quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Email a um concidadão preocupado com o drama dos estaleiros e com os marxistas que empobrecem os trabalhadores

O NRP Figueira da Foz a sair a barra de Viana do Castelo. O "saber como" desenvolvido para os patrulheiros, de que só dois dos oito encomendados originalmente foram construidos, vai perder-se em grande parte; era uma mais valia de engenharia, intangível, mas suscetível de gerar valor acrescentado; é sacrificada em nome dos critérios de mercado e da cartilha das privatizações; um pais em que a engenharia é sacrificada é um país de autonomia limitada; ficam as palavras do comandante do navio: "orgulho-me de comandar um grande navio e uma grande guarnição" 


Caro concidadão

Relativamente ao seu texto publicado no DN em 23 de dezembro, gostaria de lhe apresentar outro ponto de vista sobre os estaleiros de Viana do Castelo, para o que sugiro as seguintes ligações, sobre o Atlântida e sobre os estaleiros:

Basicamente, no caso do Atlântida temos uma empresa do governo regional dos Açores que apresenta aos estaleiros um projeto para executar que adquirira a uma empresa russa e que revelou insuficiências, algumas das quais da responsabilidade da empresa do governo regional mas decisivas para limitar a velocidade do navio.
Quanto ao estado de falência, é conhecida a ofensiva dos estaleiros sul-coreanos no fim do século passado, inundando o planeta com navios mais baratos e de projeto simplificado e mais sujeito a acidentes (ver o caso do Exxon Valdez e do Prestige no caso de petroleiros e do Costa Concórdia em que um rombo com 10% do comprimento do navio o inutilizou). Estaleiros fecharam e os preços subiram dificultando a renovação das frotas.
Entretanto o normativo internacional tornou-se mais exigente, como a obrigação de casco duplo para petroleiros.
Os custos de produção elevados no caso dos estaleiros de Viana foram tmbém provocados pela dimensão das pequenas séries e pela necessidade de desenvolver tecnologia nacional de comunicações aliás de elevado mérito).
De realçar ainda, no caso da má gestão dos estaleiros de Viana do Castelo, que nem sempre a responsabilidade por essa má gestão coube aos gestores. Veio agora a saber-se que a construção do NRP Figueira da Foz esteve parada mais de um ano não por culpa da CGTP nem dos gestores, mas porque o governo não quis inscrever verbas para aquisição de equipamentos para essa construção no orçamento de Estado para 2012 (isto é, há 2 anos). Isto para não falar na anulação “purista” do primeiro concurso para equipamentos para os asfalteiros, e na omissão escandalosa de contrapartidas no caso dos submarinos. Assim, com ordens de cima para estar parado, é difícil a um estaleiro não falir.  
Destaco ainda a recusa sistemática dos governos portugueses, com argumentos jurídicos também “puristas”,  em estabelecer parcerias com estaleiros estrangeiros ou com outros governos, possíveis nalgumas fases do processo com empresas holandesa  (Daiman) e norueguesa.
 E ainda a questão também jurídica dos 180 milhões de euros a devolver a Bruxelas. Com o devido respeito pelo parecer dos juízes da comissão europeia, o princípio da soberania sobrepõe-se ao da concorrência. Qualquer país tem o direito de ter um estaleiro a fabricar material de guerra, como era o caso. E se os juízes acham que o estaleiro tem baixa produtividade (pelos motivos já expostos) talvez recordar-lhes que as costas de Portugal integram as costas da união europeia, a menos que os ditos juízes prefiram que as águas da zona económica sejam patrulhadas por navios de guerra de outras nacionalidades.
Enfim, faço votos que a concessionária dos estaleiros, uma empresa com 380 milhões de euros de passivo, superior em 80 milhões ao passivo dos estaleiros, consiga levar o seu negócio para a frente, embora me pareça que ele vá centrar-se (aliás com mérito), no fabrico de eólicas. Pode ser que os seus gestores façam o que referi acima, parcerias com estaleiros estrangeiros, e que se obtenha valor acrescentado e emprego.
Uma última referencia ao seu texto.
Como marxista que sou (tal como sou adepto das equações de Newton da mecânica clássica, sem prejuízo de acreditar nas equações relativistas de Einstein; há domínios em que se aplicam os critérios de Marx, e há outros domínios em que se aplicam os critérios de economistas mais modernos) ,  posso garantir-lhe que há marxistas a quem não interessa mesmo nada o descontentamento e o empobrecimento dos trabalhadores.
São aliás conhecidos os textos de Marx propondo a colocação dos benefícios devidos ao aumento da produtividade resultante do progresso das tecnologias ao serviço do bem estar dos trabalhadores.
Se economistas de outras escolas e o poder político e financeiro se encarregam de orientar as coisas no sentido contrário, parecerá que a culpa não é de Marx, que aliás deixou escrito críticas às experiencias que no seu tempo foram feitas em nome do marxismo.
E não esqueçamos a politica da nova economia de Lenine, que foi tudo menos destruir o que existia, antes aumentar a produção e não destrui-la.
Infelizmente, a experiencia soviética correu  mal.
Infelizmente também, na nossa atualidade, a política da terra queimada e da destruição dita “criativa”, amesquinhando e desmerecendo no trabalho que os velhos como eu foram desenvolvendo ao longo da sua vida ativa em empresas públicas, é que me parece, pelo contrário, estar a ser desenvolvida pelos decisores que nada têm de marxistas.
Sinceramente, não creio que o objetivo do marxismo seja a destruição da cultura e da civilização ocidental (nem de qualquer cultura ou civilização que respeite a declaração universal dos direitos humanos). Nos tempos que correm, acho que devem conviver modos de pensar diferentes. Mas que esses modos de pensar diferentes devem respeitar  a referida declaração, isso acho que sim, que devem.

Os meus melhores cumprimentos




  


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