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terça-feira, 1 de julho de 2014

Os localizadores. O porto do Barreiro, o aeroporto da Ota e o aeroporto do Montijo

Acredito na boa fé do senhor ministro da Economia.
E que ele acredite sinceramente nos mecanismos intangíveis e invisíveis que transformam o interesse no lucro das empresas no benefício coletivo, desde que não me obrigue a acreditar em tal coisa.
Por isso me trouxe mais um desgosto a sua afirmação de que o novo terminal de contentores de Lisboa ficaria no concelho do Barreiro, embora ainda estivessem a decorrer estudos.
Se estão a decorrer estudos, não se pode concluir que a localização será no Barreiro, a menos que se aplique a velha história: "Faça-me aí um relatório para demonstrar o que eu quero".
Desgosta-me a ingenuidade com que o senhor ministro dará ouvidos a quem lhe diz que sim, o terminal pode ser no Barreiro.
Lamento dizer claramente que é um disparate. Um porto no Barreiro será muito útil como porto de distribuição, de cabotagem e ele já lá existiria se Portugal tivesse marinha mercante que se visse. Mas não como porto de águas profundas. Claro que se pode dragar. Mas custa caro e entra nas despesas de exploração. Além de que está longe do mar e o acesso afunilado pelo estreito de Cacilhas. Os especialistas já estudaram a melhor localização nos anos 90. É o fecho da Golada, para grande desgosto dos ambientalistas. O fecho da Golada reteria as areias da Caparica e protegeria Lisboa do risco de maremotos. Há espaço para poupar a Trafaria. O acesso ferroviário será caro, mas razoável economicamente. O porto de águas profundas da Golada aliviaria Alcantara, vocacionada para cruzeiros. Projetos bem feitos beneficiariam de fundos comunitários.
Mas a corte que rodeia os ministros não quer.
Recordo a história da localização do novo aeroporto na Ota para demonstrar a inépcia dos localizadores de grandes infraestruturas em Portugal quando se constituem em cortes de bonzos a isolar os ministros da realidade.
Era primeiro ministro o atual presidente da República, quando a Força Aérea apresentou o plano de racionalização das suas bases aéreas a propósito do estacionamento dos F-16.
Tudo ponderado, considerando as deficientes condições meteorológicas e aeronáuticas da Ota, a Frça Aérea desistia dela.
Foi quando o senhor primeiro ministro, contente por poder fazer economias, disse que então podia lá ficar o novo aeroporto. A corte de bonzos apoiou, dizendo que até podia ser servido pela linha do norte (ignorantes, nem sequer sabiam que a linha do norte já estava saturada). Um grande gabinete de arquitetura fez um projeto muito bonito, com uma estação de correspondencia com alinha do Norte digna de revistas de arquitetura. Outro grande gabinete de engenharia rejubilou, considerando a tabela de honorários, programando a movimentação de terras e cursos de água, o corte de um morro e dois anos consecutivos de aterros. Passados uns anos e alguns governos, perante o protesto de alguns técnicos que desde os anos 70 sabiam que a localização correta era na zona de Rio Frio (era o mesmo programa do inicio da década de 70 retomado pelo V governo provisório, de que faziam parte o porto de Sines e o aproveitamento do Alqueva), um ministro de obras públicas perguntou à ministra do ambiente se havia contraindicações ambientais em Rio Frio, mas não perguntou se as havia na Ota (com a quantidade de aterros de cursos de água, imagine-se). Claro que a ministra disse que sim, que havia, há sempre prejuízos ambientais, o que quer que se faça ou deixe de se fazer). E assim se decidiu que ficava na Ota. Grandes investidores asiáticos já tinham comprado hectares e hectares à volta. Um grupo de técnicos não desistiu e lá conseguiu demonstrar ao governo contemporaneo da crise do Lehman Brothers que era melhor Alcochete (Rio Frio, Canha). Mas era tarde, tinha-se esgotado o financiamento do QREN para essas coisas.
Vem agora o senhor secretário de Estado dos transportes e a Ryan Air, entusiasmados com a gestão privada da ANA, que estão abertos à localização no aeroporto do Montijo do "apêndice" do aeroporto da Portela ,enquanto não atinge os 22 milhões de passageiros, mas já saturado com 16 milhões .
Relembra-se que as pistas do Montijo são curtas (2100 m a norte-sul, no enfiamento da ponteVasco da Gama, e 2400 m a Leste-oeste, no enfiamento da povoação). E que qualquer adaptação da base aérea custa muito dinheiro. Como estão a custar as "melhorias" na Portela. Faz pena ver  a falta que faz uma ligação ferroviária suburbana à margem sul pelo Montijo (para não falar que na terceira travessia deveria estar incluida a alta velocidade para Madrid, passageiros e mercadorias. Coisas que projetos bem feitos teriam financiamento dos programas QREN.
Mas é exigir demais aos localizadores que tomam decisões.

sábado, 13 de novembro de 2010

Planeamento e gente estranha

Como disse o embaixador de Filipe II de Espanha quando regressou de Lisboa, aonde tinha ido apresentar a candidatura de Filipe ao trono de Portugal, e apresentou o seu relatório ao rei - os portugueses são uma gente estranha - assim o embaixador marroquino talvez tenha escrito o mesmo no seu email para Rabat dando conta da sua visita às obras do metropolitano.
Que os portugueses tinham feito uma obra bonita, demonstrando a sua capacidade para fazerem a linha do TGV entre Tanger e Casablanca, na nova linha de metropolitano para o aeroporto de Lisboa. Mas que o aeroporto iria sair dali. Daí talvez o embaixador achar que os portugueses são gente estranha.
Embora talvez sejam mais estranhos, não por haver um projeto para o aeroporto sair de um local depois de ter servido de fundamentação para a aprovação do traçado de uma nova linha de metropolitano. Mas porque muitos portugueses dizem agora com candura que talvez o aeroporto não saia dali.
Talvez não saia, mas é uma pena, depois de todo aquele processo, e depois dos lisboetas que ainda moram em Lisboa terem suportado tanto o ruido ilegal de aproximação dos aviões à pista.
Estranha, muito estranha  gente a que diz isto (o que não significa nenhum elogio para Filipe II de Espanha ou para os eventuais clientes marroquinos das obras do TGV ).
Porque se combinam as coisas e depois se descombinam, com o mais completo desprezo por um conceito: planeamento. Problema de conceito, pois.



PS - Correção: Filipe II de Espanha, e não I.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Very fast post in blog 38 - uma cena urbana

Jardim do Campo Grande. Passa um avião, quase a aterrar, de 5 em 5 minutos. Vem de sobrevoar o hospital de Santa Maria. O vento norte ou noroeste é dominante em Lisboa. Talvez o aeroporto da Portela, com as suas insuficiencias,  ainda não esteja saturado, mas os habitantes de Lisboa estão. Solução: desertificar ainda mais Lisboa, ou acreditar que as leis são para cumprir, e a situação atual é ilegal e impõe a deslocalização do aeroporto. Ah, não há dinheiro. Custa assim tanto elaborar os projetos e diluir a sua execução no tempo? conheço técnicos que levam barato. E o sistema das subscrições públicas, tão em voga no tempo da bancarrota do fim do século XIX, não pode aplicar-se?