sexta-feira, 5 de julho de 2013

Rápido como um rápido de água


A cadeira do poder, no cimo da alameda


Há uma despesa inglória na construção para o comboio subterrâneo.
Toda a terra que teve de ser removida para a construção do túnel tem de ser reposta depois da sua execução.
Dirão os economistas que será um ativo inglório e não reprodutivo.
Isto é, não é só a construção da estação e da galeria que tem de ser contabilizada.
Também o custo da escavação e da reposição da terra tem de o ser.
Pensou-se rentabilizar o espaço resultante com parques de estacionamento, instalações técnicas como subestações, depósitos de água.
Nem sempre se conseguiu.
Por isso se utilizam métodos de construção de túneis e estações sem que seja necessário abrir a superfície.
É, por exemplo, o método NATM (new austrian tunnelling method), em avanço lento da escavação como se fose uma mina, com armação de uma estrutura primária de contenção, monitorização rigorosa dos deslocamentos dos terrenos e construções adjacentes, e finalmente execução do túnel definitivo. O avanço é de cerca de 2 metros por dia.
A superfície não é perturbada, apenas é necessário garantir o acesso das máquinas escavadoras, dos ventiladores, das bombas de água e dos tapetes rolantes de remoção de terras.
Outro exemplo é a tuneladora TBM (tunnel boring machine), como se fosse um comboio cuja locomotiva é um disco com fresas, cujos vagões são os tapetes de remoção das terras e resíduos de rochas, resultantes do movimento rotativo das fresas, e os braços articulados de armação e entalhe das aduelas.
Um anel completo do túnel, com 1,5 metros de comprimento e cerca de 10 metros de diâmetro, pode ser composto por 7 aduelas, aparafusadas entre si.
É possível, embora não se recomende fazer isso muitas vezes, construir 25 metros por dia de túnel pronto a receber o leito de via.
É necessário providenciar um poço para descida da máquina. No caso de não ser recomendável construir o poço na vertical do túnel, tem de construir-se uma galeria adicional entre o poço e o traçado do túnel.
Foi o que sucedeu no prolongamento da linha do Oriente, da estação Alameda para a estação Saldanha e depois S.Sebastião.
O poço de descida da máquina, com um diametro quase d e20 metros, foi construido ao cimo da Alameda de D.Afonso Henriques, no canto Poente e Norte, onde agora está o monumento à cadeira do poder, com o seu plano inclinado, de bronze implacável, pedindo com o auxílio da lei da gravidade aos eleitos  que não se agarrem ao poder.
O concurso para a construção do túnel desta ampliação foi algo bizarro  e pode ser considerado  a obra prima, enquanto obra surrealista, de Tovar Figueira Franco, o comissário politico de um dos partidos frequentadores do poder, saltitão entre as administrações das empresas municipais de Lisboa e empresas de transporte, administrador público muito querido de empreendedores da construção civil.
O contrato, passando por cima do parecer técnico dos especialistas de construção civil, quis aproveitar a velhinha tuneladora cujo eixo tinha empenado na obra da Ameixoeira para o Campo Grande, reduzindo o impacto à superfície  para compatibilizar a obra (pelo menos o acesso da tuneladora ao subsolo e a construção da sibaritica nova estação de Saldanha) com a agenda eleitoral da câmara de Lisboa sem incomodar  muito os eleitores.
Figueira Franco mandou pôr no contrato que a tuneladora devia ser descida no grande poço de ventilação no parque de estacionamento do Palácio da Justiça e ser retirada no poço da Alameda. Mas como se previam dificuldades de obra e de planeamento na coordenação da passagem da tuneladora sob a linha pré existente da Avenida da Republica,  Figueira Franco determinou no próprio contrato que o sentido de marcha da tuneladora poderia ser o contrário, com acesso pelo poço da Alameda.
E foi o que aconteceu, implicando alteração do cronograma financeiro e um atraso de quase dois anos para reformulação dos projetos.
Os comboios começaram a circular no novo troço no verão de 2009, sete anos depois do contrato de Figueira Franco, quando era comissário politico principal na administração do metropolitano Franklin Duques.
Franklin  Duques, economista de formação, que encontrara consolo no seu partido depois de uma experiencia infeliz no departamento de produtos financeiros innovadores num dos maiores bancos, gostava de interferir em questões de engenharia.
Assim como assim, se os eleitores, por força quase tão divina como a que Bossuet concedia a Luis XIV menos de 2 séculos antes da revolução francesa, legitimavam o exercício do poder executivo pelo partido ganhador das eleições,  mesmo com uma expressão minoritária relativamente ao universo dos eleitores inscritos, então essa mesma força quase divina poderia, por extensão, legitimar o poder decisório do comissário politico sobre questões para as quais não tinha recebido formação académica ou profissional.
E havia sempre, no grupo de militantes do seu partido, técnicos que, apesar de não serem especialistas em muitas das questões que tinham de ser decididas, apoiavam Franklin Duques, desprezando os pareceres técnicos dos especialistas.
Foi então que um grupo de nós, que há anos vinha analisando experiencias de aproveitamento das águas subterrâneas em metropolitanos estrangeiros, para rega e instalações sanitárias, como era o caso do metro de Barcelona, propôs a utilização do poço da Alameda para depósito de águas, para rega por gravidade do relvado adjacente e dos jardins do Instituto Superior Técnico, com um pouco mais de energia para bombagem.
A proposta visava tambem alguma economia de energia pela redução da fatura da EPAL no abastecimento de água das duas estações da Alameda. A água nasce co abundancia no leito de via da nova estação Alameda e requer alguma energia para bombagem para o coletor municipal, onde se perde ingloriamente. Bombar a água para o poço transformado em depósito  pouco mais energia requereria.
Aproveitei para insistir que em vários pontos da rede do metro existem nascentes de água que igualmente se perdem sem glória no coletor municipal, enquanto a EPAL gasta energia para colocar água sob pressão, vinda do Castelo de Bode e do Alviela, nas instalações sanitárias das estações. Igualmente o metropolitano gasta energia para bombar essa água, que inundaria a via e provocaria pressões indesejáveis nas estruturas. Calculei em 300.000 metros cúbicos a quantidade de água e 6 MWh de energia poupada à EPAL por ano.
Mas Franklin Duques não terá precisado de consultar especialistas de hidráulica porque, rápido como um rápido de água, determinou o enchimento, com terra, do poço e da galeria adicional.
Na semana seguinte à da proposta já a superficie da alameda estava reposta, contrariando assim, pela rapidez, o hábito das obras ronceiras de reposição.
Franklin Duques terá dito que receava que alguém da câmara propusesse o aproveitamento da galeria de acesso para depósito e estágio de vinhos, e o poço para discoteca noturna com cobertura de vidro para contemplação das estrelas no zenite.

A água nascente continua a correr sob o leito de via e a ser bombada para o coletor municipal.

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