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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O relatório do FMI de 9 de janeiro de 2013

- Perante a gravidade das medidas estudadas no relatório do FMI  “Rethinking the state – selected expenditure reform options” (http://www.imf.org/external/pubs/ft/scr/2013/cr1306.pdf  )
de 9 de Janeiro de 2013 para cortes adicionais na despesa do Estado de 800 milhões de  euros em 2013 e de 3.200 milhões de euros em 2014, sem que sejam apresentados os cálculos da sua fundamentação e da sua necessidade e com desprezo pela já dificil situação económica de reformados e pensionistas de menor rendimento, apesar de hipocritamente dizer defender a equidade e a repartição equitativa dos sacrificios
- perante a dissonância com a afirmação da diretora do FMI de que as medidas de austeridade produziram um efeito recessivo superior ao esperado,
- perante a mesma dissonância com o estudo de técnicos do FMI sobre “Growth forecast errors and fiscal multipliers”
(http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2013/wp1301.pdf     - não é um documento oficial do FMI), em que a observação mostrou que os efeitos dos cortes na consolidação orçamental provocaram a redução do PIB superior à esperada (aplausos ao eurodeputado do CDS Nuno Melo que propôs à comissão europeia a validação da alteração dos termos do cumprimento do memorando com a troika devido aos erros de previsão cometidos),
- e perante a recusa do governo em promover outras medidas de redução do défice, como sejam as propostas de taxação das transações financeiras, de taxação das transações do multibanco, de substituição das dividas de maior juro por outras de menor juro mediante subscrição pública, de aumento da tributação dos rendimentos do capital e de promoção do crescimento e emprego através de projetos elegíveis pelo QREN,

parece justificável adotar as soluções já praticadas pelos países da América do sul e pela Islândia, dando inicio à renegociação dos juros e dos prazos de amortização com vista a,
- liquidar o empréstimo, ou a parte do empréstimo que for julgado curial liquidar, considerando a recessão em que a Europa se encontra e os juros negativos atualmente obtidos pelo MEE
- suspender a livre circulação de mercadorias, impondo taxas alfandegárias

O texto do relatório mais uma vez indicia que as propostas do FMI terão sido ditadas pelo próprio governo de modo a obter credibilidade junto todos eleitores. Isso é especialmente provável no capitulo da educação, em que se adivinham as ideias do ministro, e nas intenções do documento, pela similitude com a argumentação do primeiro ministro no sentido de considerar as reformas superiores ao devido pelos descontos e da necessidade de repensar as funções sociais do Estado (aparentemente o termo refundação, para designar rethinking ou repensar, será uma dislexia etimológica do primeiro ministro).

O relatório confirma assim a intenção dos governantes e dos seus mandantes externos de ideologicamente substituir as funções públicas pela atividade privada, apesar de hipocritamente quererem  mostrar fins didáticos ao citarem a linha de separação entre os conceitos de Musgrave e Buchanan (agradecido pela informação, que é útil; desconhecia estes senhores; discussão na página 9 sobre o papel do Estado).
Mais uma vez se relembra que uma alteração constitucional e um desrespeito pela declaração universal dos direitos humanos exige a explicitação da opinião de 2/3 de eleitores, cosa que deve ser difícil de entender pelos mandatários da Goldman Sachs, Moedas e Borges.

Aparenta ainda o relatório a técnica do escândalo de supetão, para levar as pessoas a aceitar posteriormente um mal menor.
Não é uma forma democrática e participativa de debater as questões e é uma forma ideologicamente demasiado parcial de as tratar.
Não é concebível cortar na educação, na saúde, nas prestações sociais, na segurança publica, porque isso não só provoca a diminuição do PIB (como mostrado no citado estudo do FMI) como provoca a prazo de 3 a 5 anos um intolerável aumento da criminalidade e do vandalismo conduzindo à pioria dos indicadores de conforto e de desigualdade social. A menos que se queira a politica da terra queimada, quanto pior melhor, e uma sociedade dividida em condomínios seguros e favelas inseguras, produzindo em competição com as economias asiáticas (embora a TSU na China tenha passado para 30% pago pela empresa e 10% pago pelo trabalhador).

Independentemente da insensibilidade dos mandantes e dos autores do relatório, concorda-se com a necessidade de fazer contas, de saber quanto custam as funções sociais e os seus cortes. Mas faltam as contas da identificação das dividas, dos credores, da distribuição dos empréstimos por tipos de despesa. Faltam as comparações com os outros paises em termos absolutos dos gastos por cidadão e não em percentagem do PIB.
Falta identificar a grande questão, que é a de termos um PIB tão baixo, e portanto um PIB per capita insuficiente, e a influencia que a grande divida privada exerce sobre a balança de pagamentos e sobre as contas publicas (divida publica, incluindo empresas publicas 150% do PIB; divida privada 320% do PIB, repartida 180% pelas empresas privadas, 100% pelos particulares, 40% pelos bancos ; 70% da divida privada de empresas e particulares é de crédito imobiliário) . Falta analisar e propor soluções para  a sua subida, para o alargamento da estatística aos domínios da economia paralela, para a simplificação administrativa da economia e da justiça. Falta mobilizar os pequenos, como disse o empresário dos carrinhos de feira quando foi falar com o ministro das Finanças, que Portugal também é dos pequeninos, que o capital também tem de suportar os sacrifícios (se dizem que não há dinheiro e estamos numa emergência, é legitimo ir buscar o dinheiro onde ele está, não?), que aos bancos injetam capital, e às pequenas empresas deixam-nas morrer descapitalizadas.
E não reconheço competência técnica aos autores e aos mandantes por falta de experiencia em empresas, para discutir aumentos de eficiência, e portanto aumentos do PIB.

PS em 11 de janeiro de 2013 - Têm sido interessantes as reações à divulgação do relatório, desde a opinião do senhor governante da Goldman Sachs, Carlos Moedas, até à análise de Carlos Carvalhas, que classifica com clareza o governo atual como mandante, possivelmente com o mesmo significado que eu atribuo à palavra, o responsável moral por um crime (ou intenção de crime se considerarmos que cortes na saúde podem provocar a morte antes de tempo, e cortes na educação, através do subsequente aumento da criminalidade, podem ter o mesmo efeito).
Interessantes as declarações de Claude Junker, presidente cessante do Eurogrupo, agora mais assertivo quando diz que os paises vitimas da austeridade devem ser recompensados, ou do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz que pede aos senhores do FMI para se entenderem (de facto, Maria João Rodrigues já tinha dito que melhor seria o atual governo negociar diretamente com a direção do FMI, não com os seus senhorinhos) e insiste no óbvio que o atual governo não quer ver (apesar da patética declaração do senhor ministro Marques Guedes, a dizer que o governo se revê nos comentários...), que austeridade sem crescimento é auto-destruição. E já dizia o ex-MRPP Durão Barroso, mantendo a sua postura de grande educador , que tem de haver politicas de crescimento (pois, mas não será hipocrisia simples, defender politicas neo-liberais de contenção de custos de produção e de preços que necessitam de elevadas taxas de desemprego e falar em politicas de crescimento para combater o desemprego?).
E se se fizesse o mesmo que se faz em certas empresas? mudavam-se alguns ministros, punha-se o senhor primero ministro na prateleira, com o senhor ministro das finanças e seus secretários de estado, especialmente o senhor do relatório bem feito, arranjavam-se uns especialistas tipo Monti, com preferencias ideológicas bem diversificadas, da esquerda não governamental à direita da doutrina social cristã, que colegialmente iam traçando as estratégias de calendário superior ao dos ciclos eleitorais. Não era preciso demitir o governo, nem fazer eleições legislativas antes de 2015. Bastava pôr os senhores na prateleira, entretê-los com discussões académicas como a revisão da teoria dos hifens no novo acrode ortográfico, ou a autoridade aérea, se será civil se militar (não seria mau pôr tambem na prateleira e arranjar quem resolva as questões o senhor ministro que quer e não quer privatizar os estaleiros de Viana e não deixa avançar a construção dos asfalteiros, e aquele senhor que tem sempre razão e não há meio de saber, porque os estudos ainda não estão prontos, se privatiza, se concessiona, se pelo contrário, a Carris e o Metro - se não tem experiencia de transportes para saber o que deve fazer, como pode avaliar a competencia técnica de quem faz os estudos ou de quem aconselha?). Bastava o próprio partido do governo tomar a iniciativa, agora que até existe a plataforma para o crescimento sustentável, com um relatório que é um programa acima das politicas partidárias (interpretação minha), embora se possa classificar como de direita moderada (interpretação minha).
Mas infelizmente, é dificil em Portugal mobilizar uma equipa. Parece que só podem funcionar equipas monocolores.
É uma pena, os partidos da oposição deviam aceitar a participação na comissão do "repensar o Estado", e depois aproveitar para apresentar as medidas para repensar tambem as funções do privado, e das dividas ao privado, como os 8 mil milhões de euros do BPN e SLN, e avaliar quanto custaria renacionalizar cimenteiras, energéticas, bancos e seguradoras que dão lucros e dividendos, divulgando obviamente os cálculos e as medidas (não estou a dizer que se deve renacionalizar, como na Bolivia, no Equador ou na Venezuela, depois da saida do FMI; estou a dizer apenas que se deviam fazer cálculos).
Que a comissão é uma farsa já sabemos, mas apresentar as propostas concretas no interesse do povo português não seria uma farsa.
Mas como diz o provérbio, vozes de burro como a minha não chegam ao céu de tão perclaros pensadores.
PS em 14 de janeiro de 2013 - corrigidos os numeros da divida publica e da divida privada conforme o boletim estatistico do Banco de Portugal de 10 de janeiro

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Visão de efeito de túnel

À medida que a velocidade de um automóvel aumenta, acima de um certo valor, o angulo de visão do condutor vai-se fechando.
Isto é, a atenção visual do condutor vai ficando limitada a uma espécie de túnel, ou tubo, que o impede de ver atempadamente a aproximação de um eventual obstáculo na perpendicular do movimento.
O cérebro humano é assim, e deviamos protegê-lo contra erros nessas circunstancias, já que andamos a velocidades elevadas.
É o efeito de túnel e a visão de túnel ou tubular.
Sob pressão de fatores externos de perigo, o cérebro humano elimina o que lhe parece ser menos importante e concentra-se nas poucas questões que pode processar.
Só que essa exclusão do que parece ser menos importante pode ser por si só um erro, e um erro fatal.
Isto a propósito da velha expressão que os economistas usam, "cetera paribus", ou "mantendo-se iguais todas as outras coisas".
Na verdade, as medidas de austeridade e o corte dos rendimentos seriam soluções redentoras se todas as outras variáveis se mantivessem, como seja a procura.
Infelizmente não é assim, a procura baixa.
E o aumento de impostos também seria uma solução, se todas as outras variáveis se mantivessem, como por exemplo os rendimentos ou o consumo.
Infelizmente, como diz a lei de Laffer, os rendimentos e o consumo baixam, e lá se vai o aumento da receita.
Isto para dizer que a fé cega nas medidas de austeridade, isoladamente, é um bom exemplo de visão de túnel ou visão tubular.
Tal como o é o regozijo da propaganda do regime do governo atual ao celebrar o saldo positivo da balança de pagamentos no 3º trimestre de 2012, coisa que é efetivamente de celebrar, mas sem perder a visão para fora do túnel.
Antes de mais, há que felicitar os trabalhadores e as empresas portuguesas que para isso contribuem, desde o setor metalomecanico, ao vestuário e calçado, à auto-Europa, às refinarias da GALP, e aos serviços exportados (que compensam o saldo negativo dos bens).
Como aspetos a merecer atenção, temos a exportação de ouro usado, a queda do poder de compra que induziu a diminuição das importações e as grandes dificuldades para aumentar a exportação de bens e serviços, principal meio para a redução da dívida que não para de crescer.
Isto é, não podemos concentrar-nos apenas num indicador.
Temos de ver o que se passa com a divida, por exemplo.
E não só a divida publica, tambem a privada.
Mas não há informação credivel.
Dai a insistencia na auditoria às dividas (ver o sitio da iniciativa auditoria cidadã:
 http://www.auditoriacidada.info/   ).
Até quando vamos ter de pagar aos bancos privados juros 5 vezes superiores ao juro a que eles se financiam junto do BCE?
E depois de terem sido timidamente implementadas nalguns paises, depois de anos de debate público, a taxa sobre transações bolsistas, quanto tempo teremos de esperar para ser aplicada a mesma medida que foi aplicada à Alemanha do pós-guerra: limitação do serviço da dívida a 5% dos rendimentos das exportações ?
Isto sem falar na proposta da renegociação honrada do memorando da troika, do ex-ministro Miguel Cadilhe (e depois os serviços de propaganda tubular do regime do governo dizem que não há propostas alternativas...)

sábado, 22 de maio de 2010

Gestionarium XVIII - O par dívida-lucros no sucesso da gestão de uma empresa






A discussão sobre os honorários do principal gestor da EDP fez-me reparar na notícia do DN sobre os resultados desta empresa (ou grupo de empresas).
Admitindo que tem fundamento o sentimento de auto-estima do referido gestor que considera justo o seu salário e boa a sua gestão, terei de admitir que os seguintes indicadores são compatíveis:

(1) Dívida da empresa do 4ºT/2009 para o 1ºT/2010:
                      crescimento de 4,3%, de 14 mil milhões de euros para 14,6 mil milhões de euros

(2) Lucros no 1ºT/2010:
                      crescimento de 17% para 309 milhões de euros

(3) Taxa da divida relativamente ao lucro:
                     (1)/(2) = 4,6

De facto, crescendo a dívida, a situação agrava-se, mas não é assim tão má porque a taxa da divida diminui.

Porque é tão grande a dívida?
Não parece difícil a resposta: porque os investimentos são elevados (barragens, parques eólicos) e porque as tarifas são “reguladas”, isto é os preços estão artificialmente baixos.
No entanto, um cidadão vulgar como eu fica na dúvida se estas justificações são suficientes.
Por isso seria muito bom se a empresa, no seu site, explicasse os indicadores, as suas causas e circunstancias.
É verdade que  a questão é complexa e os critérios de cálculo dos custos e dos benefícios não são de aceitação universal (outro grupo em que a dívida é enorme é a famosa SONAE, também com grandes investimentos e uma balança de pagamentos com grandes fluxos nos dois sentidos; mas isso é outra conversa) .
Como são complexas as questões da ocultação das despesas públicas nas contas de empresas públicas e privadas, para fugir ao famoso indicador do défice público (será que a epidemia das privatizações é para fugir às despesas públicas? o problema é que se perdem os geradores de receitas públicas, isto é, os aneis).

Mas seria bom que a EDP pusesse mesmo mais informação no seu site.

E, porque não se revêem as estratégias de distribuição de lucros e de fixação dos salários do gestores? Quanto mais não fosse para reduzir a dívida.
Também parece fácil a resposta: porque a EDP é uma empresa privada de participação da instituição pública progressivamente menor.
E porque a instituição pública não utiliza as regras de gestão participada, debatida e analítica e porque as instituições privadas também não utilizam essas regras.

Como não está ao meu alcance a promoção dessas regras, por mais que propagandeie a “Sabedoria das multidões”, apenas posso sublinhar:

Que os bons investimentos (por exemplo, aqueles que reduzem a dependencia energética ou melhoram a eficiência energética dos modos de transporte) provocam dívidas.
E é bom de ver como é complicado calcular o período de retorno do investimento e contabilizar o seu benefício em unidades muitas vezes rejeitadas pelo senso comum, que tanta dificuldade tem nos tempos que correm em aceitar uma dívida prolongada no tempo (por exemplo, a ultima amortização dos empréstimos para os caminhos de ferro de Fontes Pereira de Melo pagou-se no ano 2000).


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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Economicómio XLIII – uma situação explosiva 5




Retomo o tema da situação explosiva, especialmente a nº1 (as dívidas - ver blogue de 4 de Janeiro de 2010) e a nº4 (previsão da evolução da dívida nacional – ver blogue de 28 de Janeiro).
Vou citar economistas credenciados.

ENTREVISTA DO PRESIDENTE DO BCP
O senhor presidente do BCP afirmou (e eu acredito) que é muito mais difícil fazer crescer o PIB do que controlar o défice e a dívida.
Será caso para dizer, então porque não controlamos?
Talvez porque achemos maioritariamente bem que os portugueses tenham, em 2009, comprado 161.000 automóveis ligeiros, o que dará aproximadamente 2.415.000.000 euros.
Leram bem, são à volta de 2,4 mil milhões de euros. Admitindo que um automóvel ligeiro se amortiza em 5 anos e que tem uma manutenção de 5%, temos que o sistema de transporte individual custa aos cidadãos cerca de 5 milhões de euros por ano, EXCLUINDO OS RESTANTES CUSTOS DE OPERAÇÃO (VULGO, COMBUSTÍVEIS).
Deveríamos comparar com os custos dos sistemas de transporte coletivo.
A um ignorante como eu de economia, custa a aceitar que os economistas que nos dirigem não reconheçam na compra de automóveis ligeiros um caso de viver acima das capacidades. No entanto, é um excelente exemplo do que se pode fazer para alimentar receitas fiscais e para demonstrar a teoria da vantagem comparativa de David Ricardo em 1817 (estou a ir outra vez ao Economia para todos, de David Moss) .

TEORIA DA VANTAGEM COMPARATIVA
A teoria da vantagem comparativa diz que não vale a pena perdermos tempo a projetar e fabricar automóveis (eu escrevi projetar e fabricar, não escrevi só fabricar, para não criticar a Auto Europa de Palmela) , coisa em que outros são muito bons, mas devemos em troca vendermos-lhes as coisas em que somos bons (desde os jogos para telemóvel do senhor professor António Câmara, até aos vinhos, cortiça, moldes de plástico, sapatos, T-shirts, medicamentos,sol do Algarve e castelos do Alentejo). E assim o PIB dos outros aumenta e o nosso também.
Conclusão, nada a opor a que se comprem os 161.000 automóveis (menos do que em 2008), desde que se exporte mais.
Devia ser a isto que o senhor presidente do BCP se referia.
Lá está, depois vêm os economistas (que produzem relatórios) dizer que só com o aumento da produtividade, quando me parecia melhor, a mim que tenho dificuldade em produzir relatórios, produzir as grandes quantidades de bom vinho e bom calçado.

ENTREVISTA DO DR JOÃO SALGUEIRO
O segundo economista credenciado que queria citar é o senhor doutor João Salgueiro, antigo ministro, que numa entrevista ao DN diz mais ou menos a mesma coisa que David Ricardo e a sua vantagem, e, tanto quanto me lembre, diz pela primeira uma coisa que se deve fazer em concreto.

DESAFIO AOS PORTUGUESES
Diz que se deve fazer listas do que podemos fazer, nós portugueses, neste campo da vantagem comparativa.
Esta ideia de fazer listas está na origem, por exemplo, do micro-crédito, dos bancos de tempo, das lojas de arranjos de roupa, de reparação de sapatos, da criação de cavalos na Quinta da Curraleira e dos rebanhos a atravessar a estancia de turismo (não é sinal de subdesenvolvimento, como diziam os provincianos do tempo das vacas gordas, é sustentabilidade, como dizem os provincianos de agora), apanhar ramos de árvores trazidos à praia e fabricar objetos decorativos (ver acima a foto do estudo prévio na praia) ou de utilidade, como candeeiros rústicos, cabides, … é o princípio da economia de subsistência, de difícil convivência com a fixação das prioridades em ter um carrinho novo e que acelere muito. E que os economistas oficiais têm muita dificuldade em compreender, porque não a deviam perseguir, deviam aprender com ela, e depois façam os acertos fiscais.
Ou podiam adotar uma postura mais interventiva, como falei no blogue de 8 de Junho de 2009 (ver em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2009/06/o-pensamento-portugues-xxxix-o-mosteiro.html ), a propósito de uma quinta do Estado, à moda das Vinhas da Ira de John Steinbeck, em Seiça.
Ou perder complexos e acreditar nas estatísticas das cooperativas e unidades de produção que registaram atuações produtivas na reforma agrária (eu sei que muitos economistas não acreditam que tivesse havido intervenções produtivas, ou não querem acreditar, ou acham que a única intervenção produtiva foi a venda de louça da companhia das Índias aos burgueses de Lisboa, ou ficariam com problemas de auto-estima se se rendessem à evidencia, mas que houve produção de bens alimentares em condições de rentabilidade, houve) e … reativá-las nas zonas em que a terra permaneceu abandonada após o fim da reforma agrária…

DESAFIO AOS ESTRANGEIROS
E o senhor doutor João Salgueiro, comentando as dificuldades burocráticas em Portugal lançou o desafio: como convencer estrangeiros a investir em Portugal?
Ora, dentro da tal vantagem comparativa, podemos deixar os reformados do centro e do norte da Europa estacionar no inverno as suas auto-caravanas nos parques de estacionamento das nossas praias para que eles comprem o pãozinho fresco e as verduras nos supermercados da vila (ver as fotos das auto-caravanas no parque de estacionamento; em chegando ao Verão voltarão à terra, que os verões na Europa do norte são aprazíveis; esperemos que não venha um sacerdote do templo expulsá-los porque faria muito mal à economia da vila). Ou, voltando ao blogue de 8 de Junho de 2008, a propósito do exemplo do fluviário de Mora, descer um pouco mais para sul e aproveitar a Torre de Brotas (ver em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_das_%C3%81guias )
pousada para os senhores feudais do tempo de D.Manuel I repousarem das caçadas, classificada como monumento nacional e desgraçadamente se degradando, quando podia ser um espaço turístico.
Ou ouvir o que têm para dizer o casal, ele sueco e ela canadiana, que se estabeleceram no Alentejo a fabricar mosaicos hidráulicos decorativos.
Em tudo isto parece que a estrutura decisória deste país se dispersa nos seus mecanismos auto-bloqueantes…e que todos nós continuamos com grande dificuldade de nos organizarmos em equipas.

a continuar …quanto mais não seja para ver se percebo se é mesmo mais fácil controlar as dívidas e o défice do que o PIB.



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