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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Não em meu nome II

Os indignados leram o livro de Stephen Hessel.
Hessel não gostou de ter lutado contra o que lutou (o nazismo e a desigualdade entre os homens) e ver as coisas mal encaminhadas nos tempos que correm.
As receitas dos dirigentes económicos e financeiros contrariam a declaração universal dos direitos humanos, para  qual ele contribuiu.
O programa de privatizações nas áreas da saúde e da educação contrariam o programa para o qual ele contribuiu a seguir à II grande guerra.
Têm os governos legitimidade para fazerem o que fazem. Efetivamente quem não concorda com o programa de privatizações (o que, como já aqui escrito, não é por razões ideológicas, é por razões profissionais e pela experiencia negativa que se teve com as privatizações dos transportes da senhora Tatcher) pertence a uma minoria. No caso português, 29,7% dos eleitores registados votaram nos dois partidos do governo e 46,2% em partidos subscritores do acordo com a troica. Lamento muito, mas esta percentagem devia ser aumentada. Porque assim, há legitimidade para tomarem as medidas que quiserem, tiradas da mesma origem que conduziu o sistema financeiro internacional  ao estado em que está, mas não poderão dizer que o fazem em meu nome, mesmo que eu tenha de concordar com algumas das medidas (que deveriam ser estendidas aos setores de aplicação mais eficiente).
Não em meu nome.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O leitor do DN e a psiquiatria aplicada à economia

Discretamente, na secção de cartas dos leitores do DN, uma interpretação que me parece muito próxima da realidade.
Por um lado, está em fase de promulgação um diploma para redução do numero de juizes em Lisboa (compreende-se porque os juizes são uma classe muito bem remunerada).
Por outro, alguem terá sugerido à troica/triade que seria bom recrutar mais juizes para acelerar a resolução dos processos pendentes.
Perante esta contradição, o leitor interroga-se se não seria melhor contratar tambem psiquiatras.

Este blogue acha que sim, que deveria ser estudada a componente psicopatológica nas atividades deste país, no pressuposto de que o diagnóstico de uma doença é um primeiro passo para a sua cura.

Por exemplo, baseando-me na entrevista de Poul Thomsen    (http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/05/poul-thomsen-entrevistado-pelo-dn-e.html )   e em exemplos como este, o episódio da troica/tríade é mais uma manifestação da prática tradicional dos portugueses que, segundo a minha professora de instrução primária, já vinha do tempo dos lusitanos.
Perante uma dificuldade ou uma doença, o lusitano fazia os possíveis para evitar discutir as questões técnicas com os especialistas, e preferia sentar-se à porta de casa, perguntando a quem passava se já tinha tido a mesma doença e o que tinha feito para a curar. E o que os interrogados respondiam seria qualquer coisa do género: "o que era bom para isso era...". (o mal não estava em questionar as pessoas; o mal estava em que a maior parte das respostas era dada por pessoas sem os conhecimentos técnicos necessários, na maior parte dos casos porque esses conhecimentos não estavam disponíveis na altura; o método estava correto, embora não houvesse meios para que o método fosse eficaz).
Grupos de pessoas importantes deste país acorreram às reuniões com a troica/tríade e disseram aos seus membros que "o que era bom era..." contratar juizes para acelerar os processos, privatizar, baixar a TSU, etc, etc e utilizaram tambem a outra vertente da ineficiencia gestionária dos portugueses, o método do "já agora" : cortar tambem nos orçamentos dos hospitais, do transporte de doentes (primeiro aumentam-se as necessidades de transporte centralizando os hospitais, e depois propõe-se a redução dos custos de transportes, e não querem que se diga que isto está a precisar de psiquiatras para analisar estes cérebros?).
Estranho não terem aparecido pessoas importantes a sugerir medidas de fundo na segurança interna, mas como não havia especialistas de segurança na troica/tríade, ninguem achou mal (dir-se-ia que para atrair turistas seria necessário inverter a tendencia de agravamento das condições de segurança, não era? onde teriam a cabeça os senhores da troica/tríade?).
E a troica/tríade sistematizou as sugestões, provavelmente admirando-se por que não tinham tão perclaras personagens aplicado já essas recomendações.
Seria possível os membros das delegações serem especialistas de tantas coisas?
Parece evidente que não; pelo menos aquelas ideias de privatizar "a tout prix" transportes e água só podem vir de quem não conhece os respetivos negócios, embora veja neles um campo fértil de receitas para grupos económicos que controlam o poder político da UE (na verdade, se a Goldman Sachs condiciona o governo dos USA - vidé Inside job, que não é um filme de Michael Moore -  por que cargas de água haveria de ser diferente na UE?).
Vejamos outro exemplo muito simples.
Manda a troica/triade reforçar os capitais dos bancos.
Sabendo-se da falta de liquidez e que o capital desses bancos já está disperso pelo estrangeiro, a desconfiança surge, de forma legítima. O programa proposto será o capital estrangeiro aumentar o seu peso na estrutura acionista dos principais bancos portugueses.

Se fôr assim, compreende-se então o anuncio do Millenium BCP incentivando o aumento do consumo premiando-o com milhas de desconto em viagens de avião. Os acionistas estrangeiros do banco estarão interessados em que os cidadãos portugueses vão lá deixar parte significativa do dinheiro que a UE, o BCE e o FMI emprestam tão generosamente. A privatização da TAP vem aliás ajudar a esta festa.

Se não fôr assim, isto é, se afinal a maioria do capital dos bancos permanece em Portugal, então, fazer publicidade a milhas ganhas para ir de avião gastar combustível pago com dinheiro português é um caso simples  de loucura, de ignorancia autista do desequilibrio entre importações e exportações, e que merece, consequentemente, o tratamento adequado por neurologistas e psiquiatras.
Choca-me não ouvir os sindicatos e as comissões de trabalhadores da aviação pronunciarem-se sobre isto, a não pressionarem as suas administrações a privilegiar as rotas que "canalizem" turistas estrangeiros para Portugal e que fazem a ligação aos destinos de emigração portuguesa.

Salvo melhor opinião, claro.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ainda as propostas de Vitor Bento

Fascinante, como diria Mr Spock ao ver aproximar-se o monstro para devorar a tripulação e observando os movimentos ondulados da troica, perdão, do par de patas do monstro.
Perante as notícias vindas a publico com as propostas dos tecnicos do FMI/BCE/UE e o embandeiramento em arco com uma das medidas para tornar as nossas exportações mais competitivas, a diminuição das taxas sociais, permito-me retornar ao post de 22 de Abril deste desgraçado ano de 2011 (http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/04/vitor-bento-e-sua-solucao-para-o-no.html     ), 
em que apresentei algumas das medidas propostas por Vitor Bento.
Cito:
"... uma das medidas mais eficazes como sucedâneo da desvalorização da moeda é a diminuição das contribuições para a segurança social compensando a perda de receitas com o aumento do IVA,... mas isso só terá efeitos se os preços no setor não transacionável baixarem efetivamente ..."


Como certamente repararam, a medida só faz efeito (Vitor Bento dixit) se os preços do setor não transacionável baixarem efetivamente.
Ora, tambem fazem parte das medidas da troica ou tríade o aumento dos preços dos transportes, da água, da energia, da saúde.
Isto é, a medida não vai ter efeitos.
Perdão, vai ter, os mesmos que tiveram os subsídios para a modernização do vale do Ave, há muitos anos, antes dos governos despesistas, quando o volume dos fundos alocados igualou o volume dos 
Lamborghini importados. 
Desejaria estar enganado, mas à boa maneira chico-esperta, a redução das contribuições para a segurança social não irá repercutir-se no abaixamento do preço do bem exportável, irá com maior probabilidade ser embolsada pelos senhores empresários.
E se pensarmos bem, onde está a novidade de "ser possível baixar o custo do trabalho sem baixar os salários", que os senhores economistas emproados apregoam? 
Não é isso que fazem os praticantes da economia paralela? não refletem no custo do produto nenhuma contribuição social, pois não? serão 40% do produto que não são contabilizados?

Continua assim Vitor Bento a ter razão, o grande problema é ter-se desprezado o setor transacionável, aquele que é suscetível de gerar exportações (e de evitar importações...).
Pena não terem explicado aos técnicos da troica ou tríade este fenómeno fascinante, como diria Mr Spock.


Nota: Continuando com o tema de Vitor Bento, de privilegiar o setor de bens transacionáveis, eu sugiro que se pense também em serviços transacionáveis (de que o melhor exemplo é o turismo), estabelecendo como meta que qualquer empresa do setor não transacionável deveria inscrever pelo menos 10% do seu produto em atividades transacionáveis. Já aqui neste blogue se propôs coisa parecida, como o metropolitano de Lisboa fornecer a fiscalização da construção do metro de Luanda (ampliando assim os serviços que tem na Argélia).
Mas estranho é ver a própria troica ou tríade a abrir a porta e a empurrar para que as empresas de serviços, como as águas e a energia, ao privatizarem-se, caiam em domínios exteriores e assim aumentem as importações através da exportação de mais valias  . Isto é, passem a uma situação pior do que atualmente (com o aumento do PNB, mas com a diminuição do PIB - não acreditam que as melhorias de produtividade e de contenção de importações que a gestão privada possa fazer tenham um valor superior ao das mais valias exportadas, pois não? ou haverá quem acredite em histórias da branca de neve no século XXI?).