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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Este blogue é um gigantesco batoteiro - o obscurantismo e a queda de Salazar

Este blogue é um gigantesco batoteiro.
A acreditar no voluntarioso senhor primeiro ministro a discursar para os jovens do seu partido, provavelmente ansiosos por virem a ser como ele, assertivo quando proclamou que “a batota acabou”.
Primeiro, chamou pequena batota à desvalorização de uma moeda para embaratecer as exportações.
Talvez estivesse a chamar pequeno batoteiro ao governo chinês, que não gosta nada de valorizar o reiminbi.
Mas estaria a chamar pequeno batoteiro a este blogue, que já propôs a desvalorização do euro ou a decomposição do euro em novas moedas (mais uma vez este blogue não tem o mérito de inventar nada, estas são invenções de economistas como Sivio Caselli e John Keynes, antes de haver euro e antes de haver neo-liberais da escola de Chicago).
Depois, chamou “gigantesca batota” ao financiamento dos Estados pelo BCE a juros idênticos aos dos bancos.
Como este blogue também não se cansa de propor juros menores para a dívida, aqui se vê como é um gigantesco batoteiro.
Estamos então caídos no nível da adjetivação desmerecedora.
Provavelmente queixar-se-á o senhor primeiro ministro de que blogues como este também o insultam.
Talvez sim, talvez não, mas sempre se quis fundamentar neste blogue as acusações que se fazem ao senhor primeiro ministro, como por exemplo, citando as suas afirmações antes e depois da eleição (“a minha garantia é de que se for preciso taxarei o consumo e não os rendimentos”, “cortar o subsidio de Natal é um disparate”, etc, etc), o que conduz fatalmente a um adjetivo na verdade pouco elegante na língua portuguesa.
Até quando este blogue associou a “missão” de que este governo está incumbido de salvar o país a sintomas de hipomania (forma menos grave do distúrbio psicológico de quem tem dificuldade de assimilação da realidade, nunca aceita submeter-se a tratamento e imagina que o destinaram a uma função messiânica; alem de que exibir sintomas de uma doença não significa necessariamente que se sofre dela)  se baseou nas próprias afirmações do senhor primeiro ministro, agora confirmadas com a interrogação  “…pergunto-me se as pessoas percebem que nós estamos a lançar as raízes para uma sociedade mais justa”.
Realmente as pessoas percebem, ou pensarão, dadas as  suas insinuadas limitadas capacidades de compreensão, que percebem que talvez o engenheiro Moreira da Silva, mais dado a tratamento de dados que o senhor primeiro ministro, lhe tenha passado a mensagem que um país com o coeficiente de Gini como o de Portugal não é sustentável (aquilo de ter dito na mesma reunião de juventude partidária que “os 20%  mais ricos recebem 33% do rendimento enquanto os 20%  mais pobres recebem 13% do rendimento ficou-lhe mesmo bem, não ficou?).
Mas também percebem, as pessoas, que quando se quer uma sociedade mais justa e se tem mesmo de cortar, deixam-se os cortes nas pensões  para depois (é estranho, quando  me reformei a Segurança Social atribuiu-me uma  pensão provisória, refez os cálculos com mais calma e depois atribuiu-me a definitiva; estranho haver pensões mal calculadas por aí; se há, porque será?) e primeiro aplicam-se medidas de emprego e corta-se nos grandes rendimentos do capital, como costumam dizer Jerónimo de Sousa e Warrem Beaty. E quando duas pessoas assim tão diferentemente posicionadas dizem a mesma coisa, a probabilidade de terem razão é “gigantesca”.
Enfim, como eu costumo dizer, só se deve discutir com base em dados concretos, não sobre virtualidades, e por isso recorri, para  fundamentar a minha proposta de “gigantesca batota” de redução dos juros, ao site do congresso das alternativas (http://www.congressoalternativas.org/ ), com um pequeno cálculo sobre o valor dos juros na dívida pública:

“Na realidade, não há verdadeira alternativa ao Orçamento aprovado que não passe pela redução da única despesa que pode ser cortada sem efeitos recessivos e com benefício na libertação de recursos para o investimento e a criação de emprego: os juros da dívida pública. Os juros da dívida representam 9% da despesa e 4,3% do PIB, quase todo o défice previsto para 2013. Um corte de 1% nos juros vale dois mil milhões de euros. Seria possível diminuir a despesa em quatro mil milhões na despesa (como agora se estima ser necessário) com base num corte de 2% juros. Esse é aproximadamente o valor que os fundos europeus nos cobram acima da taxa a que esses fundos obtêm os seus empréstimos.”

É isto uma “gigantesca batota”?!

A propósito de batota, continua sem se falar na auditoria à dívida privada, a grande competidora da dívida pública, para sabermos onde nós, os privados, gastámos mal o dinheiro.
É que sem auditoria não temos ideia do desvio do que deveria ter sido o caminho.
E isso é mau, é desnorte, ou navegação à vista.

E ainda a propósito de discutir sobre dados concretos e não sobre virtualidades, achei interessante um pequeno gráfico com origem na Comissão Europeia sobre a evolução da dívida pública desde 1994 publicado no DN de 17 de dezembro: adivida cresceu em 1994 e 1995 com o senhor ministro das finanças Catroga, sendo primeiro ministro Cavaco Silva. Depois baixou até 2000 com o ministro das finanças Pina Moura, sendo primeiro ministro Guterres. Com Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, sendo primeiros ministros Durão Barroso e Santana Lopes, subiu de 2002 a 2005, e depois, com Teixeira dos Santos, ao mesmo ritmo, até 2008. Seguiu-se o descalabro de 2009 com subidas superiores a 10% ao ano, ritmo que se mantem com o atual governo apesar dos cortes e graças à contração da procura e do PIB.

Tudo isto me leva a não ter confiança no atual governo e a considerar que o ambiente cultural em que vivemos, porque cultura é interpretar o que nos rodeia, é de obscurantismo, apesar do esforço evidente dos agentes culturais; o obscurantismo da “noite neo-liberal”, como diz Rafael Correa.
E obscurantismo faz-me lembrar o tempo de antes da II Republica, traduzido por aquela anedota do passageiro da linha de Cascais que todos os dias comprava o jornal, olhava para a primeira página e  deitava-o fora, e quando lhe perguntavam porquê, respondia: “não traz a notícia de que eu estou à espera, a queda do Salazar”.

sábado, 7 de julho de 2012

Variações sobre o tema do coeficiente de Gini

O coeficiente de Gini , já por diversas vezes citado neste blogue (ver http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/10/conjetura-do-economista-envergonhado.html ) e raramente pelos senhores governantes, pelos senhores comentadores ou pelos senhores bem postos que tentam , por vezes com assinalável exito, fazer a cabeça das pessoas, é um dos elementos tomados em consideração pelas agencias de notação financeira para as suas classificações. Quanto maior o coeficiente, isto é, maior a desigualdade de distribuição dos rendimentos de um país, maior a tendência para uma taxa de juro mais alta nos empréstimos aos respetivos governos.


É precisamente este o tema de um excelente artigo no dinheiro vivo do DN de 7 de Julho de 2012 de Luís Reis Ribeiro: “Plano da troika piora desigualdade, ameaça impostos e faz subir juros.” (http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO051992.html?page=0  )

Segundo um estudo do National Bureau of Economic Research (que certamente não será acusado de estar infiltrado de economistas marxistas, embora o Tea Party possa achar que sim), em Portugal “existe uma forte correlação negativa entre a desigualdade de rendimentos e a base tributável”, isto é, “a uma desigualdade elevada corresponde menos receita fiscal, menos capacidade orçamental e taxas de juro da dívida pública mais altas”.

Antes deste estudo, o Observatório da Situação Social da Comissão Europeia (é, os observatórios gastam dinheiro dos contribuintes, mas destapam as carecas aos governantes, e assim não admira a senha com que por cá querem cortar na despesa pública eliminando os observatórios portugueses, como o da saúde, por exemplo) já tinha avisado que as políticas de austeridade tinham afetado os grupos mais pobres da base de distribuição do rendimento (a recente notícia de passar a contabilizar no cálculo do RSI o subsídio das rendas de habitação social como rendimento das famílias, ao mesmo tempo que baixam as prestações da Euribor, veio ilustrar isto com dramatismo, agravando as desigualdades).

O senhor Branko Milanovic, economista chefe no Banco Mundial (que não deve também ser um economista marxista) vem explicar que “os cortes da despesa pública na saúde, na educação, o aumento dos empregos temporários e do desemprego são uma fase de desigualdade crescente”.

E que os efeitos das medidas de austeridade podem afetar seriametne a receita fiscal e a um agravamento das taxas de juro da dívida pública.

Que é como quem diz, está-se a tratar o doente com o medicamento com o efeito contrário ao pretendido. É como entrar em derrapagem e virar o volante no sentido contrário ao da derrapagem; o atrito das rodas da frente aumenta relativamente ao pouco atrito das rodas de trás que assim ficam sujeitas a um momento de derrapagem maior (deve-se voltar o volante no sentido da derrapagem para diminuir o atrito das rodas da frente, contrariando o momento da derrapagem).
É a própria receita que induz o agravamento do efeito que quer combater, e é a própria comissão europeia e o Banco Mundial que o dizem.
Pena, muita pena mesmo, que os senhores bem postos que aparecem na televisão a explicar tudo não falem claramente disto, que a desigualdade e a iniquidade social é uma coisa que tem de se combater, sem recorrer ao expediente vivaço e chico-esperto de chamar preguiçosos aos pobres, aos funcionários públicos, aos professores, aos enfermeiros, etc, etc., para tentar justificar as diferenças de rendimento.

Nota – Também tenho uma certa pena da utilização que tem vindo a fazer-se da palavra austeridade. O conceito em si de austeridade até pode ser simpático, no sentido de sobriedade, de não desperdiçar energia em atividades supérfluas. Mesmo em período de crise deve investir-se não só em investimentos com retorno, mas em atividades culturais e de lazer. Havia concertos em Leninegrado, durante o cerco da Wermacht. Austeridade, embora venha do grego (outra palavra grega) rude, severo, rigoroso, amargo, não deveria querer dizer (e não quer) privação de bens essenciais.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um paradoxo da democracia

Fico sempre muito impressionado quando apanho, passe a expressão, os nossos caricaturistas, ou cartonistas, a conseguirem captar a essencia de uma questão.
É o caso do catonista do DN, a propósito da viagem de negócios do senhor ministro e empresários.
Evidentemente que não critico as oportunidades de negócio, embora preferisse outras formas que não fossem "vender" os anéis (sempre querem vender os estaleiros de Viana do Castelo a empresas chinesas de construção naval?).
Mas a essencia da questão é essa, é um paradoxo para  a democracia - crescimento económico convive com o respeito pela participação ativa dos cidadãos e cidadãs na vida politica?
Isto é, crescimento económico é compatível com a diminuição do coeficiente de Gini das desigualdades sociais?
Não procuro culpas, até porque o contexto é capaz de não deixar resolver o paradoxo, mas dá para pensar, pelo menos para o cartonista e para mim.



PS em 5 de julho de 2012 - também nem de propósito, como se costuma dizer, outra notícia do dia 5 de julho de 2012 é a visita dos senhores ministros Paulo Portas e Vitor Gaspar à China.
As coisas, depois do erro da diminuição da receita fiscal  e do défice trimestral ter passado de um superavit de 3,8 % no 4º trimestre de 2011 (que manipulações, senhores?) para um deficit de 7,9% para o prmeiro trimestre de 2012. Aparentemente, como diz Francisco Louçã, o governo não sabe o que faz e a troica tambem não; tambem não estava à espera deste sufoco depois de sufocar o doente. Mas aindaé cumprivel, basta reduzir para 3,4 todos os trimestres, até ao fim do ano.
Quam acredita sem alterar as regras do jogo como devidamente pedido por muitos cidadãos que não fazem parte do "arco" do governo e do  memorando (será que o governo sabe identificar a reunião da superficie externa do arco esférico com a respetiva parte interior do arco esférico num espaço euclidiano R3 deduzinod o teorema fundamental da Aritmética, ou é melhor perguntar a uma menina do 5º ano no próximo ano letivo?
(ver
http://www.portugal.gov.pt/media/643611/prop_metas_eb_matematica_vf.pdf     )

Mas duas sugestões ao senhor ministro Vitor Gaspar que não percebe nada do que eu vou dizer mas devia acreditar, se quer que a China lhe dê um saco de reiminbis:
1 - financie o metropolitano de Lisboa para fazer o projeto para o metro de Argel (estudando a extensão do trabalho ao metro de Luanda, Benfica-Cacuaco e Viana-Baixa)
2 - financie uma central solar de concentração de raios solares e sais fundidos no Alentejo
3 - financie um alinha de tensão contínua de muito ala tensão para a França e Alemanha (coisa parecida com a bibitola de Sines para a França-Alemanha).
Se quiser também fazer resorts para chineses, também pode. Quando vou a Macau gosto muito de falar com eles. São pessoas sérias (favor não passe pela cabeça dos empresários enganá-los)

Ao dispor para esclarecimentos.













domingo, 27 de maio de 2012

A impossibilidade operacional no Rock in Rio



a roda gigante no Rock in Rio

Retiro da página do facebook do metropolitano de Lisboa a informação que, nos cinco dias do Rock in Rio, o metro fechará a estação da Bela Vista à 01:20.

A hora oficial de fecho dos espetáculos é às 04:00.
Oiço na TV chamar a isto uma greve às horas extraordinárias.
Ainda no facebook leio que o metropolitano não assegura o serviço até cerca das 04:00, como nos outros anos, por “motivos de impossibilidade operacional”.

Uma impossibilidade operacional poderá ser uma falta de meios materiais que inviabilize a operação, ou uma falta de condições de segurança. Pode ser uma falta de meios humanos. Pode ser uma falha de coordenação, pode ser um condicionalismo externo que impeça a circulação dos comboios (um caso de “force majeur”, por exemplo, qualquer coisa como acidentes naturais ou como se ter perdido a chave da garagem e não se conseguir tirar de lá a carrinha). Pode, ainda por mais um exemplo, a falta de meios materiais ou humanos  estar relacionada com a política feroz de cortes mais ou menos cegos nas despesas de operação, de manutenção ou de investimento; ou pode ser consequencia do contexto e crescimento do desemprego que convida a roubar cobre dos equipamentos do metro e depois não há condições para circular. Pode ser um desaconselhamento económico para evitar prejuízos, apesar de neste caso os custos serem marginais, aqueles que estão na parte da curva em que os custos crescem menos quando aumenta a quantidade produzida e até teoricamente podem ser custos de dumping. Pode ser um caso político, de proibição por reunião de conselho de ministros, ou pode ser uma impossibilidade técnica porque os recursos se tornaram obsoletos e a sua exploração altamente deficitária (como acontece com o carro, velhinho, a consumir mais precioso combustível do que quando era novo). Aquilo que uma impossibilidade operacional pode ser ...

Mas será seguramente uma metáfora perfeita da dificuldade de organização e de trabalho em equipa de que sofre o nosso país e a sua população, da deficiente metodologia que se segue para tomar decisões, normalmente fulanizadas e polarizadas em processo progressivo, sem análise de cálculos que fundamentem as decisões. E longe, demasiadas vezes longe do conceito e da prioridade ao serviço público.

Não gosto da musica dos Metallica, nem dos Evanescence, nem dos Sepultura, nem dos Linkin, nem sequer de Springsteen.
Não dependo de rituais com sincronia dos movimentos dos braços ao som distorcido com predominância da secção rítmica sobre as melodias e os acordes harmónicos.
Mas daria algo que me fizesse falta para que quem gosta possa usufruir do espetáculo, ou do ritual de socialização, de normalização ou de afirmação, ou o que for.
Apesar de cada entrada diária custar 61 euro e o bilhete pacoviamente VIP por um dia subir a 240 euro num país de coeficiente de Gini elevado.
Apesar de não faltar dinheiro para equipar o parque da Bela Vista para o Rock in Rio, mas não haver dinheiro para o dotar de infra-estruturas de apoio aos munícipes durante todo o ano.
Passada a euforia, nem sequer há uma esplanada ou café a funcionar.

Por isso me custa ver a impossibilidade operacional de organizar o serviço do metropolitano.
Por isso me custa ver desprezada a noção de serviço público, aplicável sempre que é necessário transportar pessoas.
Imagino a satisfação dos senhores do ministério da economia e transportes, a concitar o apoio, de quem não teve metropolitano, para combater “as regalias dos trabalhadores do metro”, como eles dizem.
Talvez haja algo de cínico no sorriso com que terão imaginado que com a nova administração de quatro elementos que o decreto lei anunciou para a fusão do Metro e Carris as coisas correriam de forma diferente.
Como dizia Trindade Coelho, ou melhor, como ele repetia dos latinos, abyssus abyssum, abismo atrai abismo.
Num contexto de desprezo visceral pelo artigo 23 da declaração universal dos direitos humanos, a vaga de desemprego e de despedimentos acaba por refluir e afetar quem mantem o seu emprego.

Penso que as organizações de trabalhadores poderiam estar mais abertas a aceitar sacrifícios, com a condição de poderem participar no controle efetivo da repartição equitativa dos sacrifícios por todos os setores da sociedade, poderem participar no controle efetivo do destino e aplicação dos dinheiros dos empréstimos (isto é, saber a composição das dívidas pública e privada para se poderem corrigir as distorções da repartição de sacrifícios) e poderem participar em debates alargados para tomada de decisões sobre assuntos de transportes.
Talvez por serem poucos a pensar como eu é que provavelmente a “impossibilidade operacional” é uma metáfora perfeita do nosso país.
Do que se poderia fazer com as pessoas que temos se a organização fosse outra.

Dizia a TV que não houve problema, porque a Carris disponibilizou autocarros.

Mais uma vez temos um problema de gestão de energia e de transportes.
Se nos 5 dias tivermos 250.000 entradas, poderemos estimar 50.000 deslocações de saída a pé, 100.000 de automóvel, 50.000 de comboio e metro e 50.000 de autocarro. Fechando mais cedo, estimo que 30.000 deslocações terão sido transferidas do metro para autocarros. Se cada percurso for de 5 km, temos 150.000 passageiros.km em modo rodoviário quando poderiam ter sido em modo ferroviário.
Gastou-se cerca de 9.000 kWh em energia equivalente a mais, só em transportes, por se terem transportado os passageiros em autocarros (cálculo para consumos marginais específicos de 60 Wh/pass.km no metro e de 120 Wh/pass.km ou 0,11 litros/pass.km em autocarro).
E isto sem falar nas emissões de CO2 a mais devidas aos autocarros.

Mas é claro, em vez de se resolver a questão em conjunto e em profundidade, o argumento da energia acabará por ser jogado como fator de atribuição de culpas.

Expressão bem achada, esta da “impossibilidade operacional”.




fogo de artifício no Rock in Rio; somos um país produtor de fogo de artifício, muitas vezes em deficientes condições de segurança, mas somos produtores



Adaptando Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

"Come chocolates, pequena;

Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria"
Come chocolates, pequena,
e vai ao cinema, vê telenovelas e vai ao Rock in Rio.


sábado, 5 de maio de 2012

Um tema de sociologia, tratado à maneira dos problemas de Fermi

Considere-se uma distribuição arbitrária, como se fosse um modelo da realidade da população portuguesa dividida em faixas classificadas segundo o seu grau de afetação pela crise.
0 sem ser afetada ou até  a ser favorecida, 4 gravemente afetada:

0 -   2% da população - ricos ou muito ricos, incluindo as cem famílias "donas de Portugal"
1 - 18% da população  - classe média
2 - 25% da população  - classe média baixa, sendo que destes, 10% estão ligados à função pública  ou  a empresas públicas
3 - 30% da população  - desempregados ou em risco de pobreza ou exclusão,  sendo que destes,10%estão ligados à função pública ou a empresas públicas
4 - 25% da população -  pobres

Como disse, é uma distribuição arbitrária, com hipóteses à maneira de Fermi.
Mas seria interessante que os sociólogos estudassem o problema e encontrassem os numeros mais aproximados; tlavez partindo dos números do IRS.
Porque uma distribuição assim é como se fosse uma lente para observar a realidade.
De que faixas vêm os impostos, as mais valias das exportações, em que faixas habita o desemprego, a contribuição para os suicídios, para a mortalidade, para os diversos tipos de doença, para a toxico-dependencia., qual a percentagem do rendimento nacional em cada faixa de população, em que faixa está a pessoa que se sentou à nossa frente no banco da carruagem de metro?
A largura das faixas está a variar em que sentido? isto é, que transferncias entre faixas estão a ocorrer?
Que correlações existem, por um lado, entre a largura das faixas e sua variação, e, por outro lado, os níveis de rendimentos e sua variação , de desemprego, de níveis de preços, e as medidas de austeridade?
Com números mais proximos da realidade compreendia-se melhor a dita realidade.
Seria vantajoso compará-los com os indicadores de qualidade de vida, nomeadamente o coeficiente das desigualdades de Gini, e seguir a evolução da distribuição ao longo do tempo.
Mas é dificil ver isto tratado na comunicação social e nos livros editados; a tradição portuguesa não gosta de números.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Falas de governantes - A matriz de análise

Fala pausada, professoral, definitiva, sem contestação.
A matriz de análise que o senhor deputado fez só vê um inimigo que desapareceu há décadas - diz o senhor ministro das finanças Vitor Louçã Gaspar para quem ousou criticar o desvio do rendimento no sentido do trabalho para o capital.
Confesso que gosto de uma boa imagem e de uma boa argumentação.
Matriz é uma boa imagem, faz lembrar os determinantes das matemáticas gerais, os vetores dos campos de tensões, o cruzamento de variáveis.
Matriz de análise deve referir-se ao  método marxista de estudar as relações entre os modos de produção, agora formas tecnológicas de produzir, e a sua propriedade.
Eu diria que se o senhor ministro ponderasse com mais cuidado os coeficientes de uma matriz deste género, podia ser que não tivesse precisado de 3 orçamentos retificativos para 2012 ainda o ano não começou.
Podia ser que não insistisse em que a repartição dos sacrificios é equitativa quando só a repetição à Goebels (não estou a dizer que o senhor é nazi; estou a dizer que dizer muitas vezes uma coisa em que as pessoas não acreditam pode levar a que elas acreditem, especialmente se for dita e redita em voz pausada) pode tornar isso verdade.
Podia ser que soubesse responder à pergunta do Parlamento sobre a aplicação dos 6.000 milhões de euros do fundo de pensões que vai obrigar a aumentar a despesa publica em 2012 de 480 milhões de euros.
Os 6.000 milhões de euros  a uma taxa de juro de 2% com uma amortização em 15 anos correspondem aos 480 milhões necessários para pagar as pensões.
Podia ser que tivesse optado por outra medida que não a de agravar o defice de 2012 com mais despesa, classificada como extraordinária, para pagar dividas (as dividas pagam-se de acordo com um plano de amortização e juros, portanto, por definição, sem surpresas de calendário - consta que serão 0,7% do PIB a agravar).
Curioso como daqui conclui o governo que vai renegociar ou reestruturar o pagamento da dívida à troica.
Curioso porque há bem pouco tempo eram violentamente criticados pelo governo quem propusesse essa hipótese.

E então o inimigo desapareceu há décadas.
O inimigo que leva a reestruturação da dívida?
Ou referir-se-ia o senhor ministro, por um fenómeno de projeção de um fantasma, ao desaparecimento há décadas de um projeto falhado que degenerou relativamente à matriz de análise? como se a experiencia não tivesse já demonstrado que todos os projetos têm falhado.
Ou seria o fascismo a que se referia? desaparecido há décadas?!
Fascismo é o regime plutocrata que institucionaliza a discriminação entre os beneficiários dos melhores rendimentos e os de menores rendimentos, entre os povos de maior riqueza e os povos que não conseguiram rentabilizar as suas potencialidades, em ambiente económico capitalista de condicionamento de iniciativas.
O coeficiente de Gini, ou das desigualdades, ajuda a compreender o que é fascismo ou o que um sistema de organização não deve fazer.
Matriz de análise desatualizada?
Como seria bom se fosse.
Seria sinal de que não era preciso eliminar as desigualdades.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Falas dos governantes - Freud em S.Bento

Dois comentadores do DN, com a capacidade de análise que me falta, designaram o senhor ministro adjunto Miguel Relvas um, por limpa neves do governo, e o outro, por carregador de pianos do governo. Outro comentador, possivelmente cedendo à mesma tentação a que a seguir também cederei, colocou a hipótese de que a aplicação continuada das medidas de austeridade ao povo português estimula e excita o senhor primeiro ministro Passo Coelho, a ponto de ele não conseguir conter o sorriso quando fala no assunto.

Reafirma este blogue que não gosta de discutir política, mas fascina-se com as disciplinas colaterais.
E como a sua imodéstia (do humilde escriba do blogue) o ilude como se fosse discípulo de Freud ou de Jung, tentemos uma análise das falas do senhor primeiro ministro.
O complexo (entendido como uma imagética que através do inconsciente conduz a uma distorção de comportamento) mais frequente nos governantes é o complexo de Hubris, revelando uma forma de humilhação dos governados.
O governante manifesta a sua superioridade pelo poder e pelo dominio de informação não acessivel aos governados.
Dado que o fenómeno tem origem no inconsciente do paciente, pode não revelar uma vontade consciente de diminuir os governados, embora se possa fazer a crítica de que a génese do complexo (a tal criação de imagens pelo inconsciente) pode ser preventivamente contrariada de forma consciente.
O complexo de Hubris explica também como o paciente passa a acreditar mais na realidade ou abstração com ténues ou virtuais ligações à realidade que ele criou (com as tais imagens do complexo), do que nas evidencias que a realidade lhe mostra.
Este isolamento ou insensibilidade aos problemas reais poderá ter alguma coisa em comum com a doença psicológica do autismo, mas não é propriamente autismo, podendo ser agravada pelo comportamento de grupo dos apoiantes, seguindo o habitual caminho de polarização, cristalização ou conglomeração de um pensamento aglutinante do grupo e de normalização e socialização.

Curiosamente, graças às análises dos comentadores referidos, verifico que o complexo de Hubris caraterizava o anterior senhor primeiro ministro, ou carateriza o senhor ministro adjunto, mais do que o atual senhor primeiro ministro.
Partindo da mesma observação desses comentadores, coloco então a hipótese de que o comportamento do atual primeiro ministro revela antes um complexo messianico, ou profético, de alguem a quem foi revelada a salvação e que foi incumbido de a executar.
No caso em estudo, são conhecidas as propostas, que são as da ideologia neo-liberal, de reduzir as despesas do Estado e de empobrecer a atividade económica com medidas de austeridade.
Às inevitáveis dificuldades diretamente consequentes destas medidas seguir-se-á, nisso se tem fé, o período de salvação ou de franco crescimento e de alivio das dificuldades.
Profeticamente e periodicamente, o senhor primeiro ministro anunciará as datas em que se verificará o inicio desse período, estimulando tambem  profetas menores, os outros senhores ministros, a de vez em quando anunciarem a feliz data, tendo sempre o cuidado de sincronizar esse anuncio com o calendário das próximas eleições.
Este complexo messiânico está associado a um fenómeno extraordinário do cérebro humano, que é a capacidade de criar entidades virtuais, externas ao cérebro, com as quais se pode dialogar e debater decisões a tomar, como muitas crianças desde cedo revelam.
Esta carateristica, quando explorada em relação a um eleitorado, permite a esse eleitorado ter fé no conjunto de ideias ou programa eleitoral do paciente.
Mais curioso ainda, o programa eleitoral torna-se tanto mais atraente quanto mais inexequivel for.
Exatamente pela capacidade do cérebro dos eleitores em acreditar, através dum mecanismo de imitação ao nivel dos neurónios-espelho, nas fantasias do programa e na sua superioridade em relação às trivialidades da realidade.
Analogamente, um adolescente conquista a sua adolescente prometendo uma vida de eterno amor, sendo certo que dificilmente a conquistará se não o fizer. A tónica na verdade só será colocada depois de a conquistar.
Nesta perspetiva, prometer numa campanha eleitoral , em caso de necessidade de reduzir defices, penalizar através de impostos o consumo e nunca o rendimento do trabalho, não é uma mentira, mas um teste à capacidade  dos eleitores de gerarem fé  em torno das construções virtuais do cérebro do paciente.
Por mais que  a realidade mostre evidencias, como seja o papel que a falta de regulação, deixando as entidades financeiras especular e manobrar verbas nos off-shores, teve na disseminação da crise, ou a omissão do BCE em emprestar diretamente aos estados ou emitir moeda até determinados limites de inflação, a construção virtual insistirá sempre e normalizará os apoiantes de modo a manter o poder politico, atribuindo as culpas de tudo a quem não pense como o paciente.
Sempre que o governante vítima do complexo messiânico, nas suas prédicas às multidões, cometer erros de análise devidos à grande distancia entre as criações do seu pensamento e a realidade, os seus sacerdotes virão em seu auxílio explicando que o paciente não errou na interpretação da realidade, mas foi antes a multidão que não soube interpretar corretamente as suas  palavras.

Será ainda curioso analisar se o complexo messiânico será uma manifestação de juventude inexperiente e impulsiva, ou se a convicção de se ter recebido uma revelação sobrevem apenas na maturidade.
A hipótese é a de que no caso vertente se trata de uma simbiose, de uma mistura das duas condições tornada possível pela projeção, entendida aqui também no seu sentido psicológico, de gestores experientes de empresas (do grupo de empresas em que o senhor primeiro ministro exerceu atividade profissional), associada à revelação-ideologia neo liberal de minimização do orçamento do estado e desregulação das iniciativas empresariais (representada, por exemplo, pelo senhor ministro das finanças).
Quem toma as decisões gestionárias da res publica é assim a  projeção da virtualidade de um gestor ideal, ajustando setor a setor as percentagens de população aos meios disponiveis, sem o condicionamento de limites à taxa de pobreza e ao coeficiente de desigualdade de Gini.
Assim se entende a politica de redução de ativos, quer materiais (privatizações, mesmo que o rendimento do capital obtido seja inferior aos dividendos anteriores), quer de recursos humanos (dispensa de funcionários publicos adstritos à saúde, educação, etc) e a sua eventual deslocalização para países estrangeiros (emigração).
Todas estas ideias-força se encontram em entrevistas de qualquer CEO de empresa de relevo.
Ainda neste caso de projeção psicológica não se poderá falar em humilhação ou desprezo pelos governados, dado que a componente do inconsciente se sobrepõe à vontade consciente, inibindo assim a imputação de qualquer intenção nesse sentido.

Como diria Mr Spock, do Startreck, fascinante, a problemática da psicologia, tão fascinante, que poderia sugerir-se a criação de um cargo público, à semelhança do Procurador Geral da Republica, de um Psicólogo Geral da Republica, para monitorização psicológica de quem exerce cargos públicos.

domingo, 31 de julho de 2011

A minha cronista erótica preferida

A Cidália do Noticias Sábado é a minha cronista erótica preferida.
Entre outros motivos, porque escreve assim, a propósito de uma noticia mais ou menos escabrosa, que metia uma câmara de televisão numa casa de banho feminina de um hospital:
"...nada chega ao fascínio da mente humana. No fundo, para procurarmos explicações para o aparentemente inexplicável, é percebermos que há casas com duas e três assoalhadas e outras dez. Explorá-las é muito diferente. E há corredores longos, penosos de atravessar."
Seria muito mais simples de abordar os problemas se os senhores intelectuais, o senhores politicos, os senhores gestores, entendessem que os corredores são penosos de atravessar e que na raiz de todos os conflitos está a luta entre a tendencia igualitária que nos brota de dentro e as assimetrias que nos separam.
Donde, Eros devia ser chamado a intervir para resolver a questão do coeficiente de Gini.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Não em meu nome III - ao cimo das escadas

Este texto, propositadamente, não é acompanhado  por nenhuma fotografia.
Talvez pudesse concorrer a um prémio, mas achei que não devia tirar a fotografia.
Não por estar a aproveitar um modelo sem lhe dar a justa retribuição, mas por pudor.
O homem era jovem e estava depositado como uma rodilha ao cimo das escadas mecânicas da entrada do metro da rua do crucifixo.
Não deveria ter ainda 30 anos, pelo aspeto da barba, descuidada, evidentemente, escura e não farta.
Cabeça descaída , olhos fechados e rosto sujo e inexpressivo.
Os sapatos terão sido ditos de vela, quando fabricados.
As calças são claras, de verão, possivelmente retiradas de um contentor de recolha de roupas usadas ou distribuidas por uma associação benificente, mais preocupada em fazer alguma coisa do que eu que só escrevo.
Tem vestido um blusão de fazenda, usado mas não roto, e a tiracolo uma mala, de cobrador.
É o que distingue os pobres de agora dos pobres de há quarenta anos.
Já não andam rotos nem descalços.
Mas este mal andará, deve ter sido levado para ali e ao fim do dia será recolhido juntamente com o boné que estende inconscientemente, mesmo ao lado do corrimão deslizante de borracha, que por vezes aflora.
 A forma como o corpo e as pernas distribuem o peso pelo pavimento e pelo bastidor da escada, como um dos braços se projeta para trás e o outro para a frente, com o boné para as moedas, tem um valor estético, de belo horrível, talvez por ser um corpo jovem, doente, fisicamente e mentalmente, mas um corpo jovem.
Imagino que esteja na mesma posição da semi-deusa grega arrastada por um policia numa das manifestações que mostrei numa fotografia do DN.
Por isso tenho pena de não registar a cena, mas por pudor não consigo.
Atrás de mim, um cidadão pára por momentos, com uma expressão de incredulidade.
Acho-o parecido com o escritor Miguel Real, olhos muito vivos e estupefactos por trás das lentes grossas.
Gostaria de trocar impressões com ele.
Descemos, ambos parados nos degraus da escada mecânica, ele atrás de mim.
Oiço-o desabafar "merda de país".
E quando oiço isto salta-me uma lágrima, assim, sem mais nem menos, como uma donzela.
De impotencia.
De impotencia porque não vou secar a lágrima depositando uma moeda no boné do pobre esquizofrénico ou bipolar ou drogado, simplesmente miserável.
Porque Victor Hugo morreu há mais de cem anos e as universidades que ensinam economia ao mundo ainda não sabem, ou já esqueceram, ou não querem saber, como evitar que as pessoas se tornem miseráveis.
Porque tambem tenho pudor de brincar à caridadezinha, como diz a canção de José Barata Moura.
Porque àquele homem, não o quero escondido, quero-o tratado.
Porque acredito que os impostos servem para o bolo da comunidade e para serem distribuidos conforme as necessidades, e segundo critérios de prevenção, antes que uma pessoa esteja reduzida àquele farrapo.
Isso consegue-se com medidas de desenvolvimento da economia, não apenas com medidas de austeridade, porque só há aumento de eficiencia se houver desenvolvimento, e vice-versa.
Consegue-se com rapazes e raparigas com o curso de técnico de serviço social a fazer o levantamento destas situações e  a listar as ações de prevenção e de remedeio.
E para além dos impostos, uma comunidade bem organizada devia poder ter empresas rentáveis a produzir para o bem comum.

Devolvo as acusações que fazem os senhores presidente, ministros, secretários de estado, comentadores encartados, senhores bem postos com lugares de destaque nas instancias económicas e financeiras nacionais e supranacionais.
Não são as semi-deusas gregas sem emprego que depositaram aquele homem ao cimo das escadas mecanicas da entrada do metro da rua do crucifixo.
Nem são os meus colegas que olham para a contratação coletiva, que lhes garantia alguma tranquilidade e que agora a vêem como um objeto cortante, que fere os passageiros que têm menores rendimentos e garantias do que eles, ou que só viajam de metro a caminho do centro do desemprego ou da segurança social.
É do dominio publico que o sistema financeiro internacional se descontrolou, desde o excesso de crédito sem contrapartidas de valores e bens produzidos, até aos off-shores e ao sigilo bancário de paises como a Suiça.
Não precisamos de luxos, nem gadgets, nem de automóveis com 300 cavalos de potencia, nem de coeficientes de Gini próprios de paises de apropriação ilegítima.
Não é um problema de economia.
É um problema de engenharia, é um problema de redes de distribuição de elementos, saber para onde vai o dinheiro e onde há dinheiro para aplicar em soluções com retorno, não em paliativos, para poder haver bolo a repartir, e ir lá buscá-lo (ainda não temos a taxa Tobin a funcionar, nem impostos sobre os off-shores, nem imposto sobre os lucros dos bancos e dos grandes grupos? e não querem que eu diga que em engenharia estas coisas já estariam em operação?).
Ficarão os senhores engravatados que querem explicar às pessoas o que elas devem pensar, satisfeitos apenas com os dois mil milhões de euros que 50% do 14º mês vai poder render?
Não precisamos de mudar leis, nem regulamentos, nem estruturas (discordo da troica, sim, mas penso que conheço melhor a realidade portuguesa do que eles, e sei tambem que structure follows strategy).
Precisamos de organização e de trabalho produtivo, não de desemprego, parece-me que deve ser essa a estratégia; nas empresas há quem saiba trabalhar.
Deixem a estrutura descansada.
Não repitam os erros da privatização dos transportes de Tatcher, deixem-se de juvenis ímpetos de privatização; os CTT? já pensaram que nos USA nem os mais empedernidos dos republicanos pensam em privatizar um fator de união nacional? E querem que as companhias que comprarem a TAP façam depois serviço público para as ilhas?
Façam isso, já que a lei o permite, mas não em meu nome.
Preferia que não fizessem, em nome do enrodilhado ao cimo das escadas mecânicas da entrada do metro da rua do crucifixo.
E especialmente, quando a divida privada deste país é significativamente maior do que a pública, preferiria que lessem com atenção a quadra do poeta algarvio António Aleixo:

                                                   Vós que lá do vosso império
                                                   prometeis um mundo novo    
                                                   calai-vos que pode o povo    
                                                   querer um mundo novo a sério

PS - O senhor primeiro ministro, apresentando em 29 de Junho de 2011 o programa de privatizações na Assembleia da Republica, esclareceu que o que espera obter com o imposto extraordinário sobre o 14º mês não são dois mil milhões de euros como dito acima, mas 800 milhões de euros.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não em meu nome I - a semi-deusa grega

O título deste texto é retirado do movimento contra o desmembramento da Bélgica.
A intenção do seu uso aqui é exprimir a oposição à agressão ao conceito de cultura e civilização europeias pelas forças policiais em Atenas.
Valha a verdade que é melhor do que os tiros assassinos dos exércitos sírio e israelita neste mês de junho de 2011.
Mas porque não deixam a rapariga em paz?








Possivelmente porque recearam que ela lhes batesse nos escudos, com as mãos nuas, como a rapariga da outra fotografia (uma rapariga para dez policias).
Na verdade, há que recear a força da razão quando só se tem a força física.



A rapariga que está a ser arrastada está a sofrer violencia fisica, recebendo uma pena sem julgamento. Na foto vêem-se ela e mais quatro policias...
Não vale a pena argumentar com os doutores da propaganda que repetirão os argumentos do costume, de defesa da ordem e da propriedade, normalmente dos bancos.
A rapariga foi sumariamente julgada pelo policia e condenada à pena de arrastamento pelos cabelos.
Nunca estive numa situação assim.
O mais perto disso foi num dia 5 de Outubro, talvez de 1966.
Nesse tempo, ir ao cemitério do Alto de S.João ou parar para olhar a estátua de António José de Almeida na Av.Miguel Bombarda no dia 5 de Outubro significava exprimir a oposição à barbárie e à indigencia cultural que nos governava.
Por isso os doutores da propaganda da altura explicavam que a policia de choque do capitão Maltês tinha de intervir.
Lembro-me dos olhos assustados do pobre moço policia, debaixo do capacete de aço, com a coronha da espingarda prestes a bater-me,  mas a tremer  e a pedir-me em voz baixa e aterrorizado : "Vá-se embora".
Já Freud explicou há muito tempo que a violencia é a manifestação da insegurança de quem acha que tem o poder.
Mas não a glória.
A rapariga da camisola encarnada parece uma semi-deusa grega. Fez-me lembrar a Venus de Rodes, com a diferença de que era a própria Venus que esticava os seus cabelos.

Zeus terá querido abusar dela, da semi-deusa da manidestação. Ter-lhe-á prometido crédito fácil, acessórios para a sua feminilidade, cavalos à disposição no motor de um carro bonito e promessas de poder. Mas a rapariga repeliu os avanços de Zeus, por demais conhecidas que são as suas práticas, recusou a prestação de serviços que os empréstimos pressupunham e acabou arrastada pelos cabelos nas ruas de Atenas. Atenas, a cidade que acabou com a ideia formosa da confederação grega, com sede em Dilos, a pequena ilha ao lado de Mikonos, quando a ganancia dos seus financeiros impediu que o tesouro da confederação fosse posto ao serviço de todos os gregos da confederação. Depois foi o que se viu, as guerras do Peloponeso e a impertinencia dos invasores persas.
Era contra isso, contra a incompreensão do que é a Europa, a sua cultura e a sua civilização, que as raparigas protestavam.
Os doutores da propaganda acham que não (saberão o que significa Dilos?), e que é preciso manter a ordem.
Não o farão em meu nome, nem no das duas raparigas.
Preocupem-se mais em baixar o coeficiente de Gini e em cumprir a declaração universal dos direitos humanos, e não se dêem tão importantes ares quando aparecem nas televisões.
Porque já evidenciam sintomas da sindroma de Hurbis (do grego falta de humildade e excesso de sobre-estima; sindroma estudada por David Owen, ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/sindroma-de-hubris.html )


Com a devida vénia ao DN pelas fotografias


PS - Se critico os hipócritas, não devo ser hipócrita (mais uma palavra grega). Tenho de concordar que podemos ter de aceitar exceções temporárias ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos. Pode haver situações em que se justificaria arrastar uma cidadã pelos cabelos. 
Se o policia estivesse a arrastar a cidadã que não queria ir trabalhar para uma unidade produtiva de bens transacionáveis indispensável para a recuperação da economia grega, com redistribuição correta das mais valias, estando ela a fazer falta no seu posto de trabalho, então, eu concordaria com o uso da força. 
Mas com o desemprego que vai por aí, não creio que seja o caso da rapariga grega. 
Ela provavelmente não tem um posto de trabalho à espera dela para produzir. 
E o policia tambem é policia porque não tem um posto de trabalho à espera dele. 
Então é mais um exemplo do abissus abissum (abismo atrai abismo, ver Camilo Castelo Branco, ou como antes da lei de Fermat Weber já se tinha a intuição de que qualquer coisa que cresce tem tendencia para atrair mais coisas para se alimentar). 
O desemprego estimula manifestações de rua, que por sua vez estimulam o crescimento da policia, que por sua vez estimula o crescimento de cidadãos que não estão a produzir bens transacionáveis.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A sabedoria de Santo António

comemoração em Lisboa de Santo António
O DN de dia 13 de junho, dia de Santo António, vem cheio de sabedoria.
Um jovem de 19 anos, luso-guineense da Quarteira, desata aos tiros, com uma caçadeira de canos serrados, depois de uns assaltozitos durante a madrugada e umas incompreensões num bar enquanto este encerrava a caixa com a receita da noite (às 7 da madrugada...)
Um miúdo de 9 anos, depois do perigo passar (o moço de 19 anos foi preso pela GNR com o apoio de uma unidade que se deslocou de Lisboa) fala com ar experiente para o reporter: "estou habitudo a ver isto nos filmes, por isso não tive muito medo".
O senhor ministro da administração interna dirá: não há problema porque a criminalidade, de acordo com as estatísticas, está a diminuir (o mesmo ministro que numa cimeira em Viana do Castelo discursava sobre segurança, repetindo já nessa altura que as estatísticas indicavam diminuição da criminalidade, enquanto a dois quarteirões de distancia uma ourivesaria era assaltada com um morto).
Avisadamente, o DN lista os ultimos assaltos em Albufeira, que já incluem turistas mortos, e a afirmação do presidente da associação de hoteleiros do Algarve, que existe uma relação direta (mais precisamente, uma correlação fortemente positiva) entre o crescimento da taxa de desemprego e a criminalidade.
Umas páginas à frente, a notícia de um tiroteio entre moços de comunidades de origem africana num bairro de barracas na Trafaria, na Cova do Vapor.
Trata-se de um local desprezado pelos indecisores do poder central e do poder local, paralizados por conflitos de competencias entre eles de há vários anos e por incapacidade para encontrar soluções.
Será tão dificil de compreender pelos gestores e decisores da coisa publica, que existe uma correlação forte entre a criminalidade e o desemprego, dificuldade de inclusão e insucesso escolar?
Prefere-se continuar a falar nas estatisticas (e os assaltos que não são participados?) e a enviar tropa especial às zonas da classe média que têm problemas localizados com jovens desempregados de comunidades de origem africana?
Será um problema semelhante ao dos transportes?
Os transportes são um problema da classe média e da classe baixa, porque a classe alta não vai de transportes coletivos para as suas ocupações de gestão da coisa pública ou de angariação de grossas mais valias.
O problema da criminalidade só será resolvido nas suas causas quando os jovens de 19 anos de origem africana assaltarem as casa da Quinta do Lago ou fizerem um arrastão na praia do Ancão? (brinco? aconteceu em Washington, há uns anos, a criminalidade baixou drasticamente depois de um assalto com mortos no bairro mais chique).
E as estatisticas, tambem serão como nos transportes? os passageiros queixam-se, mas os gestores mostram estatísticas com  prémios de performance e de índices de satisfação...
Mas o DN também é sábio quando publica esta fotografia de uma manifestação de ciclistas no Chile para reivindicar proteção rodoviária:

Parece que a policia chilena parou a manifestação. 
Não é sábia, a policia, porque, mais do que proteger a nudez dos olhos púdicos, interessa mais reduzir a sinistralidade rodoviária, como dá conta o DN com a campanha da A-CAM (se beber, eu guio, diz a morte de foice e tudo). Apareceram logo virgens ofendidas ligadas à área a dizer que a campanha assim não faz efeito (então porque não fizeram já campanhas que fizessem efeito? de facto, as campanhas devem ser pela positiva, mostrando o comportamento correto, mas pôr a morte a conduzir, à Bergman, atinge alguma coisa, apesar dos mediterrânicos acharem que as desgraças só acontecem aos outros, especialmente quando estão alcoolizados).
E em Madrid também não foi sábia a policia que dispersou os "indignados".
Mais sábio será o cartaz nas costas de um deles: "nuestros sueños no caben en vuestras urnas" (o que obviamente não quer dizer que não se deva votar)
E também sábia a votação na Turquia: se têm dado ouvidos aos detratores de um dos partidos (que utilizou uma das sedes para encontros extra-conjugais), os eleitores teriam dado uma maioria de dois terços para mudar a constituição ao partido democrata-islâmico que ganhou (se existem partidos democráticos cristãos a ocidente, dá ideia que poderá haver partidos democratas islâmicos a oriente...). Não sei se seria bom, não sei se algumas das eleitoras do partido democrata-islâmico poderiam mais tarde tirar fotografias com o cabelo ao vento (e possivelmente acabariam de vez os tais encontros extra-conjugais). Votos de que o partido republicano, laico, herdeiro de Kemal Ataturk, continue a crescer, para que os cabelos continuem ao vento e, já agora, como se costuma dizer em português, que a autonomia curda também possa mostrar-se ao vento. 
Era bom para a União Europeia, eu penso que seria muito bom, e também para todo o médio-oriente (não acham a proposta de mediação do primeiro ministro turco oferecendo asilo político a Kadafi com mais juízo do que a intervenção militar da NATO na Líbia, depois do seu secretário geral dizer que não haveria solução militar?).

Mas há mais sabedoria no dia de Santo António: a dos exportadores de calçado português, a da diretiva da Soares da Costa de exportar serviços para os USA (assim se transforma um bem não transacionável em transacionável, queiram os senhores economistas fazer o favor de tomar boa nota), a do articulista Manuel Vaz da Silva que cita Krugman quando diz que o principal problema de Portugal é o desemprego e propõe como solução o aumento do emprego, do investimento (mesmo que aumente a divida porque trará retorno) , das desigualdades sociais que dão nos tiroteios de jovens de 19 anos que não assustam miudos de 9 anos porque já viram nos filmes, e da diminuição das taxas de juro dos nossos queridos amigos que nos levam taxas superiores às do FMI.
E finalmente, a sabedoria pela voz de Catherine Deneuve, pela mão do cronista Ferreira Fernandes: "Esforço-me por fazer bem as minhas coisas, porto-me bem, faço o que tenho de fazer".
Recordo o sargento da policia do filme de  Ingmar Bergman, pedindo ao trapezista para fazer os seus espetáculos, que se todos fizessem o que têm a fazer, em lugar de irem atrás de falsos profetas (será que o conceito de "marketing" desligado da moral já existiria nos tempos evangélicos?), o ovo da serpente não daria no que iria dar.

Santo António sábio...

domingo, 12 de junho de 2011

Notícias de UK (Reino Unido)

Duas noticias interessantes, num fim de semana de Junho de 2011, vindas de Inglaterra.
Longe deste blogue a ideia de querer imiscuir-se nos negócios internos de outro país soberano, para mais tão soberano como este se auto considera.
Mas estas coisas dizem respeito a todos os cidadãos da União Europeia, desde a contribuição para as dificuldades económicas de todos devidas aos gastos com a guerra no Médio Oriente, até às preocupações com as desigualdades sociais, expressas pelo coeficiente de Gini.
1 - Os cidadãos vão ficar sem informações seguras sobre as condições da morte de David Kelly, perito de armas inglês morto em 2003. Kelly tinha informado a BBC de que o governo inglês tinha "empolado" a existencia de armas no Iraque. Sobre as causas da guerra do Iraque já existem informações suficientes, mas sobre esta morte não vai haver, por decisão oficial. Pena não ficarem as coisas esclarecidas.
2 - O arcebispo de Canterbury acusou o atual governo inglês de perda de contacto com a realidade e de promover reformas radicais sem o apoio popular, afetando o sistema de saúde, a educação e o sistema das reformas.
À luz da síndroma de Hurbis, compreende-se, as orientações dos governos são muitas vezes repetidas, e os seus ministros convencem-se mesmo que são muito úteis.
Mas existe este grande problema, a distancia à realidade, a construção pelas forças mais votadas de modelos e abstrações que simulam mal a realidade.
Parecerá insuficiente a existencia do arcebispado de Canterbury, apesar de ter ligar reservado na Câmara dos Lordes, para poder corrigir-se a trajetória.
Afinal, o problema é universal, não é específico deste país do sul e da periferia ocidental da Europa.
O regime partidário deveria deixar espaço para a iniciativa dos cidadãos, por exemplo, para definir os objetivos principais, que deviam ser, estou certo que o arcebispo concordaria, a melhoria do coeficente de Gini e a aplicação da declaração dos direitos humanos.
Isto para não falar nas ideias de António Coutinho, do Instituto Gulbenkian de Ciencia.
É complicado, mas começa a haver literatura sobre o assunto.
E haveria que pôr na equação a Ciência (citação do prof.Carvalho Rodrigues) e não apenas as receitas académicas das escolas de economia.
Mais uma vez cito A Sabedoria das Multidões sobre a metodologia a praticar...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sinfonia dos Salmos de Stravinsky, agora que tanto nos ajudam



Não desistam se não gostarem desta musica à primeira audição.
Insistam, deve insistir-se sempre.
Verão que é muito bonita.
E o texto é muito atual, agora que as entidades detentoras do poder na Europa nos dizem como é que nos devemos organizar, na perspetiva que não considera o coeficiente de Gini e assim transfere o esforço da recuperação, de modo regressivamente mais penoso, para quem menos poder tem.
A literatura religiosa é rica na expressão dos sentimentos que estas situações suscitam, por isso se dizia no tempo dos romanos que a religião cristã era a religião dos pobres.
Eis o primeiro salmo da sinfonia de Stravinsky.
Não transcrevo o segundo e o terceiro; parecem-me ilusórias as manifestações de agradecimento e de esperança em entidades exteriores destes dois salmos, pouco apropriadas ao momento, salvo melhor opinião.


Exaudi orationem meam, Domine                                       Escuta a minha oração, Senhor
et deprecationem meam.                                                     e ouve as minhas suplicas.
Auribus percipe lacrimas meas.                                          Dá ouvidos às minhas lágrimas.
Ne sileas, ne sileas.                                                             Não fiques calado e quieto.
Quoniam advena ego sum                                                  Já que eu sou para ti
apud te et peregrinus,                                                         um estranho e um passante,
sicut omnes patres mei.                                                      assim como os meus pais o foram.
Remitte mihi, ut refrigerer                                                 Poupa-me e deixa-me recuperar
priusquam abeam et amplius non ero.                              antes que eu desapareça e já não exista.

Salmo 38, 13 - 14

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mini ensaio em forma de hipérbole - as desigualdades

Não tem de haver uma explicação lógica.
Pode ser que a lógica seja uma abstração que distorce a realidade e as relações entre causas e efeitos e se enrede sem solução nas circunstancias dos eventos.
O caso é que o coeficiente de Gini continua a crescer, aqui e além.
A desigualdade de circunstancias e de resultados é grande.
Por exemplo, na guerra da Bósnia acontecia, em simultaneidade, um concerto sinfónico em Serajevo e  o bombardeamento da ponte de Mostar.
Enquanto Napoleão agredia os povos da Europa (embora paradoxalmente lhes oferecesse o código civil libertador), Beethoven apresentava as suas sinfonias no Musicverein, por baixo do qual passam agora composições do metropolitano em leito de via especialmente tratado, enquanto de forma diversa vizinhos de outros metropolitanos se queixam das vibrações induzidas.
Nos países escandinavos vive-se em paz (com alguns sobressaltos, mas predominando o conceito de paz e de segurança social, nos termos do artigo 22 da declaração universal dos direitos humanos, pelo menos por enquanto), e em paises mediterrânicos não.
Nós por cá, nem todos bem.
Há uns de nós recebendo razoáveis rendimentos e outros não, sem que a qualidade ou a quantidade do que cada um produziu tenha obrigatoriamente que ver com a quantidade de rendimento recebida.
Já se fazem manifestações por causa disso.
Dizem os que gostam de se ver na televisão ou de se ler nos jornais, que são as coisas a funcionar a duas velocidades e que isso não pode ser.
Mais uma metáfora.
Ninguém ligou a quem avisou quando foram tomadas as medidas de desregulamentação da economia.
Que se vivia melhor em economia de mercado, foi a proposta de quem agora volta a propor o mesmo (valha a verdade que legitimamente, porque se os manifestantes que se manifestam agora, a 12 de março, tivessem votado nas ultimas eleições presidenciais para sufragar os mecanismos de garantia de cumprimento do artigo 23 da declaração universal dos direitos humanos, o do direito ao trabalho, duvido muito que o senhor presidente da republica portuguesa tivesse recolhido o numero de votos suficiente para a sua eleição, mas não devemos fazer ficção histórica).

Então a explicação, ou a hipótese, apenas isso, uma entre entre infinitas hipóteses, é que vivemos na beira enlameada de uma poça de água estagnada e um deus criança entretem-se acocorado a vergastar as formigas que nós somos, a jogar-lhes em cima a água suja, a pisá-las, e sendo muitas as formigas, há sempre algumas que estão bem.
O deus criança açula uns contra os outros, pôs-lhes cérebros supostamente racionais apenas para que uns possam deduzir raciocínios lógicos de que a culpa é dos outros, mas estes outros também têm os mesmos cérebros de ilusão e também culpam precisamente do mesmo aqueles uns.
Ou nem sequer pôs cérebros ou cortexes novos, foi por estouvadice e desatenção que deixou perder genes aos organismos antecessores dos homens-formigas na escala da evolução, por exemplo os genes inibidores do crescimento das células e como consequencia os neurónios desenvolveram-se para além do razoável, e divertiu-se ainda a limitar os comportamentos poligâmicos.
De vez em quando, a mãe deus, ou o pai deus, que dedução por dedução, se não pode haver relógio sem relojoeiro, também não pode haver relojoeiro sem pai nem mãe, chama o deus criança e repreende-o, não faças isso às criaturas, coitadas, elas têm sensibilidade como qualquer bicho, mas daí a pouco lá está outra vez o deus criança nas suas sádicas atividades.
E assim sem fim, pelo menos por enquanto.

terça-feira, 8 de março de 2011

A sindroma da lotaria e a manifestação de dia 12 da geração à rasca

O jogo é uma das atividades viciantes do cérebro.
Retira prazer, isto é, produz dopamina e outros neurotransmissores, da expetativa e dos resultados, mesmo perdendo a aposta.
Não sofendo desse vício, isto é, produzindo eu a minha dopamina e outros neurotransmissores a partir de outras atividades, penso ter distancia suficiente para  fazer uma analogia com um dos dogmas do neoliberalismo que nos governa: que a riqueza advem principalmente da capacidade e da iniciativa de empreender de cada indivíduo.
Em resumo, o prémio da lotaria só sai a alguns e só sai a quem concorre.
Mas, e a maioria a quem não sai a lotaria, ou porque não tem capacidade para concorrer, ou não concorreu porque já acha demasiada a dependencia do acaso na vida corrente, ou simplesmente não lhe saiu a sorte grande porque os negócios correram mal (por exemplo, serem comprados por uma multi-nacional americana depois de esta ter posto à venda produtos concorrentes ao preço da chuva)?
A lotaria cultiva a desigualdade, e como tal devia ser contida (não digo proibida).
Talvez por isso haja tanta preocupação em aplicar os dinheiros da lotaria em intervenção social.
Mais um exemplo de remediar, em vez de atuar a montante.

Vem isto a propósito de uma reportagem no Noticias Sábado do DN sobre os "Inovadores... os empresários sem medo que tiveram a coragem de apostar em coisas completamente novas e venceram. Conheça os negócios do futuro em Portugal".
Como diz o outro, o entusiasmo e o acreditar que nos vai sair a sorte grande move montanhas e multidões.
A mim soa-me mais a iludir as pessoas.
Mas o facto é que saiu a sorte grande a alguns estes empresários. Um deles é diretor da Cisco em Londres e afirma, entre as apologias à inovação, que "o direito ao emprego não existe. Se o emprego não está disponível, devo poder criar o meu emprego ... os desempregados criam o seu emprego ou emigram". Lá está, e quem não consegue? Como dizia Melo Antunes, há espaço para todas as forms de organizaçõ e de produção. Porquê então este vício de dogmas exclusivistas? Tem de se procurar no cérebro a origem destas deficiências. Psiquiatras sociais, precisam-se. Local de trabalho: os centros de análise e de decisão dos economicómios.
Mas estou de acordo, o direito ao emprego não existe.
De facto, o artigo 23 da Declaração universal dos direitos humanos apenas declara, no seu ponto 1, que
"Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego."
Eu até acrescentaria que, para além do direito ao trabalho existe o dever, das sociedades organizadas, de fornecer trabalho, e dos cidadãos e cidadãs, o dever de trabalhar (pode ser polémico, mas o dever de trabalhar limita o direito à liberdade individual, tenho muita pena, o que legitima o direito da sociedade organizada de perguntar ao cidadão ou cidadã, em caso de duvida, por que não trabalha, com a condição de lhes dar a escolher, podendo trabalhar, várias hipóteses, incluindo horários adequados ao seu estado de saúde).

Vamos clarificar as coisas.
Os dogmas neoliberais de que não existe o direito ao emprego e de que a sociedade organizada deve minimizar a componente social dos gastos públicos, opõe-se:
- aos direitos humanos conforme a declaração universal;
- ao lema da revolução francesa, Égalité, traduzido, graças à evolução das ciencias sociais, por um indicador confiável, o coeficiente de Gini.

Custa-me ver eleger políticos que tendem mais para os dogmas neoliberais.
Especialmente quando, no tempo do afluxo dos fundos da UE, os deixou ir para atividades não reprodutivas e, no caso do metropolitano de Lisboa, sumptuárias (desperdício na construção e manutenção de estações). Pior ainda, quando colaboraram no estrangulamento da capacidade produtiva agro-alimentar de Portugal (lembram-se dos subsídios para arrancar oliveiras, figueiras, amendoeiras, vinha? lembram-se da repressão do movimento cooperativo orientado para a produção cerealífera que teve como consequencia a diminuição da área explorada de propriedades com mais de 20 ha? lembram-se do escandalo da imposição de quotas à produção de leite nos Açores? lembram-se da redução da frota pesqueira e da zona marítima exclusiva? ) .
Por isso eu gostaria de participar na manifestação de dia 12 de março da geração à rasca.
Certamente que muitos desempregados licenciados não se importariam de ir gerir explorações agrícolas para contribuir para a diminuição do endividamento público e privado do país (podiam começar por apareer na feira de Cabanas, Palmela, agora em Abril).
Mas se calhar há uma desadequação geracional; a geração de recibos verdes não deve gostar que eu receba uma reforma razoável e dirá que nunca mais morro para não ter de me sustentar (embora toda a vida ativa tenha descontado cerca de 35% do salário bruto).
E depois, se calhar, a geração à rasca não concorda comigo, que o essencial é defender os direitos e os deveres da declaração universal e centrar toda, mas toda a atividade económica e financeira no controle do coeficiente de Gini.
Se calhar não concorda comigo.
Tenho pena, de não poder alinhar na manifestação.
Tenho pena que a juventude não ouça a velhice, que a queira responsabilizar pelas dificuldades (curioso, um país tão pequeno, ter conseguido influenciar tanto a crise financeira internacional), e não pense em responsabilizar (politicamente apenas, nas eleições, que eu não gosto de vinganças) os políticos que geriram imprudentemente os fundos da UE a seguir à adesão.
Tenho pena, pronto, como é próprio da geração velha.





Por vezes dás contigo desanimado
Por vezes dás contigo a desconfiar
Por vezes dás contigo sobressaltado
Por vezes dás contigo a desesperar


De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar


De pouco vale o cinto sempre apertado
De pouco vale andar a lamuriar
De pouco vale um ar sempre carregado
De pouco vale a raiva para te ajudar


De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino


Não falta quem te avise «toma cuidado»
Não falta quem te queira mandar calar
Não falta quem te deixe ressabiado
Não falta quem te venda o próprio ar


De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino


Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção


E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
A luta continua

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Edmund Burke

A citação de hoje do DN é muito curiosa:  "A economia é uma virtude distributiva e consiste, não em poupar, mas em escolher".
O seu autor é Edmund Burke, politico inglês que apoiou a independencia das colónias americanas.
É considerado liberal e fundador do conservadorismo anglo-saxónico.
Não há detentores da verdade, mas parece importante esta ideia, no pressuposto de que a sociedade humana não consegue evitar a sua condenação eterna à condição de "produtor" e que o principal é distribuir bem.
E que economia não é poupar ...
Burke nunca ouviu falar no coeficiente de Gini.
Penso que seria uma boa ideia insistir no debate público deste indicador.
Até porque já dizia Adam Smith que a cada um segundo as suas necessidades.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Indignez Vous, por Stephane Hessel


Artigo 25.º da Delaração Universal dos Direitos do Homem

1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e
à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação,
ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos
serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na
doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de
meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.
2. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais.
Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimónio, gozam da mesma
protecção social.Cito o artigo 25 porque fiquei a dever, com a vénia também devida, ao DN e ao seu colaborador habitual, Dr.Mário Soares, a chamada de atenção para Stephane Hessel e o seu livrinho Indignez Vous.

http://en.wikipedia.org/wiki/St%C3%A9phane_Hessel

Pessoas como Stephane Hessel não deviam deixar-nos, deviam estar sempre presentes. Porque conseguiram demonstrar que a espécie humana pode ser boa.
O senhor já tem 93 anos, foi resistente em França contra os nazis e participou na elaboração da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Classificou o que o exército israelita faz nos campos de refugiados  de Gaza como "crimes de guerra". Mais recentemente, em Outubro de 2010, publicou o seu livrinho, a 1ªedição com 6.000 exemplares e atualmente vendidos 600.000. Não é um sucesso editorial, é a expressão da indignação.

Hessel, pela sua vida,  tem uma autoridade moral que a maioria de nós não tem para dizer que o povo francês (qualquer cidadão do mundo pode generalizar para o seu próprio povo) foi ultrajado pelos senhores do poder que não cumprem o artigo 25,  que acentuaram a diferença entre os pobres e os ricos, que maltratam os imigrantes, que ferem a liberdade de imprensa, que deixam as crianças palestinas serem vítimas da guerra, que atacam o sistema social de bem-estar (dizer antes assim, evocando Roosevelt e o seu welfare system, do que "estado-providência" ou "estado assistencial", que são expressões a que os adamsmithistas conseguiram associar sentimentos de rejeição).
E quem é ultrajado indigna-se e revolta-se.
É o que Hessel pede, que o povo se revolte, mas em paz e praticando sempre a não-violencia.

Como Gandhi dizia, não há caminho para atingir a paz, porque a paz já é caminho.
Posso por isso dizer, eu, que nisso acredito, embora não possa dizer que sou arauto detentor da verdade absoluta, que os burocratas da comissão europeia e do seu banco central, mais os burocratas de cada país membro e os seus banqueiros, enganaram o povo, iludindo-os até votarem neles, quando se sujeitam às eleições, impondo os dogmas do lucro como prioridade das empresas e da concorrência privada aos serviços públicos.
Com isso violando a Declaração Universal dos Direitos do Homem e enveredando abertamente por uma conduta imoral e ilegal à luz das deliberações que aprovaram essa declaração.
Se quiserem argumentar, monitorizem o coeficiente de Gini, sem subterfúgios, em vez de apregoar Adam Smith,  que entre coisas escreveu: " a cada um segundo as suas necessidades".

E estejam calmos, não levantarei um dedo para um ato armado ou violento ou que sejam julgados pelo que para mim é crime.
Basta-me a violencia do que escrevi.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Economicomio LXV – João Cesar das Neves

João César das Neves é professor catedrático de economia, autor de um livro de Economia para crianças que me parece ensinar o interesse egoísta de Adam Smith em detrimento da solidariedade, mas pode ser interpretação deficiente minha, e defensor de teorias económicas que não me são simpáticas.
Mas tem o mérito de ser um crítico das políticas económicas praticadas no nosso país desde 1997, como confessa na sua entrevista ao DN de 19 de Dezembro de 2010.
Também é autor da ideia de que, de erro em erro, Portugal tem obtido alguns êxitos (por exemplo, ainda há quem vá trabalhando e conseguindo aumentar as exportações).
O que me chamou a atenção na entrevista foi a afirmação de que no momento presente os “lobbies ” da construção estão condicionando fortemente o governo e os políticos e não estão nada interessados na intervenção do FMI, que previsivelmente lhes retiraria poder económico.
Quem concordar com a intervenção do FMI arrisca-se a ser taxado (para além das taxas dos PEC) de anti-patriota.
Mas…correndo outro risco, o de ter interpretado mal a leitura do que o senhor professor disse, e animado por o senhor professor catedrático de economia ter constatado o que Karl Marx verificou há muitos anos, que o poder económico andava a controlar o poder político, vou tentar um silogismo, começando por outra afirmação de Jerónimo de Sousa, reproduzida no DN da véspera e designada de seguida por 1, excluindo o parentesis:

1 - a quota das remunerações dos trabalhadores das empresas portuguesas é, em média, cerca de 26% dos custos operacionais, sendo que no caso das empresas exportadoras essa quota é de cerca de 15% (sendo que no Metropolitano de Lisboa, escrevo de cor, pelo que peço desculpa, os encargos com o pessoal são da ordem de 40% dos custos operacionais sem encargos financeiros e de 25% incluindo os custos da dívida);

2 – nas despesas operacionais duma empresa, uma quota de 26% é uma pequena contribuição para os custos de produção e comercialização (cuja redução melhora a tal competitividade), pelo que, sempre que é necessário reduzir os custos, deverá ser dada maior atenção aos fatores com maior expressão na contribuição para os custos;

3 – Logo, reduzir a quota das remunerações por abaixamento ou taxação das remunerações ou redução dos quadros de pessoal não são as principais medidas a tomar para reduzir os custos de produção e comercialização, q.e.d

Mas os senhores economistas insistem em cortar nos rendimentos do trabalho (penso que é para poupar os rendimentos do capital e não enervar ainda mais os “mercados”, que são organismos muito sensíveis, com os nervos à flor da pele e com tendência para fugir, nem eles sabem agora para onde, desde que o banco suíço UBS teve uma má experiência com os USA).
Podemos tentar outra perspetiva:

Mantenhamos o objetivo do senhor Tricheur, perdão do senhor Trichet do BCE, de manter a inflação contida e as taxas de juro baixas, o que se consegue, como se sabe da lei de Philips com taxas elevadas de desemprego e despesas públicas também contidas.
Ora, as quotas mais responsáveis pela despesa pública são os encargos com o estado social, enquanto agente operacional dos direitos humanos consagrados na respetiva declaração universal, e aplicáveis principalmente ao setor do trabalho, ativo e pensionistas.
Como é sabido, as receitas dos PEC são principalmente cortar nos rendimentos do trabalho, sem taxar, por exemplo, as transações da bolsa, os depósitos nos “off-shore” ou até mesmo, de forma excecional, os lucros dos bancos e as mais valias em bolsa (não confundir com as propostas taxas sobre as transações).
Logo, o esforço recairá mais sobre o trabalho do que sobre o capital (foi o que disse João Cesar das Neves, não foi? que há corte no subsídio de desemprego e no rendimento social de inserção, mas não há na alimentação das grandes construtoras). Isto é, contribuirá para aumentar a diferença de rendimentos entre as faixas de população com menores e com maiores rendimentos e agravar assim o coeficiente de Gini de desigualdade social.

Perdoarão, mas isso é contra a declaração dos direitos humanos, e eu não quero ser acusado de apoiar a violação desses direitos.
Confesso que gostaria de ver os senhores economistas demonstrar com fórmulas que o que escrevo está errado, ou que os PEC estão a sobrecarregar igualmente o trabalho e o capital.
Mas não consigo ver nenhum senhor economista a divulgar esses cálculos…
Dificuldade de interpretação minha da leitura do que eles dizem, ou de iliteracia minha dos seus cálculos matemáticos.
Será que algum leitor economista poderia facultar-me esses cálculos para publicação neste humilde blogue?

domingo, 24 de outubro de 2010

Um certo olhar em Outubro de 2010




http://tv1.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=2175&clip_wma=75073


Luísa Schmidt, socióloga no Instituto de ciências sociais, especializada em ambiente e comunicação, faz parte deste programa de debate da atualidade na Antena 2.

Ao comentar a violência urbana em França chamou a atenção para que já não é o protesto pela frustração das expetativas de uma reforma tranquila, quando há ainda alguma energia para a usufruir. O cerne da questão é o protesto contra o banditismo financeiro.

A senhora não pode ser acusada de subordinar-se a partidos ou tendências de extrema esquerda ou de esquerda mais ortodoxa.

E até Maria João Seixas, mais ligada ao atual poder político em Portugal, concordou, dizendo mesmo que a ofensiva do poder financeiro nos últimos 20 anos foi obscena.

Gosto de ouvir o programa, gosto de ouvir Luísa Schmidt, não só pelas ideias que expõe, mas pela suave pronúncia que as cidadãs cultas começam a espalhar, com a elisão dos “o” mudos a seguir aos “s” e aos “d”: partid’s, dividid’s, abs’lutamente, iss’. A sério, gosto de ouvir.

Mas também me interrogo por que deixaram os tais partidos e tendências de extrema esquerda e também os que não sendo de extrema se reclamam da dita esquerda, a falar sozinhos durante esses 20 anos.

Eu sei, o politicamente correto é dizer que nos tempos que correm não se põe a questão de esquerda e direita senão na distribuição dos deputados no Parlamento e os partidos da esquerda mais ortodoxa sujaram as mãos em sangue (não quer dizer que os outros também o não tenham feito, mas os princípios da ideologia da tal esquerda ortodoxa eram incompatíveis com isso, com a privação da liberdade, com a crítica da atribuição de prémios a quem sofre essa privação, etc, etc, mas isso é outra conversa) .

Então eu reformulo a questão: não há posições de esquerda e de direita; há apenas que obedecer ao programa da Declaração Universal do Direitos do Homem, o que é incompatível com o atual índice de desigualdade de rendimento, o coeficiente de Gini, como falado em texto recente neste blogue.

O mesmo diz, por outras palavras, o professor Adriano Moreira, em entrevista também na Antena 2, no programa Quinta essência, fundamentando na doutrina social da Igreja a absoluta necessidade de reduzir essa desigualdade (ver em

http://www.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=1152&clip_wma=75448     ).


Isto é, já se vão ouvindo, da parte de pessoas bem pensantes, coisas duras para os senhores financeiros e banqueiros:  que devem servir a comunidade, e não servirem-se da comunidade, que devem ser chamados a colaborar na resolução dos problemas, e não para explicarem como os problemas devem ser resolvidos, e como se pode baixar o tal coeficiente de Gini sem que os rendimentos dos bancos e agencias financeiras sofram muito.

Ou será uma visão demasiado marxista do que se está a passar? De que a prioridade ao lucro conduz ao ponto em que os rendimentos começam a ser decrescentes e tem de se voltar atrás (ou avançar?) no processo histórico e mudar de prioridade?