Rodoviarium II - Adam Smith e Darwin passaram os feriados de Junho no Algarve
Não tenho a certeza de nada, claro, mas parece-me que Adam Smith e Darwin acompanharam muitos portugueses na pequena transumancia dos feriados de Junho.
Fiz a viagem de ida na noite de 9 de Junho e o regresso no sábado, dia 13, também de noite.
É possível que de noite se viaje com mais segurança, no pressuposto de que, sendo menos favoráveis as condições nocturnas, darwinisticamente já foi feita a selecção natural dos condutores.
Assim, quando a afluência não é muita, é vulgar verem-se os automóveis em grupos dispersos pela auto-estrada circulando a velocidades médias da ordem de 130-140 km/h (eu sei que é ilegal…), e de vez em quando passarem os condutores velozes a velocidades superiores.
Como o movimento não era muito no regresso de sábado, até se verificaram esses valores de velocidade média (130-140 km/h).
Mas na viagem de ida de dia 9 havia grande afluência e os grupos deslocavam-se mais compactos, a velocidades médias entre 100 e 110 km/h.
Darwin viu logo que a espécie humana perdera a capacidade para se deslocar de forma defensiva em grupo, embora tenha conservado vestígios dos respectivos genes. As regras do movimento em grupo dos animais têm como principal objectivo a protecção contra predadores, quer seja o meio aéreo, terrestre ou aquático, sendo que a eficácia dos mecanismos de protecção diminui com a capacidade intelectual do predador, veja-se o caso dos massacres de cardumes executados pelas orcas e golfinhos (analogamente, os prejuízos dos pequenos investidores são tanto maiores quanto mais inovadoras no sentido de obtenção de grandes remunerações forem as técnicas de gestão das sociedades financeiras).
No caso das deslocações colectivas da espécie humana verifica-se o contrário: o próprio homem assume-se como predador em comportamento agressivo para o condutor da frente e auto-destrutivo para ele próprio. O gene está lá, mas sofreu inibição dos antagonistas desenvolvidos pelo próprio cérebro humano.
Por exemplo, numa rua de dois sentidos de uma cidade, a reacção primária de um condutor ao ver que o carro da frente parou ou está a abrandar, é mudar de via (agora é via que se diz, não é faixa) e tentar ultrapassar sem se inteirar primeiro do motivo por que está o carro da frente a parar, isto é, se não haverá mesmo motivos para não invadir a via contrária. A reacção primária num grupo de aves, peixes ou mamíferos é o indivíduo reproduzir o comportamento do indivíduo da frente ou ocupar o lugar dele se ele saiu do grupo. E isso protege contra predadores, sem necessidade de intervenção intelectual. No caso dos humanos, é precisamente a intervenção intelectual, ao nível primário, não secundário, que propicia o predador-acidente.
Darwin, observando o movimento da via de ultrapassagem, concluiu precisamente o que ficou escrito. Enquanto na via da direita os indivíduos procuravam manter espaços de protecção entre si, num comportamento defensivo em relação ao predador –acidente , na via da esquerda os condutores velozes acumulavam-se, chegando a reduzir a distancia para 4 metros; e muitas vezes utilizavam a via da direita para ultrapassar os carros da via da esquerda (eles sabem que é ilegal, claro).
Darwin, embora não especialista de matemática, convertia automaticamente a distancia em metros para a distancia em segundos, e relacionava essa distancia com o tempo de reacção do homem e da máquina a uma alteração das condições do movimento do carro da frente:
Tempo em segundos para percorrer uma distancia de 4 m a uma velocidade de 110 km/h: 13 centésimos de segundo
distancia em metros percorrida a 110 km/h durante o tempo de reacção, i.é, antes que haja reacção a uma alteração de movimento: 61 m
Isto é, Darwin achava que cada condutor devia guardar uma distancia de 61m relativamente ao carro da frente e, se fizesse isso, não só se protegia do predador-acidente, como progressivamente a velocidade do grupo subiria. Possivelmente e tendencialmente para os referidos 130 a 140 km/h.
Mas Adam Smith , como se diz em coloquial, atirou-se ao ar, relembrando que o interesse individual de cada condutor, expresso na sua ânsia de chegar mais depressa, mesmo que o seu comportamento pudesse ser o do investidor que investisse o que fosse preciso para ganhar o que fosse possível, seria sempre o motor do lucro para esse condutor e para os outros. Bem argumentou Darwin que esse interesse individual era o responsável pela inibição do gene das regras de protecção em movimento colectivo, mas Adam Smith manteve-se irredutível. Ele tinha sempre razão.
Como os economistas posteriores a Adam Smith não aproveitaram os feriados para irem ao Algarve, ninguém lhe lembrou que talvez os outros condutores, pelo menos os da via da direita, não sentiam, tal como a velhinha que não queria atravessar a rua, nenhuma necessidade, tangível ou não tangível, em lucrar tempo para chegar mais depressa ao Algarve, dando ampla prioridade a chegar em segurança e com o tal espaçamento de protecção, esse sim gerador de ganhos de tempo, no interesse comum, através duma subida regulada da velocidade média.
E Darwin, de facto, apesar dos parcos conhecimentos de matemática, lá foi mostrando a Adam Smith, embora com pouco sucesso, que a acumulação de carros na via da esquerda, com distancias que chegavam aos 4m, isto é, 13 centésimos de segundo, era um perigo e o principal responsável por uma média de grupo tão baixa (110 km/h velocidade baixa…quando o petróleo subir, logo se vê o que é velocidade baixa ou alta).
Porque se o carro da frente tiver de abrandar (olha, é a saída de uma área de serviço e o carro da direita fugiu ao que ía a entrar na auto-estrada e o carro da esquerda teve de abrandar, por exemplo, de 110 para 102, 6 km/h).
Se o condutor veloz do carro perseguidor a 4m não conseguir reduzir o tempo de reacção de 2 para 1 segundo, bate e bate mesmo ao fim de 1 segundo do tal abrandamento.
Para não bater, teve de aplicar travões a uma taxa de desaceleração mais elevada do que a que o carro que abrandou fez, e que foi de 2 metros por segundo quadrado.
E quando isso aconteceu (o segundo carro conseguir segurar o embate no primeiro) o terceiro carro, também perseguidor, como deixou escoar tempo de reacção, teve de travar a uma desaceleração ainda superior. E por aí fora, no sentido contrário ao movimento da fila, propagando-se a perturbação para trás, com cada carro a travar mais depressa do que o carro da frente.
Não admira assim, concluiu Darwin, como se tivesse analisado a rota de transumancia de um bando de patos, que a rectaguarda da fila acabe mesmo por parar, sem que tenha havido nenhum acidente nem nada digno de nota. Foi a ganância dos apressados que se aproximavam demasiado dos carros da frente e insignificantes abrandamentos (entradas e saídas de áreas de serviço ou acessos da auto-estrada, um mosquito a apoquentar um condutor, um micro-lapso de atenção, um atendimento do telemóvel…) que provocaram as grandes filas e as esperas para retomar o movimento.
Tudo porque o interesse individual não quis guardar a distancia de 2 segundos , ou tempo de reacção, ou 61m a 110 km/h, relativamente ao carro da frente, nem guardar o seu lugar na fila.
Esta é a metáfora da economia: o interesse individual e o mercado a funcionar, quando existem externalidades de interesse social comum (quando grandes grupos desejam chegar em segurança ao Algarve), quando existe escassez (quando faltar o petróleo, por exemplo), ou quando existe informação assimétrica (é o que faz que alguns consigam excelentes remunerações dos seus investimentos enquanto outros não), só piora as coisas.
É pois necessário um código (guardar uma distancia de segurança, não ultrapassar pela direita) com regras infelizmente limitadoras da livre iniciativa, mas que defendem o direito da vida em sociedade.
Os AdamSmithistas que me perdoem.