sábado, 12 de setembro de 2015

Intervenção politica em período eleitoral

Vou fazer uma intervenção política neste período eleitoral, sob a forma de uma análise técnica de um problema de transito.
Os senhores jornalistas já explicaram que não se devem utilizar argumentos técnicos para discutir politica, porque afasta as pessoas.
Mas eu sou teimoso. Já o senhor comissário político que o governo de então nomeou, de acordo com a cor partidária dominante, como administrador principal do metro, começava as reuniões dizendo que não lhe viessemos com questões técnicas.
Mas eu era teimoso e fundamentava com argumentos técnicos.
Vá lá que o senhor se limitou a pôr-me na prateleira, sem mais danos.
É um dos principais problemas em Portugal, nas empresas públicas e nas privadas, a seleção dos decisores, escolhidos por quem não conhece o negócio ou quer favorecer quem convida.
E pensar que na Inglaterra o governador do banco central é escolhido por concurso público internacional... (claro que a esperteza provinciana por cá saberia contornar os escolhos do concurso público, veja-se o peso dos ajustes diretos nas contratações que o senhor governo faz).
E o enunciado do problema de transito é: 30% de condutores em todo o planeta conduzem pela esquerda, e 70% pela direita. Vale a pena pensar em uniformizar?
Não estou a fazer a ligação entre as ideologias de esquerda e de direita e os sentidos de circulação. Estabelecerei a relação depois, do ponto de vista comportamental, embora com reflexos politicos.
Pequena história do sentido de circulação: há vestígios históricos que mostram que nos hipófromos gregos e romanos o sentido de circulação era contrário aos ponteiros do relógio, mas há também vestígios arquelógicos que mostram que os traços deixados na pedra das estradas romanas são mais profundos do lado esquerdo da estrada, correspondendo aos percursos em que as carroças iam carregadas de produtos para a cidades, regressando vazias. Acresce que como a maioria dos humanos é destra, desde sempre se subia para os cavalos pelo lado esquerdo destes, seguindo naturalmente escostado à esquerda da estrada (seria mais perigoso sair da estrada do que colidir com o veículo em sentido contrário, seria tambem perigoso seguir pela estrada com a mão direita ocupada com as rédeas, não fosse preciso defender-se de um atacante) . O primeiro documento que confirma a circulação pela esquerda é uma bula papal de Bonifácio VIII dirigida aos peregrinos no século XIII.
Só depois no século XVIII surge na Russia, em 1752 um decreto da imperatriz a impor a circulação pela direita. Seguiu-se a Inglaterra em 1752, pela esquerda,  a Dinamarca em 1758 pela direita e a França e os USA em 1792 pela direita.
Provavelmente a escolha pela direita terá sido dos cocheiros que tinham e conduzir carroças maiores, com pares de cavalos. Enquanto na Inglaterra se continuou a subir para os cavalos pelo seu lado esquerdo e se adotou o postilhão que seguia montado no cavalo da esquerda enquanto o cocheiro se sentava no lado direito da boleia para controlar os cruzamentos com os veiculos em sentido contrário, na Russia, Dinamarca, França e USA o cocheiro seguiria montado no cavalo da esquerda mas conduzindo pela direita para controlar os cruzamentos com os outros veículos.
Outra explicação, em período de revolução, seria que os nobres, habituados a circular pela esquerda, teriam sido obrigados a desviar-se do povo que trabalhava preferindo o  lado direito.
Feita  a pequena história, analisemos as vantagens e inconvenientes, realçando que a regra básica da prioridade no transito é a de que quem se apresenta pela direita tem a prioridade.

Vantagens da circulação pela direita:
- facilidade de circulação internacional devido ao maior número de paises aderentes
- maior facilidade e economia na encomenda de veículos já preparados para circulação pela direita

Vantagens da circulação pela esquerda:
- dado que a circulação nas rotundas se faz no sentido dos ponteiros do relógio, à chegada às rotundas não é necessário colocar um sinal de perda de prioridade
- pela mesma razão, o risco de distração ou falta de atenção ao sinal de perda de prioridade é menor
- como consequencia, por haver  mais uniformidade do que na condução pela direita, é provável que o indice de sinistralidade tenda para ser menor nos países com condução pela esquerda
- na condução pela esquerda o lugar do condutor é à direita, pelo que pode segurar o guiador com a mão direita enquanto move a alavanca de mudança de velocidades com a mão esquerda; sendo a maioria dos condutores destros, esta é uma vantagem relativamente à condução pela direita
- ainda devido à posição do condutor, na condução pela esquerda é mais fácil ao condutor detetar a aproximação de outro veículo vindo da direita e portanto , com prioridade, visto que se encontra desse lado
- finalmente, à aproximação de uma estrada principal vindo de uma estrada secundária, na condução pela esquerda, o condutor sabe que os veículos na primeira via que encontra na estrada principal têm prioridade, contrariamente ao caso da condução pela direita, independentemente da existencia de sinal de perda de prioridade

Tudo ponderado, parece que a principal vantagem da condução pela direita é económica (menor preço devido à maior quantidade de veiculos fabricados com condução á direita), embora a principal vantagem da condução pela esquerda seja maior segurança devido à uniformidade da sinalização (prioridade natural de quem está nas rotundas por vir da direita).

O interessante, e aqui entra a comparação com a política, é que, havendo vantagens na condução pela esquerda, ninguém quer mudar da direita para a esquerda. Nem sequer, obviamente, adotar a regra de prioridade a quem se apresenta pela esquerda, o que transferiria as vantagens para a condução pela direita.
Há uma razão psicológica para isso, expressa pelo provérbio popular, "mais vale um diabo conhecido do que um diabo desconhecido". Isto é, o cérebro humano é acomodatício, independentemente da análise racional que é capaz de fazer. Assim, a verdadeira mudança no sentido do progresso social será conseguido em democracia, não por simples campanha eleitoral, mas através de estudo e disseminação pela sociedade do conhecimento (não confundir com "conhecimentos") e atividade a nivel de estudos e divulgação pela sociedade civil. Pelo que os partidos que ganham eleições não deveriam iludir-se com o seu falso sucesso.
Salvo melhor opinião, claro.

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