sábado, 26 de maio de 2018

Uma nova linha do metro de Fadópoles


Aproximando-se as eleições, o prefeito de Fadópoles entendeu que era uma boa oportunidade aplicar na construção de uma nova linha de metropolitano os dinheiros que os viajantes deixavam e os dinheiros das vendas de palacetes abandonados. Para mais, as boas condições financeiras da prefeitura até proporcionavam a obtenção de um empréstimo vantajoso por parte do banco central do subcontinente.
Consultados os órgãos dirigentes do partido do prefeito, foi desenterrado um pequeno estudo de há uns anos de uma estagiária no metropolitano, filha de um dos ministros do partido. A rapariga, aliás muito simpática, pouco andou de metro, e no seu estágio ninguém lhe ensinou os princípios do projeto de uma linha de metro, mas era muito hábil a projetar as curvas e os declives dos traçados errados. Não é assim de admirar que a nova linha escolhida para expandir a rede do metro tivesse suscitado vivas críticas. Tratava-se de uma linha circular, possivelmente idealizada após uma viagem a Londres, antes da transformação da linha circular do metropolitano em linha em espiral. Do lado dos opositores, reivindicava-se a expansão da rede a zonas ainda não servidas pelo metro.
Não quis saber o prefeito das razões dos insatisfeitos, nem da demonstração da má aplicação dos dinheiros. Porém as cúpulas do partido não estavam tranquilas e chamaram o especialista preferido de marketing, comunicação e sondagens eleitorais.
Este não tinha grandes conhecimentos sobre as técnicas de computação dos pares origem-destino para avaliar os percursos mais indicados para uma nova linha, mas conhecia profundamente os meandros das sondagens eleitorais.
Por isso, começou por traçar um quadro a preencher com os resultados das sondagens. Nas colunas, a hipótese de construção da linha circular, a hipótese de construir a linha para as zonas não servidas, e a hipótese de não construir nenhuma delas. Nas linhas, as freguesias da prefeitura (cujos nomes, curiosamente, começam pelas mesma letras com que começam os nomes das freguesias de Lisboa). No cruzamento das linhas e colunas, a percentagem de votos no partido para cada hipótese de construção.

Freguesia            linha circular          linha p/zona não servida          não construir nenhuma linha
ODI                             12%                                   20%                                           25%
AME                            15%                                  25%                                           25%
LUM                            15%                                  25%                                           25%
CAR                             10%                                  15%                                           20%
ALC                                5%                                  30%                                           15%
EST                              60%                                  50%                                           45%
C.OUR                         50%                                  55%                                           45%
Média                          23,9%                              31,4%                                      28,6%              


Feitas as necessárias sondagens a utilizadores de smartphones, o especialista de marketing concluiu que a hipótese que mais votos traria ao prefeito como recandidato seria a construção da linha para as zonas não servidas e, em segundo lugar, não fazer nada. Caso se construir a linha circular, o partido terá a pior votação.
As cúpulas do partido não gostaram, mas corajosamente decidiram, perante tais resultados, que já não se fazia a linha circular. Mas para não darem o braço a torcer, também não se construirá a linha para as zonas não servidas. Isto é, foi adotada a hipótese em segundo lugar. Estas coisas, porém, transpareceram cá para fora, e não há a certeza do que as cúpulas vão decidir a seguir, uma vez que estão a discutir à porta fechada. Pensa-se que, já que não fazer nenhuma linha dá mais votos que fazer a linha circular, então as cúpulas encarregarão o prefeito de pegar no dinheiro orçamentado e organizar um cortejo de autocarros elétricos em faixas bus na autoestrada que serve os bairros finos da zona suburbana marginal do oceano, ao longo da foz do rio que banha Fadópoles.  Perde-se a noção que se estuda na escola secundária, que existe caminho de ferro porque o atrito da roda de ferro com o carril de ferro é menor do que o atrito da roda de borracha com o asfalto. Mas isso que importa, se é de respeitar o princípio de quem detém o poder em Fadópoles, que a política se sobrepõe aos pareceres técnicos.




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