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terça-feira, 24 de junho de 2014

Há um outdoor espalhado por todo o interior do país

Há um outdoor espalhado por todo o interior do país:

"AJUDE-NOS A FECHAR AS ESCOLAS, se souber de uma escola com menos de 50 alunos, avise-nos, nós vamos lá e fechamo-la. Para salvar o nosso saldo orçamental público, para que nenhum aluno do interior tenha uma escola a menos de 50 km de casa. É UM IMPERATIVO NACIONAL. Fechemos as escolas, para que por daqui a 10 anos nos possamos orgulhar do objetivo atingido, uma taxa de insucesso e de abandono escolar imbatíveis na Europa. Cim uma taxa de criminalidade e de desemprego invejável. PARA QUE UMA MINORIA POSSA DISFRUTAR DO PAÍS E QUE DO EXTERIOR SE FAÇA A NOSSA GESTÃO.
SEJA CIDADÃO. AJUDE-NOS A FECHAR AS ESCOLAS"

Este outdoor insere-se numa campanha de marketing que tem vindo a tentar convencer a populaçáo de que os alunos ficam melhor se forem obrigados a percorrer grandes extensões antes de chegar aos "agrupamentos".
É de facto dificil avaliar até onde é rentável uma centralização ou uma politica de descentralização. Eu diria que a centralização é bom para quem vende combustíveis importados e vende transporte. Porem isso desequilibra o saldo orçamental.
E em dias de temporal,  desmobiliza a frequencia das aulas.
As escolas distribuidas minimizam as deslocações em termos de alunos.km.
Mas esse é um conceito dificil de explicar aos gestores.
O ministro da educaçao de Durão Barroso, David Justino, fechou 472 escolas
Maria de Luz Rodrigues  fechou  2500 escolas
Isabel Alçada fechou  701 escolas.
Nuno Crato tem como objetivo o fecho de 500 escolas.

A questão não é a desertificação (deserta, uma povoação com 20 crianças?) é a falta de uma politica de fixação da população. D.João II mandou vir franceses e flamengos para povoar o país.
Mas a industria da educação (e dos transportes porta a porta) agradece. Veja-se por exemplo os 3 colégios de São João de Brito, o de Lisboa, frequentado por filhos da classe alta e média alta, é dos primeiros do ranking. Os outros dois, com um nivel de rendimentos mais baixo dos encarregados de educação, quedam-se por lugares modestos.
Vale a pena discutir  a educação sem analisar a questão social e económica?

Fechem-se portanto as escolas, mas não em meu nome.
Ver cálculos em post anterior:

PS - Seria interessante ver se no estudo governamental (se o houve com cálculos) das economias do fecho das escolas está, do lado dos custos, os riscos de sujeição das crianças ao aumento das suas viagens rodoviárias, num país em que a sinistralidade é superior à média europeia. Os custos dos acidentes adicionais do transporte escolar deveriam ser contabilizados como custos de exploração do sistema escolar com "agrupamentos". Mas duvido que façam essas contas.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A escola aprisionada


As escolas têm sido encerradas, fechadas, ou simplesmente aprisionadas?


Escolas feitas prisioneiras, com cadeado no portão.

Quer-me parecer que não foi previsto o aumento do custo dos combustíveis quando se decidiu que era melhor transportar as crianças para a escola do que ter uma escola perto das crianças (deteta-se aqui uma lacuna na formação dos decisores: não lhes terão ensinado o teorema de Fermat-Weber).

Esta escola tinha, no ano passado, 20 crianças a brincar no recreio, no mês de Fevereiro.
Agora está aprisionada.
Como a esperança de que as crianças tenham sucesso escolar.
Mas quando já se viu a esperança morrer por terem fechado uma escola a cadeado?

Dedicado a todos os ministros da Educação deste País, especialmente ao atual, tão crítico que foi aos anteriores para agora ser seu continuador, adensando a probabilidade de agravamento com o tempo da correlação entre insucesso escolar e criminalidade, violencia e desemprego, cito Natália Correia e José Mário Branco:



Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.


Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.


Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.


Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.


Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.


Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.


Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.


Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.


Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.


Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.


Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.


                                                        Natália Correia
                                      Poesia Completa Publicações Dom Quixote, 1999




sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Conta do Twitter de P.P.Coelho até ao dia 5 de Junho de 2011

Com a devida vénia ao DN, transcrevo alguns textos do Twitter da conta de P.P.Coelho, atual primeiro ministro de Portugal, no dia seguinte à sua visita à Alemnha, onde manifestou grande interesse em que a Eon, empresa alemã de energia compre os 20,4% da EDP que dão dividendos ao Estado português, e tranquilizou os investidores garantindo que a sua política taxará preferencialmente os rendimentos do trabalho e não os do capital :
1 - "não se põe um país a pão e água por precaução"
2 - "nas despesas correntes do Estado, há 10 a 15% de despesas que podem ser reduzidas"
3 - "vamos ter de cortar em gorduras e de poupar"
4 - "os que têm mais terão de ajudar os que têm menos"
5 - "o governo está-se a refugiar em desculpas para não dizer como é que tenciona concretizar a baixa da TSU"
6 - "a ideia de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento"
7 - "se formos governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema financeiro português"
8 - "o PSD chumbou o PEC4 porque ... a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte do rendimento"
9 - "nós nunca falámos disso (acabar com o 13º mês) e é um disparate"
10- "como é possível manter um governo em que um primeiro ministro mente?"

A interrogação 10 tem a data de 5 de junho, anterior às eleições, mas parece ter validade alargada.
Hoje mesmo no DN vem a noticia do fecho de mais escolas do 1º ciclo até 60 alunos, do fim de quase 5000 contratos  com professores de todos os ciclos e da não colocação de 35.000 professores.
Diminuir o numero de professores é uma medida de poupança, que segundo a terminologia acima do Twitter corresponde a eliminar gorduras.
Salvo melhor opinião, é uma ofensa às pessoas que têm dado o seu esforço a ensinar crianças e que não são gorduras.
É também um fator de risco de crescimento do insucesso escolar e correspondente repercussão na criminalidade juvenil daqui por 5 anos.
Quanto ao fecho das escolas, temos aqui um exemplo simples de caciquismo, que é uma forma portuguesa de tribalismo. As próprias câmaras concordam, talvez porque se estimulam o negócio do transporte e  benefícios para as sedes dos agrupamentos, em detrimento das pequenas povoações, que cada vez serão menos habitadas. Verifica-se mais uma vez aqui o teorema de Fermat-Weber, de agravamento das concentações, de que também é exemplo o sucesso das grandes superficies comerciais à custa da falencia das pequenas lojas e da assunção dos gastos de combustível pelos clientes.
Não é claro que os custos e os prejuízos para o seu descanso e paz de espírito com o transporte das crianças (acrescem os riscos da sinistralidade rodoviária especialmente nos dias de mau tempo) sejam inferiores aos custos da manutenção da escola e colocação de professores.
Prevaleceu assim a vontade de um governo e das câmaras em detrimento das freguesias, o que é sintomático, quando vemos o governo, ao arrepio do memorando da troica (que inscreveu a redução de câmaras e de freguesias, e não só freguesias), não querer beliscar o clientelismo das câmaras municipais.
Tenho pena de ver o professor Nuno Crato no meio desta tormenta sem ao menos lançar uma âncora para ver se a educação não bate nos rochedos.
Antes os tempos em que ele falava da implosão.
Ao menos podia-se dizer dos ministros que não sabiam o que estavam a fazer.