terça-feira, 21 de julho de 2026

Breves crónicas de Dona Inércia e Dona Opaca

A frustração de Dona Inércia e Dona Opaca com o Mundial de futebol 10jul2026

Não me refiro ao mundial nos USA, mas ao mundial de 2030. Dona Inércia e Dona Opaca já não devem ser capazes de providenciar que a Alta Velocidade ferroviária entre Badajoz, Lisboa e Porto esteja pronta em 2030. Já se notam atrasos na execução daquela "implementing decision" que a tia de Bruxelas nos mandou em outubro de 2025 para acelerar o Lisboa-Madrid. Ele é falta de certificações, ele é sistemas de sinalização que não combinam, ele é bitolas diferentes, ele é comboios que não llegan, ele é terceiras travessias engasgadas ... O que quer dizer que muito sustentavelmente quem de Madrid queira dar um salto a Portugal para ver alguns jogos ou virá de avião ou então apanha um autocarro. Lá se vai o marketing da sustentabilidade do comboio. 

Que tal revogar as resoluções 98/2024 AR e 77/2025 RCM ?   (deixo ao leitor o cuidado de as ver na internet - https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/resolucao-assembleia-republica/98-2024-895836363                     https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/resolucao-conselho-ministros/77-2025-915239713   )



Dona Inércia e Dona Opaca divertem-se com o sistema eleitoral
14jul2026

Dona Inércia tomava chá numa esplanada com Dona Opaca e ria-se muito. Que tinha lido numa carta ao director o lamento de um cidadão, que ninguém ligava aos esforços de quem alertava para as inconformidades do atual sistema eleitoral e que a Constituição é muito clara, que converter votos em mandatos de deputados tem de respeitar a proporcionalidade. Seja lá o que isso for, comentava alegremente a Dona Opaca, que não convém muita matemática quando as coisas correm como gostamos. Pois é, já viu, repontava Dona Inércia, para um partido poder governar, cada deputado só precisou de 20.000 votos, mas partidos houve, coitados, que tiveram mais de 80.000 votos e não elegeram nenhum deputado ou conseguiram apenas um. É a governabilidade, sublinhava Dona Opaca, mas a gente não tem que dizer aos eleitores que é a proporcionalidade que devia prevalecer, aliás, já diziam os romanos, os lusitanos não se sabem governar. E especialmente não podemos dizer-lhes que o número de círculos eleitorais tem de ser reduzido e que se o sistema eleitoral respeitasse a Constituição a distribuição de deputados seria diferente e o governo não poderia fazer o que tem andado a fazer. Mas podemos estar descansadas, olhe por exemplo, há mais de 5 anos que a lei de bases do clima foi aprovada, e o Parlamento ainda não nomeou o conselho para a ação climática. Podemos estar descansadas. E contentes acabaram o cházinho e de braço dado desceram a rua movimentada, cheia de felizes turistas.



Dona Inércia e Dona Opaca às voltas com a regionalização
16jul2026

Dona Inércia e Dona Opaca foram de férias. Apanharam um autocarro expresso porque ouviram dizer que o ar condicionado dos comboios não andava bem e depois de uma viagem em que tiveram de lidar com o pé da passageira do banco de trás que se enfiou entre os dois assentos e com os pulos da pequenita da mesma passageira, agarrada às costas do banco de Dona Inércia, desembarcaram no Algarve. E como são umas senhoras atentas à realidade nacional, a viagem despertou-lhes os malefícios da desigualdade do PIB per capita nas várias regiões do país (só Lisboa, Algarve e Madeira acima da média nacional, e em todas as regiões, menos uma, inferior à média europeia. Dizia Dona Inércia que por um lado é preocupante já haver tanta gente a falar da regionalização como reforma necessária, mas por outro lado, podemos estar tranquilas. Porque como tantas outras reformas que têm sido feitas por "sucessivos" governos, as quais são mais contra-reformas para ficar tudo como já estava num passado mais ou menos longínquo, há sempre "erros inevitáveis", e porque "tem de se arriscar, tem de se ousar", como dizem os dinâmicos reformistas. Dona Opaca concordava, que uma regionalização a sério daria muito trabalho, exigiria organização e planeamento e especialmente transparência, e não era isso que nem Dona Inércia nem Dona Opaca quereriam. Por exemplo, num território continental com 18 distritos o correto seria reduzir o seu número e o número de NUTs (regiões administrativas com autonomia, para utilizar a designação da tia de Bruxelas), e também o número de câmaras municipais. Mas também não é isso que os poderes locais andam a reivindicar, para tranquilidade de Dona Inércia e Dona Opaca.


A transparência atacou Dona Opaca     
18jul2026

Dona Inércia acordou com o telefonema matutino de Dona Opaca que, indignada, vociferava contra a iniciativa da Investigate Europe. "Uma coisa nunca vista, indecente mesmo, que nunca deveria ter sido divulgada - dizia sem papas na língua - as coisas que realmente interessam às pessoas e à sua felicidade devem manter-se confidenciais, dado o seu interesse público". Dera-se o caso de o grupo de jornalistas da Investigate Europe Secrecy Tracker, com experiência na dificuldade de acesso a certos assuntos da União Europeia, terem divulgado na sua newsletter de julho de 2026 essa mesma dificuldade de acesso. Foram exemplo dessa política oficial da UE contrária à transparência:  alguma interpretação mais permissiva da diretiva anti-lavagem de dinheiro e registo de património e rendimentos, escapatórias ao regulamento 1049/2001 de acesso público a documentos, ocultação de interesses financeiros de juízes do CJEU (Tribunal de Justiça da UE)  a companhias privadas, ameaça de limitação da lei de liberdade de informação alemã, divergencias entre a Ombudswoman e a Comissão Europeia sobre a divulgação de mensagens entre lideres.
Ora bem se vê que a Dona Opaca não gosta da Investigate Europe.               

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