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domingo, 2 de janeiro de 2011

Arroz de polvo


Da próxima vez que comerem arroz de polvo, ou salada de polvo, ou filetes de polvo, lembrem-se da seguinte experiencia, realizada na Universidade da Corunha.
Alimentando-se os polvos de caranguejos, foram fechados dois caranguejos num frasco com tampa roscada.
Colocado o frasco no aquário com o polvo, este começou por abraçar completamente o frasco e, depois de várias tentativas, experimentando os movimentos possíveis, abriu o frasco rodando a tampa e retirou os caranguejos.
Repetida a experiencia com vários polvos, todos resolveram o problema da mesma maneira, com a particularidade de, colocando um polvo num aquário ao lado a observar a experiencia pelo outro polvo, o polvo observador executava depois a abertura do frasco mais rapidamente.
Descontando a crueldade do sacrifício dos caranguejos, há a comentar que o polvo é um robot com um cérebro com elevado número de neurónios em rede com 8 cérebros, cada um responsável pela gestão de um tentáculo e que tem capacidade de aprendizagem através da observação e da experimentação (pilares do método científico).
Dir-se-ia que será possível pôr um polvo a operar um PC se daí colher benefícios.
Poderá a espécie avançar na escala da evolução se se tornar menos solitária (só vivem em grupo em condições de penúria de alimentação) e se os indivíduos mais idosos puderem transmitir a sua experiencia (acontece que o polvo –fêmea morre imediatamente depois da eclosão dos ovos, pelo que cada indivíduo aprende exclusivamente por si próprio).
Em qualquer altura poderá ocorrer um acidente genético e deixar de ser assim, e o polvo-fêmea passar a ensinar alguns truques aos seus polvinhos.
Mais difícil será o aparecimento de alguma forma de lóbulo pré-frontal que permita melhorar a comunicação entre indivíduos, que, no fundo, é a principal limitação da espécie.
E aí está como estes primos tão afastados (500 milhões de anos nos separam do tronco comum) oferecem 3 lições à espécie humana, até àqueles que trabalham em empresas de transportes à beira de um ataque de cortes orçamentais:
- observar e experimentar, colocar hipóteses, testá-las (não aceitar ideias feitas)
- unir esforços em equipa (que pobre era o cavaleiro solitário da triste figura…)
- comunicar, comunicar sempre, mesmo que chamem ao comunicador de triste figura…


                                        (com a devida vénia a um programa transmitido pela RTP2)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ainda a Finlandia

Evidentemente que não devemos imitar os outros só por terem exito (a considerar outros parâmetros, como tudo na vida).
Mas a história do aeroporto de Helsinquia e da neve fez-me lembrar a história do bolseiro português em Helsinquia, já não sei em que programa.
O moço tinha umas dificuldades numa das disciplinas e preparou-se para uma exame com uma cábula e com um apoio por telemóvel, possivelmente Nokia, que efetivamente utilizou, à boa maneira portuguesa.
Infelizmente para ele há métodos, uns estatísticos e outros não, que permitem detetar este fenómeno universal, mas de prática eminentemente meridional.
E o moço foi chamado ao reitor que lhe comunicou, com muita pena, que o estágio terminava ali.
Claro que, ao lado da cábula, a instituição nacional em Portugal é a cunha e foi em coformidade o que o senhor embaixador português fez, depois de contactado por amigos comuns de amigos comuns da família do moço.
Foi falar com o reitor, que teve de lhe explicar, com muita pena, que não era possível. Os exames eram feitos para avaliar a preparação do indivíduo, e não a sua capacidade de levar cábulas para o exame ou comunicar por telemóvel com uma equipa de apoio. O estágio terminou mesmo ali e o problema foi o embaixador não ter percebido porquê, nem a maior parte dos decisores portugueses  perceberem, nem a maior parte dos portugueses não decisores perceberem, que diabo, um jeitinho não custa nada, por que cargas de água uma pequena facilidade num exame, basta fechar um bocadinho os olhos, há-de impedir o rapaz de ter o canudo e depois dizer que o tem? O rapaz até pode ter muita iniciativa e muito talento e talento é do que Portugal precisa, para os seus gestores e decisores privados e públicos.

Precisa não, como dizem os nossos vizinhos do outro lado do Atlantico.
Precisa não de talento.
Precisa de gente comum que interprete bem (sózinho ) os enunciados dos problemas tipo PISA e que resolva depois os problemas com os métodos de trabalho em equipa, sem secretismos nem espírito de grupinho, quer o grupinho seja o partido, a variante religiosa, o avental, o grupo económico, o grupo bancário, o grupo empresarial.

Estou a pedir muito?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A situação explosiva 3 – também é problema, a questão judiciária?

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Retomo a expressão do presidente da república do meu país, situação explosiva.
Afinal a situação explosiva não é apenas a questão económica, por aquilo que se ouviu na abertura do ano judiciário.
Mas a acusação foi clara: a qualidade da produção legislativa é baixa. Será a acusação um pouco imerecida para alguma da produção legislativa de iniciativa do Parlamento, mas o poder legislativo não está só no Parlamento.
Eu cidadão, humilde e limitado técnico numa empresa de transporte de pessoas, vejo assim validada, ao mais alto nível da magistratura da nação, o que disse publicamente na sessão de formação sobre a lei da nova contratação pública, ao senhor advogado que tinha colaborado na elaboração da lei e que respondera a uma pergunta minha: então, se é assim, obrigado, mas estou como a velhinha que está a ser ajudada pela nova lei, mas que não quer atravessar a rua, era por outro caminho que precisávamos de ir.
Se quiserem ouvir os técnicos, se o próprio Tribunal de Contas os quiser ouvir, em debate aberto e livre, será possível corrigir a lei.
O corolário do discurso do presidente foi desenvolvido depois por um senhor juiz que na televisão comentou o discurso: houve um chorrilho de disparates em leis importadas sem adaptação ao contexto nacional (finalmente explicou-se ao povo que os disparates da lei da reforma penal foram importadas a seco e a frio da Suíça); a solução agora é corrigir as leis mas simplificando o panorama legislativo para que os procedimentos judiciários não se atrasem.
Dir-se-ia que os senhores ministros que patrocinaram as leis das reformas, se estivessem minimamente ligados à realidade, nas prisões, na segurança de pessoas e bens, na sinistralidade rodoviária, nunca por nunca teriam proposto aquelas reformas, na educação, na administração interna, na saúde…
Como disse o juiz na televisão: mas não quiseram ouvir (de facto, o ruído feito pelos profissionais da comunicação social, a defender imprudentemente as reformas pelas reformas, independentemente dos contextos, foi enorme).
Tudo isto revela uma característica bem portuguesa, que é a de que pequenos grupos, com chefes com pouca visão integradora (com capacidade de compreensão pluri-disciplinar), podem criar uma doutrina que é imposta à maioria sem extrair desta as suas potencialidades de participação na construção das soluções.
Mas reconheço que nós, cidadãos pertencentes à maioria, precisamos de desenvolver as técnicas descritas na Sabedoria das Multidões, que nos permitiriam desenvolver mais trabalho de equipa.
É que o aumento do PIB também seria o resultado de conseguirmos trabalhar em equipa e não em árvore hierárquica inibidora das iniciativas e disseminadora “top down” de conceitos afastados do contexto real.
Para já, é positivo ouvir falar assim um presidente da república.
A ver se reagimos na direcção certa, sem que nos ajudem a atravessar uma rua que não queremos, nem é conveniente atravessar.
A ver.

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