terça-feira, 3 de novembro de 2009

Economicómio XXVI – Luis Sepulveda e o liberalismo

Luis Sepulveda é um escritor chileno que pertenceu à juventude do partido de Salvador Allende.
Oiço-o em entrevista na Antena 2: o Chile antes de Pinochet produzia tecnologia e tinha um parlamento com 136 anos de vida democrática; agora o Chile só exporta frutos, peixe congelado, camarões e vinho. As fábricas e as minas fecharam como consequência lógica do neo-liberalismo imposto pela intervenção estrangeira.
Todos podemos comprovar nos hipermercados a presença dos frutos , do peixe congelado, dos camarões e do vinho chilenos.
É um facto histórico a intervenção nas bolsas, em 1973, para baixar a cotação do cobre de que o Chile era um grande exportador. E também é um facto histórico o financiamento pela CIA da revolta de Pinochet contra o governo constitucional saído de eleições democráticas (em 1936 também houve uma revolta semelhante em Espanha, de Franco contra o governo republicano constitucional, saído de eleições democráticas, só que sem intervenção da CIA).
É outro facto histórico que os economistas chilenos de Pinochet decidiram experimentar os conceitos neo-liberais de Milton Friedman. E acabou a indústria chilena. Claro que não podia competir. Por que temos de suportar este dogma da competição que nos afoga a todos? Até à GM?
Reagan e e Tatcher encarregaram-se de espalhar o neo-liberalismo pelo mundo, enquanto a abundância de petróleo o permitiu (já é do domínio público que o mar do Norte já passou o pico, não é?). Fecharam indústrias e reduziu-se a capacidade agrícola nos países mais desenvolvidos e nos menos desenvolvidos e, graças à tecnologia, a produção aumentou. Convenceram-se jovens economistas, que os jovens são fáceis de iludir, das virtudes do liberalismo e do mercado a funcionar. Os jovens são generosos e não ligaram aos avisos de que o mercado não funciona se a informação for assimétrica, ou se houver escassez e nem deve funcionar se uma necessidade social se sobrepuser.
Até à recessão de 2009.
Mas já vamos lançados em voltar ao aumento da produção.
Mesmo depois de avisarem o pessoal, mais uma vez, que este tipo de desenvolvimento não é sustentável. Isto é, estamos a consumir mais do que o que produzimos e a dissipar os recursos não renováveis. Temos de mudar o padrão de consumo (citação do discurso de Santo António aos peixes, uns grandes e acumuladores de mais valias, outros pequenos e pasto dos predadores).
Intervenção americana no Chile em 1973 (honra a Jack Lemmon que fez um filme denunciador).
Apoio americano à UNITA e à guerra civil desde 1975, contrariando a recomendação do encarregado de negócios americano.
Invasão do Iraque em 2003.
Golpe de estado no Irão em 1953 para deposição de Mossadeg (colaboração CIA-M16, devidamente comprovada). Bombardeamentos no Afeganistão em 2009 com vítimas civis.
Não será altura de parar?
Havendo relação entre isto tudo, como parece que há (a ocasião faz o ladrão…), poderemos acusar o neo-liberalismo de crimes contra a humanidade?
Oiço também na Antena 2 a entrevista de um jornalista francês que descreveu o processo de libertação da África do Sul do aparteid. A dado passo, comentando o ambiente propício do liberalismo à livre iniciativa de associações criminosas, cita Lucky Luciano: “É mais difícil ganhar um dólar desonesto do que ganhar um dólar a trabalhar honestamente”. Difícil, nos tempos que correm de contenção dos preços com taxas altas de desemprego, é arranjar trabalho para ganhar o dolar honesto. Sabedoria de mafioso.
Sim, acho que posso acusar o neo-liberalismo de crimes contra a humanidade, mas estejam descansados, não vou lançar nenhuma petição.
É um tribunal interior, não há legislação de suporte para julgar os responsáveis, que para mim são criminosos ao nível de Lucky Luciano mas com a diferença que a sua actividade económica tem cobertura legal.
Não são os únicos (claro que não, não se pode negar a evidência das experiências, efectivamente falhadas e tão combatidas dos antigos partidos comunistas) mas são, de acordo com o meu critério, criminosos.
Foram os governos e as políticas liberais que tiveram mais força no período nas últimas décadas do século XX. Logo… a sua responsabilidade será maior. Já não se pode atirar as culpas para cima dos comunistas (violavam os direitos humanos, não era? O derrube de Salvador Allende e os assassínios dos seus partidários são o quê?).
E, no entanto, Michelle Bachelet, que foi militante da juventude do partido de Salvador Allende, tal como Luis Sepulveda, é agora presidente da republica chilena.
Recomecemos, pois, como os manifestantes silenciosos de Gandhi que se levantavam depois da polícia os derrubar a paulada.

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