domingo, 24 de outubro de 2010

Um certo olhar em Outubro de 2010




http://tv1.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=2175&clip_wma=75073


Luísa Schmidt, socióloga no Instituto de ciências sociais, especializada em ambiente e comunicação, faz parte deste programa de debate da atualidade na Antena 2.

Ao comentar a violência urbana em França chamou a atenção para que já não é o protesto pela frustração das expetativas de uma reforma tranquila, quando há ainda alguma energia para a usufruir. O cerne da questão é o protesto contra o banditismo financeiro.

A senhora não pode ser acusada de subordinar-se a partidos ou tendências de extrema esquerda ou de esquerda mais ortodoxa.

E até Maria João Seixas, mais ligada ao atual poder político em Portugal, concordou, dizendo mesmo que a ofensiva do poder financeiro nos últimos 20 anos foi obscena.

Gosto de ouvir o programa, gosto de ouvir Luísa Schmidt, não só pelas ideias que expõe, mas pela suave pronúncia que as cidadãs cultas começam a espalhar, com a elisão dos “o” mudos a seguir aos “s” e aos “d”: partid’s, dividid’s, abs’lutamente, iss’. A sério, gosto de ouvir.

Mas também me interrogo por que deixaram os tais partidos e tendências de extrema esquerda e também os que não sendo de extrema se reclamam da dita esquerda, a falar sozinhos durante esses 20 anos.

Eu sei, o politicamente correto é dizer que nos tempos que correm não se põe a questão de esquerda e direita senão na distribuição dos deputados no Parlamento e os partidos da esquerda mais ortodoxa sujaram as mãos em sangue (não quer dizer que os outros também o não tenham feito, mas os princípios da ideologia da tal esquerda ortodoxa eram incompatíveis com isso, com a privação da liberdade, com a crítica da atribuição de prémios a quem sofre essa privação, etc, etc, mas isso é outra conversa) .

Então eu reformulo a questão: não há posições de esquerda e de direita; há apenas que obedecer ao programa da Declaração Universal do Direitos do Homem, o que é incompatível com o atual índice de desigualdade de rendimento, o coeficiente de Gini, como falado em texto recente neste blogue.

O mesmo diz, por outras palavras, o professor Adriano Moreira, em entrevista também na Antena 2, no programa Quinta essência, fundamentando na doutrina social da Igreja a absoluta necessidade de reduzir essa desigualdade (ver em

http://www.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=1152&clip_wma=75448     ).


Isto é, já se vão ouvindo, da parte de pessoas bem pensantes, coisas duras para os senhores financeiros e banqueiros:  que devem servir a comunidade, e não servirem-se da comunidade, que devem ser chamados a colaborar na resolução dos problemas, e não para explicarem como os problemas devem ser resolvidos, e como se pode baixar o tal coeficiente de Gini sem que os rendimentos dos bancos e agencias financeiras sofram muito.

Ou será uma visão demasiado marxista do que se está a passar? De que a prioridade ao lucro conduz ao ponto em que os rendimentos começam a ser decrescentes e tem de se voltar atrás (ou avançar?) no processo histórico e mudar de prioridade?

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