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domingo, 11 de agosto de 2013

Na morte de Urbano Tavares Rodrigues

Na morte de Urbano Tavares Rodrigues, reproduzo o poema que Manuel Alegre lhe dedicou:

No dia 9 de agosto de 2013 houve uma vaga de calor.
De certo modo ele morreu dentro de um seu romance
Não foi noticia de abertura.
Os telejornais mostraram mulheres gordas em Carcavelos
e um sujeito pequenino
(parece que ministro)
a falar de "cultura política nova"
Mais tarde este dia será lembrado
como a data em que morreu Urbano Tavares Rodrigues

e reproduzo novamente o pequeno texto que retirei de uma crónica antiga de Urbano Tavares Rodrigues no Diario de Lisboa (pedindo desculpa, por o recorte do jornal já não estar em boas condições, por não poder garantir a fidelidade das ultimas frases), mostrando o seu humanismo ("se os mais atingidos quase não ousam queixar-se") e o papel que os intelectuais podem desempenhar na sociedade em seu benefício:

Tenho um complexo de culpa, sim, eu sei.
Desde quando? porquê?
fui censurado em pequeno e até castigado,
reprimido pela mãe, como quase todos os catraios,
e tive remorsos da minha origem burguesa,
de comer e beber bem, mais tarde vestir-me "com decencia",
e até às vezes com excentricidade cara,
num país de nus, tinhosos, sebentos, deformados pela santa e cega lei.
Não suporto mais e os nervos já não aguentam.
Nunca roubei, só minto em legítima defesa.
Terei sido infiel sensualmente, mas não nos meus afetos
Porquê então este meu volumoso e incómodo complexo de culpa?
A consciencia sempre me pesou, por tudo, por nada;
devo pertencer ao género dos previamente culpados por natureza.
Daí tambem o meu desprezo pelos oportunistas e pelos moralistas das falsas composturas,
das mortes ordenadas, dos milhares de existencias que diariamente espezinham, esfarelam.
Se essas formas de ascensão deixassem marcas.
Mas não deixam.
Nem eles têm, no geral, complexos de culpa.
Paciencia! Se os mais atingidos quase não ousam queixar-se!
Se falamos quase sem eco!
É certo que na hora certa, todos nós, intelectuais, estaremos no local certo.
E espero então libertar-me, um pouco que seja, deste complexo de culpa!

sexta-feira, 1 de março de 2013

De Urbano Tavares Rodrigues, um complexo de culpa

De Urbano Tavares Rodrigues, uma crónica que encontrei num recorte incompleto do Diario de Lisboa de antes de 25 de abril de 1974.
Porque o recorte estava incompleto, tentei reconstituir as linhas que faltavam, pelo que peço desculpa.
Mas pensei que era importante registar este texto, por desgraça ainda atual, não só pelo triunfo, de momento, de oportunistas e moralistas reguladores, como da dificuldade de integração e do reconhecimento geral do papel dos intelectuais.


Tenho um complexo de culpa,
sim, eu sei.
Desde quando?
porquê?
fui censurado em pequeno e até castigado,
reprimido pela mãe,
como quase todos os catraios,
e tive remorsos da minha origem burguesa,
de comer e beber bem,
mais tarde vestir-me "com decencia",
e até às vezes com excentricidade cara,
num país de nus, tinhosos, sebentos,
deformados pela santa e cega lei.
Não suporto mais
e os nervos já não aguentam.
Nunca roubei, só minto em legítima defesa.
Terei sido infiel sensualmente, mas não nos meus afetos
Porquê então este meu volumoso e incómodo complexo de culpa?
A consciencia sempre me pesou, por tudo, por nada;
devo pertencer ao género dos previamente culpados por natureza.
Daí tambem o meu desprezo pelos oportunistas e pelos moralistas
das falsas composturas,
das mortes ordenadas,
dos milhares de existencias que diariamente espezinham,
esfarelam.
Se essas formas de ascensão deixassem marcas.
Mas não deixam.
Nem eles têm, no geral, complexos de culpa.
Paciencia!
Se os mais atingidos quase não ousam queixar-se!
Se falamos quase sem eco!
É certo que na hora certa,
todos nós, intelectuais,
estaremos no local certo.
E espero então libertar-me,
um pouco que seja,
deste complexo de culpa!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Alves Redol

Com a devida vénia ao DN, a propósito das comemorações do centenário de Alves Redol, transcrevo parte do depoimento de Urbano Tavares Rodrigues:

"...em Barranco de Cegos ... Redol dá um passo em frente no neo-realismo, pois compreende que para falar com as gerações do futuro tinha de avançar por territórios estéticos novos ...ele era um homem com uma vida cheia de complicações amorosas ... conhecidas quando as suas musas se encontravam umas com as outras nas horas de visita da prisão ... não escreveu sobre os mais pobres, ele escreveu para os mais pobres, porque acreditava que o conhecimento é o maior modificador das vontades e dos destinos".


É esta mensagem, de que o conhecimento é o maior modificador das vontades e dos destinos, aliás glosada mais tarde pelos gurus do marketing e de organizção de empresas sob o conceito de informação, que importava passar às pessoas, da importancia da educação no futuro do país.


Transcrição do artigo da Infopedia sobre o Barranco de cegos, de aparente e perigosa atualidade:

"Situado historicamente no período de falência nacional que sucedeu ao ultimato inglês de 1890, narra a luta de um proprietário ribatejano, Diogo Relvas, contra a invasão das indústrias e dos interesses financeiros, num contexto de progressiva afirmação do capitalismo. O título do romance, Barranco de Cegos, retirado da epígrafe de S. Mateus ("Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco") anuncia, no entanto, que esse combate se encontra à partida perdido: o romance narra a caminhada inconsciente e irremediável da família Relvas e da nação para o abismo de derrota e de morte, simbolizados, no último capítulo, no corpo embalsamado do velho Relvas que persiste em manter-se agarrado à vida. Cegos são os servos, criados e campinos oprimidos, comandados pelo cego, obstinado e autoritário, Diogo Relvas, ele também guiado por outros cegos, os políticos, o rei, correndo todos para um precipício onde "tudo o que merecia ser vivido iria acabar na subversão" (p. 180, Europa-América)."