terça-feira, 5 de abril de 2011

Energia nuclear I - O cérebro humano e o caso alemão

Tropeço neste sitio enquanto procuro informação sobre o acidente de Fukushima:

http://www.monstersandcritics.com/news/europe/news/article_1630665.php/Merkel-s-nuclear-panel-convenes-to-evaluate-German-energy-future

Neste artigo evoca-se a recente diminuição na votação no partido de Angela Merkel nas eleições de Saxonia-Anhalt por motivo da recente prorrogação da exploração das centrais nucleares existentes.
Devem respeitar-se as familias das vitimas de acidentes em centrais nucleares ou da radioatividade associada à produção de energia.
Porém, a produção de energia, qualquer que seja a sua forma, é uma atividade com custos elevados em termos de vidas humanas.
Eis uma pequena estatística das mortes em acidentes em centrais de produção de energia elétrica ou na extração de combustíveis para centrais, não incluindo os acidentes nucleares com a radioterapia ou navios de propulsão nuclear:

hidroelétrica - 29.900 mortos (a maioria na China, mas o desastre da barragem de Frejus, em França, em 1959,  provocou 420 mortes, e o da barragem de Vajont, em Itália, em 1963, 1900 mortes);
petróleo - 20.000 destacando-se a morte de 11 operarios na plataforma "Deep Horizon" em 2010;
carvão - 22.200, não incluindo as mortes por cancro do pulmão e doenças vasculares associadas;
gás natural - 1.900 destacando-se a morte de 7 operários na explosão de uma turbina em 2010 nos ensaios finais;
gás de petróleo liquefeito - 3.900;
nuclear -  diretamente: Mayak deposito de combustivel usado 200, Idaho Falls 3, Chernobyl 53, Japão 10 incluindo 3 em Fukushima; estimativa por radioatividade latente: Mayak e Chernobyl 8.000).

A maioria destes acidentes poderia ser evitada num estádio de tecnologia mais aperfeiçoada (a maioria dos acidentes da aviação e muitos dos acidentes rodoviários nos primórdios das respetivas tecnologias deveram-se à incipiencia destas).
É isso que se espera da energia nuclear, o desenvolvimento da segurança, até para não desperdiçar o combustivel não renovável  em centrais de pior rendimento.
Por isso, a discussão sobre a energia nuclear, incluindo a Alemanha, não deveria girar em torno do acidente de Fukushima (uma tecnologia já obsoleta e critérios otimistas de proteção contra sismos e maremotos) mas sobre as reais causas e circunstancias e sobre as novas tecnologias de produção de energia a partir do nuclear (não deixa de ser curioso pensar que quem recusa a energia nuclear vive à superficie de uma crosta terrestre que envolve um nucleo em fusão nuclear a 5.000 km  de distancia, mais perto que a distancia de Lisboa a Toquio).
Deveria haver também um pouco mais de respeito por quem, em Fukushima, se sujeita a radiações que podem ser fatais para conseguir o arrefecimento dos nucleos dos reatores e dos depositos de combustivel usado, evitando tanto quanto possivel o alarmismo e as noticias convidando ao panico (por exemplo,  a divulgação de uma leitura de radioatividade superior 10 milhões  de vezes ao normal, vindo a verificar-se que a leitura tinha sido errónea).
Notas que penso serem importantes:
- o plutónio que se encontrou nos terrenos da central é principalmente o Pu 238. Não é obtido a partir das reações numa central nuclear, esse é o plutónio  Pu 239.  O Pu 238  aparece muito em zonas afetadas por experiencias nucleares para fins eventualmente militares;
- é efetivamente um grande risco a disseminação da radioatividade, e as águas usadas para o arrefecimento do combustivel usado e dos reatores desligados têm mesmo de ser espalhadas no oceano, esperando-se que a radioatividade decaia sem afetar as populações
- embora a solução correta seja garantir a impossibilidade de fugas de radioatividade, os cancros da tiroide consequencia de Chernobil foram tratados com elevada taxa de sucesso, continuam os progressos da medicina e deveremos tambem combater os cancros devidos à poluição atmosférica associados à produção de energia por combustiveis fósseis
- os contentores de aço dos reatores  não parece terem sido fissurados, e por isso a radioatividade existente não provem do combustivel principal, mas dos depósitos de combustivel usado (não deixa de ser perigoso, mas manda a verdade dizer que parece que a radioatividade nao provem dos reatores) e, principalmente, da fissura do anel de refrigeração do reator, no invólucro que protege o reator nº2 (ver as figuras no post anterior:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/03/o-acidente-nuclear-no-japao.html  ).

Ver também:
http://bravenewclimate.com/2011/04/03/other-perspectives-fukushima/

Voltando à problemática do fornecimento de energia primária à Alemanha (recordo que a orientação do governo alemão relativamente a energia foi umas das causas, normalmente oculta, da II grande guerra), chegou-se à seguinte situação irónica: com os receios da energia nuclear, a Alemanha foi reduzindo a sua produção de energia nuclear; por outro lado, a produção de energia a partir do carvão tambem não pode aumentar-se por causa da poluição e da redução das emissões de CO2; a fotovoltaica (de que a Alemanha tem uma das maiores quotas) e a eólica, vão fazendo o que podem. De modo que  o acidente de Fukushima (ou mais precisamente, a perceção que a opinião publica alemã formou) teve como consequencia transformar a Alemanha de autónoma em importadora de energia. E que energia importa? a de origem nuclear produzida em França (aliás, Portugal é importador de energia nuclear).
Na Alemanha, como em Portugal, não são discutidas as razões técnicas, dá-se mais importancia à parte emocional que possa fazer ressonancia na opinião publica.
Por isso há aquela referencia ao cérebro no titulo deste post.
Porque o cérebro nos engana, embora gostemos que ele nos engane.
Males da evolução, que acrescentou ao cérebro dos lagartos o cortex que faz amostragens da realidade e preenche como bem lhe apetece os intervalos entre amostras, com aparencia lógica mas sem correspondencia com a realidade.
Assim funcionam os cérebros, alemães ou portugueses, de simples cidadãos ou de grandes dirigentes políticos ou de fazedores de opinião publica.
Mas talvez na Alemanha haja métodos de abordagem de problemas que permitam resolver o problema de encontrar energia primária alemã.
E suprema ironia, até é possivel que se consiga tambem em Portugal atenuar os problemas da energia primária, pelo menos na parte das energias renováveis e na substituição do petróleo rodoviário.
Pena não se poder dizer o mesmo  do resto, nesta apagada e vil tristeza.

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