segunda-feira, 3 de julho de 2017

Reflexões sobre as ligações ferroviárias à Europa - ou de como o nosso país se torna uma ilha ferroviária na união europeia

O extraordinário potencial dos combustíveis fósseis em termos de concentração de energia utilizável em pequenos volumes acabou, a partir dos transportes, por condicionar toda a economia, moldando de forma subreptícia os preços das mercadorias. Este fenómeno manifesta-se por exemplo na absorção pelos preços das mercadorias dos aumentos  de preços do petróleo.
Não admira portanto que os cidadãos mais preocupados com as questões económicas de um país como Portugal se preocupem especialmente com os custos de energia associados ao transporte, quer de passageiros, quer de mercadorias.
No domínio do transporte de passageiros, a preocupação, partilhada aliás com a União Europeia, centra-se na transferência da quota do transporte individual para o tansporte coletivo, e do transporte aéreo de curta distância para o transporte ferroviário, com a fundamentação na redução das  emissões de gases com efeito de estufa e na redução dos custos de congestionamento.
No domínio do transporte de mercadorias, a orientação da União Europeia, depois de verificar a excessiva quota do transporte rodoviário, mais ineficiente do ponto de vista energético dado o maior coeficiente de atrito do pneu com o asfalto relativamente ao coeficiente de atrito da roda de aço com o carril, é claramente no sentido do desenvolvimento das infraestruturas do transporte ferroviário, para aumentar a respetiva quota, demasiado pequena atualmente.
Por razões identicas, a União Europeia pretende criar condições para o desenvolvimento do transporte marítimo de mercadorias.
Em ambos os casos, não deveremos ignorar a estratégia da União Europeia, não só por respeito pelos compromissos internacionais de redução das emissões, mas também no próprio interesse comercial do país.
Neste contexto, e na previsão, não necessariamente otimista,  de que já nos encontramos num ciclo ascendente da economia, e que a próxima década verá um crescimento assinalável do comércio internacional, é essencial que o país se concentre num plano independente de ciclos eleitorais de desenvolvimento das suas infraestruturas de transporte.
Considerando a situação do país, esse plano terá de ser  apoiado em fundos comunitários, nomeadamente o plano Juncker, vocacionado para infraestruturas de transportes e de energia, sendo que é condição sine qua non que para a concessão desses fundos seja apreentado um anteprojeto bem definido das ligações pretendidas.
Como em qualquer questão complexa e que envolve planeamento a longo prazo, a tendencia comum é a de tentar adiar, ou acreditar em soluções de curto prazo, ou, pior ainda, ter fé em desenvolvimentos tecnológicos que disponibilizarão soluções quase milagrosas.
Foi assim que se criou a ilusão de que o transporte rodoviário individual de passageiros e o de mercadorias será resolvido com veículos elétricos e veículos autónomos, esquecendo-se a sempre, por razões físicas, menor eficiência energética do transporte rodoviário e os custos de congestionamento nas estradas e túneis rodoviários.
Assim também  se criou a ilusão de que o porto de Sines, tal como está, pode ser a porta da Europa para o tráfego acrescido do canal do Panamá.
Poderá sê-lo, na verdade, mas a Europa tem 400 portos, melhor localizados do ponto de vista logístico, porque a competitividade de um porto depende das ligações ferroviárias aos centros consumidores. Pelo que é indispensável corrigir o traçado da ferrovia de Sines e dotá-la da bitola europeia.
Sendo que é provavelmente outra ilusão, a de que basta fazer as obras de grande manutenção e reabilitação previstas para a ferrovia, no seguimento do levantamento feito pelo GT-IEVA, esquecendo a bitola europeia. Que bastaria instalar travessas bi-bitola nas ligações aos portos secos de Vigo, Salamanca e Badajoz. Que a solução não disponível comercialmente de eixos telescópicos para vagões de mercadorias acabará por aparecer.
Infelizmente não são suficientes estas soluções,  enquanto a Espanha cumpre um plano de execução de infraestruturas ferroviárias com bitola europeia, que lhe assegurará ligações rápidas à Europa (já em bitola europeia entre Barcelona e Perpignan, trabalhos em curso no “Y” basco e na ligação de Madrid a Badajoz), sem as perdas de imobilização nos portos secos de transferencia da bitola ibérica para a  bitola europeia.
A própria 29ª cimeira luso espanhola , em que muito se falou nas ligações ferroviárias, evitou o tema da bitola europeia e das pendentes dos atuais traçados ferroviários que prejudicam o transporte de mercadorias, entre Vilar Formoso e Salamanca, e à saída de Sines. Por isso a eletrificação do troço Vilar Formoso-Salamanca não basta.

A ausência de Portugal na EXPO2017 em Astana, capital do Kazaquistão por onde passa a nova rota da seda ferroviária China-Europa, veio ilustrar o isolamento da  atual  estratégia nacional de ligação à Europa e a ideia ilusória de que Sines é a porta da Europa.

Impõe-se a criação de ligações ferroviárias internas e externas em bitola europeia, definindo com cuidado as prioridades e candidatando os anteprojetos a fundos comunitários: ligação de mercadorias Sines-Poceirão-Caia (tráfego misto Poceirão-Caia de passageiros e mercadorias, cerca de 2000 milhões de euros), ligação de mercadorias Aveiro-norte de Vilar Formoso, cerca de 4000 milhões de euros), ligação de passageiros Lisboa-Porto (cerca de 3000 milhões de euros), ligação Porto-Leixões-Vigo (cerca de 1500 milhões de euros).

Nada se fazendo  neste sentido,com o argumento de que as nossas empresas de camionagem e as empresas de transporte ferroviário operando em Portugal em bitola ibérica assegurarão a menores custos o serviço entre os portos e as plataformas logísticas de Vigo, Salamanca e Badajoz, teme-se pelo seu  futuro pelo patamar de menor competitividade e pela impossibilidade de alargar o volume de tráfego de mercadorias pelas limitações dum sistema que obriga a imobilizações por transbordo. Teme-se ainda pelas diretivas rigidas da União Europeia no sentido da limitação do tráfego de camiões, quer para redução de emissões, quer para redução do congestionamento rodoviário.

Claro que não se consegue uma união de esforços dos técnicos e entidades (universidades, associações profissionais, revistas técnicas) mais ou menos ligados ou interessados nesta problemática que produzisse um plano de ação, faseado ao longo de vários ciclos eleitorais, e suportado em programas de apoio comunitário.
É difícil chegar a um acordo sobre a metodologia a seguir, e apontam-se sempre falhas ou omissões ao que quer que se proponha.

Mas talvez fosse possível, pouco a pouco, ir construindo esse tal plano, e por tentativas do tipo de  resolução de problemas de Fermi, ir elaborando umas análises de custos-benefícios que o suportassem, não obstante a falibilidade do que possa estimar-se...

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