domingo, 11 de outubro de 2026

Connecting Europe Days, a Comissão Europeia e as redes interoperáveis transeuropeias TEN-T em setembro/outubro de 2026

 

 

 

O discurso nos Connecting Europe Days

 

Gosto do nome Ursula. Faz-me recordar quando em criança vasculhava o Lello Universal e lia a lenda do martírio das onze mil virgens suas companheiras e admirava a reprodução do óleo do século XVI no Museu de Arte Antiga, o casamento de Santa Ursula com o príncipe Conan.

Por isso fui recetivo à imagem da presidente da Comissão Europeia no youtube, risonha, no seu video dos Connecting Europe Days , em  29set2026                               

 ( https://www.youtube.com/watch?v=l3yJwnQw1dk ).

Esperava eu ver, depois do início do discurso sublinhando a coesão entre os 27 países da UE na concretização, não de 27 planos nacionais mas de 1 só plano da união, mais um elogio à integração na Europa dos países bálticos que constroem o corredor Rail Baltica em bitola europeia normalizada, diferente da bitola russa pré-existente, quando a oiço dizer, vejam por exemplo a ligação entre Lisboa e Madrid, que será feita em 5 horas em 2030 e em 3 horas em 2034. Quando hoje cerca de 40 voos diários ligam as duas capitais.

Não era a data originalmente prevista no regulamento das redes interoperáveis trans-europeias TEN-T 2024/1679, mas depois de mais uma daquelas negociações pedindo adiamentos em que os gestores de infraestruturas espanhois (ADIF) e portugueses (IP) são pródigos, 2034 foi a data consagrada na "implementing decision" de 30out2025 para a interoperabilidade plena, incluindo a bitola europeia e o ERTMS, entre Lisboa e Madrid. E infelizmente duvido que mesmo a data de 2034 seja possível de alcançar com as graves limitações na capacidade de organização do trabalho e de planeamento na atual estratégia ferroviária.

Mas o discurso foi uma agradável surpresa, quando em Portugal nos debatemos com atrasos infindáveis das obras de modernização (na verdade, de recuperação parcial pós-ausência persistente de manutenção eficiente) virem-nos acenar com a substituição das viagens aéreas Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid pela Alta Velocidade ferroviária. Esperemos que a cotação da TAP não seja afetada nas negociações em curso, até porque ficou combinado com a União Europeia a interdição dos voos domésticos quando houver alternativa ferroviária satisfatória (regulamento 2008/1008).

 

A ligação à Europa dos portos nacionais

 

Transcreve-se do workplan do coordenador do corredor atlântico François Bausch  apresentado nos Connecting Europe Days em 1out2026:

“O desenvolvimento da ferrovia de alta velocidade deve progredir em paralelo com a modernização dos hubs multimodais de passageiros, incluindo aeroportos principais e estações ferroviárias. Além disso, completar a infraestrutura requerida por um transporte ferroviário eficiente de mercadorias permanece essencial, em particular para fortalecer as ligações dos portos aos hinterland e suportar as cadeias de transporte combinado. ”

Esperemos ainda que se antecipem decididamente as datas previstas no regulamento 1679, a maior parte para 2050, de ligação dos portos da costa atlântica à rede de bitola europeia de Irun.

E ainda do workplan do coordenador:

“O desenvolvimento progressivo de uma rede ferroviária de alta velocidade baseada na bitola standard é essencial para assegurar serviços sem descontinuidade e com competição justa ao longo do Corredor”.

Podem os promotores dos eixos variáveis para mercadorias (a quem tecnicamente tiro o chapéu pela complexidade do tema) dizer que a diferença de bitola em Irun/Hendaye não é problema porque os meios de transbordo com reach stackers (empilhadores de contentores) e de mudança de eixos fixos ou bogies são rápidos, e mais rápida ainda a mudança automática da bitola dos eixos variáveis em movimento nos intercambiadores. Porém, mesmo neste último caso a simples mudança de locomotiva ou o recurso a trator (não existem locomotivas para mercadorias de eixos variáveis)  introduz uma demora, incomportável se se pretende transferir significativa carga rodoviária para a ferrovia. Aliás, dois argumentos são muito fortes contra a generalização de uma boa solução transitória e localizada como os eixos variáveis: (i) - são uma barreira para o acesso de operadores exteriores à península ibérica como já se vem verificando nos concursos de material circulante em Espanha e Portugal; (ii) - são grandes as dificuldades em caso de avaria longe do fornecedor dos eixos variáveis.

A razão de defender as ligações ferroviárias à Europa, sem constrangimentos temporais nos Pirineus, reside no maior valor em 2025 das exportações nacionais por meios terrestres (29099 milhões de euros ), maioritariamente por rodovia, para a Europa além Pirineus relativamente ao valor das exportações para Espanha (18038 milhões de euros), apesar de em peso serem menores (resto da Europa 5,72 milhões de toneladas ou 5,09€/Kg; Espanha 11,51 milhões de toneladas ou 1,57€/Kg).

Para conseguir a transferência da carga rodoviária para a ferrovia com as subsequentes melhorias ambientais será essencial antecipar as datas para a bitola europeia para mercadorias nas ligações à Europa do regulamento 1679 (2050 -rede "comprehensive" - Anexo I, mapas 7) . O que obviamente estimulará a atração de investimento estrangeiro. 

O exposto obrigará a uma coordenação rigorosa com Espanha de modo a assegurar a travessia do seu território pelas mercadorias nacionais através do corredor atlântico progressivamente em bitola europeia. Estimo a necessidade de construção em Espanha (aliás no seu próprio interesse como exportadora para o resto da Europa) de cerca de 800 km de linhas novas de bitola europeia e cerca de 240 km de “migração” de bitola ibérica para europeia.

 

E se fizessemos como na Irlanda? e como na Alemanha?

E se fizessemos como na Irlanda, empresa industrial estrangeira de dimensão razoável que se instalasse junto de uma das linhas de ligação à Europa beneficiaria por um período de 50 anos de um IRC igual em função da natureza do negócio e da empresa a 12,5%, 15%, 25% e 33%  (https://practiceguides.chambers.com/practice-guides/corporate-tax-2026/ireland) ? Isso seria aplicável aos interland de Leixões, de Aveiro, de Lisboa/Setúbal, de Sines (e porque não Faro? embora dependente de obras não previstas no acesso de alguma complexidade, mas que qualquer projetista holandês consideraria vulgares, tal como o rejeitado projeto do porto de águas profundas da Golada) e às linhas Aveiro-Salamanca e Lisboa/Sines-Évora-Badajoz. Terá a União Europeia objeções, por exemplo a condições especiais de acolhimento de investimento estrangeiro com redução do IRC a 10% por um período de 10 anos em função dos benefícios obtidos? Mas se as tiver será talvez por estar a pensar em regras de fiscalidade uniformes e então não deverá opor-se à mutualização de dívidas para investimentos reprodutivos. 

Outro exemplo suscetível de melhorar no estrangeiro a perceção do ordenamento de empresas em Portugal como fator atrativo poderá ser uma nova legislação laboral inspirada na legislação alemã, incorporando formas de cogestão como estímulo a um aumento progressivo e consistente da produtividade e da eficiência da organização e do planeamento do trabalho, com possibilidade de participação de trabalhadores ou seus representantes nos Conselhos de Administração e Conselhos Fiscais                                    ( https://www.deutschland.de/pt-br/topic/economia/a-cogestao-nas-empresas-alemas-regras-e-leis )

 

Pode não parecer importante, mas se fugissemos à disciplina partidária?

Pode não parecer importante, mas se fugissemos à disciplina partidária e dessemos uma volta ao sistema eleitoral? Calma, não seria preciso mudar a Constituição que já é muito clara no respeito pela igualdade entre cidadãos e subsequentemente pela proporcionalidade, pela possibilidade de votos uninominais e pelos referendos. Bastaria dar um jeito na lei eleitoral 14/79, nos artigos  12 (circulos eleitorais) e 21 e 23 (candidaturas). Não seria mau alterar também o 79 (possibilidade de voto eletrónico como na Estónia).

Quando atualmente verificamos nos partidos uma quase unanimidade no sentido de apoiar a política de exclusividade da bitola ibérica, naturalmente satisfazendo os setores de atividade e os operadores que não terão de se preocupar com a introdução de uma bitola diferente (como em qualquer situação em que tem de adotar-se um componente diferente do instalado, a solução organizativa é a que foi seguida em Espanha, gestões separadas na ADIF para a rede convencional, e na ADIF AV para a rede de AV) é legítimo supor que critérios de natureza política se sobrepõem, por via da disciplina partidária, às questões técnicas e socio-económicas. Daí a sugestão da votação uninominal. Já foram propostos diversos sistemas eleitorais nesse sentido, quer por constitucionalistas, quer por simples cidadãos, indica-se um deles                                                                        ( https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/06/seguimento-da-publicacao-dos-resultados.html )

 

O workplan do coordenador do corredor atlântico François Bausch ( https://op.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/615f8e85-bcb9-11f1-81de-01aa75ed71a1 ) e o financiamento 

E chegados aqui voltemos atrás para podermos avançar. Regressemos às declarações de Ursula Von der Leyen sobre o financiamento das novas linhas ferroviárias. Não terá querido a senhora Presidente falar dos NRPP (National Regional Partnership Plans) ainda em sérias discussões na União Europeia, incluindo a dimensão do financiamento (450 mil milhões de euros para toda a UE e incluindo agricultura e pescas).

O limite que anunciou de 50 mil milhões de euros para financiamento do CEF-Transport no quadro comunitário 2028-2034 é manifestamente insuficiente para as necessidades da nova rede TEN-T até porque inclui 17 mil milhões para a mobilidade militar (500 mil milhões será suficiente até 2050 para concluir o respetivo programa da rede "comprehensive"?). Serão necessários outros meios, tal como referido pelo coordenador do corredor atlântico no seu workplan, apresentado dois dias depois da intervenção de Ursula von der Leyen.

A estimativa para o programa em França, Espanha e Portugal até 2040 é de cerca de 90 mil milhões de euros dos quais 78 mil milhões serão linhas novas de AV. Como reconhecido pelo coordenador, é dada prioridade à AV para passageiros e à modernização das linhas de mercadorias existentes (eletrificação, compatibilidade com comprimento dos comboios de 740m, eliminação de gradientes, transporte de semirreboques por comboio). A construção de linhas novas para mercadorias em bitola europeia fica adiada na península ibérica à exceção da ligação do terminal rodo-ferroviáriode mercadorias de Vitoria e do corredor mediterrânico.

Perante estas limitações, comprometendo a acima referida urgencia da ligação dos portos nacionais à Europa como estímulo ao crescimento das exportações, transferência para a ferrovia de carga rodoviária e atração de investimento, restará uma intervenção firme de cidadãos apoiados pelas entidades oficiais que aceitem os motivos do protesto.

E isso implica a alteração da estratégia ferroviária de ligação à rede única europeia e uma atitude mais crítica por parte do coordenador do corredor atlântico. 

Isso mesmo tem de ser compreendido e implementado pelos governos, no nosso caso de Portugal, Espanha, França e Alemanha, pelos gestores de infraestruturas desses países, IP, ADIF, SNCF e DB, agrupados no AVEP e no antigo RFC4 e especialmente pelos assesores nacionais junto da DG MOVE e da IP.

Para alcançar as melhores soluções técnicas e socio-económicas, o apoio da DG MOVE/coordenador do corredor atlântico poderá revestir a forma de concurso público internacional para seleção de consultores com referências internacionais.

O apoio técnico e financeiro da União Europeia perante a urgencia  dos investimentos duma nova estratégia é indispensável considerando as graves limitações financeiras do nosso país expressas, por exemplo pelo valor da dívida pública direta do Estado em dez2025 de 315 mil milhões de euros e o aumento médio anual dessa dívida pública direta do Estado desde 2017 próximo de 10 mil milhões de euros. Este valor é compatível com um saldo positivo do orçamento de Estado porque este cobre despesas correntes fora do perímetro de investimento no setor alargado do Estado ( resume-se este perímetro: empresas públicas como IP, CP, metros; fundos como o de resolução e institutos públicos; PPP e concessões; dívida comercial acumulada como hospitais e universidades; gestão ativa da dívida; reforço de depósitos do Estado).

Para além de uma melhoria na divulgação pública da decomposição da dívida pública direta do Estado desejavelmente com a supervisão do TdC, no setor dos transportes seria razoável integrar as empresas públicas de transporte e infraestruturas no perímetro orçamental. 

A direção financeira da União terá de fazer a sua parte, até para cumprir os artigos 170 a 172 do Tratado de Funcionamento da União Europeia (apoio às redes de transporte de ligação de regiões periféricas ao centro da Europa ), quaisquer que sejam os constrangimentos geo-estratégicos et pour cause, não só agilizando o cofinanciamento, mas também isentando os investimentos da contabilização nos défices públicos e suas percentagens dos PIB.

Como referido no workplan, espera-se o apoio das parcerias da CE e do BEI, JASPERS e InvestEU Advisory Hub. O workplan também refere que as PPP em França são definidas em função do tráfego efetivamente realizado, e não em função da disponibilidade e da capacidade. Igualmente defende o workplan a taxação ao nível local das NUT II e NUT III  como forma de financiamento.

 

A alteração da estratégia ferroviária

O primeiro passo para a necessária alteração da estratégia ferroviária será o reconhecimento da necessidade de dois orçamentos separados para a ferrovia, um para a gestão corrente da rede convencional, incluindo as modernizações, e outro para a gestão da futura rede de alta velocidade e transporte rápido de mercadorias  ( considerar o exemplo espanhol, ADIF para a rede convencional e ADIF AV para a alta velocidade), o que não impede naturalmente a existencia de zonas de ligação para transbordo ou mesmo curtos percursos com 3º carril. 

Imediatamente a seguir deverá alterar-se a ação diplomática com Espanha, recordando nas cimeiras a de 2003 da Figueira da Foz e implementando de forma coordenada uma estratégia de aproximação progressiva da bitola europeia dos portos portugueses com prazos coincidentes com os do regulamento 1679 para AV passageiros mas melhores do que os prazos ( maioritariamente 2050) para o transporte rápido de mercadorias. Considerar porém que um dos requisitos do regulamento 1679, para rentabilizar os investimentos é o dos novos troços em bitola europeia serem para tráfego misto, ao qual se veio juntar o requisito de satisfação das condições necessária ao dual-use.

A oposição a esta estratégia poderá justificar a acusação ao governo de Espanha de estar a proteger interesses instalados na operação  da rede ferroviária interna em bitola ibérica e na operação do transporte rodoviário de mercadorias para exportação para o resto da Europa. Acusação que será uma questão diplomática, análoga à induzida pelos sucessivos adiamentos pelo governo francês dos novos troços Hendaye-Dax-Bordeus.

A alteração da estratégia, em Portugal, deverá incluir o cumprimento dos artigos 40 a 42 do regulamento 1679, aliás referidos pelo coordenador, para elaboração até dez2027 dos SUMP (Sustainable Urban Mobility Plan) dos nós urbanos, incluindo as Áreas Metropolitanas. Isso colide com a atribuição à IP através das resoluçoes da AR 98/2024 e da RCM 77/2025 da definição dos traçados das ligações de AV , da ligação ao NAL e das redes suburbanas e metropolitanas (a complexidade técnica, nomeadamente para escolha da localização e dos modos de travessia do Tejo, túnel ou ponte, após sondagens recomendaria o recurso a concurso público internacional para seleção de consultor com referências).

Um papel essencial terá de ser desempenhado pelo coordenador do corredor atlântico, François Bausch apoiado pelo comissário dos Transportes, Tzitzikostas. Esse papel será principalmente a fiscalização constante da elaboração de calendários (definição de milestones, datas chave), dos concursos para  os projetos e as obras, da consistencia dos meios financeiros e da verificação das razões dos atrasos e dos meios de os corrigir.

 


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