segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Doutor Belmiro em Setembro de 2012


Doutor, porque doutorado honoris causa, em cúmulo da sua formação de engenheiro (ver:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=belmiro ),

doutor Belmiro tem de facto autoridade moral para olhar para o atual governo e desdenhosamente dizer como disse para televisão: “só fazem navegação à vista”.
Dificilmente se poderá dizer coisa mais desmerecedora quando se tem alguma formação matemática e física e alguns conhecimentos náuticos.
O argumento dos senhores governantes de que é difícil acertar nas previsões perde relevância quando nos lembramos de que foram avisados de que as medidas tomadas continham elevado risco de baixar as receitas fiscais, em vez de as subir.
É de facto uma navegação à vista, uma incapacidade de traçar a rota prevendo as derivas devidas às correntes e ventos adversários.
Talvez que a formação científica dos senhores governantes seja limitada e por isso se deixam embalar pela fé nos dogmas da redução do peso do setor público e da prosperidade milagrosamente saída da iniciativa privada.
Talvez ajudasse duas observações numa perspetiva física:

1 – o efeito de escala – por exemplo as leis da aerodinâmica a que um modelo reduzido de avião telecomandado, embora análogas às leis dos aviões em tamanho normal, têm os seus coeficientes afetados em cerca de um terço; de facto, em função da dimensão do objeto, a densidade e a temperatura do ar passam a ter outra importância; este fenómeno foi ilustrado num filme interessante com Charlton Heston, em que um grupo de sobreviventes dum desastre aéreo se salva transformando o bimotor em que caíram num monomotor, seguindo os cálculos dum deles, especialista num fábrica de aeromodelos. Podemos daqui arriscar tirar a conclusão que todas as teorias económicas vertidas pelas universidades e aplicadas pelo atual governo à economia portuguesa padecem deste defeito: não consideram a pequena escala da economia portuguesa; e aquilo que poderia funcionar numa economia como a irlandesa (aliás fortemente sustentada por investidores dos USA) pode não funcionar numa economia de menor produção per capita. Idêntico raciocínio para a Islândia, com uma população cerca de 30 vezes menor do que a portuguesa, embora com um PIB apenas 12 vezes menor. Deviam estudar melhor a Física, os senhores economistas.

2 – variação da aplicabilidade das leis em função dos domínios de aplicação – existe um fenómeno muito aborrecido na Física, a histerese. A relação entre duas variáveis depende da história anterior. Este fenómeno agrava-se quando há muitas variáveis em jogo, umas ligadas por relações de funções relativamente fáceis de estabelecer, mas outras ligadas por correlações probabilísticas. Encurtando razões: para um valor significativo de um PIB, reduzir a procura ou o investimento pode permitir pouco depois um crescimento; mas se o valor do PIB já é baixo, contrair a economia apenas reduz a procura, o investimento e o próprio PIB. Não reduz a dívida (embora reduza a acumulação do défice da balança de pagamentos por redução da capacidade de importação). Chama-se a isto, em economia, a armadilha da pobreza, a zona em que os investimentos não dão retorno , uma zona de rendimentos decrescentes, no fundo também por efeito de escala; ou como também se pode dizer, só os ricos podem investir, o que os torna, precisamente por isso, cada vez mais ricos relativamente aos pobres (versão em economia da lei de Fermat-Weber, de absorção pelos cada vez mais fortes).

Conclusão: deviam os senhores governantes fazer como o doutor Belmiro: lá vai raconalizando as suas gestões, mas sempre antecipando a evolução dos indicadores (a divida publica aumenta? Quais os setores em que aumenta mais? E a privada? Que medidas protecionistas se poderia negociar com a troika já que os próprios reconhecem que as medidas de austeridade têm de ser complementadas com as de crescimento? Que parcerias com investidores estrangeiros se poderiam fazer como sempre se fizeram, como no século XVIII com a concessão à Holanda do sal do Sado e das carreiras para a América do Sul e respetivo seguro marítimo) e tomando medidas antes do rochedo submerso; fazendo navegação programada com leitura correta das cartas e da força dos ventos e das correntes, não à vista.
Querem um exemplo do doutor Belmiro, que manda pôr sinais rodoviários nos parques de estacionamento dos seus hipermercados com alimentação fotovoltaica, coisa que eu nunca consegui pôr nos parques do metropolitano ?
Passando a publicidade, conheço apenas duas águas tónicas de qualidade à venda em Portugal: a Schweps e a Nordic; existem umas espanholas que são honestas mas sabem a remédio (também não é grave, a ideia da água tónica é ter quinino para combater a gripe); existem algumas portuguesas que são imitações infelizes; e existe agora uma água tónica Continente que também sabe a remédio mas é bebível como as espanholas; esperemos que vá melhorando com o tempo, que o grande problema é, para mim, produzir, que a melhoria da produtividade pode ficar para depois. Informação nutricional da água tónica do senhor doutor Belmiro, por 100 ml (entre parenteses a percentagem relativamente ao valor diário de referencia): valor energético 38 kcal (1,9%)– açucares 9,2 g (1%) – vestígios de proteínas, lipidos, fibras e sal.
É por isso que não podemos sair do euro, para continuarmos a ter rótulos com a informação nutricional.

Mas os senhores governantes vão ter de abrir mais as suas mentes, de serem menos dogmáticos e deixarem-se de dizer, como muito bem observou o senhor empresário Ilídio Pinho, que os trabalhadores devem trabalhar mais (“Dizer aos trabalhadores do norte para irem trabalhar mais, isso não se faz” - ver:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=il%C3%ADdio )

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