domingo, 1 de dezembro de 2013

O Dinheiro Vivo em 30 de Novembro: 1 – a evasão fiscal e a internet; 2 – quem quer empregos públicos; 3 – o livro do desassossego





                                                         

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Devo agradecer ao DN e ao Dinheiro Vivo o excelente artigo de Paulo Querido na edição de 30 de Novembro, esperando que este meu aplauso não seja prejudicial ao autor, que teve a coragem de escrever algumas verdades incómodas a propósito da evasão fiscal via internet, numa altura em que o pobre governo confessa a sua incapacidade de legislar sobre o jogo online (depois de vários grupos de estudo proporem o que tinham a propor).
Por exemplo:
- entre 2009 e 2012 a Apple não pagou impostos sobre receitas internacionais de 54  mil milhões de euros
- o Facebook paga os impostos das operações internacionais na generosa Irlanda
- os USA têm um problema de receitas de impostos, não de despesa pública (onde já se viu este filme?)
- citando o economista Luís Bento: “é urgente refundar o sistema de financiamento dos estados modernos, pois a manutenção de uma estrutura de financiamento centrada em impostos e taxas sobre os rendimentos e o património está esgotada”; “os estados constituíram ao longo dos tempos largos setores empresariais que reprivatizaram, transferindo assim para o setor privado industrias chave, perdendo uma fonte extraordinária de receitas” “como o presidente da Google propôs, a quantidade de impostos e taxas devia ser reduzida e simplificada para que as empresas pudessem pagar mais imposto com menor custo”
- a ideia anterior devia ser aplicada à redução da economia paralela (26% em Portugal segundo o Obegef, mas eu penso que é maior), sem perseguições e imposições violentas.

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Mas a edição do dia 30 de Novembro tem duas coisas que muito me desagradaram:

-  uma , a habitual provocaçãosinha do senhor professor da universidade de Columbia, para ver se as pessoas se irritam: “estudos mostram que  os jovens mais batoteiros são os que mais desejam concorrer a um emprego na função pública”. Os ditos estudos são experiencias com grupos; cada participante ficava fechado num compartimento a fazer 42 lançamentos de dados e a anotar o número que saía; receberia um pagamento igual ao somatório dos pontos anotados; a conclusão foi que os jovens mais batoteiros eram os que  queriam muito um emprego público. Na verdade, não contesto o rigor da experiencia nem a conclusão, especialmente se pensarmos nos cargos políticos como função pública. Porém, trata-se também de um insulto para quem faz ou fez uma vida profissional subordinada ao conceito de servidor público. Assim como os batoteiros querem um emprego na função pública , também houve e há muitos que não são nem foram batoteiros e também querem ou quiseram um emprego público. Pena não ter sido feita a ressalva, por uma questão de elegância de quem escreve.
  
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- a outra, por parte do próprio diretor do dinheiro vivo, que terá como atenuante a qualidade da informação da publicação que dirige; mas que fez uma interpretação de Fernando Pessoa (mais precisamente de Bernardo Soares no seu livro do desassossego) que me parece equivocada. 
A propósito do aparecimento de muitos pequenos empresários (claro que numa época de crise o estímulo é maior) que aplaude, diz:
“Já não somos o Portugal dos mangas de alpaca, embora ainda hoje os haja, como também ainda subsiste aquela espécie diabólica que justifica o seu estado de torpor permanente e inação congénita apontando para as costas do patrão Vasques, personagem de Fernando Pessoa”.

 E cita a passagem do livro do desassossego, texto 91:
” Lembro-me já do patrão Vasques no futuro com a saudade que sei que hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não a ter feito, desculpas diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim”.
Não me parece que a interpretação esteja certa. Fernando Pessoa não estava a desmerecer no manga de alpaca que era o patrão Vasques, antes se lhe refere de todas as vezes com consideração e respeito por quem trabalha. Que não é uma espécie diabólica.

Veja-se a continuação do texto 91 do livro do desassossego:
“…Ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado com a ralé dos que se julgaram génios e não foram mais do que mendigos com sonhos, junto com a massa anónima dos que não tiveram poder para vencer nem renuncia larga para vencer do avesso. Seja  onde estiver, recordarei com saudade o patrão Vasques, o escritório da rua dos Douradores, e a monotonia da vida quotidiana será para mim como a recordação dos amores que me não foram advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus”.

- excertos do texto 81: “…o patrão Vasques, o guarda livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre queleva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo – tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar…” “ Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar – ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e se temos por sentimento que o dar, tanto dá dá-lo ao pequeno aspeto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas”.

- excerto  do texto 113: “…fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. Gozei o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspetos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica..o comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.”

- excertos do texto 114: “…tive grandes ambições e sonhos dilatados – mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir connosco…””…bem sei que há ilhas ao sul e grandes paixões cosmopolitas…”

Poderemos dizer que Fernando Pessoa, aliás era ele que o dizia, atravessava um período de depressão quando escreveu isto, mas daí a considerar os “mangas de alpaca”, cuja pele vestia, como uma espécie incapaz e diabólica, parece-me desajustado e fora do contexto cronológico. 
A menos que se dê mais importância à descrença em si próprio ou a consciência de que se atingiu o limite que Bernardo Soares descreve, do que à lucidez da interpretação da dualidade da realidade  por Fernando Pessoa.
                                                CONCLUSÃO

Torpor permanente? 
O diretor do dinheiro vivo não terá interpretado bem a definição de incompletude dos desígnios que é uma das ideias força de Fernando Pessoa. 
E que qualquer simples mortal experimenta sempre que anseia por mais do que o que pode. 
E em que todo um povo pode cair (ou pelo menos uma parte dolorosamente significativa), sofrendo a acusação de viver acima das possibilidades, quando na verdade por múltiplas e complexas razões vive muito abaixo das suas capacidades.

Veja-se este excerto do texto 36 do livro do desassossego:
“…que os deuses todos me conservem o instinto da minha inimportancia, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz”.
e este, de um dos poemas em língua inglesa (II) de Fernando Pessoa, “ever the sea”:
“…Tomorrow will tire us of all! But we lack heart to be tired indeed
The purpose our souls came for is lost and never stared at...
Let us at least by the shore construe our aches for a deed
Into a meaningless ache and a desolate and purposeless greed...
Become we one with the sea's lost purpose and dream and wish nothing but that …”     

(“… amanhã cansar-nos-emos de tudo! mas falta-nos a coragem para ficarmos 
                                                                                  verdadeiramente cansados
o propósito que nos guiou até aqui perdeu-se e nunca mais o veremos…
deixem-nos ao menos à beira mar transformar a  angustia de querer agir
numa dor sem sentido e numa ansia desolada e sem objetivo…
Tornemo-nos no desejo perdido do mar e não sonhemos nem desejemos mais nada  
                                                                                                             senão isso…”)

   

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