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domingo, 21 de julho de 2013

A Precix, metalomecânica de Camarate

Moniz Mais Que Perfeito era conhecido pela peculiaridade do nome, e também pela dureza e insensibilidade que presidia à sua forma de gestão.
Militante destacado de um dos partidos de centro-direita, distinguira-se como técnico na empresa pública de telecomunicações.
Os mecanismos próprios da filiação partidária promoveram-no rapidamente a administrador da empresa e em seguida a secretário de estado da industria.
Meados dos anos 80, na euforia do triunfo da aplicação dos dogmas do novo liberalismo de Hayeck e de Friedman, enquanto por cá os efeitos da segunda intervenção do FMI e a adesão à União Europeia iam equilibrando a balança corrente e de capitais, ao mesmo tempo que o desemprego continuava alto e se sucediam fechos de empresas.
O partido de Moniz tinha ganho as eleições e exibia provincianamente o trabalho de um grupo de militantes ao serviço das novas ideias, centradas nos mercados ideais.
Era de facto visível a ação de um grupo de jovens políticos, insensíveis aos sinais de resposta provenientes de pessoas e de empresas ameaçadas, e bajuladores das empresas que triunfavam.
“Toda a empresa que não souber adaptar-se e apresentar lucros deverá ser deixada morrer”.
Era impressionante ver a frieza dos olhos de Moniz quando dizia isto, sem pensar nos riscos que os empregados dessas empresas corriam se elas fechassem só porque um grande cliente tivesse deixado passar um ano sem encomendas, nem nas consequências para a educação dos filhos dos desempregados.
Talvez pensasse que os desempregados encontrariam trabalho noutra empresa, por acreditar que a economia cresce com a livre iniciativa e isso acabaria por beneficiar quem perdesse o seu trabalho.
Talvez…. porque  Moniz e a sua família eram conhecidos por ligações a associações de beneficência e solidariedade social.
Mas a ideologia do mercado livre prevalecia, não querendo ver as distorções das externalidades, da assimetria de informação, e da escassez mais ou menos permanente.
Foi por isso a sua secretaria de Estado  insensível à petição que a administração da Precix entregou no Parlamento pedindo medidas excecionais de apoio para evitar o fecho.
A Precix era uma empresa metalomecânica de Camarate gerida por Antão Terra, engenheiro mecânico, uma figura interessantíssima com uma exuberancia e um aspeto telúrico que fazia justiça ao nome.
Um pouco mais velho do que eu, tinha-lhe o respeito devido a quem me tinha ensinado xadrez nos tempos livres do liceu, nas tardes das quartas feiras e sábados.
Antão Terra participou entusiasticamente  na adesão da sua junta de freguesia, Arroios, à nova vida logo a seguir à  revolução de 25 de abril.
Era também um entusiasta da livre iniciativa, chegando a financiar amigas com lojas de roupa em centros comerciais, facilitando contactos com industriais de têxteis do norte,
Infelizmente, as variáveis que condicionam o funcionamento da economia não são controláveis no seu conjunto, e quando se pensa que se controla uma das variáveis as outras comportam-se quase aleatoriamente. É uma ilusão o aforismo dos economistas “cetera paribus” (todas as outras coisas permanecendo iguais).
Por isso as lojas dos centros comerciais e a Precix não resistiram à segunda crise que motivou o pedido de intervenção do FMI, em 1983.
As lojas fecharam, contribuindo para o crescimento do desemprego, e a Precix lutou deseperadamente.
Continuou a receber visitas de escolas de engenharia e escolas profissionais e a produzir para clientes estrangeiros, de que o principal era a Ford americana.
Antão Terra tinha muito orgulho no que fazia para a Ford. Os componentes que fabricava obedeciam a especificações apertadas e as encomendas resultaram de um concurso internacional.
Também , no metropolitano, testemunhei a qualidade da Precix.
Fornecia-nos as lâminas de corte dos rolos de cartolina que equipavam as máquinas de venda de bilhetes.
O bilhete era fabricado pela rotação de um tambor sobre o qual estava colado um cunho de borracha que imprimia o bilhete, cortado no fim da rotação por uma par de lâminas, uma fixa e outra móvel. A dureza das lâminas temperadas e a tolerância do seu acabamento tinham de respeitar também especificações apertadas. Se não deslizassem com apoio mutuo perfeito ou se a dureza das arestas fosse inferior ao especificado a cartolina seria torcida sem cortar o bilhete e a máquina encravaria. Era o que sucedia amiúde quando as laminas eram fabricadas noutra eletromecânica.
Antão Terra sorria rasgadamente enquanto me mostrava o dispositivo de Brinnel para medir a dureza das lâminas com um jogo de esferas calibradas.

Antão Terra sorria tristemente por não conseguir demover Moniz Mais que Perfeito.
A petição à Assembleia da República não deu resultados.
Por mais que explicasse que a Ford tinha quebrado o volume de produção ao desistir das encomendas mas que era expetável que dentro de uns meses as retomasse, a resposta era sempre a mesma, “empresa que não apresenta lucros deve fechar”.
Inútil propor um plano de financiamento, ou de abertura de capital aos bancos financiadores, ou sugestão ao governo para através duma diplomacia económica arranjar investidores estrangeiros.
A Precix era competitiva, tinha capacidade de produção, tinha conhecimento técnico, esperava-se que não só a Ford mas as empresas internacionais recuperassem.

Do outro lado do Atlântico, em Detroit, Philip Caldwell, o delfim de Henry Ford II, tinha conduzido um rigoroso plano de redução de custos da Ford, que incluira a desistência dos componentes fabricados pela Precix para um modelo que a Ford descontinuara por ter estado na origem de vários acidentes.

Quando, ao fim de alguns anos, a Ford recuperou da sua crise e projetou um novo modelo, o Taurus, consultou a Precix.
Mas era tarde, a Precix tinha fechado.
Moniz Mais que Perfeito tinha aplicado os dogmas de Friedman e de Haiek.










sexta-feira, 14 de junho de 2013

Notícias em 14 de junho de 2013 - a ópera subversiva e a praça Taksim

Notícias do dia:

1 . ópera subversiva - Ópera "Aliados", de Sebastian Rivas, libreto de Esteban Buch, sobre a visita de Thatcher a Pinochet, em prisão domiciliária perto de Londres, para um chá, em 1999, já na velhice de ambos.
Reagan e Thatcher promoveram efetivamente uma revolução aplicando as ideias de Haieck e de Friedman.
Pinochet já antes o tinha tentado.
É pois natural a sintonia entre Thatcher e Pinochet.
Thatacher agradeceu a Pinochet ter trazido a democracia ao Chile (!!!), mas não esquecer, contudo , que até ela escreveu a Haieck dizendo que há coisas que não se podem fazer num país democrático (lembrete para os senhores da troika).
A ópera vai ser estreada no teatro de Gennevilliers, perto de Paris.
Após anos e anos do triunfo das ideias neoliberais, só possivel graças ao dominio mundial do problema da energia pelos USA e seus aliados (confirmado pela papel desempenhado pelo clã Bush no controle da energia primária) é bom que se divulgue esta associação.
Afinal o mercado livre não traz a felicidade dos povos.
Se os pobres de hoje vivem melhor do que os de há 20 anos, isso deve-se à tecnologia e ao progresso da medicina assistencial, não à economia de mercado.
Aliás, estudando a história da ciencia e tecnologia e a história da economia, vê-se que elas se desenvolvem em sentidos inversos: a ciencia com base na partilha do conhecimento, a economia com base na sua apropriação.
Mas não podemos exigir aos eleitores um mestrado em história das ciencias.
A aguardar mais informação sobre a ópera "Aliados".



2 - Praça Taksim - Salvo melhor opinião, há um pormenor importante que mostra a diferença entre as manifestações na praça Taksim, em Istambul, e as manifestações da chamada "primavera árabe". É que na praça Taksim são mostrados cartazes com a figura de Kemal Ataturk, que conseguiu, depois da queda do império otomano e da derrota na I grande guerra, transformar o estado turco num estado laico com estruturas democráticas modernas. O grande peso da população rural, subjugada pela tradição religiosa, tem dado a maioria ao partido islamico no poder.
Transcrevo, com a devida vénia ao DN e ao seu cronista J.M.Pureza, um pequeno texto de Kees van der Pijl, professor de relações internacionais na universidade de Sussex: "o lento ressurgimento do Islão politico dá hoje ao partido no poder na Turquia  um papel comparável ao da democracia cristã na Europa ocidental pós 1945, que serviu também para facilitar o desenvolvimento capitalista através de uma estética politica de compensação desenvolvida fundamentalmente contra a esquerda laica".
Interessante verificar, nesta perspetiva, que 7 séculos depois da idade média e 3 séculos depois do iluminismo e da revolução francesa, continuam a ser grupos restritos, por vezes familiares como o clã Bush, e como os grandes grupos económicos e financeiros, a dominar a gestão da res publica, sob uma difusa opressão religiosa, clerical e tradicional, ou emanada de faculdades de economia, condicionando as consciencias e as ações.
Mas enfim, como dizia Manuel Alegre, "há sempre alguem que resiste".



quinta-feira, 13 de junho de 2013

Adeus, nossa televisão



O leitor, se for benevolente, terá lido a pequena nota no perfil deste blogue, em como o seu cabeçalho permanecerá negro enquanto as decisões do poder central europeu derem mostras de falta de solidariedade na Grécia, lá como cá.
Parece ainda longe o dia em que o cabeçalho do blogue viajará pelo arco-íris, como a deusa grega, depois de ver nas notícias a desligação prepotente do sinal da televisão pública grega.
Dizem ainda as notícias que a televisão pública grega não dava prejuízo.
Concluo que foi uma atitude abusiva do governo para benefício das televisões privadas, como castigo dos "funcionários públicos" que lá trabalham, e como concretização das ideias extremistas de minimização do Estado impostas pelos membros, a maioria não eleitos pelos cidadãos e cidadãs, dos orgãos centrais da União Europeia, do Banco central europeu e do FMI.
Salvo melhor opinião, o ser eleito não dá a um governo o direito de fazer isto.
Como não dá o direito de privar a população idosa da televisão gratuita no processo da TDT (quando um governo quer castigar o seu povo desliga-lhe a televisão), nem de privatizar os CTT (ao menos concessionasse, como vem fazendo parcialmente) , nem de estrangular os estaleiros de Viana do Castelo, nem de prescindir dos lucros da EDP e da  REN (e dos CTT) por transferencia para empresas estrangeiras.
Por mais que esteja no memorando, não invalida a regra dos 2/3 de representação eleitoral para poder fazer-se isso ou, em ultima instancia, a submissão a referendo universal.
Democracia não é aritmética eleitoral de maioria simples .
Hitler ganhou eleições, Estaline também.
O Marechal Hindenburg não exerceu os seus poderes de contenção do monstro, e aos povos soviéticos fo-lhes sucessivamente retirada a sua capacidade de resistencia (num processo que devia ser estudado para melhorar a ligação entre o poder político e a população, em vez de se assistir a uma demonização de tudo o que seja política de esquerda no sentido do Estado de bem estar e de participação direta).

A prepotencia grega é assim um exemplo histórico de aplicação do extremismo das ideias dos mesquinhos burocratas do centro europeu, tributários da revolução de Haieck e de Friedman de estrangulamento da ação pública para dar espaço aos grandes grupos privados (coisa aliás comentada há muito em Marx).
Parafraseando Thatcher, "em países democráticos há coisas que não se podem fazer".




quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Madame Thatcher

Vai um entusiasmo enorme com o filme sobre Thatcher, com Merryl Streep.
A ponto de um ex ministro da senhora ter dito que a interpretação da atriz é "histérica".
Lembrei-me da historieta em que Estaline diz para Prokofief: a sua musica é politicamente fraca; ao que Prokofief respondeu: a sua politica é musicalmente fraca, camarada.

Será caso para dizer que, se a interpretação de Merryl Streep é, politicamente, histérica, então a performance de Thatcher foi, cinematograficamente, histérica.

Foram as politicas de Reagan e de Thatcher, beneficiando da abundancia do petróleo, apesar dos choques de 1973 e 1978, que disseminaram as ideias de desregulação de Hayek e Friedman que conduziram a maior parte do planeta à crise atual. Esta afirmação não tem nada que ver com a subjetividade das ideologias, é uma observação de factos.
Paradoxalmente, Thatcher teve de nacionalizar parcialmente a BP e a Chrysler inglesa.
De recordar ainda os acidentes ferroviários consequencia direta da liberalização e privatização dos transportes.

Mas podem os defensores das ideias de Thatcher estar descansados, o filme vai ser um exito e os espetadores só discutirão os olhos e o penteado de Merryl Streep, não estabelecerão o paralelo entre a politica de Thatcher e a politica de minimização do estado social de quem nos governa.