segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Economicómio XXVII - “Um gajo tem de trabalhar onde há trabalho”

Homenagem aos trabalhadores portugueses do viaduto de Andorra.

Um dos colegas dos trabalhadores mortos disse uma evidencia que para a comodidade das vidas de muitos de nós choca pelo contraste com essa mesma comodidade.
Estamos entretidos com a ascensão e queda de um pequeno funcionário duma dependência bancária de Tras os Montes, com os concursos e as telenovelas da televisão, enquanto alguns de nós vão e vêm , através da fronteira com Espanha.
Os mesmos que iam à India e traziam a pimenta e cujas viúvas nada recebiam se a nau naufragasse com eles.
Os economistas que nos governam tinham-nos avisado: com a crise (excesso de produtos nas prateleiras das lojas, preços baixos e desemprego alto), quem tivesse emprego fixo ficava melhor, quem não o tivesse ficava pior.
A necessidade de ir trabalhar para longe resulta, não por correlação mas por relação de causa e efeito, duma coisa (utilizo o termo na acepção de entidade desumanizada) que nos entusiasmou há uns anos, pelo menos à maioria de nós, e que é a globalização.
A globalização permite o abaixamento dos preços no consumidor.
Esse é um facto.
Porém, através da concentração da produção em regime quase de monocultura (especialização elevada em qualquer local do mundo, longe do centro de gravidade dos consumidores), e do aproveitamento dos transportes baratos, a produção está longe, muito longe dos consumidores.
O Automóvel Clube é capaz de me expulsar, mas os combustíveis estão baratos, que diabo, muito baratos, e a globalização é uma das provas que estão baratos: produzir localmente deveria ser mais barato por estar perto do centro de gravidade dos consumidores; se me falarem da economia de escala falem-me também das melhorias de produtividade em pequenas produções graças à evolução tecnológica.
Não é só a produção que está longe.
É o próprio trabalho que está longe, em Andorra.
O trabalho deveria estar mais perto da aldeia dos trabalhadores do viaduto de Andorra.
O país é pobre mas o trabalho tem de aparecer.
As mentes bem pensantes que o querem atrasar não têm de ir e vir a Andorra, e quanto mais o atrasarmos mais portugueses morrerão nas estradas de Espanha a ir e vir para o trabalho.
Se quisermos avaliar as vantagens da globalização, temos de avaliar também as suas desvantagens.
Uma análise não deve ser apenas de benefícios (que os tem, a globalização, neste caso tem os salários dos trabalhadores e a sua contribuuição para o equilíbrio da balança de pagamentos do país, pobre como sabemos).
Devem contabilizar-se os custos. E neste caso, nos custos, estão as perdas de vidas humanas, estão a desertificação de extensas área do interior do norte do país, estão o abaixamento da produção interna.
Porque não fazem os economistas que nos governam contas a isto? (já disse que não me refiro aos economistas do governo; refiro-me aqui aos que alimentam a ideia que vivemos numa nova economia maravilhosa, em que a crise do Lehman Bros até ilustra as maravilhas do sistema, e que portanto governam, ou querem governar, a nossa consciência).
Ofereço este argumento ao governo, de que não gosto, mas nisto concordamos (assim já posso criticá-lo no que discordamos).
Sinto ainda que devo referir que, apesar das limitações que nos são próprias, tem-se verificado em Portugal um aumento da cultura da segurança no trabalho.
É verdade que houve uma grande transferência da força de trabalho ao nível de licenciados para esta disciplina, graças também a uma legislação vinculativa, e isso tem custos.
Têm sido raros os acidentes mortais em obras do Metropolitano de Lisboa, por exemplo (último acidente fatal em 2002, com um gruista na obra de Telheiras). Na última expansão, da Alameda para S.Sebastião, apesar das pressas, não houve acidentes fatais devidos à obra. Apesar do desastre do túnel do Terreiro do Paço em Junho de 2000, também não os houve na expansão da Baixa para Santa Apolónia.
Existem muitas dúvidas de que os empreiteiros nas obras dos viadutos espanhóis cumpram os procedimentos de segurança.
Também tivemos cá acidentes, muitas vezes nas mesmas circunstancias de pressas e de falha dos apoios da cofragem da betonagem (situação mais crítica devido à sobrecarga da água), mas a situação agora parece mais controlada, e nesse sentido não devemos criticar o não cumprimento da promessa de conclusão da CRIL antes de 2009-09-27. Só devemos criticar a promessa.

Nota (créditos, como dizem os anglo-saxónicos): como na realidade as minhas ideias são poucas, pelo que estou sempre a repetir-me, como também dizia Jorge Luis Borges, tive nesta apreciação sobre a globalização de me socorrer das ideias de James Kunstler, no seu livro “O fim do petróleo”, que me foi recomendado por um dos leitores ocasionais deste blogue, e que recomendo vivamente, desde que não se deixem impressionar pelo seu tom levemente catastrofista.

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