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segunda-feira, 9 de junho de 2014

De Alvaro de Campos na estrada de Sintra a Eça de Queiroz dos produtores que emagrecem

Com a devida vénia ao DN de 8 de junho de 2014 e a Sergio de Figueiredo, autor da crónica "Eça em Draghi", reproduzo o poema de Alvaro de Campos, "Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra", ao mesmo tempo que me lembro do parabrisas basculante do Chevrolet da "Morte de um caixeiro viajante":
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
O artigo de Sergio Figueiredo citava ainda Eça de Queiroz, nas Prosas Bárbaras:
"Logo que na ordem económica não haja um balanço exacto de forças, de produção, de salários, de trabalhos, de benefícios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira, que cresce, reluz, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de produtores que emagrece, definha e dissipa-se nos proletariados."

Que eu, com o apoio do Google Tradutor, passei para finlandês, em intenção do senhor Oli Rehn, que parece perfeitamente alienado relativamente às tímidas medidas de Mario Draghi no sentido de uma união económica europeia:

"Heti kun taloudellinen järjestys on tarkka voimatasapaino, tuotannosta, palkoista, työpaikat, edut, vero tulee olemaan taloudellinen aristokratia, joka kasvaa, kiiltää, lihotus, turpoaa, kun demokratia tuottajien että slims, kuihtuu ja haalistuu meille proletaareina."


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Rui, Guanes e Rostabal, ou da atualidade de Eça de Queiroz


Fidalgos decadentes de ascendência visigótica nas Astúrias do tempo da “Reconquista”, imaginados por Eça de Queiroz no conto “O tesouro”, que o programa de Português no meu tempo nos obrigava a ler.
Não guardo recordações amigas do meu  professor, embora com a distancia lhe tenha reconhecido o valor dos seus conhecimentos.
Mas no caso deste conto, só nos chamou a atenção para a elegância da escrita, a correção formal e o simbolismo implacável que até se poderia considerar moralista.
Difícil posição a dum professor de Português perante adolescentes de 13 anos.
Por um lado, havia que preparar as crianças para a economia da selva em que iriam trabalhar (sim, desde a instrução primária que ouvi dizer que o mundo é uma selva  e por isso tínhamos de estudar para conseguir bem estar), mas por outro, havia que disseminar a mensagem que a ganância pode deitar tudo a perder.
Era a moral do conto: depois de descobrirem um tesouro na mata de Roquelanes, um dos irmãos é enviado à povoação para comprar comida e bebidas para celebrar, os outros dois matam-no no regresso para aumentarem o quinhão, e um deles mata o outro. O último irmão morre porem ao beber o vinho que o primeiro tinha envenenado para matar os outros dois. E Eça de Queiroz termina o conto, aguçando a nossa curiosidade: “O tesouro ainda lá está”.
Não ocorreu ao meu professor de Português dar-nos a lição de que a originalidade (ou em termos de “economês”), a inovação não é o essencial.
Que se deve desconfiar quando alguém aparece com uma inovação redentora e competitiva.
Mas ter-lhe-ia ficado bem informar-nos que a história não era mesmo original, que talvez Eça a tenha ouvido no Oriente, aonde foi para assistir à inauguração do canal do Suezm, perder-se de amores pela rainha de Sabá (As minas de Salomão) e escrever umas reportagens ferinas sobre o colonialismo britânico no Egito e no Afeganistão.
A história é uma das tradições islâmicas referidas ao magistério do profeta Jesus (é, para o Islão,Jesus Cristo e um profeta integrado na tradição de Abraão), precisamente para lutar contra a ganância.
Depois há referencia da mesma história nos Contos de Canterbury, de Chaucer, século XIV.
E ainda no reportório moralista do convento de Alcobaça no século XV, o Horto do Esposo, referindo claramente que a atração pelo dinheiro é a raiz de todos os males (“radix malorem est cupiditas”) – as coisas que se lêem na internet …
Goldman government Sachs não gostaria que os meninos lessem um conto assim durante a sua formação.
Nem tão pouco os ministros e os economistas que enchem a boca com a competitividade e a inovação.
De facto, não digo que se combata de modo fundamentalista a vontade dos acionistas e dos credores de obter lucro, mas uma discussão aberta e participada seria um bem para todos.
Para os que recebem os lucros, embora reduzidos, que estamos em crise, como para os produtores diretos ou beneficiários indiretos, a quem já se lhes reduziu muito.
Seria um bem debater as coisas com argumentos e cálculos fundamentados, em vez de querer envenená-las.