quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Variações sobre o tema da felicidade

Depois da felicidade de Jorge de Sena em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/04/felicidade-de-jorge-de-sena.html

oiço na Antena2, no programa Ultima edição de 2 de janeiro de 2012, uma entrevista com Nelida Pinon, escritora brasileira, autora de "Coração andarilho".
A escritora leu um excerto sobre a felicidade:


“Felicidade é aquela que te escraviza ao cotidiano, ao pão nosso de cada dia, e não altera a rota das tuas quimeras fracassadas.
Felicidade é quando alguém apara as tuas asas, justo aquelas que te levam a sonhar, para que tenhas como escusa do teu tropeço o nome do teu algoz.
Felicidade é olhar o espelho com a ilusão de que ninguém, em todo o planeta, reduziu o diâmetro do teu espaço na casa e na vida. Mas que, a despeito de algum vizinho cercear os teus direitos, há sempre aquele instante em que estás no jardim do parque Montsouris, no coraçao do meu bairro, a olhar os corpos entregues ao sol, como se todos, em um átimo, entretidos com as tentações da carne e do mal, houvessem se libertado do pecado original.
Felicidade é dar alimento à família e, conquanto ela seja um fardo, sufocar a ânsia que temos de nos matar ao primeiro bom-dia da manhã.
Felicidade é transmitir ao vizinho a crença moral de cuja eficácia duvidaste e defender o bem que a humanidade tenta projetar entre homens de boa vontade.
Felicidade é prorrogar a noção dos dias que se têm para viver e ignorar a sombra da morte que nos quer cobrir com seu manto fétido e surpreendente.
Felicidade é reivindicar o saber advindo da trajetória humana, e descobrir que somos carrasco, deus, herói e amante de um passado de que somos parte. E, mediante a participação nos pecados coletivos, celebrar a páscoa dos povos.
Felicidade é rebelar-se contra o amor dito perfeito, é filtrar as impurezas afetivas e, ainda assim, empenhar-se em viver.”

Não sei, especialmente numa altura em que o desânimo ameaça tantos, se a intenção da autora não seria antes pedir uma reação por contraste a essa ameaça, uma resistencia à escravização pela rotina e pela resignação.
Não digo que se desate a sonhar com salvações miraculosas, mas manter um fogo brando de utopia que convide à iniciativa e contrarie os braços caídos, acho que sim, que vale a pena. 

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