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domingo, 15 de setembro de 2013

Sensualidade e intimidade, por Joel Neto

Triste sina, ter de escrever sobre a televisão portuguesa nos tempos que correm, ter de escrever sobre a mediocridade (e contudo, de vez em quando há uma pequena esperança; parece que não querem acabar com a RTP2 e que querem que seja um canal cultural; até este blogue já tinha pensado nisso, com a condição de se aumentarem as taxas de publicidade para os outros canasi, nos dias em que se transmita teatro de qualidade, por exemplo; infelizmente, não dou muito pela sobrevivencia da pequena esperança, neste país de conceitos bicudos de cultura e de agentes culturais).
Joel Neto tem essa sina, de escrever sobre a televisão portuguesa, reality shows, concursos boçais e outras coisas. Mas Joel Neto é escritor, e vejam na crónica do DN, que transcrevo com a devida vénia, como de repente surgem “lírios entre abrolhos” (se não sabem donde tirei este verso, pesquisem na Internet, por favor), a propósito de concursos estouvados, de sensualidade, de intimidade.
Não resisti e procurei ilustrar numa fotografia o tema. Vejam a promessa de intimidade na glande do sobreiro, à espera que um pássaro. ou outro bichinho depois da bolota cair, atinja a intimidade e propague a espécie por aí fora. Sensualidade no mundo vegetal, com a ajuda do mundo animal…
Crónica no DN em agosto de 2013
"Cristina Ferreira prepara-se para revalidar o título de mulher "Mais Sexy de Portugal", segundo uma eleição do Correio da Manhã. Rita Pereira e Sofia Ribeiro vêm desenvolvendo uma guerra surda pelo título de rapariga mais sexy das telenovelas, pelo que continuam a fazer distribuir fotos em que aparecem despidas para matar. E Miley Cyrus, ex-Hannah Montana, percebeu que o único caminho para ser reconhecida como uma artista adulta era tornar-se "mais sexy" (basicamente como aconteceu com Luciana Abreu, que por seu lado optou por encher os peitos como balões de ar quente) e apareceu nos MTV Music Awards a fazer figurinhas, deixando claro que vai acabar aos trambolhões em palco como Amy Winehouse ou Lindsay Lohan.
Só posso lamentar aquilo que a cultura popular contemporânea, e a TV em particular, fez à ideia de sensualidade. Quando se fala de desejo, o que verdadeiramente está em causa é um impulso de intimidade. A penetração numa intimidade: um impulso de posse, talvez - o roubo dessa intimidade, o usufruto de um pedaço dela. A sensualidade é, pois, a capacidade que um corpo tem de sugerir-se proprietário de diferentes camadas de intimidade. De uma escala dela. E, sendo assim, o corpo pode ser maravilhoso mesmo quando é feio. Tem é de ser íntimo. Profundo. Abissal, misterioso, convidativo. Tem de fazer-nos apetecer mergulhar nele. E depois mergulhar mais fundo ainda.
Rita Pereira, Cristina Ferreira, Miley Cyrus - nenhuma dela faz ideia do que é a sensualidade. Como ícones de beleza, são esquemáticas e rasas, desprovidas de camadas. Já Sofia Ribeiro não o é. E, contudo, decidiu jogar no terreno da adversária. Porquê? Porque assim manda a televisão. Um vómito."

domingo, 22 de maio de 2011

Séneca, estoico

Filósofo estoico romano, morto em 65 DC.
Os estoicos centravam a felicidade no conhecimento e na capacidade de refletir sobre as coisas.
Talvez Seneca não tivesse estado tanto acima das preocupações materiais, uma vez que foi conselheiro de Nero e acusado de  obtenção ilícita de vantagens materiais a propósito da colonização da Grã-Bretanha, embora seja dele a citação: "Quem beneficia de um crime é cúmplice desse crime".
Seneca escreveu em "Epistolas morais para Lucilio, governador da Sicilia":
"Quando nos reclinamos num banquete, um escravo limpa o vomitado; outro, que se encontra sob a mesa, recolhe a urina dos bêbados".
Tempos difíceis.
Em "Consolação para  a mãe Helvia", escreveu:
"Roma procura, decadente, o novo e o exótico; os romanos vomitam o que comem, comem o que podem vomitar e nem se dignam digerir os banquetes pelos quais roubam o mundo inteiro".
Severo, Séneca, para  Nero, que aliás o mandou suicidar-se.
Dificil, o entendimento entre as pessoas, desde sempre.
Que acharia Seneca dos espetáculos no Coliseu?
E que diria da tirania dos "reality-shows", das telenovelas e dos argumentos eleitorais das nossas televisões?

segunda-feira, 7 de março de 2011

A televisão

Com a devida vénia ao DN e ao seu crítico de cinema João Lopes.
A propósito de Pedro Tamen e do seu livro Um teatro às escuras, e a propósito de Jean -Luc Godard e do seu filme Filme Socialismo, o crítico considerou que a imagem não é uma revelação automática, mas antes uma nova máscara contendo a promessa de uma revelação. E comentou: Oh ! tristeza  da televisão; por ser sede de transparencias pueris.
E ainda citou Jean Luc Godard:  "Dêem-nos a televisão e um automóvel, e libertem-nos da liberdade".
Já lá dizia a letra da canção dos Deolinda, que na televisão está alguém pior que eu, apesar, ou por isso mesmo, de ter audiencias.
Bom que seria, se se incluisse nas medidas de recuperação do país o lançamento de um imposto sobre os programas deseducativos da televisão, passe o aspeto antipático da sugestão. Não seria dificil encontrar um juri para classificar os programas.

sábado, 24 de outubro de 2009

Economicómio XXIV - As canções de Richard Strauss e o fosso

Gosto de assistir a concertos na Gulbenkian.
Mais gostaria que mais pessoas gostassem.
Mas não gosto de contrariar ninguém nem obrigar as pessoas a gostar seja do que for.
E deixo-me levar por umas quantas reflexões enquanto o soprano canta as canções que Richard (não confundir com os das valsas, se fazem favor) Strauss escreveu na intenção da mulher.
Strauss gostava de ouvir a mulher cantar, e eu não me admiro que também gosto de ouvir a minha. É uma forma de executar os procedimentos de acasalamento como outra qualquer.
Entretanto, a propósito deste concerto, tomo conhecimento de que Strauss esteve em Portugal por várias vezes, nos primeiros anos do século XX, umas vezes para dar concertos e outras para passar uns dias em Sintra a compor.
Seria interessante saber que composições de Strauss nasceram em Sintra.
Mas isto a propósito deste fenómeno: na sociedade portuguesa do inicio do século XX coexistia um vasto grupo de cidadãos em que predominava o analfabetismo e a pobreza, com um pequeno grupo de cidadãos requintados e de nível cultural elevado. Estes recebiam os expoentes da arte da época e com eles conviviam.
Como é sabido, só pode haver cultura se a capacidade produtiva duma sociedade for capaz de eliminar a preocupação pela satisfação das necessidades básicas dos beneficiários. Dado que a produção não chegava para todos, só alguns podiam beneficiar da cultura. Isto é, havia um fosso entre a maioria dos portugueses e a minoria dos que beneficiavam da cultura.
Este fosso foi tentado colmatar com o esforço da I República de alfabetização.
Porém a capacidade produtiva continuou insuficiente e os detentores do poder económico não viram necessidade de estender a todos os benefícios da cultura.
Na actualidade a massificação dos programas televisivos de entretenimento tenta iludir a existência do fosso com a disseminação dos concursos, telenovelas e futebol.
Mas a verdade é que só uma minoria se deixa encantar com as canções de Strauss (não confundir com os das valsas).
É uma pena.
Uma pena e um fosso, claro.
Quer-me parecer que só através do cumprimento do art.27 da Declaração Universal dos Direitos do Homem pelos governos seria possível reduzir o fosso. Mas isso contraria os princípios sagrados da religião do mercado, vulgo adam smithismo, por mais que alguns ministros da cultura (um ministério para a cultura? e se se lembrassem de um ministério para a liberdade?) achem que a cultura também vende, e que Fernando Pessoa vale mais que os contentores de Alcântara.
Por outo lado, se a cultura é um sinal exterior de superioridade, que interesse poderá haver em democratizar a cultura, em desviar dinheiro doutros sinais exteriores de riqueza para essa democratização?
Será esta consideração tão simples que preside à elaboração dos programas da nossa televisão (2.400 milhões de euros em 9 anos de indemnizações compensatórias para a RTP…)?