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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Preparação da ferrovia contra as alterações climáticas

 A ocorrência de deslizamentos de terras na sequência de excesso de precipitação, provocando interrupção das vias de comunicação e acidentes ferroviários e rodoviários leva também a aumentar o nível da monitorização das infraestruturas e da manutenção.

Dão-se a seguir alguns exemplos da realização de seminários sobre o tema e de episódios de excesso de precipitação e de acidentes ocorridos. A ferrovia terá de se adaptar às alterações climáticas.



Conferência da ERA (European Railway Agency) em 16jun2025

https://www.era.europa.eu/content/conference-rail-resilience-climate-change

Conferência Rail Net Zero em 14-15out2025

https://www.railnetzerosummit.com/

Conferência Intelligent Rail Summit  "Ferrovia à prova do clima" da Rail Tech em 4-5nov2025

https://events.railtech.com/i ntelligent-rail-summit-2025/programme/



Deslizamento de terras em Nesvatnet, Levanger, Noruega:

https://www.ngi.no/en/research-and-consulting/natural-hazards-container/avalanches-and-slides/quick-clay-landslides/large-quick-clay-slides-in-norway/

https://www.railtech.com/all/2025/09/26/could-norways-fatal-rail-landslide-have-been-foreseen-satellite-data-suggests-yes/

o caminho de ferro encontra-se a um nível inferior ao das estradas; estas são-lhe
paralelas e constituem uma barragem que acumula água por insuficiente drenagem numa zona em que o nível freático é elevado devido ao lago Nesvatnet . A zona do deslizamento encontra-se numa cota mais baixa relativamente aos terrenos envolventes nos perfis longitudinal e transversal 




perfi longitudinal



perfil transversal




Pequeno deslizamento de terras em Riedlingen, Alemanha e descarrilamento:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/08/descarrilamento-em-riedlingen-bechingen.html

Deslizamento de terras em Stenungsund, Suécia em set2023:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/09/os-desastres-de-derna-e-de-stenungsund.html

Aluimento no IC2/Águeda:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/03/deslizamento-de-terras-e-aluimento-no.html

Aluimentos na A41 e A14

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2016/04/os-aluimentos-da-a41-e-da-a14.html

Aluimento no balastro da linha de Casdcais em 2013:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2013/02/no-melhor-pano-cai-nodoa-reflexoes.html

Aluimento na linha do Norte peerto da Pampilhosa:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/01/aluimento-em-aterro-na-linha-do-norte.html



CONCLUSÃO:  é essencial monitorizar as condições de drenagem especialmente no perfil transversal e evitar o paralelismo com rodovias a cota superior

PS em 3nov2025 - mais um descarrilamento em consequencia de deslizamento de terras, desta vez em Cumbria, na ligação de Glasgow a Londres:

https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/shap-cumbria-train-derailment-b2857220.html

local onde terá ocorrido o deslizamento de terras e a colisãona via da direita, sentido esquerda-direita


A colisão provocou o arranque da frente da primeira carruagem que descarrilou. A direita aspeto da zona de colisão, indiciando necessidade de reforço da contenção




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Atrani e a conjetura do cantoneiro

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Nunca tinha ouvido falar de Atrani, uma pequena povoação a menos de um quilómetro de Amalfi, a sul de Nápoles.

No dia 9 de Setembro de 2010 sofreu uma enxurrada que matou uma pessoa e arrastou os automóveis . Ver http://www.youtube.com/watch?v=Z7Kb7sq12mo

Tratou-se de um fenómeno do mesmo tipo do que se passou na Madeira. Excesso de pluviosidade e consequente encharcamento, “liquefação” e deslizamento dos solos, formação de barragens devido à acumulação de vegetação, pedras ou detritos nas partes altas das linhas de água, seguindo-se o efeito de rebentamento da barragem. Ocupação das linhas de água e seu soterramento com vias de comunicação e edifícios. Subdimensionamento dos canais de escoamento para os valores da pluviosidade.

Este tipo de fenómenos tem tendência a repetir-se e admira como não aconteceu nas povoações vizinhas. Atrani está espartilhada entre cumeadas que acabam no mar e toda a ocupação dos solos parece ter sido feita com pouca intervenção da engenharia preventiva, desde o tapamento e redução das secções de escoamento das linhas de água aos obstáculos ao longo das encostas (estradas, vegetação não contida, casas). Ver a imagem do Google Earth .

Também no sul de Itália, na Calábria, em Maierato, tinha ocorrido um deslizamento de terras em Fevereiro de 2010. Ver:
http://rockglacier.blogspot.com/2010/02/landslide-in-calabria.html

Em Abril de 2010, no norte de Itália, na linha de caminho de ferro que serve Bolzano, num vale no sopé dos Alpes do Alto Adige, um deslizamento de terras com origem na rotura de uma rede de irrigação e consequente encharcamento dos solos, provocou o descarrilamento d e um comboio com vítimas mortais. Ver:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/8615002.stm

No Japão há registos de deslizamentos de terras já há vários anos. Neste país estudou-se profundamente a geologia da liquefação dos solos, de grande aplicação na construção de túneis em solos aluvionares ou argilosos (um solo com areia resiste melhor à liquefação) e na construção anti-sísmica. No caso do acidente neste vídeo, verifica-se que o coberto vegetal, de árvores, não é suficiente para evitar o deslizamento. Ver:
http://www.youtube.com/watch?v=23NZTzpw6cY

Em Portugal tivemos, em Janeiro de 2010, o deslizamento de terras sobre a CREL, em Carenque e, em Maio, na encosta da Graça, junto do miradouro da Senhora da Graça.

Verificou-se ainda, recentemente, na Tailândia, um deslizamento de terras com destruição de uma estrada. Neste país a UNESCO desenvolveu desde há vários anos estudos no campo para prevenção dos deslizamentos de terras, com definição do nível de alarme sempre que a pluviosidade diária ultrapassa 100 mm. Ver:
http://www.unescobkk.org/index.php?id=6147

Vou juntar a esta série de catástrofes mais ou menos naturais, mais ou menos consequência de alterações climáticas com aumento de ocorrências de pluviosidade muito elevada concentrada num período de tempo curto, mais ou menos potenciada pela ocupação descuidada dos solos, o acidente com a explosão de uma conduta de gás que provocou a morte de várias pessoas nos arredores de S.Francisco, junto do aeroporto.

O meu objetivo, para além de chamar a atenção para a importância do estudo dos solos e do seu relacionamento com a pluviosidade ou com outra presença de água na construção de vias férreas, rodovias, túneis ou viadutos é o de colocar uma conjetura.

Não disponho de nenhum estudo que a possa fundamentar, mas é uma conjetura que poderá também contribuir para o que parece um agravamento da ocorrência deste tipo de fenómenos.

Para formular a conjetura recordo uma figura que desapareceu há muito das estradas portuguesas: o cantoneiro. A espaços via-se, ao lado da estrada, a casa do cantoneiro, com a indicação, em azulejos azuis, da quilometragem e de que era propriedade da junta autónoma das estradas.

Não recordo desses tempos, passados há mais de 50 anos, nenhuma vegetação a obstruir uma placa de sinalização ou de indicação à beira da estrada. Não me recordo de ver marcos ou guardas de proteção nas curvas aguardando reparação.

De repente ou talvez não, desapareceram os cantoneiros.

Agora existem os contratos de manutenção, defendidos por senhores finos que os assinam.

Não é a falta dos cantoneiros nas estradas de Portugal que provoca fenómenos de deslizamento de terras, não é essa a conjetura.

Mas será a cultura que se instalou que o indicador de que os dirigentes se devem orgulhar é o da redução dos recursos humanos. Que, graças às novas tecnologias, as empresas não precisam de ter tantos funcionários.

Não foi o cantoneiro que faltou às estradas de Portugal que foi capaz de detetar na Madeira e em Atrani que a secção de escoamento das ribeiras enterradas era insuficiente para uma precipitação superior a 100 mm/dia, porque também aí não havia ninguém para fazer esse trabalho. Nem para detetar fissuras anteriores nas estradas das encostas, ou que os leitos das ribeiras estavam obstruídos com pedras e restos de vegetação, prontos a formarem uma barragem. Ou para explicar aos engenheiros ou arquitetos da câmara municipal que aqueles edifícios e aquelas estradas não podiam ser construídos assim.

Cinicamente a conjetura perguntará: será que os prejuízos das enxurradas recorrentes não dariam para suportar o pagamento dos salários de técnicos que ajudassem a prevenir as consequências e a detetar os riscos de enxurradas?
Mesmo que fosse em “outsourcing”, porque já se vê que as janelas de oportunidades devem ser muito bem aproveitadas.
E é aqui que entra a conduta de gás que rebentou na Califórnia. Segundo informações do MSNBC, as condutas eram já antigas, não tinham sido revistas e adaptadas à pressão do  gás natural escolhida, e havia dias que se notava o cheiro de fugas de gás (o gás é inodoro mas o transportador deve misturar um componente para dar cheiro).
Numa palavra, grandes economias com quadros de pessoal (e portanto um bom indicador para mostrar em powerpoints) e bons contratos de outsourcing com empresas de manutenção que não submeteram a conduta aos testes de estanquidade que deviam, foram as estratégias dos donos e dos operadores daquela conduta (como se sabe, a BP também não era a responsável pela perfuração da Deepwater Horizon. Tinha contratado o aluguer da torre e as equipas de perfuração).

domingo, 31 de janeiro de 2010

O secretismo, o ordenamento territorial e um problema de Fermi

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O secretismo
O secretismo, como falado em 24 de Janeiro passado a propósito, por contraste, da política de divulgação do Dr Fernando Pádua, é algo muito querido em Portugal por muitos gestores e decisores.
É uma manifestação de falta de respeito pelos concidadãos baseada num sentimento de superioridade e de eleição (infelizmente, às vezes até são mesmo eleitos, ou nomeados por eleitos).
É também um desvio relativamente à directiva europeia de direito dos cidadãos à informação.
Custa aos eleitos que têm acesso à informação partilhá-la e assim, perder vantagem competitiva (adam smithismo puro).
Escrevo isto a propósito do deslizamento de terras na CREL, assunto bem dentro da problemática dos transportes.
Quase uma semana depois do acidente, consegui encontrar nos meios de comunicação social uma fotografia, que me permitiu localizar com mais precisão o deslizamento.

A localização do deslizamento de terras
As primeiras informações referiam entre o túnel de Carenque e o nó de Belas (ca 1800 m). A fotografia com o aqueduto ao lado permite referenciar o local como 30º46’53”N e 9º14’46”W.
Verifica-se no Google Earth (imagem com 2 ou 3 anos) que estamos junto de uma encosta com um desnível de cerca de 75m (ca de 25 andares) entre a cota da CREL e o cimo da serra (junto da subestação de Carenque da REN ).
Cerca de 100 m para sudoeste do local do acidente, vê-se um tratamento da encosta (escavação com projeção de calda de cimento) e o que parece uma vala alargada de drenagem que se prolonga para sudoeste, adjacente à via, por cerca de 360m . Aparentemente drenaria de SW para NE, para a tal zona escavada, onde termina a vala alargada de drenagem.
Pela encosta acima vêem-se postes de alta tensão e falta de vegetação que possa suster as terras e combater a erosão. Aliás, o limite sul do deslizamento coincide com uma massa de vegetação.
Dada a antiguidade da imagem, não identifico o local de despejo de terras provenientes de obras.
Embora o secretismo à portuguesa mande os gestores dizer, com muito sentido de responsabilidade (segundo o conceito português, também), que só podem saber-se as causas depois do inquérito concluído (não é isso que diz a Sabedoria das Multidões, a propósito da busca do submarino Scorpion; além de que o tempo que leva a fazer o inquérito desmobiliza a atenção da opinião pública, veja-se o caso do acidente de Novembro de 2009 com os carros oficiais do secretário geral da segurança e do presidente da Assembleia da Republica; noutros casos, como no acidente com o autocarro na A23, a sentença do tribunal indicia um mau entendimento ou uma impossibilidade legal de dar prosseguimento ao relatório técnico), é legítimo colocar a hipótese de que as circunstancias anteriores (deficiente drenagem ao nível da via e ao longo da encosta, ausência de vegetação, pressão das novas terras, até o recente sismo tendente a desagregar as terras) contribuíram, em conjunto com a elevada precipitação, numa ou noutra medida, para o resultado final.
Foi uma sorte não ter havido vítimas.
Não vale a pena, penso eu, procurar culpados e pô-los no pelourinho (outro conceito bem português). Vale a pena continuar a trabalhar na remoção das terras e na reposição das vias em condições de segurança, determinar em profundidade as causas e as circunstancias, e aplicar as recomendações resultantes para evitar ou minimizar a repetição do acidente.

O dever de um operador de transportes zelar pela segurança interna e externa das suas vias de transporte
As primeiras notícias davam conta de um porta voz da Brisa com muita inocência a deitar as culpas para o dono do terreno, que o incidente tinha vindo do exterior para o interior e não do interior para o exterior. E , dias depois, o senhor porta voz insiste em “responsabilizar” o dono do terreno.
Recordo a propósito um incidente comigo na A2, na descida para a saída de S.Bartolomeu de Messines ao km 225, no sentido N-S. Em consequência de muita chuva, terra argilosa das encostas adjacentes (que tinham sido cortadas mas não estabilizadas) deslizou para as vias e formou uma camada escorregadia no pavimento. As rodas do meu carro perderam a aderência, em claro fenómeno de aqua planning, mas consegui manter o carro na via. Vários carros estavam despistados na vala de separação central, porque nessa altura, há cerca de 10 anos, não tinha ainda sido montado o separador central (a auto-estrada foi inaugurada sem separador central, o que constitui outro exemplo de convencimento, com um acidente mortal por despiste na vala de separação central no próprio dia de inauguração) .
Formalizei junto da Brisa um pedido de informação sobre as medidas que tinha ou planeava para mitigar os riscos de escorregamento de terras para as vias e de melhoria das condições de drenagem das valas laterais.
A Brisa, lamentavelmente, porque publicita a segurança como a sua prioridade, rejeitou com sobranceria a prestação de informações completas, declinando qualquer responsabilidade no incidente. No local apenas limpou as valas de drenagem (claramente subdimensionadas para grandes precipitações). Noutras zonas da autoestrada, porém, executou importantes obras de consolidação das encostas. Na descida para S.Bartolomeu, porém, mantem-se o perigo em dias de chuva.
Quero com este exemplo chamar a atenção para que uma empresa de transportes tem de estar atenta ao que se passa na envolvente das suas vias. A construtora dos novos troços do IC 16 e IC17 acumulou grandes quantidades de terra retirada dos novos traçados junto do percurso do metropolitano entre as estações de Alfornelos e Amadora Este. E um amigo meu que trabalha no metropolitano foi lá ver se o peso das terras interferia com o túnel.
Havia alguma probabilidade de interferir. Quando o empreiteiro que construiu o Hospital da Luz começou as escavações para as fundações, o desaterro e a subsequente diminuição da pressão sobre o túnel provocou uma elevação da altimetria da via férrea do metropolitano. O meu amigo teve de lá ir a correr suspender a obra, que só recomeçou depois de tomadas as devidas medidas de prevenção e correcção.
Não posso concordar que o dono do terreno em Carenque tenha despejado terras sem os cuidados devidos, mas também não posso concordar com o desleixo da Brisa que não exerceu a devida vigilância sobre as condições de segurança da envolvente.

O ordenamento do território (ou a sua ausência)
Além do mais, tudo isto revela a ausência de planeamento territorial desde há muitos anos. Toda a região de Belas, que era também uma aprazível zona suburbana de recreio, foi vítima da pressão da afluência demográfica dos anos 60, com a explosão imobiliária anárquica, sem planeamento integrado, com a ocupação do terreno sem regras que não fossem o improviso, com o abandono de outras habitações, de industrias, de terrenos agrícolas, como se pode ver à beira da estrada de Belas.
Nestas circunstancias, é natural que acidentes como o deslizamento de terras aconteçam. Esperemos que não se insista na culpabilização, mas que se trabalhe conjuntamente para se evitar a repetição deste caso, em Carenque e em qualquer lugar.
Quase por milagre, na zona de Carenque, ao longo de todo este tempo, sobreviveram coisas como os vestígios das pegadas de dinossáurios, mesmo por cima do túnel da CREL, de antas e necrópoles neolíticas, um pouco a sul, na encosta do deslizamento, a quinta do senhor da serra em Belas, com as suas janelas manuelinas, alguns troços do aqueduto das águas livres… nem tudo é mau, no nosso país.

Um problema de Fermi
E chegado a este ponto, ensaio um problema de Fermi (esquecido do que é um problema de Fermi? ver o blogue do dia 2009-10-29, ou o de 2009-11-04, por exemplo) .
Estimando em 600.000 m3 a quantidade de terra que escorregou para a CREL, que numa semana foram retirados 50.000 m3, que as terras continuam a deslizar a uma velocidade de 5 cm/semana apesar de não ter voltado a chover significativamente, calcular ao fim de quanto tempo é que a CREL reabrirá.
Bom, segundo leio nos jornais (tal como li os números acima) a retirada de terras está sendo feita 24 horas por dia e será difícil aumentar o seu rendimento. Mas admitamos que vai ser possível retirar o excesso de terras em 10 semanas, que a partir da 5ª semana já é possível construir os muros de contenção (ou pregagens, ou ancoragens, ou os gabiões, o que os técnicos da especialidade melhor seleccionarem) que serão executados em 5 semanas, coincidindo com o prazo das 10 semanas para retirada de terras, e que depois são precisas mais 5 semanas para execução de valas de drenagem, para aliviar a pressão sobre as terras quando chove, e para conclusão da reparação e consolidação dos pavimentos das vias que talvez possa começar também à 5ª semana. Não esquecer, antes de reabrir, instalar um sistema de monitorização para vigilância dos deslizamentos dos terrenos envolventes e da estabilidade dos pavimentos da CREL.
Tudo somado dá, para este problema de Fermi, cerca de 15 semanas, ou 3 meses e meio para reabertura da CREL. Lá para os idos da primavera, fins de Abril (feliz ficaria eu se me enganasse).
A ver vamos. A mim me parece que deveria ser a Brisa a resolver o problema de Fermi, que têm para isso mais elementos, mas eles fecham-se naquela de que de momento não há condições para estimar prazos… são talvez as dificuldades que há em Portugal para fazer planeamentos… são os decisores políticos que definem os prazos, não são os técnicos. É uma pena.
Mas não culpem este ou aquele pelos prejuízos, culpem o secretismo dos projectos feitos à pressa e sem debate alargado, culpem a falta de ordenamento e planeamento territorial, culpem o secretismo da informação, culpem os prazos políticos das obras de fachada… ou culpem simplesmente este vício de dizer mal…

E outro problema, talvez não de Fermi
Seria interessante aproveitarem-se os hipotéticos 3 meses de interrupção do serviço da CREL para avaliar:
- o fluxo de tráfego de passageiros que circulavam pelo troço afectado, com destino a Lisboa,
- a percentagem desse tráfego que poderia ser canalizado para percursos em transportes colectivos existentes e projectados
- o fluxo de tráfego de passageiros que circularia pelo troço afectado, com destino a Lisboa, se já estivessem concluídos todo o percurso e nós de ligação da CRIL
- a percentagem deste tráfego que poderia ser canalizado para percursos em transportes colectivos existentes e projectados
Confesso humildemente não dispor de elementos para estas avaliações, parecendo que seria necessário actualizar os inquéritos à mobilidade na área metropolitana de Lisboa, conforme programação do MOPTC (ultimo inquérito oficial realizado pelo IMTT: 1998) ou por iniciativa de operadores de transportes.
Será provavelmente um método de avaliação das necessidades de percursos de transportes colectivos, ir cortando troços dos percursos rodoviários e ver como os transportes colectivos poderiam suprir os percursos interrompidos.
Foi isso que fez a GNR no próprio dia, sugerindo as alternativas rodoviárias.
E as alternativas ferroviárias? Eis mais um exemplo da ausência do ordenamento do território.
Eixos, ou raios, de penetração: Linha de Cascais, Linha do Oeste/linha de Sintra, Linha do Norte/Linha da Azambuja, e ficamos por aqui.
Por parecer existirem poucas alternativas ferroviárias aos percursos de que faz parte o troço afectado, não poderemos tirar deste incidente a conclusão de que a linha de metro ligeiro Algés-Falagueira-Odivelas-Loures-Sacavem, equivalente ferroviário entre a CRIL e a CREL, tem justificação na mobilidade na área metropolitana de Lisboa, intersectando os raios de penetração em nós de correspondência multi-modal com parques de estacionamento “park and ride”? (mas, por favor, em viaduto e com cruzamentos desnivelados para evitar acidentes).
Teremos então, neste momento, os percursos rodoviários sobredimensionados e os percursos ferroviários subdimensionados.
Aguardamos o inquérito à mobilidade?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Acidente de Alfarelos - comentário ao relatório preliminar

Declaração de interesses:        O comentário seguinte ao relatório preliminar do acidente de Alfarelos e as sugestões apresentadas pretendem contribuir para uma cultura de livre debate de questões de interesse público que ajude a encontrar deficiências e soluções para evitar que se repitam. Nesse sentido, pôr hipóteses por insuficiencia de informação, que possam não ter correspondência com a realidade neste caso, mas que podem ter noutros, como aconteceu no meu primeiro comentário a este acidente, não pretende transgredir a ética profissional nem lançar a confusão.
Recordo a cultura anglo saxónica, com os seus organismos dedicados a investigar os acidentes, sempre com o objetivo de evitar que se repitam, e que, combatendo o secretismo, convidam os cidadãos a  apresentar contributos.
O presente comentário, na parte relativa a sistemas automáticos de proteção da marcha de comboios,  só foi possível com o que o seu autor aprendeu ao participar no estudo e implementação do sistema ATP (automatic train protection) que no interesse da maior segurança dos utilizadores do Metropolitano de Lisboa esteve em vigor de 2000 a 2009 na sua linha vermelha, não tendo o autor conseguido opor-se à sua desativação.
Pretende-se assim com o comentário contrariar a eventual descrença que depois deste acidente se possa ter nos sistemas ATP, através das melhorias sugeridas.



Fotografia panorâmica:


O relatório preliminar do acidente de Alfarelos pode ser visto nos sites do IMTT, da CP e da REFER, por exemplo em:
http://www.imtt.pt/sites/IMTT/Portugues/Noticias/Paginas/AcidenteferroviarioAlfarelosRelatorioPreliminar.aspx



Assinalo o importante passo que representa a sua divulgação, em vez de, em secretismo, pedir que se aguardem as conclusões. O secretismo foi o caminho seguido depois do acidente de Caxias de Maio de 2012, não tendo sido divulgados os resultados.
Lamenta-se que o GISAF, órgão que de acordo com as normas europeias deveria proceder ao inquérito independente, não tenha meios para o fazer. O próprio IMTT não os terá. Deve no entanto reconhecer-se a capacidade técnica dos técnicos da CP e da REFER e nisso até concordo com o senhor ministro da Economia e Transportes, possivelmente apreciador da prática anglo-saxónica de divulgar e debater as questões relacionadas com acidentes. Seria interessante ver o senhor secretário de Estado trabalhar, por exemplo, para a rápida reativação do GISAF. Este apresentou o seu relatório do acidente do Tua e depois perdeu capacidade (não concluiu, por exemplo, o relatório dos atropelamentos mortais no Metro sul do Tejo).
No caso do acidente de Alfarelos, tudo indica estarmos perante um acidente complexo e pouco vulgar, ficando registados no relatório preliminar os dados de posição e velocidade retirados do Convel.

Dados registados pelo relatório - O relatório confirmou que os sistemas de sinalização e de controle automático da velocidade CONVEL estavam operacionais.
Falta ainda analisar os dados do autómato SIBAS de controle da locomotiva do IC, o que se pensa dever ser feito com a colaboração do fabricante Siemens, nomeadmente para eventuais esclarecimentos sobre os gradores taquimétricos e o sistema de deteção de patinagens (bloqueio das rodas ou a girar a velocidade inferior à correspondente ao avanço real)-patinhagens (rodar em vazio ou a velocidade superior à correspondente ao avanço real) (sistema anti slip-skip, o sistema que aciona o ABS quando deteta rodados com velocidades diferentes e promove a readerencia).
Os dados disponíveis necessitam de alguma confirmação com a leitura do SIBAS porque o relatório detetou  discrepancias entre as coordenadas de alguns pontos de controle, os tempos e as posições verificadas após o acidente.
No entanto, eles são suficientes para calcular as desacelerações de travagem entre os sinais luminosos e os pontos de controle, concluindo-se, embora com a reserva de posterior afinação das correspondências entre os pontos quilométricos e as velocidades registadas,  que:
-  cerca de 800 a 900 m depois do sinal 1960 A (sinal a cerca de 1800 m da estação Alfarelos) as condições de aderência não eram boas, embora geriveis.
- a cerca de 400 m antes do sinal S1 de entrada (que se encontra a cerca de 550 m da estação Alfarelos) a aderência reduziu-se extremamente, provocando deslizamentos (patinagens) :
- o primeiro comboio, o regional, registou uma desaceleração de 0,017 m/s2  ao longo dos 200 m imediatamente antes do sinal, e , já com a travagem de emergencia atuada pelo CONVEL, de 0,17 m/s2 entre o sinal e o ponto de paragem, 269 m a seguir ao sinal.
- o intercidades registou uma desaceleração de 0,076 m/s2 nos 400 m  antes do sinal S1 e, já depois da travagem de emergência acionada pelo CONVEL, de 0,7 m/s2 até colidir.

Segundo os registos, as condições de aderência antes do sinal S1 eram impossíveis de gerir sem recurso à travagem de emergencia. Mesmo que o comboio se aproximasse a 30 km/h e iniciado uma travagem de serviço máxima a 100 m tê-lo-ia ultrapassado (aliás, segundo os registos, o regional deslocava-se a 36 km/h  quando a 200 m do sinal) .

As coordenadas espaço-tempo terão ainda de ser corrigidas com recurso aos registos do SIBAS (em 72 horas não é possível analisar um acidente destes)

Condições normais de exploração e regulamentares -  De acordo com as informações publicadas, o código de sinalização luminosa é o seguinte:


Segundo o relatório preliminar, era o seguinte o estado dos sinais durante o acidente:
sinal antes do 1960 A -----  amarelo intermitente (objetivo 60km/h)
sinal 1960 A ----------------  amarelo fixo (objetivo 30 km/h)
sinal S1  ---------------------  vermelho   )




A paragem antes do sinal S1 (proibitivo, por exemplo, por  um itinerário incompatível para a linha da Figueira da Foz, ou por falhas na deteção da posição das agulhas) é perfeitamente possível em condições normais de aderencia passando pelo sinal 1960A a 130 km/h conforme registado pela taquimetria.
Para uma desaceleração de 1 m/s2 em condições normais, a distancia de travagem para essa velocidade é de 815m (considerando um declive de 2%),  ainda a 900 m do sinal S1 de entrada em Alfarelos.
No entanto, de acordo com a sinalização luminosa, o sinal 1960 A , encontrando-se amarelo fixo, isso significa que a velocidade objetivo no troço é de 30 km/h (quando no troço anterior, precedido do sinal amarelo intermitente, a velocidade objetivo tinha sido de 60 km/h.
Tanto o regional, passando pelo sinal 1960 A a 81 km/h, como o intercidades, passando por ele a 130 km/h, iniciaram o processo de travagem, a seguir ao sinal, mas  estariam ambos acima do valor regulamentar (ver correção desta informação nos comentários).
Isso pode indiciar não atendimento dos avisos do CONVEL para redução de velocidade e prática habitual para não atrasar a exploração. Este indicio não poderá ser usado para incriminar os maquinistas porque, a ser prática habitual, será do conhecimento da hierarquia da empresa e assumido por razões de otimização da capacidade da linha.
Se for assim, realçando o “se for assim”, e porque o projeto do CONVEL está correto quando prevê para estas condições a velocidade limite de 30 km/h, julgo ser de recomendar uma revisão dos regulamentos de exploração.
O próprio relatório regista a reação tardia do CONVEL (tardia porque as velocidades estiveram durante muito tempo acima dos limites, embora a diminuir, embora dentro da possibilidade atingir a velocidade  objetivo de 30km/h   antes do sinal S1) a afixar nos displays a nova velocidade objetivo de segurança (0, ou paragem): no caso do regional a 234 m do sinal S1, quando circulava a 36 km/h (segundo os registos); no caso do intercidades, a 431 m do sinal S1, quando circulava a 66 km/h (segundo os registos), portanto perfeitamente a tempo de parar os comboios antes do sinal, no caso de condições de aderência parcialmente degradadas (para uma desaceleração de 0,4 m/s2 pararia 30m antes).
Também tardia foi a atuação da travagem de emergência mesmo em cima da baliza do sinal S1. E o facto é que, de acordo com os registos, a desaceleração melhorou: no caso do regional a desaceleração passou de 0,017 (na prática sem abrandamento da velocidade) antes da travagem de emergência para 0,17 m/s2 depois; no caso do intercidades, passou de 0,076 para 0,7 m/s2.

Esta atuação tardia deverá, salvo melhor opinião, ser publicamente esclarecida com a empenhada participação do fabricante, a Bombardier, de modo a tranquilizar a opinião publica sobre a eficácia da proteção do sistema CONVEL. Deverá nomeadamente esclarecer-se a hipótese de deslocalização (perda da informação correta da posição em que o comboio de encontra) devido às patinagens (rodas bloqueadas ou a escorregar, levando o processador a utilizar pontos quilométricos  e velocidades menores do que os valores  reais, o que atua no sentido contrário da segurança).


Eventuais divergências entre os dados do CONVEL e a posição final dos comboios – Nota: os valores relativos ao posicionamento dos comboios,  às desacelerações e níveis de energia a seguir considerados constituem hipóteses para tentativa de testar a sua plausibilidade comparativamente com os valores registados pelo CONVEL, julgando-se desejável um tratamento computacional cobrindo todas as variáveis e os seus campos de variação de modo a encontrar os valores mais plausíveis.
Assumindo um valor de 170 m para o comprimento de duas UTE (unidade tripla elétrica) que compunham o comboio regional,  da análise das fotografias do acidente retiro que o ponto de imobilização da testa da locomotiva do intercidades após o embate terá sido cerca do PK 198,010 e o ponto de imobilização da testa do comboio regional no PK 198,100.
Segundo os registos que o relatório coligiu, o ponto de imobilização do regional, antes do embate, terá sido no PK 197,959.
Logo, o deslizamento da primeira UTE durante o embate terá sido 198.100 – 197.959 = 141 m.
Por outro lado, os registos dão como ponto de embate o PK 197,782.
Então o deslizamento da locomotiva terá sido, se os registos estão corretos, de 198.010 – 197.782 = 228 metros.
Este valor de 228m parecerá exagerado se se considerar o valor registado pelo CONVEL de uma desaceleração após a travagem de emergência ao sinal  S1 de 0,7 m/s2 (devido às más condições de aderência).
Esta desaceleração corresponde a uma distancia de travagem de 97 m para uma velocidade inicial de 42 km/h e de 138 m para uma velocidade inicial de 60 km/h, valores muito inferiores aos 228m.



Apresenta-se um esquema e uma tabela com desacelerações para 3 hipóteses:
- a dos valores registados pelo CONVEL, deslizamento da locomotiva de 228m (correspondendo ao arrastamento da testa da 1ª UTE desde o ponto de impacto até à imobilização de 141 m)
- a de um deslizamento da locomotiva de 140 m (correspondendo ao arrastamento da testa da 1ª UTE desde o ponto de impacto até à imobilização de 60 m)
- a de um deslizamento da locomotiva de 80 m (correspondendo a um arrastamento nulo da testa da 1ª UTE).

A desaceleração de acordo com os valores registados pelo CONVEL  (deslizamento da locomotiva de 228m) seria muito baixa, da ordem de 0,3 m/s2. Parece mais plausível a hipótese de deslizamento da locomotiva de 140m com uma desaceleração de 0,49m/s2 (impacto a 42 km/h), 0,69m/s2 (impacto a 50 km/h) ou 0,99 m/s2 (impacto a 60km/h).
Admitindo uma desaceleração de 1,1 m/s2 nos instantes imediatamente seguintes ao impacto, justificável pelos testemunhos dos passageiros do Intercidades sobre quedas a bordo, ainda aqui serão mais  plausíveis as desacelerações nos últimos metros de um deslizamento  inferior aos 228m , admitindo melhoria das condições de aderência e eficácia da travagem de emergência (0,07 m/s2 para a hipótese CONVEL;  0,14 m/2 para 42km/h no impacto, 0,46m/s2 para 50km/h no impacto,  0,93m/s2 para 60km/h no impacto, para a hipótese deslizamento da locomotiva de 140m).
Se o raciocínio está correto, o deslizamento terá sido inferior a 228m e a velocidade de impacto ligeiramente superior a 42 km/h.













  Pela análise das posições finais parecerão pouco consistentes os valores registados para os pontos quilométricos notáveis e para as respetivas velocidades, nomeadamente para o ponto e velocidade de impacto.

Estas inconsistências, que na ausência dos dados do SIBAS, apenas se podem considerar nesta fase como dúvidas  a investigar (tal como expresso no relatório) sugerem deficiente funcionamento ou deslocalização do sistema de odometria do CONVEL ou do comboio, não tendo sido suficiente o sistema anti-patinagem /patinhagem  para corrigir as informações incorretas dos pontos quilométricos e consequente deslocalização do CONVEL de bordo.
Notar que o sistema CONVEL é pontual (refrescamento da posição quilométrica apenas nas balizas dos sinais, ficando a correção do processamento a bordo dependente da localização precisa calculada pelo sistema de odometria.
Notar que o sinal 1960 A se encontra numa rampa (suscetivel de provocar patinhagens, facto referido pelo maquinista do regional, iludindo, se o sistema antagonista não conseguir detetar diferenças de velocidade entre rodados, o processador do CONVEL, admitindo em consequência que o comboio se encontra numa posição mais avançada) e o sinal S1 em declive (suscetível de produzir patinagens, iludindo o processador do CONVEL, admitindo que o comboio se encontra numa posição anterior, portanto contra a segurança).
O facto do CONVEL ter registado o inicio da travagem de serviço cerca de 400 m após o sinal 1960 A poderá indiciar a ocorrência de patinhagens antes e depois do sinal 1960 A, não sancionando a passagem pelo sinal à velocidade de 130 km/h, muito superior ao objetivo de 60 km/h do troço anterior.

Demasiados modos de exploração na mesma linha -  Embora seja possível explorar a mesma linha com tráfego de diferentes caraterísticas, isso contribui sempre para aumentar os riscos.
Misturando comboios rápidos com comboios suburbanos , regionais e de mercadorias, haverá sempre a perturbação da marcha dos mais rápidos e a pressão para a recuperação de atrasos.
Acresce que as carateristicas de travagem dos diferentes comboios condicionam a capacidade da linha e a rapidez da exploração (um intercidades tem uma desaceleração de serviço normal de 1,1 m/s2, enquanto um mercadorias poderá ter menos de 0,5 m/s2, embora com velocidades máximas diferentes).
Este facto deveria levar os decisores a, no futuro, não misturarem alta velocidade com serviço suburbano, a pretexto do chavão de aproveitamento ao máximo das infraestruturas e de fazer mais com menos.

Possíveis melhorias:

Perda de aderência - A confirmar-se a perda de aderência mostrada nos registos, dificilmente se poderá evitar um acidente quando se conjugarem outros fatores. Sugiro que especialistas de biologia vegetal estudem a possibilidade de folhas de vegetação ou sementes ou outros resíduos acumulados pelo forte temporal da véspera terem sido triturados pelos rodados até produzirem uma película oleosa.
O facto é que à beira da via, antes do sinal S1, existe abundante vegetação.
É ainda facto que acidente semelhante ocorreu em Paris, numa linha suburbana de supe crfície.  
Poderá combater-se este risco assegurando uma distancia sem vegetação ao lado das vias com cortes periódicos e uma cuidadosa inspeção de via nos comboios noturnos, eventualmente com “raspadores” e detergentes sempre que as condições climatéricas o justifiquem.

Deslocalização – O risco de deslocalização do sistema de proteção automática pode combater-se melhorando a deteção das patinagens e patinhagens, montando os geradores taquimétricos em eixos não motores ou sem travões. Em material circulante novo, especificar o sistema opto-eletrónico de leitura ótica dos carris, imune ao escorregamento das rodas sem aderencia.
Dado que a localização do CONVEL é atualizada à passagem por cada baliza de sinal, o risco de deslocalização baixa se se aumentar o numero de sinais e de balizas, tentando aproximar um sistema de controle pontual, como o CONVEL, dum sistema contínuo ou quase contínuo (de atualização do posicionamento permanente ou quase permanente)

Introdução de uma distancia de segurança (overlap) – Trata-se de um reforço da segurança dada pelo alarme e sancionamento pelo CONVEL da ultrapassagem da velocidade limite do troço anterior e da curva de travagem normal que leva à velocidade objetivo do próprio troço.
Tem o inconveniente de aumentar a distancia entre os comboios na linha, e portanto de reduzir a capacidade da linha, introduzindo uma distancia de proteção entre um sinal (por exemplo o S1) e um novo sinal antes; a distancia de segurança antes de um sinal  (por exemplo, o S1) nunca deverá ser ocupada por um comboio enquanto o comboio precedente não libertar a distancia de segurança a seguir ao sinal (por exemplo, o S1).
Essa distancia, considerando uma desaceleração de 0,4 m/s2 e uma velocidade de 72 km/h, será de 500m.
No caso de Alfarelos, esse sinal estaria 1200m depois do 1960 A e 500m  antes do S1; após a ultrapassagem do sinal S1 pelo regional, o estado dos sinais seria:
sinal antes do 1960 A -------------------  amarelo intermitente (objetivo 60km/h)
sinal 1960 A  -----------------------------  amarelo fixo (objetivo 30 km/h)
novo sinal --------------------------------  vermelho
S1  ------------------------------------------  vermelho

Disposições regulamentares – Propõe-se o fim da autorização de marcha à vista, quer em condução manual, quer protegida por ATP, quer em condições normais de exploração, quer em situação degradada, até ao obstáculo na  linha ou até ao sinal que protege o circuito de via onde se encontra o obstáculo. Isto é, propõe-se que a autorização, de comunicação registada e devidamente testemunhada por terceiro, e presencial por esse terceiro junto dos aparelhos de via se avariados, seja dada apenas até a um ponto quilométrico a uma distancia de segurança antes do sinal ou do obstáculo que abranja eventual escorregamento.

Seguimento do relatório preliminar – Para além do seguimento indicado pelo próprio relatório, convirá esclarecer as condições dos sistemas de travagem das carruagens dos dois comboios. Considero imprescindível que os fornecedores Siemens (autómato de controle SIBAS) e Bombardier (CONVEL) participem no esclarecimento das questões com a análise interpretativa dos dados registados e de eventuais anomalias ou insuficiências. Sugiro igualmente participação de universidades, com utilização de métodos computacionais para teste de hipóteses múltiplas, na análise dos pontos quilométricos, velocidades e energias, e de institutos de validação de segurança ferroviária relacionada com o acidente.



Mais informações sobre o CONVEL e sistemas ATP de proteção automática da marcha de comboios:

http://www.railway-technical.com/sigtxt3.shtml


PS em 9 de fevereiro de 2013 -       A atenção dos meios de comunicação social sobre o acidente de Alfarelos esmoreceu entretanto.
Aliás, os descarrilamentos na primeira semana de Fevereiro na Beira Alta, em Algés e em Caxias desviam a atenção pública pela diferença das circunstancias.
A memória dos riscos que se correram em Alfarelos, e em toda a linha do Norte, vai-se diluindo.
No subconsciente da comunidade ficará a desconfiança do sistema automático de proteção, ou de um comportamento de excesso de confiança do pessoal da CP, ou eventualmente de uma qualquer falha desde o projeto à  manutenção, mas que já passou, foi um caso raro, nunca tinha acontecido, será como os terramotos, tão cedo não volta a acontecer.
Alguns apelarão ao castigo exemplar, provavelmente de inocentes.
Ignoramos se uma equipa mais numerosa de operadores no centro de comando operacional, ou no posto de sinalização de Alfarelos, permitiria um atendimento mais rápido da chamada do maquinista do regional e um aviso por fonia ao maquinista do Intercidades.

Entretanto a comissão de inquérito prosseguirá os seus trabalhos, não se sabe bem se com a colaboração franca dos fornecedores dos equipamentos de segurança e do material circulante, a Bombardier e a Siemens (em elevado grau necessária para esclarecer as hipóteses de deslocalização e atuação tardia do CONVEL), provavelmente em ambiente de secretismo, até a um relatório final, que se deseja conclusivo, mas que também provavelmente não merecerá grande destaque na comunicação social, por já não ter oportunidade (melhorar as condições de segurança, saber porque acontecem acidentes, não terá oportunidade?).
Ignoramos e receamos que o inquérito não venha a esclarecer se houve ou não contribuição de medidas de otimização de quadros de pessoal na operação ou na manutenção para o acidente.
Não ficaria bem, numa altura em que o senhor secretário de Estado dos transportes se orgulha de ter atingido o equilíbrio operacional à custa da diminuição dos quadros de pessoal (os postos permanentes de uma empresa pública de transportes têm este defeito: cada posição de trabalho exige 5 profissionais; 3 para cobrir os 3 turnos, mais um para férias e folgas e mais 1 para doenças e absentismo).

Mas esquecer acidentes não é a mentalidade dos técnicos de segurança e de análise de riscos das entidades de investigação de acidentes como o NTSB - National Transportation Safety Board  (http://www.ntsb.gov/ ) nos USA (o avanço das investigações é documentado publicamente; por exemplo, em 1 de fevereiro foi divulgada a sétima atualização da investigação sobre as baterias de lítio que explodiram no Boeing 787; são emitidos avisos públicos de novas atualizações através do Twitter), ou o RAIB – Rail Accident Investigation Branch  (http://www.raib.gov.uk/home/index.cfm ) na Inglaterra (“to improve safety, not to establish blame”).
Isto sem falar na diretiva europeia 2004/49/EC  (http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:L:2008:345:0062:0067:EN:PDF  ) que obriga à existência do GISAF.

Resta aos cidadãos irem colocando hipóteses, aventar pistas de investigação possível, sugerir melhorias no projeto ou na instalação dos sistemas de proteção, sem com isso pretenderem culpar seja quem for, seja do que for, mas apenas isso mesmo, melhorar o nível de segurança das pessoas.
 Foi o que tentei no presente”post”.
Mas convem sublinhar bem que não deve perder-se a confiança no sistema CONVEL.
 O projeto cumpre os requisitos de segurança dentro das carateristicas de um sistema pontual (em que a informação da localização é processada a bordo a partir da atualização à passagem por balizas asociadas  aos sinais luminosos ), desde que, mesmo nas condições do acidente, os comboios respeitem (o que não foi o caso, indiciando que é prática corrente, do conhecimento das direções para fins de recuperação ou cumprimento de horários) a velocidade objetivo de 60km/h no penúltimo troço antes do sinal vermelho.
O regional saiu desse troço a 81km/h e o Intercidades a 130km/h, valores do relatório preliminar a confirmar com os registos SIBAS dos comboios.
Apesar das eventuais deslocalizações e atrasos de atuação do CONVEL, a essas velocidades teria sido possível “segurar” o Intercidades, apesar da fraca aderência roda-carril de modo a ultrapassar o sinal proibitivo a 36km/h e a parar antes do regional graças à travagem de emergência tardia no sinal proibitivo (0,7m/s2 segundo os registos do CONVEL).
Como referido no “post”, o nível de segurança pode reforçar-se introduzindo o overlap ou distancia de segurança a seguir a um sinal proibitivo (isto é, uma colisão passará a implicar sempre a passagem por dois e não um sinal proibitivo) e revendo os regulamentos de exploração para melhor  cumprimento dos limites de velocidade e para não autorizar a marcha à vista até ao obstáculo (mas  até uma distancia de segurança anterior).

Acrescento agora uma sugestão para inclusão no inquérito de cálculo computacional de hipóteses de distribuição da energia cinética pelos componentes da colisão, na expetativa de obter valores plausíveis para as coordenadas do ponto de impacto e sua relação com os registos espaço-tempo do CONVEL e do SIBAS.


Considerando 260 ton para a massa do Intercidades (incluindo a locomotiva de 90 ton) , para uma velocidade no ponto de impacto de 42 km/h ter-se-ia uma energia cinética (E = mv2/2) de 18 MJ.
Essa energia cinética decompor-se-á em três termos correspondentes ao valor do deslizamento da locomotiva desde o impacto até à imobilização nos seguintes troços:
A - comprimento correspondente ao impacto com a absorção do choque, deformação e encavalitamento da 6ª carruagem do regional, mais
B - percurso de arrastamento das 5 carruagens do regional até ao descarrilamento da 5ª e 4ª carruagens, mais
C - percurso da locomotiva sem a resistência das carruagens do regional.

Para o troço A estimo grosseiramente um comprimento de 30m, correspondendo ao comprimento da carruagem, e uma resistência ao movimento da locomotiva equivalendo a uma energia (E = F.e) de (40/2) ton x 30m <> 6 MJ, sendo F correspondente a metade do peso da carruagem.
Pela análise das fotografias com a imobilização da  locomotiva, estimo que o percurso C tenha sido de 50 m (um pouco  menos do comprimento de duas carruagens); admitindo a desaceleração neste percurso C do registo do CONVEL  de 0,7 m/s2 , a velocidade a 50m antes da imobilização será de cerca de 30km/h, a que corresponde uma energia cinética de cerca de 9 MJ
A energia absorvida pelo troço B seria igual à energia cinética total menos a soma das energias absorvidas em A e C:
18 – (6 + 9) = 3 MJ
Dado que o percurso B seria de 228 – (50 + 30) = 148m , à energia cinética dissipada no troço B corresponderia uma força resistente oposta pelo comboio regional parado de 3 MJ /148m = 2 ton (o que  parecerá pouco, admitindo que o regional, de massa estimada 220 ton, estava parado, indiciando que os valores registados pelo CONVEL para o ponto de impacto de deslizamento do Intercidades de 228 m  e de velocidade de 42 km/h serão, o primeiro maior e a segunda menor do que na realidade).
                              
A sugestão é então a de testar vários valores para os comprimentos, desacelerações e resistências à deformação e ao movimento de modo a obter um conjunto de valores mais plausíveis, confirmando ou não os registos de velocidade, espaço e tempo do CONVEL.


PS em 25 de fevereiro  -  consultados os sites do IMT, REFER e CP, verifico que não há informações acrescentadas à divulgação do relatório preliminar sobre o acidente de Alfarelos. Não parece assim seguir-se o bom exemplo do NTSB ou do RAIB.
Ao reler as noticias do acidente, reparo que alguns passageiros do intercidades reportaram solavancos acentuados momentos antes do embate.
Uma hipótese que poderá explicar estes solavancos poderá ser a atuação do ABS, com sucessivos apertos e alívios dos freios em função da informação recebida dos sensores de anti-patinagem e anti-patinhagem.
Este é mais um exemplo, como sublinhado no relatório preliminar, da necessidade de levantar o registo do autómato SIBAS de bordo, no regional e no intercidades, para comparação das variáveis do espaço e velocidade ao longo do percurso do acidente, dadas pelo CONVEL e pelo SIBAS.
Igualmente é necessário confirmar os valores da desaceleração e se o esforço de travagem e a atuação do ABS foram adequados.
Mantem-se a duvida sobre o atraso de atuação do CONVEL e a hipótese de deslocalização (informação errada da posição).
É por isso indispensável para a credibilidade dos sistemas de segurança que os fornedores Bombardier e Siemens participem efetivamente no inquérito e na divulgação dos resultados.
Continuamos assim a aguardar.

PS em 27 de fevereiro de 2013 – o sindicato dos ferroviarios manifestou preocupação por não haver conhecimento de resultados do inquérito subsequente ao relatório preliminar (em que a participação dos fornecedores Bombardier e Siemens é essencial para o esclarecimento), mantendo a desconfiança sobre o efeito dos cortes na manutenção (não se afirma que a causa foi esta, mas deseja-se que o inquérito esclareça se houve ou não contribuição dos cortes na manutenção para o acidente).
Convirá manter-se a pressão sobre os decisores para o esclarecimento.
O senhor secretário de Estado dos transportes informou que brevemente será nomeada a direção do GISAF.
Ficamos à espera.
Entretanto junto o endereço de um fórum de discussão em que participam maquinistas e que contem informação útil sobre o acidente, incluindo o testemunho de alguns deslizamentos.

De lá retirei também um vídeo didático inglês sobre a problemática da travagem, incluindo uma referencia à contribuição da vegetação para diminuição das condições de aderência:

PS em 18 de março de 2013 - assinalo a publicação pelo IMT de um comunicado em 3 de março informando que prosseguem os trabalhos de investigação do acidente de Alfarelos e dos descarrilamentos da linha de Cascais. 
http://www.imtt.pt/sites/IMTT/Portugues/Noticias/Paginas/ComunicadoConjuntoInqu%C3%A9ritoaosAcidentesFerrovi%C3%A1rios.aspx

Aplaudo a correção da atitude, mas continuo descrente dos bons resultados a atingir (seria muito bom eu estar enganado) e não posso concordar com a afirmação "estão garantidos todos os requisitos de segurança" .
"Está garantido um mínimo de requisitos de segurança" estaria, salvo melhor opinião, mais correto. 

PS em 7 de junho de 2013 - mantem-se a ausencia de divulgação do relatório final; não há porém a certeza de que ele exista ou contenha o esclarecimento das questões da deslocalização do CONVEL, da eventual necessidade de rever o regulamento e da participação da Bombardier e da Siemens na investigação. Este comportamento indicia uma atitude cultural intoleráve contrastando com o respeito pela opinião pública do NTSB e do RAIB. À boa maneira portuguesa, espera-se que tudo se esqueça e se atribua ao temporal ou a causas fortuitas de rara ocorrencia.

 




 

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Descarrilamento em Riedlingen - Bechingen em Baden-Wurtemberg em 28jul2025

Condolências aos familiares das vítimas e votos de recuperação dos feridos.

Este acidente impressiona pela aparente prigosidade antes da precipitação elevada que provocou acumulação de água numa estrada sobranceira à linha.Sem drenagem suficiente, a àgua provocou o deslizamento de terras e pedras do leito da estrada para a via férrea, situada num talvegue entre dois taludes com cerca de 10m de altura e sem valas de drengem suficientes.

A primeira carruagem terá descarrilado e sido empurrada pela segunda carruagem (põe-se a questão, caso isso tenha ocorrido,  se não deveria haver um automatismo de desligação da tração) até bater em árvores ou no talude da esquerda, seguindo-se o efeito de armónio dobrando-se e partindo-se a carruagem .

Este risco de acumulação de água e drenagem insuficiente é relativamente frequente. Há poucos meses terá havido um descarrilamento na mesma região, Baden-Wurtemberg, sem vítimas, tal como no próprio dia 28 de julho houve outros danos na via férrea, também sem vítimas.

Em Porttugal, tivemos recentemente este fenómeno com deslizamento de terras  na estrada IC2 em Águeda e, há uns anos, em Arco de Valdevez e em Guimarães.

Isto é, tal como na Alemanha, o gestor de infraestruturas deverá investir na manutenção e no cumprimento das regras de segurança. Neste caso, garantir drenagem suficiente, que estradas paralelas não constituam uma barragem, que haja valas paralelas à via férrea com capacidade de drenagem e acumulação temporária de detritos, que os taludes sejam tratados e fixados. Em Portugal há boas experiencias com bons exemplos na fixação de encostas, como na linha do Douro (no caso de Baden-Wurtemberg, a linha acompanha o percurso do Danubio, isto é, atravessa as linhas de água que correm para ele). Pode ser uma aplicação de robôs autónomos de monitorização.

É evidente que tudo  isso custa dinheiro, mas a justificação da existencia da ferrovia é precisamente a economia de energia e pressupõe um aumento de oferta.



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Documentação do acidente de Baden.Wurtemberg:

https://events.railtech.com/news/news/2025/07/29/landslide-derails-regional-db-train-in-germany-killing-3/ 

https://www.youtube.com/watch?v=eqgXHSBA-Iw


mapa topográfico vendo-se o traçado do rio, o relevo adjacente e o local do descarrilamento






acumulação de água por insuficiente drenagem