sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Tráfico de influencia



Desisto, por mais que tente nunca consigo uma análise tão perfeita como a do cartonista do DN.


Não vale a pena aprofundar mais o negócio da privatização do BPN.

Foi um caso de BIC laranja de ponta fina.

Muito fina, mesmo.

Deixa-me a pensar se os senhores governantes sabem mesmo o que estão a fazer.

Eu, na minha vida profissional, não sabia, e pensava cumprir a lei da contratação pública quando evitava contactos que pudessem ser interpretados como tráfico de influencia.

O mesmo (o tráfico de influencia, não o cumprir as regras da contratação pública) a que se referia Jorge Coelho quando respondeu angelicamente à entrevistadora da TV que o facto de ter sido ministro não iria prejudicar a sua vida profissional como gestor privado, pelo contrário, iria beneficiar da rede de conhecimentos que as funções de ministro lhe tinham proporcionado.

Na verdade, até concordo. Mais vale uma confissão sincera do que esconder as coisas.

Mas faz pena, e dá que pensar.

Eu fico mesmo a pensar nestas coisas da gestão pública, se os senhores governantes estão mesmo dentro dos assuntos sobre que tomam decisões.

Algumas perigosamente irreversíveis.

Por exemplo, será que o senhor secretário de estado da Cultura, um especialista do livro, não terá privilegiado na reestruturação da secretaria de estado e na alocação de apoios as áreas da sua especialidade?

E o senhor primeiro ministro, um gestor experiente de firmas de consultoria e formação do universo do grande gestor e investidor múltiplo Ângelo Correia, não teria privilegiado a reafetação de verbas do QREN a ações de formação em detrimento de investimentos, como deixa supor o crescimento do financiamento dessas ações?

Penso nisto quando a REFER anuncia o fecho do ramal de Cáceres em 15 de Agosto de 2012. Lá vai o Lusitânia Expresso (carruagens Talgo) dar a volta pela Beira Alta e Medina del Campo. Por Cáceres era mais perto… entretanto do lado espanhol é criado um comboio Madrid-Valencia de Alcântara. Descoordenações. A ligação rápida Lisboa-Madrid deveria aproveitar partes do traçado desta linha, pelo menos em Espanha (era aliás o previsto, para economizar nas expropriações).
Mas já estamos habituados, desde a gestão da água, da eletricidade, a estes desencontros ibéricos.
Geralmente os senhores governantes (refiro-me aos governantes em geral, não só aos atuais) têm poucos conhecimentos de transportes e têm tendencia a resolver assuntos em que se sentem mais seguros…

Penso nisto enquanto vou assistindo à inexplicável, num universo racional, dificuldade de interpretação do texto constitucional que remete a atuação das forças armadas nacionais no interior do país para ações de complementaridade e apoio. E que tem como consequência o senhor ministro da defesa não entender o papel da Marinha e dos conhecimentos técnicos específicos dos seus profissionais nas questões do mar, desde a proteção contra maremotos à vigilância das costas, e preocupar-se em exibir sua autoridade (como explicam os psicanalistas, esta preocupação revela insegurança).

Nada de ilegal, claro, o exercício de influencias (tráfico? tráfego? comércio? economia de influencia?), mas será uma movimentação de interesses denunciada e ingenuamente fundamentada na crença religiosa de que os interesses egoístas servem as comunidades (talvez, nalgumas circunstancias talvez).

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