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sábado, 29 de novembro de 2014

Algo vai bem no reino da Dinamarca

Por oposição ao nosso reino, algo vai bem no reino da Dinamarca.
Conviria aprender alguma coisa com os paises escandinavos, ler Karen Blixen, por exemplo (Out of Africa, La fete de Babette...), analisar os métodos participativos dos cidadãos e cidadãs islandeses na reação à crise, o respeito pelo Estado social de qualquer partido de direita ou de esquerda no poder em qualquer dos paises escandinavos, o igualitarismo no sistema de educação finlandês...
Se falo na Dinamarca foi porque encontrei o meu amigo Silva Nunes a contemplar um gatinho na montra de uma loja de animais. Por mais do que uma vez ele me devolveu processos de concurso.Alguma coisa não cumpria os requisitos jurídicos ou técnico-económicos do procedimento do concurso e a sua preocupação com o rigor não perdoava. Um chato, como se poderia dizer, no melhor sentido, claro. Mas desta vez tinha outras preocupações, talvez comprar o gatinho para lhe fazer companhia, agora que o filho foi trabalhar para um hospital na Dinamarca.
E eu não me lembraria de contar este pequeno encontro se à noite, para assistirmos à ópera de Gluck, Paris e Helena, estreada em Portugal no centro cultural de Belem após quase 300 anos depois de escrita, um verdadeiro sucesso de interpretação dos músicos e cantores portugueses (principalmente cantoras), não me sentasse ao lado de uma colega de curso da minha mulher. Que nos contou que o filho tinha sido contratado por uma universidade na Dinamarca.
Bom, não vou prolongar a história, porque tenho de mandar uns emails para a minha filha que trabalha em Macau e para a minha sobrinha que trabalha em Luanda.
Pobre Relvas, que achava isto muito bom, esquecendo que se a percentagem de jovens a trabalhar no estrangeiro ultrapassar o limite que foi ultrapassado, isso significa que se está a violar aquele artigo da declaração universal dos direitos humanos, que diz que ninguem deve ser obrigado a ir para onde não quer.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A orquestra XXI e Pedro Sena Lino



Tive muita pena de não ter assistido aos concertos da orquestra XXI.
Diz quem assistiu que o som da orquestra foi muito bom.
Que a soprano Susana Gaspar também, embora ainda não tenha atingido o apogeu da sua carreira.
A orquestra XXI é composta por jovens músicos portugueses que trabalham na sua profissão em grandes orquestras estrangeiras.
Reuniram-se em Portugal verão e com meia dúzia de ensaios produziram um espetaculo de elevado nível.
O senhor ex-ministro Relvas diria que nos devíamos orgulhar. Mas eu tenho pena.
Estes jovens descontam para as pensões dos reformados dos paises em que vivem, não para os reformados portugueses.
Eu contribui com os meus impostos para os cursos que tiraram em Portugal (alem de uns empréstimos externos que até 2005 não subiram a divida alem dos 60% decentes). Agora, é mais um setor de atividade, e ligado à cultura (gerador de riqueza, segundo alguns economistas, pelo que não devia ser estrangulado), em que tenho de ouvir os senhores governantes dizerem que há um défice demográfico e que a segurança social não é sustentável.
Com o PIB a decrescer e a emigração a subir não é, claro.
Que será preciso acontecer para os senhores do governo se convencerem que têm de fazer o PIB crescer? (o QREN é um dos meios…mas era preciso que os decisores e os seus conselheiros soubessem onde investir).
Falo nisto também porque acabo de ouvir na Antena 2 um poema de Pedro Sena Lino, professor de literatura portuguesa a viver em Berlim.
Um jovem de menos de 40 anos, também emigrado, depois da sua empresa de iniciativas culturais ter falhado em Portugal.
Escreve bem.
Trata a cidade de Berlim como uma mulher, ou terá usado a cidade e o seu anjo como pretexto para falar da sua paixão.
Quando poderá escrever em Portugal?
Quando teremos finalmente em toda a Europa a taxa Tobin? Quando uma empresa portuguesa com os pagamentos em dia terá acesso a empréstimos para investimento em bens transacionáveis à mesma taxa de juro de uma empresa alemã?
Quando os grupos financeiros e bancários deixarão de ter força para impor cortes aos pensionistas que auferem menos de 600 euros por mês?
Quando finalmente se poderá rever o tratado de Lisboa para que os Estados possam contrair divida junto do BCE e não junto de bancos intermediários usurários?
Quando passarão a pagar IMI a Igreja e os grandes grupos imobiliários?
Quando deixará de se utilizar o estratagema de transferir divida externa privada para divida publica?

Nollendorf platz, Berlin love song é para ti, cidade, no teu anjo

como uma ruína morre e se torna vida.
foi isto, tu comigo, nós.
não páras de te criar, cidade velha e nova, noiva.
nunca chego suficientemente à tua boca,
nunca te tomo todos os lábios de pedra.
começas no fim, inventas um rio, guardas o sol num quadro.
queres amantes insones, que desfaçam as palavras todas contra o teu corpo.
queres o seu fluído limpo, catedral, desejo absoluto.
queres a fome dos loucos, que gera toda a gramática do futuro.
mas dobro-te as pernas com o meu amor, tomo-te os lugares onde nunca foste amada, bebida, desdobrada.
dou-te o meu coração de sangue, se o quiseres - faz com ele uma esquina onde nunca mais um abraço de pedra e carne termine.
não te tenho nunca, e é por essa sede que me procuras, ruas.
pontes onde nunca mais haja um muro que não seja invisível, arco.
como são escadas as tuas águas, ó sempre grávida do futuro.
não páras de me criar, luta, amante.
queres-me sempre mais além do que eu imagino ser eu.
tão simples na tua natureza nua de milagre.
nas tuas ruas corre o meu sangue, nunca suficiente.
só tu o bebes e ardes, música de água.
sei que nunca vamos chegar um ao outro.
é por isso que quero que morramos juntos - dois tempos sobrepostos, como as galáxias amam.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sociologia para diagnosticar e tratar este país, precisa-se: o suicidio, o ensino, a delinquencia, os lemingues, a emigração e a importância de ser mulher para a tomada de decisões


Comecemos pelo fim, da importância de ser mulher para tomar decisões: a evolução desenvolveu nas espécies mecanismos de proteção e de manutenção das espécies, adaptando o género feminino a esse objetivo.
O organismo feminino, nas espécies em que a estatura está a aumentar, tem tendência para ser de menor dimensão do que o organismo masculino. Mas nas espécies em que a tendência é para diminuir de tamanho, como nos aracnídeos, a fêmea é maior do que o macho.
Isto quer dizer que as experiencias e as tentativas de inovação da evolução da espécie não trazem riscos para a sua conservação porque a parte feminina conserva os genes que já provaram que funcionavam. Se a experiencia correr mal, é a tendência masculina que é abandonada.
Na espécie humana, o fenómeno estendeu-se à capacidade de análise de ameaças para a espécie. Podemos imaginar como se estivéssemos num programa do National Geographic, o conselho de mulheres a criticar as decisões impulsivas dos chefes da tribo nómada na escolher precipitada de um caminho a tomar, só porque os chefes acham que uma decisão rápida é uma manifestação de liderança.
Num antigo concurso de televisão de grande audiência, uma das concorrentes que manteve uma presença prolongada, tinha um bordão ao comentar factos e ditos infelizes da nossa sociedade: “isto é normal?”. Na aparente boçalidade da expressão estava contida essa capacidade de análise feminina que define a linha da normalidade, de garantia do equilíbrio e de conservação da espécie.
Já a minha mulher, com um sorriso triste de quem na sua vida de professora assistiu a demasiados exemplos de alunos desviados do curso “normal” do ensino e do sucesso escolar, comenta que pessoas normais nunca diriam o que os senhores governantes dizem e nunca resistiriam agarrados aos seus lugares às críticas fundamentadas que lhes são feitas (o facto de os senhores governantes reagirem sistematicamente às criticas reafirmando que são eles que estão certos e não os críticos é um dos sintomas mais fáceis de interpretar em psiquiatria).
Por tudo isto, não surpreende a tomada de decisão do presidente da junta de freguesia de Castelo de Neiva, Viana do Castelo, que depois de reduzir a divida da freguesia de 33%, sem conseguir derrotar as burocracias que impedem a correção da barra onde morre gente, fechou o seu restaurante por não aguentar a subida do IVA e  volta a emigrar para o Canadá, onde já se encontra a sua esposa. Também neste caso a sabedoria feminina não terá andado arredia da tomada de decisão, depois de análise irremediavelmente critica.
Temos assim que os senhores governantes deveriam dar mais atenção a este tipo de análise feminina, para combater a metáfora dos lemingues, roedores na tundra escandinava (ver http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%AAmingue     ). Embora a observação cientifica tenha provado que era um mito o suicídio coletivo dos lemingues, interessa reter que a falta de controle na taxa de crescimento da espécie em períodos de abundância de alimento conduz a um excesso de população que obriga a deslocações maciças em busca de alimento. E é nessas deslocações que ocorre grande numero de mortes por afogamento nos lagos da tundra devido à pressão da multidão.
O que nos leva, a propósito do descontrole em períodos de abundância, aos restantes temas do título, suicídio, ensino e delinquencia.
A comunicação social gosta de apresentar a perspetiva individual em cada noticia de suicídio, ensino ou delinquencia.
Tende a esquecer a componente social de cada fenómeno.
Em Sociologia, com Durkheim, desenvolveram-se técnicas de abordagem destas problemáticas com a análise dos dados estatísticos segundo perspetivas e hipóteses associadas à sociedade, para alem das causas e circunstancias individuais.
O suicídio, sempre estudado com base na recolha histórica de dados, poderá assim resultar mais da desestruturação social, como a falta de meios para prestar uma assistência digna aos idosos com menores recursos ou em arranjar empregos para os jovens, do que de uma desestruturação psicológica, aliás ela própria resultante da desestruturação social.
Temos assim que num meio social de fraca coesão social os suicídios tenderão para serem de natureza individualista; numa comunidade de coesão social forte o suicídio poderá ser altruísta, como o caso de um  membro de uma familiar se suicidar de pois de matar os familiares, por desistência de lutar contra as adversidades.
Poderá concluir-se que uma tendência para o aumento de suicídios individuais corresponda a um fenómeno de suicídio coletivo, e seria muito interessante ouvir o que os senhores governantes da área respetiva pensam sobre a problemática do suicidio. Persistindo o silencio, a ignorância e ausência de iniciativas dos governantes perante a problemática do suicídio estaremos numa situação arripiante.
Quanto ao ensino, as técnicas sociológicas podem concluir que a organização do ensino utiliza o insucesso escolar para perpetuar a estrutura de classes existente e selecionar e distibuir os alunos pelos diferentes tipos de profissão, impondo uma cultura estratificada em que a capacidade financeira e cultural dos encarregados de educação condiciona o sucesso dos alunos (pais com menores habilitações literárias batem mais nos filhos;  filhos de pais com menores habilitações literárias têm maior predominancia de obesidade infantil - resultados de 2000 entrevistas a crianças e familias pela Faculdade de Medicina da universidade do Porto). O que secundarizará a discussão que os senhores governantes gostam de ter sobre as medidas que eles próprios implementarão para  melhorar a eficácia do ensino (melhor se dirá: para melhorar a eficácia da distribuição dos alunos pelos diferentes tipos de profissão).
Quanto à delinquência, considerada como uma reação e uma adaptação a um processo de decomposição das relações sociais com recurso a violência, parecerá existir uma forte correlação entre o insucesso escolar e o desemprego. Para se ter uma ideia do lugar ocupado pelos atores sociais neste tipo de relações sociais, sendo certo que é dificil um país produzir o suficiente em ambiente de delinquencia dominante, poderá utilizar-se o gráfico seguinte, com 2 escalas de variação de  conceitos de relações sociais:
                        Integração social - marginalidade
                        Cooperação – contestação      :

Numa altura em que os senhores governantes debatem a estratégia de segurança e defesa nacionais da comissão que nomearam, mais ou menos perdidos em discussões académicas e bizantinas, seria muito interessante o diagnóstico com base em dados credíveis que permitissem discutir em debate alargado com fundamento as hipóteses de solução.
Seria preciso uma Sociologia ativa e dinamizadora.
Mas não sei se os senhores governantes estarão disponíveis para  o que seria uma melhoria.



Referencia: Manual de investigação em ciências sociais, de R.Quivy e L.V.Campenhoudt, ed. Gradiva

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Rosalia de Castro - Galiza, ficas sem homens que possam cortar teu pão

Rosalia de Castro, poetisa galega da segunda metade do século XIX.
Denunciou na sua poesia as condições deficientes da organização da comunidade, que obrigavam os galegos a emigrar principalmente para a América de lingua castelhana. 
Numa época em que não havia automóveis nem viagens aéreas low-cost.
E no entanto, por razões de código genético, a angustia da separação é a mesma.
Como dizem os italianos, partire é morire un po.
Mesmo que se morra de cada vez que o avião parta.
Todas as formas de expressão são legítimas para comentar o que acontece.



Cantar da emigração  (Pra Habana)
                     de Rosalia de Castro


Este vaise y aquél vaise,          
e todos, todos se van;
Galícia, sin homes quedas
que te poidan traballar,
Tés, en cambio,orfos e orfas
e campos de soledad,
e pais que non teñen fillos
e fillos que non ten pais.
E tés corazóns que sufren
longas ausencias mortás,
viudas de vivos e mortos
que ninguén consolará. 

Este parte, aquele parte 
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas horas mortais
viúvas de vivos-mortos
que ninguém consolará




terça-feira, 1 de novembro de 2011

Mais falas de governantes - a emigração dos jovens desempregados

O cronista do DN, Ferreira Fernandes, chamou a atenção para mais uma forma desagradável de falar de um senhor governante, o senhor secretário de estado da Juventude e Desportos.
Que os jovens desempregados saiam da sua zona de conforto e emigrem.
Sugere o cronista que o salário do senhor governante fosse reduzido   na proporção da juventude empregada relativamente ao total de jovens, no pressuposto de que a juventude desempregada não é objeto do seu  trabalho.
Mas não seria precisa solução tão radical.
Bastaria que o senhor governante, cujo curriculo universitário no estrangeiro é impressionante, tomasse consciencia da forma sobranceira como fala.
Embora qualquer um perceba, mesmo sem ter a formação superior do senhor governante, que a emigração contribui para a redução do desequilibrio da balança de  pagamentos, é muito importante a forma como se dizem as coisas.
Para que não se diga que os senhores governantes falam como comentadores da internet.
Mas será tambem importante pensar no que um suiço explicou há uns anos, quando a comunidade portuguesa na Suiça ainda não era a terceira comunidade estrangeira, com 200.000 cidadãos e cidadãs: Portugal subsidia a Suiça por cada emigrante que lhe envia como fator de produção, no montante correspondente à sua educação e assistencia social até atingir a idade do trabalho.