da linha vermelha a Alcântara - perdido naturalmente pelos atrasos o finaciamento pelo PRR, segundo a senhora presidente, a consignação para entrada em obra será até ao fim do 1ºsemestre de 2027 esperando-se que o BEI financie, bem como o orçamento de Estado. Foi uma pena, há mais de 2 anos, o estudo de impacto ambiental não ter sido reprovado e refeito o projeto comparando o traçado escolhido com o prolongamento em viaduto por cima da linha de Cascais em Alcântara Mar como tive oportunidade de mostrar aos projetistas da COBA em 2002 quando ainda estava no ativo no metro e se começou a estudar o prolongamento para Alcântara. Apesar de pedida a apresentação dos estudos comparativos com as alternativas ao traçado escolhido, nunca foram apresentados.É inconcebível pôr uma estação de metro com a forma de barracão em cima do acesso à ponte 25 de abril roubando-lhe vias. É inaceitável um traçado com curvas e pendentes fora do normativo do próprio metro. Também não parece correto ligar a estação de metro de Alcântara a Algés e Jamor através dum BRT. Se fizessem as contas ao valor das horas perdidas pelos utilizadores devido à velocidade comercial mais baixa e pelo consumo específico por passageiro-km superior no BRT talvez vissem que compensava prolongar o metro em tunel e sempre que possível em viaduto. Mas que se há-de fazer, os decisores têm sempre razão e como está na moda o BRT ... Entretanto a assembleia municipal de Lisboa pede ao governo a revisão do tipo de linha, circulsr ou em laço. Apareceram logo uns vivaços a pedir um horário para funcionamento em círculo e outro horário para funcionamento em laço, uma espécie de partilha diferida. Foi uma alegria para nós, no metro, em 1985, quando se eliminou a mistura dos 2 ramais no Marquês de Pombal, um para Entrecampos e outro para Sete Rios. Tinham uma aparelho de mudança de via comum o que provocava a extensão da avaria num ramal ao outro ramal. Passa.se coisa parecida com esta partilha diferida circular/laço. Se o intervalo entre comboios for de 5 minutos, há tempo para o sistema proceder à mudança do aparelho e coprovar a segurança do movimento. Mas em intervalos mais curtos, digamos de 2 minutos e meio, a garantia de que o novo itinerário está feito em segurança introduzirá perturbações nos itinerários para o çaço e para o circulo. É melhor não se meterem nisso. O que está contratado coma  Siemens/Sinalização é mudar os comandos dos aparelhos de via já instalados no Campo Grande para os itinerários automáticos em circulo (Odivelas-Telheiras e Campo Grande-Alvalade-Cais Sodré-Rato-Campo Grande). Mudar o software do comando da sinalização dos aparelhos de mudança de via para a linha em laço custará, estimo eu, à volta de 10 milhões de euros, por isso o metro insiste em manter o circulo. Possivelmente uma alteração do software para a referida partilha diferida custará um pouco mais mas tem o refrido inconveniente grave para a operação (intervalos entre comboios mais elevdos no período da mudança e menor fiabilidade por suscetibilidade a avarias nos aparelhos de mudança de via.
5 - linha violeta - parece estar o metro convencido de ser possível, após a autorização da CE para mudar de subfornecedor de material circulante da CRRC chinesa (por alegaddamente beneficiar de subsídios estatais no seu país) para a PESA polaca, prosseguir com a manutenção da adjudicação à Mota Engil, renegociando o financiamento. Pessoalmente, como apreciador de David Ricardo, parece-me que subsídio estatal é também beneficiar de condições de financiamento favoráveis como a CE já tem concedido a empresas europeias, ou simplemsnte conceder isenções fiscais . Mas como digo, isto sou eu a defender as ideias de David Ricardo que não era defensor de tarifas ou coisas do género. Ou como também se costuma dizer, invocando o exemplo dos automóveis elétricos, depois não se queixem. É que, não sendo eu especialista de direito de aprovisionamentos e de contratação pública, se o fabricante do material circulante mudou, a proposta deve ser reavaliada e a sua classificação necessariament mudada uma vez que as refer^ncias da PESA, embora honoráveis, não são comparáveis com as da CRRC . E então a solução teria sido anular o concurso e fazer um novo. Só que, salvo melhor opinião, o projeto da liha violeta é ilegal porque o troço Infantado-Loures-Odivelas estava numa linha LRT prevista no PROTAML DE 2002 que ainda não foi revogado. Além de, sendo uma linha em "U" não lhe prevejo grande futuro, para mais misturado com uma estrada com movimento razoável implicando baixa velocidade comercial e com necessidde 3,5km de túneis, quando o prolongamento do metro de Odivelas ao Beatriz Angelo seriam apenas 5km de túnel, viabiizando um parque dissuasor para o TI da A8. Mas os superiores planeadores do PFN já tinham decidido, ligar a linha do Oeste na Zibreira ao Rego e a Sete Rios com destino a Setúbal pela ponte 25 de abril. Pelos vistos não aceitam a razão de ser dos metros, a ferrovia duma área metropolitana. Trata-se de alinhar em mais uma moda, a das ligações diametrais, não bastava a do BRT, e continuam a acreditar no PFN como oba de inspiração superior. Pobre ferrovia portuguesa.   
6 - quadruplicação da linha do Norte entre Alverca e Castanheira do Ribatejo - encerrou-se a consulta pública e curiosamente foi feito um relatório circunstanciado com as discordâncias de cerca de 70 participantes. Infelizmente estas participações de nada servem, porque, como referido no próprio relatório, por mais pertinentes que sejam apresentados os argumentos contra a proposta oficial, o comentário é sempre o mesmo, são fatores irrelevantes E na verdade são, são irrelevantes perante a prepotência, a ignorância e a negligência de quem decide. Uma linha de Alta Velocidade não deve misturar-se com uma linha intercidades, regional, suburbana, por mais quadruplicada que esteja e por mais boas intenções que haja de acabar com as passagens de nível em zonas densamente povoadas. Ainda recentemente houve um acidente no norte de França num troço em que o TGV anda misturado com os cmboios regionais.  Aliás, todos os traçados de AV deviam ser revistos incluindo a localização da TTT, mas como digo, prevalece a prepotência e, como afirmado no relatório da quadruplicação Alverca-Castanheira do Ribatejo não foram estudados e quantificados trajetos alternativos, apenas escrito sem fundamento técnico que não é viável fazer túneis nas margens do Tejo (é preciso ser-se ignorante para escrever isto, e se é mais caro fazê-lo enquanto custos de capital no investimento, tem de se comparar os custos operacionais entre a solução túnel e a solução quadruplicação com todos os efeitos à superfície sobre Alhandra e Vila Franca. 

Enfim, podemos juntar a estas desgraças a entrega  à IP e seus assessores pela AR e pelo governo da decisão sobre os traçados das linhas de AV, do serviço do NAL e da TTT . Não espero nada de bom destes decisores, após os autoelogios e as autoglorificações no recente Railway summit no Entroncamento, no encerramento da gestão da atual administração da IP em que o ainda presidente Miguel Cruz não poupou nas palavras bonitas e laudatórias, depois de anos a contribuir para um futuro desastroso da ferrovia em Portugal. Do site da IP: "Na intervenção subordinada ao tema “Uma nova era para a ferrovia”, o presidente da IP, Miguel Cruz, abordou o papel estratégico da ferrovia no contexto europeu e os principais desafios associados ao futuro da mobilidade, defendendo uma abordagem integrada entre sustentabilidade, inovação, digitalização, resiliência e visão estratégica.
“A ferrovia deixou de ser apenas um modo de transporte. Hoje é um instrumento de política climática, um fator de competitividade económica e um elemento central da coesão territorial.”"
Palavras muito bonitas. Esperemos pela nova administração, para ver se ainda pode salvar alguma coisa. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Exmo senhor ministro III - tentativa de avaliação do risco de utilização de bicicleta com base em informação estatística

 Não existe informação estatística fiável sobre os riscos de utilização de bicicletas. Porque uma análise estatística correta exige conhecer o número de passageiros-km (número de utilizadores de bicicleta vezes o percurso médio dos utilizadores), ou viagens-km (assumindo 1 pessoa apenas em cada bicicleta) num período e numa zona.

Numa análise para vários modos de transporte, a DG MOVE publicou em 2012 o statistical pocketbook                                           

    

       modo

Vítimas mortais

      por

1000 Mpass-km

   avião

            0,10

   comboio

            0,16

   autocarro

            0,43

   automóvel

            4,45

   duas rodas

          52,59

 Estes valores carecem de ser atualizados e desagregados (separando trotinetas, bicicletas, motorizadas e motos), o que a DG MOVE não parece ter feito, publicando relatórios de sinistralidade com as estatísticas de acidentes na ferrovia e nas estradas como já mostrado na 1ª carta aberta em      https://transport.ec.europa.eu/background/road-safety-statistics-2025_en      de que destaco aqui o quadro de vítimas mortais nas estradas da UE em 2024 por modo de transporte:


Informação a integrar na estatística de vítimas mortais nas estradas por país e por milhão de habitantes, de que resulta a posição de Portugal no 5º pior lugar:


Não existindo nestes relatórios informação credível que permita calcular os passageiros-km por modo de transporte, tentarei uma hipótese de cálculo consultando informação sobre a intensidsde de utilização das bicicletas por país, por exemplo em:                                     
https://www.theadamstore.com/blogs/blogs/country-most-bicycles?srsltid=AfmBOopOEYAtnaevZqr4dsTLlxLu1J7S_tY4eC7MHVZc2yvoRBSaQLAp

Supondo que o número de deslocações diárias é igual ao da população vezes um fator de cerca de 1,7, e que nesta última ligação se estima na sequência de sondagens a percentagem de população que utiliza a bicicleta e com que periodicidade e extensão o faz (3km diários 2 vezes por semana), construí a seguinte tabela, reiterando tratar-se de hipóteses não confirmadas (o que sugere a necessidade das instituições comunitárias e nacionais melhorarem o tratamento estatístico da utilização dos modos de transporte ditos suaves): 

País

População

       M

Utilizadores de bicicleta

        M

MKm/ano 

todos utilizadores

Nº   anual vítimas mortais em bicicleta

Vítimas mortais em bicicleta/1000Mpass-km

 

NL

       18

    12

 3600

     168

       47

SE

         9,5

       3

    900

        23

       25

DE

       63

    30

 9000

      445

       49

DK

         4,7

      3

    900

        22

       24

PT

       10

      2

    600

        33

       55

                               número de vítimas mortais (VMs) em bicicletas por país retirado de                                                                  https://road-safety.transport.ec.europa.eu/document/download/ed29ad84-b2f1-429e-97ca-2b713e7dc1b1_en?filename=ERSOnext_AnnualReport_20260323.pdf


Comparando com os valores acima do pocketbook de 2012 (valor de 4,45 VMs para o automóvel já é elevado), mais uma vez se estima para Portugal um valor nocivo intolerável. Valores graves na Holanda, contrariando a ideia divulgada da circulação neste país de bicicletas ser segura, e na Alemanha. Valores razoáveis na Suécia e na Dinamarca. 

Será importante avaliar a correção destas aproximações, mas julgo que só as instancias oficiais o poderão fazer se houver vontade política para isso, em nome da defesa da segurança rodoviária e do direito das pessoas se moverem em segurança. 

No caso da Holanda, considerando 5 milhões de ciclistas com um percurso diário de 5 km em 300 dias por ano teríamos  5 x 5 x 300 = 7500 Mpass-km por ano, o que daria 23 VMs por 1000 Mpass-km, valor razoável comparativamente mas ainda grave segundo o pocketbook de 2012. 

O crescimento da utilização dos 2 rodas exige que se façam sondagens e estatísticas rigorosas.

 






sábado, 9 de maio de 2026

8 de maio de 2026, mais uma morte numa passagem de nível

 Sentidas condolencias aos familiares e amigos.


Portugal foi o pior país da União Europeia em 2024 com 6 mortes na ferrovia por 1000 km de rede ferroviária (total 20 vítimas mortais)  para uma média europeia de 3 or 1000 km de rede.                           https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Railway_safety_statistics_in_the_EU

Estes números não incluem suicídios, que em Portugal em 2024 atingiram 17 (entretanto foi criado o número de apoio 1411 mas não é divulgado em campanhas de sensibilização).


Atropelado pelo Alfa na passagem de nível do Loreto, a cerca de 1.100m a norte da estação de Coimbra, faleceu um peregrino integrado num grupo de cerca de 50 pessoas. Algumas das quais já tinham atravessado as vias quando as cancelas baixaram e os sinais acústicos começaram.

Sim, eu sei, os dispositivos de proteção estavam a funcionar conforme projetados. E também decorre presentemente um programa de eliminação de passagens de nível. Mas não existe campanha de sensibilização para os comportamentos positivos (ou a serem imitados) obrigatória para os canais de televisão nem obtenção significativa de financiamento comunitário. Tampouco se divulgam as circunstancias dos acidentes e o que deveria ter sido feito para evitar as vítimas mortais.

Pessoalmente, considero que a exploração de comboios a velocidades da ordem de 160 km/h e 200 km/h é incompatível com a existencia de passagens de nível. No caso de Loreto, estimei para distancias de visibilidade às curvas mais próximas 170m para o percurso ascendente e 480m para o descendente. Isso significa que o comboio atinge a passagem de nível depois de ser visto no percurso ascendente em 4s para 160km/h e em 3s para 200km/h. No caso do percurso descendente o comboio atingirá a PN em 10s ou em 8s, respetivamente. A travessia da PN por um peão a 3,5 km/h demorará cerca de 10s (mesmo fora das vias estará sujeito ao efeito de sucção) . Mesmo que se aumente o tempo de aviso continuará a existir risco com ou sem desobediencia aos sinais.

Em resumo, impõe-se o desenvolvimento de campanhas de sensibilização pela positiva e reforço do financiamento e da capacidade de execução da eliminação das PNs. Assunto a mercer a atenção da comunicação social.

vista em planta da PN de Loreto, N para a esquerda

vista para a aproximação do percurso ascendente

vista para a aproximação do percurso descendente









sexta-feira, 8 de maio de 2026

Exmo Senhor ministro II - Exemplo de proposta de alteração do código após análise de acidente

  

Exmo Senhor ministro


Como referido na primeira carta aberta desta série, as disciplinas de análise de riscos e de engenharia de transportes têm como finalidade avaliar as causas e circunstancias dos acidentes e propor recomendações para os evitar.

Recordo a morte por atropelamento de Flávia Vasconcelos em outubro de 2025 como exemplo para propor uma alteração do código da Estrada :

 https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/10/morte-por-aropelamento-de-flavia.html

O acidente deu-se numa passadeira de peões que a vítima atravessava a correr depois de um automóvel ter parado na via esquerda sendo ultrapasado por outro na via direita que, por falta de visibilidade mútua,  colheu mortalmente a vítima.

O que parece conveniente neste caso é promover rapidamente uma alteração do Código no sentido de proibir taxativamente a ultrapassagem e obrigar ao stop se outro carro estiver parado imediatamente antes das passagens de peões, especialmente havendo mais do que uma via, dado que um automóvel parado antes da passagem pode ocultar o peão que atravessa. 

Parece também importante impor o limite de 30km/h ao atravessamento de uma passagem de peões pelos veículos (automóveis, biciletas, trotinetas, etc), uma vez que a atual redação do Código parece insuficiente (determina redução da velocidade à aproximação da passagem de peões sem quantificar). 


quarta-feira, 6 de maio de 2026

25 de abril de 2026

 


                                      25 de abril de 2026




Aporia, poema de Rita Tormenta

 

Aporia            

 

Responde-me, Theodor

E depois de Homs, de Gaza, de Sbrenica, de Bucha,

Será possível existir?

Theodor, a humanidade deste lado ocidental da Terra

É bárbara, estúpida e exibe traços perturbantes de sociopatia

A Poesia, essa talvez seja possível

Já a existência, essa não creio

A Poesia depois de todos os horrores

durante todas as matanças

pode até ser a finta possível

Desenhar numa bonita letra manhãs claras entre holocaustos,

Holocaustos, Theodor, no plural, o mal nunca é singular

O Deus coisa que colocámos no altar

não nos quer com memória

Quer-nos bêbados de presente

E sem memória não saberemos reconhecer pelo cheiro

o leite negro da madrugada

E voltaremos a bebê-lo de manhã, ao entardecer e à noite

E a beber e a beber seguiremos enquanto coisas

Coisas de valor relativo

Cotadas numa bolsa que é uma algália na cintura dos acumuladores

Somos agora coisas, apenas coisas, Theodor

O Espírito limpa-se em sessões de desintoxicação pagas em moeda

Ninguém quer essa excrecência

Há-de tornar-se tão inútil

Como os restos da cauda do primata escondidos no fundo do cóccix

 

Não, não foi a Poesia a tornar-se impossível, Theodor

Foi o Espírito quem não conseguiu fugir à morte 

 

                                                Rita Tormenta, 2024


Aporia, dúvida, hesitação perante a possibilidade de duas conclusões opostas

https://www.rtp.pt/play/p1109/e927096/a-vida-breve 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Theodor_W._Adorno

https://pt.wikipedia.org/wiki/Aporia

 

  

 

 Tell me, Theodor!

And after Homs, Gaza,
Srebrenica and Bucha?
Is it possible to exist?
Theodor,
humankind on this western side of earth is barbaric,
stupid and shows disturbing signs of sociopathic behavior.
Poetry might still be possible,
Existence however, I believe not.
Poetry after all the horrors, among all slaughters
might be the only feint left.
Drawing, in a beautiful handwriting, bright new mornings in the middle of the holocausts.
Holocausts, Theodor, plural, evil is never singular.
The god thing we have placed in the altar
does not want us to keep our memory,
It wants us drunk, caught up in an endless today.
Without memory we won’t be able to recognize the smell of “the dark milk of dusk”
and we will keep on drinking and drinking, morning, evening and night,
and drinking we will follow our path,
turned into things,
things of a relative value
in a stock market that actually is just a water skin hanging on the waist of the hoarders.
We are now things, Theodor, mere things,
spirit is cleansed in detox sessions paid in cash,
nobody wants that inconvenience anymore,
it will become useless and obsolete,
just like the hidden remains of our primate tail on the bottom of our back.
No, Theodor, it wasn´t poetry that became impossible,
it was the spirit that didn’t manage to escape death.

Rita Tormenta

Aporia, 2024
















terça-feira, 5 de maio de 2026

Exmo Senhor Ministro I - Proposta de medidas para a redução da sinistralidade rodoviária

 


Exmo Senhor Ministro

Nesta carta aberta que lhe envio, saúdo o seu apelo a uma condução responsável que evite a tragédia como as mortes na estrada na Páscoa de 2026. Escrevo na qualidade de técnico de transportes, sem qualquer pretensão de detentor de certezas únicas e inquestionáveis, mas também como cidadão indignado com a impunidade de quem conduz pondo em risco a segurança alheia. Permito-me também insistir que as disciplinas de análise de riscos e de engenharia de transportes impõem práticas de recolha e tratamento de dados após acidentes para determinação de causas e circunstâncias do acidente e elaboração de recomendações para evitar a repetição ou pelo menos a mitigação das consequencias do acidente, o que normalmente não é feito, optando-se pelo tratamento mediático da culpabilização dos responsáveis.
Como V.Exa diz no seu apelo, a elevada taxa de acidentes rodoviários (Portugal o 5º pior classificado na Europa em mortes na estrada por milhão de habitantes) trata-se efetivamente duma falha coletiva e são conhecidas as medidas a adotar, mas que não têm tido da parte dos sucessivos governos (reconhecendo embora a valia do compromisso ANSR/IP Visão Zero para redução das mortes na estrada) a iniciativa de as implementar, nem da parte dos cidadãos o apoio da maioria dos utilizadores da estrada. Isso mesmo ficou comprovado quando em dezembro de 2018 o então secretário de Estado proibiu o comandante da PSP de continuar a multar os utilizadores de bicicletas e trotinetas elétricas que viajavam sem capacete. O mesmo secretário de Estado promoveu depois a alteração do artigo do Código da Estrada que permitia a equiparação daqueles 2 rodas com  motor auxiliar a outros véiculos motorizados. A justificação foi de que a obrigatoriedade do capacete prejudicava o mercado daqueles veículos e induzia a redução da sua utilização. Sempre que é publicado algum artigo propondo a obrigatoriedade do capacete a reação nas caixas de comentários é a mesma, desvalorizando os acidentes com bicicletas e trotinetas relativamente aos outros veículos e responsabilizando sistematicamente os automobilistas como causadores dos acidentes, o que é muitas vezes verdade dado os níveis de velocidade praticados e a natureza de condução pouco prudente da maioria dos automobilistas, mas também dos utilizadores dos 2 rodas.
Ao fazer o seu apelo, o senhor ministro provavelmente não quis reconhecer que têm sido os sucessivos governos que se têm abstido de atualizar o Código da Estrada com regras essenciais de condução prudente com a necessária fiscalização. E que por isso, podem considerar-se as instancias oficiais como cúmplices deste estado de coisas. A partir do momento que em que se soube que o número de multas dos tuk-tuk lisboetas é da ordem de 90 diárias, o argumento de que há falta de pessoal para a fiscalização não colhe.
Para comparar o risco de fatalidades deve multiplicar-se o número de vítimas mortais (VMs) pelos km percorridos. Normalmente só se dispõe do primeiro, o que oculta a gravidade dos acidentes com os 2 rodas.
Total de VMs nas estradas EU em 2025:19400 . Média por milhão de habitantes: na EU 44, em PT 58. Impõe-se campanha de sensibilização, alteração do código da Estrada com redução de velocidade especialmente nas vias urbanas, obrigação de cumprimento dos semáforos e abstenção do uso dos passeios pelos 2 rodas, e fiscalização.
Recente estudo em França sobre acidentes com bicicletas e trotinetas concluiu que o capacete reduz até 90% o risco de danos neurológicos e até 50% o risco de fratura de crâneo. Tem razão (e experiência profissional) a Autora.
Estatística de VMs em 2024 na EU: trotinetas 148 (58 em colisão com autos+66 em despiste), bicicletas 1819 (817 em colisão com autos+498 em despiste). 
Estatística de VMs e Feridos Graves (FGs) em 2024 em PT da ANSR: peões(inclui trotinetas) 111VMs/426FGs, autos 262VMs/FGs985, motos e motorizadas 190VMs/FGs953, bicicletas 30VMs/171FGs. Intolerável.

Com base nos números da DG MOVE (Direção de Mobilidade da Comissão Europeia) de vítimas mortais a 30 dias em colisões com outros veículos ou despistes, tivemos em 2025 na UE:

Peões

3560

                               -

Trotinetas

 148

     45%   das quais em despistes

Ciclistas

1819

     27%   das quais em despistes

Motorizadas e motos

4162

     36%   das quais em despistes

Autos ligeiros

8712

     44%   das quais em despistes


Estes números são suficientes para dizer que a estratégia zero mortes está ainda muito longe da realidade, sendo que afinal a causa despiste é significativa, isto é, não pode desprezar-se o risco de acidentes por tipo de veículo isolado. Isso é particularmente importante nas trotinetas e nos automóveis ligeiros. Num caso por dificuldade de controle, noutro por desadaptação à infraestrutura, nos dois casos por excesso de velocidade ou distração

Proposta de medidas

1 - lançamento de campanhas de sensibilização com divulgação obrigatória em todos os canais em horário nobre, orientada para exibição de comportamentos positivos de preferência a mostrar os resultados dos acidentes
2 - investigação sistemática dos acidentes mais mediáticos ou de consequencias mais gravosas, não para apurar responsabilidades e castigo dos culpados mas deteção das causas e circunstancias dos acidentes com recomendações para evitar ou mitigar  sua repetição e divulgação de relatório no prazo de 1 mês
3 - generalização nas áreas urbanas da limitação a 30km/h
4 - generalização nas estradas e nas zonas urbanas para todo e qualquer veículo da obrigatoriedade de manter uma distancia d para o veículo precedente na mesma via igual à distancia percorrida em 2 segundos à mesma velocidade ( d em metros = 2 em segundos  x  v em km/h a dividir por 3,6) e divulgação pública duma tabela com os valores para várias velocidades 
5 - proibição de ultrapassagem nas rotundas considerando como ultrapassagem de um veículo A por um veículo B quando a velocidade angular (relativamente ao centro da circunferencia inserida na rotunda ) do veículo B é superior à do veículo A
6 - proibição de ultrapassagem de qualquer veículo de 4 rodas por um veículo de 2 rodas na mesma via e distancia mínima entre dois veículos desses tipos de 1,5 m a ser garantida por cada um desses veículos
7 - reposição do artigo da obrigatoriedade de uso de capacete por utilizadores de veículos de 2 rodas com motor auxiliar e velocidade máxima de 25km/h


Pedindo desculpa por eventualmente ter exposto o tema com pouca sistematização, comunico que tentarei voltar ao tema abusando da sua disponibilidade e dos seus assessores para a resolução do grande problema da sisnistralidade rodoviária.

Com os melhores cumprimentos


Fontes: 






segunda-feira, 4 de maio de 2026

Comentário a artigo no IRJ sobre Adamuz

 

Seguimento de:                                                                                        https://fcsseratostenes.blogspot.com/2026/04/ponto-de-situacao-em-9-de-abril-de-2026.html


Relativamente ao acidente de Adamuz refiro ainda que, não sendo possível evitar a presença de aparelhos de via de ponta, deverá, junto destes:



            




 Concordo com o artigo, mas centro-me mais na qualidade da investigação de que, confesso, esperava mais da CIAF porque me parece excessivamente prudente. Numa fase de investigação, ressalvando sempre que não se está à procura de responsáveis mas de causas , circunstancias e recomendações para evitar ou mitigar acidentes,  parece-me perferível o procedimento dos americanos do NTSB com frequentes conferencias de imprensa. Por exemplo, há uma falha técnica grave no projeto de que pouco se fala, um aparelho de mudança de via de ponta numa linha de AV. 
É verdade que os mecanismos dos motores de agulha e de movimento das pontas das agulhas são seguros e há redundancia mecânica. 
Mas o facto é que as 3 últimas carruagens do Iryo foram canalizadas pelo AMV para o gabari da via contrária. 
Outro facto pouco falado, a primeira fratura não terá sido na cabeça do carril mas na alma e consequencia das baixas temperaturas nma zona que terá sofrido fadiga térmica na soldadura; tivemos nesse mês frio em Sete Rios-Entrecampos-Roma/Areeiro uma fratura muito parecida, precisamente junto de um aparelho de via; tivemos no metro, já há uns anos, a fratura da cabeça do carril por má soldadura de bardets à base do carril.
O desvio para o gabari da via contrária terá acontecido porque no seguimento da fratura do carril este foi empurrado lateralmente pelos movimentos laterais das últimas carruagens o que provocou uma fratura a cerca de 10 a 20 m a seguir junto do inicio do AMV, e terá sido esse carril deitado que levou os rodados das carruagens para a lança curva do AMV. Não posso afirmar que foi o que se passou mas acho que a CIAF já devia ter divulgado hipóteses de como se passou. De notar a ausencia de encarriladores que são aparelhos vulgares à entrada de viadutos e que aqui protegeriam a entrada correta dos rodados nas pontas das agulhas. 
Também sem poder afirmar-se com certezas, foi investigada a queixa muito anterior de passageiros que as ultimas carrugens nos comboios da linha Córdova-Madrid tremiam muito? (ainda antes da deteção do carril fraturado na zona da soldadura). Isto é, os ângulos cónicos do rolamento das rodas que é o principal remédio contra os movimentos laterais de lacete estavam dentro das normas?. 
Quanto à deteção automática de carril partido isso é uma coisa que se perdeu na passagem dos circuitos de via para o sistema automático de controle de velocidade (no caso o LZB). No entanto, na zona das agulhas é possível que se mantenham os circuitos de via para fornecer aos sinais de manobra as suas condições de ocupação (a confirmar). O sistema da Hitachi Rail usado nesta linha é um sistema de manutenção por injeção de tensão/frequencia e sua deteção ao longo da via, não está ligado ao LZB. 
Trata-se de um assunto que deve ser complementar ao ERTMS e atualizadas as especificações no sentido da monitorização contínua e de transmissão automática para o maquinista e para a central de comando (recordo que o Iryo parou por falha de alimentação, o célebre enganchon, e não por deteção de anomalia na via) Espero que seja uma das recomendações do relatório final esta deteção e monitorização automáticas.
 Recordo o acidente do comboio de mercadorias no tunel de S.Gotard em que um rodado partido tambem forçou o descarrilamento num AMV com consequencias graves como interrupção do serviço durante anos (também na linha de Cascais tivemos descarrilamento em AMV devido a peça solta de motor que enfiou pela lança curva da agulha de ponta). 

Enfim, temos de aguardar a evolução da investigação.