terça-feira, 24 de novembro de 2009

Securitarium II - Romeu e Julieta, ou a obsessão mortal





Romeu irrompeu irado pela capela onde Julieta se confessava a frei Lourenço.
Derrubou o frade que se interpusera no caminho para Julieta e agarrou-a violentamente enquanto gritava: “Se não és minha, não serás de ninguém”.
Desrolhou o frasco , forçou a boca da ex-namorada e despejou meio conteúdo do veneno na garganta da pobre Julieta.
Frei Lourenço , soerguendo-se a custo, recebeu, ainda inclinado para a frente, uma pancada violenta com o cabo do punhal de Romeu que o deixou prostrado e inconsciente.
A acção do veneno foi fulminante na pobre rapariga, que cometera o pecado de anunciar a Romeu, em mensagem que a aia lhe tinha feito chegar, que estava tudo acabado entre eles.
Que ele era ciumento e desconfiava de qualquer olhar ou palavra dirigida por Julieta a outro homem. Que queria saber tudo o que Julieta pensava ou fazia. E assim, não valia a pena viver uma vida em comum com quem tão inseguro era. E isso não tinha nada que ver com o facto de serem Montecchios ou Capuletos.
O que Romeu fizera tinha sido premeditado.
Sem Julieta não havia motivos que o prendessem à vida. Vivia-se um período de calmaria guerreira, as actividades bancárias da sua família não o seduziam, o que é forma de dizer que não conseguia concentrar-se na matemática, e na verdade já andava entediado dos jogos de armas e das festas com que se entretinha. Também não se via a administrar as propriedades agrícolas da família de Julieta se, por bençãos de frei Lourenço, o casamento viesse a realizar-se.
A obsessão de Romeu por Julieta compensava-o da sua incapacidade em se afirmar noutras actividades. A separação de Julieta deixá-lo-ia no vazio e, acima de tudo, despeitado perante o seu orgulho de macho da classe superior de Verona.
Frei Lourenço, que fora o preceptor dos dois, não tinha supervisionado convenientemente o desenvolvimento intelectual de Romeu, deixando que predominassem as actividades lúdicas, as actividades guerreiras de sobre-valorização do eu afirmativo , e as de entretenimento e de contemplação narcisista. Os pais também não estiveram muito atentos, preocupada a mãe com as obras pias e o pai com os lucros do seus bancos.
E assim, Romeu bebeu o resto do veneno e tudo acabou em tragédia, não exactamente como Shakespeare imaginou ou os habitantes de Verona quiseram que se acreditasse.


Este texto é dedicado às vítimas da violência passional.No momento em que escrevo, morre em Portugal 1 mulher de 13 em 13 dias, vítima de violência passional.
O assunto é principalmente do foro da psiquiatria, não da estatística. Existem causas sociais e psicológicas, desde os imperativos sociais à auto-estima, do stress profissional ao estigma do desemprego ou medo dele.
Mas fundamentalmente, no fim de tudo , é porque não se quer entender que a relação entre duas pessoas deve ser uma ligação livre, em que cada um decide e tem vida própria.
É preciso que a mensagem passe nas escolas e nos meios de comunicação social:

O que é normal é cada um decidir e não ser castigado por isso.
O que é anormal é querer que alguém seja de alguém.
E os servidores dos imperativos sociais que pensem nisso, que deixem de julgar, como pedia o doce rabi.

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