domingo, 22 de dezembro de 2013

As mortes no mar





Perante a tragédia de 15 de Dezembro, com a morte de 6 jovens na praia, Ferreira Fernandes, cronista no DN, escreveu que preferiria ter guardado silencio, e que só o quebrou para protestar contra o “nojo” de alguns comentários na internet.
É verdade, alguns comentários foram nojentos pela falta de solidariedade com o sofrimento de outros.
De referir que, do ponto de vista psicológico, é imperioso que se manifeste ao sobrevivente e aos familiares dos desaparecidos que o que lhes aconteceu podia ter sucedido a qualquer um, que são acidentes que podem acontecer a qualquer pessoa e que não devemos culpar as vítimas.
No entanto, discordo de Ferreira Fernandes quanto ao silencio.
Foi um acidente, e os acidentes devem analisar-se, numa tentativa de evitar a sua repetição ou, pelo menos, de atenuar as consequências. Não devem ser deixados em silencio. Penso que deveria dispensar-se o sensacionalismo e a dramatização das notícias e a busca de explicações como a da “onda cavaleira”, que corre o risco de ser entendida pelas pessoas como uma justificação do tipo “foi um azar”. Todas as ondas são cavaleiras. Todas devem ser consideradas como perigosas, é essa a cultura da segurança.
Acresce que neste dezembro de 2013 tivemos mais dois acidentes fatais com pescadores artesanais e desportivos: duas mortes ao largo de Olhão no dia 9 e 6 mortes ao largo da Costa da Caparica no dia 21; em novembro um morto no naufrágio de uma embarcação de pesca desportiva no Baleal;  em outubro 3 mortes no naufrágio de uma traineira na Figueira da Foz; em julho 1 morte no naufrágio de uma embarcação de pesca artesanal
na Torreira/Aveiro.
A maior parte destes acidentes estão relacionados com o aumento da força das marés devido à maior proximidade da lua relativamente à Terra.
Fazendo uma análise de riscos relacionando a  probabilidade de ocorrência de um acidente com a gravidade das suas consequências, como se ilustra no gráfico abaixo, deve começar-se, no caso dos arrastamentos de pessoas na praia, por fazer a estatística desses casos:

2013 – Dezembro, Costa da Caparica – 6 jovens
            maio, Nazaré – dois turistas franceses, marido e mulher
            abril, Cabo Carvoeiro – uma turista belga
2012 – abril, Matosinhos – duas pessoas, avó e neto de 8 anos
2011 – Fevereiro, Madeira - duas jovens           
2009 – Março, Matosinhos – uma criança de 4 anos

Notar que são casos muito bem definidos, de arrastamento de pessoas que se encontram na praia, diferentes dos casos de afogamento durante o banho no verão.
O arrastamento por ondas tem maior probabilidade em períodos em que a lua está mais próxima da Terra, aumentando a força das marés, do equinócio de setembro ao equinócio de Março, com agravamento no solstício de Dezembro.
No caso da Costa da Caparica a proximidade da lua cheia e da hora de maré cheia agravou a situação. Igualmente a existencia de declives acentuados ou fundões devidos à maior pressão das marés leva a que as ondas rebentem mais perto da praia do que no verão, em que os fundos são mais próximos da horizontal.
Todas as pessoas que frequentam as praias ou o mar devem ser avisadas pela polícia marítima que nestas alturas o mar é ainda mais perigoso, tal como nos estuários, em que a força da vazante é maior (também neste caso de nada serve à pessoa ter pé dada a força de arrastamento).
Temos que em 5 anos houve 6 acidentes de arrastamento e 14 mortes.
Considerando os acidentes com duas ou mais mortes, classificados como “catastróficos” teremos 4 acidentes em 5 anos, ou 1 acidente de 15 em 15 meses, ou cerca de 0,9 x 10-4  acidentes por hora (classificado como “ocasional”).
Entrando com este valor no gráfico até encontrar a linha “acidente catastrófico com várias mortes” obtem-se uma zona de classificação “intolerável”.
 
Curvas de representação arbitrada da matriz  gravidade-frequência  para determinação do nível de risco de um acontecimento
De acordo com os normativos, a autoridade responsável deve tomar medidas para diminuição do risco, mesmo que, como é o caso, se trate de acidentes com causas naturais de dificil controle.
Nestas condições parecerá, tal como o presidente do instituto de náufragos e os capitães de portos já afirmaram, que é na prevenção e na informação que se deverá atuar.
Divulgando medidas de segurança por todos os meios, da televisão a cartazes nos acessos às praias (recordo que no Japão, para emissão de avisos de maremotos, existem alti-falantes junto das praias perto de povoações) que deve  manter pelo menos 20 m de distancia à zona da areia molhada, e que as piores alturas são as de maré cheia perto da lua nova e da lua cheia, de setembro a março,
E eu acrescento que também deverá desenvolver-se a fiscalização do incumprimento de regras de segurança por parte da policia marítima, apesar do imbróglio jurídico alimentado pelos ministérios da defesa e da administração interna, cujos titulares não têm experiencia destes assuntos nem habilitações para poderem avaliar as informações que lhes são prestadas pelos colaboradores.
É essencial envolver a policia marítima nesta prevenção. A Marinha conhece melhor estes assuntos do que burocratas de ministérios ou de autoridades.
Veja-se esta foto.
 
regra básica não cumprida: nunca estar num pavimento molhado quando o mar está agitado; a publicação desta imagem deveria merecer repúdio por parte de quem a publicou
Não é admissível que um cidadão esteja a admirar o mar num molhe que tem vestígios de ondas. Não vamos culpar o cidadão. Vamos desenvolver a cultura da segurança. Antes de ser obrigatório o cinto de segurança nos automóveis o seu uso era comummente menosprezado. E é essencial.
No caso dos naufrágios de pescadores, notar que é raro as vítimas usarem colete de segurança ou vestuário adequado (a evitar botas de cano alto). Não é admissível. No caso dos pescadores de Olhão, não foi recebida nenhuma mensagem de alarme de baliza automática EPIRB nem de rádio VHF.
A polícia marítima deveria poder fiscalizar isto. Notar ainda que em caso de falha do motor, barcos de boca aberta, não cabinados, dificilmente resistem a ondas de rebentação, atravessando-se.
Nestes casos faz falta formação sobre técnicas específicas, como o uso de ancoras flutuantes. Igualmente é essencial fiscalizar a lotação homologada.

Infelizmente, depois de amplo tratamento jornalístico dos acidentes, deixa-se de se ouvir falar neste problema.
Não são publicamente debatidas as causas nem as medidas de prevenção.
E deste modo é difícil melhorar as estatísticas.




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